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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O enigma Marina Silva


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Qual será o rumo do mais novo partido político do país? Esta é incógnita que ronda a Rede Sustentabilidade, da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva.
A Rede se lança com a proposta utópica de fazer uma "nova política", a começar pelo próprio nome da legenda, sem a palavra "partido".
O objetivo é claro: dissociar-se da imagem corrupta arraigada nos partidos tradicionais.
Mas será realmente possível governar um país com 34 partidos, sem pragmatismo, sem troca de favores, distribuição de cargos e outras práticas até condenáveis, porém vitais para a governabilidade?
Seus eleitores querem acreditar que sim e Marina encarna essa esperança. Mas há também aqueles que veem nela uma aventureira, não muito diferente do ex-presidente Fernando Collor de Melo.
Se não embarcar no golpismo barato e for responsável na oposição já será um bom começo.
Abaixo segue análise publicada hoje no jornal El País.
O Enigma da esfinge Marina Silva
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por Juan Arias, no El País
A ambientalista Marina Silva, que segundo ela mesma “ganhou perdendo” nas últimas eleições presidenciais enquanto sua adversária, a presidenta Dilma Rousseff, “perdeu ganhando”, poderia ressuscitar, amparada por seu partido, a Rede Sustentabilidade, que acaba de ser legalizado. Continuará sendo o enigma da eterna esfinge?
Marina poderá gostar ou não, mas é difícil, em vista da crise que vive o país, não reconhecer que tinha previsto alguns dos problemas que se agigantaram agora. Como a crise política, produzida em parte pelas velhas práticas do chamado “fisiologismo”, que antecipou na última campanha eleitoral. Tinha razão ao dizer que a sociedade aceita cada vez menos a “velha política”, na qual vê a matriz dos escândalos de corrupção.
A vocação de defesa da natureza e do meio ambiente, que ela encarna, e que foi reconhecida internacionalmente, também se tornou cada vez mais crucial para salvar o planeta, o que levou o papa Francisco a dedicar ao tema sua primeira encíclica Laudato Si e a insistir nisso em sua viagem aos Estados Unidos.
A aposta de Marina Silva em uma forma diferente de governar, tenha ela ou não a força para impô-la, continua tendo apelo nas ruas. A ambientalista mantém ainda, apesar de seu silêncio e até a quarta-feira sem um partido legalizado, um capital de mais de 30 milhões de votos, segundo as últimas pesquisas, superando uma possível candidatura de Lula.
Nas batalhas presidenciais anteriores, a voz de Marina já indicava uma terceira via, com sua defesa de um modo novo de governar, convencida que a política tradicional formada por partidos sem ideologia nem programas, que se vendem em troca de cargos e privilégios, está esgotada.
Desta vez, depois do terremoto do escândalo de corrupção da Lava Jato, as ideias de Marina se revelam duplamente alternativas à dos partidos tradicionais.
Marina foi duramente criticada nas últimas eleições por sua então adversária política, a candidata Dilma Rousseff, por afirmar que desejava governar com os “melhores”, os não corruptos. E é a presidenta que se vê hoje em dificuldade para nomear seus novos ministros por não saber se estarão ou não envolvidos em algum escândalo de corrupção. Também Dilma agora procura desesperadamente os melhores. Vai com a lanterna do Diógenes em busca de políticos limpos.
O que a ambientalista Marina sempre defendeu é que pode haver outras formas de governar, o que coincide com o que sente e parece desejar a sociedade que defende uma forma diferente e menos corrupta de dirigir os destinos do país e com uma maior participação ativa da sociedade.
Há quem tema que, se Dilma fosse derrubada, poderia aparecer algum aventureiro como aconteceu com Fernando Collor de Mello. Pode-se considerar uma possível candidatura de Marina Silva, com o apoio de seu pequeno e incipiente partido, uma aventura para o futuro do Brasil ou uma esperança de algo diferente?
Haverá ainda hoje, depois da inquietação que está vivendo o segundo mandato Dilma, quem se atreva a acusar Marina de querer arrancar a comida do prato dos pobres?
Durante a última campanha, ela cunhou uma frase que agora soa profética: “Pode-se perder ganhando e ganhar perdendo”. Hoje, em vista da crise que vive o Brasil, depois das eleições que deram a vitória ao gigante Golias contra o pequeno Davi, contradizendo o relato bíblico, seria possível dizer que não lhe faltava razão.
Ela perdeu ganhando, porque foi reconhecida a injustiça a que foi submetida pelo tanque eleitoral, e Dilma, que ganhou nas urnas, hoje sofre na carne os resultados de uma vitória que se converteu em derrota.
A ambientalista poderia ser mais que uma voz no deserto, como muitos a acusam. Hoje é necessário colocar o trem descarrilado da economia e da decência política no binário de uma nova era de esperança que volte a unir os sofridos eleitores brasileiros.
O país não precisa de mais rasteiras políticas, nem mais enfrentamento e violência. Precisa recuperar sua vocação de país que ainda acredita que se pode ser feliz sem necessidade de roubar para ser milionário.
Marina Silva, de novo ressuscitada, aparece como uma mistura de utopia e realismo, de profetismo e pragmatismo, capaz de abrir um debate sobre o que os brasileiros desejam e esperam dos políticos, no momento em que sua estima pela velha política nunca foi tão colocada em discussão e contestada com tanta violência.
A ambientalista, talvez tão temida quanto amada, volta a ser, pois, uma incógnita.
Quando o ex-presidente Lula escolheu seu sucessor, pensou em Dilma e Marina, duas ex-ministras. Ambas mulheres de caráter. Lula conhecia melhor Marina, com quem tinha convivido 25 anos no mesmo partido e com uma biografia parecida com a sua. Ele a apreciava ao mesmo tempo que a temia.
Talvez hoje, quando o ex-presidente confessa que o PT deveria ser refundado para voltar a suas origens, arrependa-se de não tê-la escolhido naquela altura. Marina Silva é hoje um espinho para ele e seu partido, e Dilma Rousseff, sua grande dor de cabeça.
O futuro está por escrever.
Por Carlos Eduardo, editor assistente do Cafezinho
vi no: http://www.ocafezinho.com/2015/09/25/o-enigma-marina-silva/

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Marina é só mais uma reprodução do sistema


por Moriti Neto*

Em agosto de 2009, Marina Silva, recém-saída do PT, e um grupo de apoiadores, embarcavam no PV e já diziam: “Chegou a hora de acreditar que vale a pena, juntos, criarmos um grande movimento para que o Brasil vá além e coloque em prática tudo aquilo que a sociedade aprendeu nas últimas décadas, experimentando a convivência na diversidade, a invenção de novas maneiras de resolver problemas solidariamente... Agindo em rede, expandindo e agregando conhecimento sobre novas formas de fazer, produzir, gerar riquezas, sem privilégios e sem destruição do incomparável patrimônio natural brasileiro”. E isso não era de boca, mas parte do documento “Juntos pelo Brasil que queremos – diretrizes para o programa de governo”, que expressava a motivação ao ingressar no partido e que a colocava declaradamente na disputa à Presidência da República nas eleições de 2010.

O projeto, no entanto, teve curta duração. Era 7 de julho de 2011 quando Marina anunciava a desfiliação do PV, onde obteve quase 20 milhões de votos na eleição presidencial. De saída, ela e os apoiadores que a acompanhavam na decisão ressaltavam que a direção do partido “disse não à democratização de suas estruturas institucionais, ao diálogo com a sociedade e a um projeto autônomo de construção partidária”. Na época, se tivesse sido eleita presidente, teria completado apenas pouco mais de um semestre de mandato a bordo da sigla verde.

Lembro que, naquele momento, vieram diversos questionamentos: se Marina tivesse vencido a eleição, sairia do PV? Se sim, governaria como? Abdicaria de filiações partidárias? Como costuraria a base no Congresso Nacional? A ex-senadora se considerava mesmo a figura messiânica, salvadora, que os críticos da personalidade dela apontavam? Se não saísse, ignoraria a descoberta da incompatibilidade declarada com os pevistas e seguiria o governo sem abrir o debate?

O fato é que Marina Silva, sem conseguir ocupar espaços no PV, pedia desfiliação e acusava o partido de não ser o local adequado para as bandeiras que portava. Ancorada na boa capacidade discursiva que possui, ela buscava sustentar a posição, mas não deixava claro como só descobriu, de uma hora para outra, que a mesma agremiação avaliada como ideal para praticar propostas baseadas na “coerência programática” – por ela tão decantada – era, então, imprópria.

E foi na "fundação” do Rede Sustentabilidade, no dia 16 de fevereiro de 2013, num encontro batizado de “Encontro Nacional da Rede Pró Partido”, em Brasília, que aparecia a alternativa de Marina às eleições de 2014. Era na “Rede Pró Partido, mas que não é partido”, que ela, a "diferente", buscava encaixar o discurso da realização da “nova política”.

Em declarações perigosamente despolitizantes e até antipartido, a potencial candidata tentava se autocolocar como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”. Ao mesmo tempo em que falava de diálogo horizontal com a sociedade, aparecia como a “salvação”. Posturas perigosas à democracia, o que, aliás, eu já observei em texto anterior.

Enfim, eis que Marina Silva, com a recusa da Justiça em legalizar o Rede, vai ao PSB de Eduardo Campos. É a mesma toada. Na campanha, o discurso que clama por um “sistema ideológico” e luta contra o pragmatismo, colocando a candidata como a mais alta defensora do interesse público e das “questões maiores”, a exemplo da rápida passagem pelo PV, quando era o “fator diferente” da corrida presidencial e possibilidade de acabar com o “mais do mesmo” (que realmente é mais do mesmo) do “Fla x Flu” entre PT e PSDB.

Só que, na prática, o que se constata é a ida a um partido de perfil governista-pragmático (o PSB é, ainda, base do Governo Federal e governa com petistas e tucanos em vários estados), entregue a caciques da direita conservadora Brasil afora e que, em momentos decisivos, vacilou no debate de itens fundamentais ao meio ambiente, caso do Código Florestal, tema central na vida política de Marina.

Rumo ao PSB, lá vai a ex-ministra do Meio Ambiente se enfileirar a Bornhausens, Caiado e companhia. Novidade? Não. Somente mais uma reprodução comum do nosso horrível sistema de democracia representativa, onde estão sempre dadas as oportunidades ao desequilíbrio na representatividade da sociedade e à hipocrisia, como a de Marina que, de diferente, não tem nada. 

* * * * * * *

Moriti Neto, jornalista, repórter e editor-assistente do NR. (Imagem: www.minhamarina.org.br)

http://www.notaderodape.com.br/2013/10/marina-e-so-mais-uma-reproducao-do.html

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Cartório, auto-complacência...e sincericídio



Alfredo Sirkis, Blog do Sirkis

 “O Brasil da secular burocracia pombalina, do corporativismo estreito e da hipocrisia politico cartorial falou pela voz da maioria esmagadora do tribunal.  A voz solitária de Gilmar Mendes botou o dedo na ferida na forma do juz esperneandi. O direito de, literalmente,  espernear.

 Para mim não foi surpresa alguma, nunca foi uma questão de fé --Deus não joga nesta liga--  mas de lucidez e conhecimento baseado na experiência pregressa. Eu tinha certeza absoluta que se não tivéssemos uma a uma as assinaturas certificadas, carimbadas, validadas pela repartição cartórios de zonas eleitorais íamos levar bomba.

 A ministra relatoria fez uma defesa quase sindicalistas de seus cartórios de sua “lisura” . Gilmar Mendes mostrou claramente o anacronismo deles na era digital. Prevaleceu a suposta  “dura lex sed lex” mas que pode também ser traduzido, no caso, pelo mote: “aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei”.  E o PT já tinha avisado que “abateria o avião de Marina na pista de decolagem”.

 Mas não ter entendido que o jogo seria assim e ter se precavido a tempo e horas foi uma das muitas auto complacências resultantes de uma mística de auto ilusão.

 Para ser direto em bom carioquês: “demos mole”.

 Marina é uma extraordinária líder popular, profundamente dedicada a uma causa da qual compartilhamos e certamente a pessoa no país que melhor projeta o discurso da sustentabilidade, da ética e da justiça socioambiental. Possui, no entanto, limitações, como todos nós. As vezes falha com operadora política comete equívocos de avaliação estratégica e tática, cultiva um processo decisório ad hoc e caótico e acaba só conseguindo trabalhar direito com seus incondicionais. Reage mal a críticas e opiniões fortes discordantes e não estabelece alianças estratégicas com seus pares.  Tem certas características dos  lideres populistas embora deles se distinga por uma generosidade e uma pureza d’alma que em geral eles não têm.

 Não tenho mais idade nem paciência para fazer parte de séquitos incondicionais e discordei bastante de diversos movimentos que foram operados desde 2010. A saída do PV foi precipitada por uma tragédia de erros de parte a parte. Agora, ironicamente, ficamos a mercê de algum outro partido, possivelmente ainda pior do que o PV.

 Quanto à Rede, precisa ser vista de forma lúcida. Sua extrema diversidade ideológica faz dela um difícil partido para um dia governar. Funcionaria melhor como rede propriamente dita –o Brasil precisa de uma rede para a sustentabilidade, de fato--  mas, nesse particular,  querer se partido atrapalha.

 Ficarei com Marina como candidata presidencial porque ela é a nossa voz para milhões de brasileiros mas não esperem de mim a renúncia à lucidez  e uma adesão mística incondicional, acrítica. 

Minha tendência ao  “sincericidio”  é compulsiva e patológica. Nesse sentido não sou um “bom politico”. Desculpem o mau jeito. Hoje tenho oito horas para enfrentar um leque de decisões, todas ruins em relação ao que fazer com uma trajetória limpa de 43 anos de vida política.  Mas vou fazê-lo sem angústia de coração leve e mente aberta.”