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quarta-feira, 8 de março de 2017

Cuidado, tem prefeito que se esforça pra parecer com Doria


dodoria
Doria Gray e as leis do poder
Como compreender o novo prefeito de São Paulo a partir do seu livro de cabeceira
ELIANE BRUM
Faça os outros trabalharem por você, mas sempre fique com o crédito. Use a sabedoria, o conhecimento e o esforço físico dos outros em causa própria. Não só essa ajuda lhe economizará um tempo e uma energia valiosos, como lhe dará uma aura divina de eficiência e rapidez. No final, seus ajudantes serão esquecidos e você será lembrado. Não faça você mesmo o que os outros podem fazer por você.
Esta é a Lei 7 de um livro que se tornou obrigatório para compreender o novo prefeito de São Paulo, João Doria(PSDB). Há mais 47 mandamentos desta estirpe. A leitura pode ajudar seus eleitores a entender o homem a quem deram o poder de comandar a maior cidade do Brasil e a população a compreender esse tipo ascendente de político – e ascendente não só no Brasil, mas no mundo, como a vitória de Donald Trump demonstrou – que se anuncia como não político.
Em seu discurso de posse, em 1 de janeiro, Doria dirigiu-se a seu padrinho, Geraldo Alckmin (PSDB), e citou a lei 28: “E finalizo, governador, citando uma frase de Robert Greene, que escreveu, o senhor que gosta de boas citações, As 48 Leis do Poder. Disse Green: ‘Sejamos ousados, qualquer erro cometido com ousadia é facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram os corajosos. Ninguém louva os covardes’”.
É comum políticos citarem frases e autores ao tomar posse de seus cargos públicos. Sempre dá “um lustro”. Mas como escolher, entre toda a literatura mundial de ficção e não ficção, o conhecimento impresso através dos séculos, qual é o livro e o autor que merecem ser eleitos tanto para representar a apoteose pessoal de cada um como para ilustrar o momento histórico diante das câmeras?
É preciso admirar muito autor e livro, tanto por acreditar que citá-los vai agregar valor a si mesmo como porque estará se juntando a eles em discurso que, bom ou ruim, é de imediato registrado na história. Assim, a maioria prefere optar por obras e autores já consagrados pela fortuna crítica, podendo citar um filósofo como Sêneca ou um escritor como Guimarães Rosa. Mas como Doria, “o ousado”, ousa, “porque todos admiram os corajosos”, arriscou-se a Robert Greene.
É mais do que significativa a escolha de Doria, que pelo seu comportamento parece acreditar ser uma versão atual de “Príncipe”, de citar um autor que já foi chamado de “o novo Maquiavel”, assim como um best-seller internacional. E também é significativo que o faça olhando para seu padrinho, o governador Geraldo Alckmin que, como diz o afilhado, “gosta de boas citações”.
Vejamos as “boas citações” do livro indicado pelo novo prefeito de São Paulo. A Lei 12, por exemplo: “Um gesto sincero e honesto encobrirá dezenas de outros desonestos. Até as pessoas mais desconfiadas baixam a guarda diante de atitudes francas e generosas. (…) Uma vez que a sua honestidade seletiva as desarma, você pode enganá-las e manipulá-las à vontade”.
Ou a Lei 27: “Jogue com a necessidade que as pessoas têm de acreditar em alguma coisa para criar um séquito de devotos. As pessoas têm um desejo enorme de acreditar em alguma coisa. Torne-se o foco desse desejo oferecendo a elas uma causa, uma nova fé para seguir. Use palavras vazias de sentido, mas cheias de promessas (…) Dê aos seus novos discípulos rituais a serem cumpridos, peça-lhes que se sacrifiquem por você”.
Ou ainda a Lei 17: “Mantenha os outros em um estado latente de terror. Cultive uma atmosfera de imprevisibilidade. Os homens são criaturas de hábitos, com uma necessidade insaciável de ver familiaridade nos atos alheios. A sua previsibilidade lhes dá um senso de controle. Vire a mesa: seja deliberadamente imprevisível. O comportamento que parece incoerente ou absurdo os manterá desorientados, e eles vão ficar exaustos tentando explicar seus movimentos. Levada ao extremo, esta estratégia pode intimidar e aterrorizar”.
Ninguém pense que Robert Greene e suas 48 leis dos poder são apenas uma reciclagem mal ajambrada de clássicos do ramo, como o O Príncipe, de Nicolau Maquiavel (1649-1527), ou A Arte da Guerra, de Sun Tzu (séc IV a.C). O livro, lançado em 1998, é a realização de tudo o que prega. A edição é vistosa – no Brasil, ele saiu pela Rocco, com a palavra “Poder” escrita em dourado na capa. E permite várias entradas para a leitura.
Os textos são curtos, a estrutura é clara, o alinhamento é arejado e o uso de duas cores destaca a organização.
Cada capítulo apresenta o enunciado da lei, seguido pelo resumo da lei, sob o título “julgamento”. E então “a lei observada” e/ou “a lei transgredida”, com histórias saborosas de personagens históricos tão díspares quanto Galileu e Mata Hari – e a sua interpretação. Não é necessário preocupar-se com reflexões próprias: as laterais, onde muita gente costuma fazer anotações a lápis no caso de livros impressos, já estão ocupadas com provérbios e citações sobre o tema.
Em seguida, vêm “as chaves do poder”, uma análise da lei e sua potência. Por fim, “o inverso”, um curto tópico que protege o autor de qualquer problema que o leitor possa vir a ter ao seguir aquele mandamento. Afinal, pode haver momentos em que a melhor escolha é fazer exatamente o contrário.
A Lei 6, por exemplo, determina: “Chame atenção a qualquer preço. Julga-se tudo pelas aparências; o que não se vê não conta. Não fique perdido no meio da multidão, portanto, ou mergulhado no esquecimento. Destaque-se. Fique visível a qualquer preço”.
Inspirado por ela, seria possível criar uma parábola num país de ficção: “O mandatário de uma cidade bem grande quer ser visto todo dia e o dia inteiro, porque planeja alcançar cargos ainda mais elevados, à altura do Príncipe que acredita ser, e ocupar palácios ainda mais grandiosos. Como já seguiu a Lei 29, que manda planejar cada passo e antecipar todos os reveses e obstáculos para que outros não fiquem com os louros no seu lugar, este mandatário sabe que ficar labutando entre quatro paredes não rende nenhuma imagem. Sem contar as instalações francamente aquém de sua pessoa em comparação com seu próprio castelo, um dos dez maiores da cidade tão desigual, que já conseguiu erguer seguindo com prodigioso afinco todas as 48 leis.
Assim, este mandatário convoca os narradores e promove pelo menos um espetáculo por dia, quando não por hora. Como ele já convive com os ricos e os poderosos, os barões e os bispos, com a desenvoltura de um peixe dourado num aquário de cristal blindado, ele aposta em aparecer ao lado dos ‘humildes’ e dos ‘simples’, porque é desta massa pobre e cinzenta que vem a vitória nas urnas.
Algo rápido, como postar-se junto a trabalhadores que ganham salário de fome para trilhar quilômetros diários limpando o lixo das ruas da vasta cidade. E então, duas vassouradas e 10 segundos que depois se transformam em horas e horas de repetições nas telas de todos os tamanhos. Algo capaz de garantir uma imagem-símbolo, mas sem contaminá-lo, afinal a Lei 10 alerta: ‘A miséria alheia pode matar você (…) Associe-se aos felizes e afortunados’. Este mandatário cerca-se ainda de alguns expoentes de outros reinos porque, enquanto não puder esmagá-los, eles não só lhe agregam valor como são neutralizados. Em especial se forem inimigos, já que a Lei 2 é taxativa: ‘Não confie demais nos amigos, aprenda a usar os inimigos”. Sem contar a imagem de conciliador que vai consolidando em sua escalada do poder’.
Esta parábola poderia integrar uma nova edição de As 48 Leis do Poder. Cada mandamento do livro é ilustrado com curtos episódios históricos, como nos antigos almanaques, e até mesmo com fábulas como as de Esopo e provérbios sufis. Parece haver sempre um provérbio sufi neste tipo de livro, aliás. O escritor best-seller convoca pensadores de todas as épocas históricas para trabalhar para ele e deixá-lo rico.
Robert Greene conhece profundamente o seu público. Há personagens famosos, que frequentam o imaginário coletivo. Estes servem para que o leitor não se sinta burro. Ao deparar-se com um nome que conhece, o leitor já entra na obra sentindo-se um iniciado. E, portanto, com muito mais boa vontade. Ao mesmo tempo, qualquer prurido que possa ter diante da podridão exalada pelo mandamento é anulado pela relação manipulada com grandes nomes da história. Logo, o seguidor passa a acreditar que ele e Napoleão são almas gêmeas separadas apenas por oceanos de tempo.
Mas Greene tem o cuidado de selecionar também episódios mais obscuros, assim como autores menos conhecidos do grande público. Afinal, ele precisa mostrar que trabalhou um pouco e que se difere dos numerosos concorrentes no gênero autoajuda para déspotas. E seu leitor precisa sentir que está aprendendo algo. Desta maneira, ao encontrar um nome como Baltasar Gracián (1601-1658), os seguidores de seus mandamentos têm a impressão de que estão ganhando uma certa erudição. Tudo isso com textos curtos, que não exigem esforço e podem ser lidos salteados.
O livro citado pelo prefeito de uma das maiores cidades do mundo já foi definido como a “Bíblia dos Psicopatas”. Mas, quando lhe acusam de estar promovendo o pior, Robert Greene se limita a dizer: “Eu não sou mau, sou apenas realista”. Logo, quem o critica é um tolo, porque não percebe o mundo real – ou um dissimulado, porque finge não percebê-lo. Ser escroto, neste caso, é convertido num ato de honestidade. Ainda que as pessoas não precisem ficar sabendo, como alerta a Lei 3: “Envolva-as em bastante fumaça e, quando elas perceberem as suas intenções, será tarde demais”.
Logo no prefácio, o grande compilador já se antecipa e procura bloquear qualquer ataque que possa receber. Investe vários parágrafos para reduzir todas as pessoas que possam considerar as 48 leis um exemplo de cinismo e corrosão ética a manipuladores piores e ainda mais furtivos. Robert Greene explica ao leitor que hoje o mundo se assemelha muito à antiga corte aristocrática: “Tudo deve parecer civilizado, decente, democrático e justo. Mas, se obedecermos com muita rigidez a estas regras, (…) somos esmagados pelos que estão ao nosso redor e não são assim tão tolos”.
E, em seguida: “Por fora você deve aparentar que é uma pessoa de escrúpulos, mas, por dentro, a não ser que você seja um tolo, vai aprender logo a fazer o que Napoleão aconselhava: calçar a sua mão de ferro com uma luva de veludo”. E ainda: “A fraude e o disfarce não devem ser vistos como feios e imorais. Todas as interações humanas exigem que se trapaceie em muitos níveis”. E segue: “Treinando para ser dissimulado, você prospera na corte moderna, aparentando ser um modelo de decência enquanto está sendo um consumado manipulador”.
Numa entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada em 2012, Greene alegou que a maioria dos e-mails que recebe são de jovens dizendo que usam seu livro para entender como pessoas manipuladoras agem e aprender a se proteger delas. Mas ele também admite que o livro ajuda alguns canalhas a mergulhar no território da sociopatia, o que faria com que ele se sentisse mal. Mais importante do que saber se Greene convenientemente se protege na dubiedade, seguindo as leis do seu livro, enquanto segue ganhando dinheiro com suas cartilhas sobre como esmagar pessoas e alcançar o poder, é saber o que se passa no nosso vasto quintal.
Ao evocar o livro em sua posse, o que o prefeito de São Paulo diz? E para quem?
Doria galgou uma longa escadaria esforçando-se para ser “o cortesão perfeito” dos eventos que promovia reunindo os ricos e os poderosos do país. Lembra o cortesão da corte contemporânea da Lei 24: “O cortesão perfeito prospera num mundo onde tudo gira em torno do poder e da habilidade política. Ele domina a arte da dissimulação; ele adula, cede aos superiores, e assegura o seu poder sobre os outros da forma mais gentil e dissimulada. Aprenda e aplique as leis da corte e não haverá limites para a sua escalada na corte”.
Quando Doria empunhou a vassoura para produzir uma imagem-símbolo em sua primeira segunda-feira no comando de São Paulo foi comparado a Jânio Quadros, o prefeito do “varre, varre vassourinha, varre, varre a bandalheira”, entre outras pirotecnias. Mas este não é o populismo do século 20. O que se assiste hoje é muito, mas muito pior. É a política reduzida ao entretenimento. Cabe à população ocupar o lugar não de cidadãos, mas de plateia. De claque de auditório. Por isso o verbo “assistir” é tão exato. A passividade é rompida apenas para ser reforçada, ao apertar o botão de “curtir”.
Sobre vassouras e mãos limpas, a propósito, há um mandamento específico. É a Lei 26: “Você deve parecer um modelo de civilidade e eficiência. Suas mãos não se sujam com erros e atos desagradáveis. Mantenha essa aparência impecável fazendo os outros de joguete e bode expiatório para disfarçar a sua participação”.
Na sexta-feira (6/1), duas figuras que costumam ser relacionadas aos direitos humanos, o Padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, e o vereador Eduardo Suplicy (PT), foram reduzidas a jurados de programa de auditório. O show era de Doria, que convocou a imprensa para anunciar que havia conseguido emprego para uma única pessoa: o irmão do ambulante espancado e morto no metrô de São Paulo no Natal.
Para quem consegue se distanciar do palco e lembrar a tragédia real, tanto a da família do homem assassinado quanto a da corrupção do espaço público em prol do espetáculo, as imagens produzidas são um show de horrores. Mas a Lei 25 é cristalina: “Seja senhor da sua própria imagem, em vez de deixar que os outros a definam para você. Incorpore artifícios dramáticos aos gestos e ações públicas – seu poder se fortalecerá e sua personagem parecerá maior do que a realidade”.
Pode ser complementada ainda pela Lei 37: “Imagens surpreendentes e grandes gestos simbólicos criam uma aura de poder – todos reagem a eles. Encene espetáculos para os que o cercam, repletos de elementos visuais interessantes e símbolos radiantes que realcem a sua presença. Deslumbrados com as aparências, ninguém notará o que você realmente está fazendo”.
Ao testemunhar Doria arregimentando para seus espetáculos figuras públicas que até pouco tempo o criticavam, quando não empregando-as, é inevitável lembrar a Lei 5: “(…) Aprenda a destruir seus inimigos minando as suas próprias reputações. Depois, afaste-se e deixe a opinião pública acabar com eles”. Há ainda a 21: “Faça-se de otário para pegar os otários”.
Se Geraldo Alckmin acolher a indicação literária do afilhado, poderá descobrir-se identificado com uma vaca. Diz a Lei 23: “Ao procurar fontes de poder para promovê-lo, descubra um patrono-chave, a vaca cheia de leite que o alimentará durante muito tempo”. Em caso de dúvida, a número 1 é também bastante esclarecedora: “Não ofusque o brilho do mestre. (…) Faça com que seus mestres pareçam mais brilhantes do que são na realidade e você alcançará o ápice do poder”. Isso, como o autor alerta, apenas até o Mestre tornar-se uma “estrela cadente”. Neste caso, ele aconselha: “Não tenha misericórdia”. Mas, enquanto isso não acontece, “a melhor maneira de se proteger é ser tão fluido e amorfo como a água”.
Ao encarar o retrato de Doria Gray em todas as telas, com seu sorriso de dentes tão brancos, é inevitável pensar se há um outro escondido em algum lugar, respirando no escuro.
Do: http://blogdalucianaoliveira.com.br/blog/2017/01/09/cuidado-tem-prefeito-que-se-esforca-pra-parecer-com-doria/

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O PT ENVELHECE

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Outro dia, um internauta, possivelmente petista (o que não lhe dá mais ou menos crédito), criticou minhas postagens por serem muito negativas em relação ao PT. Talvez, o internauta não tenha lido minhas notas sobre os outros partidos políticos brasileiros. A questão de fundo é que tenho dúvidas se os partidos políticos – surgidos originalmente no século XVIII – mantêm o poder de representação político-social numa sociedade gelatinosa, móvel, provisória como a atual. As “estruturas totais” do mundo moderno, avalio, desmancham no ar.
Mas, minha breve análise neste texto será sobre o PT.
O que ocorre com o PT, em primeiro lugar, é desgaste de material.
Comecemos pela superfície: os filiados são cada vez mais velhos. Segundo dados da Justiça Eleitoral, desde 2011, a proporção de jovens entre 16 e 34 anos filiados ao PT caiu de 25,7% para 19,2%. Segundo a Folha de S. Paulo, foi a maior redução entre os cinco maiores partidos brasileiros (PT, PMDB, PP, PSDB e PDT).  Embora seja um fenômeno generalizado – a redução de jovens filiados atingiu todos os partidos – vale registrar que o PT deixou de ser atrativo como instrumento de inovação.
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Na outra ponta, o PSOL parece herdar este poder de atração de jovens: 40,3% de seus filiados estão na faixa etária indicada acima.
Destaco, aqui, três hipóteses explicativas.
A primeira: tantos anos de governo inocularam um espírito conservador no partido que almeja ser dos trabalhadores. Conservador no sentido de conservar o poder conquistado o que, na prática lulista, significou distribuir cargos a partir das correntes em função do seu poder de apoio ao governo. Foi assim com as forças aliadas – tanto partidárias como de órgãos de representação da sociedade civil – e foi assim em relação às correntes internas. Lula, inclusive, motivou disputas acirradas entre correntes internas para conquista de um ministério (eu acompanhei de perto o que ocorreu no início da segunda gestão Lula em relação ao Ministério do Desenvolvimento Agrário) de forma que o empossado assumia o cargo enfraquecido, já acompanhado de sua oposição interna. A estrutura de poder, enfim, enrijeceu a própria luta interna e a vinculou à ocupação de cargos governamentais. Na prática, o PT mergulhou nos escaninhos do poder palaciano e se afastou das disputas reais, longe da Corte, aquelas que ocorriam nas ruas. Perdeu os ouvidos e, logo depois, a musculatura. Assim, se tornou a fonte empírica dos estudos sobre cartelização dos partidos contemporâneos (o conceito de partido cartel foi criado originalmente por Richard Katz e Peter Mair, em meados dos anos 1990), aqueles que sobrevivem à sombra do Estado, tanto para se financiar, como para abastecer suas bases territoriais com políticas públicas. O PT envelheceu porque deixou de ser um elemento da paisagem cotidiana da vida do “homem simples” (roubo o termo de José de Souza Martins). Deixou de montar barracas, de distribuir jornais e abaixo-assinados, de intervir em reuniões de associações de bairro. E tomou gosto pela Corte.
Tais opções de sobrevivência partidária contaminaram o processo decisório do PT. As representações setoriais (como o da juventude) foram se submetendo e se subordinando às estruturas centrais. Esta é a segunda hipótese explicativa para o envelhecimento do PT. A autonomia, palavra usada ao limite do desgaste nas primeiras duas décadas de existência da sigla, foi substituída pela “linha justa”. De tal sorte que os expoentes da juventude petistas passaram a adotar todos os vícios da burocracia partidária: discursos fechados e autistas; vínculos diretos com gabinetes ministeriais e parlamentares; ação privilegiada no campo institucional; palavras de ordem focadas na defesa das estruturas de poder e não nas demandas sociais do segmento que procurava representar; incapacidade de formulação.
Enfim, as estruturas de poder internas tentaram enquadrar a realidade. Mesmo sendo tão óbvio que a realidade é muito mais dinâmica que as instituições, em especial, as partidárias (que em nosso país não merecem a confiança de mais de 5% da população). A rigidez de comando e o alinhamento entre governo, burocracia partidária e militância, esclerosaram este que foi o maior partido da esquerda nacional. Erro, aliás, histórico da esquerda mundial e que o PT tentou refutar quando da sua criação, quase que sendo textual em seu Manifesto de lançamento.
Apenas para constar, Lênin, em novembro de 1920, já sustentava o desastre da burocratização partidária e sugeria um combate a este erro estratégico que denominou de “métodos burocráticos”, sobrepondo os escalões superiores do partido aos escalões superiores estatais (cf. “Nossa situação interna e externa e as Tarefas do Partido”, 21 de novembro de 1920). Esta passou a ser uma obsessão de Lênin. Tanto que em 1922, já afirmava que o pior inimigo interno era o burocrata (cf. “A situação interna e externa da República Soviética”, 6 de março de 1922). Finalmente, no ano seguinte, escreve seu último artigo, “Melhor Poucos Mas Bons”, denuncia os burocratas do partido, remetendo a outro artigo em que afirmava que o Estado Soviético se parecia cada vez mais com o velho aparelho czarista. Neste seu último artigo, chega a sustentar que nada pode ser esperado do comissariado do povo (se referindo à Inspeção Operária e Camponesa). Imagine, leitor, o impacto desta observação para aquele que dedicou sua vida à destruição das estruturas de poder que percebia ressurgir sob seu comando.
O PT “pragmático” da segunda metade dos anos 1990 desconsiderou toda esta história de erros e as repetiu, como abelhas em busca de mel, todos petistas alinhados num verdadeiro “estouro da manada”. O que acabou por transformar o discurso oficial num olhar seletivo e enviesado sobre a realidade, onde a análise rigorosa e longitudinal foi substituída pela eleição de fatos que tinham o mero objetivo de confirmar a “linha justa” adotada pela burocracia partidária. Assim, seus erros foram imputados às distorções dos noticiosos tupiniquins, do conluio do poder judiciário, da traição dos aliados, do cenário internacional desfavorável. O partido, enfim, era cercado por uma comédia de erros em que só sobrava a si mesmo como garantidor da saúde mental nacional. Surpreendentemente, esta lógica ao estilo machadiano (aquele do “O Alienista”) já havia se repetido quando o “Partidão” era liderado por Prestes e até mesmo pelo momento mais claustrofóbico das esquerdas brasileiras, quando algumas organizações se armaram para lutar pelos direitos da massa trabalhadora que os desconhecia. Haveria, enfim, uma necessidade histórica das esquerdas brasileiras saberem enfrentar o desafio de governar sem perder sua alma?
Estas duas situações oriundas de escolhas partidárias – a burocratização que se identifica com o próprio aparelho de Estado e a subordinação das estruturas de representação setorial ao controle central da burocracia partidária – apenas reforçam um problema social que foge ao seu controle: a mudança do ideário de nossa juventude mais engajada. Esta é minha terceira hipótese explicativa do envelhecimento petista.
Os jovens brasileiros sempre emergiram em crises políticas nacionais, desde 1950. Neste século, retornaram com algumas novidades. A primeira, de natureza identitária: não se atraem por partidos, mas por movimentos fluidos, rebeldes, radiculares, móveis e espetaculares. São mais autonomistas que os “caras pintados” dos anos 1990, que seguiam as organizações estudantis. São mais culturalistas, focados em aspectos comportamentais, retomando certa lógica dos jovens do final dos anos 1960 e início dos 1970. O PT teria tudo para atrair esta “nova juventude engajada” em virtude da autonomia ser um de seus princípios fundantes. Mas, como vimos, autonomia como valor ficou para as bibliotecas do partido.
A novidade em relação ao levante da juventude em meio à maior crise política brasileira desde o fim do regime militar é a emergência de um bloco fascista. Parte da juventude tupiniquim não se pauta exclusivamente pela garantia da democracia e ampliação dos direitos sociais.
Esta é uma mostra cabal das dificuldades do PT manter sua tradição e capacidade política original. Em algum momento de sua história recente, perdeu as ruas, seu olhar sobre elas e seu talento para dialogar com elas.
Assim, o partido que governa o Brasil há mais de uma década, até então o maior partido de esquerda da América Latina, aquele que foi considerado o sopro de inovação pela esquerda européia, encontra-se, neste momento, numa situação paradoxal, envelhecido pelo poder que adquiriu e relutante em considerar seus princípios e sua história. Debate-se para se manter onde chegou com discursos sem viço, que evidenciam falta de apuro ou mesmo esforço em tentar convencer. Debate-se como se pressentisse o abate. Não comove. E, pior, vive do passado, da memória afetiva dos mais velhos, assim como viveu por algum tempo o Partido Trabalhista Inglês (e outras agremiações de massas da esquerda internacional). A reação dos dirigentes atuais do PT às manifestações de junho de 2013 já indicava o buraco em que o partido se meteu. De antemão, revelaram que o novo se apresentava como um perigo. O novo, realmente, parece se apresentar como um perigo. Justamente porque o PT envelheceu e, neste momento, inveja os que ameaçam sucedê-lo.
  
Em: Blog do Rudá
  http://www.rudaricci.com.br/o-pt-envelhece-2/

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ataque de Gilmar à Ficha Limpa convém a Temer, que está inelegível



Jornal GGN - 

 O ataque de Gilmar Mendes à Lei da Ficha Limpa vem em momento muito oportuno para o grupo que incentiva a candidatura de Michel Temer (PMDB) em 2018, caso seu governo tenha sucesso o bastante para tentar uma reeleição.

Disse Gilmar, após decisão do Supremo Tribunal Federal muito criticada por praticamente anistiar 80% dos políticos enquadrados como ficha-suja, que a Lei, de tal mal feita, parece ter sido redigida por "bêbados". A OAB, uma de suas patrocinadores, disse que isso não coisa para sair da boca de um ministro do Supremo.

A Corte decidiu, na semana passada, que um prefeito só pode se tornar inelegível graças à Lei da Ficha Limpa se a Câmara Municipal referendar decisão do Tribunal de Contas do Estado favoráveis à rejeição das contas do governo.

Como a Câmara não é obrigada nem tem prazo para analisar tais contas, basta engavetar o parecer negativo do TCE para que o político fique a salvo. Ou desengavetar se quiserem usar para atingir politicamente algum mandatário.

O caso de Temer é um pouco diferente. O interino foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo por ter doado cerca de R$ 16 mil acima do que poderia na eleição de 2014, para dois candidatos do PMDB.

A defesa de Temer alega que a decisão do TRE-SP não foi feita em colegiado, como manda a Lei da Ficha Limpa, mas o Tribunal já enviou para a Justiça Eleitoral a mensagem de que Temer está inelegível pelos próximos oito anos.

Aliados do peemedebista reagiram com desdenho à decisão do TRE: disseram que, se necessário for, a lei será alterado para que Temer seja candidato em 2018 - se assim quiser.

A crítica de Gilmar vem justamente esboçar o quadro de necessidade de se aprimorar a Lei. Quem sabe de maneira que a maioria dos chamados "ficha-suja" seja anistiada, caso as mudanças derrubem o que está em vigor e passem a valer para depois de 2018.

Cabe ressaltar que Gilmar presidente o Tribunal Superior Eleitoral, e caberá à Corte decidir se a eventual candidatura de Temer pode ou não receber aval da Justiça Eleitoral. É nisso que apostam os advogados do interino hoje.

domingo, 6 de março de 2016

Os sinais da conspiração, no olhar de Janio de Freitas



Fernando Brito, Tijolaço - 

Indispensável a leitura do texto de Janio de Freitas, que olha com a visão de quem viu, ao longo de décadas, tomarem forma e evidência os quebra-cabeças das conspirações, sempre negadas até que galguem ao poder.

Tornou-se indisfarçável que existe uma coordenação entre os fatos, ainda que não se possa dizer entre que pessoas se dá a produção ou o controle da publicidade destes fatos.

Tomo a liberdade de lembrar o dito do velho Brizola: “Tem couro de jacaré, tem rabo de jacaré, tem dente de jacaré. Como é que não é jacaré?”

Isto foi

Janio de Freitas, na Folha

Nos seus dois anos de ação que se completam neste março, o juiz, os procuradores e os policiais da Lava Jato vieram em crescendo incessante nos excessos de poder, mas o ambiente em que esbanjaram arbitrariedade não é mais o mesmo. O exagero de prepotência faz emergirem reações em ao menos três níveis.

O que se passou de quinta (3) para a sexta (4) passadas não foram ocorrências desconectadas. Foram fatos combinados para eclodirem todos de um dia para o outro, com preparação estonteante no primeiro e o festival de ações no segundo. O texto preparado na Lava Jato para entrega ao Supremo Tribunal Federal, como compromisso de delação de Delcídio do Amaral, está pronto desde dezembro. À espera de determinada ocasião.

Por que a intermediação para o momento especial foi da “IstoÉ”, desprezada pela Lava Jato nos dois anos de sua associação com “Veja” e “Época”? É que estas duas, na corrida para ver qual acusa e denuncia mais, costumam antecipar na internet os seus bombardeios. A Lava Jato desejava que a alegada delação de Delcídio só fosse divulgada na quinta-feira, véspera das ações planejadas. A primeira etapa funcionou sem falhas, até para “IstoÉ” lembrar-se de si mesma.

Ainda no começo da noite de quinta, Ricardo Boechat deu com precedência e correção, no Jornal da Band, a íntegra da nota em que Delcídio negou confirmação ao “conteúdo da reportagem de IstoÉ” e negou “reconhecer a autenticidade dos documentos acostados ao texto”. Mas a conduta comum aos jornais, TV e rádios foi tratar como verdadeira a alegada delação de Delcídio. 

Nos dois jornais mais relevantes, o desmentido só foi referido na 21ª linha das 31 sob a grande manchete (“O Globo”: “Embora o senador diga que não confirma a reportagem”, e muda o assunto). Nas 54 linhas sob a grande manchete na edição nacional da Folha, nenhuma referência ao desmentido, no entanto citado em parte com destaque no interior.

Situação curiosa: o Delcídio tratado como parlapatão, pelo que disse ao Cerveró filho, merece crédito absoluto quando incriminador de Dilma e Lula, e volta a ser declarante desprezível quando nega as incriminações. Uma oscilação que pode ser política ou ter qualquer outra origem, mas jornalística não é. Em tempo: o filho de Cerveró foi mandado para o exterior.

As ações da sexta-feira quase santa foram sintetizadas, não por acaso, no título do artigo, naquele dia mesmo, de um dos irmãos em fé de vários integrantes da Lava Jato: “Destituição de Dilma é missão cristã”. Do pastor evangélico Wilton Acosta, presidente do Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política. 

Adequado texto de fundo para a chegada da Polícia Federal à moradia de Lula, levando-o; e para as invasões do Instituto Lula e do sítio em Atibaia. Com base em razão assim exposta uma semana antes pelo procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, ao falar da obra no sítio: “Eu desconfio” (de relação entre Lula e empreiteiras). Mas procurador e policial que desconfia não vão para os jornais. Vão trabalhar. Para esclarecer sua desconfiança e dar ao país informações decentes.

Em São Paulo, em São Bernardo, no Rio, em Salvador, pelo menos, houve amostras eloquentes de que os ânimos da militância dos mais sofridos está próximo do ponto de descontrole. Um aviso à Lava Jato de que sua “missão cristã” não pode continuar tão mais missão do que cristã. Em paralelo, o pronunciamento de Lula, revivendo o extraordinário mitingueiro, não apenas deixou pasmos os que esperavam vê-lo demolido, a ponto de que também a Globo transmitiu-o ao vivo. Calmo, desafiador, o pronunciamento abriu a única perspectiva conhecida de restauração do PT, com Lula em campo pelo país afora, e já enfrentando os que pretendem extinguir os dois.

O ministro Marco Aurélio de Mello, ele quase sempre, convocou diante das atitudes de Sergio Moro: “Precisamos colocar os pingos nos is. (…) Amanhã constroem um paredão na praça dos Três Poderes”. Apontava a ilegalidade da decisão de Moro referente a Lula, e foi forte: “paredão” remeteu ao “paredón” dos fuzilamentos nos primórdios da revolução cubana. Considera que Moro age por critério seu, não pelos da legislação. O resultado são “atos de força”. E “isso implica retrocesso, não avanço”. Marco Aurélio não falou só por falar.

A megaoperação resultou em mega-advertência à Lava Jato.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Grande Mídia e poder

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A Grande Mídia no Brasil noticia, julga e pune. Ajuda a fomentar um Estado de Exceção no país onde apenas três famílias de empresários comandam a opinião pública com seus eficientes maestros jornalísticos. São Frias, Marinhos e Civitas donos de pórticos golpistas como seus semanários e TV gentilmente fomentados e concedida pela sanguinária Ditadura.
No registro recente de Paulo Henrique Amorim, no excelente livro “O Quarto Poder”, há fatos que comprovam a relação promíscua histórica entre o Estado e essas empresas privadas de Comunicação no Brasil, tornando-as o que é hoje: um monopólio midiático que censura opiniões e disputa o poder.
Há casos esdrúxulos lembrados por Paulo, como o financiamento e fornecimento de benesses por parte do Regime Militar à empresa de Roberto Marinho – basta uma busca no Google para mais detalhes – para construção de uma rede televisiva que manipulasse a população durante terrível período que sucedeu 1964. E isso graças ao know-how do grupo americano Time Life e sua participação inconstitucional sempre duvidosa na emissora da ‘vênus platinada’.
Como diz Henrique Amorim, os empresários Civita e Marinho usavam Veja e TV Globo como braços fortes de disputas milionárias: aquisição de ações de empresas, muitas delas estatais, como a Petrobras. Quando se monopoliza a informação é fácil derrubar ou levantar o valor de empresas para interesses próprios como compra e revenda. E isso, como aponta o jornalista, sempre foi feito por aqui.
A formação desse “cartel noticioso” persiste até hoje, num jogo de poder onde o alvo agora é o ex-presidente Lula e um projeto de governo popular e democrático. Usam e abusam da Operação Lava-Jato como grande gerador de conteúdo golpista, sejam fatos verídicos ou não! Fatos e provas devem condenar e punir, sim, mas é preciso que existam realmente. Vazamentos ilegais e seletivos não podem pautar as estruturas de poder.
Quem não se recorda da capa mentirosa do semanário de menor credibilidade do país forjado pela Editora Abril na véspera das eleições de 2014 contra Lula e Dilma? Com um rito próprio e disposta a modificar a História mais uma vez (como no golpe militar), a Grande Mídia quer derrubar um governo democraticamente eleito fustigando o ódio e a mentira na população e garantir a instalação de um projeto de desmantelamento do Estado brasileiro, redução da democracia e excludente.
Olhar para esse cenário agudo nos pede resistência contra ataques de um cerco midiático antiético e luta política por pautas que apontem para a democratização da Comunicação. Seja pela regionalização, através do PL 1441/2015, de minha autoria, ou de tantas outras pautas que apontem para pluralidade de opiniões e informações, como a Lei de iniciativa popular apoiada pelo Barão de Itararé, Intervozes e outros.
Na segunda-feira (7), um grande ato em São Paulo contra a recente censura imposta pela TV Globo a blogs, sites independentes e midialivristas dará o tom dessa disputa. A narrativa não pode se render ao império da concentração de mídia. A ela interessa tudo, menos os interesses da população.
Por Jandira Feghali¹Médica e deputada federal (PCdoB/RJ)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O poder mundial e nós


Defino o capitalismo como um sistema econômico e político no qual capitais privados vão sendo cada vez mais concentrados nas mãos de poucos oligarcas dominantes. Isso lhes permite conquistar não só as grandes empresas financeiras e produtivas, mas também o Estado.
2. Isso acontece sob regimes abertamente fascistas e também sob regimes aparentemente democráticos, em que o dinheiro e a mídia, a serviço dos oligarcas, controlam o sistema político e o resultado das eleições.
3. O capitalismo nos países centrais, mercê notadamente de guerras que envolveram os aspirantes à hegemonia, tornou-se, ao longo dos últimos 350 anos, um sistema de poder mundial, sob a hegemonia do capitalismo britânico, que depois consolidou sua associação com o norte-americano, formando o império angloamericano.
4. Atualmente, restam duas potências não subordinadas ao império, China e Rússia, capazes de propiciar equilíbrio na balança do poder mundial. Sem esse equilíbrio, não há como país algum, no mundo, desenvolver-se.
5. Veja-se a anomia prevalente no cenário mundial, do início dos anos 1990 até há pouco, período em que o império angloamericano cometeu colossais genocídios: na Iugoslávia, seguindo-se Iraque, Afeganistão, novamente Iraque, Líbia, para citar só alguns. Agora, em pauta, a Síria.
6. O auge da tirania imperial corresponde no Brasil aos governos Collor e FHC. Na Argentina, ao de Menem, e mais exemplos vergonhosos mundo afora.
7. O enfraquecimento e dissolução da União Soviética haviam deixado o planeta à mercê do império, secundado por seus satélites.
8. Mas a China vem ganhando poder em todos os campos, e a Rússia reafirma-se como potência nuclear e balística de grande porte.
9. Isso lhes dá autonomia nas decisões políticas e econômicas, e limita um pouco a tirania exercida pelo império angloamericano em âmbito global.
10. Se se tivessem mantido abertos à influência do império, não teriam alcançado o status de potências mundiais. Para tanto, precisaram de regime centralizado e fechado.
11. As histórias da Coreia do Sul e de Taiwan ilustram a mesma constatação: para se desenvolverem, tiveram governos militares nacionalistas, devido a circunstâncias especiais: a presença do comunismo na China e na Coreia do Norte, com apoio do Exército Vermelho da China de Mao Dze Dong. Este havia empurrado os partidários de Chiang Kai Chek para Taiwan (Formosa), onde se instalaram sob a proteção da esquadra norte-americana.
12. Em suma, os EUA precisavam deixar fortalecer-se aqueles dois países, empobrecidos pela exploração colonial e pela ocupação japonesa, além de devastados por guerras, antes e durante a 2ª Guerra Mundial. Do contrário, seus povos seriam reunidos a seus compatriotas sob governos comunistas.
13. Em nossa história, como na da Argentina, houve progressos para o desenvolvimento, exatamente sob regimes autoritários, no período entre-guerras da 1ª metade do Século XX e durante a 2ª Guerra Mundial.
14. O senador Severo Gomes, desaparecido no mar, em 1992, comentava que a arrancada para o desenvolvimento da Argentina e do Brasil fora possível graças ao relativo isolamento comercial propiciado pela 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e pela depressão dos anos 1930, seguida da 2ª Guerra Mundial (1939-1945).
15. A melhora das estruturas econômica e social só se pode realizar sob condições de poder central forte, como, no Brasil, as dos anos subsequentes à Revolução de 1930 e no Estado Novo (1937-1945), mercê da consciência nacionalista do Exército e da visão esclarecida e habilidade do presidente Vargas.
16. Como tenho exposto, Vargas foi injusta e incessantemente acoimado de ditador por agentes do império, horrorizado com a perspectiva de o País atingir o desenvolvimento econômico e social.
17. Por isso não cessavam de injuriar o presidente os adeptos do império angloamericano, fosse fascinados pela democracia de molde ocidental, fosse a soldo daquele império.
18. Tive, com frequência, ocasião de trocar ideias com Severo Gomes, empresário e antigo ministro da Indústria e Comércio (MIC) no governo do general Geisel. Também, com outros grandes brasileiros: o general Andrada Serpa, o físico Bautista Vidal (secretário de Tecnologia Industrial do MIC com Severo Gomes e criador do Programa do Álcool, Energia da Biomassa), e o Dr. Enéas Carneiro.
19. Todos tinham consciência plena de que o desenvolvimento só é possível com autonomia nacional e que um dos requisitos para esta existir é a autonomia industrial e tecnológica, inclusive com domínio da energia nuclear aplicada à defesa.
20. O que precede significa que, para o Brasil, é vital ter estratégia que:
1) contemple estarem as potências hegemônicas intervindo permanentemente em nosso País;
2) acompanhe a balança do poder em âmbito global, avaliando a medida em que o império se veja obrigado a concentrar recursos e atenção em outras regiões.
21. Dado o nosso recuo econômico, financeiro e tecnológico – crescente nos últimos decênios – a chance de êxito que possa ter o projeto de sobrevivência do País depende de unir o máximo possível das forças nacionais.
22. Estas têm sido agudamente divididas em direita e esquerda, ao longo dos últimos 85 anos. O marco foi a Revolução de 1930, a qual abriu a perspectiva de desenvolvimento do País.
23. Em seguida, o império angloamericano fomentou novos separatismos e passou a investir mais intensamente em cooptar e corromper locais, notadamente na mídia, como Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, dono dos Diários Associados, a maior cadeia jornalística da época.
24. Já no mandato de Vargas assumido em 1951, indagado Chatô, por que atacava o presidente e abria total espaço na TV a Carlos Lacerda, seu virulento e audacioso adversário, respondeu: “se ele desistisse de criar a Petrobrás, eu passaria apoiá-lo e lhe daria espaço em minha rede de comunicação”.
25. Outro, foi o notório Roberto Marinho, dono de O Globo desde 1931. Esse, desde 1964, recebeu favores oficiais e fartos recursos norte-americanos para tornar-se dominante na comunicação social.
26. Mais tarde, o império declarou, através de Henry Kissinger, que não podia tolerar o surgimento de uma potência no Hemisfério Sul. Assim, foram cavados profundos fossos ideológicos entre brasileiros e n outros modos de intervenção.
27. Em 1932, Londres fomentou a falsamente denominada Revolução Constitucionalista, em São Paulo, que se poderia ter transformado em guerra separatista do Estado onde a industrialização despontava promissora.
28. A constitucionalização real veio em 1934, preparada por Vargas desde antes daquela teleguiada “revolução”. A insurreição comunista, em 1935, tempo de grande polarização esquerda/direita, reflexo do cenário europeu antecedente à 2ª Guerra Mundial.
29. Era muito pequeno o número de operários organizados, e a geopolítica dava chances nulas de êxito aos comunistas brasileiros: poder naval do império britânico absoluto no Atlântico Sul, e proximidade dos EUA.
30. Sendo incipiente o desenvolvimento do poder militar da União Soviética (URSS), não havia como esta apoiar o levante comunista no Brasil. Ademais, Stalin dava prioridade à infra-estrutura industrial da URSS. Não apostava na revolução internacional, ao contrário de Trotsky, alijado do poder.
31. Entre os comandados de Prestes, infiltraram-se agentes do Intelligence Service, o M16 britânico, e os planos dos ataques eram previamente conhecidos das forças legalistas.
32. O resultado da insurreição de 1935 foi exacerbar a polarização ideológica, de interesse exclusivo do império anglo-americano.
33. Pior, sua memória tem servido à irracionalidade que faz reprimir, atribuindo-se-lhes ser comunistas, os que se opõem ao império angloamericano ou não fecham os olhos aos crimes deste.
34. Seguiu-se o golpe de 1937, que instituiu o Estado Novo, repressor de comunistas e outros. A geopolítica e a influência da finança angloamericana determinaram a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial: bases no Nordeste para as FFAA dos EUA e envio da Força Expedicionária à Itália, vinculada a comando norte-americano.
35. Entretanto, o império não hesitou em patrocinar o golpe de 1945 e as intervenções subsequentes, que prosseguem até hoje, e vêm logrando seus objetivos desde agosto de 1954:
a) desnacionalizar e a desindustrializar o Brasil, impedindo o desenvolvimento de tecnologias controladas por empresas nacionais, tanto privadas como estatais;
b) enfraquecer as Forças Armadas e a capacidade estratégica do País, indústrias básicas, infra-estrutura e o domínio da energia nuclear;
c) desinformar e abaixar o nível de educação dos brasileiros, investindo na anticultura e na demolição dos valores éticos indispensáveis à evolução de nação próspera e equilibrada;
36. Esse processo tem sido realizado não só durante governos claramente subordinados aos interesses financeiros angloamericanos (Café Filho, JK, Castello Branco, Collor e FHC).
37. Também, durante os demais, que, no essencial, cederam às pressões imperiais, não obstante terem tido, setorialmente, patriotas voltados para o desenvolvimento nacional.
38. Destaque-se, ademais, que eleições dependentes de dinheiro grosso e grande mídia levaram a desastres de origem parlamentar, inclusive a presente Constituição e emendas.
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Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.
http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/benayon/