Dias atrás, Trump chamou de “países de merda” o Haiti e nações africanas.
No mesmo período, estreou o filme “O Destino de uma Nação”, que retrata Winston Churchill como herói da liberdade.
O que uma coisa tem a ver com a outra? Vejamos.
Em 11/01, Richard Seymour escreveu na revista “Jacobin” sobre o famoso primeiro-ministro britânico. Segundo o artigo, no final da Segunda Guerra, Churchill afirmou: “Devemos varrê-los, cada um deles, homens, mulheres e crianças. Não deve restar um japonês na face da terra”.
Mas tem mais.
...não admito que um grande mal tenha sido feito aos índios vermelhos da América ou aos negros da Austrália (...) pelo fato de que uma raça mais forte, uma raça superior, (...) invadiu e tomou seu lugar.
Visitando a Itália em 1927, declarou a Mussolini: "Se eu fosse italiano, com certeza estaria a seu lado desde o início para concluir sua luta triunfante contra os apetites e paixões bestiais do leninismo".
Escrevendo sobre suas "relações íntimas e agradáveis” com Mussolini, acrescentou que "no conflito entre fascismo e bolchevismo, não há dúvidas sobre de que lado ficam minha simpatia e convicções".
Mas Churchill não se limitava a proferir barbaridades. Ele autorizou o uso de gás venenoso contra rebeldes que combatiam o domínio britânico no Iraque. Na verdade, já havia ordenado que se fizesse o mesmo contra a Rússia dos bolcheviques.
Um caso de pioneirismo foi a utilização do terrível “agente laranja” contra rebeldes na Malásia. Muito antes que as tropas estadunidenses fizessem o mesmo no Vietnã.
Por enquanto, Trump vem perdendo para Churchill na condição de criminoso racista. Por enquanto...
Os religiosos conservadores consideram que a Bíblia, o Alcorão e outros textos antigos sejam a expressão fiel, eterna e imutável da palavra divina, não comportando questionamentos nem reflexões, apenas a aceitação incondicional.
Quem não abdica do nosso grande diferencial em relação aos animais, a capacidade de pensar, encara tais textos como produtos históricos. Neles existem ensinamentos válidos até hoje, mas também preceitos superados, característicos de sociedades extremamente menos complexas do que a nossa.
Há, contudo, os que fazem da fidelidade à ortodoxia uma bandeira, mesmo estando muito longe de por ela pautarem sua vida privada. Geralmente, assim procedem por ser esta a atitude mais conveniente para obterem sucesso em determinado nicho de mercado.
A reverência obtusa marcava os intragáveis filmes religiosos da minha meninice, como O mártir do calvário, Vida, paixão e morte do Nosso Senhor Jesus Cristo e que tais. Eram projetados ano após ano na 6ª Feira Santa, sempre com as mesmíssimas cópias gastas, roídas até o osso. A lembrança que me ficou é a de feriados estragados pela falta da minha diversão favorita, a matinê dos saudosos cines Aliança e Patriarca
Até 1973, eu só travara contato com uma visão alternativa, a de Pier Paolo Pasolini em O evangelho segundo São Mateus(1964). Enfatiza os aspectossubversivos da pregação de Cristo, mas era um filme árido demais para me cativar, deliberadamente pobre e sombrio, com pouca ação e uma overdose de diálogos, parecendo teatro filmado.
Veio então o musical Jesus Christ Superstar, e foi uma grata surpresa. Adorei. Tinha ótimas músicas, coreografias belíssimas, fotografia impecável, força dramática e, acima de tudo... vida inteligente. Tratava-se da adaptação cinematográfica da melhor de todas as óperas-rock.
Andrew Lloyd Weber mandou bem nas músicas, mas o maior mérito foi do letrista Tim Rice, que deu uma abordagem crítica aos últimos dias de Cristo. Mostrou os grandes personagens do drama bíblico como prisioneiros da História, relutantes em cumprir sua sina mas impotentes para dela escaparem.
Assim, Jesus não quer o cálice do martírio mas se submete à vontade divina, pedindo, contudo, a Deus que faça tudo acontecer rapidamente, antes que ele mude de ideia.
Judas não quer trair, mas teme que Cristo tenha perdido o controle da multidão e dê aos romanos motivos para promoverem um banho de sangue.
Pilatos não vê crime a ser punido, mas recua quando o povaréu lhe urra que acima dele está César e a tibieza poderá acarretar sua desgraça.
O sumo-sacerdote Caifás teme o caos que, na sua opinião, advirá se a autoridade religiosa for abalada.
Só Herodes, mostrado como um frívolo hedonista, não age a contragosto e optando pelo que seria um mal menor.
Foi um achado a solução encontrada pelo brilhante cineasta Norman Jewison (o diretor de A mesa do diabo, No calor da noite e Hurricane): encenar seu drama nas ruínas e desertos de Israel. Estava bem no espírito da era hippie, tendo tudo a ver.
E, num elenco de desconhecidos que não destoaram, o destaque absoluto é o enérgico e carismático Carl Anderson como Judas. Aliás, Jewison foi indagado sobre o motivo da escolha de um negro para papel tão melindroso. Respondeu que se tratava do personagem com maiores exigências dramáticas, daí ter optado pelo melhor ator de que dispunha, sem dar a mínima para sua cor..
Como não sou mais crítico de cinema, posso agora dizer algo que faria o céu desabar na minha cabeça quando frequentava as cabines das empresas cinematográficas para assistir antecipadamente aos filmes prestes a estrearem, ao lado (qual primo pobre) dos medalhões da grande imprensa: sempre achei o diretor sueco Ingmar Bergman superestimadíssimo e a maioria dos seus filmes, tediosos.
Antes mesmo de 1968 eu já estava antenado com os ventos de mudança que varreriam as teias de aranha do chamado cinema de arte. Não por acaso, o cineasta que mais me fazia a cabeça em 1966 e 1967 era Jean-Luc Godard, o gênio anárquico e desmedido por excelência.
O sétimo selo, p. ex., eu considerei quase bom. A disputa de xadrez entre o cavaleiro e a Morte foi uma grande sacada, mas os acontecimentos que vão desiludindo o herói a ponto de ele não fazer mais questão de ganhar a partida (e a vida) são mostrados em clave piegas, lembrando até o chororô neo-realista.
Adorei O rosto enquanto os atores itinerantes, vingando-se da má acolhida no castelo, utilizam as ferramentas de sua arte para apavorar e humilhar seus anfitriões; mas, quando eles recuam no final, curvando-se à hierarquia social ao não irem às últimas consequências, foi um verdadeiro balde d'água fria atirado no meu entusiasmo. Entrada de leão, saída de cão.
O ovo da serpente (1977), com o qual reativo a seção filmes para ver no blogue, é mais um que começou com tudo mas não manteve o pique. Ainda assim merece ser visto, inclusive por ser o que melhor reconstituiu até hoje o impacto de um colapso econômico na vida dos cidadãos comuns (e, afinal, trata-se de uma situação muito afim com o soturno momento pelo qual passamos).
Falo, é claro, da hiperinflação alemã de 1923, quando o dinheiro não valia mais nada e as pessoas haviam perdido toda perspectiva de futuro; ou estavam prostradas, sem forças para reagirem aos infortúnios que as esmagavam, ou sofregamente perseguindo prazeres como se o mundo fosse acabar no momento seguinte.
Fica muito claro que, não suportando a falta de uma âncora para suas existências, os alemães tenham se deixado mesmerizar pelos discursos raivosos daquelesalvador da pátria com bigodinho engraçado.
Mas, após uma primorosa primeira metade, o filme saiu dos eixos. Bergman quis detalhar oovo da serpente e não o soube fazer. A trama se torna policialesca, envolvendo as primeiras experiências nazistas com cobaias humanas, e aí uma profusão de clichês invade a tela. Parece até filme hollywoodiano sobre o Holocausto.
Os fãs sofisticados (ou seja, quase todos) do Bergman se escandalizaram com a escolha de DavidKung Fu Carradine para o papel principal, ao invés do Max Von Sidow de sempre. Segundo sua visão preconceituosa, Carradine não tinha pedigree suficiente para o cinema de arte. Para mim, ele foi um dos pontos altos do filme...
Image copyrightAFPImage captionO DeLorean, carro que leva Marty e Doc em viagens no tempo: previsões de como seria 2015 acertaram em partes e erraram em outras
Em novembro de 1989, Marty McFly e Doc Brown chegaram ao futuro no segundo filme da trilogia De Volta para o Futuro. E o futuro, naquela época, era o dia 21 de outubro de 2015.
Assistindo novamente ao longa quase 26 anos depois, é impressionante notar como muitas das tendências tecnológicas mostradas no filme são comuns no presente.
Image captionA viagem ao futuro foi justamente para 21 de outubro de 2015
Mas De Volta para o Futuro 2 também cometeu erros. Veja abaixo alguns exemplos de previsões acertadas do filme, bem como as que passaram longe da realidade atual:
Transportes
"Para onde vamos não precisamos de estradas" - esta foi uma promessa que o filme não cumpriu.
Empresas ensaiaram, sem sucesso, lançamentos de carros voadores. A Terrafugia, de Boston (EUA), é um exemplo: prometeu começar a vender um modelo em 2012, mas ainda está tentando viabilizar o negócio.
De Volta para o Futuro 2 pode ter errado quanto aos carros pelos céus das cidades, mas acertou em um detalhe.
Ouça os efeitos sonoros usados para os carros do filme: eles são quase silenciosos e fazem apenas um zumbido muito baixo, algo que hoje podemos associar ao Toyota Prius e outros carros elétricos.
Mas o conversor de energia Mr. Fusion, que transformaria lixo em combustível para o carro, ainda não é viável.
Algumas empresas, no entanto, já testam a geração de energia a partir do lixo. Cidades britânicas como Bristol e Bath recentemente começaram a usar ônibus cujo combustível é feito a partir do tratamento do esgoto e da comida descartada.
Também há esforços em curso em outros lugares para transformar os detritos gerados pela agricultura em um suplemento para gasolina. E o Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de biodiesel do mundo.
Image captionHoverboard não é uma realidade tão distante em 2015
O modo como o personagem Biff pagou uma corrida de táxi, com a impressão digital do polegar, não é tão diferente da maneira como pagamos por serviços de transporte como aplicativos de táxi, Uber e seu concorrente Lyft, sem usar cédulas de dinheiro.
Até a famosa cena do skate voador, ou hoverboard, não parece totalmente absurda em 2015.
A Lexus demonstrou o funcionamento de seu hoverboard em agosto. Ele requer uma pista de trilhos de metal no chão para poder levitar.
Recentemente o skatista Tony Hawk também foi filmado testando um outro hoverboard, o Hendo, baseado em uma tecnologia magnética parecida à usada pelo skate voador da Lexus.
No entanto, placas de carro com códigos de barra não viraram realidade.
O uso da tecnologia nas roupas já havia sido previsto pelo filme na jaqueta usada por Marty.
As roupas de hoje podem não ter todas as funções do casaco cinematográfico, como o secador interno. Mas alguns pioneiros já estão fazendo experiências: como encaixar eletrônicos nos tecidos das roupas.
Os quepes da polícia de De Volta para o Futuro 2 têm pequenas telas onde é possível ler mensagens. O paralelo disso no presente são os vestidos da marca CuteCircuit's, que mostram tuítes.
A Nike, por sua vez, já patenteou os tênis que se amarram sozinhos, parecidos com os mostrados no filme.
Quanto aos cuidados com o corpo e a pele, no momento ainda não há esfoliação tão efetiva contra o envelhecimento ao estilo mostrado no personagem de Doc, que foi a uma "clínica de rejuvenescimento".
Mas as 6,7 milhões de injeções de botox e 1,2 milhão de peelings químicos realizados apenas nos Estados Unidos no ano passado sugerem que muitos estão pelo menos tentando.
Os drones mostrados em De Volta para o Futuro 2 fazem apenas aparições rápidas, mas são muito atuais.
Organizações de mídia, como a própria BBC, começaram a usar estas pequenas aeronaves com câmeras para conseguir novas perspectivas nas imagens. Mesmo que não se sintam confortáveis enviando os drones para lugares lotados como os mostrados no filme.
Outro tipo de robô mostrado é um frentista de posto mecânico.
A Holanda já testou um dispositivo parecido há alguns anos, no projeto TankPitstop. E a Tesla está desenvolvendo algo parecido para carros elétricos.
Felizmente fomos poupados das sequências de Tubarão em Holomax, como mostrava uma cena de De Volta para o Futuro 2.
Mas a indústria do cinema não desistiu das tecnologias 3D. O último projeto é um sistema de projeção a laser que teria imagens mais "brilhantes, nítidas e claras".
Essa inovação estreou recentemente em Londres com o filme A Travessia que, não por acaso, é do mesmo diretor da trilogia De Volta para o Futuro, Robert Zemeckis.
Mas De Volta para o Futuro 2 acertou mais quando tentou prever como seria o entretenimento dentro de casa.
A tela plana mostrada na casa de Marty McFly se parece com os painéis flexíveis mostrados recentemente pela LG em exposições do setor. Há rumores de que em breve essas telas serão comercializadas.
Já as televisões controladas pela voz já são realidade graças às smart TVs da Samsung e Sony, além de dispositivos como a Apple TV e o dispositivo da Amazon.
Temos uma pequena pista do que Marty Jr. vê através de seus óculos supertecnológicos mostrados no filme, da marca JVC, que hoje é uma força muito menor no mercado de eletrônicos.
Os maiores nomes do setor hoje estão apostando em várias formas de tecnologia parecida com a mostrada: a Microsoft com o Hololens, o Oculus Rift do Facebook ou a segunda versão do Google Glass.
No entanto, o maior erro do filme é a ausência dos smartphones.
Marty Jr. inclusive usa no filme um telefone público da operadora americana AT&T. O irônico é que esta foi a primeira companhia a oferecer o iPhone.
Não é que o longa não previsse uma mundo conectado pelos dados. Uma conversa em vídeo ao estilo do Skype é mostrada, e os dados de quem fez a ligação também aparecem. Mas a comunicação ocorre através da TV, e não por smartphones.
O filme também passou longe da realidade atual quando Marty foi avisado de uma prisão iminente por um jornal em papel, e não por uma tela touchscreen.
Duas décadas antes, o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, já tinha mostrado os "newspads".
Mas um ativista que tenta restaurar a torre do relógio de Hill Valley até parece usar um tablet em uma das cenas do filme.
É difícil ser muito crítico em relação ao filme quando se leva em consideração que a internet tinha sido inventada no ano de lançamento do longa e o primeiro navegador só foi lançado no ano seguinte.
Isso pode explicar por que CD-Roms e os grandes Laser Discs são mostrados em pilhas de lixo. E, em uma era em que o e-mail nem tinha este nome, os futuristas responsáveis pelo filme imaginaram que seria mais fácil mandar um fax no meio da rua.
Mas isso não explica a quantidade enorme de máquinas de fax na casa de Marty.
De Volta para o Futuro 2 também previu utensílios como fornos controlados por computador e um hidratador de pizzas. Hoje, no máximo, tempos um chef robótico, apresentado em uma feira em San Francisco, e uma geladeira que faz selfies.
Um acerto mostrado no filme foram as portas controladas por computador - a Universidade de Yale foi a última a lançar um produto como este no começo do mês.