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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A culpa é da Dilma: O antipetismo de direita


A culpa é da Dilma: O antipetismo de direita
Por Cesar Mangolin, em seu blog
Um jumento em disparada faz algum estrago… Um bando deles faz mais ainda. Inconsequentes, não darão a devida importância para os danos que podem causar, apenas correm, destruindo tudo ao redor. Nem mesmo fazem ideia de quem abriu a porteira, talvez propositalmente.
Os neo-militantes de direita agem assim. Tomam problemas seculares do Brasil (como a corrupção) como se fossem obras dos últimos governos; atribuem à presidência da República responsabilidades de outras instâncias, inclusive responsabilidades dos abridores de porteiras bicudos que povoam nosso país e não se conformam com a derrota sofrida nas urnas.
Chama mais ainda a atenção que temos jumentos desembestados que se somam aos da direita vindos da esquerda, mas trataremos deles em outro texto…
Com vergonha alheia, vi gente (quase 40% da população) que atribui a falta de água ao governo federal; há quem atribua a segurança pública também. Mas há episódios mais tristes ainda: vi uma postagem que dizia que a Dilma havia concedido o direito de visita íntima a um assassino! Para esses tontos, a culpa de toda e qualquer desgraça brasileira tem nome: Dilma!
Enfim, chegamos num ponto em que a frase afirmativa “há limites para a estupidez!” somente pode ser proferida na sua forma interrogativa: “Há limites para a estupidez?” Parece que não.
A corrupção é inerente ao capitalismo… No Brasil persiste há muito. O caso da Petrobras, tomado com assombro pela mídia golpista e a classe média cor-de-rosa, é velho. Ainda era um adolescente quando trabalhava numa loja de conexões e ouvia um vendedor externo contar histórias sobre as casas de praia de compradores da Petrobras…
Nessa mesma época aprendi que a propina, que “molhar a mão”, o “fazer rir” era uma prática comum. Nunca gostei nem a pratiquei, mas todos nós convivemos com ela. Quem descobriu apenas agora que as empreiteiras e demais empresas subornam compradores em processos licitatórios? Quem não sabe que há décadas no Estado de São Paulo algumas empreiteiras dividem entre si as grandes obras e “molham as mãos” de agentes do Estado? Corruptores e corruptos, farinhas do mesmo saco, crias da mesma ordem, existem desde muito tempo: isso não foi uma invenção dos governos do PT.
Mas a jumentice parece ter se tornado um adjetivo muito comum dos nossos tempos obscuros…
Há uma movimentação que envolve a grande mídia, políticos tradicionais com capivaras imensas, o tucanato, o Judiciário e uma massa de manobra histérica que parece que começou a viver apenas agora e perceber as mazelas do tipo de capitalismo que se desenvolveu no Brasil.
Embora falem em nome de algum Brasil, fica claro, pelo que defendem, que não incluem o Brasil da população que mais sofreu, pela marginalização e empobrecimento contínuo, com a dragagem das nossas riquezas naturais e com a concentração de riqueza gritante e secular…
A massa de manobra histérica não faz parte, obviamente, da seleta elite que concentra em suas mãos o grosso da riqueza social produzida. Os que esbravejam contra o PT e o governo não têm ideia do que estão falando; não são capazes de apontar uma solução mínima para qualquer problema. Repetem chavões, palavras de ordem sem sentido, de gente que não conhece minimamente nossa história recente.
Façam um teste: pegue um desses surtados e pergunte o que está errado e o que deveria ser feito para resolver o problema… Vai receber de volta um grunhido histérico e sem sentido, porque eles não sabem do que estão falando.
O mais triste e temerário é que forçam uma crise política seríssima, que interessa a determinados setores do grande capital. São marionetes dele…
Defendem o retorno da ditadura militar sem saber minimamente o que caracterizou aquelas duas décadas: entrega das nossas riquezas ao  capital estrangeiro; perda constante de poder aquisitivo dos salários; mais de dez milhões de mortos por fome no nordeste; genocídio de populações nativas; prisões arbitrárias, censura, tortura e assassinato…
Há também a curiosa postura da classe média brasileira que tem asco de tudo que se refira a trabalhador…
Os governos do PT atendem, sem dúvida, aos interesses do grande capital. É um governo da ordem burguesa, que dirige o Estado capitalista… Mas ao deslocarem esforços e recursos no atendimento a populações deixadas de lado por nosso processo histórico, deslocam recursos dos cofres do grande capital, que sempre tem espaços vazios para serem ocupados.
No momento da crise que envolvia o segundo mandato de FHC, o PT e o governo de Lula, com as garantias que deram, foram palatáveis ao grande capital. Na entrada dessa nova crise, trata-se de tornar toda e qualquer fonte sob controle absoluto. Há muita diferença numa taxa selic de 36% (segundo mandato de FHC) e numa de 12%… Ou 7.4, que foi o mínimo alcançado no primeiro governo de Dilma… Isso toca em interesses diversos, beneficia algumas frações do capital, prejudica outras. A pressão dentro do bloco no poder e a capacidade de uma dessas frações tornar o Estado seu valet é o que está em jogo…
Há muito que se estudar e escrever sobre essas contradições, mas isso toma muito espaço… Mas, principalmente, exige tempo e paciência histórica. Algo que está ausente por aqui… Mas retomarei o argumento para falar do antipetismo de esquerda depois…
Por enquanto, vale a constatação de que os neomilitantes da direita e os da esquerda preferem facilidades: análises de lógica formal, sem contradições. Um programa redondinho e internamente coerente, ainda que não tenha relação com a realidade. O papel aceita qualquer coisa: recebe textos sagrados e também é utilizado nos banheiros…
Valeria aos que histericamente pedem o impeachment de Dilma pensar um pouco nos pressupostos do que chamam de “limpeza” da política, pensar nas soluções para nossos problemas mais graves… Caso sejam capazes de fazer isso, descobrirão que as soluções que andam apoiando representam um passo atrás muito perigoso. Que as marionetes desse jogo anti-popular percebam que ajudam a abrir as portas do seu próprio abismo.
http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/culpa-e-da-dilma-o-antipetismo-de-direita/

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O ANTIPETISMO E O NAZI-FASCISMO



I0pt_suasticamaginem um cidadão ordinário alemão do final dos anos 30 ou um cidadão ordinário brasileiro de classe média dos anos 2000. Sua situação é, falando de um modo abstrato, bastante parecida, a mesma de uma criança pequena: está totalmente perplexo. As autoridades sociais, autoridades simbólicas (ou seja, a mídia, os jornais, a televisão, a Rede Globo, e seus “especialistas”), estão dizendo: você é um brasileiro, um trabalhador, dá duro o dia inteiro, mas nada está funcionando.
O que a sociedade quer de ti? Por que está tudo dando errado? O modo como este cidadão percebe a situação é que os políticos mentem para ele, grande parte de seu salário vai para os impostos, a economia está uma porcaria, os serviços públicos não funcionam, há muita violência, drogas, a sociedade está se degradando moralmente; enfim, a corrupção assola o país, etc.
Qual é o significado de tudo isso? Como foi freqüentemente mostrado, o nazi-fascismo e a direita política no Brasil compartilham algo bem elementar, ou seja, sonham em fazer uma revolução conservadora. Por revolução, entendam o fomento ao desenvolvimento econômico, o ideário da indústria moderna. Entretanto, está é uma revolução que, ao final das contas, busca manter ou reassegurar a hierarquia tradicional da sociedade. Seu ideal é de uma sociedade moderna, eficiente, mas que ao mesmo tempo é controlada pelos valores hierárquicos, dispensando conflitos de classe e outros antagonismos.
Mas os nazi-fascistas e a direita possuem um problema: antagonismos, lutas de classes e outros perigos, são inerentes ao capitalismo. Modernização, industrialização, como sabemos da história do capitalismo, significam desintegração das antigas relações estáveis, significam conflitos sociais. Instabilidade é o modo como o capitalismo funciona.
Então, como resolver este problema? É fácil: Você precisa criar uma narrativa ideológica que explique porque as coisas deram errado na sociedade, não como resultado das tensões inerentes ao desenvolvimento desta sociedade, mas como resultado de um intruso, alguém que veio de fora e trouxe os problemas sociais. Então, tudo ia bem até que os judeus penetraram no nosso corpo social. Tudo ia bem até os nordestinos votarem. Tudo ia bem até os petistas chegarem ao poder.
A maneira de restaurar o corpo social é eliminando os judeus, eliminando os nordestinos, eliminando os petistas. É o mesmo mecanismo que ocorre no filme Tubarão (Jaws, 1975): você tem uma multiplicidade de medos que lhe confundem, como se você simplesmente não soubesse o que quer dizer essa confusão toda. E você substitui essa enorme bagunça por uma figura clara: o judeu, o petista, o nordestino.
E então tudo fica claro. Você achou o culpado! Reduz-se a complexidade que poucos conseguem entender – os estamentos burocráticos, a corrupção crônica, a cultura do jeitinho brasileiro, as profundas desigualdades sociais, o sistema político que precisa ser reformado, a estrutura desigual da carga tributária, entre outros – a um único inimigo, fonte de todo o mal.
As semelhanças no âmbito simbólico são imensas: representa-se os estereótipos de todos os grupos acima citados como ratos, vermes, fazem caricaturas onde seus narizes e cabeças são grandes, corpos desengonçados, dinheiro nas cuecas, dizendo que vivem uma vida de luxo e riqueza, que seus filhos são donos de meio mundo e enriqueceram nas costas do povo.
É óbvio que estamos vivendo no Brasil um momento histórico diferente do nazi-fascismo europeu. As diferenças práticas são gritantes: o Brasil está dividido ideologicamente, não vivemos uma sociedade militarizada, nem uma crise econômica, pelo menos não como pintado pela mídia. A direita não possui um líder, um führer, que tenha carisma suficiente para levar o país a tal regime totalitário.
Claro que aqui no Brasil não se que mandar os petistas para os campos de concentração, mas para as prisões. Claro que o sonho da direita brasileira não é matar os judeus, mas é um sonho separatista com relação ao Nordeste. Mas o antipetismo assume a forma da ideologia de um nazi-fascismo, com sua simplificação do mundo e a sua cooptação do cidadão-de-bem, do trabalhador. O modo como ele opera ideologicamente possui os mesmos mecanismos, a mesma lógica.
*Texto baseado na análise do nazi-fascismo de Slavoj Zizek e no filme O Guia Pervertido do Cinema (The Pervert’s Guide to Cinema, 2006).
Sugado do: http://www.sociedadepolitica.com.br/o-antipetismo-e-o-nazi-fascismo/

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Esse povinho que não sabe o seu lugar...


Ouço as mais esfarrapadas desculpas para o voto anti-PT.
"É preciso acabar com a corrupção."
"O Brasil está virando uma Venezuela."
"A vida piorou muito com o PT."
E por aí vai.
Sem ter, porém, o título de "cientista social" que alguns exibem para justificar arrazoados que não passam de peças publicitárias, ouso afirmar, com base apenas na percepção, que todas essas justificativas são totalmente falsas.
O fato é que a nossa classe média alta, os ricos e mesmo muitos da classe média, mas média mesmo, detestam o PT justamente pelo bem que as suas políticas sociais e econômicas fizeram ao país.
Explico melhor: o sentimento de classe social, de casta, é tão arraigado nessas pessoas, que elas não toleram que os mais pobres ascendam socialmente.

Quantos de nós já ouviu frases do tipo "aquele fulano não sabe o seu lugar"?
Ora, para quem rejeita qualquer tipo de mobilidade social, que foi criado numa casa ou apartamento com empregadas que dormiam naqueles cubículos abafados, à disposição de seus patrões 24 horas por dia, é inconcebível que essas pessoas ou os seus filhos tenham um emprego bem remunerado, estudem numa faculdade, frequentem e comprem em shopping centers, viajem nas férias - de avião! -, venham um dia a se tornar "doutores" - se é que já não são...
Isso, para quem nasceu e viveu na Casa Grande, com os negrinhos da senzala às suas ordens, é o fim do mundo.
Conheço algumas pessoas, muito bem de vida, que vão à missa todos os domingos, rezam, cantam e tecem louvores ao Senhor, ficam, durante alguns minutos, com o espírito imerso no sentimento de bondade e respeito ao próximo pregado por todas as religiões.
Mas que, fora do templo se recusam a pagar o salário mínimo e a registrar na carteira profissional a sua empregada doméstica.
Nem a lei cumprem.
E se sentem com a consciência tranquila depois que dão a algum pobre coitado uma roupa velha, fora de uso.
Essas pessoas não perderam nada nesta década em que o PT governa o país. 
A contrário, aumentaram seus rendimentos.
Vivem num país que finalmente começou a distribuir suas riquezas e a diminuir a ignóbil desigualdade que o envergonhava no mundo inteiro.
Sob o governo do PT milhões de miseráveis se tornaram pobres, milhões de pobres já estão remediados e a pequena quantidade de ricos ficou ainda mais rica. 
Não houve mudança para pior para quem estava no meio da pirâmide social. 
A única coisa que realmente se alterou foi que o preconceito - de todo o tipo - que essa gente guardava no fundo de sua alma, veio à tona quando a nova realidade social foi percebida.
"O PT está acabando com o Brasil."
Sim, está.
Aos poucos está acabando com um país no qual dezenas de milhões não sabiam que eram cidadãos, não sabiam sequer que tinham direitos.
E isso dói em quem sempre se acostumou a mandar, a ser o senhor.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/10/esse-povinho-que-nao-sabe-o-seu-lugar.html#more

sábado, 11 de outubro de 2014

A economia e o anti-petismo no centro das eleições de 1998 e 2014


Jornal GGN


"Artigo escrito por Luna Sassara, da equipe do Manchetômetro, testa a tese de que o viés da grande mídia não tem coloração partidária, mas é dependente em grande medida do estado geral da economia. Trata-se de um estudo comparado da cobertura feita pelo jornal Estado de S. Paulo em 1998, ano em que Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, concorria à reeleição, e em 2014, com Dilma Rousseff como candidata do PT. Seria a situação econômica a explicação por trás do viés da cobertura nesses dois pleitos? Qual era o desempenho da economia brasileira naquela época e como o Estadão tratou o candidato FHC? Essas e outras perguntas são respondidas com a leitura do artigo, que o GGN reproduz abaixo. 

É a economia, estúpido, ou não? A cobertura do Estão nos pleitos de 1998 e 2014

Por Luna de Oliveira Sassara, no Manchetômetro

No dia 10 de setembro, o Manchetômetro apresentou análises que comparavam a cobertura da mídia durante o período oficial de campanha da eleição de 1998, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pleiteava a reeleição, e durante a campanha deste ano, em que a presidenta Dilma Rousseff (PT) persegue o mesmo objetivo. A intenção do estudo comparativo é testar a tese do contrapoder, muito comumente aventada em debates sobre o papel da mídia. Segundo tal tese, a mídia cumpriria a função de se opor ao poder constituído, no caso, o candidato e partido que ocupa a presidência e pleiteia a reeleição, mantendo-o sob constante escrutínio. A comparação do Manchetômetro refuta a tese, contudo.

Agregando os dados dos jornais Folha, Estadão e O Globo, FHC teve uma proporção de notícias negativas para neutras menor do que 1 para 5, mais especificamente, de 19%. Dilma alcança até agora a marca de 80%, ou seja, de 4 negativas para cada 5 neutras. Assim, a grande imprensa é quatro vezes mais “contrapoder” no caso da candidatura do PT do que foi para a do PSDB em 1998. FHC também recebeu um número alto de matérias positivas, o que é algo raro nas coberturas de todas as eleições. Se comparadas às matérias neutras, as positivas recebidas por FHC chegam a 35%: 2 para 5. Na cobertura de 2014, Dilma teve somente 4 notícias positivas durante o período de campanha até o primeiro turno; pífios 2% de seu total de neutras. Ou seja, a grande mídia não só não foi contrapoder na eleição de 1998, mas foi francamente situacionista.

Mas é sempre possível argumentar, e algumas pessoas de fato o fazem, que essa diferença gritante nas coberturas se deve não a um viés da grande mídia, mas ao contexto econômico de cada eleição. Ora, não precisamos apelar para o chavão “It’s the economy, stupid!”, cunhado pelo assessor de Bill Clinton, James Carville, para reforçar o argumento de que a economia é assunto de máxima relevância eleitoral. Pois bem, nesse artigo testamos a hipótese econômica: o tratamento favorável dado a FHC em 1998 se deveu ao contexto econômico favorável, enquanto que, inversamente, o tratamento muito desfavorável recebido por Dilma no ano corrente é produto de ambiente econômico comparativamente pior. Digo comparativamente, pois não há sentido pensarmos em termos absolutos, já que o objetivo é poder avaliar os motivos por trás do comportamento da grande mídia.

Vamos nos restringir aqui ao enquadramento do tema economia no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1998, foram publicadas 50 chamadas de capa positivas, 76 negativas e 17 neutras sobre o tema durante o período eleitoral. Este ano foram 9 notícias positivas, 127 negativas e 23 neutras. Como se vê, os números de notícias negativas nas capas do Estadão sugerem que o desempenho econômico do Brasil naquela época fora consideravelmente melhor daquele alcançado este ano. A melhor maneira de comprovar a verossimilhança desta interpretação é estabelecer uma comparação entre os dois períodos baseada em alguns dos fatores mais relevantes do noticiário econômico, e que frequentam a fala dos economistas e jornalistas econômicos de plantão: inflação, desemprego, crescimento, taxa de juros e salário mínimo.

Comecemos pela inflação. Os índices inflacionários de 1998 foram os mais baixos de uma série de quedas constantes que teve início com a implantação do Plano Real: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano em 1,65 [1] e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), em 2,49. Na época, o governo federal ainda não adotava metas para inflação de modo que não se pode identificar se os números estavam dentro das expectativas para o ano, mas ainda assim, a inflação foi baixíssima. Ela foi tema de apenas uma chamada de capa durante a campanha de 1998, a manchete do dia 19/07: “Bird aconselha Brasil a manter inflação baixa”. Em 1999, o Banco Central passou a estabelecer metas para a inflação anual.

A meta de 2014, estabelecida já em 2012 [2], é de 4,5% com margem de dois pontos para mais ou para menos. Esse ano, a inflação tem sido o tema de maior destaque na cobertura econômica, estando presente em 9 textos de capa entre manchetes e chamadas, sendo sempre enquadrada como problema gravíssimo sobre o qual o governo federal parece não ter controle. O acumulado do IPCA até o mês de agosto está em 4,02 e o INPC em 4,11.

Conforme informou o Estadão no dia 29/09, o Banco Central previu que a inflação de 2014 deve ficar em 6,3%, próxima, portanto, do teto da meta. No entanto, a manchete da edição do dia 12/09, “Ata do BC vê inflação perto da meta só em 2016” – assim como o texto que a acompanha – não cita que a meta citada se trata, na verdade, do centro da meta. Também em outras edições, como o editorial “Inflação real e fantasia oficial” do dia 21/09, para citar apenas um exemplo, tratam a inflação como problema sobre o que o governo federal não consegue solucionar.

Um segundo tema importante no noticiário econômico é o desemprego, sobretudo durante esta campanha. O “avanço do desemprego”, segundo análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) na capa do dia 19/09, é classificado como um “sinal alarmante”, reflexo da “grave crise da indústria”. A Pnad divulgada na véspera indicara um aumento no índice de desemprego de 6,1 para 6,5%, o segundo menor desde 2002. Na campanha de 1998, o tema desemprego aparece somente em duas chamadas de capa. Uma delas o aponta como tema das eleições estaduais, a outra noticia o menor índice em seis meses. A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) indica que, curiosamente, em 1998 a taxa de desemprego nas áreas metropolitanas correspondia a 18,6% da PEA, enquanto em 2014, a taxa verificada no mês de junho foi de 10,8% [3]. Ou seja, o desemprego naquela época era quase o dobro do que é agora, mas, segundo a ótica editorial do Estadão, agora ele é problema e naquela época não era.

A questão do crescimento econômico é também muito relevante no noticiário. No ano de 1998, a variação do Produto Interno Bruto, ou seja, o crescimento da economia foi de 0,00%, um cenário de estagnação [4]. A palavra estagnação, no entanto, não foi usada nas capas do Estadão para definir o estado da economia. Já a palavra crescimento aparece 4 vezes: chamada aponta que o Ipea diminuiu a previsão de crescimento da economia; outra chamada identifica que o déficit impede o crescimento; a terceira relaciona estabilidade e crescimento; e a última identifica que o crescimento e o emprego constituem a “próxima etapa” da economia brasileira. Em 2014, a última previsão de crescimento do PIB de 2014, divulgada pelo governo no dia 22/09, foi de 0,9%. A palavra estagnação já apareceu três vezes nas capas do Estadão ligada a outras palavras como recessão, inadimplência e inflação. Outros adjetivos são também utilizados para definir a economia do país:
travada, freada, mau humorada, para citar alguns. Já a palavra crescimento aparece uma vez: “O que dificulta o crescimento” (10/08/2014). O jornal parece adotar dois pesos e duas medidas aqui também, pois só vê estagnação agora enquanto não a via em 1998, quando o PIB literalmente não crescia.

Agora, tratemos da taxa de juros. Em 1998, duas taxas de juros eram estabelecidas pelo Comitê de Política Monetária: a Taxa Básica do Banco Central (TBC), espécie de piso da taxa, e a Taxa de Assistência do Banco Central (TBAN), equivalente ao teto. Durante o período eleitoral de 1998 ocorreram três reuniões do Copom [5], a primeira no dia 29/07, diminuiu a TBC e a TBAN de 21,00% para 19,75% e de 28,00% para 25,75%, respectivamente. No dia seguinte, não houve nenhuma notícia na capa sobre a alteração: a manchete do dia 30 foi um elogio ao leilão de privatização da Telebrás que ocorrera na véspera. O editorial intitulado “A grande vitória do governo” tratou da mesma questão. A segunda reunião ocorreu no dia 02/09.

A TBC caiu para 19,00% e a TBAN aumentou para 25,49%. No dia seguinte, chamada de capa anuncia: “Juro cai pela 7ª vez no ano”. O texto abaixo da chamada esclarece, porém, que apesar do piso ter sido reduzido, o teto sofreu elevação. A elevação em questão não foi pouco significativa – 4 pontos – mas foi totalmente ignorada na chamada.

No dia 10/09, em sessão extraordinária, o Copom manteve o piso da taxa em 19,00%, mas aumentou o teto para 49,75%. O aumento emergencial da taxa após o “mais dramático dia para o Brasil desde o início da crise mundial”, marcado por queda de 15,83% na Bolsa de São Paulo foi o tema da manchete do dia 11: “Fuga de divisas cresce e juros vão a 49,7%”. Segundo o texto sob a manchete, para conter a fuga de divisas, a única alternativa ao aumento de juros seria a desvalorização do real, mas o governo teria optado pela estabilidade da moeda. A mesma notícia informa que o presidente Fernando Henrique havia dito que, por ele, os juros não aumentariam. Lê-se também que as principais bolsas do mundo também caíram. O editorial intitulado “O papel do Congresso na crise” chama os congressistas a assumir responsabilidade sobre a situação: “Há uma crise mundial, o Brasil é parte do mundo e o Congresso brasileiro é parte de quê?”

A TBAN foi extinta em 04/03/99, e a TBC substituída pelo Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, a taxa Selic. Durante o período eleitoral de 2014 houve duas reuniões do Copom. A primeira delas foi no dia 16/07, e a taxa foi mantida em 11,00%. No dia seguinte, análise apresentada na capa do Estadão indica que “elevar juros, no momento, é ação com potencial para conduzir a uma recessão”. A segunda reunião foi no dia 03/09 e a taxa foi, novamente, mantida. No dia 4, chamada de capa apenas informa sobre a decisão do Comitê.

O tema salário mínimo não esteve presente em nenhuma chamada de capa, nem no período eleitoral de 1998 nem de 2014. Mas, por se tratar de variante crucial para a compreensão da situação econômica do país, analisemos brevemente o tema. Em agosto 1998, o valor do salário mínimo nominal era R$130,00 quando o salário mínimo necessário para manter uma família de 4 pessoas (dois adultos e duas crianças), de acordo com o cálculo do DIEESE, era R$852,12. Ou seja, para atingir a renda necessária, o trabalhador precisaria ganhar aproximadamente 6,5 salários. Em agosto de 2014, o valor nominal é R$724,00 e o necessário R$ 2.861,55, ou seja, o salário mínimo necessário corresponde a 3,9 vezes o salário nominal.

Finalmente, se faz necessário um comentário especial sobre a cobertura do que foi, provavelmente, o dia mais importante para a economia brasileira no ano de 1998. No dia 23 de setembro, em um pronunciamento no Palácio do Itamaraty, o então presidente Fernando Henrique anunciou medidas econômicas drásticas que poderiam incluir aumento de impostos, diminuição de gastos, baixo crescimento econômico e um novo acordo com o FMI. No dia seguinte, a manchete: “FHC convoca nação para ajuste fiscal”. Nesta situação de crise extrema, com juros já altíssimos e a iminência de um novo empréstimo com o FMI, a capa do jornal o Estado de São Paulo expõe o apelo do presidente à nação e aos estados, municípios, bem como aos Poderes Legislativo e Judiciário para a solução da crise. Também o editorial do dia elogia a atitude do presidente que “assumiu o comando político do programa de combate à crise”, ainda que com atraso devido ao seu envolvimento na campanha eleitoral.

A análise apresentada até aqui demonstra que, com exceção da inflação, outros aspectos da economia de 1998 eram bem menos favoráveis que os de 2014. Como explicar, então, a cobertura tão negativa da economia brasileira na campanha atual? Uma coisa é certa, ela está de acordo com o viés anti-PT e anti-Dilma que a análise do MANCHETÔMETRO detecta na cobertura do Estado de S. Paulo, dos outros dois jornais impressos e do Jornal Nacional. A escolha discricionária de matérias (agendamento) e a interpretação tendenciosa de fatos (enquadramento) caracterizam a cobertura da economia no Estadão, espelhando o viés que identificamos na cobertura política.

[1] Disponível em:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/ipc... – Acesso em 28/09/2014.
[2] Resolução nº 4.095, de 28 de junho de 2012. Disponível em:http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/res/2012/pdf/res_4095_v1_O.pdf – Acesso em 28/09/2014.
[3] Disponível em: http://www.dieese.org.br/analiseped/2014/201406pedmet.pdf – Acesso em 28/09/2014.
[4] Disponível em:http://www.mme.gov.br/sgm/galerias/arquivos/plano_duo_decenal/estudos_ec... – Acesso em 28/09/2014.
[5] Disponível em: http://www.bcb.gov.br/Pec/Copom/Port/taxaSelic.asp – Acesso em 29/10/2014.