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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Como foi inventado o povo judeu



Embora crescentemente desmentidos pela arqueologia, pela genética e pela historiografia séria, os mitos de que se alimenta o sionismo continuam a constituir a base em que assenta a reivindicação de legitimidade do estado etnocrático, confessional, racista e colonialista de Israel. O «Estado do Povo Judeu» assume-se como democrático. Mas a realidade nega a lei fundamental aprovada pelo Knesset. Não pode ser democrático um Estado que trata como párias de novo tipo 20 % da população do país, um Estado nascido de monstruoso genocídio em terra alheia, um Estado cuja prática apresenta matizes neofascistas.

Uma chuva de insultos fustigou em Israel Shlomo Sand quando publicou um livro cujo título - «Como foi inventado o povo judeu” * - desmonta mitos bíblicos que são cimento do Estado sionista de Israel.
Professor de Historia Contemporânea na Universidade de Tel- Aviv, ele nega que os judeus constituam um povo com uma origem comum e sustenta que foi uma cultura especifica e não a descendência de uma comunidade arcaica unida por laços de sangue o instrumento principal da fermentação proto-nacional.
Para ele o «Estado judaico de Israel», longe de ser a concretização do sonho nacional de uma comunidade étnica com mais de 4 000 anos, foi tornado possível por uma falsificação da história dinamizada no seculo XIX por intelectuais como Theodor Herzl.
Enquanto académicos israelenses insistem em afirmar que os judeus são um povo com um ADN próprio, Sand, baseado numa documentação exaustiva, ridiculariza essa tese acientífica.
Não há aliás pontes biológicas entre os antigos habitantes dos reinos da Judeia e de Israel e os judeus do nosso tempo.
O mito étnico contribuiu poderosamente para o imaginário cívico. As suas raízes mergulham na Bíblia, fonte do monoteísmo hebraico. Tal como a Ilíada, o Antigo Testamento não é obra de um único autor. Sand define a Bíblia como «biblioteca extraordinária» que terá sido escrita entre os séculos VI e II antes da Nossa Era. O mito principia com a invenção do «povo sagrado» a quem foi anunciada a terra prometida de Canaã.
Carecem de qualquer fundamento histórico a interminável viagem de Moisés e do seu povo rumo à Terra Santa e a sua conquista posterior. Cabe lembrar que o actual território da Palestina era então parte integrante do Egipto faraónico.
A mitologia dos sucessivos exílios, difundida através dos séculos, acabou por ganhar a aparência de verdade histórica. Mas foi forjada a partir da Bíblia e ampliada pelos pioneiros do sionismo.
As expulsões em massa de judeus pelos Assírios são uma invencionice. Não há registo delas em fontes históricas credíveis.
O grande exilio da Babilónia é tão falso como o das grandes diásporas. Quando Nabucodonosor tomou Jerusalém destruiu o Templo e expulsou da cidade um segmento das elites. Mas a Babilonia era há muito a cidade de residência, por opção própria, de uma numerosa comunidade judaica. Foi ela o núcleo da criatividade dos rabinos que falavam aramaico e introduziram importantes reformas na religião mosaica. Sublinhe-se que somente uma pequena minoria dessa comunidade voltou à Judeia quando o imperador persa Ciro conquistou Jerusalém no séc. VI antes da Nossa Era.
Quando os centros da cultura judaica de Babilonia se desagregaram, os judeus emigram para a Bagdad abássida e não para a «Terra Santa».
Sand dedica atenção especial aos «Exílios» como mitos fundadores da identidade étnica.
As duas «expulsões» dos judeus no período Romano, a primeira por Tito e a segunda por Adriano, que teriam sido o motor da grande diáspora, são tema de uma reflexão aprofundada pelo historiador israelense.
Os jovens judeus aprendem nas escolas que «a nação judaica» foi exilada pelos Romanos apos a destruição do II Templo por Tito em 70, e posteriormente, por Adriano, em 132. Por si só o texto fantasista de Flavius Joseph, testemunha da revolta dos zelotas, retira credibilidade a essa versão, hoje oficial.
Segundo ele, os romanos massacraram então 1 100 000 judeus e prenderam 97 000.Isso numa época em que a população total da Galileia era segundo os demógrafos atuais muito inferior a meio milhão…
As escavações arqueológicas das últimas décadas em Jerusalém e na Cisjordânia criaram aliás problemas insuperáveis aos universitários e teólogos sionistas que «explicam» a história do povo judeu tomando a Torah e a palavra dos Patriarcas como referências infalíveis.
Os desmentidos da arqueologia perturbaram os historiadores. Ficou provado que Jericó era pouco mais do que uma aldeia sem as poderosas muralhas que a Bíblia cita. As revelações sobre as cidades de Canaã alarmaram também os rabinos. A arqueologia moderna sepultou o discurso da antropologia social religiosa.
Em Jerusalém não foram encontrados sequer vestígios das grandiosas construções que segundo o Livro a transformaram no seculo X, a época dourada de David e Salomão, na cidade monumental do «povo de Deus» que deslumbrava quantos a conheceram. Nem palácios nem muralhas, nem cerâmica de qualidade.
O desenvolvimento da tecnologia do carbono 14 permitiu uma conclusão. Os grandes edifícios da região Norte não foram construídos na época de Salomão, mas no período do reino de Israel.
«Não existe na realidade nenhum vestígio - escreve Shlomo Sand - da existência desse rei lendário cuja riqueza é descrita pela Bíblia em termos que fazem dele quase o equivalente dos poderosos reis da Babilonia e da Pérsia». «Se uma entidade política existiu na Judeia do seculo X antes da Nossa Era, acrescenta o historiador, somente poderia ser uma microrealeza tribal e Jerusalém apenas uma pequena cidade fortificada».
É também significativo que nenhum documento egípcio refira a «conquista» pelos judeus de Canaã, território que então pertencia ao faraó.
O SILENCIO SOBRE AS CONVERSÕES
A historiografia oficial israelense, ao erigir em dogma a pureza da raça, atribui a sucessivas diásporas a formação das comunidades judaicas em dezenas de países.
A Declaração de Independência de Israel afirma que, obrigados ao exilio, os judeus esforçaram-se ao longo dos seculos por regressar ao país dos seus antepassados.
Trata-se de uma mentira que falsifica grosseiramente a História.
A grande diáspora é ficcional, como as demais. Após a destruição de Jerusalém e a construção de Aelia Capitolina somente uma pequena minoria da população foi expulsa. A esmagadora maioria permaneceu no país.
Qual a origem então dos antepassados de uns 12 milhões de judeus hoje existentes fora de Israel?
Na resposta a essa pergunta, o livro de Shlomo Sand destrói simultaneamente o mito da pureza da raça, isto é da etnicidade judaica.
Uma abundante documentação reunida por historiadores de prestígio mundial revela que nos primeiros séculos na Nossa Era houve maciças conversões ao judaísmo na Europa, na Asia e na Africa.
Três delas foram particularmente importantes e incomodam os teólogos israelenses.
O Alcorão esclarece que Maomé encontrou em Medina, na fuga de Meca, grandes tribos judaicas com as quais entrou em conflito, acabando por expulsá-las. Mas não esclarece que no extremo Sul da Península Arábica, no atual Iémen, o reino de Hymar adotou o judaísmo como religião oficial. Cabe dizer que chegou para ficar. No seculo VII o Islão implantou-se na região, mas, transcorridos treze seculos, quando se formou o Estado de Israel, dezenas de milhares de iemenitas falavam o árabe, mas continuavam a professar a religião judaica. A maioria emigrou para Israel onde, aliás, é discriminada.
No Imperio Romano, o judaísmo também criou raízes, mesmo na Itália. O tema mereceu a atenção do historiador Díon Cassius e do poeta Juvenal.
Na Cirenaica, a revolta dos judeus da cidade de Cirene exigiu a mobilização de várias legiões para a combater.
Mas foi sobretudo no extremo ocidental da África que houve conversões em massa à religião rabínica. Uma parcela ponderável das populações berberes aderiu ao judaísmo e a elas se deve a sua introdução no Al Andalus.
Foram esses magrebinos que difundiram na Península o judaísmo, os pioneiros dos sefarditas que, apos a expulsão de Espanha e Portugal, se exilaram em diferentes países europeus, na Africa muçulmana e na Turquia.
Mais importante pelas suas consequências foi a conversão ao judaísmo dos Khazars, um povo nómada turcófono, aparentado com os hunos, que, vindo do Altai, se fixou no seculo IV nas estepes do baixo Volga.
Os Khazars, que toleravam bem o cristianismo, construíram um poderoso estado judaico, aliado de Bizâncio nas lutas do Império Romano do Oriente contra os Persas Sassânidas.
Esse esquecido império medieval ocupava uma área enorme, do Volga à Crimeia e do Don ao atual Uzbequistão. Desapareceu da Historia no seculo XIII quando os Mongóis invadiram a Europa, destruindo tudo por onde passavam. Milhares de Khazars, fugindo das Hordas de Batu Khan, dispersaram-se pela Europa Oriental. A sua principal herança cultural foi inesperada. Grandes historiadores medievalistas como Renan e Marc Bloch identificam nos Kahzars os antepassados dos asquenazes cujas comunidades na Polonia, na Rússia e na Roménia viriam a desempenhar um papel fulcral na colonização judaica da Palestina.
UM ESTADO NEOFASCISTA
Segundo Nathan Birbaum,o intelectual judeu que inventou em 1891 o conceito de sionismo, é a biologia e não a língua e a cultura quem explica a formação das nações. Para ele, a raça é tudo. E o povo judeu teria sido quase o único a preservar a pureza do sangue através de milénios. Morreu sem compreender que essa tese racista, a prevalecer, apagaria o mito do povo sagrado eleito por Deus.
Porque os judeus são um povo filho de uma cadeia de mestiçagens. O que lhes confere uma identidade própria é uma cultura e a fidelidade a uma tradição religiosa enraizada na falsificação da Historia.
Nos passaportes do Estado Judaico de Israel não é aceite a nacionalidade israelense. Os cidadãos de pleno direito escrevem «judeu». Os palestinos devem escrever «árabe», nacionalidade inexistente.
Ser cristão, budista, mazdeísta, muçulmano, ou hindu resulta de uma opção religiosa, não é nacionalidade. O judaísmo também não é uma nacionalidade.
Em Israel não há casamento civil. Para os judeus, é obrigatório o casamento religioso, mesmo que sejam ateus.
Essa aberração é inseparável de muitas outras num Estado confessional, etnocracia liberal construída sobre mitos, um Estado que trocou o yiddish, falado pelos pioneiros do «regresso a Terra Santa», pelo sagrado hebraico dos rabinos, desconhecido do povo da Judeia que se expressava em aramaico, a língua em que a Bíblia foi redigida na Babilónia e não em Jerusalém.
O «Estado do Povo Judeu» assume-se como democrático. Mas a realidade nega a lei fundamental aprovada pelo Knesset. Não pode ser democrático um Estado que trata como párias de novo tipo 20% da população do país, um Estado nascido de monstruoso genocídio em terra alheia, um Estado cuja prática apresenta matizes neofascistas.
O livro de Shlalom Sand sobre a invenção do Povo Judeu é, além de um lúcido ensaio histórico, um ato de coragem. Aconselho a sua leitura a todos aqueles para quem o traçado da fronteira da opção de esquerda passa hoje pela solidariedade com o povo mártir da Palestina e a condenação do sionismo.
Vila Nova de Gaia, 31 de Dezembro de 2012
*Shlomo Sand, «Comment fut inventé le peuple juif» Flammarion, Paris 2010

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Religiões no nascimento da propaganda

Para se compreender a gênese do processo de propaganda e contrapropaganda é bom se entender um pouco da formação do novo testamento. Os judeus provavelmente tenham sido o povo que primeiro usaram o espírito da ideia de que "a propaganda é a alma do negócio".
A bíblia, ainda hoje, é a peça de propaganda de maior sucesso da história da humanidade, nem mesmo Hollywood foi tão eficaz em disseminar os valores, costumes e moral de um povo.
No estudo deste processo é preciso voltar ao século primeiro depois de cristo, uma época em que o poder militar do império romano sufocava todo mundo ocidental: oriente baixo (Síria e Turquia), gauleses, britânicos, gregos, egipicios e judeus. Aos romanos não bastava a conquista, era necessário submeter e humilhar os conquistados. Emblemático desta situação eram as estátuas erigidas pelos romanos nos centros de suas conquistas, como a clássica estátua de um poderoso guerreiro, representando Roma, submetendo uma fêmea frágil que representava o conquistado. Diante do avassalador poderio militar romano restava aos conquistados apenas o lento processo de propaganda anti-romana, e, provavelmente, os melhores propagandistas da época foram os judeus.
A maior peça de propaganda anti-romana foi o livro da revelação ou o livro do apocalipse de João (não o apóstolo). No ano de 66 d.c. houve uma sublevação na Judeia que foi reprimida com enorme crueldade e violência pelas tropas do imperador Nero. Entre os poucos judeus que escaparam do massacre estava o profeta João que se exilou no oriente baixo, provavelmente Turquia. Em conjunto com turcos, gregos e sírios, João iniciou a criação de documentos apócrifos que tinham como motivação a propaganda anti-romana.
O apocalipse surge de uma ideia radical. Os livros da revelação tinham origem egípcia e babilônica e a finalidade era fundamentar o divino na nova era, João, o profeta judeu, admite a impossibilidade dos povos conquistados em suplantar Roma no plano militar e passa a pregar o fim do mundo e o surgimento do reino de Cristo, numa alusão à queda do império romano. Simbolismos e arquétipos persistentes até os dias de hoje, como o número 666 o da "besta", tem origem no apocalipse e são alusão ao ano de 66 d.c. e a "besta" não seria outro senão Nero. Rogar pragas já fazia muito sucesso naquela época e há passagens particularmente terríveis no Apocalipse que dão uma noção da angústia e da vontade de vingança dos povos conquistados, como a passagem onde João anuncia o retorno de Cristo que acorrentaria a "besta" (Nero) e o aprisionaria num lago de angústias e aflições por milhares de anos.
O sucesso dos panfletos apócrifos é tamanho que por volta de 312 d.c. o imperador Constantino deixa de confrontar o cristianismo diretamente e inventa a contrapropaganda.
Assume o cristianismo como religião oficial do império, cria a igreja católica com sede em Roma. A igreja católica passa, então, a ser o órgão oficial de censura aos panfletos apócrifos. Com a edição de seus canônes, a igreja católica determina quais documentos apócrifos podem ser publicados. Não seria exagero imaginar que o novo testamento não passa de uma resenha dos documentos autorizados pelo império romano através da sua igreja, já que nem mesmo os próprios judeus jamais assumiram o cristianismo e a bíblia hebraica ainda é uma peça sectária do ortodoxismo judeu .
Aspectos deste processo de propaganda e contraproganda podem ser reconhecidos na mídia contemporânea. Um estudo detalhado tem sido realizado pela professora de religião da universidade de Priceton, Elaine Pagels. Neste site (em inglês), Elaine oferece uma panorâmica do livro da revelação do profeta João.
Marcelo Castro
No Advivo

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Nabi Saleh - 13-5-2011

Soldados israelenses impedem, com violência e arrogância, que moradores palestinos da aldeia de Nabi Saleh andem por suas terras que foram roubadas pelos colonos judeus do assentamento Hallamish.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Pesadelo sionista: Israel nunca foi, não é e jamais será um Estado judeu


Um dos maiores mitos já disseminados na mídia internacional e, inclusive, nos meios acadêmicos, é definir Israel como “Estado judeu” (motivo pelo qual uso aspas sempre que escrevo a referida alcunha).
Israel jamais foi, não é e jamais será um Estado judeu.
Até porque é pouco provável que governo e população do Estado de Israel sigam os princípios do judaísmo.
Não surpreende, portanto, que a maioria dos judeus (ou aqueles que afirmam ser judeus) prefira viver fora do Estado que, a princípio, deveria protegê-los.
A despeito das questões éticas e morais, a realidade demográfica (Demografia é uma ciência maldita, banida da academia, especialmente no Oriente Médio, inclusive no mundo árabe) insiste refutar este mito.
Proporcionalmente, há mais árabes em Israel (cerca de 1.500.000 ou 20,1% da população israelense dentro das fronteiras de 1967,) do que curdos no Iraque (17%) e negros nos EUA (13%), só para termos de comparação.