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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Fascismo nos EUA? Combata o Racismo com Socialismo!


John Peterson
Com a escolha de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América, os gritos de “fascismo” estão ecoando. No entanto, como veremos, embora Donald Trump seja um empresário grosseiro, fanático e bilionário, ele não é um fascista. O segredo de sua vitória não está na montagem de um movimento de massas para chegar ao poder, mas na falta de fôlego da política do mal menor dos líderes sindicais e da “esquerda”. Sem nenhuma alternativa de classe independente proporcionada pelos sindicatos ou Bernie Sanders, os estadunidenses, sem inspiração, permaneceram em casa em massa, e a balança da vitória foi entregue a Trump pelos trabalhadores do cinturão da ferrugem, cansados das décadas de traições dos Democratas.
A verdadeira lição da eleição de 2016 é que a classe trabalhadora necessita de seu próprio partido. Milhões de pessoas nos estados golpeados pela crise capitalista queriam um “populista” e somente os Republicanos tinham um para oferecer (contra a sua própria vontade). O real significado por trás do termo um tanto desdenhoso e insultante de “populismo”, está o fato de que milhões de pessoas comuns – isto é, trabalhadores, que constituem a vasta maioria desta sociedade – queriam uma mudança real e fundamental. Eles querem empregos para todos, saúde, educação, assistência à infância, infraestrutura, segurança, uma semana de trabalho mais curta e uma melhor qualidade de vida para eles mesmos e seus entes queridos. Eles querem o fim do controle de suas vidas pelas grandes empresas e pelos políticos profissionais.
A raiva contra o status quo está se expressando de diferentes formas. Aproximadamente a metade de todos os eleitores abstiveram-se completamente de votar. Outros escreveram nas cédulas o nome de Bernie Sanders ou votaram por um candidato de algum terceiro partido. Outros votaram por Trump, apesar de sua retórica racista, incluindo 29% de latinos e 53% de mulheres brancas. Para esses eleitores, a promessa de Trump de empregos e estabilidade econômica superou todas as outras considerações. Não surpreende que, dada a história peculiar e as contradições desse país, e sem uma clara direção dos líderes sindicais, muitos estadunidenses tenham caído sob o domínio dos racistas.
A luta contra o racismo
Ao flagelo do racismo, sempre presente logo abaixo da superfície da sociedade estadunidense, foi dada uma canalização e uma legitimação não vista há décadas. Suásticas apareceram por todo o país; alunos cantando “construa um muro!” provocaram seus colegas latinos; mulheres muçulmanas usando hijabs foram agredidas verbal e fisicamente; a KKK anunciou uma parada da vitória na Carolina do Norte; o ex-Grande Mago da KKK, David Duke, considerou a vitória de Trump como “o melhor dia de sua vida”; e os campos de internamento de Japoneses-Americanos durante II Guerra Mundial receberam referências positivas como um “precedente” para o futuro.
A raiva já se transformou em ação e desafio. Mas, para muitos, também há uma sensação de presságio. Nem todos que derramaram lágrima sobre o resultado da eleição são apologistas de Clinton e da ala liberal da classe capitalista. Milhões de imigrantes, de muçulmanos, de pessoas LGBT, de inválidos e outras pessoas atingidas durante a campanha de Trump, temem por seu futuro, por sua segurança, e mesmo por suas vidas. Para coisas tão traumatizantes, há mais do que um consolo. A experiência de vida é o professor mais eficaz e agora está cristalinamente claro para milhões de pessoas que, se quisermos um mundo melhor, teremos de nos envolver e lutar por nós mesmos.
Racismo, xenofobia e sexismo são coisas terríveis de constatar e testemunhar. A intolerância é um veneno desumano e corrosivo que rompe a unidade da classe trabalhadora como nada mais. Os Marxistas defendem genuína igualdade para todos e estão na linha de frente da luta contra todas as formas de discriminação. Entendemos que a raiz do fanatismo está na desigualdade material que resulta das divisões de classe inerentes ao capitalismo.
A humanidade possui os recursos e o know-how para construir um mundo de superabundância. Mas, sob o capitalismo, com sua economia de mercado, com sua implacável busca de lucros e a propriedade das alavancas e chaves da produção nas mãos de um minúsculo punhado da população, somos impedidos de alcançar nosso pleno potencial. Não se trata da impossibilidade de produzir suficientes meios de consumo, mas de que não há demanda suficiente no mercado para esses produtos serem vendidos com lucro. Essa  escassez artificial, por sua vez, é utilizada pela classe dominante, para nos lançar uns contra os outros, lutar pelas sobras, culpar uns aos outros, em vez de culpar o sistema por nossa miséria.
Infelizmente muitos na “esquerda”, que se limitam às soluções dentro das fronteiras do capitalismo, também caem nessa armadilha. Para eles a solução é propor, por exemplo, que os trabalhadores “brancos”, “masculinos”, deveriam se contentar com menos para “dar espaço aos outros” – isto é, que a sociedade deveria simplesmente dividir a pobreza imposta pelo capitalismo de forma diferente. Não nos deve surpreender que as pessoas normais, sem importar os seus antecedentes, resistam a isso para proteger ao que é “seu”: suas famílias, seus entes queridos, sua “raça”, seu “gênero”, religião e assim por diante.
O capitalismo não tem mais um papel historicamente útil a desempenhar na organização da sociedade humana. Nos países mais ricos do planeta, somente se pode utilizar 75% da capacidade industrial existente, força-se milhões de pessoas a tolerar a ociosidade forçada do desemprego e permite-se que milhões de pessoas em todo o mundo morram de fome, enquanto os fazendeiros são pagos para não cultivar e encher os armazéns com produtos “invendáveis”. Ao aproveitar todo o potencial produtivo da sociedade, podemos proporcionar empregos para todos, saúde e educação, reduzir a jornada de trabalho e elevar o nível de vida de todos. Em vez de lutar pelas sobras, haveria mais do que o suficiente para ir em frente e a base material da intolerância seria profundamente minada. Sem terreno fértil para apodrecer, a intolerância desapareceria à medida em que as novas gerações criadas em um mundo sem escassez ou necessidades tomassem o lugar daquelas marcadas por sua experiência sob o capitalismo. Por esta razão, dizemos: para combater o racismo, combata o capitalismo!
Contudo, não podemos simplesmente esperar até que comecemos a construir o socialismo para enfrentar este problema. Derrotar o estado centralizado e os vastos recursos dos capitalistas somente será possível na base da máxima unidade da classe trabalhadora. Essa unidade somente pode ser forjada no calor da luta comum contra nossos opressores comuns. Será no curso dessas  lutas que o poder da unidade dos trabalhadores será experimentado na ação, e não apenas teorizado. A verdadeira solidariedade exige uma liderança audaz e uma vontade de lutar até o fim, não de meras palavras. O movimento dos trabalhadores deve ir além das denúncias do racismo em discursos. Deve romper com ambos os partidos dos patrões e lutar pelos interesses de todos os trabalhadores em cada local de trabalho, bairro e campus, bem como nas votações através de nosso próprio partido independente de classe. Devemos usar as armas da classe trabalhadora, comprovadas e respeitadas pelo tempo: manifestações de massas, ocupações de locais de trabalho, greves, bem como greves-gerais econômicas e políticas.
Como disse Fred Hampton dos Panteras Negras: “Dizemos que não se luta contra o racismo, com racismo. Lutaremos contra o racismo com solidariedade. Dizemos que não se luta contra o capitalismo com capitalismo negro; luta-se contra o capitalismo com socialismo!”.
É fascista os EUA de Trump?
Superficialmente, pode-se apresentar uma grande quantidade de “evidências” para provar que os EUA agora são fascistas contudo, meramente assegurando algo não o torna assim. O mesmo foi dito de Nixon, Reagan e os dois Bush. Hipóteses superficiais podem ser feitas para tudo. Nossa tarefa é a de ir além das aparências superficiais para entendermos as contradições e processos reais da sociedade. Os Marxistas insistem na precisão científica de nossas análises a fim de lutarmos de forma mais efetiva contra nossos opressores.
O fascismo surgiu historicamente na Itália, na Alemanha e na Espanha devido ao impasse total do capitalismo e ao fracasso de várias tentativas de revolução socialista. Devido a sua liderança colaboracionista de classe, a classe trabalhadora italiana, alemã e espanhola perdeu várias oportunidades de tomar o poder e transformar a sociedade. Em cada um desses casos, um “homem forte” emergiu para preencher o vácuo de poder com uma forma peculiar de ditadura militar “Bonapartista”.
O que tornou o fascismo diferente de uma ditadura militar “normal” foi a base de apoio de massa proporcionada pela “pequena burguesia enraivecida” – pequenos lojistas, profissionais liberais, camponeses de porte médio e seus filhos nas universidades. Nas décadas de 1920 e 1930, essa gente constituía uma camada muito maior da sociedade do que constitui hoje. Desesperadas por escapar do moinho da crise e sem uma liderança da classe trabalhadora, essas camadas “médias” estavam dispostas a tentar qualquer coisa. Quadrilhas de bandidos foram mobilizadas para esmagar os sindicatos dos trabalhadores, os partidos comunistas e socialistas, e o bode expiatório racista foi utilizado para desviar a atenção da fonte capitalista da crise.
Algumas pessoas pensam que algo similar está acontecendo hoje. Mas similar não é necessariamente o mesmo – existem muitas e decisivas diferenças. O capitalismo hoje está de fato em crise grave, mas ainda não está ameaçado de derrubada imediata pela classe trabalhadora. A classe dominante preferia Clinton, mas mesmo assim ainda tem um controle firme sobre o poder político e econômico. Isso é possível, sobretudo devido à atual liderança sindical, que não oferece nada além do fracassado beco sem saída do mal menor.
No entanto, apesar do declínio numérico dos sindicatos durante as últimas décadas, o trabalho organizado continua a ser uma poderosa e decisiva força potencial. Do transporte e das comunicações à educação e à saúde, os trabalhadores sindicalizados detêm tremendo poder em suas mãos. Os sindicatos não foram ilegalizados, desmantelados ou intimidados pela violência. A classe trabalhadora, em geral, ainda pode não estar organizada, mas acima de 100 milhões de estadunidenses são assalariados e, junto com suas famílias e dependentes, constituem a vasta maioria da população.
São precisamente as mudanças demográficas que ocorreram nos últimos 80 anos, que tornaram improdutivos os recorrentes gritos de “fascismo!”. A maioria dos estadunidenses, incluindo aqueles que vivem nas áreas rurais mais conservadoras, são da classe trabalhadora. O número de granjas nos EUA caiu de 6 milhões, em 1935, a apenas 2 milhões hoje. Embora ainda existam muitas granjas pequenas, as granjas corporativas massivas expulsaram os agricultores médios dos pilares sociais da reação fascista. Longe da nação Jeffersoniana de “pequenos camponeses independentes”, os 10% das maiores granjas agora representam 70% das terras de cultivo. Apesar das ilusões de uma passada “Era de Ouro” permanecerem, elas estão sendo rapidamente dizimadas na prática e, finalmente, as questões centrais de classe estão cada vez mais à frente.
As profissões, como as de caixa de bancos, professores e até mesmo muitos médicos, foram proletarizadas a tal ponto que a maioria delas se identifica mais com a classe trabalhadora do que com os super-ricos. Muitos estão agora organizados em sindicatos e associações profissionais e são ativos no movimento organizado dos trabalhadores. Quanto aos proprietários de pequenas empresas, esmagados pelos grandes bancos, fabricantes e importadores, muitos apoiaram Trump e seu populista “Make America Great” por causa de seu retórico “Lutarei pelo cara pequeno!”. O êxito de Sanders nas primárias e cáucuses, mostra que seu apelo por uma “revolução política contra a classe bilionária” poderia ter ganho muitos deles na eleição geral se ele tivesse concorrido como independente. E os campi, que antes eram focos de reação e fascismo – uma vez que a maioria dos estudantes vinham das fileiras dos ricos – agora estão inundados com os filhos profundamente endividados dos trabalhadores.
Então, há indivíduos e grupos fascistas nos EUA hoje, inclusive no governo? Existem pequenos grupos de pequenos burgueses irados e milícias de direita armadas? Se a classe trabalhadora estadunidense fracassar em derrubar o capitalismo e se exaurir, através de seus esforços revolucionários no próximo período, é possível que alguma forma de ditadura militar se imponha? Absolutamente. Mas a base social do fascismo como tal, já não existe, e um período de reação pura e simples, não está na agenda em futuro previsível.
Os que desejarem explorar esta questão com mais profundidade devem se remeter à obra do grande revolucionário Leon Trotsky, que ofereceu uma série de brilhantes ideias sobre a origem e gênese do fascismo, resumidas nesse breve artigo de Fred Weston. Também trabalhamos sobre a questão de Trump, fascismo e outras coisas no artigo What Trump is and How to Fight Him, escrito antes da eleição.
Nenhum mandato!
Donald Trump é uma miserável mediocridade selecionada por meio de um sistema eleitoral obsoleto que se apoia num modo de produção senil e decrépito. Foi eleito por menos de 25% da população em idade de votar e por uma minoria de eleitores reais. Ele será incapaz de cumprir plenamente a maioria de suas promessas e sua base de apoio logo ficará inquieta – especialmente quando a próxima e inevitável crise econômica começar. Em consequência, ele será forçado a se apoiar nas camadas da sociedade mais confusas, atrasadas, racistas e misóginas, para desviar a atenção das questões reais e manter alguma aparência de apoio.
Mas a juventude não vai tolerar isso, particularmente depois da experiência de Black Lives Matter. Desde o assassinato de Mike Brown, o papel da brutalidade policial na defesa dos interesses da classe dominante passou a ser entendido por amplas camadas da juventude. Os protestos espontâneos contra Trump mostram o espírito de luta dessa camada, e isto é só o começo.
Se o fascismo realmente tomou o galinheiro, The Donald não estaria tuitando sobre protestos “injustos” que convergem para a Trump Tower perseguindo-o por todos os lugares onde ele vai. Em vez disso, quadrilhas armadas apoiadas pela polícia teriam limpado as ruas, as turbas de linchamento estariam destroçando as lojas dos imigrantes e os escritórios sindicais, os cadáveres de líderes trabalhistas e esquerdistas estariam empilhados nos necrotérios e a lei marcial manteria cada cidade importante do país em estado de sítio. Isso, obviamente, não aconteceu e não acontecerá em nenhum momento em futuro próximo.
O fato simples é que há mais trabalhadores que capitalistas. Toda a polícia do país não poderia submeter Nova Iorque e Los Angeles por muito tempo no momento em que os trabalhadores começassem a se mover – e muito menos nas mais de 100 cidades dos EUA com populações de meio milhão ou mais de habitantes. O equilíbrio de forças de classe não é nada favorável aos capitalistas e é, precisamente por isso, que eles querem evitar um confronto aberto com a classe trabalhadora. Devem, em vez disso, confiar na austeridade gotejante, no jogo político, nas táticas de “divide e vencerás” e na liderança sindical para fazer o trabalho sujo. Mas as leis da luta de classes acabarão se afirmando, mesmo nos Estados Unidos.
O caminho a seguir
A verdade é que os EUA não são mais racistas, sexistas e homofóbicos do que era antes da eleição. Como explicou Malcolm X, “Não se pode ter capitalismo sem racismo”. O lixo meramente flutuou na superfície. Agora que ele está emergindo, lutaremos com todas as ferramentas que estãoà nossa disposição e, acima de tudo, com a arma mais poderosa de todas: a luta para unir a classe trabalhadora contra o capitalismo.
A maioria das pessoas não sabe que a Grã-Bretanha também viu a ascensão de um movimento fascista nos anos prévios à II Guerra Mundial. Oswald Mosley e suas tropas de choque de “camisas negras” esperavam seguir na esteira de Hitler e Mussolini. Mas os trabalhadores britânicos levaram a sério o conselho de Trotsky – de que eles podiam “esfregar as caras dos fascistas no chão”. Na Batalha de Cable Street, os trabalhadores unidos construíram barricadas e cortaram a ameaça da reação através da ação de massa. Isso cortou a ameaça de fascismo na Grã-Bretanha , na raiz. Em 1948, Ted Grant escreveu uma brilhante peça sobre o fascismo em que explica essa experiência em grandes detalhes.
Sejamos claros: os Marxistas não estão a favor da violência. Entendemos que, uma vez que a classe trabalhadora perceba sua própria força, nada em cima da Terra pode detê-la. Em consequência, uma revolução pacífica e incruenta é inteiramente possível. No entanto, não ficaremos de braços cruzados enquanto nossas irmãs e irmãos são insultados, humilhados, assaltados, assassinados ou levados ao suicídio. O movimento dos trabalhadores deve enfrentar qualquer violência ou ameaça de violência com o poder esmagador da unidade da classe trabalhadora, até com greves de solidariedade e com a formação de uma guarda armada de autodefesa dos trabalhadores para nos proteger e aos nossos irmãos e irmãs de classe.
A classe trabalhadora estadunidense terá muitas oportunidades para dar um fim a esse sistema antes que o perigo da reação em massa levante sua cabeça. Condições semelhantes levam a resultados semelhantes, e os EUA não são imunes à revolução. A crise do capitalismo acabará por conduzir a uma luta combinada dos trabalhadores. Basta uma greve vitoriosa para mudar toda a aparência e o estado de ânimo do movimento dos trabalhadores e desencadear uma luta tormentosa. Mas, por mais importante que seja lutar contra este ou aquele patrão ou político, isso não é suficiente. O que necessitamos é de uma revolução.
Uma revolução representa a luta unida de toda a classe trabalhadora contra o poder concentrado de toda a classe capitalista. Mas o êxito da revolução não está garantido antecipadamente, não importa quantos sacrifícios façam os trabalhadores. A lição do século XX é que tudo depende do tipo de liderança que esteja à cabeça das organizações dos trabalhadores, uma vez começado o confronto decisivo. É por esta razão que não exageramos quando dizemos que o êxito da revolução socialista depende do que fizermos hoje para construir as forças do Marxismo revolucionário.
Não há mais espaço para a complacência ou para ficar à margem em um mundo como este. Acreditamos que os interesses de bilhões de pessoas superam os interesses dos bilionários! Se você concorda, junte-se à CMI!

Artigo publicado originalmente em 17 de novembro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título "Fascism in America? Fight Racism with Socialism!".
Tradução Fabiano Leite.
 do: http://www.marxismo.org.br/content/fascismo-nos-eua-combata-o-racismo-com-socialismo

quinta-feira, 28 de março de 2013

BRICS. A NOVA REVOLUÇÃO MUNDIAL



Começou ontem, e se encerra hoje, em Durban, na República Sul-Africana, a quinta Cúpula Presidencial dos BRICS - aliança que une o Brasil à Rússia, Índia, China e África do Sul.

Durante o encontro, como estava previsto, se realiza um fórum, sob o tema “BRICS e África - Associação para a Cooperação, Integração, Industrialização e Desenvolvimento”, com a participação dos líderes, convidados, de 20 países do continente.
De acordo com a imprensa sulafricana, já foi aprovada pelos chefes de Estado, e será destaque na Declaração Conjunta que será divulgada hoje, a criação de um Banco de Desenvolvimento para os BRICS, nos moldes do Banco Mundial, com capital inicial de 50 bilhões de dólares; um acordo de swap no valor de 100 bilhões de dólares, para empréstimo conjunto de recursos em caso de crise, nos moldes do que faz o FMI; e uma troca de moedas entre o Brasil e a China, por três anos, em valor equivalente a 30 bilhões de dólares por ano. A providencia garantirá o comércio de mercadorias, bens e serviços em moeda local, para ficar a salvo de eventuais flutuações da moeda norte-americana.
China e o Brasil são, hoje, respectivamente, o primeiro e o terceiro credor individual externo dos EUA. Os países BRICS detêm, em conjunto, 4,5 trilhões de dólares em reservas internacionais, ou 40% do total do mundo.
Com a criação do seu próprio banco de fomento, eles estão dizendo ao ocidente que se cansaram de esperar por reformas no Banco Mundial e no FMI, que lhes dessem poder equivalente nessas instituições, conforme o peso de seus recursos financeiros, sua população, seus territórios, mercados, recursos naturais, e dimensão geopolítica.
Como ocorreu com o G-8, que se tornou uma sombra do que era antes, após a criação do G-20 - com a decisiva participação do Brasil - o FMI e o Banco Mundial poderão minguar sua já decrescente importância na nova ordem multipolar no mundo do século XXI.
Findou o tempo em que os países mais pobres tinham de ir aos EUA mendigar recursos para infraestrutura ou enfrentar crises geradas, como a atual, nas entranhas do descontrolado ultra- capitalismo.
A partir de agora, eles terão outros interlocutores a procurar, em Brasília, Moscou, Nova Delhi, Pequim ou Pretoria, e não apenas em Washington, Londres ou Berlim.
O Brasil, com a soja resistente à seca da Embrapa, a mais produtiva cana de açúcar e o melhor gado tropical do mundo, suas construtoras e seus programas de combate à miséria e à fome, aliado à China, com seus gigantescos recursos financeiros, e aos russos e indianos, pode mudar, em poucas décadas, o futuro da população africana.
Basta que, para isso, não cometamos os mesmos erros e os mesmos crimes do arrogante colonialismo ocidental, o mesmo que, depois de tantos séculos de espoliação e violência, acabou por nos reunir no BRICS.
Fonte - do Blog Mauro Santayana  27/03/2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

Desempenho do PIB não interfere no ânimo do eleitorado



O fraco crescimento do PIB de 2012 vem se mostrando objeto de esperança dos grupos políticos, econômicos e midiáticos de oposição ao projeto político que governa o Brasil desde 2003. Mais uma vez.
Em alguma medida, no entanto, fazer essa aposta outra vez chega a espantar. Afinal, não faz muito tempo que foi feita e perdida por quem fez.
Em 2009, às portas do ano eleitoral de 2010, o discurso tucano-midiático era exatamente o mesmo que o de hoje, só que a situação era muito mais grave. 2008 terminara sob a égide da eclosão da crise econômica das hipotecas norte-americanas que, dali em diante, contaminaria o mundo.
O desemprego aumentou consideravelmente entre o último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. A produção e as vendas no comércio praticamente ficaram paralisadas, até que o governo começasse a liderar a reação da economia brasileira investindo pesado.
O ano que precedeu a eleição presidencial de 2010, sob o aspecto do PIB, foi um presente para a oposição. Afinal, em 2009 o Brasil não teve “pibinho”, teve recessão. Isso mesmo, o tamanho da economia brasileira reduziu-se em 0,2% e o nível de emprego, ao fim daquele ano, apenas retornou ao que estava ao fim de 2008, quando a crise internacional explodiu.
Contudo, a partir do segundo semestre de 2009 já se começava a sentir uma reação da economia como a que já se faz sentir agora e que, ao longo do ano eleitoral de 2010, chegaria a experimentar crescimento próximo ao nível chinês, com aumento do PIB de 7,5%.
Diante dos resultados ruins do último trimestre de 2008 e do primeiro semestre de 2009, mídia e oposição duvidaram de que fosse possível uma reação e já davam como favas contadas a derrota do “poste” Dilma – outros viriam – não apenas pelo nível de emprego que sofrera a primeira redução em anos, mas por a candidata à sucessão de Lula nunca ter disputado uma eleição na vida.
O fim dessa história todos conhecemos. Mas o que há para resgatar é a velha discurseira tucano-midiática que se abate sobre o país toda vez que o resultado do PIB não é brilhante, mesmo que indicadores sociais revelem que mais ou menos crescimento não é fator determinante das condições de vida da maioria.
Se tomarmos como exemplo um editorial da mídia oposicionista de março de 2009, encontraremos uma argumentação igualzinha à que tem sido vista nesses veículos nos últimos tempos.
Abaixo, editorial da Folha de São Paulo de 11 de março de 2009.
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FOLHA DE SÃO PAULO
11 de março de 2009
Editorial
Queda vertiginosa
Recuo no PIB reafirma necessidade de ações anticrise, mas arsenal é limitado pelo pendor à gastança dos governos
A HISTÓRIA , mais à frente, irá decerto atenuar a sensação de que uma nova era da economia global se impôs, num chofre, entre setembro e outubro, subvertendo o que prevalecia até o instante imediatamente anterior. Mas é essa a impressão que resta depois da divulgação de estatísticas como a do PIB brasileiro.
A produção de bens e serviços no país crescia num ritmo anualizado de 7% até setembro; entrou em mergulho radical nos três meses seguintes, quando a taxa, se anualizada, resultaria em -13,6%. Não há cenário, previsão, estimativa ou modelo econométrico que parem de pé diante de inversão dessa magnitude. A incerteza sobre o comportamento da atividade econômica, em especial para este ano e o próximo, atingiu proporções ofuscantes.
Os números do IBGE confirmam que veio da indústria o principal vetor de retração no último trimestre de 2008. O volume da produção fabril decresceu 7,4% em relação ao período imediatamente anterior. As decisões de frear fortemente as linhas de montagem foram concomitantes a outras, destinadas a cortar, também brutalmente, as despesas com aquisição de máquinas, equipamentos e construção civil.
Esta classe de gastos, os investimentos produtivos, se expandia numa velocidade “chinesa”: suficiente para duplicar o volume de dispêndios em expansão da capacidade produtiva a cada nove anos. Passou-se no quarto semestre, sem direito a fase intermediária, a uma realidade que lembra a Grande Depressão -os investimentos diminuíram ao ritmo, anualizado, de 33%.
Não se pode, obviamente, tomar a pior fase da crise, até aqui, pelo todo. Dados preliminares acerca dos primeiros dois meses de 2009 mostram que aqueles índices de vertiginosa retração não se repetiram. Em alguns setores, caso da indústria automobilística, há sinais de incipiente recuperação. Nada, contudo, que já possa assegurar crescimento positivo do PIB neste ano.
Tampouco é recomendável desprezar a notável prosperidade verificada entre 2004 e 2008. Na esteira da bonança global, a economia brasileira mais que dobrou seu ritmo de expansão em relação às duas décadas anteriores. Com saldos comerciais expressivos e entrada maciça de capitais, o Brasil pôde, mediante prudente acumulação de poupança em dólares, aumentar a proteção contra crises externas.
Infelizmente, essa linha de prudência não abrangeu os gastos de custeio dos governos -federal, estaduais e municipais-, que dispararam no período. Se o poder público tivesse controlado seu pendor natural à gastança, teria agora um arsenal menos limitado para combater os efeitos deletérios da derrocada global.
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As semelhanças com o presente não são mera coincidência. Era ano pré-eleitoral como este e vínhamos de um fim melancólico do ano anterior, em termos de crescimento e emprego. A única diferença é a de que em março de 2009 as expectativas pareciam menos promissoras do que as de março de 2013.
Todavia, como já havia expectativa de retomada o discurso era exatamente o mesmo de hoje, de relativizar os sinais de aquecimento na economia dizendo, de uma forma ou de outra, que o modelo econômico em curso – baseado no consumo de massas – estaria “esgotado”.
Chega a ser risível dizer que o consumo de massas possa estar perto do patamar de estabilização em um país em que tanta gente ainda não consome mais do que o básico do básico. Mas, enfim, é nisso que a direita midiática acredita – ou quer acreditar.
Enfim, a aposta no ritmo mais fraco da economia se mostra fadada a novo fiasco por duas razões.
Primeira razão: o país deve retomar o crescimento em 2013 e não no ano eleitoral de 2014, enquanto que no penúltimo ano pré-eleitoral não houve retomada e houve até recessão, o que permitiu à oposição brandir a retração de 0,2% de 2009 na campanha de 2010.
Segunda razão: assim como o discurso sobre 2009 não empanou a sensação de bem-estar da população em 2010, em 2014 o “pibinho” de 2012 será história e o de 2013 deve ser no mínimo saudável, segundo já reconhecem mesmo os analistas da oposição.
Por fim, resta dizer que mesmo que a eleição fosse neste ano, com “pibinho” em 2012 e crescimento apenas médio em 2013, dificilmente isso iria interferir na visão que o brasileiro vem mantendo de que o governo impede que a crise chegue a si.
Trecho do Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) A Década Inclusiva (2001-2011): Desigualdade, Pobreza e Política de Renda permite entender melhor a questão.
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Numa sociedade de 10 pessoas, se 1 tem renda 10 e os 9 restantes tem renda 0; ou no extremo oposto, se 10 tem a renda igual a 1; o PIB é o mesmo. O PIB é uma medida de bem-estar social que por construção não se importa com as diferenças entre pessoas, apenas com a soma das riquezas produzidas”.
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Ora, o mesmo estudo mostra que a distribuição da riqueza, seja ela alguns pontos percentuais maior ou menor, é o que importa, pois é o que as pessoas sentem.
Nesse aspecto, segundo o Ipea, durante a última década o Brasil reduziu a desigualdade, fato que não ocorria de forma contínua e não chegava a índices tão baixos desde 1960, quando a série histórica começou a ser construída.
“Este é o menor nível de desigualdade da história documentada, embora o Brasil ainda seja desigual”, enfatizou o Pesquisador do Ipea Marcelo Néri. O Índice Gini, que mede a desigualdade, chegou a 0,527 em 2011 e em 2012 chegou a 0,519 – quanto mais próximo de 0, menos desigual é um país.
Em 2001, o Índice de Gini do Brasil era de 0,61 e, em 1960, era 0,535. Durante a ditadura militar a riqueza se concentrou fortemente, a desigualdade chegou a cair um pouco no início do plano real e depois, ao fim do governo FHC, voltou a subir.
Há anos que este blog vem dizendo que não é o nível do PIB e não é, apenas, o nível de emprego que mantêm o governo bem avaliado pelo eleitorado, mas a distribuição de renda.
Há alguns dias, algumas dezenas de manifestantes foram às ruas protestar contra Lula em São Paulo. Na quase totalidade, eram pessoas favorecidas pela sorte e que não se conformam com um fenômeno que a Era Lula-Dilma inaugurou no Brasil: distribuição de renda.
No imaginário do brasileiro remediado, que hoje é maioria, há uma elite branca e preconceituosa que quer tirar o PT do poder e pôr o PSDB porque é o partido que defende os interesses dos ricos. Até aqui, essa percepção não mudou uma vírgula. E não será “pibinho” que irá operar tal milagre.
http://www.blogdacidadania.com.br/2013/03/desempenho-do-pib-nao-interfere-no-animo-do-eleitorado/

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

III Guerra Mundial pode estar iminente


Para justificar um eventual ataque ao Irão, os EUA/NATO invocam motivos humanitários, células terroristas, possíveis ataques a Israel e um programa de armas nucleares por parte do Irão. Até agora, em todas as inspecções realizadas, a Agência Internacional da Energia Atómica não encontrou qualquer prova no sentido de o Irão estar a desenvolver armas nucleares. A população norte americana talvez acredite nestes argumentos, mas poderá o resto do mundo ser enganado duas vezes?

Os líderes chineses sabem perfeitamente que a verdadeira agenda dos EUA não tem nada a ver com as justificações apresentadas. O verdadeiro objectivo dos EUA é conquistar as reservas de petróleo do Irão e ao mesmo tempo travar o crescimento da China. Sabemos que a China importa cerca de 22% de petróleo bruto do Irão, tem investido fortemente no país em petróleo e projectos de gás, particularmente no desenvolvimento do campo sul dos pars, que é provavelmente a maior reserva de gás natural do mundo, até agora conhecida. Tal como tinham investido na Líbia, onde acabaram por perder os investimentos devido à mudança de regime e aos bombardeamentos dos EUA/NATO, e estes fizeram-no oportunamente para consolidar a sua hegemonia por causa da ameaça competitiva da China.

Enquanto a China (segunda maior economia do mundo) e a Rússia (super potência energética) desejam expandir-se economicamente, através de negócios pacificadores, os EUA impõem a sua força militar contra qualquer concorrente que coloque em causa a sua hegemonia económica ou militar, fazendo tudo o que for preciso para garantir o domínio do mundo. Como sempre, fá-lo-ão com a prepotência e o descaramento que são seu apanágio. Depois Israel, que faz o trabalho sujo no médio oriente com o objectivo de se expandir, têm nos EUA o seu maior aliado. Os judeus sionistas têm um lobby poderoso nos EUA de tal forma que conseguem influenciar decisões importantes relativas à politica interna e externa nos EUA.

China e Rússia estão obviamente preocupadas com o cerco militar e os exercícios provocatórios realizados pelas tropas dos EUA mesmo á sua porta e sabem perfeitamente o que se está a passar, de tal forma, que as tropas russas e chinesas estão em estado de alerta e prontas para qualquer cenário. Sabemos que o Irão tem alianças estratégicas e laços muito fortes com a China e a Rússia, e que estes certamente não ficarão de braços cruzados ao verem o seu parceiro persa ser atacado. Desta vez, a guerra que os EUA estão a promover não é contra países indefesos, como a Líbia, o Afeganistão ou o Iraque. A Rússia detém o segundo maior arsenal bélico a seguir aos EUA, a China tem o maior exército do mundo e está a tornar-se numa super potência militar. Ambos estão a modernizar os seus arsenais, a criar novas tecnologias e têm um programa militar de cooperação conjunta.

Poderá estar a desenhar-se um confronto entre os EUA/NATO/ISRAEL e IRÃO/RÚSSIA/CHINA?

Esta conjuntura, pode de facto, levar-nos a pensar que podemos realmente, estar muitos próximos de uma III Guerra Mundial.


No Foge Maria Foge

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O mito "Barcelona"

O Barcelona Futebol Clube deixou de ser um clube de futebol para tornar-se uma instituição mítica. Não se comenta apenas a vitória acachapante sobreo Santos, comenta-se que o Barcelona FC joga melhor porque possui uma outra filosofia. Valorização da base, administração diferenciada, ousadia, relação com sua terra e seu povo... e por aí vai. 

Na história da rivalidade Barcelona x Real Madrid, há raízes históricas profundas. No processo da Guerra Civil Espanhola, o Real Madrid encarnou a Espanha franquista, institucional, enquanto o Barcelona que já era ligado à luta do povo catalão, vinculou-se à causa republicana. Vamos convir que, um rivalidade assim é muito mais apaixonante que a maioria das rivalidades que conhecemos no futebol brasileiro.
Toda essa história confere ao Barcelona uma aura diferenciada. Não é só o melhor time do mundo, mas é um time no qual identificamos valores que gostaríamos de ver nos times brasileiros: garra; amor à camiseta; continuidade d eum trabalho; jogadores que se divertem jogando e, ao mesmo tempo, fazem bem feito o que são pagos para fazer. O Barcelona dá aos seus torcedores e admiradores do futebol aquilo que mais se deseja: jogo bonito com vitória no final. Na pior das hipóteses,  assiste-se a um jogo jogado e com vontade de vencer. Não é à toa que, após a vitória do Barça, as pessoas saíram com a camiseta do time como se fosse o time "da casa". O Barcelona tornou-se uma bandeira, uma causa, um mito.
Talvez, em algum momento apareça alguém para desfazer tudo isso. Talvez a explicação de como um clube consegue pagar salários tão altos em um país assolado pelo desemprego não seja nada romântica. O fato é que os caras jogam muito e, em um mundo envolvido em escândalos, mesquinharias, despido de qualquer apego a uma causa nobre, ver gente suandoa camiseta, jogando bonito e ganhando dê um alento. É como se nos dissessem, é possível vencer estando do lado do bem e do belo. É a vingança da Hungria de 54, da Holanda de 74, do Brasil de 82; do futebol brilhante, mas derrotado. Ainda que o mito venha a ser desfeito, vale a pena ver o Barcelona jogar. E para nós, colorados, resta o singelo orgulho de poder dizer: "já ganhamos desses caras".

No Opinião Singela