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domingo, 6 de novembro de 2016

Temer e a realpolitik petista


O impeachmeant, não obstante execrado pela militância pró-governo, foi o ato final da realpolitik petista, este eufemismo "elegante" que o marketing político adotou para tentar legitimar uma política de alianças que está - mesmo no âmbito latino-americano - entre as mais imorais e antirrepublicanas já praticadas por um partido nascido e ainda tido (por alguns desavisados) como de esquerda.

O surto de ulrapragmatismo acometeu o PT após as três derrotas presidenciais de Lula e inclui, por um lado, a transformação do outrora ameaçador e desgrenhado líder petista no "Lulinha paz e amor" de Duda Mendonça, com fala mansa e conciliadora, ternos bem-cortados e barba aparada. De outro, o expurgo das mais combativas correntes internas do partido, em um processo cujo maior símbolo foi a expulsão de Heloísa Helena, em 2003, em decorrência de sua posição ante a reforma da Previdência (a primeira de uma série de tungas contra os aposentados promovidas pelos governos petistas).


Sem limites

Daí em diante, foi um verdadeiro vale-tudo: em um elasticismo desprovido de afinidades programáticas ou limites éticos, a tal da realpolitik - saudada e defendida com unhas, dentes e sarcasmo pela mesma militância, que não fez auto-crítica e  que hoje urra contra o PMDB - aliou o petismo a Sarney, Collor, Maluf, Kassab, Delcídio, Kátia Abreu, "bispos" diversos, além de uma miríade de figuras do baixo clero. 

Dentre elas, um tal de Eduardo Cunha, desde sempre um escroque de baixo escalão, cuja ascensão no Rio foi patrocinada pelo mesmo consórcio PT/PMDB que elegeu Paes e Cabral e bancou - com aplausos entusiasmados mesmo em setores que se diziam de esquerda - o Estado policial simbolizado pelas UPPs, responsável, em 2013 e durante a Copa do Mundo, pela maior repressão a manifestações públicas das três décadas de democracia pós-ditadura.
Em tal cenário, só a ignorância plena, a má-fé ou o fanatismo induzem à conclusão de que, nos governos Lula e Dilma, o "Mensalão", "o Petrolão" e a corrupção disseminada são exceções, esquemas pontuais e secretos sobre os quais os governantes possam alegar desconhecimento - e não a consequência óbvia e direta de tal política de alianças.


Choque de realidade

Ainda assim, açulada por um governismo cego e fanático que durante anos foi predominante na blogosfera e nas redes sociais, uma "guinada à esquerda" foi desde o início anunciada em relação aos governos petistas, tendo cumprido um papel relevante (ou mesmo decisivo) nas últimas eleições - como parte fundamental do estelionato eleitoral no qual incorreu a candidata vencedora. 
Enquanto isso, no mundo real, o governo que findou "exibiu os piores índices de reforma agrária e de demarcação de terras indígenas da história, cortou verbas da Educação, extingue direitos trabalhistas e sucateia o SUS", como aponta a psicóloga e psicanalista Vera Rodrigues, em sua corajosa carta-resposta a um desses manifestos ditos pró-democracia que proliferaram nos últimos tempos, recheados de signatários que se omitiram covardemente nas diversas vezes em que o massacre aos índios, aos jovens (e não tão jovens) manifestantes e à população não branca ou periférica manchou e relativizou a democracia brasileira em anos recentes, sob chancela governamental.

Cortina de fumaça

Claro está que, com o arco de alianças forjado pela realpolitik petista, qualquer "guinada à esquerda" jamais passou de miragem. Ele serviu, no entanto - e muito bem - ao modelo predatório e arcaico de desenvolvimento instalado no país, o qual, por sua vez, foi decisivo na instrumentalização das grandes negociatas que, mesclando dinheiro público a interesses privados, serviram ao enriquecimento de uns e à(s) eleição(ões) de outros, como as evidências judiciais colhidas no bojo da Lava-Jato - mesmo com os recentes desvios de conduta que macularam pontualmente a operação - atestam (a tal respeito, defende Vera Rodrigues: "Os excessos da Operação Lava Jato, ou do juiz de primeira instância que a conduz, devem ser combatidos nas esferas jurídicas e políticas que dizem respeito ao Judiciário como um todo, e ao Estado Policial, fomentado por esse governo sempre que lhe interessou").

Liquidação geral

Mesmo antes do recrudescimento do impeachment, a pauta priorizada por Dilma II, após ter atacado direitos trabalhistas - ao alterar regras do seguro-desemprego, de pensões por invalidez e do seguro-defenso - era aumento de impostos via volta da CPMF e (mais uma) "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados, com violação de direitos adquiridos). Calcula agora, com o Planalto transformado em balcão público de negócios e alguns dos partidos mais retrógrados do país com amplo poder de chantagem sobre a presidente!

Estado de farsa

Em tal cenário e após tantos anos, continuar a propagar (e a acreditar em) qualquer laivo de esquerdismo ou progressismo ou o nome que se queira dar a políticas que priorizem o social, o desenvolvimento sustentado e os Direitos Humanos por parte desse governo é não apenas irreal - é deliberada e escandalosamente mentiroso.

Para onde vai a política brasileira?

Qual o futuro da política no Brasil? A resposta para esta questão, seja ela qual for, aponta para o esgotamento e a necessidade de superação do modus operandi político vigente no país ao menos desde o advento da “Nova República” (1984).

Seu traço distintivo é um tráfico de cargos e bens públicos, alegadamente em troca de apoio político, mas que na prática significa a perpetuação, nos níveis federal, estadual e municipal, da cultura estamentária de que nos fala Raymundo Faoro, protagonizada por politicos parasitários que sugam e tiram proveito privado do Estado.


Mercado de pulgas
Tal escambo do bem público tem sido a prática politica padrão de todos os partidos que se revezaram no poder desde a redemocratização. Só muda o rótulo: “balcão de negócios” na época do PMDB de Sarney, “toma-lá-dá-cá” com FHC e os tucanos, “realpolitik” na era petista de Lula e Dilma.

A recente fala pública de Aloizio Mercadante anunciando, sem o mínimo pudor, que o segundo escalão será preenchido por quem votar com o governo é a coroação dessa baixa politica, em que cargos técnicos e de comando – que deveriam ser ocupados pelos especialistas mais dotados e capazes – viram mera moeda de troca por um voto no Parlamento. E tal voto - que, por sua vez, deveria se dar em consonância com a consciência, a convicção e o alinhamento ideológico, político e partidário do parlamentar - é trocado por um cargo bem remunerado e de algum prestígio. Como se de uma mera relação comercial se tratasse.




Danos de monta
É imenso, incomensurável o atraso que tal prática politica acarreta ao país, cuja condução fica a cargo de pessoas não apenas despreparadas, mas ávidas por ganhos pessoais advindos de sua posição privilegiada; à democracia, que já carece de partidos programáticos e ideologicamente coesos; e à deteriorização da visão pública que se tem da política, como antro de sujeira e de corrupção.

Essas mais de três décadas de polticas de gabinete, entre a chantagem parlamentar e o suborno do Estado, tornaram a própria política brasileira anacrônica. E esse atraso não diz respeito apenas a instituições, e sim às relações entre arena pública, democracia e ação politica, em todas suas potencialidades. No bojo de tal processo – que o poder quer imutável – são mínimas e negligenciadas as formas efetivas de participação política e de democracia direta; a incorporação efetiva de uma pauta biopolítica que supere o meramente econômico e abarque, como prioritárias, as demandas comportamentais, corpóreas, sanitárias, educacionais, ambientais, recreativas – bem como a promoção efetiva dos direitos humanos de quarta geração.


Esgotamento
Mas, por outro lado, há um claro esgotamento público para com a corrupção, açulado por grandes processos em que Justiça e mídia desempenham um papel central, como o Mensalão e a Operação Lava-Jato. Para além das questões de justeza, de tratamento desigual entre escândalos tucanos e escândalos petistas, de teorias conspiratórias variadas sobre golpes e contragolpes, o fato é que a tolerância para com a corrupção acabou e que esta, neste momento, mostra-se profundamente associada, no imaginário político brasileiro, ao PT.

PT cuja guinada violenta à direita, hoje simbolizada pelo estelionato eleitoral em curso, não é fato recente, decretado pelas consequências da traição eleitoral de Dilma. Trata-se de um processo, que começou efetivamente lá atrás, na primeira eleição de Lula, com concessões sucessivas ditadas por umarealpolitik cada vez mais elástica e amoral - que seria temerariamente esticada, ao longo dos anos, por alianças do PT com personagens como Jader Barbalho, Collor e Maluf.


Corrupção moral
Tal processo agravou-se com o primeiro mandato de Dilma, que - como este blog documentou desde o início – teve na ampliação da hegemonia política via concessões ao conservadorismo o seu principal norte político. Uma dinâmica cujo fim seria – como alertamos diversas vezes entre 2011 e 2014 – o desequilíbrio do pêndulo da política brasileira para o espectro centro-direita, com o esvaziamento político, eleitoral e programático da esquerda.

O que se vê hoje em dia é apenas o bagaço dessa laranja: o petismo tanto cedeu à direita que terminou sua presa, praticando, neste momento, a mesma velha política neoliberal da era FHC, cortando na carne de trabalhadores e desempregados para fazer altos superávits primários e agradar ao mercado financeiro. Se a corrupção financeira é ainda por alguns ingênuos ou fanáticos questionada, a corrupção moral torna-se evidente.



Covardia e conformismo
E setores que poderiam se contrapor, à esquerda, a esse quadro, preferiram, nas últimas eleições, apostar no medo - já covarde e  artificialmente inflado pelo marqueteiro oficial -, confortavelmente insistindo na leniência para com o retrocesso petista, que já era mais do que evidente.

 Pois que Dilma tenha se reeleito graças ao decisivo “voto crítico” de psolistas e demais setores que se dizem de esquerda é uma prova precoce – mas contundente – não só da miopia e má formação política dessa pretensa vanguarda, mas que ela não é coerente com as demandas de renovação das práticas politicas no país. Continua presa aos padrões convencionais e mercantilistas da política. Um museu de grandes novidades, como disse o poeta.


Horizontes
Portanto, a resposta à pergunta que abriu este texto – qual o futuro da política no Brasil? - não virá desse campo minado, desses políticos de discurso ora nuançado, ora agressivo de esquerda mas de postura invariavelmente  retrógrada quando o tema é segurança pública, drogas ou sexualidade.

Os termos de tal resposta nos é permitido apenas intuir; só o futuro dirá se a atual crise do país acabará por impor mudanças de monta ou a agravar ainda mais o retrocesso. Por ora podemos apenas afirmar que a renovação da política no Brasil passa, necessariamente, por um lado, pela horizontalização do debate popular e pelo salto qualitativo no exercício da cidadania; e, por outro, pela reformulação dos partidos e pelo fim do aparelhamento e loteamento do Estado a cada troca de siglas no poder. Que forças serão capazes de se incumbirem de tamanha tarefa só a própria população brasileira poderá determinar.



(Imagem retirada daqui)

http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2015/05/para-onde-vai-politica-brasileira.html

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Para onde vai a política brasileira?


Qual o futuro da política no Brasil? A resposta para esta questão, seja ela qual for, aponta para o esgotamento e a necessidade de superação do modus operandi político vigente no país ao menos desde o advento da “Nova República” (1984).

Seu traço distintivo é um tráfico de cargos e bens públicos, alegadamente em troca de apoio político, mas que na prática significa a perpetuação, nos níveis federal, estadual e municipal, da cultura estamentária de que nos fala Raymundo Faoro, protagonizada por politicos parasitários que sugam e tiram proveito privado do Estado.


Mercado de pulgas

Tal escambo do bem público tem sido a prática politica padrão de todos os partidos que se revezaram no poder desde a redemocratização. Só muda o rótulo: “balcão de negócios” na época do PMDB de Sarney, “toma-lá-dá-cá” com FHC e os tucanos, “realpolitik” na era petista de Lula e Dilma.


A recente fala pública de Aloizio Mercadante anunciando, sem o mínimo pudor, que o segundo escalão será preenchido por quem votar com o governo é a coroação dessa baixa politica, em que cargos técnicos e de comando – que deveriam ser ocupados pelos especialistas mais dotados e capazes – viram mera moeda de troca por um voto no Parlamento. E tal voto - que, por sua vez, deveria se dar em consonância com a consciência, a convicção e o alinhamento ideológico, político e partidário do parlamentar - é trocado por um cargo bem remunerado e de algum prestígio. Como se de uma mera relação comercial se tratasse.


Danos de monta

É imenso, incomensurável o atraso que tal prática politica acarreta ao país, cuja condução fica a cargo de pessoas não apenas despreparadas, mas ávidas por ganhos pessoais advindos de sua posição privilegiada; à democracia, que já carece de partidos programáticos e ideologicamente coesos; e à deteriorização da visão pública que se tem da política, como antro de sujeira e de corrupção.


Essas mais de três décadas de polticas de gabinete, entre a chantagem parlamentar e o suborno do Estado, tornaram a própria política brasileira anacrônica. E esse atraso não diz respeito apenas a instituições, e sim às relações entre arena pública, democracia e ação politica, em todas suas potencialidades. No bojo de tal processo – que o poder quer imutável – são mínimas e negligenciadas as formas efetivas de participação política e de democracia direta; a incorporação efetiva de uma pauta biopolítica que supere o meramente econômico e abarque, como prioritárias, as demandas comportamentais, corpóreas, sanitárias, educacionais, ambientais, recreativas – bem como a promoção efetiva dos direitos humanos de quarta geração.


Esgotamento

Mas, por outro lado, há um claro esgotamento público para com a corrupção, açulado por grandes processos em que Justiça e mídia desempenham um papel central, como o Mensalão e a Operação Lava-Jato. Para além das questões de justeza, de tratamento desigual entre escândalos tucanos e escândalos petistas, de teorias conspiratórias variadas sobre golpes e contragolpes, o fato é que a tolerância para com a corrupção acabou e que esta, neste momento, mostra-se profundamente associada, no imaginário político brasileiro, ao PT.

PT cuja guinada violenta à direita, hoje simbolizada pelo estelionato eleitoral em curso, não é fato recente, decretado pelas consequências da traição eleitoral de Dilma. Trata-se de um processo, que começou efetivamente lá atrás, na primeira eleição de Lula, com concessões sucessivas ditadas por uma realpolitik cada vez mais elástica e amoral - que seria temerariamente esticada, ao longo dos anos, por alianças do PT com personagens como Jader Barbalho, Collor e Maluf.



Corrupção moral

Tal processo agravou-se com o primeiro mandato de Dilma, que - como este blog documentou desde o início – teve na ampliação da hegemonia política via concessões ao conservadorismo o seu principal norte político. Uma dinâmica cujo fim seria – como alertamos diversas vezes entre 2011 e 2014 – o desequilíbrio do pêndulo da política brasileira para o espectro centro-direita, com o esvaziamento político, eleitoral e programático da esquerda.

O que se vê hoje em dia é apenas o bagaço dessa laranja: o petismo tanto cedeu à direita que terminou sua presa, praticando, neste momento, a mesma velha política neoliberal da era FHC, cortando na carne de trabalhadores e desempregados para fazer altos superávits primários e agradar ao mercado financeiro. Se a corrupção financeira é ainda por alguns ingênuos ou fanáticos questionada, a corrupção moral torna-se evidente.



Covardia e conformismo

E setores que poderiam se contrapor, à esquerda, a esse quadro, preferiram, nas últimas eleições, apostar no medo - já covarde e artificialmente inflado pelo marqueteiro oficial -, confortavelmente insistindo na leniência para com o retrocesso petista, que já era mais do que evidente.

Pois que Dilma tenha se reeleito graças ao decisivo “voto crítico” de psolistas e demais setores que se dizem de esquerda é uma prova precoce – mas contundente – não só da miopia e má formação política dessa pretensa vanguarda, mas que ela não é coerente com as demandas de renovação das práticas politicas no país. Continua presa aos padrões convencionais e mercantilistas da política. Um museu de grandes novidades, como disse o poeta.


Horizontes

Portanto, a resposta à pergunta que abriu este texto – qual o futuro da política no Brasil? - não virá desse campo minado, desses políticos de discurso ora nuançado, ora agressivo de esquerda mas de postura invariavelmente retrógrada quando o tema é segurança pública, drogas ou sexualidade.


Os termos de tal resposta nos é permitido apenas intuir; só o futuro dirá se a atual crise do país acabará por impor mudanças de monta ou a agravar ainda mais o retrocesso. Por ora podemos apenas afirmar que a renovação da política no Brasil passa, necessariamente, por um lado, pela horizontalização do debate popular e pelo salto qualitativo no exercício da cidadania; e, por outro, pela reformulação dos partidos e pelo fim do aparelhamento e loteamento do Estado a cada troca de siglas no poder. Que forças serão capazes de se incumbirem de tamanha tarefa só a própria população brasileira poderá determinar.

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domingo, 28 de dezembro de 2014

O PT, o socialismo e a realpolitik


Muita gente acha que o PT é um partido socialista.
E são basicamente essas pessoas que se decepcionaram com o Ministério escolhido pela presidenta Dilma.
Entre os nomes anunciados há figuras que cairiam como uma luva na equipe de Aécio.
Para o pessoal que acredita que o PT é socialista, Dilma conseguiu formar um time, para o seu segundo mandato, ainda pior que o do primeiro.
E, acima de tudo, traiu os votos da esquerda, sem os quais ela não teria vencido a eleição.
Como há muito tempo não vejo o PT como socialista, mas sim, no máximo, como uma agremiação social-democrata, não tive nenhuma surpresa com as escolhas de Dilma.

Principalmente pelo fato de que esse modelo de governo de coalizão não permite que o chefe do Executivo, se quiser mesmo governar, atenda aos interesses apenas de um partido que o apoia.
O Ministério de Dilma II não é, basicamente, diferente do de Lula I e II ou de Dilma I.
Trata-se de uma salada de fruta bem indigesta para os puristas.
Mas perfeitamente palatável para boa parte de sua base parlamentar de apoio ou mesmo para grande parcela da sociedade.
Quem acompanhou minimamente o que fizeram os governos Lula I e II e Dilma I sabe que eles estiveram milhões de anos-luz distantes do significado da palavra socialismo.
Lula e Dilma foram, isso sim, capitalismo na veia.
Um capitalismo também anos-luz daquele que herdaram de FHC e sua trupe neoliberal, que apenas dançavam ao som da música estridente e alienante do Consenso de Washington.
Na verdade, não existe nenhum partido socialista ou comunista no Brasil.
Há vários grupelhos que idolatram o marxismo em suas diferentes versões, mas nenhum deles tem a menor representatividade social ou eleitoral. 
Dilma, Lula e o PT impuseram ao Brasil um modelo de Estado que protege os mais fracos e procura expandir o mercado de consumo - uma versão tupiniquim do welfare state, esse que deu certo nos países nórdicos.
Para um país explorado pelas classes dominantes desde sempre, esse quase nada que os governos do PT vêm fazendo representa muito.
Daí, porém, exigir que eles façam a revolução, ou ao menos se afastem do capital, é uma atitude simplória, ingênua, utópica até.
O PT é apenas a escolha menos ruim para o desenvolvimento social e econômico da nação.
Essa é a realpolitik.
O resto é poesia.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/12/o-pt-o-socialismo-e-realpolitik.html#more

terça-feira, 22 de março de 2011

O desafio de Dilma Rousseff

O ineditismo da situação política no Brasil ainda não foi completamente avaliado. Entre os contentes e descontentes com a realpolitik de Dilma Rousseff que votaram nela e até trabalharam por sua eleição, resta cair a ficha: a política brasileira, com a distensão promovida pela presidenta, pode nunca mais ser a mesma.
Com o fim do governo Lula – e por obra e graça de sua sucessora –, encerrou-se uma guerra que durou décadas, entre a liderança maior do PT e os meios de comunicação de massa. Ontem, essa liderança era exercida pelo ex-operário; hoje, por mais que ele continue sendo um mito, a liderança efetiva do PT é exercida pela chefe da nação.
Dilma pôs a mídia no bolso. Até as rotativas de Folha, Globo, Estadão e Veja sabem que o caminho para o coração desses veículos é Fernando Henrique Cardoso. Amado pelos donos dos grandes meios de comunicação, os gestos de simpatia da presidenta para com ele a fizeram cair nas boas graças de Frias, Marinho, Civita e Mesquita.
O vídeo a seguir mostra o verdadeiro encantamento dos robôs da Globo com o gesto de Dilma de convidar FHC para almoçar com Obama. E a constatação furtiva que fazem de que a ausência de Lula no evento representaria alguma ruptura entre ele e a sucessora. Vale a pena assistir. Em seguida, a análise prossegue.
Entre a militância petista, as opiniões estão divididas. Há o grupo disposto a manter o apoio a qualquer medida que Dilma adote, inclusive as de aparente rendição ao grupo político derrotado nas eleições de 2010 e à imprensa que infernizou o governo Lula, e há o grupo que já mostra grande desconforto com a tal “realpolitik” da presidenta da República.

Um fato é inegável: é muito cedo para saber quem tem razão. A estratégia de Dilma de chegar ao coração da mídia afagando seu golden boy, FHC, pode permitir que seu governo avance muito mais do que o anterior. Sem estar convulsionado por escândalos semanais alardeados pela mídia e pelas infindáveis CPIs sobre nada, o país terá mais condições de progredir.
Por outro lado, a dúvida que assombra os setores descontentes da militância petista é sobre quanto custará o namoro entre Dilma, FHC e a mídia. Há algumas políticas do governo Lula que, se forem levadas em frente, fatalmente provocarão ruptura nesse namoro. Vejamos algumas dessas políticas:
Bolsa Família – Durante todo o primeiro mandato de Lula, houve feroz oposição ao uso de bilhões de reais no programa. Jamais houvera empenho de tal monta de recursos públicos para os pobres. O discurso do “bolsa-esmola” ainda está fresco nas memórias, ainda que Serra e companhia midiática o tenham abandonado após Lula surrá-los em 2006.
Cotas para negros e Prouni – A mídia e os partidos de oposição jamais irão aceitar os programas do governo federal para incluir pobres e sobretudo negros no ensino superior. Essa política permanece inaceitável devido ao fato de que retira maiores chances dos filhos da elite, dando-as àqueles que jamais tiveram expectativa de se formar.
Política externa – A independência dos países ricos através do estabelecimento de laços comerciais preferenciais com África, Ásia e Oriente Médio, em detrimento de Europa e Estados Unidos, foi um dos pontos de maior atrito e, a despeito do discurso mais brando e da postura mais discreta do governo Dilma, o que definirá tudo será a relação comercial com os blocos primeiro e terceiro-mundistas.
Câmbio – A ausência de medidas draconianas para desvalorizar o real, que exportadores e indústria desejam que seja através de controle cambial, é outro fator de discordância aparentemente insanável. O que querem, ao fim, é fixação de taxa de câmbio “competitiva”, o que teria efeitos diretos no feel good factor, pois reduziria o poder de compra do povo e produziria inflação. Mas faria a alegria da Fiesp, por exemplo.
Controle da mídia – Há uma expressão que resume o problema: propriedade cruzada, ou seja, posse de vários tipos de meio de comunicação e nível de audiência que em nenhuma parte do mundo são permitidos na medida em que são permitidos por aqui. Com a proibição da propriedade cruzada, a Globo deixaria de entrar em noventa por cento dos lares brasileiros, seja na mídia eletrônica ou na impressa.
São só alguns exemplos do que mantinha mídia e setores mais conservadores de um lado e o governo Lula de outro. Não haverá almoço, jantar ou desjejum com FHC que façam a Globo aceitar que Dilma ponha fim à imensa propriedade cruzada do império da família Marinho.
Neste momento, portanto, cabe avaliar que Dilma tem uma chance muito boa de fazer o melhor governo da história brasileira. Recebeu um país estabilizado, crescendo, com os cofres abarrotados de dólares, com a credibilidade internacional em alta – e crescendo – e, como se não bastasse, está recebendo da mídia um apoio que só FHC recebeu.
Contudo, como se sabe, apoio da mídia não garante apoio popular. Fosse assim, Lula não teria saído do governo com 87% de bom e ótimo. O ex-presidente arrancou sua popularidade estratosférica do bem-estar social imenso que promoveu. Nesse contexto, pesquisa Datafolha publicada hoje mostra que Dilma ainda terá que “fazer nome” entre o povo.
Com 47% de aprovação, um nível de popularidade que foi antecipado por este blog no mês passado em matéria sobre pesquisa de outro instituto que fora pouco divulgada, Dilma ainda terá que construir sua popularidade. Nesse aspecto, as comparações com a de Lula no começo do primeiro ou do segundo mandato, não cabem.
Por ser a herdeira legítima de Lula, e com o país em situação muito melhor do que em 2003 e 2007, não seria demais esperar que Dilma tivesse bem mais do que os 47% que o Datafolha mostra. Há, pois, que ler o recado da sociedade de que ainda falta a presidenta mostrar a que veio. E nem FHC, nem a mídia poderão ajudá-la nisso.
by: blog da cidadania