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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Teologia, Necrofilia e Sustentabilidade

Wanderley Guilherme dos Santos


Em 16 de agosto, a então candidata a vice-presidente Marina Silva declarou ao jornal Estado de São Paulo que não estava no jatinho em que morreu Eduardo Campos, segundo a reportagem, “por providência divina”. Foi sua primeira declaração sobre o acidente, repetida, com variantes, em todas as suas declarações posteriores.

Espantou-me a teologia implícita na espiritualidade propagada pela missionária Marina Silva. O ardor com que defende a sobrevivência do mais humilde ser terreno, animal, mineral ou vegetal, indiferente aos custos do bem estar do rebanho humano, imprimiu ao tema da sustentabilidade da saúde planetária um rigor imobilista de difícil adesão. Na parte humana de seus mandamentos, os vetos à mudança em costumes e aos experimentos científicos condenariam a espécie às tábuas atuais de causas mortis, intolerância social e crimes. A variante teológica de fundo parecia duramente reacionária.

Mas é ainda mais implacável a teologia da missionária Marina. Para preservar sua missão, providenciou um acidente que matou o candidato a presidente de sua coligação partidária (pois seu verdadeiro partido, o REDE, era declaradamente um mioma que esperava crescer no ventre do hospedeiro PSB), e todos os acompanhantes de Eduardo Campos, pilotos, repórteres, assessores, dos quais não se conhece a confissão religiosa, nem se haviam concordado em sacrificar a própria vida em nome dessa implacável e ególatra missão.

O noticiário tende a difundir a mesma necrofilia teológica, linguagem quea mídia escolheu para enquadrar o acidente e suas conseqüências político-eleitorais. As próximas pesquisas, menos debochadas, informarão qual o impacto imediato na distribuição das preferências pré-eleições.
sugado do: http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/08/teologia-necrofilia-e-sustentabilidade.html

terça-feira, 26 de abril de 2011

A Vergonha Partiu

Vídeo Poesia- Carlos Latuff

A VERGONHA PARTIU

Carlos Latuff

Vossa Excelência, estou de malas prontas.
Eu, a Vergonha, vou sair de vez de sua personalidade.
Afinal, desde que começou a subir em palanques,
não tive mais qualquer utilidade.

Fui deixada nos mais escuros escaninhos de seu íntimo.
Nunca pude esquentar sua face toda vez que uma mentira saía de sua boca.
Porque a madeira de que é feita sua cara, é fria demais pra pegar fogo.

Aprisionada por tanto tempo nesse corpo
revestido de paletós e gravatas
acabei encontrando por acaso
sua consciência no caminho.

Está morta, só resta um leve esqueleto.
Por isso mesmo é que ela nunca pesa toda vez que negocias as almas do povo.

Por isso, Vossa Excelência, antes que eu também morra,
nas masmorras de seu caráter obscuro,
é que eu, a Vergonha, me mudo daqui,
direto pro coração do camponês e do operário,
porque sei que eles levam muito de mim em seus rostos,
já que suas mãos foram sujas apenas por barro e graxa,
e não por dinheiro.

bY: Contramaré