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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A inusitada história de como João se tornou um maldito


João acordou na segunda-feira na hora de sempre. Enquanto tomava o café da manhã, ligou a televisão para assistir ao jornal matinal. Minutos depois, derramou a xícara na toalha branca da mesa da cozinha: ele era a estrela do noticiário.

Uma estrela amaldiçoada.

Com a voz flexionada no modo alegria, o apresentador anunciava que uma enorme operação policial cercava, naquele momento, o condomínio onde João morava, e que os agentes da lei e da ordem carregavam uma ordem judicial para vasculhar o seu apartamento, apreender o que supusessem provas de seu inominável crime, e, por fim, o prendessem.


A sorte, se é que, numa situação dessas a sorte dá as caras, é que João, naquele fim de semana, tinha ido visitar os seus pais - e, portanto, não estava em seu apartamento.

João, depois de ver e ouvir a notícia de que era um criminoso procurado, tentou obter mais informações sobre esse fato absolutamente extraordinário, e ligou o notebook que carregava em toda viagem que fazia.

Era tudo verdade, lá estava ele em todos os sites noticiosos, fotos antigas e mais novas, manchetes escandalosas, declarações contundentes de pessoas que conhecia e desconhecia sobre falcatruas que nunca supôs que fosse capaz de praticar. 

Naquele momento João percebeu que, fosse ou não preso, a sua vida, pelo menos a vida que conhecia até então, havia acabado, para ele e sua família. 

João, que dias antes soubera, por meio de um colega de trabalho, que algumas pessoas desconhecidas haviam perguntado sobre seus hábitos ("ele sai cedo do trabalho, que caminho faz até sua casa, usa carro, ônibus ou bicicleta?"), suas preferências ("ele bebe, é vegetariano, come carne vermelha, dá gorjeta ao garçom?"), até mesmo sobre sua família ("tem filhos pequenos, estudam onde, sua mulher trabalha?"), sentiu seu coração disparar e uma onda de calor tomar conta de sua cabeça.

Foi quando, num choro convulso que deixou seus pais, testemunhas mudas de sua aflição, perplexos, sem fala, sem ação, que João compreendeu o que se passava com ele.

Refeito do abalo nervoso, chamou seus pais para perto de si, e numa voz baixa, quase infantil, disse apenas uma frase, antes de se despedir:

- Eles descobriram que eu existo.

E foi embora, passos lentos, cabeça baixa, como se estivesse conformado em fazer, agora, parte dos malditos.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2016/02/a-inusitada-historia-de-como-joao-se.html

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A vocação do brasileiro para ser Terceiro-Mundo


Vamos esquecer por alguns instantes a degradante desigualdade social que envergonha o Brasil perante as outras nações e é um dos fatores determinantes para impedir o país de chegar ao Primeiro Mundo.

Vamos ficar apenas nas atitudes corriqueiras do povo, ações aparentemente sem consequências, que mostram o quanto somos subdesenvolvidos, por mais que muitos tenham frequentado escolas caras, viajado ao exterior - até Miami e a Disney entram nessa conta -, mantido contato com culturas diferentes, façam questão de se manter informados e coisa e tal.

É só dar uma voltinha pela cidade - qualquer cidade -, de carro, de ônibus, de metrô, ou a pé, para ver o quanto o brasileiro médio é deseducado, egoísta, incapaz de expressar as mais elementares noções de civilidade ou de cidadania. 


Poucos motoristas, por exemplo, respeitam as faixas de pedestres, os semáforos vermelhos, as vagas para idosos e deficientes.

Poucos se importam em trafegar na velocidade permitida ou em respeitar as mais comezinhas regras do trânsito.

O chão das praças e dos parques estão invariavelmente cheios de porcarias que as pessoas nele jogam.

Os banheiros públicos são como pocilgas.

O jovem que dá seu lugar, no transporte coletivo, a algum idoso, é uma exceção - raríssima.

No âmbito das relações pessoas, quantos amigos, colegas de trabalho ou parentes não se orgulham de fraudar o Imposto de Renda?

E quantos comerciantes fazem de conta que a nota fiscal não existe?

A internet, com as redes sociais, tem se mostrado eficiente instrumento para medir o grau de incivilidade do brasileiro médio.

Os comentários postados abusam dos palavrões mais grosseiros, passam pelo racismo explícito e desembarcam no ódio mais profundo contra minorias, ideologias, cor da pele, condição social, origem geográfica - é como se reunisse num só lugar toda a maldade humana.

A imprensa e os meios de comunicação, poderosas arma para educação em massa, seguem a lógica do capitalismo mais primitivo, de lucrar a qualquer custo.

Pior, se tornaram panfletos partidários da oligarquia que não aceita o trabalhismo - na verdade, a social-democracia - à frente do Poder Executivo. 

O Judiciário é ineficiente, a serviço dos plutocratas, distante da realidade social, preocupado apenas em manter o status quo.

O Legislativo ... bem, resumindo, é um balcão de negócios - negócios muito lucrativos.

O cenário é desolador.

Talvez, se as medidas de inclusão social continuarem, se forem investidos bilhões para melhorar a educação pública, se os meios de comunicação ganharem um marco regulador - se tantas coisas necessárias forem feitas -, em algumas décadas o Brasil poderia deixar de ser apenas uma potência econômica para se tornar uma nação também desenvolvida socialmente, uma democracia madura, que respeitasse as leis - ao menos isso.

Como, porém, nada se pode prever neste momento em que forças poderosas puxam o país de volta ao passado, só nos resta a esperança.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/09/a-vocacao-brasileira-para-ser-terceiro.html

quinta-feira, 26 de março de 2015

Porque a vida sem sonho é o pior pesadelo


André J. Gomes, Revista Bula

"Prepara-te. A qualquer instante, quando menos esperares, alguém fará pouco de teus sonhos. Virá de um canto insuspeitado, do seio de tua família, do campo de teus amigos, da multidão de teus estranhos e fará coro com um bando descrente, rasteiro, numeroso e empenhado em manter a rasa normalidade das coisas.

Juntos, rirão de tuas ambições e teus desejos e intenções essenciais. Tentarão diligentes, aplicarão forças com empenho em seu intento brutal. Como quem laça nas ruas o pescoço de cachorros sem dono e os lança em jaulas frias de ferro e sangue, caçarão teus sonhos mais fundos até arrancá-los de tua alma.

Revela querer o mundo, vai, e dirão que a ti mal cabe o teu quintal. Confessa a tua busca por enxergar além e apontarão a tua cegueira. Defende a luz que te orienta e voltarão a ti um olhar de sombras. Experimenta celebrar a fantasia e julgarão tua loucura como a peste.

Sob tuas narinas ardendo com a fuligem de tanto sentimento baixo, arrastarão casa afora teus velhos propósitos de leveza que o tempo e os deveres de cada dia tornarão pesados como antigas cômodas e penteadeiras e aparadores. Olha ao redor. Tem gente levando teus sonhos embora.

Assim, escarnecendo do que tu queres, tentarão fazer-te desistir, fraquejar, esquecer que tens o tamanho de tua coragem, a gravidade de teus valores e a riqueza de teus sonhos roubados aqui e ali. Aos poucos, sorrateiros como os ratos e as cobras, levam-te o que tens de mais sublime. E tu nem percebes.

Quando te deres conta, serás só uma criatura miserável extorquida de tuas possibilidades, largada à rua da amargura, envolta nos trapos da rotina, racionando tua comida e teus anseios, mendigando atenção falsa.

Antes, defende teus sonhos. Os fáceis e os impossíveis. São eles que nos salvam das vidas cretinas e certezas burras, dos gênios arrogantes, da perfeição idiota, da paralisia barulhenta. É o sonho que nos mantém em movimento. Sonhando, cumprimos nossa vocação essencial de pessoas simples, seres perplexos, criaturas operosas olhando a vida com espanto e humildade."

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Guia rápido para tomar o poder e manter as amizades


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Perdi um amigo”, ele disse. Não que o dito cujo tivesse se lascado e morrido. Não era nada isso. Não que ele estivesse nalgum paradeiro desconhecido, errando de maneira insana, a esmo, sem eira nem beira. Também não. Ele apenas supunha que alguém descartaria a sua amizade. Era isso.

Ele não quis desdenhar da situação, dizer que não estava nem aí pra paçoca. Pois pertencia àquele tipo de gente cujos amigos podiam ser contados nos dedos que ainda assim sobrariam falanges. Daí o desassossego sincero, condoído, que sentia por causa do entrevero. “Nos dias de hoje, perder um amigo não é brinquedo, não é coisa que se comemore”— concluiu, mais frustrado que uma freira morta ao bater na porta do céu e descobrir que, na verdade, ele nunca existira.

O meu amigo é médico ginecologista e, naquele dia, ajudava um colega de ofício a “rasgar a barriga de uma danada” (expressão chistosa, certamente chula e de mau gosto, que ele gostava de usar quando se referia a uma cesariana). Vocês sabem: com o tempo, à medida que a tarimba e a frieza vão crescendo no tutano dos doutores, eles tendem a conversar amenidades, colocar as fofocas em dia, trocar receitas de bolos, arquitetar adultérios, negociar os carros, desvendar os mistérios das novelas, e renovar o estoque de piadas, principalmente naquela fase de fechamento da pança de um paciente, quando então suturam abdomes com cadarços feitos de tripa de carneiro, uma etapa operatória em que a adrenalina já retornou aos níveis corriqueiros dentro dos canudos arteriais, e o relaxamento, enfim, tomou conta da equipe. Desconfio até que, despidos dos seus jalecos respingados de catchup e groselha, eles sorvam generosas pipetas de chope ali mesmo, assim que concluídos os curativos. Eu o faria, ora.

Arrancado o baby do esponjoso claustro uterino, o assunto naquela manhã foi o resultado das eleições presidenciais e o atual momento político brasileiro, que era uma seara que ele até preferiria evitar, tendo em vista o elevado grau de intolerância e radicalismo que se observara durante o período da campanha eleitoral e após o anúncio dos resultados, principalmente nas redes sociais, um espaço virtual que mais parecia pau de dar em doido, um octógono de vale-tudo onde todos escreviam o que desse na telha; o criadouro das falácias, da indelicadeza e da bravata selvagem dos néscios.

Até onde pode suportar, o meu amigo se manteve naquele papel de psicanalista sonolento, doido pra cirurgia terminar logo, pois o tema lhe incomodava sobremaneira, ainda mais que o blá-blá-blá enfadonho do seu comparsa de jaleco branco não condizia quase nada com as suas convicções políticas e o seu estilo de vida.

A certa altura do monólogo purulento que supurava ira, rancor e preconceito racial, o exímio espadachim hipocrático — que não pudera votar no candidato da sua predileção porque se encontrava em viagem de compras em Nova York, esta sim, uma cidade moderna, decente, com gente linda, limpa, saudável, educada, e de inglês fluente, ao contrário da merda desse país (foi assim que ele definiu a Big Apple e o Brasil) — afirmou que era plenamente favorável ao golpe militar, à volta da ditadura, a fim de colocar o país de volta no pau-de-arara, ou melhor, nos trilhos, acabando de vez com tanta roubalheira, esquemas de corrupção e outras sacanagens governamentais engendradas, em especial, contra a elite brasileira da qual ele jurava não fazer parte.

Incluindo a paciente de barriga rasgada, havia mais quatro pessoas dentro daquela sala cirúrgica, as quais só não aplaudiram a proposta, ou porque estavam sob grogues sob efeito de anestesia, ou em respeito ao recém nascido nu e ensebado que reclamava do seu berço esplêndido, alheio àquela inflamada apologia ao cerceamento da liberdade política. O meu amigo ginecologista, que teve o irmão caçula de 14 anos sequestrado e desaparecido pelo regime autoritário em meados da década de 1970, não conseguiu mais manter a pose.

“Quer dizer então que vocês são favoráveis à repressão e à tortura?” — ele perguntou, enquanto secava as mãos lambrecadas com molho à bolonhesa. No fundo, no fundo, meu amigo doutor esperava que todos ali baixassem o facho, mostrando-se constrangidos por defenderem a falta de liberdade de expressão, a truculência e o totalitarismo. Porém, alguém emendou assim: “ — Se for para o bem do meu país, que seja”.

Aquele médico especializado em perrengues de mulheres entendeu que o papo já tinha dado. Então, calou (sem consentir), sacou as luvas, jogou-as no cesto de lixo, desejou a todos um excelente dia, e foi tomar cappuccino com lascas de laranja na cantina do hospital para espairecer as ideias. Sentia-se miserável e desamparado ao extremo. Como um bebê que acabasse de nascer. Se o irmão entrasse agora pela cafeteria, como seria o seu rosto?"

sábado, 11 de janeiro de 2014

A televisão diante do desafio da reinvenção



"Com mais erros do que acertos, os jornais e revistas vem tentando encontrar novas fórmulas editoriais e corporativas para sobreviver ao impacto da internet; mas a televisão, aqui e no resto do mundo, permanece atada à um modelo que tem mais de 50 anos. 

A resistência à mudança é mais nítida no segmento dos telejornais, onde, descontadas as inovações tecnológicas e as mudanças no guarda-roupa, as emissoras seguem a mesma fórmula do Repórter Esso, da extinta TV Tupi, o primeiro noticiário em vídeo no Brasil. Trabalhei 11 anos no jornalismo da TV Globo e sou testemunha de que as mudanças no estilo de apresentar notícias foram apenas superficiais e formais.

A televisão está entrando na era digital sem ter conseguido livrar-se totalmente do pecado original de ter herdado o estilo narrativo do jornal impresso. Agora ela está diante do desafio da narrativa não linear e interativa da internet, mas continua agarrada ao estilo linear e unidirecional de contar histórias com imagens e sons.

O espectador permanece alheio às novas possibilidades de comunicação multimídia interativa porque segue hipnotizado pela sucessão de inovações tecnológicas e pelo fascínio da imagem. Os anunciantes, desconfiados da mídia impressa, mantém as verbas publicitarias na TV, garantindo às emissoras receitas que acabam estimulando o medo de arriscar mudanças na programação, apesar da queda das médias de audiência, em comparação aos anos 1980 e 90.

Os telejornais continuam agarrados à fórmula de apresentadores carismáticos e repórteres no local dos fatos, embora nem uns nem outros acrescentem diferenciais significativos ao conteúdo das notícias transmitidas.

A regra de que os stand ups (repórter no vídeo) conferem credibilidade à reportagem continua sendo seguida ao pé da letra, embora os fatos mostrem que há pouca ou nenhuma relação entre o que o profissional viu e a realidade do evento noticiado. O deslocamento de equipes de jornalistas e a presença de correspondentes no exterior acabam funcionando mais como marketing dos telejornais do que como garantia de conteúdo original.

O uso intensivo da notícia como fator de atração de público levou à multiplicação de programas noticiosos, e como a capacidade de produção de novas reportagens é limitada, o recurso à repetição passou a ser onipresente. Os telejornais da noite repetem notícias e imagens já divulgadas nos noticiários da manhã e do meio-dia. Quem assiste ao Bom Dia Brasil muito provavelmente encontrara boa parte das matérias repetidas no Jornal Nacional e no Jornal da Globo.

A repetição em si não é um pecado. O problema é que o enfoque continua o mesmo, mostrando falta de criatividade dos editores, salvo quando um fato novo acontece entre um telejornal e outro. Outra causa da monotonia dos telejornais é o fato de todos eles seguirem a mesma agenda noticiosa. Como os manuais de redação são idênticos, a edição, estilo e apresentação das notícias acabam sendo quase iguais. As diferenças ficam apenas por conta dos gadgets eletrônicos ou do orçamento para financiar deslocamentos de repórteres.

As redes e emissoras independentes estão desperdiçando preciosos recursos financeiros ao não optarem por uma reinvenção da televisão em ambiente internet. A primeira coisa que os telejornais precisam esquecer é a preocupação em dar notícias que já circularam pela internet e estão em debate nas redes sociais. Também deixa de ser prioritária a regra de trazer a notícia pronta e supostamente completa. Com a multiplicação exponencial dos informantes online, cidadãos praticantes de atos jornalísticos, fica difícil ser inédito e, ainda mais, tentar condensar a diversidade de visões e opiniões numa única reportagem.

A tendência é a TV deixar de ser a referência obrigatória para as pessoas saberem o que está acontecendo porque elas estarão se atualizando por uma miríade de veículos, quase todos alimentados pela internet. Com isso, os telejornais tendem a se tornar menos atrativos e consequentemente menos valorizados em matéria de espaços publicitários. Para manter sua relevância diante do público, o telejornalismo precisa descobrir o que a TV tem de único em relação aos demais veículos de comunicação, algo que muitos sabem mas não aplicam.

A televisão é o melhor veículo para exposição da diversidade de perspectivas e opiniões, desde que os profissionais deixem as pessoas debater, sem impor condicionamentos ou direcionamentos. Os programas jornalísticos na TV em ambiente Web podem assumir duas características: espaços abertos para discussão ou espaços de opinião personalizada diversificada.

Dos dois espaços, a TV comercial, e também a estatal, usam apenas o ocupado por porta-vozes das opiniões ou projetos das respectivas direções.

Na TV paga há mais debates do que na aberta, mas a razão fundamental não é o principio da livre discussão, mas o fato de que programas deste tipo são mais baratos, já que não envolvem produção sofisticada – bem como, quase sempre, encontram participantes interessados na visibilidade e marketing pessoal. 

Nos Estados Unidos, empresas surgidas na internet, com a Yahoo!, estão contratando profissionais da televisão convencional e mostrando interesse em ocupar espaços diante da demora das grandes redes de TV em mudar suas estratégias editoriais na era digital. Além disso, os grandes jornais, originalmente impressos, estão agora investindo pesado na multimídia, abrindo outro flanco de ataque aos territórios antes exclusivos da TV. Quase todos os grandes jornais norte-americanos, europeus e japoneses já têm hoje boa parte de suas notícias na internet editadas na forma de vídeos.

As receitas publicitárias da televisão também estão caindo, mas em ritmo muito menor do que na imprensa escrita. As margens de lucro ainda são compensadoras. O momento da mudança é agora, porque esperar mais significa a possibilidade de ter que tomar decisões complexas em clima de crise ou quase crise, quando a margem de erro aumenta muito."
Carlos Castilho, Observatório da Imprensa

Princípio e fim da elite brasileira: pilhar e expatriar



"Quando conhecemos os princípios – ou a falta destes – das nossas elites e dos nossos governantes mais conservadores e reacionários, fica fácil entender porque existe a indigência, a pobreza, a violência


Lula Miranda, Brasil 247

O princípio do poder imperial, na época do colonialismo, podia ser resumido a essas duas ações: saquear e expatriar. O "direito" ditado pelo chamado poder de guerra e seus consequentes "espólios" é bastante conhecido. Você deve saber que a maior parte das obras de arte expostas nos grandes museus da Europa é oriunda de pilhagens e "expropriações" nas guerras. Deve saber também que países desenvolvidos e "civilizados" da Europa, como Holanda, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Portugal fizeram sua acumulação primitiva de capital escravizando povos, extraindo riqueza das "suas" colônias e remetendo para a metrópole. Isso a gente aprende nas aulas de história.

Sociólogos e antropólogos variados já escreveram diversos ensaios e tratados onde analisam e documentam que, depois que as antigas colônias conseguiram sua suposta e só aparente independência, as elites governantes, que ficam e assumem o manietado poder local, curiosamente, ainda mantinham entranhados em seus hábitos e costumes o princípio da subordinação, mas, principalmente, o da pilhagem e da expropriação aprendidos com os colonizadores europeus.

Esse, segundo os estudos e análises desses diversos intelectuais, seria, grosso modo, uma espécie de "determinismo econômico-cultural", de "fatalismo": a grande mazela ou cacoete atávico que acomete nossas elites.

Algo que também poderia ser denominada de "síndrome do Dilúvio" ou "síndrome da arca de Noé. Ou ainda, num linguajar mais popular de nossas áridas paragens, o velho determinismo do ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Parece-me nítido que não havia, e, creio, ainda não há, da parte de porção significativa de nossas elites, uma preocupação em construir uma nação lastreada nos mais básicos princípios civilizatórios e comprometida com o bem-estar de seu povo.

Parecem, no fundo, por mais incrível que isso possa soar, movidos pelo mesmo impulso bestial que move populações mais pobres quando diante de uma carga tombada em um acidente na estrada, por exemplo: "quero é garantir o meu e dos meus. O resto não importa".

O "detalhe" é que, em verdade, o aludido "resto" é o que de fato importa.
Resolvi escrever esse artigo depois que li, em matéria publicada no blog Diário do Centro do Mundo, que a governadora Roseana Sarney teria depositado a soma de 150 milhões de dólares (cerca de R$360 milhões em valores de hoje) nas ilhas Cayman (ou Caimã), segundo informações vazadas pelo Wikileaks lá atrás, em 2009. Se verídica essa informação, o crime dessa governante se agiganta e se torna ainda mais grave do que já é em si. Pois, sabemos todos, o Maranhão é um dos estados brasileiros que vive afundado na mais aviltante pobreza.

Pilhagem e expatriação.

Um ministro do Supremo recentemente comprou um apartamento em Miami. É um direito dele, ninguém questiona isso. Mas a mimese aqui é semelhante a da síndrome dos crioulos colonizados, os brancos nascidos na América, mas descendentes de europeus. Veja bem: um cidadão negro, de origem humilde, sobe na vida por seus próprios esforços, méritos e talentos, mas "ao fim e ao cabo" assume a mesma postura da elite branca, brega e rastaquera: assegura a sua "arca de Noé" no "paraíso" de Miami. Afinal, amanhã ou depois poderá advir o grande Dilúvio e é preciso preservar a própria espécie. Não é mesmo?

Essas notícias não trazem em si nenhuma novidade. Paulo Maluf foi acusado de possuir centenas de milhões de dólares em contas em outro paraíso fiscal – o que ele nega peremptoriamente. Inúmeros outros governantes já foram acusados de possuir semelhante "poupança" – já que o velho, bom e honesto "porquinho" tornou-se brincadeira de criança.

Recentemente, foram descobertas somas milionárias escondidas na Suíça. Depósitos que teriam sido feitos a título de propina em nome de operadores ligados a políticos do PSDB e do PPS. Certamente há, nos chamados "paraísos fiscais", também depósitos feitos por operadores do PT, do PMDB, do PSB, do PTB etc. Mas, como se sabe, é tudo "mentira": "intrigas da oposição"; tudo parte integrante do nosso "folclore político".

Quando conhecemos os princípios – ou a falta destes – das nossas elites e dos nossos governantes mais conservadores e reacionários, fica fácil entender porque existe a indigência, a pobreza, a violência, os latifúndios improdutivos ou o flagelo causado pela seca. Podemos aprender alguns "fins" ou os "porquês".

1º: pelo qual motivo os presidiários são tantos e amontoados como se fossem dejetos humanos em diminutos e superlotados catres.

2º: por que surgiram os comandos e o crime organizado que hoje dominam os presídios e favelas, oprimem o cidadão de bem e submetem o próprio Estado.
3º: por que os pobres não recebem um atendimento minimamente digno nos hospitais e postos de saúde.

4º: por que a educação pública é tão ruim.

5º: por que os ônibus e metrôs são tão poucos e superlotados.

6º: por que o déficit habitacional é tão grande (faltam cerca de 7 a 8 milhões de moradias para abrigar a população mais carente); por que os aluguéis são tão caros.

7º: por que os melhores empregos são para os filhos dos brancos.

Todo esse elenco de iniquidades é fruto de séculos de dominação por uma elite inescrupulosa e egoísta. É fruto da pilhagem, expropriação e expatriação das riquezas da nação. Mas esse sua natureza, inescrupulosa e egoísta, carrega em si o germe da sua própria destruição. Ou seja, os seus princípios espúrios determinarão a sua própria ruína, o seu próprio fim.

O único caminho possível, para muito além do velho proselitismo político e das mentiras e hipocrisia seculares, é procurarmos trilhar uma política cada vez mais progressista e humanista, unindo os melhores talentos da sociedade com esse fim: o da construção de uma sociedade mais justa, e por isso menos desigual.

Assim deve prosseguir caminhando firmemente o Brasil.

Assim caminham os principais países da América Latina – e até mesmo os EUA.

Assim deve caminhar a Humanidade."

sábado, 13 de julho de 2013

INTELECTUALIDADE DOMINANTE E CULTURA MIDIATIZADA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante de hoje perde tempo tentando associar a "cultura de massa" brega-popularesca à natureza espontânea da verdadeira cultura popular. Isso não existe. Desde os primeiros ídolos cafonas, até os novos nomes do "sertanejo universitário" e até do "funk ostentação", a "cultura" brega sempre foi um produto midiático, por ser resultante de valores ideológicos transmitidos pelo poder midiático.

Neste sentido, pouco influi se é aquele grupo de "pagodão erótico" inventado por um esperto produtor de eventos ou se é um ídolo cafona que foi sozinho do interior do Nordeste para São Paulo num ônibus lenhado para iniciar carreira hospedado em uma pensão de quinta categoria. Ou se é um ídolo da axé-music de bem com a vida ou um "sertanejo" que antes da carreira trabalhava em colheita de alimentos plantados em uma fazenda.

A cultura midiatizada, neste caso, é determinante, e no caso do brega ela estabelece relações de classe, porque é uma cultura que nada tem a ver com os vínculos comunitários das classes populares, mas antes a reunião destas classes em torno de um processo de transmissão de valores "de cima para baixo" determinado pelo poder midiático regional.

Vamos pensar um pouco. Um bom exemplo é a própria música brega original. De Waldick Soriano, de Orlando Dias, e, um pouco mais tarde, de Odair José e Paulo Sérgio. Do que se compõe o brega original? De "restos" de valores oriundos de um regionalismo brasileiro em decomposição, seja pelo poder latifundiário, seja pelo êxodo rural,e de valores estrangeiros mal-digeridos pela velocidade das informações trazidas pelo rádio e pela imprensa e, mais tarde, pela TV.

Não são identidades brasileiras, não é a brasilidade renovada, mas uma identidade confusa, em que "eu" e "outro" parecem se confundir, em que o coronelismo cultural estabelece seu padrão etnocêntrico de "cultura popular" e se empenha para que o povo pobre expresse não a sua cultura, suas crenças e suas vidas, mas seja apenas um reflexo do que rádios, TVs e imprensa ligados ao poder oligárquico estabelecem como paradigma de "popular".

A intelectualidade dominante tenta nos fazer crer, em argumentação chorosa, apesar do forte aparato científico, de que essa "sub-cultura" é uma suposta semente de uma "nova brasilidade". Conversa para todo o gado dormir tranquilo. O que ocorre é uma visão tipicamente emprestada de Francis Fukuyama à qual toda a cultura brasileira produzida até 1964 está "superada" e que agora "novas" identidades, a pretexto de serem "modernas", passam a ser desenvolvidas.

Quer dizer que todo o patrimônio cultural brasileiro, arduamente desenvolvido às custas de muita luta, muita dor, com índios exterminados a bala por bandeirantes e por negros escravizados e até mortos na tortura e no açoite, deva ser jogado na lata de lixo? Agora o que vale é o brega em dor-de-corno, o funqueiro se fazendo de vítima, o axézeiro "mal-compreendido" pelos cariocas e paulistas, todos mais próximos de Miami do que de Brasília?

O QUE É O POVO MESMO?

Na verdade, o que se vê é que a própria intelectualidade dominante, que ainda se atreve em se passar por "progressista", também tem uma formação ideológica midiática. Seus "pensadores", geralmente nascidos a partir de 1960, viram televisão durante o auge da ditadura militar e se formaram, culturalmente, felizes na bolha de plástico midiática durante a vigência do AI-5. Eles não viveram o tempo em que famílias se reuniam para ouvir os "causos" de avôs sob a luz do lampião.

Evidentemente, a atual geração de antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas e jornalistas musicais que trabalham o tema "cultura popular" segue uma pedagogia social mais próxima dos estereótipos da televisão do que da realidade vivida 'in loco'. Se em outros tempos falava-se numa intelectualidade de formação meramente livresca, hoje se fala numa intelectualidade de formação televisiva, em ambos os casos sem a necessária vivência social junto às classes populares.

O contato com as classes populares é meramente pragmático e superficial. Os intelectuais dominantes estabelecem relações com empregadas domésticas, faxineiros, porteiros, feirantes e alguns comerciantes. Isso não é suficiente para ter uma consciência exata do que são e do que querem as classes populares. Da mesma forma que os antigos burocratas em relação aos escravos, mascates e pequenos comerciantes, no século XIX.

A intelectualidade dominante que trabalha com o brega-popularesco, defendendo desde os antigos ídolos cafonas até os funqueiros, julga conhecer profundamente a realidade do povo pobre. Grande engano. Mesmo os contatos mais "penetrados" nos ambientes das periferias e do interior, por mais que tentem se aproximar da realidade popular, carregam um paternalismo que, mesmo não-assumido, revela seus preconceitos acadêmicos e elitistas severos.

Afinal, não há uma avaliação crítica dos conflitos de classes nem das questões em torno da miséria e de outras carências associadas à pobreza. O que existe é uma glamourização, uma construção da realidade, de um discurso intelectual persuasivo, discurso que na forma segue o rigor científico das produções acadêmicas, jornalísticas ou cinematográficas, mas cujo conteúdo tem muito mais a ver com o discurso publicitário institucional.

Descontando os propósitos escusos que intelectuais associados a órgãos estrangeiros ligados à CIA - como a Fundação Ford e a Soros Open Society - , a boa-fé dos demais intelectuais aponta para o fato de que mesmo o contato físico com o povo não quer dizer que essa intelectualidade dita "sem preconceitos" seja realmente desprovida de qualquer preconceito elitista.

Pelo contrário, tudo para esses "pensadores" segue o caráter quase ficcional da realidade midiática. Até mesmo a influência do rádio e das empresas de entretenimento é minimizada em seu discurso. Os empresários de entretenimento, que no âmbito das estruturas sociais, equivalem a uma forma moderna e menos violenta dos capatazes (ou jagunços) dos grandes fazendeiros, são tidos como "meros produtores culturais" e, mesmo ricos, são ainda tidos em vínculo com as populações pobres.

Já o rádio, que sabemos ser expressão do coronelismo midiático nos subúrbios e roças de nosso país - mesmo algumas emissoras "comunitárias" são vinculadas a esse poder, através do controle acionário de vereadores, deputados e até mesmo jagunços - , praticamente vê esse poder "desaparecer" no discurso intelectual dominante. Esse discurso tenta sobrelevar o trabalho dos programadores e gerentes artísticos, como se fossem detentores de um suposto poder libertário na "cultura das periferias".

TUDO É MIDIATIZADO

O controle midiatizado faz com que o povo pobre perca sua consciência na extratificação social. A grande mídia que trabalha com o brega e seus derivados cria uma espetacularização do cotidiano que, no contexto das classes populares, insere valores confusos, numa assimilação indigesta e acrítica de valores elitistas e estrangeiros, mesclados por uma gororoba de valores sociais ligados ao grotesco, ao piegas, ao sensacionalista, ao pitoresco e que banalizam a degradação de valores morais.

O discurso intelectual tenta "positivizar" o processo, achando que são "valores do outro", e tentam eles mesmos superestimar as questões de gosto, embora condene o questionamento que mentes realmente mais questionadoras fazem com a supremacia do "mau gosto" sobre o cotidiano das classes populares.

Afinal, a própria questão do "mau gosto", tida como "bandeira libertária" pela intelectualidade dominante de hoje, é bastante duvidosa, porque o processo de gosto já é corrompido pelo mercado e pela mídia. "Gosta-se" dos "sucessos do povão", "gosta-se" de "funk", brega, "pagodão" etc, como se "gosta" de sabão em pó, de automóvel, de comida enlatada. É tudo questão de persuasão publicitária, algo que as elites "pensantes" de hoje ignoram.

Mesmo a "conscientização" do "funk" e as "lamentações" dos bregas "de raiz" são fruto de uma educação midiática, que corrompe os valores, desejos, crenças da população pobre, que deixou de ter seus próprios desejos, suas próprias necessidades, sua própria realidade. Mesmo na "mais dura realidade" do "funk carioca", os desejos não são mais os próprios. São os desejos da grande mídia, do empresário das equipes de som, do poder político e econômico, das agências de publicidade.

Portanto, tudo ficou midiatizado. Daí não fazer sentido a intelectualidade dominante de hoje defender no brega-popularesco os vínculos sociais que já foram rompidos pelo poder midiático, em vez de questionar as relações de dominação que estão por trás dessa "cultura de massa" claramente patrocinada pelo poder oligárquico que controla, de uma forma ou de outra, as periferias.
http://mingaudeaco.blogspot.com.br/2013/07/intelectualidade-dominante-e-cultura.html

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

.Jesus, o maior dos revolucionários



Uma LUZ está entre nós.

Comemorem, festejem, comam, bebam, cantem... mas não se esqueçam de celebrar o nascimento do menino.

O menino frágil, nascido entre gente simples e despossuída, vai crescer e virar um revolucionário.

Os textos sagrados nos mostram que Jesus, na maturidade, assumiu atitudes radicalmente subversivas. 

Jesus protestou e se rebelou contra os poderosos da época, expulsou os vendilhões do Templo, a que chamou "covil de ladrões", defendeu os pobres, se colocou ao lado dos mais frágeis e nos legou exemplo, palavras e ações verdadeiramente emancipadoras.

Celebremos a chegada do menino que se transformou no maior dos revolucionários! 



Sermão da Montanha - As Bem-aventuranças

Vendo ele as multidões, subiu ao monte. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava, dizendo:

"Bem-aventurados os pobres em espírito, 
porque deles é o Reino dos Céus.  

Bem-aventurados os mansos
porque herdarão a terra.

Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.

Bem-aventurados os que têm fome
e sede de JUSTIÇA,
porque serão saciados.

Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.

Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.

Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da JUSTIÇA,
porque deles é o Reino dos Céus.

Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que viveram antes de vós."

abraabocacidadao.blogspot.com.br

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Fico imaginando...



Fim de ano, boataria intensa sobre o fim do mundo...
Fico só imaginando como seria o Brasil hoje se em 2008, quando a crise financeira se espalhou pelo Planeta Terra, o então presidente Lula tivesse ouvido os insistentes conselhos dos tais "analistas econômicos" que ditam as pautas dos jornalões - sempre com o viés mercadista, neoliberal, ortodoxo.
Imagino só como estariam neste momento os milhões de brasileiros que fazem as últimas compras de Natal, se preparam para a ceia ou arrumam as malas para viajar em busca de um pouco de distração e lazer, se o então presidente Lula não tivesse adotado, contrariando as sugestões dos tais "analistas econômicos" a serviço do capital, as medidas anticíclicas que permitiram que a maior crise depois do crash de 29 chegasse ao Brasil como uma "marolinha".
É algo para se pensar.
E, voltando ainda mais no tempo, imagino como seria hoje o Brasil se Lula tivesse perdido a eleição em 2002 para essa simpatia de pessoa que se chama José Serra.
Os maias estavam errados, o mundo não acabará hoje.
O tempo vai correr como sempre e logo estaremos construindo outro ano, um 2013 que será melhor que este 2012 para a imensa maioria dos brasileiros.
Essa é uma certeza, não uma suposição.
Como também é uma certeza o fato de que, apesar de todo o imenso esforço que faz a oligarquia nacional para não perder os seus privilégios seculares, o Brasil mudou muito - e para melhor - em apenas dez anos.
E isso foi devido a um projeto de um partido político que nasceu quase utópico, cresceu em meio a muitas dificuldades - externas e internas - e hoje, maduro, sente os efeitos de seu crescimento e das mudanças que provocou na sociedade brasileira. 
Nem dá para imaginar o que estaria escrevendo agora se em 2002 o PT tivesse perdido novamente a eleição presidencial.

cronicasdomotta.blogspot.com.br

sábado, 15 de dezembro de 2012

Desapontamentos previstos para 2013



Ravi Shankar foi apresentado ao Ocidente, de maneira definitiva, pelo cantor e compositor britânico George Harrison nos anos 60, época em que os Beatles eram mais conhecidos no mundo que Jesus Cristo (Quem de vocês se sentir incomodado com a comparação que reclame com Yoko Ono, viúva de John Lennon, o responsável pela analogia que provocou uma das maiores quebradeiras de discos de vinil em praça pública que se tem notícia. Se alguém quiser me esconjurar, prossiga. Não persigo céus mesmo...).
Renomado músico indiano, foi Ravi quem ensinou (e influenciou) George a tocar a cítara, instrumento de cordas com som exótico que foi introduzido nos arranjos de algumas canções do quarteto fabuloso naqueles loucos e benditos anos 60. A recente morte de Ravi Shankar, aos 92 anos, pouquíssimo tem a ver com a temática desta crônica, a não ser para ilustrar o quanto a vida nos premia com desapontamentos tão ininteligíveis e pouco aceitáveis quanto a morte.
Muitos haverão de dizer que a morte é primordial para o expurgo da humanidade, que o povo tem que morrer mesmo, a fim de que mais e mais gente nasça para continuarmos a nossa ignóbil missão neste planeta rumo ao desconhecido. Isto lhes parece atraente?!
Até que o argumento é bastante pertinaz, quase me convence. Mas, por que não nos ensinam desde cedo que morrer é útil e integra o pacote de bondades universal como chupar as tetas da mamãe ou lavar as patinhas antes das refeições? Isto não tornaria a dor da separação definitiva menos dramática?
Enquanto aguardo por mais um fim do mundo, o qual está agendado pelos maias e seus tolos sucessores apocalípticos para o próximo dia 21 de dezembro, eu como uma empadinha de frango (sem azeitona, diga-se de passagem) no Mercado Central da cidade. Empadinhas sem azeitonas, para mim, por si só, já representam, se não o fim do mundo, o fim da picada, que é uma expressão popular bastante utilizada na minha terra para demonstrar indignação.
Eu degusto a incompleta empadinha e sigo anotando num amarrotado pedaço de papel reciclado, utilizado pelo Zé Feirante para embrulhar dois quilos de pequi, desapontamentos previsíveis para 2013. Finais de ano transformam as pessoas, fazem o público consumidor sentir-se magnânimo e comprar à beça. Da minha parte, eu penso, penso, penso, penso, penso até sentir ojeriza.
O papel aceita tudo, inda mais um papel tão fajuto quanto a minha aviltada empadinha. O pequi, não. O pequi está mesmo muito bom, douradinho, colhido no tempo certo, maduro, com a polpa gordinha e cheirosa. Juntamente com a galinha caipira sem hormônios (que Deus a tenha!) haverá de resultar numa saborosa galinhada ao molho.
Então eu listo na página improvisada pensamentos para 2013, ideias que certamente serão refutadas pela parentalha, a qual me tem como um macambúzio, um pessimista, um ser tão ou mais insensível que um teiú comedor de ovos. Quanto mais exponho as mazelas humanas, menos sou convidado para batizados e happy-hours, apesar de me esmerar nas omeletes. Fazer o quê? Cosas de la vida...
Então, vamos. Tomei emprestada a caneta de um Agente Fiscal do Trânsito que fazia uma pausa nas multas natalinas para degustar uma empadinha no balcão. “Ei, mas esta empadinha não tem azeitona...”, ele reclama. Viu só, Seu Guarda? A vida é dura, repleta de aborrecimentos, desapontamentos como estes que eu prevejo para 2013. Anotem aí, caros leitores. Se preferirem, esqueçam tudo. Pra mim, tanto faz.
Para decepção de vários, o mundo, que não terá terminado em 2012, também não fechará para balanço em 2013.
O salário mínimo será, no máximo, mediano.
Uma saraivada de feriados manterá o Brasil na sola do sapato mundial.
As incidências de ressaca, azia, gravidez e gonorreia continuarão elevadas no carnaval.
Os facínoras não serão menos impiedosos durante a Semana Santa.
Se não ultrapassados, tomaremos um sufoco danado de Bangladesh na briga pelo 88º lugar no ranking educacional da UNESCO. Por outro lado, o Big Brother continuará com audiência avassaladora.
O aborto não será legalizado, nem o uso da maconha, nem a comissão de 20% paga pelos empreiteiros. E mais: para o bem dos partidos políticos, a propina prosperará.
Não havendo eleições em 2013 — a não ser em condomínios país afora — continuaremos com um Congresso Nacional bastante medíocre.
Não. Nem sonhando. Não haverá a redução do IPI sobre livros. Junte os seus trocados, compre um carro popular flex, e vá ajudar a entupir uma rua.
Os peitos delicados, aqueles pequenos como as peras, não voltarão à baila. Podem tirar os cavalinhos da chuva. O silicone continuará em alta no mercado dos corpos imperfeitos.
Assim como nos motéis e nos transplantes de medula, as filas do SUS continuarão indecentemente longas.
O Governo não deixará de amparar o eleitorado: a calcinha de renda cidadã continuará prestigiada.
O poema “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello, não será lido em rede nacional de rádio e televisão pela Ministra da Cultura. Na verdade, ninguém estará interessado neste tipo de coisa.
A ciência e a Polícia Federal não descobrirão a cura para o câncer social denominado corrupção. Aliás, eu e o escritor Paulo Coelho assessoraremos a PF na elaboração de nomes mais criativos para as suas operações secretas.
Não haverá fair-play nas peladinhas e nas celas dos presídios brasileiros.
Uma série de novos escândalos financeiros substituirá os atuais.
Sempre haverá a musa de um ilustre criminoso do colarinho branco para manter acesa a libido masculina, além de incrementar as vendas de revistas de fofocas.
Nenhum delinquente rico permanecerá preso.
Nunca mais escreverei poemas em 2013.
Por fim, serei submetido a uma delicada cirurgia de redução. De redução de estômago, não, filha. Redução peniana.
Mentirei mais que um deputado federal.
Farei previsões escabrosas para 2014. E, por causa disto, continuarei fora das listas de convidados.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A COMPLICADA 'PARTILHA'



Vincent Van Gogh

Taís Luso de Carvalho  
Não há dúvidas que ao recebermos a notícia do falecimento de alguém ficamos consternados e lamentamos muito. Mas se o falecido for parente, a coisa muda. A dor é enorme e a recuperação é muito lenta. Porém, certas atitudes, que seguem ao sepultamento, poderão nos surpreender, e nos darão uma dimensão exata do comportamento humano. ...