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sábado, 28 de julho de 2018

A economia política da “pós-verdade”


Desde Marx, sabemos que no capitalismo as mercadorias valem por sua capacidade de troca e não por sua utilidade. É a ditadura da lei da oferta e procura. É por isso que o preço de um remédio que curasse o câncer, por exemplo, seria definido por sua abundância ou escassez, jamais pela necessidade de curar o maior número de pessoas.   

Essa predominância do valor de troca sobre o valor de uso vem tomando conta de tudo o que se transforma em mercadoria há séculos. Mas na fase financeira do capital, o próprio dinheiro deixou de ser meio para adquirir utilidades. Passou a ser um fim em si mesmo.

Agora, façamos um paralelo com a elaboração de Jean Baudrillard, para quem a partir de um certo momento, todos os signos se permutam entre si, sem se permutarem por algo real. Não passariam de símbolos a simbolizar outros símbolos, sem jamais chegarem ao real que pretendem simbolizar.

Neste caso, ficaria fácil entender a chamada “era da pós-verdade”. Ou seja, tal como as outras mercadorias, as informações e notícias também perderam relação com sua utilidade prática.

Já não interessa saber o quanto de verdade há numa informação. Apenas o quão rápida e amplamente ela circula. Quanto mais cliques, mais ela vale. Os algoritmos dos monopólios digitais que remuneram pelos volume de acessos não deixam dúvidas sobre isso.

Tudo isso é um resumo grosseiro de uma resenha sobre o livro “Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva”, do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi. O texto está disponível aqui. Vale a pena ler. Só não dá pra 
 garantir que seja verdade.
https://pilulas-diarias.blogspot.com/2017/08/a-economia-politica-da-pos-verdade.html

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O novo individualismo já tem alguns séculos


Anthony Elliott é professor de sociologia das universidades South Australia e Keio, no Japão. Em 31/12, publicou artigo na Folha discutindo um novo tipo de individualismo.

Segundo ele, o individualismo atual “nos encoraja a mudar tão completa e tão rapidamente que nossas identidades se tornam descartáveis”.
                                    
Ele cita o filósofo e escritor estadunidense Don DeLillo, para quem:

...o capitalismo mundial gera transformações à velocidade da luz, não só em termos do movimento súbito de fábricas, migrações em massa de trabalhadores e transferências instantâneas de capital líquido, mas em “tudo, da arquitetura ao tempo de lazer, à maneira pela qual as pessoas comem, dormem e sonham”.

Ora, em 1848, o Manifesto Comunista já afirmava que a burguesia “não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção, e com isso, todas as relações sociais”.

Em relação ao mundo “profissional”, Elliott afirma:

A morte da ideia de uma carreira (uma vida de trabalho) desenvolvida dentro de uma só organização foi interpretada por alguns como sinal de uma nova economia —flexível, móvel, operando em rede. O financista e filantropo internacional George Soros argumenta que transações tomaram o lugar dos relacionamentos na economia moderna.

As transações que tomam o lugar dos relacionamentos identificadas por Soros continuam a movimentar mercadorias, ainda que, atualmente, muitas delas nem existam e circulem por meio de pulsos eletrônicos.

O conceito de “fetichismo da mercadoria” apresentado em “O Capital” diz algo muito parecido. É a relação entre as mercadorias ocupando o lugar da relação entre as pessoas.

Soros, DeLillo e Elliott poderiam dar os devidos créditos a Marx e Engels. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A luta de Marx contra a burguesia e seus furúnculos



Marx levou 15 anos para escrever o primeiro volume de “O Capital”. Principalmente, devido a seu perfeccionismo doentio e à complexidade do objeto de estudo.

Mas nos quatro ou cinco anos antes da publicação, surgiu um problema muito pior: furúnculos. E também carbúnculos, que são aglomerados de furúnculos.

O problema era tão grave que aparece com muita frequência em sua correspondência entre 1864 e 1868. Incluindo momentos em que sua vida correu risco.

Em carta a Karl Klings, de outubro de 1864, por exemplo, ele diz que ficou doente durante todo o ano anterior devido às terríveis feridas.

Se não fosse por isso, diz Marx, meu trabalho sobre economia política, "O Capital", já teria saído. Espero poder completá-lo em alguns meses, atingindo a burguesia com um golpe teórico do qual nunca poderá se recuperar.

Em fevereiro de 1865, Engels escreveu:

Estou um pouco preocupado por não tido notícias suas hoje, em vista dos furúnculos e carbúnculos que você mencionou nos lugares mais interessantes (ou melhor, mais interessados).

Escrevendo a Engels, um ano depois, Marx informa que ele mesmo tomou a iniciativa de lancetar uma das feridas, já que não poderia “permitir aos médicos que lidassem com minhas partes mais privadas ou suas vizinhanças”.

Finalmente, em junho de 1867, o primeiro volume estava pronto. E feliz com a aprovação de Engels, Marx escreveu:

Que você tenha ficado satisfeito é agora mais importante para mim do que qualquer coisa que o resto do mundo possa achar. De qualquer forma, espero que a burguesia se lembre dos meus carbúnculos até o dia de sua morte.

Que assim seja!


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Dicas (pouco animadoras) para ler “O Capital”


Há exatos 150 anos, em novembro de 1867, ano em que foi publicada a primeira edição de “O Capital”, Marx enviou uma carta a seu amigo Ludwig Kugelmann. Era a resposta às dificuldades que a esposa de Kugelmann, Gertrud, estava encontrando para entender a mais recente obra de Marx:

Diga à sua mulher que as partes mais imediatamente legíveis são “A jornada de trabalho”, “A cooperativa, a divisão do trabalho e a maquinaria” e, finalmente, “A acumulação primitiva”. Depois disso, será preciso explicar a ela a terminologia incompreensível. Sobre quaisquer outros pontos duvidosos, estou à disposição.

Ora, então por que Marx não começou seu livro por estes temas? Porque não seria dialético. O primeiro capítulo de “O Capital” é sobre a mercadoria, “célula econômica da sociedade burguesa”. Síntese do modo como funciona a lógica social sob o capitalismo.

O professor e filósofo José Paulo Netto costuma citar aquela correspondência com Kugelmann para explicar que para entender plenamente a maior obra de Marx é preciso superar a lógica quadrada que rege nossa cabeça há alguns séculos. É preciso pensar dialeticamente.

De fato, Marx só conseguiu desvendar o funcionamento do capital porque partiu do método dialético hegeliano para criar seu próprio modo de explicar a realidade material da sociedade burguesa.

É por isso que ninguém menos que Lênin afirmou em seus "Cadernos filosóficos":

É completamente impossível entender “O Capital” de Marx, e em especial seu primeiro capítulo, sem ter estudado e entendido a fundo toda a “Lógica de Hegel”. Portanto, faz meio século que nenhum marxista tem entendido Marx!

Ou seja, caras e caros camaradas... fodeu!

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/11/dicas-pouco-animadoras-para-ler-o.html



terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Capital pode sofrer de apendicite?


Em um famoso capítulo de “O Capital”, Marx fala sobre a transição entre antigos processos produtivos e aqueles sob a lógica do capital:

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos. 

Na mesma obra, Marx apresentou o conceito de fetichismo da mercadoria para explicar o caráter mistificador da economia capitalista. Vivemos sob uma forma de produção em que as relações humanas são cada vez mais intermediadas pelas mercadorias.


Enquanto elas circulam livremente pelo planeta, a enorme maioria de seus produtores vive isolada em suas fronteiras. Enquanto as mercadorias têm uma vida social, nós somos meros portadores de suas marcas, especificações, cores, modelos.

Esse fetichismo se revelava mais claramente no consumo. Agora, talvez, ele fique mais evidente, assustador e perigoso no nível da produção. Os locais de trabalho seriam dominados quase inteiramente por coisas robotizadas.

A Quarta Revolução Industrial pode ser a radicalização da redução dos trabalhadores aos “apêndices” a que Marx se referiu 100 anos atrás. Só que, agora, o Capital pretende extirpá-los.

Na verdade o que os capitalistas tomam por apêndices são órgãos vitais. Sem eles, sua exploração simplesmente não funciona ou funciona muito mal. O capitalismo é usuário dependente da exploração do trabalho humano.

Para tentar entender melhor essa questão, leia Robôs não ficam desempregados.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Capital pode sofrer de apendicite?



Em um famoso capítulo de “O Capital”, Marx fala sobre a transição entre antigos processos produtivos e aqueles sob a lógica do capital:

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos. 

Na mesma obra, Marx apresentou o conceito de fetichismo da mercadoria para explicar o caráter mistificador da economia capitalista. Vivemos sob uma forma de produção em que as relações humanas são cada vez mais intermediadas pelas mercadorias.


Enquanto elas circulam livremente pelo planeta, a enorme maioria de seus produtores vive isolada em suas fronteiras. Enquanto as mercadorias têm uma vida social, nós somos meros portadores de suas marcas, especificações, cores, modelos.

Esse fetichismo se revelava mais claramente no consumo. Agora, talvez, ele fique mais evidente, assustador e perigoso no nível da produção. Os locais de trabalho seriam dominados quase inteiramente por coisas robotizadas.

A Quarta Revolução Industrial pode ser a radicalização da redução dos trabalhadores aos “apêndices” a que Marx se referiu 100 anos atrás. Só que, agora, o Capital pretende extirpá-los.

Na verdade o que os capitalistas tomam por apêndices são órgãos vitais. Sem eles, sua exploração simplesmente não funciona ou funciona muito mal. O capitalismo é usuário dependente da exploração do trabalho humano.

Para tentar entender melhor essa questão, leia Robôs não ficam desempregados.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/10/o-capital-pode-sofrer-de-apendicite.html

sábado, 23 de setembro de 2017

ma nota de rodapé de “O Capital”


O Capital”, talvez, seja a primeira obra teórica a utilizar notas de rodapé exaustivamente. Imaginando que seu estudo seria recebido com grande hostilidade e ceticismo, Marx apoiou suas muitas afirmações polêmicas em inúmeras fontes bibliográficas, factuais e estatísticas.

Apesar de tornarem a leitura ainda mais difícil, algumas delas servem como pausas divertidas em meio às acrobacias dialéticas do autor. É o caso de uma nota do capítulo III.

A nota refere-se a um trecho que ironiza a crença burguesa de que o valor das mercadorias é definido pelas etiquetas de preço que seus vendedores colam nelas. Cita o relato de um tal Capitão Parry sobre os estranhos hábitos comerciais de nativos da costa ocidental da baía de Baffin:

“Nesse caso”, (ao intercambiar produtos) “(...) eles o lambiam” (o que lhes foi oferecido) “duas vezes com a língua, com o que pareciam considerar o negócio concluído satisfatoriamente”. Se a língua no norte, portanto, serve de órgão de apropriação, não é de admirar que no sul a barriga funcione como órgão de propriedade acumulada e que o cafre calcule a riqueza de um homem segundo a sua pança. Os cafres são tipos muito espertos, pois enquanto o relatório oficial inglês sobre a saúde, de 1864, deplora a falta de substâncias formadoras de gorduras em grande parte da classe trabalhadora, um certo dr. Harvey (...) no mesmo ano fez a sua fortuna por meio de receitas que prometiam livrar a burguesia e a aristocracia de seu excesso de gordura (1).

(1) Marx, Karl. “O Capital” (1867), “Capítulo III - O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias”.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Para o capital, o pecado. Para nós, o castigo



No capitalismo, a imensa maioria das pessoas é obrigada a trabalhar para a pequena minoria que controla os meios de produção. Mas esta última alega que chegou a essa condição porque fez por merecer.

Falso. Quase todos os patrões herdaram suas empresas.

Ainda assim, responderia essa elite, seus antepassados trabalharam duro para que sua descendência não só desfrutasse como criasse oportunidades de trabalho para os despossuídos.

Tudo isso faria sentido não fosse o que Marx chamou de acumulação primitiva do capital. O conceito aparece em “O Capital” para descrever o surgimento do capitalismo. Foi nesse momento, por exemplo, que os camponeses ingleses tiveram suas terras comunais roubadas pela burguesia nascente.

Mas não só isso. Um trecho:

As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior de minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista. Esses processos idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva.

Na verdade, a tradução mais fiel do original em alemão para o conceito seria acumulação “originária” do capital. O termo “originário” é uma sutil referência ao pecado original bíblico. Aquele cometido pelo primeiro casal, que expulsou a humanidade do Éden e nos condenou a continuar pecando.

Do mesmo modo, a burguesia surgiu cometendo os piores pecados. E nunca mais parou. São inúmeras guerras, tragédias sociais, catástrofes ambientais causadas por poderosos interesses econômicos.

diferença, aqui, é que os piores castigos nunca desabam sobre os maiores pecadores.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

As cercas da internete


Cresce a impressão de que as redes virtuais, muito longe de abrirem nossos horizontes, nos aprisionam. Nesse sentido, os trechos do texto abaixo, de Fernanda Araujo, são muito pertinentes:

O processo pelo qual a Internet vem sendo submetida pelas grandes companhias da tecnologia remete aos cercamentos ingleses do século 18. Os cercamentos consistiram na expropriação de camponeses ingleses de terras comunais para benefício de proprietários privados. Antes um bem comum para os camponeses, que produziam naquele espaço de maneira colaborativa, as terras passaram a ter seu acesso e uso regulado pelos proprietários. O fenômeno, que contribuiu para o surgimento da classe operária e o início da Revolução Industrial, para a tradição marxista os cercamentos marcaram o início da sociedade capitalista, sendo um mecanismo de acumulação primitiva. Como explicitado quando analisamos as novas tendências do capitalismo, a expropriação do comum através da predação externa do capital não é um acontecimento exclusivo de uma época, mas sim estratégia integral e recorrente no processo capitalista de acumulação.

(...)

Atualmente, empresas de tecnologia como o Facebook e o Google agem como os proprietários do “espaço” a ser utilizado, e as informações pessoais servem como “pagamento” para o acesso dos usuários. A privacidade, nessa lógica, se torna um bem a ser comercializado. O fenômeno da privatização resulta não apenas no controle do acesso, mas na mediação das interações que ocorrem dentro desses espaços e na restrição dos fluxos de informação.

Em “O Capital”, Marx mostrou como os cercamentos ingleses representaram uma espécie de roubo das terras comunitárias dos camponeses. Após 150 anos, eles continuam. Na internete, são uma espécie de sequestro.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Marx não fala de classe operária em O Capital


É inegável que as velozes e radicais mudanças por que passa o “mundo do trabalho” vêm causando grande confusão na esquerda. Mas muito dessa confusão poderia ser evitada se alguns conceitos fossem mais precisos.

É o caso da ideia de que a única parte da classe trabalhadora capaz de abalar o poder do capital seria a classe operária.

Esse equívoco costuma ser produto de algumas leituras distorcidas de “O Capital” a partir de erros de tradução. Nos 150 anos da publicação dessa grande obra de Karl Marx vale a pena destacar, por exemplo, as observações feitas pelo historiador Marcelo Badaró no artigo “A classe trabalhadora: uma abordagem contemporânea à luz domaterialismo histórico”:

Nas línguas neolatinas, tendemos muitas vezes a traduzir (...) a expressão alemã empregada por Marx, Arbeiterklasse, ou o correlato inglês working class, por classe operária. Tal tradução aparece muitas vezes associada à ideia de que o verdadeiro sujeito revolucionário é o operário industrial – trabalhador produtivo...

Este entendimento restritivo e equivocado é responsável por muitas crises da esquerda nas últimas décadas: “A classe operária desapareceu ou tornou-se residual. Portanto, adeus à revolução!” Conclusões desse tipo soam como música aos ouvidos dos capitalistas.

Enquanto isso, o capital arranca imensas taxas de lucro de milhões de trabalhadores de serviços, como teleatendimento e fast-food. Explora multidões em pequenas oficinas ou grandes fábricas que integram cadeias de produção espalhadas pelo planeta. Todas ligadas a grifes tão modernas quanto escravocratas, como Nike ou Apple.

Ou seja, o constante surgimento de candidatos ao papel de sujeito revolucionário estava previsto em O Capital. Mais importante, eles estão aí, na vida real.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/08/marx-nao-fala-de-classe-operaria-em-o.html