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domingo, 22 de dezembro de 2013

Espírito natalino e consumismo exacerbado





O espírito natalino desnuda a realidade mais cruel do modelo no qual estamos sendo conduzidos. Não basta só o consumo. É necessário o consumismo exacerbado.

Jaciara Itaim, Carta Maior

A chegada do mês de dezembro reproduz a cada ano cenas que poderiam ser consideradas completamente irracionais por algum alienígena que se aproximasse de nosso País. Estamos em pleno final de ano, auge do verão aqui no hemisfério sul, com temperaturas bastante elevadas. No entanto, os ambientes todos estão tomados por indivíduos fantasiados com roupas pesadas e quentes, imitando a figura emblemática e mitológica do Papai Noel. A tentativa é de reproduzir o contexto da Lapônia, uma província da Finlândia, onde as temperaturas podem atingir mínimas de -20° C nessa época do ano.

Vem daí então o imaginário da neve, do pinheirinho, do trenó com as renas e tudo o mais que cerca o ambiente de Natal. Estranho sincretismo esse que conseguiu unir as tradições bíblicas que envolvem o nascimento de Jesus às estórias fantásticas do velhinho barbudo do norte europeu em um território equatorial e do outro lado do Oceano Atlântico. A tradição dos presentes - que remonta, na verdade, à chegada dos reis magos no dia 6 de janeiro - foi sendo aos poucos substituída pela pressão social em torno da oferta dos presentes no próprio dia do nascimento do menino Jesus.

Consumir, consumir, consumir e oferecer

Assim, o espírito natalino se converteu à sanha das compras e das aquisições. Festejar o Natal passou a ser sinônimo de desejo de consumo, impulso expresso por todos - desde as crianças até os adultos de todas as idades e gerações. As cartas ingênuas à entidade desconhecida de barriga grande e barbas brancas, as trocas de presentes no ambiente de trabalho, as festas familiares com as encomendas acertadas previamente ou sob efeito surpresa do amigo-secreto. Pouco importa a forma, uma vez que o essencial é um elemento apriorístico: o consumo.

É importante reconhecer que a realidade brasileira é pródiga na criação e na ampla aceitação social de datas “comemorativas”, onde o foco é sempre o presentear outrem por meio de compras. Apesar de o Natal ocupar, de longe, o primeiro lugar em importância e em faturamento, na seqüência surgem outros momentos que são utilizados para que a indústria e o comércio esquentem seus motores ao longo do ano. É o caso do Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia das Crianças e Dia dos Pais, para citar alguns exemplos. Para além das questões de natureza cultural e de sociabilização, a grande marca deixada pelas organizações que constituem a nossa formação capitalista relaciona-se ao verbo comprar. Ou seja, transformar esse misto de desejo e de imposição social em circulação de mercadoria, em movimentação acelerada de valores de troca e de valores de uso.

Nesse aspecto, ganha relevância o papel desempenhado pelas estruturas de propaganda e marketing. Trata-se da criação de necessidades sociais e culturais de forma artificial e exógena, em processos onde os indivíduos se sintam motivados a desenvolver determinadas ações ou a adotar certos comportamentos em nome de uma espécie de “unanimidade construída”. O verdadeiro bombardeio a que estamos todos submetidos por várias semanas antes mesmo da data da ceia tem uma mensagem muito clara. Natal feliz é Natal com presente. Quem não recebe nada comprado na data deve se sentir menosprezado ou desprezado por aqueles que o cerca. Quem se atreve a não comprar presentes para oferecer não merece o carinho nem o bem querer de seus pares. A comemoração é fortemente carregada do elemento simbólico: o querer é avaliado a partir da quantidade, da exuberância e dos preços.

A criação das necessidades e a generalização das compras

Vale recordar, por outro lado, a importância adquirida por uma forma muito especial, em meio à multiplicidade de estratégias mercadológicas: a publicidade dirigida ao público infantil. Apesar da festa não ser dirigida apenas às crianças, o foco recai sobre essa parcela expressiva da população, que termina por exercer influência significativa sobre as decisões das famílias no período. Ainda que os espaços de tangência entre a ética e a legalidade estejam presentes em todo o tipo de propaganda, no caso específico do universo infantil a situação é ainda mais escabrosa. São pessoas ainda em processo de formação e amadurecimento, sem quase nenhuma capacidade de discernimento entre o necessário e o supérfluo, entre o real e a fantasia, com pouca referência a respeito de preços e capacidade de aquisição. Ou seja, é o caso típico de atividade que deve ser proibida por lei - em razão de seus reconhecidos efeitos nocivos para o conjunto da sociedade – e não ser liberada em nome da liberdade do mercado e da possibilidade de amplo de acesso à informação.

O padrão civilizatório hegemônico nos tempos atuais determina que a conquista da felicidade e a vigência do bem estar estão intimamente associados à capacidade do indivíduo ter e comprar. A posse dos bens é elemento sempre martelado pelos meios de comunicação, a todo momento associada à imagem da pujança, da beleza e do amor. Quem tem, pode. Quem tem mais, pode mais. Quem tem mais caro, pode ainda muito mais. Ocorre que na sociedade capitalista, a tendência é a da generalização das relações mercantis. Assim, via de regra, para se ter algo é necessário processar o ato da compra. A relação de troca se realiza por meio do equivalente geral, o dinheiro. E para os que ainda não reúnem as condições de recursos para a compra do presente desejado, o sistema oferece o instrumento mágico que permite a antecipação do consumo: o crédito.

A intermediação da esfera financeira ajuda a completar o ciclo da realização do capital, com a garantia de que o consumo se efetive mesmo na ausência dos recursos monetários no momento da aquisição do bem. Isso porque o modelo envolvido na dinâmica do capitalismo pressupõe a produção e a venda das mercadorias de forma contínua, sempre em escala crescente, para promover a acumulação concentrada de riqueza.

Esmagamento do espaço para práticas de sustentabilidade

De forma geral, a lógica que orienta a ação da empresa privada é a da maximização do lucro no curto prazo, sem nenhuma perspectiva de médio e longo prazo. No jogo pesado das disputas por novas fatias de mercado não existe muito espaço para a noção da sustentabilidade. Pouco importa se ela se refere ao aspecto econômico, ao elemento social ou à sua dimensão ambiental. Assim, o que interessa na “racionalidade” inerente ao processo de acumulação de capital é o crescimento do consumo em toda e qualquer escala. Portanto, a mudança comportamental envolvendo inovações como “consumo consciente” ou “processos sustentáveis” só se viabilizam com a entrada em cena das políticas públicas, proibindo determinadas ações ou estimulando outras alternativas. A lógica pura do capital, atuando com plena liberdade, combina uma dialética de criação e destruição em sua própria essência. 

Assim, o que todos verificamos à nossa volta com a aproximação do espírito natalino é a cristalização mais evidente da forma de funcionamento da economia capitalista. Nas sociedades hegemonizadas pelo padrão civilizatório do mundo ocidental, o mês de dezembro radicaliza e potencializa o comportamento social que assegura a reprodução ampliada dessa forma particular de organização social e econômica. Não basta um Natal que seja marcado apenas pelo espírito da solidariedade e pelo sentimento da fraternidade. O período das festas deve ser o momento do consumo, por excelência.

Os ingredientes que contribuem para manter esse gigante em movimento são introduzidos de forma crescente ao longo do processo. Isso significa a incorporação crescente de bilhões de novos agentes no mercado consumidor e a generalização do acesso às compras em escala global. Além disso, torna-se necessário avançar bastante nos processos envolvendo a chamada “obsolescência programada”, de forma a garantir a continuidade do ciclo de consumo por meio da redução da vida útil dos produtos. A propaganda também joga um papel essencial, ao incutir nos indivíduos valores e desejos que estão muito distantes das necessidades, digamos, mais reais e concretas.

Em suma, não é mais suficiente que as pessoas exerçam sua função de compradores finais de bens e serviços. O espírito natalino desnuda a realidade mais cruel do modelo no qual estamos sendo conduzidos. Não basta apenas o consumo. Faz-se necessário o consumismo exacerbado."

(*) Economista e militante por um mundo mais justo em termos sociais e econômicos.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O mito do consumo responsável




Um dos mitos propagandeado pelos diáconos do capitalismo e apropriado acriticamente por muitas ONGs é o do consumo responsável. Este mito diz-nos que podemos mudar o mundo pelo consumo, usando o nosso dinheiro para “votar” em produtos ecológicos. Assim se transfere a responsabilidade pela crise ecológica dos produtores para os consumidores e se cria a ilusão de que vivemos numa “democracia de mercado”. Obviamente, a realidade é muito diferente.
Dizer que consumindo produtos que vão de encontro a determinados padrões de ética ambiental podemos ter um impacto positivo no mundo em que vivemos é enfatizar uma evidência. Mas partir daqui para defender que a mudança social pode vir da acção descentralizada de consumidores individuais é não perceber nada sobre como funciona o sistema capitalista.
No mercado, quem determina o que é produzido e o modo de produção é o produtor, não o consumidor. Ninguém nos perguntou se queríamos que as empresas destinassem o dinheiro que lhes damos à invenção de novos produtos electrónicos, como I-phones ou televisores plasma, ou ao desenvolvimento de produtos electrónicos mais eficientes no uso de energia. Ninguém nos perguntou se queríamos viver numa sociedade dominada pelo automóvel, se queríamos que a electricidade que entra em nossa casa fosse gerada maioritariamente por combustíveis fósseis ou se queríamos passar os fins-de-semana enfiados em grandes superfícies comerciais. Numa economia de mercado, a oferta gera a procura, não o contrário. Defender a ideia da soberania do consumidor implica cair no absurdo de acreditar que os triliões de euros gastos pelas empresas em publicidade não têm (quase) nenhuma influência nos comportamentos dos consumidores.
Uma economia de mercado é uma economia dominada por um grupo restrito de grandes corporações. Estas corporações não só têm o poder de criar procura para os seus produtos, por muito inúteis que sejam, mas também de definir a sua durabilidade. Podemos passar o resto da vida à procura de um telemóvel ou um computador que dure uma vida que não vamos encontrar nenhum. Uma vez esgotada o tempo de garantia de um produto, arriscamo-nos a que a reparação de uma avaria fique mais cara que a compra de um novo. Através da obsolescência planeada e do marketing, as empresas conseguem criar assim uma sociedade cada vez mais consumista e escoar a sua produção continuamente crescente.
Neste ponto, um entusiasta do “consumerismo verde” pode insistir: mesmo com todo o poder das empresas, nós temos o direito de escolher o que consumir e, se fizermos as escolhas certas, as empresas terão de seguir as nossas escolhas. Isto seria verdade teoricamente se o mercado fosse transparente e as escolhas de consumo não estivessem restritas pela disponibilidade de produtos ecológicos e pelo poder de compra. Ora, o mercado é tudo menos transparente e torna-se cada vez mais complicado para um consumidor saber qual é a marca mais ecológica quando todas se afirmam como amigas do ambiente, através das suas campanhas de propaganda. Por outro lado, basta sair à rua e entrar numa loja ou superfície comercial para perceber que o leque de escolhas oferecido pelo mercado é muito restrito e que os produtos ecológicos são frequentemente comercializados a preços proibitivos para a maioria da população.
Outra realidade ignorada pelos defensores da “democracia de mercado” é que o número de votos varia em função do dinheiro que cada consumidor possui. Não só os ricos têm mais votos que os pobres individualmente mas também têm mais votos colectivamente. No mundo de hoje, os 2% mais ricos detêm mais de 50% da riqueza, enquanto os 50% mais pobres detêm menos de 1% da riqueza ( [1]).
A difusão do mito do consumo responsável serve os interesses de quem determina o que produzir e como produzir, lucrando com o processo, mas não traz nenhum ganho para a sociedade. Nunca, em toda a história da humanidade, uma mudança social importante foi conseguida meramente pela acção descentralizada de indivíduos. Quem pensa que podemos mudar o mundo pela sensibilização (e culpabilização) dos consumidores está apenas a criar uma barreira para a construção de um mundo mais justo e ecológico, por muito nobres que as suas intenções possam ser.

Por: Ricardo Coelho

quinta-feira, 22 de março de 2012

Haverá água para todos?



Por Marussia Whately

Nos últimos 60 anos, a população mundial duplicou. No mesmo período, o consumo de água pelas diferentes atividades humanas aumentou em sete vezes, enquanto a quantidade de água existente permaneceu igual.
Acentuou-se, na mesma proporção, a degradação desse recurso fundamental para o desenvolvimento de todas as formas de vida. A deterioração e o uso excessivo têm relação direta com o homem, em especial com o crescimento e a diversificação das atividades agrícolas e industriais, o aumento da urbanização e a intensificação das ações humanas nas bacias hidrográficas. A combinação da poluição dos mananciais com o desperdício – além do fato de existirem limitações naturais em certas regiões do planeta – é a principal razão de a escassez já ser um problema real para boa parte da população, em especial para aquela que vive nas grandes cidades.
Estudos recentes alertam que 1 bilhão de pessoas não têm acesso a água de boa qualidade e 2,6 bilhões (algo em torno de 40% da população mundial) não têm acesso a saneamento adequado1. Ao contrário do que se pode pensar, parcela significativa desse montante não está em áreas remotas, mas sim nas grandes cidades, onde vive metade da população mundial, ou 3,3 bilhões de pessoas2. Até 2025, as previsões apontam para um aumento populacional de 2 bilhões. Esse crescimento se dará principalmente nas cidades dos chamados “países em desenvolvimento”. O aumento da população urbana, aliado à poluição e ao mau uso da água, compõe um quadro preocupante. Garantir água de boa qualidade nas grandes cidades será um dos principais desafios deste século.
Estresse hídrico
O chamado “estresse hídrico” – relação entre a disponibilidade natural e os diversos usos que o homem faz da água, como a produção de alimentos, o abastecimento público, a geração de energia, a diluição de esgotos, entre tantos outros – já é uma realidade em metrópoles mundiais, inclusive nas capitais de países ricos. Um dos casos emblemáticos é o de Londres, que depende dos reservatórios formados pelos rios Tâmisa e Lee. A rede de distribuição de água da cidade é muito antiga (mais da metade excede os cem anos e um terço passa de 150) e apresenta altos níveis de perda, devido aos vazamentos. A situação se agrava com o prolongado período de estiagem e a conseqüente diminuição do volume de chuvas nos últimos anos. Isso tem levado as autoridades locais a planejar captações de água em mananciais distantes e dessalinização de águas salobras e marinhas para atender a demanda crescente.
Casos como o da capital inglesa tendem a surgir com mais freqüência no cenário mundial em função de mudanças no regime de chuvas. Essas mudanças vêm ocorrendo em vários locais do planeta, inclusive no Brasil, e prenunciam um cenário ainda mais sombrio de restrição do acesso à água em um futuro próximo, com proporções gigantescas caso as previsões sobre as alterações no clima, já nas próximas décadas, se confirmem.
A boa notícia é que algumas cidades já acordaram para a proteção de suas fontes de água e outras sempre estiveram despertas. A preservação das áreas de mananciais para abastecimento de Tóquio teve início em 1901. Essas áreas estão localizadas nas nascentes dos principais rios (Tama, Tore e Ara) e abrigadas por uma imensa floresta de 21.631 hectares. A manutenção dessa floresta garante o fornecimento de água em quantidade e qualidade para o maior aglomerado urbano do planeta – pois vivem na Grande Tóquio mais de 31 milhões de pessoas, que consomem 6,23 bilhões de litros de água a cada dia, o equivalente a 200 litros per capita.
Já Nova York iniciou, durante a década de 90, um amplo programa de uso racional da água e proteção das bacias hidrográficas, que se mostrou mais econômico do que o investimento necessário para ampliar e tratar água de pior qualidade. Entre as ações desenvolvidas destacam-se um programa de subsídios para a substituição de todas as válvulas de descarga em cada uma das residências – o que resultou em diminuição do consumo e conseqüente aumento da sobrevida dos mananciais disponíveis para abastecer a cidade. Também foi executado um programa de gestão territorial compartilhada, incluindo a aquisição, pela prefeitura, de terrenos em porções ambientalmente sensíveis das áreas de mananciais, e acordos com os proprietários das áreas de mananciais, que, em troca de exercer proteção, passaram a receber compensações financeiras.
Mas o avanço na proteção dos mananciais e a gestão dos recursos hídricos ainda é exceção. Xangai, uma das maiores cidades chinesas, enfrenta enormes desafios nessa área. Sua maior fonte de água, o rio Huangpu, está tão contaminada por poluentes industriais e agrícolas que não registra vida aquática há mais de vinte anos. O rio Yangtze, a fonte alternativa de água, vem sofrendo aumento de salinidade em seus trechos mais baixos, resultado dos reduzidos níveis liberados pela maior barragem do mundo, a das Três Gargantas. Ao mesmo tempo, o lençol freático existente no subsolo está sofrendo crescente contaminação pela água do mar. A situação na capital do país não é muito melhor: dos 21 reservatórios superficiais que abastecem Pequim, quatro estão totalmente secos e apenas três são considerados fontes de água satisfatórias para o consumo humano.
A Cidade do México é o principal exemplo de superexploração das águas subterrâneas. Estima-se que seja extraído dos aqüíferos da região um volume de água que excede em 30% a 65% o da recarga. Em alguns locais, o afundamento do solo, provocado pela redução do nível das águas subterrâneas, chegou a 7,5 metros – o que também tem provocado mais inundações e danos à rede de abastecimento de água e de drenagem, contaminando todo o sistema. Para piorar o quadro, as áreas de recarga dos mananciais vêm sendo ocupadas pela expansão da cidade, que cresce, em média, 250 hectares por ano. Para cada hectare ocupado, perdem-se 1.700 m³ de recarga nos aqüíferos por ano – quantidade de água suficiente para abastecer 1.500 famílias.
Métodos caros e vulneráveis
As fontes alternativas da Cidade do México estão cada vez mais distantes e os métodos para trazer água são caros e vulneráveis, além de fomentar a disputa pela gestão do recurso entre os diferentes estados da federação. Apesar de todas essas dificuldades, o consumo diário per capita dos 19 milhões de habitantes da capital mexicana é de abusivos 364 litros/dia – enquanto a ONU recomenda um consumo diário per capita de 110 litros. O risco de escassez aumenta ainda mais diante da cifra de água desperdiçada: estima-se, de acordo com o último levantamento disponível, que a perda de água na distribuição corresponda a 35% do total retirado dos mananciais3.
O Brasil, pátria de 12% de toda a água doce da superfície do planeta, disputa com o México o troféu de quem joga mais água limpa fora. Um estudo divulgado em novembro passado pelo Instituto Socioambiental (ISA) lançou luz sobre a situação do abastecimento público e do saneamento básico nas 27 capitais brasileiras. O levantamento revela que 45% da água retirada dos mananciais das capitais são desperdiçados em vazamentos, submedições e fraudes. A quantidade de água jogada fora é estimada em 6,14 bilhões de litros por dia (o equivalente a 2.457 piscinas olímpicas) e seria suficiente para atender ao consumo diário de 38 milhões de pessoas – isto é, toda a população de um país como a Argentina!4
Os principais dados quantitativos extraídos do estudo são altamente preocupantes:
Abastecimento
• Apenas seis das 27 capitais atendem à totalidade de sua população.
• Apesar da média de cobertura ser de 90%, Porto Velho, Rio Branco e Macapá cobrem apenas 30,6%, 56,2% e 58,5% de suas populações, respectivamente.
Consumo
• A média de consumo per capita nas capitais é de 150 litros por dia (a despeito da recomendação de ONU, de 110 litros).
• São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória apresentam os maiores consumos: mais de 220 litros/habitante/dia.
Perda (por vazamentos e outros fatores)
• A água perdida diariamente nas capitais seria suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas/dia.
• Em termos percentuais, a campeã do desperdício é Porto Velho, com 78,8% do total.
• Em termos de volume perdido, o Rio de Janeiro ganha, jogando fora diariamente um volume igual ao de 618 piscinas olímpicas!
Outro ponto que o estudo avaliou foi a situação do esgotamento sanitário nas grandes cidades do país.
O descaso e a ausência de investimentos no setor, em especial nas áreas urbanas, são flagrantes. Quase metade da população residente nas capitais brasileiras (45%) tem seus esgotos despejados nos rios e no mar sem qualquer tratamento. E uma parcela significativa dessa população (13 milhões de habitantes) não dispõe sequer da coleta dos resíduos, convivendo de perto – nas portas ou nos fundos das casas – com a imundície e a poluição. Manaus, Belém e Rio Branco apresentam os piores índices, com menos de 3% de seus moradores atendidos pelo serviço.
Aqüífero Guarani
Lixo, enchentes, contaminação dos mananciais, água sem tratamento e doenças apresentam uma relação estreita. Diarréias, dengue, febre tifóide e malária, que resultam em milhares de mortes anuais, especialmente de crianças, são transmitidas por água contaminada por esgotos humanos, dejetos animais e lixo. Nada menos que 70 % das internações na rede pública de saúde estão relacionadas com doenças transmitidas pela água!
Um dos maiores trunfos do Brasil em relação à garantia de abastecimento é o Aqüífero Guarani, maior reserva de água doce subterrânea do mundo. Do potencial de água renovável que circula nessa reserva, entre 24% e 48% podem ser explorados. No entanto, esse fabuloso recurso não está isento de problemas. Primeiro, devido à contaminação, que já vem ocorrendo em decorrência de vários fatores, entre eles, o grande número de poços operados e abandonados sem tecnologia adequada.
Depois, porque a área do Guarani se distribui por vários territórios nacionais: 70% no Brasil e o restante em Argentina, Paraguai e Uruguai. Tal peculiaridade torna necessária uma vigorosa ação conjunta dos quatro países no sentido de defender sua soberania sobre o aqüífero e regular seu uso de forma justa e parcimoniosa.
A sustentabilidade das grandes cidades e metrópoles mundiais está diretamente vinculada à existência e manutenção de fontes de água para o abastecimento público. É fundamental que os governantes adotem políticas públicas que promovam a proteção dos mananciais, a ampliação das áreas permeáveis, a diminuição dos desperdícios e perdas, juntamente com a racionalização e o uso mais eqüitativo desse recurso fundamental. A história mostra que isso não ocorrerá sem que sejam pressionados pelas respectivas sociedades.
Marussia Whately é arquiteta e coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental (ISA).


1 Progresso para as Crianças, Unicef, 2006 (disponível em http://www.unicef.org).2 The State of World Population 2007 Youth Supplement, Fundo de Populações das Nações Unidas, 2007 (disponível em http://www.unfpa.org/swp/swpmain.htm).3 El suministro de agua de la Ciudad de Mexico, National Research Council, National Academy Press, Washington, 1995.
4 O levantamento das coberturas e desperdícios nas redes públicas de abastecimento e saneamento tem como base os dados fornecidos pelas concessionárias prestadoras dos serviços para o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades (ano base: 2004).

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quarta-feira, 7 de março de 2012

Consumo das famílias cresce pela oitava vez consecutiva, mas em ritmo menor



Vitor Abdala, Agência Brasil

“O consumo das famílias cresceu  4,1% em 2011, no oitavo crescimento anual consecutivo. Apesar disso, houve uma redução no ritmo desse crescimento, que teve a menor taxa desde 2004 (3,8%). Em 2010, por exemplo, o consumo havido aumentado 6,9%. Os dados foram divulgados dia (6) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Há um crescimento de massa salarial de 4,8%. Você tem claramente políticas de renda que estão sustentando esse crescimento. No momento em que há uma queda da atividade econômica, você tem normalmente uma diminuição na renda e no consumo”, disse o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Olinto.

O consumo do governo cresceu 1,9%, enquanto a formação bruta de capital fixo (investimento) teve uma expansão de 4,7%. No setor externo, as exportações aumentaram 4,5%, ao mesmo tempo em que as importações subiram 9,7%.

Segundo o IBGE, a demanda interna contribuiu com 3,4% para o crescimento de 2,7% do PIB em 2011, enquanto o setor externo teve uma influência negativa de 0,7%. Em 2010, quando o PIB cresceu 7,5%, a demanda interna respondeu por 10,3% e o setor externo, por uma contribuição negativa de 2,7%.

De acordo com dados divulgados hoje pelo IBGE, a taxa de investimento (investimento sobre o PIB) em 2011 chegou a 19,3% enquanto que a taxa de poupança ficou em 17,2%.”

domingo, 18 de dezembro de 2011

Índice de Expectativa do Consumidor fica estável em dezembro



Agência Brasil

“A confiança do consumidor permaneceu estável entre os dias 2 e 5 deste mês, na comparação com a pesquisa anterior,  feita entre os dias 17 e 21 de novembro, informou a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que hoje (15) divulgou o Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (Inec). Em dezembro, o índice ficou em 113,4 pontos, igual ao de novembro. Segundo a CNI, o índice está acima da média histórica, mas 3,2% abaixo do de dezembro de 2010.

Compõem o Inec expectativas sobre desemprego, compras de bens de maior valor, renda pessoal e inflação, além de uma avaliação da situação financeira e do endividamento no período pesquisado. Pela metodologia da CNI, o aumento do indicador reflete melhora no item avaliado.

Em novembro, a expectativa de desemprego entre os consumidores passou de 126,9 pontos para 123,7 pontos. No item renda pessoa, a expectativa passou de 114,9 pontos para 115,9 pontos e, no caso da inflação, de 102,1 pontos para 105,4 pontos. A situação financeira foi de 114,4 pontos para 114,7 pontos e a de compra de bens de maior valor, como móveis e eletrodomésticos, de 114,5 pontos para 114,9 pontos. Houve recuo de 107,4 pontos para 105,5 pontos na expectativa de endividamento.

Para a CNI, o pessimismo dos brasileiros quanto ao desemprego e ao endividamento está comprometendo as compras de Natal.
Recentemente, o governo anunciou medidas para estimular o consumo como forma de combater os efeitos da crise mundial na economia brasileira. Foram reduzidos o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) da chamada linha branca e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de operações de crédito.

A pesquisa da CNI for realizada pelo Ibope entre os dias 2 e 5 deste mês.”

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Vez da Classe D



“Os últimos anos foram da classe C, que se tornou a vedete do desenvolvimento econômico brasileiro e passou a concentrar 53% dos brasileiros e superar o consumo, somado, das classes A e B.

Agora, segundo levantamento feito pelo jornal ‘Brasil Econômico’ e pelo ‘Instituto Datapopular’, é a vez da classe D tomar o lugar na ribalta.

São perto de 50 milhões de brasileiros, com renda – hoje – entre R$705 e R$1126 e que, até 2012, responderão por R$ 400 bilhões em compras de bens e serviços.....

quinta-feira, 10 de março de 2011

Classe média se espalha para o Norte e Centro-Oeste

Consumo: Companhias investem para ganhar mercado nessas regiões

Alessandro Carlucci, presidente da Natura: novo centro de distribuição no Pará e meta de “avançar mais pelo Brasil”

ADRIANA MATTOS | VALOR

Dois levantamentos finalizados nas últimas semanas pelas consultorias Data Popular e Kantar Worldpanel revelam dados inéditos sobre o fortalecimento da nova classe média brasileira.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Classe C domina alta em higiene e beleza

Consumo de cosmético e higiene pessoal de emergentes cresce 725% entre 2002 e 2010 e supera compras de classes AB
O consumo de produtos de higiene pessoal e beleza cresceu entre as classes mais baixas, mostra levantamento feito pelo instituto Data Popular.
A penetração desses produtos -ou seja, o percentual de pessoas dessas classes que os consome- teve forte alta entre 2003 e 2010.

domingo, 5 de setembro de 2010

Otimismo do consumidor sobe em agosto e bate recorde

   Pesquisa começou a ser feita em 2001, lembra entidade. Melhora se deve a expectativas do consumidor com relação ao desemprego e à inflação
Novojornal
O Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (INEC) registrou crescimento de 2,1% de julho para agosto deste ano, quando atingiu 119,3 pontos, informou nesta quinta-feira (2) a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O INEC é elaborado a partir de pesquisa de opinião pública de abrangência nacional conduzida pelo Ibope com 2.002 pessoas. A pesquisa tem periodicidade mensal. A pesquisa foi realizada entre 18 e 21 de agosto deste ano, informou a entidade.”
Oekomikus