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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A DOENÇA DE MATAR POBRE

Ainda não concluímos a transição de mandatos, passadas as eleições. O chororô é proporcional às necessidades do sistema Cantareira. Quando cada assunto com potencial de desequilíbrio começa a esvanecer, surge algo para requentá-lo e dar seguimento ao plano maior de desestabilização do governo brasileiro.


Alguém se lembra da Copa? Do clima criado antes da Copa? As obras não ficariam prontas, o caos aéreo seria instalado, viveríamos um apagão, um surto de dengue de magnitude bíblica, os protestos de rua tumultuariam o país, enfim, passaríamos vergonha perante o mundo.

Tirando a seleção, essa foi a Copa das Copas, escolhida por torcedores de todo mundo.

Agora, o filme se repete: indisposição ao diálogoafronta no Congresso,recontagem dos votosimpeachment da presidenta, e apelos à intervenção militar, seja brasileira ou americana. Tudo sintetizado nesse tweet do José Anibal.

Nada responderia melhor a esse cenário que um provérbio árabe:

"Os cães ladram, e a caravana passa".

Nesse prenúncio do Apocalipse, pintado em cores macabras pela imprensa golpista, não poderia faltar uma ameaça à saúde pública. Eles, que fracassaram na campanha contra o Mais Médicos, tentam impingir com tons alarmantes e irresponsáveis, um pânico na população: a epidemia do Ebola.

O ministro da saúde, Arthur Chioro, tem se dedicado a esclarecer a população sobre os cuidados com a doença e a contestar o sensacionalismo inconsequente do PIG. Aliás, nesse particular, é tarefa de todo membro do governo desmentir o festival de boatos e calúnias proferidos pela imprensa que se arvora oposição quando conveniente, mas que rechaça toda crítica como "atentado à liberdade de expressão", e mama sofregamente nas tetas da publicidade governamental.

O Ebola não é transmissível no ar. A forma de contágio é pelo contato com as secreções do infectado (secreções... lembrei do Fidelix). Esse é o motivo primordial de muitos profissionais de saúde que manipularam doentes terem se contaminado. Os cuidados com equipamentos de proteção, como luvas e máscaras devem ser redobrados. Na África, e em locais onde as condições de higiene são precárias, a doença se alastra como rastilho de pólvora. As trágicas consequências humanitárias são agravadas pela ausência completa do Estado nas condições sanitárias da população.

E é aí que entram as políticas sociais do governo. Estamos longe da perfeição, mas 85,3% das residências contam com água tratada, 64,3% está integrada em algum sistema de coleta de esgoto e 89,8% têm a coleta de lixo na porta. Os dados são referentes à pesquisa PNAD de 2013 do IBGE, que registrada melhoras percentuais, em comparação com o ano de 2001 de 5,3%, 10,9% e 7,7% em cada um desses serviços básicos, respectivamente.

Um pequeno adendo: só se faz saneamento básico com recursos públicos. O egoístico interesse particular encontra limite na sua própria natureza: a busca do lucro por si só. No Brasil, é um banco público que responde por essa demanda social, oferecendo tanto os recursos quanto o suporte técnico operacional para realização das obras. Dá para imaginar isso privatizado?

Há uma expressão latina usada no direito, "erga omnes", que significa contra todos, aquilo que pode ser aplicação contra ou favor de todos, sem exceção. É algo "democrático" no sentido atual do termo. A AIDS é uma doença democrática, pois todo mundo faz sexo. A dengue é uma doença democrática, porque todo mundo é porco (e deixa água parada para o mosquito procriar). Já o Ebola não é democrático: mata apenas os pobres, os que não acenderam às mínimas condições de dignidade e higiene.
http://oantipig.blogspot.com.br/2014/11/a-doenca-de-matar-pobre.html

domingo, 14 de abril de 2013

Coincidências



As ideias de FHC ficam cada vez mais parecidas
com aquelas da mídia de direita. Infelizmente
para eles a maioria pensa diferente.
Foto: Vanderlei Almeida/AFP

Marcos Coimbra, CartaCapital

“A vida é cheia de coincidências. Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou um de seus habituais artigos de discussão política. Foi daqueles nos quais assume o papel de farol das oposições. Seu conteúdo era, como se esperaria, fortemente crítico em relação ao governo.

Por coincidência, no mesmo dia, os principais jornais estavam cheios de notícias negativas sobre a situação nacional. Depois de lê-los, qualquer um ficaria com a impressão de que o Brasil caminha em marcha acelerada para o buraco (se é que já não estaria dentro dele).

Em outra coincidência, ficou pronta, naquele domingo, uma nova pesquisa nacional da Vox Populi. Feita em todo o País, sua amostra era suficiente para que os resultados sejam representativos dos sentimentos da opinião pública brasileira.

O artigo de FHC e o tom do noticiário eram tão semelhantes que um desavisado poderia suspeitar. Os editores e o ex-presidente estariam combinados? Você diz isso e nós aquilo? Nós mostramos os “fatos” e você os interpreta?

Conhecendo os personagens, é pouco provável. Mas FHC e a mídia conservadora não precisam combinar (no sentido de pactuar) exatamente porque combinam (no sentido de possuir afinidades). Cada um à sua maneira, contam as mesmas histórias.

São tão parecidos que é difícil saber, hoje, quem influencia quem. Tendo há muito abandonado o vigor analítico de seus tempos de sociólogo, as ideias de FHC se parecem cada vez mais àquelas dos editorialistas e comentaristas da direita da mídia. E esses, por o admirarem com veneração, fazem o possível para imitar seu pensamento.

A cada dia, FHC fica mais Globo e Veja (até porque não conseguiria viver sem eles) e elas mais FHC. Todos imaginam um Brasil lastimável, onde tudo dá errado. São, no entanto, de um otimismo imenso. Paradoxalmente, acreditam que estamos à beira do abismo, mas acreditam em uma saída simples e rápida: derrotar o “lulopetismo” na próxima eleição.

Em contraste flagrante, não há qualquer coincidência entre o seu pensamento e o sentimento da vasta maioria do País. A pesquisa da Vox, como as outras recentemente divulgadas, do Ibope e do Datafolha, mostra quão pequena é a parcela da sociedade afinada com a oposição, seja nos partidos, nas instituições, na indústria de comunicação ou na opinião pública.

Os entrevistados se dizem satisfeitos com o País e esperançosos em relação ao futuro. Entendem que sua vida tem melhorado e vai melhorar ainda mais. Sabem que falta muito por fazer, mas confiam no caminho trilhado.

Aprovam o governo. A maioria considera “ótimo” ou “bom” o modo como Brasília lida com a economia, enfrenta a crise econômica internacional, trata as questões do emprego e da inflação, administra programas sociais, conduz a política habitacional, cuida da imagem externa do País.

Gostam da presidenta: mais de 80% dos entrevistados a definem como “ativa”, com “garra”, “decidida”, “conhecedora do Brasil”, “boa administradora”. Mesmo em itens em que os políticos tendem a se sair mal, ela obtém índices muito favoráveis. Mais de 70% afirmam ser ela “sincera”, “próxima do povo” e “de palavra”.

É tamanha a diferença entre as convicções oposicionistas e o sentimento popular que é como se vivêssemos em dois países. Em um, tudo vai mal e a mudança política seria imperiosa. No outro, as coisas seguem de maneira satisfatória e as perspectivas são positivas. Neste, a continuidade política é lógica.

Está errada a maioria dos brasileiros? Os únicos certos são os próceres oposicionistas, os articulistas de meia dúzia de jornais e a minoria da sociedade? Somente eles conheceriam a “verdade”? Todos os restantes seriam ignorantes e incapazes de conhecer suas vidas, donde inabilitados para dizer-se satisfeitos de forma racional?

Não é apenas autoritária a tese de que só alguns poucos privilegiados conhecem o Brasil e possuem a visão certa das coisas. É tola e inútil para a atuação política.

Pode ser agradável para uma liderança escrever um artigo para jornal e ler na mesma edição uma manchete a confirmar sua análise. Assim como pode ser prazeroso para um jornalista referendar, por meio de seu trabalho, as ideias do ídolo.

Nada disso adianta quando não coincide com o que o povo pensa e deseja. As oposições se acham superiores, mas estão apenas a léguas dos cidadãos. E são eles, os cidadãos, que elegem os governantes.”