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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Cidadãos organizados


A torcida do Corinthians inventou de protestar contra a Federação Paulista de Futebol, a Confederação Brasileira de Futebol, a rede Globo e até a máfia das merendas do governo Geraldo Alckmin. Essas manifestações têm dois aspectos curiosíssimos, que a imprensa corporativa finge não perceber.

O primeiro é a repressão violenta dos cossacos. Quem ordena tais ações policiais? Os árbitros das partidas? Um funcionário da FPF? Alguém da Globo? Essas pessoas têm autoridade sobre as forças de segurança? É atribuição de servidores públicos impedir protestos pacíficos? Entidades privadas podem suspender prerrogativas constitucionais?

A segunda estranheza vem da impertinência política dos torcedores. A lembrança da corrupção tucana em plena massa alvinegra sinaliza para um viés inesperado no descontentamento popular. Mesmo que tudo não passe de resposta a perseguidores de torcidas organizadas (interessante maneira “pejorativa” de qualificá-las) e à chefia da PM brucutu, a simples associação demonstra uma consciência crítica livre dos condicionamentos da mídia. Da própria Globo, aliás.

É fácil apontar a incoerência dos ataques contra as mesmas instituições que financiam e promovem os sucessos do Corinthians. Mas precisamos saudar em seu exemplo a demonstração de que a defesa da cidadania começa no rompimento das inúmeras amarras cotidianas, exatamente as que parecem naturais e inquestionáveis, e que os poderosos preservam com toda a força coercitiva disponível.

Se os torcedores do país percebessem isso, mudariam muito mais do que o futebol brasileiro.
http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2016/02/cidadaos-organizados.html

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Ou a TV tradicional muda ou acaba!


Imagem: Nick Thompson – Creative Commons

"Hoje, todos podemos ser cinegrafistas, diretores, editores, atores e donos do nosso próprio canal de vídeo, mas mais importante ainda, donos de nossa própria programação de TV


É incrível como querem empurrar qualquer coisa para o público. Um bom exemplo é o programa da Fátima Bernardes, que a Rede Globo empurrou “goela a baixo” de seus telespectadores. E o mau gosto do BBB que nesta 15ª edição enfrenta um de seus piores níveis de audiência (1), como outro exemplo onde a qualidade é desprezada. Nas tão famosas manifestações em junho de 2013 alguns veículos de comunicação sentiram a fúria popular em relação à posição da mídia (2), tanto que a rede Globo cobriu as manifestações sem usar a logomarca em seus microfones e uniformes e, em poucos dias, o que era noticiado como vandalismo passou a ser chamado manifestações pacíficas (3).

Ao contrário de um processo que antes demorava dias ou meses, as notícias hoje não têm mais esse “tempo”. São para o AGORA. É muito rápida a forma como as notícias se espalham, sejam elas verdadeiras ou falsas, isso graças à internet. Mas o que quero ressaltar é que com o acesso das grandes massas a tecnologias como computadores, tablets, notebooks, Smart TVs e principalmente smartphones vai forçar uma mudança na maneira de “fazer imprensa”. Hoje temos mais opções. Seja de forma legal ou não.

De forma ilegal é, por exemplo, o GATONET, que poderia ser a 3ª maior operadora de TV a cabo do Brasil (4). Chamo atenção aqui não pelo ato de contrariar lei, mas para o fato de que uma boa parcela da população tem mais opções de canais, deixando os tradicionais SBTGloboBand e Record como segunda opção, o que pode explicar quedas nos atuais índices de audiência. Por outro lado, até o 3º trimestre de 2014 havia no Brasil 19.473.353 de assinantes de TV por assinatura (5), um número que cresceu mais de 500% nos últimos 10 anos.

Outro fator que chama a atenção é o crescente número de dispositivos de acesso ainternet, como as Smart Tvs e os Smartphones. Segundo o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br) a quantidade de domicílios que possuem acesso a internet é de 51% (85,9 milhões de pessoas) em 2014; e segundo o estudo do IDC Mobile Phone Tracker Q3 (6), foram vendidos 15.1 milhões de celulares inteligentes (os Smarts) entre os meses de julho e setembro de 2014, o que significa um crescimento de 11% na comparação com o segundo trimestre, e de 49% se comparado com o mesmo período do ano passado.

Em relação as TVs, a Philips diz que a venda de Smart TV está crescendo e já representa 80% de suas vendas (7) e com a expectativa de que de 35% a 40% dos televisores vendidos neste ano no mercado brasileiro seja de Smart TVs (8). Mas para quem ainda não tem essa tecnologia em sua TV, o Google lançou o Chromecast, que poderá transformar o aparelho em Smart TV: o Chromecast é do tamanho de um pendrive que se conecta à porta HDMI da TV e tem seu custo entre R$150 e R$250 (9).

Hoje já não são apenas as câmeras de canais de TV que fazem os registros dos acontecimentos, já não são mais as lentes de foto jornalistas a captarem de forma exclusiva, já não são mais os jornais impressos o grande intermediário da notícia. Vivemos hoje o verdadeiro Big Brother descrito no livro de Orwell, onde uma grande parcela da população possui aparelhos que filmam e fotografam.

É mais difícil mascarar uma notícia, perdeu-se a exclusividade. Não são necessários milhões de reais para se criar um canal de televisão: é de graça no Youtube. Os preços de bons equipamentos para a captação de áudio e vídeo estão cada vez mais baixos. Hoje os adolescentes criam estúdios de gravação em casa e fazem sucesso na internet. A TV tradicional está começando a perder espaço. O mercado para os canais online está crescendo, esses canais são livres, podem se expressar de uma forma que as garras impostas por uma imprensa sensacionalista não as prendem. Blog de notícias locais estão crescendo, até mesmo nas mais pequenas cidades brasileiras.

O acesso crescente à internet, as altas nas vendas de Smart TVs e Smatphones com acesso direto ao Youtube, por exemplo, são uma real ameaça para os canais tradicionais. Em um futuro não distante o telespectador assistirá os seus canais favoritos na internet; a produção independente crescerá muito, pois há rentabilidade nesses canais – aqui no Brasil chegam a ganhar mais de US$300.000,00 (trezentos mil dólares) por mês (10), fazendo desta uma atividade altamente lucrativa e com um público direcionado e fiel.

Dentro desta expectativa e crescimento tecnológico, a TV tradicional tem de mudar ou então fechar as portas. Tem de saber que manipular as massas ficará mais difícil, não é mais como antigamente, época na qual a informação era restrita. O povo não é bobo.

Hoje, todos podemos ser cinegrafistas, diretores, editores, atores e donos do nosso próprio canal de vídeo, mas mais importante ainda, donos de nossa própria programação de TV."

Ediel Rangel, Pragmatismo Político

*Ediel Rangel é graduado em Sistemas de Informação pelo Instituto Doctum de Educação e Tecnologia, graduando em Ciências Contábeis pela UFVJM, mestrando em Tecnologia, Ambiente e Sociedade pela UFVJM, autor do Blog Ediel Rangel e colaborou para Pragmatismo Político.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O fim da televisão como a conhecemos


"A TV virará apenas uma tela de conforto, simples extensão das grandes empresas americanas da web, que detêm cada vez mais informações sobre seus usuários. 

Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique

A televisão continua mudando rapidamente. Essencialmente, pelas novas práticas de acesso aos conteúdos audiovisuais que observamos sobretudo entre as gerações jovens. Todos os estudos realizados sobre as novas práticas de uso da televisão nos EUA e na Europa indicam uma mudança acelerada. Os jovens telespectadores passam do consumo “linear” da TV para um consumo de programas gravados e “à la carte” em uma “segunda tela” (computador, tablet, smartphone). De receptores passivos, os cidadãos estão passando a ser, mediante o uso massivo das redes sociais, “produtores-difusores”, ou produtores-consumidores (prosumers).

Nos primeiros anos da televisão, o comportamento tradicional do telespectador era olhar os programas diretamente na tela de seu televisor da sala, mantendo-se frequentemente fiel a um mesmo (e quase único) canal. Com o tempo, tudo isso mudou. E chegou a era digital. Na televisão analógica, já não cabiam mais canais e não existia a possibilidade física para acrescentar novos, pois um bloco de frequência de seis mega-hertz equivale a um só sinal, um só canal. Mas, com a digitalização, o espectro radioelétrico se fraciona e se otimiza. A cada frequência de 6 MHz, em vez de um só canal, podem-se transmitir até seis ou oito canais, e dessa forma se multiplica a quantidade de canais. Onde antes havia sete, oito ou dez canais agora existem cinquenta, sessenta, setenta ou centenas de canais digitais...

Essa explosão do número de canais disponíveis, particularmente por cabo e satélite, tornou obsoleta a fidelidade do telespectador a um canal de preferência e suprimiu a linearidade. Como consequência, abandonou-se a fórmula do menu único para consumir pratos à la carte, simplesmente zapeando com o controle remoto entre a multiplicidade de canais.

A invenção da web – há 25 anos – favoreceu o desenvolvimento da internet e o surgimento do que chamamos de “sociedade conectada” mediante todo tipo de links, desde o correio eletrônico até as diferentes redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) e mensagens de texto e imagem (WhatsApp, Instagram etc.). A multiplicação das novas telas, agora nômades (computadores portáteis, tablets, smartphones) mudou totalmente as regras do jogo.

A televisão está deixando de ser progressivamente uma ferramenta de massas para se transformar em um meio de comunicação consumido individualmente através de diversas plataformas, de forma posterior e personalizada.

Essa forma de ver programas gravados se alimenta em particular dos sites de replay dos próprios canais de televisão, que permitem, via internet, um acesso não linear aos programas. Estamos presenciando o surgimento de um público que conhece os programas e as emissões, mas não conhece obrigatoriamente a grade de programação e nem sequer o canal de difusão ao qual esses programas originalmente pertencem.

A essa oferta, já muito abundante, se somam agora os canais online da Galáxia da Internet. Por exemplo, as dezenas de canais difundidos pelo YouTube, ou os sites de vídeos alugados sob demanda. Até o ponto de já não sabermos sequer  o que significa a palavra “televisão”. Reed Hastings, diretor da Netflix, o gigante norte-americano de vídeos online (com mais de 50 milhões de assinantes), declarou recentemente que “a televisão linear terá desaparecido em vinte anos porque todos os programas estarão disponíveis na internet”. É possível, mas não é certo.

Os próprios televisores também estão desaparecendo. Nos aviões da companhia aérea American Airlines, por exemplo, os passageiros da classe executiva já não dispõem de telas de televisão, nem individuais nem coletivas. Agora, cada passageiro recebe um tablet para que ele mesmo faça seu próprio programa e se instale com o dispositivo da forma como achar melhor (encostado, por exemplo). Na Norvegian Air Shuttle, se vai ainda mais longe. Não existem telas de televisão no avião, nem tampouco entregam tablets, mas o avião tem internet wifi e a empresa parte do princípio que cada passageiro leva uma tela (um computador portátil, ou tablet, ou smartphone) e que basta com que se conecte ao site da Norvegian para ver filmes, séries, programas de TV ou ler jornais (que já não são mais partilhados...).

Jeffrey Cole, professor norte-americano da UCLA, especialista em internet e redes sociais, confirma que a televisão será vista cada vez mais pela Rede. “Na sociedade conectada, a televisão sobreviverá, mas diminuirá seu protagonismo social, ao passo que as indústrias cinematográfica e musical poderiam se desvanecer”, diz.

No entanto, Jeffrey Cole é muito mais otimista do que o diretor da Netflix pois afirma que, nos próximos anos, a média de tempo dedicada à televisão passará de entre 16 a 18 horas semanais atualmente para até 60 horas, dado que a televisão, segundo Cole, “vai saindo das casas” e poderá ser vista “a todo momento” graças a qualquer dispositivo com tela, apenas se conectando à internet ou mediante a nova telefonia 5G.

Também é preciso contar com a competência das redes sociais. Segundo o último relatório do Facebook, quase 30% dos adultos norte-americanos se informam por meio do Facebook e 20% do tráfego das notícias provêm dessa rede social. Mark Zuckerberg afirmou há alguns dias que o futuro do Facebook será em vídeo: “Há cinco anos, a maior parte do conteúdo do Facebook era texto. Agora, evolui para o vídeo porque é cada vez mais fácil gravar e compartilhar”.

Por sua vez, o Twitter também está mudando de estratégia: está passando do texto ao vídeo. Em um recente encontro com os analistas de Wall Street, Dick Costolo, conselheiro do Twitter, revelou os planos do futuro próximo dessa rede social: “2015 será o ano do vídeo no Twitter”. Para os usuários mais antigos, isso tem o sabor de traição. Mas, segundo Costolo, o texto, sua essência, os célebres 140 caracteres iniciais, está perdendo importância. E o Twitter quer ser o ganhador na guerra do vídeo dos telefones portáteis.

Segundo os planos da direção do Twitter, podem-se subir vídeos do smartphone para a rede social a partir de agora, início de 2015. Passará dos escassos seis segundos atuais (possibilitados pelo aplicativo Vine) até acrescentar um vídeo tão logo quanto possível diretamente na mensagem.

O Google também quer agora difundir conteúdos visuais destinados a sua gigantesca clientela de mais de 1,3 bilhões de usuários que consomem cerca de seis bilhões de horas de vídeo por mês... Por isso, comprou o YouTube. Com mais de 130 milhões de visitantes únicos por mês nos Estados Unidos, o YouTube tem uma audiência superior à do Yahoo!. Nos EUA, os 25 principais canais online do YouTube têm mais de um milhão de visitantes únicos por semana. O YouTube capta mais jovens entre 18 e 34 anos do que qualquer outro canal norte-americano de televisão a cabo.

A aposta do Google é que o vídeo na internet vai pouco a pouco acabar com a televisão. John Farrell, diretor do YouTube na América do Sul, prevê que 75% dos conteúdos audiovisuais serão consumidos via internet em 2020.

No Canadá, por exemplo, o vídeo na internet já está a ponto de substituir a televisão como meio de consumo massivo. Segundo um estudo do instituto de pesquisa Ipsos Reid and M Consulting, “80% dos canadenses reconhecem que, cada vez mais, veem mais vídeos online na rede”, o que significa que, com tal massa crítica (80%!), aproxima-se o momento em que os canadenses verão mais vídeos e programas online do que na televisão.

Todas essas mudanças são percebidas claramente não apenas nos países ricos e desenvolvidos. Também são vistas na América Latina. Por exemplo, os resultados de um estudo realizado pela pesquisadora mexicana Ana Cristina Covarrubias (diretora da empresa Pulso Mercadológico) confirmam que a rede e o ciberespaço estão mudando aceleradamente os modelos de uso dos meios de comunicação no México – em particular, da televisão. A pesquisa trata exclusivamente dos habitantes do Distrito Federal do México e abrange grupos precisos da população: 1) jovens de 15 a 19 anos; 2) a geração anterior, pais de família entre 35 e 55 anos de idade com filhos de 15 a 19 anos. Os resultados revelam as seguintes tendências: 1) tanto no grupo dos jovens como na geração anterior, as novas tecnologias penetraram em grandes proporções: 77% possuem telefone móvel, 74% possuem computador e 21%, tablet, e 80% têm acesso à internet. 2) O uso da televisão aberta e gratuita está caindo e se situa apenas em 69%, ao passo que o da televisão paga está subindo e já alcança os 50%. 3) Por outro lado, aproximadamente a metade dos jovens que assistem televisão (29%) usam o televisor como tela para ver filmes que não estão na programação de TV: assistem DVD/Blu-ray ou Internet/Netflix. 4) O tempo de uso diário do telefone móvel é o mais alto de todos os aparelhos digitais de comunicação. O celular registra 3 horas e 45 minutos. O computador tem um tempo de uso diário de 2 horas e 16 minutos, e o tablet de 1 hora e 25 minutos; e a televisão de apenas 2 horas e 17 minutos. 5) O tempo de visita a redes sociais é de 138 minutos diários para Facebook e 137 para WhatsApp; para a televisão, é de apenas 133 minutos. Se somarmos todos os tempos de visitas a redes sociais, o tempo de exposição diária à internet é de 480 minutos, o equivalente a 8 horas diárias, ao passo que o da televisão é de apenas 133 minutos, equivalentes a 2 horas e 13 minutos. A tendência indica claramente que o tempo dedicado à televisão foi rebaixado amplamente pelo tempo dedicado às redes sociais.

A era digital e a sociedade conectada já são, portanto, realidades para vários grupos sociais na Cidade do México. E uma de suas principais consequências é o declínio da atração pela televisão, especialmente a de sinal aberto, como resultados do acesso aos novos formatos de comunicação e aos conteúdos oferecidos pelos meios digitais. O grande monopólio do entretenimento que era a televisão aberta está deixando de sê-lo para ceder espaço aos meios digitais. Quando antes um cantor popular poderia ser visto por vários milhões de telespectadores (cerca de 20 milhões na Espanha) em um programa de sábado à noite, por exemplo, agora esse mesmo cantor precisa passar por 20 canais diferentes para ser visto por cerca de 1 milhão de telespectadores.

De agora em diante, o televisor estará cada vez mais conectado à internet (é o caso da França, para 47% dos jovens entre 15 e 24 anos). O televisor se reduz a uma mera tela grande de conforto, simples extensão da web que procura os programas no ciberespaço e na Cloud (“Nuvem”). Os únicos momentos massivos de audiência ao vivo, de “sincronização social” que continuam reunindo milhões de telespectadores, serão então os noticiários em caso de atualidade nacional ou internacional de caráter espetacular (eleições, catástrofes, atentados etc.), os grandes eventos esportivos ou as finais de jogos do tipo reality show.

Tudo isso não é apenas uma mudança tecnológica. Não é só uma técnica, a digital, que substitui a outra, a analógica, ou a internet que substitui a televisão. Isso tem implicações de muitas ordens. Algumas positivas: as redes sociais, por exemplo, favorecem o intercâmbio rápido de informação, ajudam a organização dos movimentos sociais, permitem a verificação da informação, como é o caso do WikiLeaks... não restam dúvidas de que os aspectos positivos são numerosos e importantes.

Mas também é preciso considerar que o fato de a internet estar tomando o poder nas comunicações de massas significa que as grandes empresas da Galáxia da Internet – ou seja, Google, Facebook, Facebook, YouTube, Twitter, Yahoo!, Apple, Amazon etc.–, todas elas norte-americanas (o que já constitui um problema em si mesmo...), estão dominando a informação planetária. Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, e a questão que se coloca agora é: qual é o meio? Quando vejo um programa de TV na web, qual é o meio? A televisão ou a internet? E, em função disso, qual é a mensagem?

Sobretudo, conforme revelou Edward Snowden e como afirma Julian Assange em seu novo livro “Quando Google encontrou o WikiLeaks”, todas essas megaempresas acumulam informações sobre cada um de nós a cada vez que utilizamos a rede. Informações que são comercializadas, vendidas a outras empresas. Ou também cedidas às agências de inteligência dos EUA, em particular a Agência Nacional de Segurança, a temida NSA. Não nos esqueçamos de que uma sociedade conectada é uma sociedade vigiada, e uma sociedade vigiada é uma sociedade controlada.

*jornalista espanhol. Presidente do Conselho de Administração e diretor de redação do “Le Monde Diplomatique” em espanhol. Editorial Nº: 231. Janeiro de 2015.

Tradução de Daniella Cambauva

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

'Os Simpsons' faz aniversário; veja 25 curiosidades sobre o desenho

"Exibição do primeiro episódio completa 25 anos nesta quarta-feira (17).
Especial do G1 traz listas sobre a série criada em 1989 por Matt Groening.

Do G1 

Por que os Simpsons são todos amarelos? Por que a cidade onde eles moram se chama Springfield? Que astro pop é coautor (não creditado) da música "Do the Bartman", de 1991, cantada por Bart Simpson? Quem “dubla” o barulhinho da chupeta da pequena Maggie? Qual estrela de Hollywood, aliás, dublou a única palavra que Maggie já falou ("papai!")?

Nesta quarta-feira (17), faz 25 anos que foi exibido nos Estados Unidos o primeiro episódio de "Os Simpsons". No aniversário, o G1 publica um especial sobre o desenho animado. Leia curiosidades da famosa família amarela em listas top 25.

Amarelos

Os personagens de "Os Simpsons" não são amarelos por acaso, segundo seu criador, Matt Groening. "Na hora de escolher a cor, eu não queria as cores convencionais de desenhos animados. Uma animadora apareceu com os Simpsons amarelos e, assim que ela me mostrou, eu falei: 'Esta é a resposta!'. Quando você estiver zapeando pelos canais com o controle remoto, e piscar um flash de amarelo, você vai saber que está assistindo a 'Os Simpsons'", justificou ele em 2007.


Coelhos

Ainda de acordo com Groening, seu projeto inicial era criar personagens que fossem uma família de... coelhos.  “Eu estava para fazer algo completamente diferente, mas então pensei comigo mesmo: ‘Eu vou criar seres humanos em vez de coelhos’, que era minha ideia original. E aí apenas os desenhei realmente muito rápido.”

Demora...

Em média, cada episódio leva de seis a oito meses para ficar pronto.

Em família

Os nomes dos personagens principais são inspirados na família do próprio Matt Groening. Seus pais eram Homer Groening (1919-1996) e Margaret Wiggum (1919-2013), que inspirou o nome de Marjorie Simpson, a Marge. Groening também tem irmãs chamadas Lisa Groening e Margaret Groening, ou Maggie. Uma terceira irmã, Patricia Ann Groening (1943-2013), emprestou nome para Patty, irmã de Marge.

Bart fedelho...

Bart, alter ego do próprio Matt Groening, é um anagrama da palavra “brat” (algo como “pirralho”, “fedelho” ou “moleque”, em inglês).

 ..ou latido
Uma outra explicação
 dada por Groening tem a ver com “essa ideia de um pai bravo gritando ‘Bart’, e Bart soa como o ‘bark’ de um cão latindo”. Em inglês, o verbo “bark” significa justamente “latir”.

Herdeiros

Matt Groening fez referência aos Simpsons ao batizar dois de seus três filhos: um se chama Homer e outro se chama Abe, que é nome do “vovô Simpson”.
Bart voz de menina

É a americana Nancy Cartwright – sim, uma mulher – que faz a voz do Bart no desenho original. Inicialmente, ela havia sido convidada para dublar Lisa. Acabou ganhando também os papéis de Todd Flanders, Nelson Mutz, Kearney e Ralph Wiggum.

Chupeta

Já o “dublador” de Maggie – que na verdade faz apenas um barulho constante de uma chupeta sendo sugada – é o próprio Matt Groening.
Maggie voz de Cleópatra

Mas, no episódio em que finalmente a garotinha fala (“Papai!”), exibido em 1992, a voz é de ninguém menos que ElizabethTaylor.

 High five divino

Todos os personagens em “Os Simpsons” têm quatro dedos, exceto dois: Deus e Jesus.

Interjeição...

"D'oh", a clássica expressão de Homer Simpson, foi criada pelo dublador do personagem, o ator Dan Castellaneta. Ele explicou que o roteiro apenas dizia: "grunhido de irritação". Inspirou-se, então, no "Dooooh!" de Jimmy Finlayson nas produções de 'O Gordo e o Magro".

...no dicionário

Em 2001, "D'oh" passou a fazer parte do Dicionário Oxford. Eis a definição, em tradução livre: "[O ato de] Expressar frustração ao perceber que as coisas se saíram mal ou não conforme o planejado, ou que se acabou de fazer ou dizer algo tolo. Também (usualmente de forma levemente depreciativa): apontar que outra pessoa disse ou fez algo tolo".

Homer e Marge dizem 'oui'

Os atores que dublam Homer e Marge na França, Veronique Augereau e Phillipe Peythieu, se casaram na vida real, em 2001.

Vozes de milhões (de dólares)

Entre 1989 e 1998, os atores que fazem as vozes dos seis principais personagens de "Os Simpsons" ganhavam US$ 30 mil por episódio. Entre 1998 e 2004, o salário aumentou para US$ 125 mil. Já a partir de 2008, os rendimentos de Dan Castellaneta, Hank Azaria, Julie Kavner, Yeardley Smith e Nancy Cartwright saltaram para US$ 400 mil por episódio, com rendimento anual de US$ 8 milhões. Em 2011, houve uma crise salarial em que eles ofereceram um corte de 30% em seus vencimentos anuais em troca de uma participação nos lucros.


Custo bebê

Na abertura de "Os Simpsons", quando Maggie passa pela caixa registradora do supermercado em que Marge faz compras, o preço mostrado é US$ 847,63. Em 1989, era esse o custo mensal estimado para se criar um bebê nos Estados Unidos.

Valor dos mantimentos

A partir da 20ª temporada, em 2009, o valor mudou: na hora em que Maggie passa pelo leitor de preços, ele apenas dobra: vai de US$ 243,26 para US$ 486,52.

Springfield terrinha...

Não foi por acaso que Matt Groening escolheu chamar de Springfield a cidade onde moram os Simpsons. “Percebi que Springfield é um dos nomes de cidade mais comuns nos Estados Unidos. Antevendo o sucesso do programa, eu pensei: 'Isso vai ser legal, todo mundo vai pensar que é a sua Springfield'. E pensam mesmo", afirmou ele em 2012 à revista “Smithsonian”.

...de Matt Groening

Mas então ele finalmente revelou que sua “musa inspiradora” era a Springfield de Oregon, que fica perto de Portland, onde Groening passou a infância. Até o endereço da família Simpson – Evergreen Terrace, 632 – é o mesmo da casa ele morava. Além disso, alguns personagens têm os nomes de ruas em Portland, como o reverendo Lovejoy, o aluno valentão Kearney e o Flanders.

Negro e gay...

Em sua primeira aparição, o personagem Smithers era negro. Depois, contudo, o secretário e "puxa-saco" de Mister Burns se tornou amarelo. "Originalmente, ele era gay e negro. Mas nós achamos que isso seria demais, então mantivemos apenas gay", explicou um antigo roteirista de "Os Simpsons", Jay Kogen, em um fórum de internet em 2012.


...por falta de dinheiro?

Mas em 2014 Matt Groening deu outra explicação: tudo não passou de um erro na hora de colorir Smithers, que não pôde ser corrigido porque os produtores na época não tinham dinheiro para pintá-lo de amarelo. Seja como for, em sua segunda aparição, o personagem já tinha a mesma cor típica do desenho.

Homer abstêmio... no mundo árabe

Na versão de "Os Simpsons" exibida nos países árabes, Homer bebe refrigerante em vez de cerveja. Além disso, para se adequar aos costumes islâmicos, ele não come cachorro-quente, mas, sim, uma espécie de linguiça egípcia.

Iabadaba...D'oh!
Em 1997, "Os Simpsons" quebrou o recorde dos "Os Flintstones" como a animação há mais tempo no ar exibida em horário nobre nos Estados Unidos.


Os miseráveis

O personagem Sideshow Bob recebe o número 24601 ao ser preso. É a mesma identificação do diretor Skinner durante ao se tornar prisioneiro no Vietnã. Nada de coincidência: trata-se de referência aos números de Jean Valjean no romance "Os miseráveis", de Victor Hugo, e de Hank Jennings na série "Twin Peaks".

Michal Jackson 'bartmaníaco'

O rei do Pop é coautor e coprodutor da música "Do the Bartman", embora não apareça nos créditos. Cantado por Bart, o hit liderou as paradas em 1991."

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

De mansinho, Globo investe em golpe e preconceito


"Na novela Império, emissora dos irmãos Marinho manda recado para os brasileiros; "Democracia é o pior dos regimes! Onde já se viu dar oportunidades iguais pra todo mundo?", indignou-se a personagem de Lília Cabral, no capítulo de ontem; na mesma cena, seu filho, interpretado por Caio Blat, desdenhou de nordestinos; texto de Aguinaldo Silva, que é de Pernambuco, contribui para disseminar ideias antidemocráticas e antipopulares

Brasil 247 

Uma cena da novela Império, da TV Globo, na noite desta terça-feira 4, chamou atenção em razão do atual cenário político brasileiro. Em meio a manifestações revoltadas de militantes tucanos, que defendem a intervenção militar no poder, o separatismo no País e disseminam o ódio contra nordestinos, após a derrota nas eleições presidenciais, a personagem de Lília Cabral criticou a democracia.

A declaração veio depois de uma discussão entre dois de seus filhos. Um deles, interpretado por Caio Blat, questionou o sucesso da irmã ao se envolver com um nordestino: "Ela se deu bem se envolvendo com um nordestino, um retirante, um borra botas?". Ele se cala em seguida ao ser lembrado pelo irmão, interpretado por Daniel Rocha, que o próprio pai deles é um nordestino.

Maria Marta, personagem de Lília Cabral na novela, dispara: "Isso é democracia, gente! O pior dos regimes! Onde já se viu dar oportunidades iguais para todo mundo? Esquecer que alguns têm mais direitos que outros por terem tido berço? Democracia, como diz o outro, é dar poder aos piolhos de comerem o leão. É triste, é o fim!".

No último sábado, um protesto em São Paulo pediu o impeachment da presidente Dilma Rousseff e defendeu o regime militar no País. Embora a intenção do autor de Império, Aguinaldo Silva, ter sido ironizar os atuais acontecimentos, a mensagem contribui para disseminar ideias antidemocráticas e antipopulares. O dramaturgo é pernambucano e viveu na pele os anos de chumbo, chegando a ter obras censuradas.'

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Até os notívagos abandonam a TV aberta

Altamiro Borges, Blog do Miro 
“Os telespectadores notívagos também estão deixando a TV aberta. Medição de audiência na Grande São Paulo mostra que o número de televisores ligados durante a madrugada permanece igual, mas, mesmo com os investimentos das emissoras na faixa horária, o público está buscando outro tipo de entretenimento. Em 2012, a Globo registrou da meia-noite às 6h média de 5,7 pontos de audiência. Caiu para 5,3 pontos em 2013, e vem marcando, neste ano, 5,2 pontos”. A notícia foi publicada nesta quinta-feira (5) por Keila Jimenez, da Folha. Ela confirma o inferno astral das tevês privadas, que afundam na crise – o que não significa a redução de lucros de seus bilionários proprietários.

Ainda segundo a matéria, a queda de audiência não atinge somente a poderosa Rede Globo. “Vice-líder noite adentro com séries americanas, o SBT registrou na faixa horária, em 2012, média de 3,4 pontos. Neste ano, vem marcando média de 3,2 pontos. Tomada por programas religiosos na madrugada, a Record vem perdendo público. Passou de 2,2 pontos em 2012, para 1,9 em 2013, e tem registrado 1,4 pontos neste ano. A Band marcou 1,2 pontos em 2012 e vem marcando 1 ponto em 2014. A Rede TV! manteve audiência na casa do 0,4 ponto”. Cada ponto no Ibope – que já foi batizado pelo “Globope” pelo blogueiro Paulo Henrique Amorim – equivale a 65 mil domicílios na Grande São Paulo.

Para Keila Jimenez, que acompanha atentamente a evolução das tevês, os índices confirmam que os telespectadores procuram outras formas de entretenimento “Nos últimos três anos, o total de aparelhos ligados da meia-noite às 6 horas na região foi de 17,5%. Portanto, o público coruja continua acordado, mas está migrando para canais pagos, serviços de vídeo sob demanda e videogames”. De fato, estudos recentes indicam o aumento da audiência da tevê por assinatura. De janeiro a maio deste ano, a média diária dos “outros canais” (OCN, sigla do Ibope para denominar canais pagos) foi de oito pontos, ante 6,7 pontos do mesmo período no ano passado – um crescimento de cerca de 20% na audiência em São Paulo.

Na tevê paga, a Rede Globo não reina sozinha. Outros canais, inclusive estrangeiros, disputam a audiência. Em outro artigo, Keila Jimenez já havia alertado que a televisão por assinatura ocupa hoje o segundo lugar em audiência na região metropolitana de São Paulo, “e já representa quase 60% da audiência da Globo. Nesse ritmo de crescimento, a TV paga pode ultrapassar a líder em menos de três anos... Na faixa nobre (das 18h à meia-noite), a mais cara da TV, os canais por assinatura tiveram um crescimento de audiência de 21%, com média de 10,6 pontos. A Globo caiu 10%, marcando 21,2 pontos”. 

Além da tevê paga, as emissoras são vítimas do crescimento da internet, que atrai principalmente os jovens. Como se observa, não está nada fácil manter o atual modelo de negócios da tevê aberta!"

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Danilo Gentili, Rachel Sheherazade, inveja e projeção: Carl Jung explica


o carro da pessoa mais invejada do mundo, segundo ela mesma
Diário do Centro do Mundo 

“A sua inveja é o combustível para o meu sucesso.”

Se você presta atenção nos carros ao andar pela rua, certamente vai encontrar algum com um adesivo desse tipo.
É também provável que encontre na sua timeline do Facebook alguém que postou uma frase parecida ou alguma imagem com a mensagem.

São pessoas que odeiam a inveja que os outros sentem delas. Ao menos é isso que a mensagem diz. Mas é quase certo que isso seja ao menos parcialmente fantasioso. O mais provável é que essa inveja seja fruto de projeção.

Há um bom tempo ver esse tipo de adesivo em carros tem me provocado refletir sobre o assunto. “Será que essa pessoa é tão bacana assim?” Bem, a simples preocupação em expor isso responde que não. Algo está mal resolvido, senão, ainda que houvesse uma grande inveja por parte de alguém, seria ignorada.

Eu havia esquecido do assunto até ter, na semana passada, uma conversa política com um grande amigo. Nós discutíamos o posicionamento de Danilo Gentili e Roger Moreira (ele trabalha com ambos em seu programa noturno de TV, e por razões obvias não vou falar seu nome – embora estivesse defendendo os caras).

Para encurtar uma história longa, Gentili e Roger, segundo este amigo, acham que as críticas que recebem são provocadas por inveja – caso das bananas incluso. Não compreendem a discordância objetiva de ideias. Só pode ser inveja. Chegaram lá com trabalho e merecimento, e agora esses caras ficam enchendo o saco como se eles não pudessem falar o que bem entendem.

Danilo Gentili
Pretensão? Talvez. Mas tenho o mesmo palpite do pessoal dos adesivos: projeção.

Há alguns anos, descobri o site Ted. Como a maioria hoje deve saber, é uma comunidade virtual de palestras. Ideas worth spreading. “Ideias que valem a pena que se espalhem” é o slogan.

A primeira palestra que assisti no Ted foi de um psicólogo italiano radicado nos EUA chamado Mihaly Csikszentmihalyi (o nome é húngaro, mas ele nasceu na Itália mesmo).

Essa palestra falava sobre o conceito de flow, que é algo do meu interesse. Mas isso não vem ao caso. A questão é que ele conta a história de quando passou a se interessar por psicologia: foi assistindo a uma palestra do estudioso e teórico da psicologia Carl Jung sobre discos-voadores.

Ele era jovem e, ao ir ao evento, esperava ouvir alguém falando sobre homenzinhos verdes. Jung, no entanto, falava sobre projeção.

Acontece que na Europa durante o pós-guerra, houve muitos relatos de OVNIs. Jung interpretou isso como projeção, isto é, as pessoas que durante a guerra se preocupavam com bombas vindas do céu, passaram a ter necessidade de “encontrar” coisas inexistentes quando a guerra acabou.

Uma estrela, um avião, um satélite, ou mesmo nada, passavam a ser discos voadores para seus olhos. Essas pessoas tinham, literalmente, que preencher um vazio emotivo.

Aplicando a idéia de Jung nos adesivos de carros, quando alguém projeta a inveja alheia sobre si mesmo, ela provavelmente deseja ser invejada. A sensação de se sentir invejado gera uma emoção da qual a pessoa necessita por um ou outro motivo. E isso não precisa ter absolutamente nenhuma ligação com a realidade. São discos voadores. Se você quer encontrar, você vai, quer eles estejam lá ou não.

No caso de Gentili, pode ser simplesmente por não suportar que achem que ele fala absurdos. Então projeta inveja – sem notar que as pessoas que ele critica poderiam muito bem fazer o mesmo. Talvez façam – o que não quer dizer que ele não tenha críticas objetivas a essas pessoas.

Algo sintomático é a reação de fãs. Quem cuida dos comentários do DCM sabe o quanto acham que tudo é inveja do Gentili quando se critica o apresentador do SBT. O mesmo se aplica a Rachel Sheherazade.

Rachel Sheherazade
É uma reação puramente emotiva. Se fosse lógica, eles poderiam supor que Gentili e Sheherazade também seriam movidos a inveja em suas falas sobre quem quer que critiquem.

Ou poderiam achar que ambas as falas advém de diferenças de ponto de vista. Mas não. Ali é objetivo, aqui é inveja. Ou pior, recalque (quem inventou essa palavra ridícula?)

A verdade é que a inveja existe. Mas ela está muito mais em quem se sente invejado do que em qualquer um."

sábado, 11 de janeiro de 2014

A televisão diante do desafio da reinvenção



"Com mais erros do que acertos, os jornais e revistas vem tentando encontrar novas fórmulas editoriais e corporativas para sobreviver ao impacto da internet; mas a televisão, aqui e no resto do mundo, permanece atada à um modelo que tem mais de 50 anos. 

A resistência à mudança é mais nítida no segmento dos telejornais, onde, descontadas as inovações tecnológicas e as mudanças no guarda-roupa, as emissoras seguem a mesma fórmula do Repórter Esso, da extinta TV Tupi, o primeiro noticiário em vídeo no Brasil. Trabalhei 11 anos no jornalismo da TV Globo e sou testemunha de que as mudanças no estilo de apresentar notícias foram apenas superficiais e formais.

A televisão está entrando na era digital sem ter conseguido livrar-se totalmente do pecado original de ter herdado o estilo narrativo do jornal impresso. Agora ela está diante do desafio da narrativa não linear e interativa da internet, mas continua agarrada ao estilo linear e unidirecional de contar histórias com imagens e sons.

O espectador permanece alheio às novas possibilidades de comunicação multimídia interativa porque segue hipnotizado pela sucessão de inovações tecnológicas e pelo fascínio da imagem. Os anunciantes, desconfiados da mídia impressa, mantém as verbas publicitarias na TV, garantindo às emissoras receitas que acabam estimulando o medo de arriscar mudanças na programação, apesar da queda das médias de audiência, em comparação aos anos 1980 e 90.

Os telejornais continuam agarrados à fórmula de apresentadores carismáticos e repórteres no local dos fatos, embora nem uns nem outros acrescentem diferenciais significativos ao conteúdo das notícias transmitidas.

A regra de que os stand ups (repórter no vídeo) conferem credibilidade à reportagem continua sendo seguida ao pé da letra, embora os fatos mostrem que há pouca ou nenhuma relação entre o que o profissional viu e a realidade do evento noticiado. O deslocamento de equipes de jornalistas e a presença de correspondentes no exterior acabam funcionando mais como marketing dos telejornais do que como garantia de conteúdo original.

O uso intensivo da notícia como fator de atração de público levou à multiplicação de programas noticiosos, e como a capacidade de produção de novas reportagens é limitada, o recurso à repetição passou a ser onipresente. Os telejornais da noite repetem notícias e imagens já divulgadas nos noticiários da manhã e do meio-dia. Quem assiste ao Bom Dia Brasil muito provavelmente encontrara boa parte das matérias repetidas no Jornal Nacional e no Jornal da Globo.

A repetição em si não é um pecado. O problema é que o enfoque continua o mesmo, mostrando falta de criatividade dos editores, salvo quando um fato novo acontece entre um telejornal e outro. Outra causa da monotonia dos telejornais é o fato de todos eles seguirem a mesma agenda noticiosa. Como os manuais de redação são idênticos, a edição, estilo e apresentação das notícias acabam sendo quase iguais. As diferenças ficam apenas por conta dos gadgets eletrônicos ou do orçamento para financiar deslocamentos de repórteres.

As redes e emissoras independentes estão desperdiçando preciosos recursos financeiros ao não optarem por uma reinvenção da televisão em ambiente internet. A primeira coisa que os telejornais precisam esquecer é a preocupação em dar notícias que já circularam pela internet e estão em debate nas redes sociais. Também deixa de ser prioritária a regra de trazer a notícia pronta e supostamente completa. Com a multiplicação exponencial dos informantes online, cidadãos praticantes de atos jornalísticos, fica difícil ser inédito e, ainda mais, tentar condensar a diversidade de visões e opiniões numa única reportagem.

A tendência é a TV deixar de ser a referência obrigatória para as pessoas saberem o que está acontecendo porque elas estarão se atualizando por uma miríade de veículos, quase todos alimentados pela internet. Com isso, os telejornais tendem a se tornar menos atrativos e consequentemente menos valorizados em matéria de espaços publicitários. Para manter sua relevância diante do público, o telejornalismo precisa descobrir o que a TV tem de único em relação aos demais veículos de comunicação, algo que muitos sabem mas não aplicam.

A televisão é o melhor veículo para exposição da diversidade de perspectivas e opiniões, desde que os profissionais deixem as pessoas debater, sem impor condicionamentos ou direcionamentos. Os programas jornalísticos na TV em ambiente Web podem assumir duas características: espaços abertos para discussão ou espaços de opinião personalizada diversificada.

Dos dois espaços, a TV comercial, e também a estatal, usam apenas o ocupado por porta-vozes das opiniões ou projetos das respectivas direções.

Na TV paga há mais debates do que na aberta, mas a razão fundamental não é o principio da livre discussão, mas o fato de que programas deste tipo são mais baratos, já que não envolvem produção sofisticada – bem como, quase sempre, encontram participantes interessados na visibilidade e marketing pessoal. 

Nos Estados Unidos, empresas surgidas na internet, com a Yahoo!, estão contratando profissionais da televisão convencional e mostrando interesse em ocupar espaços diante da demora das grandes redes de TV em mudar suas estratégias editoriais na era digital. Além disso, os grandes jornais, originalmente impressos, estão agora investindo pesado na multimídia, abrindo outro flanco de ataque aos territórios antes exclusivos da TV. Quase todos os grandes jornais norte-americanos, europeus e japoneses já têm hoje boa parte de suas notícias na internet editadas na forma de vídeos.

As receitas publicitárias da televisão também estão caindo, mas em ritmo muito menor do que na imprensa escrita. As margens de lucro ainda são compensadoras. O momento da mudança é agora, porque esperar mais significa a possibilidade de ter que tomar decisões complexas em clima de crise ou quase crise, quando a margem de erro aumenta muito."
Carlos Castilho, Observatório da Imprensa

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Por que nossa tevê é tão ruim?



As novelas são uma tragédia cultural para o Brasil: ensinam a tomar cerveja e não a pensar.
The Bridge
The Bridge
E é anunciada a segunda temporada do seriado escandinavo The Bridge. Os ingleses ficam felizes. A série passa na tevê britânica com legendas.
O fato: Bridge pegou.
Saga, a detetive sueca, cabelos loiros sempre soltos, uma cicatriz no lábio que a torna ainda mais atraente, já rivaliza com Sarah Lund, de The Killing, outra série escandinava de sucesso internacional.
Antes que eu fale sobre a história, a pergunta essencial: por que no Brasil não fazemos nada que preste na televisão? Por que somos humilhados em qualidade até pela Escandinávia com seus recursos limitados?
Tenho minha tese: a estética da novela massacra a criatividade. Filmes e séries no Brasil têm uma semelhança irritante com as novelas da Globo. Mesmos atores, mesmos diretores, mesma limitação, mesma falta de surpresa e inovação.
O florescimento do cinema e da tv na Escandinávia está conectado ao grupo Dogma, um conjunto de cineastas iconoclastas e brilhantes entre os quais se destacava Lars von Trier, um dos últimos gênios da direção. The Bridge é um dos filhos do Dogma.
Nosso Dogma, lamentavelmente, é a novela das 9. Que não faz você pensar, e sim tomar cerveja. Me conta um amigo publicitário que em Avenida Brasil tudo era motivo para tomar cerveja, por causa do dinheiro colocado pela Ambev não em propaganda direta, mas no controvertido e perigoso ‘product placement’, o popular mercham. Nele, vc consome publicidade disfarçada no meio do conteúdo.
Quer dizer, os personagens da novela bebiam desmedidamente cerveja não porque tivessem propensão a alcoolismo, mas por conta de um contrato milionário firmado pela Globo. Na Inglaterra, bebidas alcoólicas são proibidas de aparecer subliminarmente, para que não seja estimulado um hábito ruim para a saúde.
Os brasileiros aprendem a tomar cerveja com as novelas
Os brasileiros aprendem a tomar cerveja com as novelas
A história de The Bridge gira em torno de um cadáver descoberto na ponte que liga Suécia e Dinamarca. Dois, na verdade. O corpo parece ter sido serrado no meio. Mas a perícia logo descobre que a parte de cima é de uma mulher e a de baixo de outra.
Logo aparece Saga, absolutamente desinibida, e domina a trama. Quando quer sexo, ela vai a um bar e escolhe um homem. Depois leva para seu apartamento. Saciada, volta ao trabalho de investigação e esquece o homem. O melhor diálogo da série é entre ela e seu parceiro de polícia.
“Que você fez ontem?”, ele pergunta.
“Sexo”, ela responde, com a naturalidade que teria se tivesse dito que foi visitar uma velha tia reumática.
As novelas brasileiras não emburrecem apenas o público. Também os diretores e atores ficam mais burros.
Tropa de Elite 1 poderia ser a semente de uma renovação. Mas não foi nada. A sequência já parecia uma paródia. Triunfou o espírito das novelas.
Maldição eterna a elas.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

TV tem cada vez menos audiência dos foliões do sofá



Keila Jimenez, Folha de S. Paulo

O Carnaval está perdendo o seu poder de sedução com os foliões do sofá, aqueles acompanham escolas de samba e trios elétricos somente pela televisão.

Segundo dados do Ibope, a transmissão do desfile das escolas de samba de São Paulo, na última sexta-feira, sofreu queda de 27% de audiência em relação ao ano anterior. A Globo registrou média de 8,3 pontos, ante 11,1 pontos no primeiro dia de folia em 2012. Cada ponto equivale a 62 mil domicílios na Grande SP.

No sábado, a queda foi menor: a Globo marcou 10,3 pontos, ante 11 pontos do desfile paulista no ano anterior.

A emissora também perdeu espectadores nos desfiles do Rio. O primeiro dia de transmissão das escolas de samba cariocas, no domingo, marcou 7,6 pontos de audiência, ante 8,3 pontos do desfile do ano passado. Na segunda-feira, o carnaval da Globo alcançou 9,3 pontos, média um pouco menor que a de 2012, que foi de 9,6 pontos.

SBT e Band também não cresceram em ibope com as transmissões da festa no Nordeste. A média de audiência das emissoras oscilou entre um e três pontos de audiência.

A RedeTV!, que vinha registrando média na casa do 0,7 ponto, marcou um ponto com os "Bastidores do Carnaval".

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Grupos religiosos invadem a TV





Altamiro Borges, Blog do Miro

“A jornalista Keila Jimenez, da Folha, informa hoje que “o líder religioso Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, pode tornar-se proprietário de duas redes de TV”. O seu grupo já estaria finalizando a compra da rede CNT, por cerca de R$ 500 milhões. “Na semana passada, representantes do religioso estiveram no Rio negociando com dirigentes das Organizações Martinez, proprietária da CNT. A rede possui atualmente, entre emissoras próprias, retransmissoras e afiliadas, 48 praças que levam o seu sinal pelo país”.

Ainda segundo a jornalista, Valdemiro também negocia a compra de Rede 21, do Grupo Bandeirantes. “Locatária há quase cinco anos de 22 horas diárias no 21, a Igreja Mundial está acertando um novo contrato com a Band, que envolvendo o arrendamento do canal e, mais adiante, a compra com abatimento do valor já investido na emissora. O negócio gira em torno de R$ 700 milhões”. Para viabilizar estas milionárias aquisições, Valdemiro Santiago já tem pedido a cerca de 100 mil fiéis uma “doação emergencial” de R$ 200 cada.

As informações de Keila Jimenez são apavorantes. Atualmente, vários grupos religiosos já dominam boa parte da programação da tevê aberta no país. Esta invasão é perigosa e atenta contra a Constituição Federal, que fixa que o Brasil é uma nação laica. O Ministério das Comunicações, porém, não toma qualquer atitude. Depois do fato consumado, fica ainda mais difícil qualquer tipo de ação reguladora. Esta passividade não é por falta de aviso. Reproduzo abaixo excelente artigo de João Brant, do Coletivo Intervozes, publicado no Observatório da Imprensa.

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Em nome de Deus?

Por João Brant em 24/02/2011 na edição 630

Ligar a televisão no horário nobre e ver um líder religioso utilizando o espaço para pregar e buscar fiéis é algo que parece fora do lugar. E é. Não por ser uma manifestação religiosa, algo que é parte da cultura brasileira, mas por tornar evidente que um espaço público está sendo utilizado para fins privados.

O mundo todo discute como equilibrar os direitos à liberdade de expressão e à liberdade de crença, previstos em diversas Constituições, inclusive na brasileira. Há várias questões aí envolvidas. Primeiramente, manifestações religiosas devem ou não ser permitidas em veículos de comunicação que são concessões públicas, como rádio e TV? Se sim, deve ser permitido também o proselitismo religioso, ou seja, a prática de tentar "vender seu peixe" e conquistar fiéis?

Na busca de respostas, é preciso pensar como esse tipo de manifestação ajuda ou afeta a liberdade de crença – que é maior do que a liberdade religiosa e inclui até o direito de não se ter religião. E lembrar que, para outras manifestações similares, como o proselitismo político, já há um consenso sobre a necessidade de regras claras para que espaços públicos não sejam tomados por grupos específicos.

Apropriação indevida

No caso das religiões, deve-se perguntar, também, como garantir às distintas manifestações de fé o mesmo direito, já que não chegam a 2% as denominações religiosas presentes no Brasil que têm espaço em meios de comunicação. Deve-se também impedir que esses espaços sejam usados para ataques a outras religiões, como os que sofrem as denominações de matriz africana.

E há questões estruturais também fundamentais. Deve-se permitir canais inteiramente controlados por grupos religiosos, o que é proibido na maioria das democracias? Deve-se permitir o arrendamento de espaço – ou mesmo de canais inteiros – no rádio e na TV? Será que essa prática não configura uma verdadeira grilagem eletrônica, pela apropriação privada de um espaço público? Sejam quais forem as respostas, o nome de Deus não pode ser usado como álibi para evitar esse debate no Brasil.