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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Psicanálise, as Discriminações e as Religiões



A defesa da “família tradicional” pelos evangélicos é uma perversão.

O cristianismo, desde tempos remotos, teve papel preponderante na história brasileira. O Brasil sempre foi (a partir dos colonizadores, que impuseram seu capital cultural ao país e aos povos subjugados) cristão. Ao longo da história, inclusive, a separação entre Estado e Igreja nunca foi cristalina, esse entrelaçamento, esse entrecruzamento foi uma constante.

A maioria cristã, na história moderna nacional, foi e continua sendo absoluta. Qualquer político com esperanças eleitorais, ainda hoje, tem calafrios ao sonhar que pode transparecer um certo ateísmo (para isso costumam ir, convenientemente, a igrejas em datas ainda mais convenientes). No entanto, a configuração, a distribuição dos cristãos vem paulatinamente mudando. O Censo de 2010 revelou que os católicos passaram de quase 83% da população em 1980 para 64,6%, enquanto os evangélicos cresceram de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010, o que representa, aproximadamente, 42,3 milhões de pessoas.

Diferentemente da católica, as igrejas evangélicas são um grupo multiforme e dividido em três grandes categorias: as protestantes históricas (Luterana, Presbiteriana, Anglicana, etc.), as pentecostais (Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular, Deus é Amor, etc.) e as neopentecostais (Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, etc.) Basicamente, o pentecostalismo (e essencialmente o neopentecostalismo) distinguem-se do protestantismo histórico por pregar a crença na contemporaneidade dos dons do espírito, entre os quais se destacam o dom de línguas (glossolalia), cura e discernimento de espíritos e por defender a retomada de crenças e práticas do cristianismo primitivo, como a cura de enfermos, a expulsão de demônios, a concessão divina de bênçãos e a realização de milagres.

O neopentecostalismo é um fenômeno urbano crescente. Caracteriza-se, basicamente, por dar uma especial ênfase à teologia da prosperidade, originária dos Estados Unidos, a qual defende que o cristão deve ser próspero, feliz e vitorioso em sua vida terrena. Para tal, estabelece-se uma espécie de contrato com Deus, em que quanto mais se doa, para a igreja obviamente, mais se recebe. A prosperidade econômica é vista como sinal da graça divina. Além disso, outra grande característica dessas igrejas é o uso intensivo da mídia. Proliferaram-se programas em que aparecem testemunhos, milagres e mecanismos que permitem a expansão dessas igrejas.

Esse adiantamento de recompensas de um plano celestial para um plano terrestre somado à midiatização massiva explicam, de alguma maneira e em partes, o vertiginoso crescimento dessas igrejas. Não obstante, o avanço evangélico se dá em vários âmbitos, inclusive culturais. Há uma rede social cristã que cresce no número de adeptos: o Faceglória (que está sendo processado pelo Facebook por plágio e já passou por outra polêmica ao não permitir fotos de beijos homossexuais), bem como são detentores de ambições e aspirações de poder, políticas. A já famosa bancada evangélica tem agenda consolidada, um número crescente de parlamentares, uma atuação estrondosa, barulhenta e, agora, o Presidente da Câmara, que já garantiu isenção fiscal a igrejas com a anulação de autuações fiscais que passam dos 300 milhões de reais.

A ofensiva política e a intenção de legislar a partir da bíblia (e um código penal de 3.000 anos atrás!), impondo crenças religiosas e normatizando (ainda mais!) corpos, comportamentos e sexualidades é perigosíssima, mas não é o ponto em que me deterei. O assunto em questão, não menos chamativo, é o tratamento dispensado ao Outro, essa fábrica simbólica de contrastes, de diferenças e de mal-estar, para usar uma expressão freudiana.

A vida do homossexual, na sociedade brasileira, não é nada fácil, embora tenha melhorado um pouco. Estereotipado, é alvo de humor estigmatizante, discursos de ódio, discriminações, agressões e até assassinatos. Mas o que tanto incomoda nos homossexuais, o que tanto ódio desperta? Não creio que seja sua vida íntima, privada, trata-se do desconforto por romper com a heteronormatividade, do simbólico de andar de mãos dadas em locais públicos, de mostrar-se diferente em nossa sociedade de controle, da possibilidade de existência e visibilidade desse diferente residir em um universo padronizado.

Pois bem, é, no mínimo, curiosa e digna de nota a cruzada promovida por um número não irrelevante de evangélicos, mais precisamente neopentecostais (não todos, em absoluto. Afirmar tal coisa seria uma sandice) e de alguns pastores midiáticos bastante conhecidos. Com as estratégias já mencionadas para angariar fiéis, um crescimento constante e um poder econômico e midiático consolidados, o que justificaria a frequência e a virulência de tais discursos?

À primeira vista, a justificativa oficial é a defesa da “família tradicional”, um argumento tão vazio e carente de sentido quanto a ofensiva. Defesa de quê ou de quem? Quando a “família tradicional” esteve ameaçada? Aliás, de que família ou modelo de família se trata? O que é, em definitiva, essa “família tradicional”? Pois bem, essa narrativa vai ao encontro de uma outra narrativa conservadora repetida ad infinitum sempre que surge um problema social, sobretudo quando envolve adolescentes: aquela que responsabiliza a dissolução da família pelo quadro de degradação social em que vivemos, com a consequente decadência e/ou falência de instituições. A falta de famílias “estruturadas” seria a responsável pela delinquência juvenil, pela violência, pelas drogadições; não a desigualdade, não a degradação e paulatina privatização dos espaços públicos, senão esse núcleo de transmissão de poder que arcaria sozinho com a construção do edifício da moralidade e da ordem nacionais.

A psicanalista Maria Rita Kehl mostra em “Em Defesa da Família Tentacular” que esse modelo de família “tradicional” correspondeu às necessidades da sociedade burguesa emergente no século XIX e durou até metade do século XX (sim, apenas isso) e estava muito distante de ser perfeita. A fábrica de neuroses que permitiu a Freud criar a psicanálise, a origem do autoritarismo para Reich, era estruturada hierarquicamente, organizada em torno do poder patriarcal, na qual estavam justapostas a proteção e a opressão por parte do chefe de família, que controlava a sexualidade das mulheres e o destino dos varões. A esposa era submissa e dedicada inteiramente à família, sem vida pública; a vida conjugal dos filhos administrada como um pequeno negócio; as mulheres destinadas à submissão e dependência econômica, tudo cercado por aquela atmosfera de hipocrisia vitoriana da qual tão bem falou Machado de Assis.

As necessidades do próprio mercado emanciparam a mulher, bem como suas lutas, obviamente. Ela começou a se empoderar, a trabalhar, reduzindo, assim, sua dependência econômica (ainda hoje aqueles que têm por projeto o arcaísmo culpam a mulher por essa dissolução da família, por ter a petulância de querer existir fora das fronteiras familiares), o poder passou a ser mais horizontal e as configurações familiares mudaram drasticamente: hoje, as famílias, segundo a autora, são tentaculares: co-parentais, recompostas, agregando e legitimando uma pluralidade maior de experiências, como filhos de casamentos diferentes, de pais homossexuais, pais e mães solteiros, entre muitas outras. Mais arejada e menos rígida, diminuiu a dominação masculina e sepultou um padrão nuclear de família, normativo e que vinha em processo de erosão.

Assim sendo, essa defesa de uma instituição, que já não tem seu funcionamento normatizado, de um inimigo invisível e amorfo se aproxima dos moinhos de Dom Quixote e está longe de se sustentar minimamente. Também se pode analisar o fenômeno a partir de um viés psicanalítico, com todas as ressalvas que essa sistematização selvagem do social acarreta. Assim como Freud escreveu que a religião é a neurose coletiva originada do desamparo, pode-se dizer que esses ataques seriam mecanismos de defesa.

A formação reativa é uma forma de defesa contra impulsos inaceitáveis para o ego. O sofrimento psíquico gerado por esse impulso causaria uma repressão que resultaria na antítese, no oposto daquele impulso, de maneira definitiva na formação da personalidade do sujeito. É uma defesa frágil, pois o impulso está à espreita no inconsciente, ameaçador. Então, um sujeito com impulsos e desejos homossexuais se tornaria um homofóbico empedernido.

É uma maneira de enxergar as coisas, em termos psíquicos e individuais. Também se poderia relacionar, por exemplo, o sucesso de programas como Big Brother ou A Fazenda a uma perversão que seria um tanto quanto estendida como o voyeurismo.

Deixando a um lado a hipótese psicanalítica, os ataques homofóbicos também podem ser vistos desde uma perspectiva foucaultiana, e aqui creio haver mais sentido, como estratégias de sobrevivência, estratégias de poder, de biopoder, do poder que se exerce sobre a vida. Foucault propõe uma maneira diferente de se analisar o discurso histórico, surgida em fins do século XVI e começo do XVII, como uma contra-história ou história anti-romana: não mais centrado na soberania, na continuidade do poder através da continuidade da lei, enaltecendo feitos e conquistas para reforçar esse poder, mas na investigação sobre a guerra como princípio de análise das relações de poder.

A partir dessa análise, ele estabelece que o racismo vem para justificar o direito de morte que os Estados reivindicam, a partir de relações saber-poder que introduzem fissuras no continuum biológico que o biopoder estabelece. Também produz uma relação bélica, do tipo “quanto mais se matar, mais se viverá”, a mesma relação guerreira do tipo “para viver, deves massacrar o inimigo” que tantos povos antigos utilizaram. Permite, da mesma forma, uma relação de tipo biológico, na qual quanto mais anormais, quanto mais seres inferiores morrerem, mais pura será a raça.

Pois bem, qual a relação entre essa análise histórica, essa análise do racismo com o tema inicial, os ataques fundamentalistas contra a população LGBT? Tudo e nada. Para Foucault, era fundamental se pensar a atualidade, e estou de acordo com isso, de nada adianta teorizar sobre o passado e não se falar no presente. Assim, tem-se um movimento neopentecostal crescente e em expansão ao mesmo tempo em que os discursos homofóbicos se intensificam.

O sujeito homossexual é aqui, então, esse Outro portador de diferenças, que escapa à norma, desviante, anormal, a antítese da vida (aqui entra o simbólico de não gerar vida), esse que resiste e luta por seus direitos, esse que desafia a tradição, esse ser impuro e degenerado. A partir dessa lógica bélica e aqui, num campo simbólico e discursivo (embora os desdobramentos desses planos ocasionem tantas tragédias e violências), temos que: quanto mais seres anormais, impuros morrerem ou forem condenados à invisibilidade, quanto mais destes anômalos deixarem de existir, mais nós viveremos, mais puros seremos, mais pura será a sociedade. Dessa forma, garante-se a sobrevivência e a expansão.

Estou afirmando com isto que todos os pastores evangélicos, todas as instituições evangélicas funcionam dessa maneira? Nada mais distante da realidade. Há excelentes pessoas em todos os âmbitos, e nas igrejas não é diferente. Recentemente, o pastor José Barbosa Júnior, junto com um padre, lavaram os pés da transexual que apareceu crucificada na parada gay em forma de protesto. É líder do movimento Jesus Cura a Homofobia e transmite essa mensagem de tolerância. No entanto, esse movimento pacífico tem muito menos visibilidade e adesão (cerca de 12.000 fãs no Facebook) do que alguns pastores falastrões que movem multidões e possuem milhões de fãs.

É um problema grave que pode trazer consequências ainda piores. Não creio ter uma solução tirada da cartola, uma receita de bolo, uma sentença simplista adequada a todos os contextos. Contudo, creio que a problematização, o nomear, o trazer a público são, per se, formas de resistência e permitem trazer um pouco de frescura, um pouco de lucidez a um ambiente tão convulsionado nos últimos tempos. Logicamente, atuando dentro do plano do possível, sem incorrer em utopias impossíveis ou niilismos estéreis. Como disse Deleuze, “um pouco de possível, senão eu sufoco”.

Fernando Dimer, psicólogo.
No Saúde Publica(da) ou não

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O pior de cada um de nós


Algumas ideias podem fazer despertar o que há de pior em nós.
Numa de suas obras, Nietzsche escreveu: “nada percebemos de injusto, quando a diferença entre nós e outro ser é muito grande, e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso” (Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 63). Nesse conciso pensamento, podemos encontrar a descrição precisa de um traço humano, demasiado humano, que ao mesmo tempo revela muito do que há de pior nos indivíduos de nossa espécie. Sem dúvida, é um fato bem intrigante que a imensa maioria das pessoas em todo o planeta não hesitaria um segundo sequer antes de esmagar uma formiga (sobretudo, se esta lhes houvesse picado) ou uma barata avistada a passear por sobre as panelas e alimentos em sua cozinha, ao passo que um número menor de pessoas seria capaz de matar um cão com a mesma consciência tranquila, sendo ainda menos numeroso o conjunto daqueles dispostos a matar um chimpanzé, sem remorso algum, pelos motivos mais banais que justificam nossos atos de inseticídio.
Essa distinção intuitiva que fazemos entre seres vivos menos e mais próximos de nós na árvore evolutiva, que parece gerar essa instintiva reação de repulsa por matar um chimpanzé que normalmente não sentimos diante de uma barata, pode ser contudo reprogramada de diversas outras maneiras. Como? Ora, pela adesão intelectual a alguma ideia. Ideias que povoam a cultura à nossa volta podem recondicionar muitas de nossas respostas instintivas e psicológicas a estímulos externos. Por isso, quase todo vegetariano e grande parte daqueles que mantêm uma dieta carnívora têm reações praticamente opostas diante da cena de um boi sendo abatido num matadouro. Uma ideia é um vírus, que, quando infecta nossas mentes, via de regra nos subjuga — visto que nos livrarmos de ideias das quais nos convencemos não é um feito menos prodigioso do que escalar o Everest. (Como bom mineiro, sempre gostei de frango com quiabo, bifes de boi acebolados e feijão tropeiro com muito torresmo e linguiça suína. Porém, outro dia vi na TV uns coreanos comendo carne de cachorro frita. A sensação de nojo foi imediata. Mas… como pode? Por que não sinto o mesmo diante de um cheiroso pernil de porco? A resposta não é senão o tabu — um tipo de ideia que nos é inculcada acerca do que é e do que não é permitido, segundo determinado código de valores numa dada cultura.)
Enfim, ideias são perigosas, poderíamos dizer sem muito exagerar. Elas têm o poder de controlar nossas vidas. Por isso, uma postura cética, pela qual busquemos sempre submeter as ideias que mais peso têm sobre nossas vidas a seguros testes de validade disponíveis, é algo tão precioso para a espécie humana. Porém, para nossa infelicidade, apenas muito recentemente em nossa história isso se tornou uma prática entre nós e, o que é ainda pior, uma prática não adotada pela imensa maioria dos 7 bilhões de pessoas que hoje povoam a superfície da Terra. A maioria ainda mantém como verdades absolutas suas ideias pessoais sobre crenças religiosas, sobre a sexualidade, sobre os papéis sociais, sobre os papéis sociofamiliares de cada gênero, sobre a melhor ideologia política, a filosofia mais adequada à vida moderna etc. O maior problema disso, como eu já disse, é que não somos donos de nenhuma dessas ideias; elas é que se fazem donas de nós. Num mundo superpopuloso, onde tantos abraçam cegamente as mais conflitantes visões, o preconceito, o racismo, a misoginia, a impunidade dos pares e a condenação dos diferentes, dentre tantos outros males sociais, revelam-se apenas consequências previsíveis dessa postura acrítica e crédula. Infelizmente.
Já escrevi um texto (“Nós e o resto: por que os humanos não se veem como iguais“) em que discorri sobre a história evolutiva de nossas visões sectárias, das tribos de ontem às classes sociais que fingem coexistir em paz no espaço urbano hodierno. E enfatizo que é importante ter em mente que as ideias têm um poder perturbador: o de transformarem nos insetos desprezíveis de que Nietzsche falava outros membros de nossa própria espécie, outros humanos como nós mesmos. Ideias podem transformar uma pessoa numa barata esmagável sem a menor sombra de remorso. O holocausto dos judeus sob o nazismo é um exemplo emblemático disso. Outro triste exemplo, bem mais corriqueiro, o Brasil inteiro pôde testemunhar recentemente.
No início deste mês (fevereiro de 2012), na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, cinco jovens resolveram se divertir importunando um pobre mendigo na rua — e não sejamos hipócritas; isso infelizmente não é novidade: como sabemos, este é o mesmo país onde alguns jovens, filhos de famílias ricas e importantes, queimaram vivo, “por diversão”, um índio que dormia num ponto de ônibus em Brasília e se justificaram dizendo que não sabiam que era um índio, que haviam pensado que era um mendigo. (Sim, essa sensível justificativa consta dos depoimentos tomados.) Dessa vez, contudo, dois jovens que presenciaram a agressão ao mendigo resolveram interferir. Resultado: conforme depoimento de Kleber Carlos Silva, um dos rapazes que intervieram, enquanto um sexto agressor se juntou ao grupo dos importunadores de mendigos e segurou Kleber, os outros espancaram violentamente seu amigo, o estudante Vítor Suarez Cunha, de 21 anos. Vítor levou vários chutes na face e na cabeça e teve de ser submetido a uma cirurgia em que 63 pinos e 8 placas de titânio foram implantados em seu rosto e crânio.
Segundo o delegado encarregado do caso, embora o grupo contasse mesmo seis jovens, apenas cinco dos suspeitos teriam participado da agressão; o outro apenas teria assistido a tudo, sem se envolver diretamente, por isso este foi ouvido na delegacia e, depois, liberado. Dos que a polícia considera terem tido participação ativa, o único que ainda não havia sido preso apresentou-se na tarde de quarta-feira, 8 de fevereiro, acompanhado de seu advogado. Além disso, um outro fato que chamou a atenção foi o de que esse mesmo grupo, segundo consta, não é estreante na arte de agredir covardemente os mais fracos. Depois da divulgação da notícia de que haviam sido presos, outras pessoas apareceram denunciando abusos sofridos por parte de alguns dos rapazes detidos.
A agressão contra Vítor e seu amigo pode-se entender (eu disse entender, de um ponto de vista objetivo, não justificar), quando se leva em conta o histórico violento de jovens que integram um grupo com um típico perfil de gangue. Ao defenderem o mendigo, Vítor e Kleber se intrometeram no que não lhes dizia respeito, e isso não podia ficar barato. A agressão condiz com o comportamento troglodítico padrão desses grupos, sempre propensos a responder com violência, de forma inconsequente. Mas o que me assusta acima de tudo é o início dessa confusão, que acabou de modo tão trágico para os dois únicos jovens que tiveram uma atitude solidária. O que me causa arrepios é pensar no porquê de um mendigo ser escolhido gratuitamente para servir ao sádico divertimento de um grupo de jovens que claramente não se guiam por uma moral fundada numa sólida base humanitária.
É quando voltamos ao perigo das ideias e do poder que elas têm de transformar homens em insetos desprezíveis. A ideia de que algumas pessoas seriam superiores a outras não é nenhuma desconhecida nossa. Ela acompanha as diversas sociedades humanas desde os primórdios de nossa história. Mesmo em nossos dias, mesmo em nosso país, ela está por aí, por toda parte — e com frequência a expressão dessas ideias discriminadoras entre os melhores e os piores, os mais e os menos, a maioria (autoritária) e a minoria (que deve se manter reprimida) são flagrados nas redes sociais. Não pensem que mendigos servindo de objeto de zoação para jovens sádicos seja aprovado apenas por uma insignificante minoria dos que passam o dia no Twitter, no Facebook ou em redes afins. Indivíduos que se julgam de algum modo superiores a outros pululam nesses sites: inúmeras postagens expressando o que há de pior contra homossexuais, nordestinos, ateus, pobres, mulheres que desfrutam de sua liberdade sexual como querem…
Para citar um caso que chamou minha atenção, no que diz respeito aos jovens que agrediram o mendigo e espancaram o estudante que interferiu, nada menos do que um soldado da Aeronáutica usou seu perfil no Facebook para se manifestar em defesa dos agressores. Para ele, seus “manos” não haviam feito nada de mais. Mas não só isso. Ele criticou a polícia e a Justiça pela prisão dos suspeitos e, quando uma jovem se manifestou, dizendo ser amiga do estudante Vítor e estar horrorizada com a brutalidade do que haviam feito a ele, o soldado Yuri M. Ribeiro respondeu: “Que pena, ninguém mandou seu amigo se meter na briga“. (Na briga? De seis homens jovens e bem nutridos contra um pobre mendigo?) A moça, indignada, se exalta: “Ele foi homem, uma coisa que você pelo jeito não seria na hora“. É então que o soldado deixa sua tréplica mais do que lamentável: “Se eu estivesse na hora, ele não sairia vivo!” (Em minha cabeça, uma pergunta: e esse sujeito é um militar em meu país?) Diante do comportamento de seu soldado e das provas apresentadas contra ele, a FAB acabou expulsando Yuri Ribeiro. Convenhamos, o mínimo que poderia ter feito.
Identificado e encontrado pela polícia, o referido mendigo, por sua vez, agora se recusa a apresentar denúncia. Diz que não se lembra de nada daquela noite. Pode-se entender por quê. Infelizmente, ele sabe que, denunciando ou não, sua vida continuará a ser nas ruas. Nas ruas de um país onde, para muitas pessoas, não há nada de mais em se divertir com um mendigo, mesmo que isso signifique agredi-lo ou atear-lhe fogo. O miserável vítima desses jovens criminosos sabe o que é viver uma vida sob os olhares indiferentes ou enojados de tantos que o enxergam, todos os dias, como um inseto asqueroso. Ele sabe que muitos torcem, calados, para que alguém um dia venha e o esmague, como a uma barata imunda, para que não tenham mais que conviver com sua imagem suja e fétida no ambiente à sua volta.
O mendigo sabe o que é ser sujeito passivo na torturante sintaxe que expressa uma terrível ideia.
Autor: Camilo Gomes Jr.
bulevoador

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Negros, jovens e mulheres são mais atingidos por desemprego




Foi lançado ontem (25) o Anuário do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda 2010/2011, pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Entre os dados divulgados, o maior desemprego que ainda há entre mulheres, negros e jovens.

O anuário procura levantar todas as informações referentes ao mercado de trabalho nos anos de 2010 e 2011, e está dividido em seis partes: mercado de trabalho, intermediação de mão de obra, seguro-desemprego, qualificação profissional, economia solidária e juventude. Outra informação que se destaca é a taxa de desemprego muito alta para quem tem menos de 20 anos.

Para o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, os dados, no geral, demonstram que há uma forte geração de empregos com carteira assinada e a consequente redução do desemprego e da informalidade. Clemente Lúcio destacou o crescimento do setor das cooperativas, que já somam mais de 25 mil no país, que ajuda a impulsionar ainda mais a oferta de vagas.

Sobre os problemas, o diretor do Dieese aponta, como exemplos mais representativos, o desemprego maior entre mulheres, negros e jovens. “Há ainda um caminho muito longo para que mulheres, negros e jovens tenham uma participação mais igualitária do ponto de vista da ocupação e das condições de trabalho, para que todas as pessoas possam ter um sistema de proteção social adequado”, disse.

Segundo dados do anuário, o desemprego entre os jovens de 18 a 20 chega a 50%. Entre as mulheres é 11,1% (contra 6,2% entre os homens). E entre os negros, 10% (contra 7,3% da população branca e 9,1% da parda). Todas as comparações são com dados de 2009.

“O anuário serve às políticas de emprego e qualificação do ministério, mas também para, por exemplo, uma empresa que quer se instalar em uma determinada região saber se tem trabalhador qualificado para o tipo de serviço, saber se a faixa de salário do consumidor vai fazer com que valha a pena ele se instalar nessa região”,explicou o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi.

Até o final do ano, o anuário estará disponível na página do MTE .