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quarta-feira, 15 de julho de 2015

20 anos de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, indispensável para entender o Brasil

(Darcy Ribeiro na volta do exílio, em 1976)

(Darcy Ribeiro na volta do exílio, em 1976)
“Nosso destino é nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa oposição comum ao mesmo antagonista, que é a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal como ocorre na comunidade européia, a Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar. Hoje, somos 500 milhões, amanhã seremos 1 bilhão. Vale dizer, um contingente humano com magnitude suficiente para encarnar a latinidade em face dos blocos chineses, eslavos, árabes e neobritânicos, na humanidade futura.
Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a nós mesmos como um gênero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais difícil e penosa, mas também muito mais bela e desafiante.
Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultura. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização. para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e por que assentada na mais bela e luminosa província da Terra.”
(Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro)
opovobrasileiro
Esta não é a primeira vez que cito O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, no blog, nem será a última (clique aqui e aqui para ler outros textos sobre o livro). Considero uma obra fundamental para compreender o nosso País e para conscientizar os jovens sobre o sofrimento dos negros e dos índios em sua formação, para perceber o tamanho da dívida que temos para com eles e entender as desigualdades que sempre existiram. Nosso parto como Nação foi doloroso e ainda é. Darcy mostra isso.
Vinte anos atrás, em fevereiro de 1995, internado em um hospital para tratar um câncer do pulmão, Darcy Ribeiro decidiu fugir e ir para sua casa em Maricá terminar aquele que considerava o grande livro de sua vida: justamente O Povo Brasileiro. “Não poderia deixar de terminá-lo”, declarou então. Em maio daquele ano o livro seria lançado e Darcy morreria dois anos depois. O Povo Brasileiro se tornou um clássico instantâneo e permanece absurdamente atual.
Em uma lista recente de livros para conhecer o Brasil que elaborou, o crítico literário Antonio Candido, que considera Darcy “um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve”, situa O Povo Brasileiro como o que deve vir antes de qualquer outro. “Como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro(1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: ‘A formação e o sentido do Brasil'”.
Para lembrar o aniversário e para espalhar O Povo Brasileiro país afora, o Socialista Morena se junta à livraria Outras Palavras em uma promoção: os leitores do blog têm 15% de desconto na compra do livro. Clique aqui para comprar. E boa leitura.
 vi no: http://socialistamorena.com.br/20-anos-de-o-povo-brasileiro/

domingo, 21 de julho de 2013

A BAIXA AUTOESTIMA CONTAMINA O BRASIL



Por Alexandre Figueiredo

Os anos 90 foram a década perdida no Brasil. Isso porque foi nessa época que os valores duvidosos introduzidos no establishment do entretenimento que os EUA viviam nos anos 80 (oficialmente a década perdida de lá) foram introduzidos em nosso país.

Com promessas de melhor tecnologia, maior visibilidade de famosos em geral e até acadêmicos, e de algum benefício "pragmático" na vida de qualquer um, passou-se a se contentar com pouco, aceitando facilmente qualquer degradação ou deturpação de conceitos, ideias e propostas para o mínimo do medíocre, mesmo que esteja longe até de atender as necessidades mais básicas.

E qualquer degradação tinha sua desculpa. "É para atrair mais público", "É para organizar melhor", "É porque o povo entende isso melhor", entre outras coisas. Fora aquela desculpa esfarrapada que muito se ouve: "Sei que não é uma maravilha, mas é melhor do que nada".

Essa postura se torna bem pior do que no pré-1964. Mesmo nos primeiros anos da ditadura militar, lutava-se por melhores condições de vida. Hoje recomeçam os protestos de ruas, mas são apenas o começo de um despertar que ainda não é completo, é um começo de tentativa de superação dos problemas, mas que não trouxe resultados plenos e concretos, embora isso seja questão de tempo.

Mas foram cerca de 50 anos de degradação de todos os sentidos. Na ordem política, econômica, cultural, institucional. Da mobilidade urbana ao radialismo rock, da problemática das mulheres pobres à mediocridade intelectual na Academia Brasileira de Letras. Parecia que o Brasil se degradava em doses homeopáticas, mas de 1964 para cá o país regrediu em dimensões buñuel-kafkianas.

Na música brasileira, temos um quadro pior. A respeitável e admirável Música Popular Brasileira de 1965-1968 é hoje depreciada, mesmo de forma "científica" em monografias e documentários, seja pela glorificação da mediocrização cultural do brega e seus derivados (inclusive o "funk"), seja pela esculhambação gratuita de nomes de indiscutível talento como Chico Buarque e Edu Lobo.

E hoje a situação é pior, porque mesmo os ritmos populares autênticos, como sambas, baiões, modinhas e outros agora são discriminados em prol de uma "cultura de massa" que até combina apelo popular com sucesso comercial, mas possuem valor artístico-cultural bastante duvidosos, por mais que a intelectualidade insista em relativizá-los.

O grande público, que antes era receptivo até a um sofisticado Edu Lobo, hoje está muito mal acostumado com as mesmices brega-popularescas que só produzem hits instantâneos, mas são desprovidos de qualquer responsabilidade sócio-cultural e artística, porque não produzem conhecimentos, só produzem refrões a serem consumidos pelo "povão".

A perda de autoestima é clara. Muitos não querem mais cultura brasileira, mas tão somente um hit-parade a competir com os EUA, com a desvantagem de que nosso "ritipareide" é a imitação do grande país imperialista.

Em vez de desejarmos um novo Jackson do Pandeiro, temos um Márcio Victor do Psirico. Em vez de querermos um novo Sidney Miller, temos um Michel Teló. Em vez de procurarmos um novo Agostinho dos Santos, encontramos um Thiaguinho. E em vez de esperarmos por uma nova Sílvia Telles, vem logo uma MC Anitta.

MC Anitta é o paradigma do hit-parade radicalmente assumido no Brasil. E que elimina qualquer contexto para as pregações intelectualoides que, em seus delírios ideológicos travestidos de "ciências humanas", tentam glamourizar os fenômenos de massa com falsas alusões a movimentos libertários ou expressões artísticas de vanguarda.

Observando o sucesso da funqueira em cada passo, nota-se todo o marketing bem calculado em factoides, demonstrações de falsa modéstia e até mesmo a solteirice forçada (para não dizer falsa) típica das musas popularescas. Pode parecer uma campanha engenhosa e certeira, mas com certeza nada para nos fazer esquecer de Silvinha Telles morta no auge da carreira, aos 32 anos, em 1966.

Mas não é só no aspecto musical. De repente, o Brasil abriu mão de querer realmente o melhor. Se quer o "melhor", mas apenas em sentido "pragmático" de atender apenas a necessidades imediatistas. Nada que represente real qualidade de vida, mas apenas algo que possibilite a sobrevivência humana e o atendimento apenas a necessidades instintivas, nem sempre prioritárias ou vantajosas.

Daí a herança dos anos 90 da ditadura midiática, do direitismo político, do neoliberalismo econômico. Só que muitos desses "frutos" são defendidos como se não tivessem a ver com esse contexto sócio-político de tecnocratas, políticos ainda autoritários e executivos de mídia que, trancados nos seus escritórios, acham que detém os segredos e os desejos das classes populares dentro de seus ternos.

Não se quer cultura, mas apenas "cultura pop", igualzinho ao que acontece nos EUA. Pouco importa a produção de conhecimentos e valores sociais sólidos, o que se defende é o consumismo puro, travestido de "cultura das periferias".

Mesmo entre parte da opinião pública esclarecida, o poder midiático, político, tecnocrático e econômico manipulou seus desejos, suas ideias e perspectivas. De repente, aquelas pessoas que tinham algum senso questionativo mais ácido passam a amaciar seu senso crítico, aceitando o "estabelecido" porque "os tempos são outros".

Portanto, não há como escapar. O Brasil que tem MC Anitta como a "maior revelação" da música é o país que tem Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras, Joaquim Barbosa de mãos dadas com a Globo, Jaime Lerner ainda pregando modelos ditatoriais de mobilidade urbana, Geraldo Alckmin governando São Paulo como se fosse um tirano medieval (ele é ligado a Opus Dei).

Este é ainda um país anterior aos protestos de ruas, que mostra intelectuais preferindo defender o jabaculê como futuro da cultura popular, enquanto membros do Judiciário defendem a "legalidade" da ditadura midiática. É um país marcado pela baixa autoestima, de preferir macaquear os EUA - como MC Anitta imitando Britney Spears e cia. - do que ser o próprio Brasil da justiça social e qualidade devida.
http://mingaudeaco.blogspot.com.br/2013/07/a-baixa-autoestima-contamina-o-brasil.html

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Eu confio no povo brasileiro

Muita gente sensata e preparada discordará deste blogueiro quando diz que mantém uma fé inabalável na democracia. Mais do que um sistema em si, no qual a vontade da maioria prevalece, o que produz de melhor é o aprendizado democrático.
A democracia deixou de ser praticada neste país durante mais de duas décadas. Em 1989, quando voltamos a exercitá-la, a nova geração de um país de jovens ainda teria que aprender a lidar com essa direita midiática que continua tentando lhe tenta conduzir a vontade eleitoral.
Duas décadas depois, porém, o brasileiro adquiriu experiência democrática. Não se deixa mais enganar por ter aprendido a fazer perguntas a si mesmo que não faria quando do retorno do direito ao sufrágio universal em todos os níveis de governo.
O marco da evolução da experiência democrática de nosso povo nem é tão recente. Começou em 2002, com um ato de coragem que foi o de eleger presidente um homem que essa mesma imprensa disse, por décadas, que afundaria o país.
A escolha foi simples em 2006 e será ainda mais simples em 2010. Todos esperavam a sucessão de denúncias que cumpriu o script que a blogosfera deduziu e anunciou com grande antecedência.
Esse mesmo povo sabe ainda mais, que em um eventual governo de continuidade o bombardeio continuará tentando atrapalhar a administração do país, de forma que caminhe mal, o que criaria o ambiente para que as forças políticas de sabotagem retomassem o poder.
Enganam-se os que subestimam o povo brasileiro – e, por mais que tentem se mostrar conformados com o rumo da decisão eleitoral deste povo, acreditam piamente na possibilidade de revertê-la.
Fracassarão. Continuo dizendo que a sociedade brasileira não aceita mais campanhas eleitorais como a que José Serra e seu aparato de propaganda extra-oficial deram, novamente, ao país. E como não aceita, dará esse recado nas urnas de forma clara, dentro de 16 dias.
Os devaneios sobre comprometer o novo governo desde o início, tampouco se transformarão em realidade. Este povo sustentará esse governo enquanto ele se mantiver no rumo traçado por Lula.
A vitória de 3 de outubro não será de um partido ou de um candidato – ou candidata. Será de um povo que chegou ao início deste século compreendendo um fato crucial, o de que a política pode mudar a sua vida. Eu confio em nosso povo.
blog da cidadania