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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Novembro azul não é Outubro rosa



O câncer de próstata é o câncer mais frequente e uma das principais causas de morte por câncer em homens no Brasil e no mundo. Muitas estratégias foram estudadas para tentar reduzir as mortes por este câncer. Desde a década de 1990 até cerca de 2008 acreditava-se que se homens sem sintomas realizassem o PSA e o toque retal periodicamente conseguiríamos combater esse problema e salvar vidas.  Contudo, entre 2008 e 2013, diversas instituições de saúde atualizaram suas diretrizes sobre o rastreamento do câncer de próstata, modificando as suas recomendações.

O senso comum diz que a melhor maneira de lidar com o câncer é fazer o diagnóstico e iniciar um tratamento agressivo o mais cedo possível. Essa crença faz com que as pessoas não se preocupem muito sobre quais os malefícios que um exame ou tratamento podem causar.

Qualquer intervenção médica pode produzir benefícios e também malefícios, e esse balanço com relação ao rastreamento populacional com o exame do PSA está mudando significativamente.

O TelessaúdeRS não apoia a campanha Novembro Azul (idealizada pelo Instituto Lado a Lado em parceria com a Sociedade Brasileira de Urologia) por entender que as melhores evidências científicas atuais apontam que mais homens serão prejudicados pelo rastreamento com PSA e exame de toque do que terão benefício. Esta campanha não aborda, de forma responsável, os possíveis malefícios do rastreamento e a importância da decisão informada e preferências pessoais dos homens na decisão de realizar o exame.

1. O que são estratégias de rastreamento?

O rastreamento é uma estratégia que busca encontrar pessoas aparentemente saudáveis que estejam com risco aumentado de desenvolver uma doença como o câncer ou diabetes, por exemplo. O objetivo é identificar estas situações clínicas antes que a pessoa manifeste sintomas para que o diagnóstico e tratamento adequado seja implementado. Contudo, não é uma ação isenta de riscos.

2. O que é o exame do PSA?

É um exame de sangue utilizado para tentar identificar pessoas com câncer de próstata. Níveis altos de PSA podem indicar a presença do câncer, mas isso também pode ocorrer em outras situações frequentes como o aumento da glândula (hipertrofia prostática benigna), ou inflamação (também chamada de prostatite). Ele também pode não identificar uma parte dos homens que de fato têm câncer de próstata.

3. Que outros exames são utilizados para o rastreamento do câncer de próstata?

Geralmente o toque retal é utilizado em conjunto com o PSA para o rastreamento do câncer de próstata, mas as evidências atuais indicam que mesmo a realização de ambos os exames não garante um melhor desempenho do rastreamento.

4. Existem outros exames que podem detectar o câncer de próstata?

Atualmente não existem outros exames de rastreamento capazes de identificar precisamente o câncer de próstata. Diversos testes estão sendo desenvolvidos para melhorar a acurácia do rastreamento com PSA. Entretanto, neste momento, não existe evidência científica suficiente para apontar se eles são precisos.

5. Quais são os possíveis danos do rastreamento com o PSA? Não é um simples exame de sangue?

O PSA é um exame de sangue simples, mas se o resultado for positivo, os homens provavelmente serão submetidos a outros exames, o que pode causar danos importantes.

Em um a cada seis homens que se submetem ao rastreamento sistemático do câncer de próstata (com PSA e toque retal) por 11 anos, a presença de um câncer que não existe é  sugerida. Isto é chamado de resultado “falso-positivo”, e pode causar preocupação, ansiedade, e levar a outros exames que na verdade não seriam necessários. Dentre eles, a biópsia, por exemplo, que pode ter complicações como febre, infecção, sangramento, problemas urinários e dor.

Um pequeno número de homens precisará internar em um hospital por causa destas complicações. Atualmente, quando um câncer de próstata é diagnosticado, não existem maneiras de prever com certeza se esse câncer nunca causará problemas e não necessita de tratamento ou se é um câncer agressivo. Isso significa que muitos cânceres diagnosticados não causariam problemas (chamamos isto de “sobrediagnóstico”).

Como existe tanta incerteza hoje em dia sobre quais cânceres de próstata precisam ser tratados, quase todos os homens com este câncer descobertos através do PSA e toque retal são tratados com cirurgia, radioterapia ou tratamento hormonal. Muitos desses homens não necessitam de tratamento porque o seu câncer não vai crescer ou causar problemas. Isso é chamado de “sobretratamento”.

O tratamento para o câncer de próstata também pode causar danos importantes e geralmente duradouros como disfunção erétil e incontinência urinária como consequência da cirurgia, problemas intestinais devido à radioterapia e um pequeno risco de morte ou complicações sérias devido à cirurgia.

A imagem abaixo pode ajudar a entender melhor o que sabemos hoje com relação aos riscos e benefícios do rastreamento do câncer de próstata com o PSA e o toque retal. É uma representação com base nas pesquisas mais recentes que mostra o que acontece quando comparamos dois grupos de mil homens com as mesmas características e riscos de desenvolver câncer de próstata.

Ambos os grupos foram acompanhados por 11 anos. O da esquerda são homens que não realizaram qualquer tipo de rastreamento para o câncer, enquanto que os homens do grupo da direita realizaram PSA e toque retal sistematicamente.

Fontes:  Ilic et al. (2013) Cochrane Database of Systematic Reviews, Art. No.:CD004720.Harding Center for
Risk Literacy. (2014).
Disponível em: https://www.harding-center.mpg.de/en/health-information/facts-boxes/psa


Após 11 anos de acompanhamento podemos observar que o número de homens que morreram por câncer de próstata é o mesmo nos dois grupos (7 homens). Contudo, no grupo que fez o rastreamento, 20 homens foram diagnosticados e tratados para o câncer sem necessidade e 160 homens sem câncer tiveram resultado falso-positivo e realizaram biópsia também sem necessidade. Ou seja, em resumo, ao final de  uma década, no grupo que não realizou rastreamento 783 homens estavam sadios e não sofreram danos, enquanto que no grupo que fez rastreamento apenas 603 homens estavam nesta situação.

6. Como decidir se devo fazer o exame do PSA?

Esta é uma decisão difícil frente ao cenário de incerteza atual sobre esse rastreamento. Sabemos que alguns grupos de homens apresentam fatores de risco que aumentam a chance de desenvolver esse câncer, tais como homens negros e/ou com história familiar de câncer de próstata (especialmente familiares de 1º grau que tiveram câncer de próstata antes dos 65 anos). O melhor conselho é discutir os riscos e benefícios do rastreamento com o seu médico de confiança, levando em consideração seus fatores de risco, preferências pessoais, saúde atual e estilo de vida.

7. Existe alguma outra situação em que o PSA e o exame de toque retal estão sempre indicados?

Sim. Sempre que o homem apresentar sintomas que podem estar relacionados com o câncer de próstata esses exames estão muito bem indicados. Nestes casos, não chamamos de rastreamento e sim de investigação diagnóstica.

8. Quais são os sintomas do câncer de próstata?

Os sintomas do aumento da próstata por motivos benignos (hiperplasia prostática benigna) ou malignos (câncer de próstata) são muito semelhantes, embora as causas benignas sejam muito mais frequentes. Em ambas as situações o PSA e o toque retal devem ser realizados. Os sintomas mais frequentes incluem:
  • diminuição da força do jato urinário
  • dificuldade para iniciar a micção
  • necessidade súbita de urinar
  • urinar várias vezes à noite
  • sensação de esvaziamento incompleto da bexiga
Na presença de quaisquer desses sintomas o homem deve procurar o seu serviço de saúde de referência para investigação e acompanhamento.

9. Existe alguma outra maneira de prevenir o câncer de próstata?

Na verdade, existe sim. As evidências atuais indicam que a alimentação saudável e a prática de exercício físico ajudam a reduzir o risco de câncer de próstata, além de ajudar a prevenir também as doenças cardiovasculares – principal causa de mortalidade no mundo.

10. Quem mais, além do TelessaúdeRS, têm essa opinião?

Não defendemos esta opinião sozinhos. Por exemplo, os governos do Canadá e do Reino Unido, países cujos sistemas de saúde estão entre os melhores do mundo, também compartilham dessa opinião e não recomendam o rastreamento sistemático de sua população para o câncer de próstata. Outras instituições também assumiram esta posição, como o INCA (Instituto Nacional do Câncer) no Brasil, o USPSTF (US Preventive Services Task Force) nos Estados Unidos, e o CTFPHC (Canadian Task Force on Preventive Health Care) no Canadá. O próprio Richard Ablin, cientista que descobriu o PSA em 1970, escreveu um artigo para o New York Times em 2010 reconhecendo que sua descoberta não é apropriada quando utilizada para o rastreamento populacional.

Texto escrito por Thiago Frank, Médico de Família e Comunidade.


TelessaúdeRS está atento ao debate científico e se compromete a atualizar sua posição sobre esse tema à luz de novas evidências que possam ajudar a compreender melhor os riscos e benefícios do rastreamento do câncer de próstata

Referências:

US Preventive Services Task Force:

Canadian Task Force on Preventive Health Care:

Instituto Nacional do Câncer (INCA):

UK National Screening Committee:

Artigo do Richard Ablin no New York Times:

Publicado originalmente dia: 17/11/2014
No Blog do Mário, via http://www.contextolivre.com.br/2015/11/novembro-azul-nao-e-outubro-rosa.html

domingo, 11 de março de 2012

Coca-Cola e Pepsi mudaram a fórmula para evitar câncer em consumidores

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A Coca-Cola e a Pepsi decidiram mudar a fórmula na Califórnia, devido à adição de um tipo de corante que pode causar o desenvolvimento de câncer.
O grande problema está em torno do corante 4-metilimidazole (também conhecido ou rotulado como 4-MEI). Esta substância confere a cor característica de caramelo escuro nas duas marcas de refrigerante, e foi recentemente incluída na lista de substâncias potencialmente cancerígenas no estado da Califórnia, EUA. Para evitar bloqueios na venda ou rotulação negativa nos refrigerantes, a Coca-Cola mudou a fórmula para se adequar as normas do estado. A mesma medida foi seguida pela concorrente Pepsi.
Ambas as empresas representam 90% do mercado de refrigerantes nos EUA, de acordo com a Beverage Digest, empresa especializada no setor atacadista. Coca-Cola e Pepsi garantem que a mudança não afetará em nada o sabor da bebida.
  O porta-voz da Coca-Cola na Espanha declarou ao El Mundo que os consumidores podem ter certeza que a Organização Mundial da Saúde – OMS – classifica o 4-metilimidazole como substância de baixo risco, ficando abaixo da fabricação de uma simples batata frita – que supostamente seria mais “perigosa”. Para que o consumidor desenvolva câncer, segundo a Coca-Cola, seria necessário beber 18.000 latinhas por dia, durante 2 anos, para desenvolver câncer, de acordo com testes realizados em animais.
As duas empresas decidiram reduzir a dose do corante na Califórnia para evitar que as embalagens fossem rotuladas com dizeres que afirmem que o 4-metilimidazole provoca câncer. Tal medida é tomada, por exemplo, em embalagens de cigarro, na qual a publicidade da embalagem visa alertar as pessoas sobre o perigo em fumar e suas consequências.
Embora nós acreditemos que não há riscos para o consumidor que venha justificar essa mudança, nós pedimos aos fornecedores de caramelo que reduzam os níveis de 4-metilimidazole para evitar que a Califórnia nos obrigue a rotular os produtos com avisos sem base científica”, declarou Diana Garza, porta-voz geral da Coca-Cola em entrevista ao The Guardian.
  Embora as mudanças tenham ocorrido na Califórnia, é muito provável que a medida seja estendida por todo o país. Existem alertas sobre o uso deste corante desde 2001, onde grupos de consumidores enviaram uma carta para o FDA (órgão que regula medicamentos, alimentos e cosméticos nos EUA) para proibirem a utilização do corante em alimentos.
Segundo a Coca-Cola: “O 4-metilimidazole é uma substância que é formada na tentativa de obter açúcar de doces, sendo encontrada em alimentos como a torrada, o café, a cerveja, os petiscos e em mais de 200 produtos diferentes”. A empresa acrescenta que as latas de refrigerante possuem teores abaixo de 250 partes por milhão, concentração que a OMS considera completamente segura.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Transparência e mau-olhado



Enquanto Lula enfrenta o câncer publicamente, cientistas políticos de fachada ruminam um mal disfarçado gozo doentio. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
A se tomar cultura no sentido amplo que lhe dão os antropólogos – o conjunto de representações simbólicas com as quais se identifica determinado grupo – o câncer do Lula é o acontecimento cultural do Brasil em 2011. Nunca antes neste País uma doença teve o condão de revelar tantos significados emblemáticos e tantas patologias sociais.
Subjacente ao drama pessoal do ex-torneiro mecânico tornado presidente da República reavivam-se crendices, mitos, a mesma intolerância, a mesma intransigência que vêm espreitando cada ato da longa trajetória política de Lula, fazendo borbulhar no caldeirão das mentalidades, elas, sim, -doentias, um vingativo contentamento – como se, da mesma forma como ocorre em certos crimes hediondos, a culpa pudesse ser da vítima.
Foi, aliás, nas vizinhanças do Dia das Bruxas que se divulgou a novidade – “uma bomba”, reagiu uma delas, ruminando mal disfarçado gozo, bruxa radiofônica a bordo de sua fachada de “cientista política”. Indiferente mais uma vez aos efeitos da mandinga e do mau-olhado, Lula decidiu agir com transparência: convenceu a equipe médica, naquele mesmo dia 29 de outubro, de que não havia porque sonegar a informação ao País e instruiu o Hospital Sírio-Libanês a divulgar um boletim relatando a verdadeira natureza de sua doença, um tumor maligno na laringe.
A partir daí, vive o paciente à mercê de um penoso tratamento e de uma natural incerteza, enquanto divide-se a nação entre o susto, a perplexidade, a compaixão, mas também a raiva, o desprezo, o ressentimento, requentados agora pela reconfortante sensação de que, se o adversário é invulnerável na política, há de ser frágil na vida. Atribui-se ao escritor Otto Lara Resende a frase de que o mineiro só é solidário no câncer. No que diz respeito ao mais admirado líder político do País em todos os tempos, há patrícios seus que paradoxalmente nem nesse caso lhe são simpáticos.
Noticiada a doença, assistiu-se de cara a um denso “Momento Sigmund Freud” por parte daquelas tias de Brasília, muito poderosas, as quais sempre fizeram do ofício de informar o exercício impenitente do vodu contra o tosco metalúrgico arvorado em prócer político. Por um minuto, devem ter saboreado a exultante certeza de que suas novenas fervorosas não foram em vão. Uma delas chegou a aventar, feliz da vida, a ironia de Lula, o tribuno, o orador, o incurável falador, ser atacado exatamente no gogó. Se o ex-presidente é mestre por convencer pela palavra, que ele, então, em castigo dos céus, pague pela língua (a tia deixou nas entrelinhas o arfar de -donzela -injuriada).
Propagou-se a partir daí o tremendo festival de subpsicanálise de auditório, reiterando a crença de que o câncer do Lula, ainda que não seja um recado dos deuses, é uma punição terrena. “Não é surpresa”, balbuciou a comentarista Lúcia Hippolito, da CBN (leia-se das Organizações Globo). “Não é surpresa, tendo em vista o abuso da fala do presidente que jamais teve um exercício de fonoaudiologia, de nada disso, e ‘tava no palanque todo santo dia’, tabagismo, alcoolismo…” Agindo como bedel de colégio interno, a comentarista acrescenta uma interessante avaliação sobre a qualidade da voz de Lula (roufenha), deixando claro que, a depender dela, já teria compulsoriamente cassado aquele desagradável timbre antes mesmo do câncer.
Nem as mais rasteiras manifestações de pensamento mágico por parte dos pigmeus da Botsuana haveria de se comparar, em mediocridade, ao debate nacional sobre Lula e seu mal. Correu por aí, no bojo dos palpites palavrosos, o mito de que o câncer tem causa psicossomática. A ciência moderna repudia isso como uma rematada besteira. Câncer é uma transformação maligna na célula que nada tem a ver com o estado de espírito da vítima. Existe, sim, um fator socioambiental a interferir na dialética saúde-doença, mas daí a estabelecer uma correlação entre a pororoca vernacular do Lula e seu tumor maligno já é ir longe demais no atoleiro pseudocientífico.
Faz lembrar – desculpe a digressão – a teoria que o delirante Wilhelm Reich erigiu em torno de seu antigo mentor, Sigmund Freud, quando o mestre da psicanálise caiu vítima de um câncer na garganta. A tese de Reich era mais ou menos essa: para fazer da psicanálise uma disciplina socialmente aceita, para retirar dela toda aspereza revolucionária, de desafio ao status quo, depurando, por exemplo, o que ela trazia de mais inquietante no quesito sexualidade, Freud teve de negociar, de acochambrar, de engolir muito sapo. Consequência: câncer entalado na goela. Esqueceu-se Reich do detalhe banal de Freud ter fumado, a vida toda, 20 charutos mata-ratos por dia. Inclusive enquanto assistia seus pacientes no divã.
Repetindo: no caso de Lula, tratam-se de meros subterfúgios em torno da mesquinha desforra ao estilo “bem feito!”. Uma variação aggiornata de antiquíssimos rancores contra o operário quando ele se aprumava em terno e gravata e contra o mandatário que, na condução da sexta maior economia do mundo por oito anos, ousou comprar um jato à altura do seu cargo, de sua liderança e do seu País. Torciam, no íntimo, para Lula se esborrachar no solo com o avião decrépito. Ao se evidenciar a má fé, passaram a sugerir que o Boeing seria mero capricho pessoal, como se, ao deixar a Presidência, Lula fosse taxiar o “Aero Lula” na garagem de seu prédio em São Bernardo.
Os eleitos do privilégio jamais se conformaram ao ver o nordestino sans lettres et sans coulotteinvadir o cenáculo dos bien nés. Pior: magoou a eles o sucesso internacional da criatura. Coube-lhes, sempre, a reação do deboche. Acionam, agora, de novo, insensíveis a qualquer arroubo de humanidade, a artilharia do escárnio. Pois o impenitente ídolo da senzala cometeu o desatino de buscar, na Casa Grande, os recursos clínicos e tecnológicos para a cura. Internou-se num hospital de excelência: o Sírio-Libanês, de São Paulo. Paga as contas com seu dinheiro – e seu seguro de saúde. Como teria direito qualquer ser humano. Mas tem gente que sequer concede ao Lula o direito de se sentir um ser humano.
O esgoto foi destampado nas redes sociais. Entre os anônimos que festejaram abertamente a enfermidade e outros que chegaram a sugerir que se tratava de uma farsa para induzir à comiseração alheia, trafegou a incessante pergunta: por que é que Lula não optou por se tratar na vala comum do Serviço Único de Saúde, o SUS? Por que é que o otimista porta-voz das recentes conquistas sociais da nação, recorre, quando necessitado de assistência médica, a um serviço privado de saúde?
O rastilho da cobrança se alastrou: por que Lula não entrou na fila, como o zé-povinho? Espalhou-se a reclamação, reiteradamente, do pundit Elio Gaspari à tuiteira Luana Piovani. Os ranzizas light aliviaram: não que Lula não mereça os melhores cuidados, absolutamente não, mas ele deveria dar o exemplo. “Não que ele esteja moralmente obrigado a tanto”, escreveu um fanático do antilulismo. Mas já que ele fala tanto em povo e elite, “não se lhe está desejando mal nenhum, mas se cobrando coerência”.
O webfenômeno Lula-no-SUS comporta preconceito – duplo, triplo, múltiplo – e ignorância. Saúde de qualidade, só para os privilegiados, defendem os falsos arquitetos da simetria social. O Sapo Barbudo que pague o preço de ter se candidatado a mudar a situação e de fazer sonhar os pobres. Não é difícil calcular que 99% das pessoas que queiram remeter Lula para o sistema público de saúde não tenham a menor noção de como ele funciona, não façam a menor questão de entendê-lo e, lá no fundo, estejam olimpicamente se lixando para os pobres diabos que recorrem a ele. Dane-se o SUS.
Vozes de bom senso trataram de fazer o necessário contraponto. O ex-presidente FHC viu nas reações anti-Lula o ranço de elitismo. Na mesma linha alertou, isento de qualquer suspeita de parcialidade, o deputado Marcus Pestana, do PSDB de Minas Gerais. “Sempre me incomodaram visões desinformadas e preconceituosas que faziam uma associação superficial e imediata entre SUS e caos”, escreveu Pestana para o jornal O Tempo. “Recente pesquisa do Ipea mostrou que a avaliação positiva dos que utilizam os serviços do SUS é três vezes superior a daqueles que possuem saúde complementar e, portanto, têm uma visão externa e municiada por narrativas que distorcem a realidade.”
Lula encara hoje a realidade de um mal agudo – se bem que curável. Submeteu-se, sorridente, sob os doces cuidados de dona Marisa, ao sacrifício da barba e dos cabelos. Dá para imaginar o que sentiu ao se desfazer do adereço facial que lhe constituiu a mística. Muito do vigor combativo do Lula do passado se exprimia simbolicamente nos fios revoltos de sua barba. Ao se aproximar do poder, Lula pacificou-os, numa arquitetura que reiterava o candidato à concórdia e à cordialidade, como se fosse um político da República Velha. O que era rebeldia passou a sinalizar sabedoria.
Ao se olhar hoje no espelho, Lula há de estranhar. É difícil reencontrar-se com uma criatura que, de repente é você e também não é. Mas a batalha de agora consola o sacrifício.

Nirlando Beltrão, na Carta capital
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Manifestações contra Lula são de "direita ressentida", diz Vladimir Safatle

Professor de filosofia da USP entende que ex-presidente é capaz de despertar reações de amor e ódio e vê crescimento da internet como fórum para injúrias, embora ressalte caráter minoritário de intolerância explícita



São Paulo – Bastaram poucas horas após a divulgação de que Luiz Inácio Lula da Silva teria de se tratar de um tumor na laringe para que aflorassem nas redes sociais e em comentários de leitores em páginas da internet manifestações contra o ex-presidente da República. Alguns usuários passaram a promover uma campanha para que o petista fosse buscar tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A internet entrou em um processo de radicalização de opiniões. Muitas vezes ela não serve como um fórum de debates, ela serve como um caso de injúrias”, afirma Vladimir Safatle, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Em breve entrevista por telefone, ele aponta que Lula é uma figura capaz de despertar amor e ódio por conta do papel inegavelmente importante que tem na história brasileira. ...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Refrigerantes brasileiros terão que reduzir substância cancerígena

Fabricantes de refrigerantes de baixas calorias ou dietéticos cítricos terão que reduzir a quantidade de benzeno (substância cancerígena) das bebidas, conforme acordo fechado com Ministério Público Federal em Minas Gerais. Mas as indústrias terão prazo de até cinco anos. As informações são da Proteste Associação de Consumidores.
O Termo de Ajustamento de Conduta assinado com Ambev, Coca-Cola e Schincariol prevê que a quantidade máxima deverá ficar em cinco microgramas por litro....

Críticas revelam preconceito contra ascensão de Lula, avalia pesquisadora



Críticas revelam preconceito contra ascensão de Lula, avalia pesquisadora

Dayanne Sousa

A notícia de que o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva passará por um tratamento contra câncer na laringe no hospital Sírio Libanês foi recebida com protestos em redes sociais. Na internet, um grupo pede que o petista utilize hospitais públicos e o Sistema Único de Saúde (SUS). Para a pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Sandra Regina Nunes, "as críticas se apoiam no fato de Lula ter sido analfabeto e se tornado presidente, de ele ter ascendido".

- Por que não se faz uma manifestação para que todo mundo use o SUS? A questão é menos de fidelidade com os ideais políticos e mais um preconceito. É como se questionassem: "Por que Lula tem que se tratar no Sírio Libanês? O lugar de onde ele veio não permite que isso aconteça" - questiona Sandra, membro do Laboratório de Estudos da Intolerância e professora de comunicação da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado).

Uma campanha no Facebook pedindo que Lula se trate no SUS já ganhou mais de 800 adeptos. Os internautas também se organizam para divulgar as críticas em sites de notícias. A rede de TV internacional CNN, por exemplo, publicou a informação sobre a doença do ex-presidente e recebeu uma série de comentários irônicos de brasileiros sobre o sistema de saúde nacional.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - O anúncio de que o ex-presidente Lula sofre de câncer foi seguido por manifestações críticas e um protesto para que ele se trate no SUS. Por que esse tipo de expressão acontece e se espalha na internet?

Sandra Regina Nunes - O que me parece é que tem algo bastante próprio daqui do Brasil. As críticas se apoiam no fato de Lula ter sido analfabeto e se tornado presidente, de ele ter ascendido. Isso é visto quase como uma afronta. Faz com que as pessoas acreditem que necessariamente ele deveria ser fiel àquilo que ele pregava. Por muitas vezes ouvi pessoas dizendo "Ah, ele era trabalhador, não podia estar usando Armani". Agora dizem que o Lula tem que usar o SUS. Não me parece que aconteceu isso quando alguém do PSDB tem algum tipo de problema de saúde. Por que não se faz uma manifestação para que todo mundo use o SUS? A questão é menos de fidelidade com os ideais políticos e mais um preconceito. É como se questionassem: "Por que Lula tem que se tratar no Sírio Libanês? O lugar de onde ele veio não permite que isso aconteça".

É curioso porque em geral anúncios como o do ex-presidente - de uma doença - geram apenas comoção...

Eu acho que as pessoas não estão tratando como doença. A idéia é mais questionar o motivo de Lula estar usando um produto de luxo.

As redes sociais ampliam esse tipo de reação negativa?

As redes sociais fizeram com que as pessoas tivessem maior liberdade de expressão. Eu acredito que as pessoas poderiam usar isso de forma mais interessante. Existem na rede movimentos bastante positivos, por exemplo, em apoio à saúde da mulher. Então, utilizar as redes sociais para dar vazão à indignação pode ser ruim, mas tem lados positivos. As redes sociais têm essa dimensão que é muito boa. É a possibilidade de expressão.

Seria papel da imprensa desestimular?

Eu acho que o gesto de expressão não deve se impedir jamais. É preciso dar voz a todo mundo. Mas o papel da imprensa deve ser pontuar o que determinadas falas representam. Ou seja, dizer que tipo de movimento é esse e o que é que ele traz.