"Agradeço o convite para uma entrevista para o jornal O Globo em uma série sobre ex-presidentes da República. Seu convite destoa da censura imposta pelas Organizações Globo.
.
"Agradeço o convite para uma entrevista para o jornal O Globo em uma série sobre ex-presidentes da República. Seu convite destoa da censura imposta pelas Organizações Globo. Não confundo as organizações com as diferentes condutas profissionais de cada um dos seus jornalistas.
O que me impede de atendê-lo é o notório tratamento editorial que as Organizações Globo adotam em relação a mim, meu governo e aos processos judiciais ilegais e arbitrários de que fui alvo, que têm raízes em inverdades divulgadas pelos veículos da Globo e jamais corrigidas, apesar dos fatos e das evidências nítidas, reconhecidas por juristas no Brasil e no exterior.
As próprias sentenças tão celebradas pela Globo são incapazes de apontar que ato errado eu teria cometido no exercício da presidência da República. Fui condenado por ‘atos indeterminados’.
Ao invés de ser analisada com isenção jornalística, a perseguição judicial contra mim foi premiada pelo O Globo. As revelações do site The Intercept foram censuradas, escondendo as provas de que fui julgado por um juiz parcial, em conluio com os promotores, que sabiam da fragilidade e falta de provas da sua acusação.
Enquanto não for reconhecido e corrigido o tratamento editorial difamatório das Organizações Globo não será possível acolher um pedido de entrevista como parte de uma normalidade que não existe, pelos parâmetros do jornalismo e da democracia.
A nação brasileira está sofrendo muito, está querendo sair debaixo desse manto escuro que a cobriu. Está sufocada, desiludida
Alckmin e Lula em seu primeiro encontro oficial, no jantar do Grupo Prerrogativas (Foto: Ricardo Stuckert)
Temos visto frequentemente em vários meios de comunicação, sejam eles progressistas ou conservadores, em sites diversos e em grandes veículos de comunicação, a possível montagem da chapa Lula- Alckmin, que vem sendo discutida após a saída do ex-governador de São Paulo do seu fiel e antigo PSDB. Tucano de alma e essência, ele agora espera as definições políticas da campanha do ex-presidente Lula a mais alta posição política da nação: a presidência da República.
Muitas resistências de líderes importantes do PT se manifestam sobre a não necessidade desta composição. Entre elas, a recente e lúcida entrevista de Rui Falcão, se posicionando contra a formação da chapa e a desnecessidade política de construí-la.
O ex-presidente Lula, é claro, tem uma afinada intuição política e deve estar vendo, lá na frente, algum ganho com esta formatação, no âmbito político e econômico, que o faz esperar até fevereiro a definição de Alckmin e seu ingresso no PSB.
Caso se confirme aquela velha expressão latina de que “El zorro pierde el pelo, pero no las mañas” (“A raposa perde seu pelo, mas não seus truques”), teremos um grande reacionário, de tradição católica das mais conservadoras – a Opus Day -, representando o pensamento marxista, no segundo cargo mais importante da nação, o de vice-presidente da República.
Se será um obediente cordeiro ou um conspirador, só o tempo dirá.
No processo democrático brasileiro, até o golpe de 1964, que instalou uma ditadura militar por 21 anos, tínhamos na Constituição de 1946 as diretrizes eleitorais da separação eleitoral entre o candidato à presidência e candidato a vice, votados separadamente, não só para uma maior legitimidade do vice-presidente eleito, mas para que, se houvesse necessidade de substituir o titular, não houvesse dúvidas da sua legalidade no processo sucessório.
Sob a égide da Constituição de 1946, tivemos algumas eleições, principalmente a de 1960, onde notoriamente na história nacional, os eleitos Jânio Quadros e João Goulart, presidente e vice, respectivamente, pertenciam a partidos e ideologias completamente diferentes, o que levou, após sete meses de governo, à renúncia do presidente, que desembocou em uma crise institucional provocada por ministros militares golpistas, que não aceitavam a posse do vice, eleito e com votação própria.
O movimento da Legalidade conseguiu construir uma página histórica nacional, no que se refere à proteção da democracia, mesmo tendo o Congresso Nacional aprovado às pressas a emenda constitucional nº4, revogada posteriormente via plebiscito.
Após esta introdução recordativa, haveremos de nos perguntar o que houve no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, quando claramente o seu vice, eleito sem votos e como cauda de cometa, o golpista Michel Temer, conspirou e produziu o famigerado golpe de 2016, com os sequazes do PMDB, Cunha, Aloysio Nunes, Ciro Nogueira, Simone Tebet, Raupp e mais seis senadores do PSB, outros do PDT, do PPS e outros, sem contar o imenso número de deputados ditos progressistas, que votaram a favor do impeachment.
Ora, será que a ida de Alckmin para o PSB o transformaria em socialista e daria a ele uma imagem mais confortável ao eleitor, que se questiona sobre a função do vice-presidente?
No Uruguai e na Argentina, onde por muitos anos da ditadura permaneci no exílio junto à minha família, presenciei inúmeras traições nos golpes dos dois países.
O vice não é como pregam alguns: “Com Lula, o vice não teria influência”. Talvez comparando esta situação com José Alencar, que além de ótimo caráter, era um grande empresário nacional, com visão de desenvolvimento em sua trajetória de visionário em suas indústrias de tecelagem, a Coteminas.
A nação brasileira está sofrendo muito, está querendo sair debaixo desse manto escuro que a cobriu. Está sufocada, desiludida, em lágrimas espirituais de muitas perdas, querendo mudanças para os seres humanos que nela vivem.
Querem, sim, comer três vezes por dia. Mas querem, também, a retomada de seu país, de sua soberania, de suas estatais, de emprego digno, de educação e moradia. Querem o fim da exploração capitalista sobre o trabalho.
Creio, sinceramente, que o candidato Luiz Inácio da Silva tem essa dimensão de reconstruir o Brasil, mas deve também pensar que nesta vida ninguém é insubstituível. Portanto, deve incluir em seus pensamentos de estadista, de conduzir o povo à redenção nacional, a possibilidade do desaparecimento físico no meio da travessia de seu povo, contra o modelo econômico que os sufoca e escraviza. Como líder, sabe que não pode, caso isto aconteça, deixar seu povo navegando na escuridão.
Foto Reprodução
Portanto, depois de tanta luta contra o fascismo; contra esse ultraliberalismo imposto pelo rentismo bancário; depois do negacionismo e da dor; faz-se necessário a união dos pensamentos contra o ódio e os ressentimentos para começarmos a propor a independência econômica nacional.
Com saúde, educação, distribuição da riqueza nacional e o combate à fome. A luta contra os privilégios de Fiesps, Febrabans, retomada de nossas empresas desnacionalizadas, devolução dos instrumentos de lutas sindicais e seu novo fortalecimento.
A luta será muito árdua, mas teremos que fazê-la.
Não está na hora de só ganharmos uma eleição e, sim, de pensarmos em estar atentos, prevenidos, e de nos perguntarmos quem será o responsável se ocorrer uma fatalidade, se nossa história terá que enfrentar outro caso de tragédia, como foi Tancredo?
Foto: Reprodução
Ou como a Argentina, quando perdeu Perón, em 1974, e teve que aceitar atrás de Isabelita, um Lopez Rega que fundou a triple A, e a fez crescer e desembocar na tragédia Videla em 1976, com mais de 30 mil mortos e desaparecidos por um golpe sanguinário?
Estando o Brasil devastado pela depressão econômica que provocou a volta da inflação de mais de dois dígitos, com dívida pública superior ao PIB e desemprego na casa de 15%, a candidatura de Boçalnaro, o ignaro à presidência da República é uma miragem que só alguém desvairado pela sede de poder poderia acalentar neste ano de 2022.
O seu prestígio no Nordeste, decorrente do assistencialismo mais vulgar, fez água desde que teve de interromper o pagamento dos R$ 600 no início de 2021, quando a pandemia da Covid-19 arrefeceu após ter causado quase 200 mil mortes.
As vacinas de vários países se mostraram eficazes no combate ao coronavírus, mas a economia brasileira, acompanhando o que está acontecendo mundo afora, não consegue voltar aos patamares anteriores (que já eram ruins), mesmo com a interrupção do isolamento social.
A paralisia econômica causada pelo distanciamento social demonstrou para muitos prestadores de serviços que o home work viabilizado pelo uso da computação e da internet é ótima opção para evitar gastos com transporte e escritórios, e que os sistemas de delivery podem tornar mais cômodas as relações comerciais e pessoais, além de aliviar o trânsito nas grandes cidades.
Ficou claramente demonstrado que os avanços tecnológicos nos permite prescindirmos de muitas práticas anteriores. As vendas no comércio pela internet aumentaram e muitas lojas que dependiam basicamente das compras presenciais fecharam asportas; algumas regiões comerciais estão desérticas.
Com isso, reduziram-se as necessidades de emprego no setor de serviços, o que fez aumentar o desemprego estrutural; o mesmo efeito, aliás, é causado pela crescente robotização na indústria.
Daí decorre a queda da produção de valor novo, indispensável sob os ditames capitalistas, o que tem provocado o aumento da emissão de moeda sem lastro para suprir o fluxo da irrigação econômica.
Mas tal emissão de moeda sem lastro, artificial por excelência, é um dos principais fatores que alimentam a escalada inflacionária que ora observamos e que traz consigo uma concentração ainda maior da riqueza nas mãos de uns poucos, ao mesmo tempo em que se aprofunda a miséria, principalmente nas regiões mais pobres do país, como o interior do Nordeste.
O capitalismo cava a sua própria sepultura (Marx).
O único segmento que ainda oferece alguma sustentação à economia brasileira é o setor agrícola, já que o Brasil vem se tornando o celeiro do mundo graças: — à abundância de terras férteis e água (ainda que as chuvas tenham diminuído como consequência do aquecimento global);
— e ao baixo custo de produção que torna os alimentos produzidos no Brasil competitivos num mundo assolado pela fratricida guerra concorrencial de mercado.
As queimadas na Amazônia e os incêndios no pantanal demonstraram quão prejudicial ao equilíbrio ecológico é a insensatez de um modo de produção predatório que extingue a vida em nome de uma lógica de produção que pretensamente visa preservar a própria vida. Já se sente a poluição do ar em regiões que se situam a milhares de quilômetros dos incêndios.
Um paradoxo da chamada modernidade e sua irracionalidade cega.
No campo político, os deputados do centrão, que deram sustentação ao (des)Governo Boçalnaro, agem com o oportunismo de sempre: sofrendo o desgaste de seus apoios políticos e a mudança dos ventos, já anunciam o abandono do barco, como sempre acontece com os ratos, sempre os primeiros a pressentirem o naufrágio do navio.
O descrédito da população com a política institucional é cada vez mais acentuado e, neste pleito de 2022, as abstenções e votos nulos se prenunciam tão elevados que comprometerão a legitimidade da escolha eletiva.
Enquanto isso, o esquerda institucional, antevendo a possibilidade de assumir o poder político e administrar o caos dentro das regras impostas pela lógica capitalista, pretende se aventurar numa assunção ao poder burguês sem perceber que, sob tais premissas, jamais conseguirão corresponder às expectativas despertadas.
O povo, cansado da alternância no poder de projetos políticos que acabam sempre assemelhando-se no conteúdo, já coloca num mesmo patamar negativo de avaliação todos os políticos, desprezando-os por sua canina submissão a uma ordem democrático-burguesa em rota acelerada para o abismo. (por Dalton Rosado)
(continua)
Aproveitamos para disponibilizar a 1ª versão cinematográfica da novela
1984, de George Orwell, dirigida por Michael Anderson. É uma distopia
tão terrível sobre o futuro da humanidade que passou a ser tida como a
distopia. O totalitarismo que Orwell em 1948 antevia é diferente da terra
devastada que o Dalton hoje projeta para 2022, mas igualmente nefando.