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sábado, 1 de dezembro de 2018

FAZ SENTIDO TORCER PARA O GOVERNO BOLSONARO “DAR CERTO”?



Um fenômeno interessante ocorreu após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais.
Muitos eleitores do futuro presidente ficaram espantados com o fato de tanta gente se declarar resistência e começar, logo após a divulgação do resultado, a fazer oposição ao novo governo.
As postagens nas redes sociais são na linha do “O cara nem assumiu ainda e vocês já estão torcendo contra?” ou “Vamos esperar, tem que dar um tempo para saber se vai dar certo!”.
Esse tipo de postura indica um desconhecimento de como funciona o processo político. Mas não se preocupem, este artigo vai esclarecer para vocês como funciona a coisa.
A disputa política institucional é, em essência, uma disputa de projetos para o país, o estado ou a cidade.
Na atual quadra histórica em que nos encontramos, podemos dizer, em um resumo extremamente simplista, que a esquerda acredita que o Estado tem papel central na indução do desenvolvimento do país e na melhora da qualidade de vida das pessoas, enquanto a direita pensa que o Estado mais atrapalha do que ajuda e o livre mercado, praticamente sozinho, é capaz de prover as necessidades da população.
São projetos antagônicos, como se vê.
Não faz sentido algum, para alguém de esquerda, “torcer para dar certo” um governo cujo programa é uma espécie de projeto Temer turbinado: mais venda de patrimônio público, mais corte de investimentos e mais retirada de direitos.
Isso simplesmente não tem como dar certo.
Se você, ainda assim, quiser esperar para ver, sugiro uma reflexão sobre as patacoadas que Bolsonaro está produzindo ainda antes de ser empossado.
O alinhamento canino a Trump, por exemplo.
Eduardo Bolsonaro posou com o boné do presidente dos EUA, como se vê na foto que ilustra este post. É uma atitude positivamente idiota, visto que em 2020 haverá eleição por lá e, caso Trump seja derrotado, teremos dado uma demonstração gratuita de hostilidade ao possível presidente democrata.
Tem como “torcer para dar certo” um movimento tão evidentemente estúpido?
Eduardo anunciou, usando o famigerado boné, que é certa a mudança da embaixada do Brasil em Israel. Não há um mísero benefício nessa atitude – a não ser que você considere que bajular Trump é bom para o nosso país. O potencial de prejuízos, por sua vez, é altíssimo: danos à imagem diplomática do Brasil (apenas a Guatemala seguiu os EUA nessa verdadeira provocação de Trump aos países árabes), danos às exportações do Brasil para os países árabes (sobre isso, Eduardo tranquilizou a nação: “temos que ter alguma maneira de tentar suprir caso venha a ocorrer esse tipo de retaliação”; ufa!) e a hipótese, há pouquíssimo tempo atrás impensável, de colocar o Brasil na rota do terrorismo internacional.
Repito: tem como “torcer para dar certo” um movimento tão evidentemente estúpido?
É claro que uma oposição inteligente também presta atenção nas contradições internas do futuro governo.
O ministro de Minas e Energia anunciado por Bolsonaro, por exemplo, é apontado como de viés nacionalista em algumas questões importantes, como a construção do submarino nuclear brasileiro.
Sinal de que, muito embora a porção entreguista do futuro governo seja patentemente mais forte, pode haver uma disputa de rumos com o nacionalismo estratégico que remanesce entre os militares. E isso é bom.
O negócio, portanto, é torcer e, muito mais importante, lutar para que o governo Bolsonaro não leve à cabo o projeto excludente e emtreguista que está anunciado.

PEDRO BREIER

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Golpe é ‘cavalo de tróia’ para a implantação definitiva do neoliberalismo


por Najla Passos, no site Carta Maior
O golpe é o cavalo de tróia para a implantação definitiva do projeto neoliberal no Brasil. O alerta é do professor de Economia da Unicamp, Eduardo Fagnani, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) e membro fundador do Fórum 21, que representou a entidade no encontro dos artistas e intelectuais pela democracia com a presidenta Dilma Rousseff, nesta quinta (31), no Palácio do Planalto.
Para ele, o golpe não é um fim em si mesmo, mas sim a mais nova estratégia adotada pelo capital para viabilizar seu antigo propósito de meter as mãos nos recursos públicos protegidos pela Constituição de 1988. “Eles querem implantar aquelas mesmas medidas que não conseguiram na década de 1990, durante o governo FHC, e também nos três primeiros anos do governo Lula, quando o então ministro Antônio Palocci comandava uma equipe econômica vinculada ao mercado financeiro”, afirma.
O professor avalia que as elites brasileiras não acompanharam os avanços registrados pela sociedade desde 1960. Conforme ele, essas elites ainda adotam as mesmas práticas predatórias do passado e não conseguem conviver com antagonismos. “Como em 1964, elas querem a derrubada do regime democrático. Elas não conseguem conviver com o estado democrático e, por isso, partem para sua destruição e dissolução, o que ocorre através do golpe, ilegal e ilegítimo”, acusa.
A trama do golpe
De acordo com ele, a trama do golpe começou a ser tecida após os protestos de 2013. “Os oposicionistas foram eficazes em 'federalizar' a insatisfação popular contra a falência do sistema de representação política herdado do pacto conservador da transição democrática e as crônicas deficiências na oferta de serviços sociais, cuja responsabilidade não é só do governo federal, mas é compartilhada também por estados e municípios”, explica.
Nesse contexto, ele situa o terrorismo econômico praticado em 2014, com o objetivo de enfraquecer a candidatura da presidenta Dilma à reeleição. “O Brasil não apresentava, sob nenhum aspecto considerado, um cenário de crise terminal como foi difundido”, atesta. Com a posse de Dilma, apesar de todas as manobras, ele afirma que os golpistas decidiram sangrar o governo eleito com ações desestabilizadoras diversas, que vão do pedido de recontagem dos votos ao pedido de impeachment.
O caos após o golpe
Prova cabal de que o golpe é somente o caminho para o aprofundamento do neoliberalismo, segundo Fagnani, é o documento “Ponte para o futuro”, lançado pela banda golpista do PMDB como alternativa de projeto para o país, mas que serve mesmo, na prática, como o cartão de apresentação da campanha “Temer presidente".
“Aquele documento propõe a economia austera levada ao limite, além do desmonte de todas as políticas de proteção social que o país construiu. Vai da terceirização da mão-de-ora, com o corte dos direitos trabalhistas, ao desmonte do sistema de previdência, da privatização das estatais e do petróleo à desvinculação de todas as receitas públicas, incluindo aí as da saúde e da educação”, esclarece.
Para o professor, portanto, está explícito que, com o golpe, virá também uma política econômica ainda mais ortodoxa, acrescida de um amplo corte de direitos dos trabalhadores, com o objetivo de garantir um alto superávit primário - aquela poupança que o governo faz para priorizar o pagamento dos juros da dívida ao sistema financeiro.
“Num cenário de democracia fraturada, o aprofundamento de políticas econômicas de austeridade requer a radical supressão de direitos sociais e trabalhistas. Neste caso, o foco é acabar com a cidadania social conquistada com a Constituição de 1988, marco do processo civilizatório brasileiro”, sintetiza.
Se houver golpe, vai ter luta!
O professor ressalta que, se as elites tupiniquins ainda pensam como em meados do século passado, a sociedade mudou muito. E para melhor. “As elites financeiras, políticas e midiática erram ao acreditar que a sociedade brasileira no século 21 é a mesma do século passado. Ledo engano. Não somos mais o país agrário com uma sociedade politicamente desorganizada”, ressalta.
Segundo ele, os diversos movimentos sociais surgidos e consolidados nos últimos 30 anos terão muito mais condições de reagir a uma possível ruptura democrática do que teve a sociedade em quando Getúlio Vargas foi levado ao suicídio, e mesmo em 1964, quando um outro golpe instaurou a ditadura militar. “Se houver golpe, haverá luta”, sustenta.
Fagnani, portanto, refuta a tese sustentada pelos golpistas de que depois do impeachment haverá uma grande trégua nacional, com a retomada imediata da normalidade democrática para a retomada do crescimento. “Isso é uma falácia”, denuncia. Na avaliação dele, o mais provável é que ocorra acirramento dos ânimos, da intolerância e da luta de classes que já está nas ruas, cada vez mais escancarada. “A governabilidade do país poderá depender de um Estado policial ainda mais severo do que o utilizado em 1964. Agora, não bastará intervir nos sindicatos”, avalia.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Chegou a hora de uma conversa séria

Se esse pessoal da oposição tivesse ao menos dois neurônios em funcionamento sentaria hoje mesmo com a presidenta Dilma para pôr um fim nessa escalada rumo à destruição do Estado de Direito brasileiro promovida pelos lava-jatos.

Nessa reunião para salvar o país de se tornar, em poucos meses, uma imensa repartição policial, onde os meganhas dão as ordens para prender e arrebentar qualquer um que não vista o seu figurino ou dê uma piscada fora de hora, deveriam comparecer também os integrantes do Ministério Público e do Judiciário que foram excluídos da orgia curitibana.

Se esse encontro não ocorrer será o fim de Dilma, Lula, Aécio, Alckmin, de toda essa geração de políticos, responsáveis por tudo de bom e de ruim que aconteceu no Brasil nas últimas décadas.

É que os lava-jatos usam a desculpa de combater a corrupção para um propósito muito diverso.

O que eles desejam mesmo, com toda a criminalização da política em geral, com toda a destruição que estão promovendo na economia, é tomar conta do país - e não como achava a oposição, dar a um tucano, de mão beijada, a chave do Palácio do Planalto.

O buraco, como se dizia antigamente, é mais embaixo.

Tem muita gente de fora de olho no Brasil, apostando no caos para tomar, na mão grande, as suas imensas riquezas.

Para tais pessoas pouco importa quem seja o presidente que ocupe o lugar dos trabalhistas, desde que ele seja um fantoche de seus interesses.

Como, na torrente incontrolável que jorra dos lava-jatos, a lama acabou pegando também de jeito tucanos e peemedebistas, o negócio é partir para o plano B, ou seja, colocar em cena, bem em frente da plateia, um novo salvador da pátria.

Que pode, muito bem, ser o próprio juiz Moro, o mais serelepe dos lava-jatos.

Ou até mesmo o tosco e desequilibrado deputado Jair Bolsonaro, herói de uma legião de sociopatas.

Nesse cenário aterrador, a mídia desempenha papel fundamental.

Afinal, cabe a ela concluir, com os subsídios e o desempenho teatral dos lava jatos, a lavagem cerebral que vem promovendo há mais de uma década, transformando indivíduos já ignorantes, de inteligência limítrofe, em boçais absolutos.

A bola que vai definir o placar do jogo não está mais com nenhuma das equipes. 

O árbitro interrompeu a partida para que os atletas se recuperem do tremendo esforço que fizeram até agora.

E vai apitar o bola ao chão: ele atira a pelota para o alto e dois jogadores, um de cada time, vão disputá-la assim que ela tocar o solo.

O melhor seria que o chute fosse para a lateral, bem longe do campo.

Assim, todo mundo poderia respirar, tomar uma água e conversar com o juizão para interromper a partida antes que não sobre ninguém vivo no gramado.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2016/03/chegou-hora-da-conversa-seria.html

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Todos contra o Governo e o Governo contra si mesmo


Aldo Fornazieri, GGN

"A presidente Dilma, como é evidente, tem uma avalanche política contra sua figura e seu governo. É o Aécio Neves, inconformado, ambicioso e vingativo que quer ser presidente a qualquer custo; é o Eduardo Cunha, que na sua falta de escrúpulos, não titubeia em provocar uma crise institucional para se salvar e para ver seus desígnios realizados; é o PSDB, tomado pela direita, e que perdeu qualquer senso de responsabilidade e coerência; são setores do PMDB, cujo apetite por cargos não tem limites; são setores do PT que, no seu oportunismo típico, querem apenas as benesses do poder e não as árduas responsabilidades de governar; é quase a metade da sociedade que identifica no PT e no governo o símbolo da corrupção e de todas as mazelas do país e é parte do eleitorado que votou em Dilma e se sente traído emfunção do que ela disse na campanha e o que ela faz no governo.

Mesmo aqueles que querem defender o governo Dilma, encontram enormes dificuldades em fazê-lo. O próprio presidente Lula solicitou a interlocutores que lhes dessem argumentos para defender o governo. O governo não se ajuda. Pior, faz um esforço enorme para transformar os fatos positivos em negativos. Exemplo disso foi a visita aos Estados Unidos. Ao invés de construir uma imagem de estadista, na véspera da viagem e durante a mesma, Dilma puxou para seu colo o problema do impeachment e da crise. A todo o momento, o governo age como aquele ativista que, movido pelo desespero e pela falta de saídas, vai à Praça dos Três Poderes e ateia fogo às próprias vestes.

O  último tiro que o governo se deu foi o do anúncio da redução do superávit fiscal. Era previsível que tal anúncio provocaria reação negativa no mercado e na sociedade e desconfiança nos investidores e nos credores. Teme-se que o Brasil tome o caminho da Grécia. Os juros que o Brasil paga aos credores já são maiores do que os da Grécia. O Grau de Investimento está por um fio.

Com a depressão da economia maior do que se esperava, conseqüência do pessimismo advindo da combinação da crise econômica e política e da falta de rumos do governo, a arrecadação de impostos vem caindo, fator que bloqueia a realização de resultados positivos no ajuste fiscal. Ao reduzir a meta de R$ 66,3 bilhões para R$ 8,7 bilhões, o governo sinaliza que terá dificuldades em economizar para pagar jutos e reduzir o estoque da dívida. Com isso, a tendência é a de que a dívida aumente, seus prazos se encurtem e os seus juros se elevem. Do anúncio da redução para cá, a situação econômica se deteriorou ainda mais.

Um bom governo, um governo prudente, sempre projeta as possíveis conseqüências de suas ações. Em decorrência, adota medidas para atenuar os          efeitos negativos e potencializar os positivos. Não é essa atitude prudencial que se vê em praticamente todos os atos do governo Dilma. O governo age sem bússola, sem rumo, sem planejamento, sem uma estratégia consequencialista. Desta forma, o anúncio da redução da meta fiscal deveria vir acompanhado por um conjunto de medidas duríssimas que sinalizassem a disposição do governo de economizar. Poderia ter sido anunciado, por exemplo, um plano drástico de corte de gastos, de venda de ativos, de privatizações, de concessões etc. O corte anunciado foi muito pequeno ante a necessidade dramática de reverter um quadro tão negativo de expectativas. Em suma, o governo, na sua imprudência, agiu para agravar a própria crise econômica.

Um Horizonte de Tempestades

Em agosto, as manifestações contra o governo voltarão às ruas aumentando o cenáriode incertezas. Se forem significativas e massivas, o quadro político deverá se deteriorar e a pressão pelo impeachment ganhará força. Setembro promete ser um mês fatal para o governo: devem confluir manifestações de rua, dissídios salariais e greves, julgamento no Tribunal Superior Eleitoral da ação movida pelo PSDB, possível decisão do TCU sobre a aprovação ou rejeição das contas de 2014 e agravamento da crise da Lava Jato por conta do indiciamento de políticos.

Dilma teve várias oportunidades de reconstituir seu governo e de dar um rumo ao país, nesses seis meses de crise. Não o fez. Que Dilma não tem e não tinha, antes de se tornar presidente, uma personalidade política, todos sabem. Mas que seus auxiliares, os ministros políticos  e assessores próximos, não consigam produzir um plano para enfrentar a crise, chega a ser exasperante. De duas uma: ou esses ministros e assessores sempre foram medíocres e as crises têm o efeito de expor também os medíocres; ou a crise promoveu um colapso de capacidades, mergulhando ministros e assessores na depressão e na apatia. Ninguém parece compreender de gestão de crises, de criação de efeitos políticos e psicológicos, de elaboração de discursos persuasivos.

Dada a incapacidade de ministros e assessores, deveriam ter a dignidade de pedir demissão. Como não o abandonam, Dilma deveria promover uma reforma ministerial, nomeando ministros e assessores ilibados e capazes, com reconhecimento público. Deveria nomear para a Casa Civil um ministro fiel, mas com estatura de primeiro-ministro, que fosse capaz de dar coesão, sentido e direção a um governo combalido.

A reforma ministerial deveria vir acompanhada com um plano de resgate da governabilidade. Este plano só teria chance de dar certo se o governo se dispusesse a fazer o dever de casa, implementando um programa radical de redução de gastos, de venda de ativos, de concessões e de privatizações de empresas e serviços não estratégicos.

Os esquerdistas não querem ver ou entender que o país tem problemas fiscais estruturais que fazem com que se gaste mais do que se arrecada. Essa situação foi agravada no primeiro mandato de Dilma, com as desonerações fiscais, com juros subsidiados e com um festival de gastos sem controle. A falta de honestidade intelectual dos esquerdistas chega a sugerir que o atual quadro foi criado pela política de ajuste fiscal de Joaquim Levy. Para enfrentar o problema fiscal estrutural, além de um choque de curto prazo, o governo deveria apresentar um programa de reformas fiscais de longo prazo, atacando, entre outros pontos, o problema da Previdência.

A rigor, hoje, os benefícios sociais e a política de reajuste do salário mínimo são bancados pelos próprios trabalhadores através de uma carga fiscal iníqua e regressiva, que recai sobre os que ganham menos. Nestes termos, não há, no Brasil, uma efetiva política de redução das desigualdades e de combate à pobreza. O que se tem é uma equação invertida do Estado do Bem Estar Social: tira-se dos mais pobres para dar para aos mais ricos e para financiar os programas sociais para os mais pobres.

Enfim, se o governo quiser construir um pacto pela governabilidade, precisa ter um plano de governabilidade. Esse plano deveria ser negociado institucionalmente, com governadores, prefeitos, Congresso e partidos. Procurar o PSDB para buscar uma saída para a crise intramuros cheira conchavo e falta de decoro. Afinal de contas, o PT sempre demonizou o PSDB. Será que agora o demônio tirará os petistas da força?

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Quando o governo faz a diferença

"Ele sabia que nenhum país sai de uma crise sem um protagonista social que o conduza. Há muito o que aprender com Franklin Roosevelt.

Saul Leblon, Carta Maior


A expressão ‘vontade política’ ficou conhecida no passado como um cacoete petista. Uma espécie de ‘melhoral de voluntarismo’ para todos os males do país.

Há limites, claro.

Os homens constroem a sua história, mas se negligenciarem as circunstâncias serão atropelados por elas.

Diante de uma transição de ciclo econômico da gravidade da atual não basta vontade.

Se não houver força organizada e propostas críveis à equação das forças e interesses em litígio, o risco de morrer na pista é grande.
Exageros à parte, a verdade porém é que sem iniciativa política tampouco se sobrevive.

A própria organização que ela catalisaria é abortada na forma de prostração e perda de autoconfiança.

Pode ser fatal.

Um governo, uma nação inteira, torna-se assim refém das mandíbulas dos mercados, cuja supremacia e capacidade de coerção só podem ser afrontadas pela ação da cidadania armada de discernimento crítico e liderança desassombrada.

Não é uma tertúlia acadêmica.

A ausência dessa determinação configura-se hoje como um problema tão ou mais grave do que todos os desafios econômicos enfrentados pelo Brasil.

Cada crise tem a sua especificidade, mas há um exemplo clássico de desassombro político, armado de forte ativismo estatal – a contrapelo de todas as advertências do bom senso dominante -- que contribuiu decisivamente para evitar a caminhada de uma nação rumo ao abismo.

Ao emitir um sinal firme de rumo e autoridade devolveu a autoconfiança à sociedade, organizou seus trabalhadores e trouxe de volta o impulso ao investimento.

Tudo isso no bojo de uma crise global de gravidade idêntica à atual, ou pior

Foi num mês de março como agora, nos EUA, há oitenta e dois anos.

Franklin Roosevelt, o presidente americano frequentemente evocado quando se trata de buscar um paradigma à altura dos desafios históricos de uma nação, tomara posse no dia 3 de março de 1933.

Era uma sexta-feira .

No domingo, dia 5, emitiria uma nota convocando o Congresso dos EUA para sessão extraordinária que deveria ocorrer na quinta-feira, dia 9.

Trabalharia exaustivamente no fim de semana.

A uma da madrugada, já na segunda-feira, dia 6, o presidente democrata socorreu-se de uma lei da Primeira Guerra Mundial que confere poderes adicionais ao chefe de Estado norte-americano tanto na esfera monetária quanto cambial.

Decretou um feriado bancário de quatro dias, assegurando-se de que não haveria corrida às agências até a sessão legislativa.

As precauções eram justificáveis.

A insegurança, a especulação e o desemprego faiscavam por todo o país. O medo do futuro sentava-se à mesa de milhões de lares mesmo sem ter sido convidado.

O emprego, a casa, a comida e o dinheiro estavam na linha de tiro do dinheiro ensandecido.

Independente de quantas voltas a chave pudesse girar na fechadura, nada, nem ninguém, podia sentir-se em posição confortável naquele momento.

Não havia um centímetro de chão sólido no imaginário da sociedade.

Bolsas, bancos, fundos, grande conglomerados, políticos e justiça compunham diante da sociedade a caricatura de um enorme ladravaz.

Uma bocarra disposta a devorar até a última lasca da economia em benefício próprio. A ameaça do futuro resmungava sua língua pestilenta em cada esquina.

A estrutura bancária dos EUA era uma montanha desordenada de reputações em ruína.

Notícias de demissões faziam fila de espera nas manchetes de jornais.

Havia a percepção crescente de que as autoridades estavam à reboque dos acontecimentos, engasgavam com as notícias no café da manhã; rezavam à noite em silêncio pelo dia seguinte.

Números azedos rugiam para a economia diuturnamente sem que se erguesse uma voz capaz de comandá-los.

O monólogo dos tempos difíceis ia impondo sua ordem unida na frente da produção, do emprego e da política.

A percepção de que as rédeas escapavam às mãos que deveriam controlá-las fornecia a ração diária de ceticismo e pânico que engrossava a cintura do colapso econômico.

O relógio da crise adiantava seu despertar a cada dia.

O salve-se quem puder amplificado pela mídia  fornecia combustível à imolação coletiva.

Na semana em que Roosevelt assumiu a presidência dos EUA, o país tinha proporcionalmente o maior contingente de desempregados do mundo.

Mais de 14 milhões, número que somado às respectivas famílias equivalia a uma população maior que a da Inglaterra então.

A perda de confiança no futuro funcionava como uma empresa demolidora; milhões de marretas anônimas trabalhavam dia e noite para desmontar o que restava do alicerce social e econômico.

É nesse ponto que o timming das ações do governo – de qualquer governo – e, sobretudo, a natureza de sua comunicação à sociedade, faz enorme diferença.

Cada gesto, cada decisão, cada anúncio adquire uma dimensão estratégica; a forma como as providências são comunicadas, ademais de sua contundência, sobre a qual não pode pairar dúvida ou se revelam inócuas, ganha importância de variável histórica.

Uma crise tem um tempo certo para ser derrotada, ou derrotará o governo -- a produção e o emprego - que vacilar diante dela.

Nisso, sobretudo nisso, Roosevelt revelou-se o estadista cuja habilidade ainda tem lições a oferecer a seus pares nos dias que correm.

A primeira lição: a rapidez em ocupar a frente do processo; contemporizar é capitular.

E explicar, explicar, explicar. Explicar cada passo dado e sinalizar o seguinte.

Construir o caminho com a sociedade, em vez de comunicar metas etéreas e avulsas.

Em apenas uma semana de mandato ele tomou algumas decisões que não exorcizaram todos os demônios, mas foram afrontá-los em seu próprio campo.

Olhando esse momento histórico a partir de um mirante crítico, não se pode dizer que foram medidas acanhadas.

Hoje ainda elas sugerem tudo menos tibieza e hesitação diante do grande vendaval que se forma quando o pânico e o dinheiro se encontram numa mesma esquina.

Quantos dos atuais chefes de Estado teriam a coragem de anunciar hoje o que Roosevelt proclamou naqueles idos de março de 1933?

Os tempos são outros, é verdade.

A globalização tornou tudo mais difícil, justificam aqueles que ocultam sua hesitação nas dificuldades do presente para ofuscar o componente de coragem dos personagens do passado.

Mas o fato é que ao fazer seu segundo discurso à Nação, em 12 de março --note-se, o segundo grande discurso referencial em nove dias de mandato--  Roosevelt  trazia alguns troféus do primeiro round de uma luta que se estenderia até 1944, quando os EUA declararam guerra ao Eixo.

Só então, de fato, seu potencial produtivo pode, finalmente, ser acionado a plena carga para desvencilhar-se da recessão, graças às encomendas bélicas.

Muitos relativizam o alcance das medidas tomadas nos anos que antecederam esse momento.

Mas poucos lembram de se perguntar o que teria acontecido com o presidente democrata, reeleito quatro vezes (de 1933 a 1945), se a sua autoridade tivesse fraquejada nas primeiras horas, da primeira semana, nos primeiros cem dias do seu primeiro mandato?

É sobre isso que o governo brasileiro deveria refletir hoje em vez de se render a um dominó protelatório em que os desafios são terceirizados a um Bonaparte na expectativa de que ele dome o cavalo xucro da crise e depois o devolva encilhado e manso ao controle da sociedade.

Ontem, como hoje, o capital quer se livrar das amarras da história, livrar-se dos encargos trabalhistas, das greves, dos Morales, Lulas, Dilmas, Cristinas e de suas concessões sociais.

Se a globalização ampliou as condições para a utopia capitalista, o dragão afrontado por Roosevelt em 1933 exalava as mesmas obsessões. E, como hoje, talvez pior, o democrata também não dispunha de nenhuma ancora internacional na qual se amparar para enfrentar os mercados, seus exércitos e bombas de extermínio.

Seu valioso contrapeso era intuição política para atuar no vácuo da crise sem se deixar engolir por ela, mesmo quando hesitava.

Foi assim que fez um Congresso hostil discutir e aprovar, em um único dia, uma Lei de Emergência Bancária em rito fulminante, na quinta-feira, dia 9, seis dias depois da posse.

Estamos falando de Roosevelt, não de Lênin.

A Emergência Bancária facultava a ingerência estatal sobre todo o sistema financeiro público e privado dos EUA.

Repita-se, Roosevelt não pretendia liderar uma revolução bolchevique. Queria reformar a economia para que pudesse outra vez fazer prosperar o emprego e a produção, eliminar a fome e a miséria no seio das famílias.

Em 1933, Roosevelt sabia intuitivamente o que hoje é um consenso teórico, mas não político.

Para salvar o capitalismo de si mesmo, é preciso subordinar o crédito aos desígnios da produção, do emprego e do consumo.

Só a indução firme do Estado é capaz de fazê-lo em tempo hábil, antes que a epidemia recessiva se alastre e derreta o metabolismo econômico.

A Lei de Emergência dava ao Estado norte-americano essa faculdade e Roosevelt a exerceria com rapidez e apetite de um estadista.

Enquanto seus potenciais seguidores patinam na hesitação, há 82 anos, no longínquo março de 1933, Franklin Roosevelt pode apresentar-se à Nação, apenas dez dias depois da posse, como um Presidente vencedor.

Ele havia enfrentado o foco da doença in loco, submetera o sistema bancário e vencera o primeiro round.

A incerteza fora duramente atingida.

No domingo, dia 12 de março –insista-se, apenas nove dias depois da posse--  estreou seu programa “Conversa junto à Lareira”.

Passaria a usar o alcance avassalador da radiofonia então para conversar diretamente com a sociedade.

Um bolivariano après la lettre.

O Presidente tinha o que dizer e milhões queriam ouvi-lo.

Sua palavra estava sintonizada com o espírito das ruas e viria reforçar a espiral da auto-confiança em diferentes setores e segmentos.

As filas no guichê dos bancos já não eram mais para sacar depósitos. Agora elas reuniam cidadãos trazendo de volta suas economias. O Estado devolvera a garantia aos pequenos e a segurança aos investidores.

Roosevelt foi além, na tarefa de devolver otimismo a uma sociedade acuada e sem futuro.

Não se limitou a medidas rotineiras, nem confiou o imaginário da sociedade aos “canais convencionais’ da mídia aterrorizante.

Cada vez que falava à Nação, a voz do democrata dizia coisas inteligíveis à angústia do pai de família que acordara empregado e fora dormir com medo da demissão.

Suas mensagens e políticas pavimentavam o longo prazo sem negligenciar a emergência.

Traziam respostas para o presente e assim injetavam solidez à marcha do futuro.

Multiplicar providências imediatas para sacudir a sociedade entorpecida pela incerteza e a descrença, esse foi o seu objetivo ao criar a Administração para o Progresso do Trabalho.

Com ela encarou o desafio de enxugar a inundação de desemprego que afogava as famílias, as cidades e o interior do país.

A mensagem era simples e convincente: os EUA foram divididos em zonas salariais; para cada uma delas fixou-se um seguro-desemprego; o governo passou a contratar até três milhões de trabalhadores por ano, em troca desse pagamento.

A nova força-tarefa semearia canteiros de obra pelo país; estradas, ruas, escolas, canalizações, hospitais, parques infantis, pontes, caminhos vicinais foram recuperados, expandidos e construídos.

A Administração para o Progresso do Trabalho ganhou um braço cultural.

Em um mês –sim, 30 dias-- inauguraria 100 mil salas de alfabetização com um milhão de adultos inscritos na luta contra o analfabetismo.

Artistas e escritores desempregados foram contratados.

Sua mobilização desencadearia uma revolução cultural ampliando as franjas de apoio progressista ao governo, taxado de comunista pela direita raivosa e a mídia cínica.

O Presidente também convocou a juventude. Milhares de jovens foram incorporados a serviços florestais dando vida a planos de replantio de matas, preservação e proteção de bosques.

O democrata austero continuou falando ao futuro e à angústia do presente.

Na Conversa ao Pé da Lareira de outubro de 1933, Roosevelt deu um aviso ensurdecedor aos ouvidos da crise.

Um aviso do Estado aos mercados selvagens.

Qualquer família norte-americana, disse, ameaçada de perder a casa em que mora, a terra, ou seus pertences por conta da crise, deve telegrafar imediatamente para a Administração de Crédito Rural ou à Companhia de Empréstimo aos Proprietários de Residência.

‘Ela receberá o auxílio de que necessita’.

Para além das discussões técnicas sobre a viabilidade ou não de um novo New Deal, sobretudo na periferia do capitalismo, há uma lição de extrema atualidade a extrair dessa prontidão exibida pelo governo democrata de Franklin Roosevelt.

Ele tinha a exata noção de que, diante da lógica de uma crise, o Estado não pode se entregar à  busca de indulgência. Antes de sensatez, a rendição nessas circunstancias agrava a  escala dos problemas e contrata mais incerteza.

Fiel ao paradigma do desassombro, associado ao realismo, em vez incorporar o turbilhão da desintegração social, Roosevelt foi além.

Convocou os trabalhadores a se organizarem em sindicatos, concedendo incentivos e promulgando decretos que legalizariam a maciça sindicalização dos assalariados norte-americanos.

Ademais de afrontar a lógica dos mercados ensandecidos, portanto, o legendário presidente norte-americano fomentou uma organização correspondente da sociedade.

Intuitivamente, apesar de domar os mercados com a rédea curta da ação estatal, ele sabia que nenhum país sai de fato de uma crise histórica sem um protagonista social que o conduza.

Foi excomungado pela direita, acusado de comunista pela mídia conservadora.

Seria reeleito mais três vezes pelos norte-americanos.

Há o que aprender ainda com Franklin Roosevelt."

quarta-feira, 18 de março de 2015

O chão firme que resta ao governo


"O governo não pode mais negligenciar aqueles que demonstram responsabilidade política e querem renegociar a transição em curso no país. 

Saul LeblonCarta Maior

Não há muito tempo, nem são tantas as opções assim. Os dados na mesa estão cada vez mais claros.

Eles exigem opções estruturais e coragem política para adota-las.

O banho-maria já não alivia a pressão da caldeira.

O governo precisa negociar o futuro do país.

E faze-lo dentro de certos critérios de bom senso histórico.

É preciso negociar com o país que ainda quer conversar sobre soluções coletivas  para os desafios nacionais.

Com o país que ainda se dispõe a erguer as linhas de passagem racionais e necessárias para a reordenação do seu crescimento e a capacitação da democracia, a quem caberá, afinal, ordenar e escrutinar a transição de ciclo econômico em marcha, determinada substancialmente pela desordem neoliberal reinante no mundo.

O governo teve entre sexta-feira e domingo um painel vivo do conflito latejante no tabuleiro.

Um conflito que ganha nitidez vertiginosa entre os que ainda querem e os que não parecem ver mais sentido em uma conversa democrática, liderada pela Presidenta reeleita com 54 milhões de votos.

Duas massivas manifestações tiveram lugar no mesmo palco simbólico da luta pelo poder no Brasil.

A plutocrática avenida Paulista, em São Paulo, tem menos de três quilômetros.

Mas condensa o poder dos bancos e das entidades empresariais, projetando-se, ademais, como um território cultural simbólico da elite derrotada em outubro de 2014.

Na sexta-feira marcharam os rostos do Brasil que vive nas periferias e ocupa os degraus de baixo da pirâmide de renda.

Foram tratados e olhados como marcianos pela mídia e por aqueles que veem em cada passo da iniciativa popular no país – do Bolsa Família, aos Mais Médicos, passando por uma passeata ou greve - as dores do parto de uma nova Cuba irrompendo do asfalto de sua pista de bike.

A crescente intolerância com essa dimensão nova da política brasileira manifesta-se no esforço de manter invisível, ilegítimo e subestimado o peso desse protagonista numericamente majoritário da sociedade.

A dificuldade cognitiva em enxerga-lo exceto nas funções subalternas é tão arraigada e difundida que a cada derrota eleitoral dos candidatos da elite o país vive um terceiro turno virulento dos inconformados.

Não por acaso, a presença desse Brasil invisível na Paulista na sexta, 13, foi reduzida à quarta parte da sua presença real pela Política Militar do governo tucano paulista e pela Globo.

‘Gente paga’, acusou o inconformismo de muitos daqueles que no domingo, tingiram a mesma avenida com uma massa colossal de rosto e demanda distintos.

A mesma dobradinha policial midiática que reduziu a um quarto os 41 mil manifestantes da sexta, segundo o Datafolha, multiplicou por cinco os 210 mil presentes ali no domingo, estimados pelo mesmo instituto de pendores sabidos.

Não se trata apenas de uma casquinha estatística.

Trata-se de criar comoção.

Aquela reação que desautoriza e abastarda a razão, a reflexão e a política e, portanto, qualquer outra opinião em contrário que desafie e ‘unanimidade esmagadora’ da sociedade –conceito que em si choca o ovo da serpente.

Foi o que fez a emissão conservadora  durante todo o domingo em flashs desde cedo que rastreavam o país em busca de acepipes para motivar o deslocamento da classe média paulista à praça da apoteose.

O 'vem para a rua' conservador teve a partir da tarde o impulso fundamental do bate-bola entre as redes de televisão e a Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Em menos de duas horas, no afã de lotar o palco, a PM de Alckmin e a Globo multiplicaram por quatro o seu próprio exagero: de anunciados 240 mil pessoas na Paulista, por volta das 15 hs, mais que dobraram o contingente meia hora depois, para 580 mil e, na sequência, em escalada fulminante para dobrar de joelhos qualquer relutância, com perceptível sofreguidão nas vozes de um entusiasmo explicito, saltaram para a marca almejada: ‘mais de um milhão na Paulista nesse momento’.

Só então sossegaram, trocando passes para consolidar o ‘consenso’ em repetições autocomemorativas.

Orson Wells fez algo parecido em 1938, quando os recursos disponíveis eram substancialmente inferiores aos atuais.

Em 30 de outubro a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu a grade musical repentinamente para noticiar uma invasão de marcianos.

A ‘notícia’ transmitida com requintes de realismo assustador era a primeira frase de um radio-teatro de ficção científica ‘A Guerra dos Mundos’.

A CBS  manteria o assunto no ar durante 60 minutos como se fosse verdade.

A narrativa tensa entrelaçada de flashs em espiral apavorante informava a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, em Nova Jersey.

A coisa se tornou ‘viral’, como se diz hoje consolidando-se como um marco no exercício de manipulação da opinião pública pela mídia – razão pela qual seu poder precisa ser regularizado com o antígeno da pluralidade, que os barões do oligopólio local chamam ironcamente de ‘bolivarianismo’.

A peça radiofônica de 1938, que gerou comoção e fuga em massa para locais não ‘atacados’, induzidos pela CBS, ficou conhecida como a ‘radiofonia do pânico’ ou a ‘emissão do pânico".

O que esse episódio evidenciou com notável realismo é que a emissão do pânico não torna uma sociedade vulnerável apenas a marcianos.

O peso político dos consensos manipulados pode ter efeitos desastrosos na trajetória de uma Nação.

A história do Brasil mostra isso.

O acervo do Ibope guardado no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, reúne pesquisas de opinião pública feitas às vésperas do golpe de 1964.

Os dados cuidadosamente ocultados naqueles dias assumem incontornável atualidade cotejados com a ação do aparato midiático nas horas que correm.

Enquetes levadas às ruas entre os dias 20 e 30 de março de 1964, quando a democracia já era tangida ao matadouro pelos que bradavam em sua defesa e contra a corrupção, mostram que:

a) 69% dos entrevistados avaliavam o governo Jango como ótimo (15%), bom (30%) e regular (24%); b) apenas 15% o consideravam ruim ou péssimo, fazendo eco do que afirmavam os jornais; c) 49,8% cogitavam votar em Jango, caso ele se candidatasse à reeleição em 1965; d) 41,8% rejeitavam essa opção; d) 59% apoiavam as medidas anunciadas pelo Presidente na famosa sexta-feira, 13 de março  (em comício que reuniu 150 mil pessoas na Central do Brasil Jango assinaria decretos que expropriavam as terras às margens das rodovias para fins de reforma agrária, nacionalizara  refinarias de petróleo e cogitara plebiscitos para autorizar o voto dos analfabetos, ademais de promover uma reforma política –ele que, como Dilma, era refém de um Congresso conservador).

As pesquisas sigilosas do Ibope formam o contrapelo estatístico de um jornalismo que ocultou elementos da equação política, convocou, exortou, manipulou, orientou  e criou a comoção necessária à legitimação da derrubada violenta do Presidente da República, em 31 de março de 1964.

Em editorial escrito com a tintura do cinismo , um dos centuriões daquelas jornadas, o diário O Globo, fez recentemente a autocrítica esperta de sua participação na ficção política em que os marcianos eram os comunistas cubanos.

O Globo lamenta agora o apoio explícito ao golpe de Estado, mas justifica a violência institucional: era  inevitável, afirma, diante do quadro caótico e extremado vivido então.

O editorial da família Marinho omite a sua decisiva participação na semeadura do pânico caótico e extremado vivido então.

A comoção  inoculada  no imaginário  brasileiro  nesse momento - leiam as manchetes de qualquer jornal e listem a coluna das perdas e danos - é anterior ao consenso estatístico criada pela invasão de ‘mais de um milhão’ na Paulista - troco arredondado para ‘Milhões contra Dilma e a corrupção’, no site do Globo nesta 2ª feira.

Dilma e o PT não tiveram o apoio da classe média da Paulista nas urnas de outubro.

Não há razão para acreditar que o teriam agora em um quadro em que, sem a neutralidade do horário eleitoral para argumentar, o governo se resigna a entrevistas de ministros convocadas na verdade pela mídia para repercutir suas manchetes do dia anterior.

O agravamento da crise, com a escalada do dólar que atingiu o nervo não negligenciável de um segmento cuja pátria é o turismo internacional, ademais de elevar o custo de vida e o risco do desemprego, tudo isso foi habilmente martelado pela mídia para desaguar na catarse anticorrupção que energizou o milhão de domingo e os milhões da segunda-feira ‘contra Dilma’. 

Em time que está ganhando em saltos de mil para milhão e de milhão para milhões em um átimo de tempo, não há razões para se acreditar em mudança.

Quem precisa mudar é o governo.

Sua margem de manobra se estreita, ou melhor, ganha a nitidez prática que o bom senso político já advertia antes das eleições.

A nitidez mostra um governo sem canal de comunicação com a sociedade sendo encostada na parede por uma parte dela, para ‘atender’ a uma demanda de natureza difusa, irracional e ultimatista.

A agenda da comoção cobra de Brasília uma plataforma que não reserva outro espaço ao exercício da política que não a derrubada do governo.

Se não, vejamos.

A reforma política proposta para atacar a corrupção pela raiz, com o fim do financiamento privado de campanha, é tratada como ‘embromação’, no douto dizer de um ‘analista’ isento do jornal Valor nesta 2ª feira.

A austeridade ortodoxa – exigida pelo conservadorismo — e concedida pelo governo, é diuturnamente classificada como ‘insuficiente’, ao mesmo tempo em que se difunde o terror diante das consequências negativas que as medidas já tomadas acarretam à sociedade (desemprego com inflação em alta, dólar mais caro e juros siderais).

Mas não, ‘Dilma não assumiu o ajuste’ e , ao mesmo tempo , ‘ as medidas do ajuste já sinalizam a recessão’ , regurgitam colunistas do glorioso jornalismo de economia, auto mandatados para o exercício militante da incoerência.

As tímidas tentativas do Planalto de fazer o que o PT deveria ter  providenciado imediatamente após as eleições ou, melhor ainda, durante a campanha, ou seja, uma repactuação do país para a transição rumo a um novo ciclo de desenvolvimento são respondidas de forma peremptória pelo PSDB.

‘Não é hora de afastar Dilma nem de pactuar’, sentenciou o pavão Fernando Henrique Cardoso, assessorado pelo galo de briga das caçarolas de cobre, Aloysio Nunes Ferreira, ‘Eu quero sangrar a Dilma (para evitar Lula em 2018)’.

O que sobra, então, para traduzir as ruas em exercício político da democracia?

O impasse criado por quem insufla um milhão, ou ‘milhões’, mas não oferece alternativas críveis, exceto o sangramento de sua conveniência, costuma ser resolvido na história latino-americana da forma que sabemos.

Os selfies multiplicados na Paulista neste domingo no reencontro idílico entre uma classe média de sabidas tradições e integrantes da tropa de choque de Alckmin, evidenciam o terreno fértil à prática dessa lavoura regional.

Voltamos assim ao preâmbulo da nota publicada neste espaço na sexta-feira, após a manifestação do ‘tostão’, segundo a mídia, no mesmo palco do ‘milhão’ de domingo.

O que se dizia ali é que, se há aprendizado em política, o governo não poderia mais  ignorar o que ali se evidenciou.

O que se evidenciou ali é que existe – ainda - uma base social maior talvez do que o próprio governo supõe,  que transgrediu todas as dificuldades impostas (não só pela mídia, mas pelo PT, que se omitiu, e por Brasília, que titubeou e ficou distante) para ir ao templo das elites e ali promover uma passeata dos 50 mil tostões, antes da blitzkrieg estatística do domingo.

No altar do dinheiro e da elite paulistana, rostos, roupas e vidas de recorte predominantemente humilde -- tudo muito distinto da bem nutrida alegoria do domingo -- deixariam ali um recado que nem o temporal copioso do dia, nem o aluvião midiático posterior conseguiriam apagar: ‘Temos críticas, temos restrições, temos exigências e temos propostas. Mas queremos negociar com o governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma’, diziam as faces de seriedade algo apreensiva debaixo da chuva inclemente.

Ainda há tempo de Brasília ouvir o recado.

O governo democraticamente eleito da Presidenta Dilma necessita, de forma urgente, negociar a repactuação do país com o futuro.

Até para tornar compreensível e tolerável as restrições do presente, que são reais.

Precisa ter um interlocutor credenciado para construir essa ponte em nome da Presidenta, com legitimidade e força política incontestável.

E precisa começar procurando quem quer conversar.

Mas, sobretudo, quem demonstra responsabilidade e discernimento político para se oferecer como um chão firme alternativo à ‘emissão do caos e do pânico’.

Esse que, infelizmente, não leva apenas a um domingão de selfies com centuriões da tropa de choque na avenida Paulista.

Ou o governo reconhece esse interlocutor e mexe no tabuleiro do xadrez com as peças que se dispõem a permanecer no jogo democrático, e de lance em lance altera a rigidez das demais, ou o governo será tomado ele próprio por uma rigidez cadavérica.

Aquela a partir da qual o xeque-mate é uma questão de tempo." 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O ódio que cresceu 550% na América Latina






O ódio é proporcional ao feito de redução das desigualdades, mas também aos problemas da relação entre o Estado e o capitalismo nesses países.
Do sucesso aos riscos de derrota dos governos de esquerda
O que há de comum entre Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador? Entre as inúmeras coincidências, a primeira é que eles são governados por partidos de esquerda.
Segunda coincidência: seus governos têm demonstrado uma inédita longevidade, a maioria com mais de uma década.
Terceira coincidência: seus governos são duramente atacados e constantemente fustigados por oposições agressivas e tentativas golpistas. Em todas essas situações, a mídia tradicional releva-se o principal ou um dos principais partidos golpistas.
Quarta intrigante coincidência: esses países estão entre os que mais reduziram a desigualdade na América Latina, diminuindo a proporção e o contingente de pobres e miseráveis.
Na década de 1990, a América Latina permaneceu estagnada política, econômica e socialmente. Naquela década, os governos neoliberais que sucederam os ditadores, em muitos países do continente, mantiveram a desigualdade de renda nos níveis deixados pela década perdida, os anos 1980, período final das ditaduras, quando a situação social chegou ao fundo do poço.
A partir da década de 2000, uma leva de governos de esquerda chegou ao poder como resultado de um longo processo de acumulação de forças, iniciado primeiro na luta contra as ditaduras e, depois, impulsionado pelo desgaste de governos neoliberais corruptos, incompetentes e de péssimos resultados econômicos (baixo crescimento, desemprego elevado) e sociais (aumento da pobreza).
Os governos de esquerda que sucederam os neoliberais demonstraram fôlego razoável por pelo menos uma década.
Hugo Chávez, que tomou posse em 1999 e governou até 2013, reagiu e sobreviveu a um golpe ainda em 2002, mas atravessou sua primeira crise generalizada em 2009.
O preço do petróleo chegou a menos de US$ 50 e houve problemas sérios no abastecimento de água e de energia elétrica. A popularidade do governo despencou, setores do governo o abandonaram, acusações de corrupção vieram à tona, a oposição fortaleceu-se e radicalizou-se mais amplamente.
No Brasil, uma década separou a posse de Lula, em janeiro de 2003, das manifestações de junho de 2013. O presidente foi ameaçado com a crise política instalada em 2005, a partir das acusações sobre o financiamento de campanha do chamado mensalão. Superou a crise, reelegeu-se e fez sua sucessora, Dilma Rousseff.
Mas a revolta de 2013, embora não dirigida inicialmente de forma direta contra a presidenta e seu partido, acabou sendo paulatinamente reorientada, com um grande esforço da mídia, para que seu governo e seu partido se tornassem o alvo prioritário e passassem a ser ainda mais estigmatizados do que já tinham sido no passado.
Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007 até hoje) também viveram temporalidades críticas coincidentes ao período de uma década e um processo de destruição midiática muito parecido.
Veremos como Evo Morales (presidente desde 2006) e Rafael Correa (empossado em 2007) se sairão quando as maldições de uma década de governo começarem de fato a bater às portas de seus governos.
Projetos cristalizados são ameaçados
A longevidade de uma década, pelo menos, levou a que esses projetos de esquerda se cristalizassem como uma referência política própria, muito associada ao modelo de governança de seus presidentes e às políticas públicas empreendidas.
Com isso, passou-se a falar em chavismo, lulismo e kirchenismo. Idem para Evo Morales e Rafael Correa, cujas presidências passaram a ser vistas, e de fato são, como o início de um novo projeto político e de gestão de políticas públicas.
O que parece comum a todos esses governos e que merece uma reflexão aprofundada é em que medida eles apresentam, além de um novo padrão, cada qual a seu modo, um comportamento cíclico comum – ascensão, sobrevida, crise e ameaças constantes de derrota ou mesmo queda.
Em torno desses ciclos comuns, pode haver elementos explicativos importantes de serem apreendidos pela esquerda latinoamericana. Algo que pode ser relevante a seu aprendizado comum, um elemento decisivo à sua sobrevivência política e um passo crucial para a sua reinvenção.
De comum, esses foram governos de inversão de prioridades, com a elevação dos gastos em políticas públicas diretamente incidentes no combate à pobreza e redução da miséria.
A rápida melhoria nos indicadores de desigualdade mostrou como é relativamente barato para o Estado reduzir desigualdades sem mexer no padrão econômico dominante dessas sociedades. No entanto, mais cedo ou mais tarde, não mexer no padrão econômico dominante dessas sociedades se torna um grande problema.
De 2003 até a crise de 2008, a América Latina teve um bom período de crescimento econômico. Mais exuberante, porém, foi a tendência de diminuição da concentração de renda e, consequentemente, redução da desigualdade nos países governados pela esquerda.
Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o índice de Gini na região caiu cerca de 5% em relação ao patamar de 2002. Argentina, Bolívia e Venezuela lideraram uma redução de 10% na desigualdade. Brasil e Equador chegaram a reduzir o Gini em cerca de 7%.
Depois dessa importante redução na desigualdade, ocorre agora um estancamento. Manter as políticas sociais já não garante avanços tão rápidos e significativos quanto no passado.
Para seguirem adiante, esses governos deveriam gastar mais e melhor com políticas sociais, reduzindo a prioridade dada aos setores mais ricos – que ocorre seja pelo pagamento de juros, seja pelas desonerações de impostos, seja pela estrutura tributária regressiva, seja pelas práticas de privilégio econômico, algumas delas eivadas de corrupção.
Os gastos sociais puderam até manter uma trajetória crescente, sem incomodar os ricos, quando os governos de esquerda puderam sustentar taxas de crescimento elevadas e inflação baixa, lembrando que a inflação é um dos grandes impostos que pesam contra os mais pobres.
Porém, qualquer desarranjo nesses fatores afeta a equação montada e leva os presidentes ao risco de desgaste, ameaçando inclusive a continuidade de seus mandatos.
Por isso, os que enfrentam crises mais agudas são ainda mais estigmatizados. Dilma, mais do que Lula; Cristina Kirchner, mais do que seu marido, Néstor; Nicolás Maduro, mais do que Chávez.
Ódio dos ricos e de parte da classe média cresceu: por quê?
Governos de esquerda, ao reduzir a desigualdade, mexem com interesses dos ricos e da classe média. Mesmo que não os ameacem, os incomodam.
No Brasil, em uma década (2001-2011, sobretudo a partir de 2003), enquanto a renda per capita dos 10% mais ricos subiu 16,6%, a renda dos mais pobres elevou-se em 91,2% – conforme dados da PNAD analisados pelo IPEA http://goo.gl/WXYSkr .
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Os ricos ganham, mas enervam-se com o fato de que os pobres passem a ter ganhos de renda superiores aos seus devido ao fato de que, com a renda mais alta e desemprego em baixa, o custo da mão de obra se eleva.
Se a renda dessa faixa de pessoas mais pobres cresceu 550% mais rápido que a dos 10% mais ricos, o ódio dos mais ricos contra os governos que fizeram isso acontecer também cresceu nessa mesma proporção. Há 550% mais ódio contra os partidos de esquerda e seus governantes.
O ódio cresceu na medida em que esses projetos se cristalizaram, fomentados politicamente por um conjunto de políticas que conquistou a adesão justamente dos setores mais pobres.
A classe média tornou-se o maior contingente de inconformados. Como os governos de esquerda não mexem ou mexem muito pouco com os ricos, é principalmente sobre a classe média que recaem os custos maiores das políticas de benefícios sociais aos mais pobres.
A classe média foi penalizada com impostos mais altos que bancam uma grande proporção dos gastos dos governos. Embora os gastos maiores do Estado seja com os mais ricos, são os programas sociais para as camadas de mais baixa renda que mais irritam a classe média.
Essa classe média se sente passada para trás quando recorda que tinha custos bem mais baixos, por exemplo, com a mão de obra de serviços domésticos, e uma situação de servilhismo dos pobres em relação a ela. Mesmo que não fosse rica, a classe média vivia em uma condição social distinta em que parecia fazer parte do mundo dos ricos, mesmo que em menor escala.
O castelo de ilusões da classe média tradicional ruiu. Está ocupado por uma legião de pessoas que passam a ter bens de consumo e a frequentar espaços públicos em condições similares – ou quase.
O mercado de trabalho está habitado cada vez mais por pessoas que ameaçam a classe média tradicional por estarem brigando, quase que em pé de igualdade, pelo mesmo ambiente rarefeito.
A revolta da classe média é que isso tornou-se possível com o patrocínio de seu dinheiro, usado pelos governos de esquerda em benefício dos mais pobres. Por isso, a radicalização direitista de uma parte dessa classe se volta contra esses governos, e não contra partidos de direita.
Para esse setor da classe média, a ameaça que sofre não vem dos ricos, e sim dos pobres. Eles lhes causam asco, indignação e um sentimento de ódio pela perda da noção de superioridade, na medida em que os pobres que ascenderam já nem acreditam mais nisso.
Essa parcela da classe média, ainda minoritária, mas crescente, aprecia o elitismo radical embalado pelo liberalismo autoritário.
A corrupção “de esquerda”: uma aliança política que precisa ser rompida
A corrupção não é apenas comportamento individual. É e sempre foi parte do processo de competição econômica e política em um sistema capitalista.
Desde os barões ladrões da “era dourada” (“Gilded Age”), nos Estados Unidos, século XIX, ao Brasil das privatizações e das empreiteiras, a corrupção é parte do jogo de cartelização capitalista.
Os interesses do capital necessitam de recursos públicos e, ainda mais importante, precisam interferir na regulação estatal, mudando ou mantendo as regras do jogo em seu benefício.
A maneira como isso afeta governos de esquerda precisa ser analisada do ponto de vista político.
Alguns processos corruptivos, seja na América Latina, seja os que estiveram associados ao domínio do Congresso Nacional Africano (o CNA de Nelson Mandela, na África do Sul) têm em comum o fato de representarem uma tática que alguns governos de esquerda usaram para romper o cerco em relação a setores mais ricos – associando-se a alguns deles mais intimamente.
Ao manter relações privilegiadas com esses setores, buscaram não só torná-los sócios majoritários de um projeto político, mas também, no longo prazo, fortalecê-los no interior da classe capitalista.
A ação é, portanto, ao mesmo tempo pragmática e programática. Os setores escolhidos são, em geral, centrais para os eixos tradicionais de desenvolvimento do país. São também grupos econômicos que eram sócios igualmente tradicionais de partidos de direita.
Mas a aproximação de governos de esquerda e tais grupos tende a reforçar a configuração cartelizada ou mesmo monopolista em muitos desses setores.
Como mexer com esse jogo de interesses envolve entrar por meandros nem sempre abertos e institucionalizados, envereda-se por meio de práticas à margem ou contra a lei. Em uma palavra: quem se aventura por esse caminho cai na corrupção.
Além de patrocinar o superenriquecimento de alguns setores, os partidos, sejam de esquerda ou direita, buscam reforçar-se política e financeiramente na disputa de poder.
O jogo é o mesmo, seja ele feito pela direita ou pela esquerda. A diferença é que os cartéis midiáticos e os órgãos judiciais dão tratamento diferenciado aos casos que envolvem governos de esquerda.
O desvendamento dos casos de corrupção em governos de esquerda unificam, sob uma mesma bandeira, os que querem derrotar esses governos e punir exemplarmente todos os que traíram sua classe, pois aliaram-se àqueles que deveriam ser combatidos sem trégua.
A corrupção fornece o elã para que ricos e parte da classe média tradicional disputem os votos dos pobres com um ódio feito sob medida para estigmatizar, cirurgicamente, apenas os governos de esquerda e seus aliados de ocasião, e não as práticas corruptivas em si.
As denúncias de corrupção feitas pela grande mídia, ela própria um setor capitalista cartelizado e com interesses claros nas disputas políticas e econômicas em curso, vêm claramente desacompanhadas de uma denúncia sobre a permanência da corrupção ao longo do tempo.
Jamais se demonstra a conclusão óbvia de que a corrupção é parceira, de longa data, das práticas capitalistas mais usuais, em sua relação com a política e com o Estado. Salvo em países onde a democracia é forte o bastante para torná-la impossível de não estar exposta.
Os pobres reagem ceticamente em relação a esses apelos com a percepção de que, na verdade, são todos iguais, e a diferença está apenas nos resultados que cada governo oferece. A natureza corrupta do jogo de interesses no poder os iguala. As políticas e seus resultados é que os diferenciam.
Aliás, os mais pobres são os únicos que costumam ter uma posição mais realista e menos hipócrita, embora conformista, sobre o jogo sujo da corrupção entre políticos e grandes capitalistas.
O fato é que os governos de esquerda, quando repetem tais práticas, desmoralizam-se politicamente. Não apenas pelos escâdalos, mas quando demonstram que vieram para mudar algumas coisas, mas se mostram incapazes de alterar o essencial nas relações entre Estado e capitalismo.
Continuam com algum crédito e fôlego para se livrar de tentativas golpistas apenas enquanto suas políticas demonstram capacidade de entregar resultados palpáveis, efetivos.
Por sua vez, em momentos de estagnação, elevam-se as chances de adesão aos apelos do golpismo e aumentam as pressões para que os judiciários e legislativos promovam golpes de espada e cortem cabeças.
Conclusão: um modelo que precisa ser mudado
Os governos de esquerda produziram inúmeros e importantes avanços, mas encontram-se fortemente ameaçados.
Depois de uma década, as acusações de que “o modelo esgotou-se” tornam-se comuns.
A pobreza diminuiu significativamente, em grande medida, graças aos programas de transferência de renda, que hoje cobrem 17% da população da América Latina e Caribe (dados da Cepal).
Ao mesmo tempo, os percentuais e os contingentes de pobres ainda são absurdamente altos – quase 170 milhões de pessoas pobres e mais de 70 milhões na pobreza extrema.
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Fonte: CEPAL. A Hora da igualdade: brechas por fechar, caminhos. http://www.cepal.org/pt-br/publicaciones/hora-da-igualdade-brechas-por-fechar-caminhos-por-abrir-trigesimo-terceiro-periodo-de
Os governos de esquerda precisam fazer os países voltarem a crescer, mas se limitarem a isso seu horizonte estarão afundados na mediocridade e indiferenciados dos partidos de direita.
Deveriam concentrar suas escolhas de crescimento não em setores tradicionais e em poucos grupos econômicos privilegiados, mas em novos setores econômicos dinâmicos, inovadores, e em arranjos produtivos que fortaleçam a economia familiar, as pequenas e médias empresas.
Dariam uma boa sinalização de mudança a uma parcela da classe média que normalmente detesta a esquerda – e com grande parcela de razão, quando são esquecidos por ela.
Os governos de esquerda deveriam dedicar parte importante de seu trabalho de regulação a descartelizar setores que aboliram a competição, deixaram pequenas e médias empresas à míngua e se tornaram grandes demais para falir.
Isso vale para os grupos de mídia, mas também deveria valer para empreiteiras, para os fornecedores do serviço público, os grupos de telefonia, os planos de saúde e tantos outros.
Novos e significativos avanços demandariam uma expansão das políticas de bem-estar social e investimentos muito maiores em educação, saúde, previdência e assistência do que são possíveis diante do atual modelo da maioria desses países, baseado em gastos altíssimos com o sistema financeiro, uma intocável concentração das atividades econômicas e em profunda injustiça tributária.
A necessária e utópica mudança de modelo passaria por romper os laços promíscuos com setores econômicos dominantes, raiz das práticas de corrupção que põem em xeque todo o patrimônio de lutas sociais que deram origem a muitos dos partidos, dos movimentos e das pessoas que hoje governam esses países.
Com a ascenção de setores pobres ao patamar de classe média, uma nova geração de eleitores desgarrou-se da esquerda e já vota contra ela, contrariando justamente quem foi responsável por sua ascensão.
Mobilidade social resulta também em mobilidade política, o que impactará decisivamente a eleição dos futuros presidentes. Os mais pobres ainda são muitos, mas cada vez dividem seu peso em eleições com setores de uma classe média não tradicional.
A esquerda só terá alguma chance eleitoral se reforçar o sentido social de seu projeto. Para tanto, precisa cumprir o papel de formar uma aliança dos setores mais pobres com a classe média em um modelo em que ambos avaliem que ainda vale a pena estarem juntos e governados por partidos progressistas.
Do contrário, a América Latina poderá, dentro em breve, ser novamente governada por partidos elitistas, excludentes, corruptos e que só serão novamente derrotados depois de imporem ao continente toda uma nova década de atraso, com a economia ainda mais concentrada e a pobreza retrocedendo a patamares alarmantes.
Nessa hora, porém, as alternativas podem já não ser mais tão promissoras se a esquerda, linchada, estiver com todas as suas cabeças cortadas e penduradas em praça pública.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
Sanguesugado do: http://imagempolitica.com.br/site/o-odio-que-cresceu-550-na-america-latina/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=o-odio-que-cresceu-550-na-america-latina