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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Com Trump, o terrorismo venceu. É fato

terrorismo venceu. É fato
Trump gosta de torcer fatos. É um grande adepto da chamada “pós-verdade”, também conhecida como mentira.

Pois bem. Em nome do combate ao terrorismo, Trump mandou bloquear a entrada nos Estados Unidos de refugiados sírios e imigrantes de Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen. Fato.

Nenhum dos responsáveis por ataques terroristas nos EUA, nos últimos 15 anos, vem dos países que integram esta lista ou descende de imigrantes ou refugiados destes países. Fato.

Trump deixou de fora do bloqueio a Arábia Saudita. Fato. Dos 19 terroristas que participaram do 11 de Setembro 15 eram sauditas. Outro fato.

Até 2016, 250 americanos deixaram os Estados Unidos para se unir ao Estado Islâmico, segundo dados do governo.

80% das vítimas de ataques terroristas no mundo estão em cinco países: Iraque, Nigéria, Afeganistão, Paquistão, Síria e Somália. Ou seja, a grande maioria das vítimas são muçulmanas.

80% das mortes por terroristas no chamado Ocidente são resultado de ações de grupos de direita. Gente como a Ku-Klux-Klan, que apoiou a eleição de Trump. Fatos.

Pelo menos, 437 mil pessoas são vítimas de homicídio a cada ano, ou seja, 13 vezes mais do que o número de vítimas do terrorismo. Fato.

Depois que os Estados Unidos e aliados declararam “Guerra ao Terror”, o número de pessoas mortas por terrorismo passou de 3.329, em 2000, para 32.685, em 2014. Fato!

As medidas que Trump adota representam tudo o que os terroristas precisam para ampliar suas ações. Fato.

Com cada uma delas, Trump reforça um elemento fundamental para o terrorismo seguir com seu recrutamento de novos adeptos: o ódio. Farto.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/02/com-trump-o-terrorismo-venceu-e-fato.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A origem do Isis


Cada vez que houver um atentado, os diários ocidentais difundem logo a teoria do ataque islâmico, as vezes mesmo antes da polícia fazer qualquer declaração ou bloquear um suspeito.

Foi o caso de Berlim, onde houve 12 mortos no mercado de Natal; foi o mesmo em Nice, onde outro camião atirou-se na terrorista promenade matando 86 pessoas; é assim também no caso do mais recente ataque numa discoteca na Turquia.

Obviamente, se cair um avião russo no Mar Negro a causa é um erro do piloto. Mas este é outro discurso.

No dia 20 de Dezembro, o The Washington Post titula: "Ataque de caminhão pode ser parte da estratégia Isis para afiar divisão entre muçulmanos e outros". Pelo que, nem tinham passado 24 horas do massacre e o diário Washington Post já identificava mandantes e estratégia. Apesar da falta de provas.


A "análise" do Washington Post não explica por qual razão o Isis deveria atingir um País que até agora desempenhou apenas um papel menor nas operações anti-Califado, nem a lógica que alegadamente deveria ficar por trás dum fosso ainda maior entre muçulmanos e Ocidente. Pensamos nisso: uma vez que o tal "fosso" ficasse bem profundo, quais as consequências? O que temos até agora, no Ocidente, é uma crescente desconfiança em relação aos muçulmanos, com o eleitorado que enverga por escolhas cada vez mais nacionalistas, que vota quem promete "fechar as fronteiras" (Trump nos EUA, Marie Le Pen em França, etc.). Pelo que: qual seria a vantagem para o ISIS? Resposta: nenhuma.

Mas na propagação do mito do Isis, o Washingon Post vai mais longe: no artigo sugere que o Isis estaria a tentar bloquear o fluxo de refugiados dos seus territórios de origem para Países, como a Alemanha, que têm uma política de portas abertas para recebê-los. Pena que estas "portas abertas" não existam: e é simples verificar isso após alguns meses passados em Italia, onde a falta de cooperação por parte dos outros Países da União Europeia para "absorver" as vagas dos imigrantes é um problemas bem tangível.

Na verdade, o Washington Post e os outros "especialistas" entrevistados evitam cuidadosamente observar e comentar o óbvio: o terrorismo é a grande arma do Capitalismo (ou melhor: aquela coisa na qual vivemos e que insistimos a definir como "Capitalismo"). Alvos dos ataques nunca são os centros do poderes, as sedes dos grandes bancos ou das corporações, os lugares da política ou da Finança; pelo contrário, são atingidos elementos dispensáveis como são os cidadãos comuns.

Depois temos a cansada retórica da narrativa oficial: no caso de Berlim, só para fazer um dos mais recentes exemplos, há o terrorista que milagrosamente foge de todas as câmaras de Berlim, consegue atravessar meia Alemanha, entra na França, muda de comboio, chega em Italia, Temos o documento regularmente encontrado pelas autoridades. E temos o tiroteio final no qual o terrorista morre (e é bom lembrar que os mortos não falam). Um filme já visto várias vezes.
Os documentos

E pensar que explicar o Isis seria simples, muito simples. Seria suficiente que o Washington Post e os outros diários publicassem um par de documentos; nada de entrevistas com os grandes "especialistas", só um par de documentos.

O primeiro é um memorandum da DIA, a agência de inteligência da Defesa dos Estados Unidos, datado de 2012. Eis o texto:
Se a situação se desenvolve, há a possibilidade de estabelecer um declarado ou não declarado reino Salafista no leste da Síria (Hasaka e Der Zor), e isso é exatamente o que as potências que suportam a oposição [da Síria, ndt] querem com o fim de isolar o regime sírio, que é considerado o foco estratégico da expansão xiita (Iraque e Irão).
Quais são "as potências que suportam a oposição"? É o mesmo relatório que explica:
O Ocidente, os Países do Golfo e a Turquia apoiam a oposição, enquanto a Rússia, a China e o Irão apoiam o regime.
O segundo documento é de 2014. É um e-mail entre o Assessor do Presidente, John Podesta, e o ex-Secretário de Estado, Hillary Clinton. Eis o texto:
[...] Temos que usar os nossos meios diplomáticos e de inteligência tradicional para exercer pressão sobre os governos do Qatar e da Arábia Saudita, que estão a fornecer apoio financeiro e logístico ao Isis e aos outros grupos radicais sunitas da região de forma clandestina.
Estes dois documentos devem constituir a base de qualquer raciocínio sobre o "terrorismo islâmico", tanto no Ocidente quanto em outras partes do Mundo. Depois podemos acrescentar mais pormenores, como a Turquia que recebia o petróleo do Isis, as viaturas do Estados Islâmico fornecidas pelo Departamento da Defesa dos EUA (as famosas Toyota) e mais ainda; mas a base está toda aí, no facto dos EUA terem apoiado, de forma directa e indirecta, a formação do Califado com o fim de abater o regime sírio.

O Isis é um útil "inimigo"criado pelo Ocidente a partir do zero para atingir os seus objectivos geopolíticos: e até quando Washington e os seus aliados considerarem o Califado conveniente, irão mantê-lo em vida, para ser usado tanto como uma força mercenária em guerras onde não há intervenção directa do Ocidente, quanto como um pretexto para uma intervenção militar directa do mesmo Ocidente. A estratégia da tensão deverá ser mantida, assim os ataques "islâmicos" como os de Bruxelas, de Paris, de Nice, de Berlim, da Turquia, continuarão a ocorrer.


Ipse dixit.

Fontes: The Washington PostJudicial Watch (documento Pdf, inglês), Wikileaks
http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2017/01/a-origem-do-isis.html#more

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

De como o Ocidente cria o terrorismo




Via Rebelión



Andre Vltchek - CounterPunch
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti


 O terrorismo se apresenta sob muitas formas e muitos caras, mas a mais terrível de todas é sua fria crueldade.

Pedem-nos que acreditemos que os terroristas são uns lunáticos sujos que correm por aí com bombas, metralhadoras e cinturões explosivos. E é assim como nos dizem que os imaginamos. 

Muitos deles tem barba, quase todos tem “aspecto estrangeiro”, não são brancos, não são ocidentais. Resumindo, são sujeitos que batem em suas esposas, violam crianças e destroem estátuas gregas e romanas.

Na realidade, durante “Guerra Fria”, houve alguns “terroristas” de aspecto ocidental: os esquerdistas pertencentes às células revolucionárias na Itália e em outros locais da Europa. Contudo, somente agora nos inteiramos que os atos terroristas atribuídos a eles foram cometidos realmente pelo Império, por alguns governos direitistas europeus e seus serviços de inteligência. Lembram? Os países da OTAN faziam explodir pelos ares trens dentro de túneis ou colocavam bombas em estações inteiras de trens...

“Era preciso fazê-lo”, com o fim de desacreditar a esquerda e assegurar-se que as pessoas não fossem tão irresponsáveis a ponto de votar nos comunistas ou nos verdadeiros socialistas.

Também havia alguns grupos “terroristas” na América Latina, movimentos revolucionários que lutavam pela liberdade e contra a opressão, principalmente contra o colonialismo ocidental. Era preciso contê-los, liquidá-los e, se estivessem no poder, derrubá-los.

Mas os terroristas somente se tornaram realmente  populares no Ocidente depois que a União Sovíética e o bloco comunista foram destruídos através de milhares de ações econômicas, militares e de propaganda, e depois de que o Ocidente se sentisse demasiadamente exposto, sozinho sem ninguém contra quem lutar. De alguma forma, o Ocidente sentia que precisava justificar suas monstruosas ações opressoras na África, Oriente Médio, América Latina e Ásia. 

Era necessário um novo inimigo”poderoso”, realmente poderoso, que permitisse racionalizar os astronômicos orçamentos militares e dos serviços secretos. Não era suficientemente convincente fazer frente a algumas poucas centenas de ”bichos raros” em algum lugar da selva colombiana, ou na Irlanda do Norte ou na Córsega. Era preciso haver algo realmente enorme, algo que estivesse ao nível da “maligna” ameaça soviética.

Certamente, essa ameaça foi uma grande perda, de repente! Certamente, era somente uma ameaça, não um perigo de ideais igualitários e internacionalistas.

...
Foi assim que o Ocidente vinculou o terrorismo com o Islã, que uma das maiores culturas do planeta, com 1,6 bilhões de seguidores.  O Islã era suficientemente grande e poderoso para assustar para valer as donas de casa de classe média das áreas residenciais ocidentais! E, acima de tudo, tinha que ser contido de todos os modos, já que essencialmente também era demasiadamente socialista e demasiadamente pacífico.

Nesse momento da história, todos os grandes líderes seculares e socialistas dos países muçulmanos  (como no Irã, na Indonésia e no Egito) foram derrubados pelo Ocidente, maldizendo-se o seu legado e proibindo suas manifestações.

Contudo, isso não era suficiente pára o Ocidente!

Para a finalidade de fazer do Islã um inimigo de peso, o Império teria que primeiro radicalizá-l0 e perverter os inúmeros movimentos e organizações muçulmanas, e em seguida criar outras novas, treinando-as, armando-as e as financiando adequadamente, para que realmente tivessem um aspecto suficientemente aterrorizante.

Certamente há uma razão mais importante pela qual o “terrorismo”, particularmente o muçulmano, é tão essencial para a sobrevivência das doutrinas, do excepcionalismo e da ditadura global do Ocidente: é que o “terrorismo” justifica a idéia de superioridade cultural e moral absoluta do Ocidente.

A coisa funciona da seguinte maneira:
Durante séculos, o Ocidente se comportou como um monstro louco sedento de sangue. Apesar da propagada glorificadora que os meios de comunicação ocidentais transmitiram para todo o planeta, estava se tornando evidente para todos que o Império violava, assassinava e saqueava em todos os rincões do globo. Mais algumas décadas,  e o mundo veria o Ocidente exclusivamente como uma enfermidade sinistra e tóxica. Um cenário assim teria que ser evitado de todas as formas.

Assim, os ideólogos e propagandistas do Império deram com uma nova e brilhante fórmula: “Vamos criar algo que tenha um aspecto e se comporte de forma ainda pior do que nós, e então poderemos proclamar que continuamos sendo, na realidade, a cultura mais razoável e tolerante da Terra!”

“E vamos fazer uma autêntica pirueta: vamos combater contra nossa própria criação, vamos combatê-la em nome da liberdade e da democracia!”

Foi assim que nasceu uma nova geração, uma nova fornada de “terroristas”, que continua viva e gozando de boa saúde, viva e serpenteante, multiplicando-se como as salamandras Capek (1)

* * *

O terrorismo ocidental na realidade não é discutido, embora suas formas mais extremas e violentas continuem maltratando o mundo sem descanso, como tem feito há muito tempo, com centenas de milhões de vítimas por todas as partes.

Contudo, nem sequer os legionários e gladiadores do Império, como os muhajedins, AL-Qaida ou ISIS se aproximam da barbárie demonstrada vez que outra por seus mestres britânicos, franceses, belgas, alemães ou norte-americanos. Lógico que tentam, sem descanso, alcançar o nível de seus gurus e provedores, mas simplesmente não são capazes de alcançar sua violência e brutalidade.

É preciso contar com toda uma “cultura ocidental” para massacrar certa de dez milhões de pessoas numa só região geográfica, quase de uma só tacada.

* * *

Então, o que é o terrorismo real e como poderiam o ISIS e outros grupos parecidos seguir sua liderança? Dizem que o ISIS está decapitando suas vítimas. Isso é muito ruim, mas quem tem sido seu mestre?

Há séculos, os impérios da Europa vem assassinando, torturando, violando e mutilando pessoas em todos os continentes do planeta. Os que não estavam fazendo isso de forma direta “investiam” em expedições colonialistas ou enviavam sua gente para se unir a batalhões genocidas.

O rei Leopoldo II (da Bélgica, N. do T.) e seus consortes conseguiram exterminar perto de 10 milhões de pessoas na África Ocidental e Central, no que hoje se conhece por Congo. Leopoldo caçava as pessoas como animais, obrigando-as a trabalhar em seus seringais. Se ele pensasse que elas não estavam enchendo seus cofres com suficiente rapidez, ele não tinha receios em cortar-lhes suas mãos ou em queimar vivas populações inteiras dentro de suas choças.

Dez milhões de vítimas desapareceram. Dez milhões! E esse fato não aconteceu num passado longínquo, em uma idade “obscura”, mas sim em pleno século XX, sob o império de uma monarquia considerada constitucional e auto-proclamada democrática. Como comparar isso com o terrorismo dominante nos territórios ocupados pelo ISIS? Comparemos a cifras e o nível de brutalidade!

E novamente, a partir de 1995, a República Democrática do Congo voltou a perder cerca de 10 milhões de pessoas mais em uma orgia horrível de terror, desatada pelos delegados do Ocidente, Ruanda e Uganda (ver o trailer de meu filme  “Rwanda Gambit”).

Os alemães perpetraram genocídios na África do Sudoeste, onde hoje é a Namíbia. A tribo Herero  foi exterminada, perdendo 90% de seus integrantes.

Primeiro, a população foi expulsa de suas terras e casas e conduzida para o deserto. Se sobrevivesse, os alemães a assediavam com expedições pré-nazistas, usando balas e outros meios de assassinato em massa.  Conduziram-se experimentos médicos em seres humanos, para demonstrar a superioridade da nação germânica e da raça branca.

Eram somente civis inocentes, pessoas cujo único delito era não serem brancos e viver em terras ocupadas e violadas pelos europeus.

Os talibãs não chegaram a tanto, tampouco o ISIS!

Nos dias de hoje, o governo da Namíbia continua exigindo o regresso de um grande número de cabeças de sua população, cabeças que pertenceram a corpos decapitados e que em seguida foram enviadas à Universidade de Freiburg e para alguns hospitais de Berlim para realização de experiências médicas.


Imaginem se o ISIS decapitasse milhares de europeus para levar a cabo experimentos médicos com o objetivo de demonstrar a superioridade da raça árabe. Absolutamente impensável!

A população local foi aterrorizada em praticamente todas as colônias ocupadas pela Europa, o que descrevi em detalhes em meu último livro, “Exposing Lies of the Empire”, com 840 páginas.

E que dizer dos britânicos e das crises de fome que utilizavam como tática de controle e intimidação da população na Índia? Em Bengala, não menos de cinco milhões de pessoas morreram somente em 1943, cinco milhões e meio em 1876-1878, cinco milhões de 1896-1897, e isso para citar somente alguns  poucos atos terroristas cometidos pelo Império Britânico contra uma população indefesa obrigada a viver sob seu horrível e opressivo regime de terror.

O que acabo de citar ocupa somente três curtos capítulos da longa história do terrorismo ocidental. Poderíamos compilar toda uma enciclopédia sobre esse tema.

Contudo, tudo isso encontra-se longe da consciência ocidental. As massas de europeus e norte-americanos preferem não saber nada sobre o passado e o presente. No que concerne a elas, governam o mundo porque são livres, brilhantes e grandes trabalhadores, e não porque durante séculos seus países tenham saqueado e assassinado, e sobretudo aterrorizado o planeta, obrigando-o à submissão. 

As elites sabem de tudo isso, com certeza. E quanto mais sabem, mais colocam em prática esses conhecimentos.


O ofício do terrorismo e sua experiência são transmitidos pelos mestres ocidentais aos novos recrutas muçulmanos.

Se examinarmos de perto suas táticas de intimidação e terror, os mujeddins, a Al-Qaida ou o ISIS absolutamente não são originais. Baseiam-se nas práticas imperialistas e colonialistas do Ocidente. As notícias a respeito, ou sobre o terror infligidas pelo Ocidente, são meticulosamente censuradas. Você nunca poderá sobre elas nos jornais e revistas dos meios dominantes.

Por outro lado, a violência e a crueldade das organizações terroristas clientelares  constantemente se destacam. Elas nos são servidas nos mínimos detalhes, repetidas várias vezes  e “analisadas”.

Todo mundo está furioso, horrorizado. A ONU está “profundamente preocupada”, os governos ocidentais estão “indignados”, e o público ocidental “diz basta e não quer imigrantes desses países terríveis, berços do terrorismo e da violência".

O Ocidente “simplesmente tem que fazer alguma coisa”, e aqui entra em cena a Guerra contra o Terror.

Trata-se de uma guerra contra o próprio Frankenstein do Ocidente. É uma guerra  que não se espera que seja ganha, por que se ela for ganha, e que Deus não queira isso, haveria paz, e a paz significa reduzir os orçamentos de defesa e também fazer frente aos problemas reais de nosso planeta.


A paz significaria que o Ocidente acharia seu próprio passado. Significaria pensar na justiça e no reordenamento da totalidade das estruturas de poder do planeta, e isso não pode ser permitido.

Dessa maneira, o Ocidente está “jogando” jogos de guerra: está “combatendo” seus próprios  recrutas (ou simulando fazê-lo), enquanto que pessoas inocentes continuam morrendo.

Nenhuma parte do mundo, com exceção do Ocidente, seria capaz de inventar e dar rédeas soltas a algo tão vil e brutal como o ISIS ou a Al-Nusra.

Se olharmos mais de perto a estratégia desses grupos-implantes veremos que não tem raízes em nenhuma cultura muçulmana, mas em troca estão totalmente inspirados na filosofia ocidental  do terrorismo colonialista: “Se não acatarem plenamente nossos dogmas e nossa religião, então lhes cortaremos a cabeça, vamos degolá-los, violar suas famílias inteiras ou arrasar pelo fogo seus povoados. Vamos destruir seu grandioso patrimônio cultural, como fizemos na América do Sul há 500 anos, e em tantos outros lugares”.

E assim sucessivamente. Realmente é necessária uma grande disciplina para não se dar conta das conexões.

* * *

Em 2006 eu estava visitando meu amigo, o ex-presidente da Indonésia e grande líder progressista muçulmano , Abdurrahman Wahid (conhecido na Indonésia como “Gus Dur”).  Nossa reunião se realizou na sede da organização de massas Nahdlatul Ulama (NU). Naquele momento, a NU era a maior organização muçulmana do planeta. 

Estávamos discutindo sobre o capitalismo e como ele estava destruindo e corrompendo a Indonésia. Gus Dur era um socialista “no armário”, e essa foi uma das razões principais pelas quais as servis elites pró-Ocidente e os militares da Indonésia o depuseram da presidência em 2001.

Quando entramos no tema do “terrorismo”, disse, de repente, com sua típica voz suave, apenas audível: “Sei quem fez explodir o Hotel Marriott em Djacarta. Foram nossos próprios serviços de inteligência com a finalidade de justificar o aumento do seu orçamento, assim como a ajuda que tem recebido do exterior.”

Presumivelmente os militares, os serviços de inteligência e a polícia da Indonésia são formados por uma raça especial de seres humanos. Durante várias décadas, desde de 1965, eles têm aterrorizado brutalmente sua própria população,  a partir do momento em que um golpe de estado pró-ocidental derrubou o presidente progressista Sukarno e levou ao poder uma camarilha militar fascista, aprovada pela comunidade empresarial, predominantemente cristã. Esse terror custou a vida de entre 2 e 3 milhões de pessoas na própria Indonésia, assim como no Timor Leste e em Papua, território ocupado e saqueado a varrer.

Três genocídios em somente cinco décadas!

O golpe de estado na Indonésia foi um dos maiores atos terroristas na história da humanidade. Os rios estavam obstruídos pelos cadáveres, e suas águas tinham se tornado vermelhas.

Para que? Para que o capitalismo sobrevivesse e as empresas de mineração ocidentais pudessem ter seu botim ás custas de uma nação indonésia completamente em ruínas, e para que o Partido Comunista da Indonésia (PKI) não pudesse ganhar as eleições democraticamente.

Contudo, no Ocidente, essa matanças intensivas planejadas pelo Império nunca receberam a qualificação de “terrorismo”. Entretanto, a  explosão de um hotel ou de um bar sempre a  recebe, principalmente se são freqüentados por uma clientela ocidental.

A Indonésia tem os seus próprios grupos de “terroristas”. São os que retornaram do Afeganistão, onde lutaram em nome do Ocidente contra a União Soviética.  Agora, estão regressando do Oriente Médio. Os recentes ataques em Djakarta poderão ser somente um aperitivo, um começo bem planejado de algo muito maior, talvez a abertura de uma nova “frente“ de soldados de brinquedo do Império no Sudeste Asiático.

Para o Ocidente e os seus planejadores, quanto mais caos, melhor.

Se tivessem permitido a Abdurrahaman Wahid manter-se como presidente da Indonésia, provavelmente não haveria a ocorrência de terrorismo.  Seu país teria aplicado reformas socialistas, instituído justiça social, reabilitado seus comunistas e abraçado o laicismo.  

Nas sociedades socialmente equilibradas, o terrorismo não prospera.

Contudo, isso seria inaceitável para o Império. Isso significara voltar aos dias de Sukarno. Não se pode permitir que o país muçulmano mais populoso da Terra siga o seu próprio caminho em direção ao socialismo e aniquile as células terroristas.  

Ele tem que ser mantido na borda do abismo, tem que estar pronto para ser utilizado como um peão, tem que ter medo e provocar medo. Assim é.

* * *
Os jogos que o Ocidente está jogando são complexos e elaborados, são turvos e nihilistas, são tão destrutivos e brutais que inclusive os analistas mais acurados frequentemente questionam seus próprios conceitos e o que os seus olhos vêem, e dizem a si mesmos: “Será que tudo isso realmente está acontecendo”?

A resposta breve é: “Sim, isso acontece e aconteceu, durante longas décadas e séculos.”

Historicamente, o terrorismo é uma arma nativa do Ocidente. Foi utilizada com generosidade por personagens como Lloyd George, primeiro ministro britânico que se negou a assinar o acordo que proibia o bombardeio aéreo de civis, utilizando para isso uma firme lógica britânica: “Nos reservamos o direito de bombardear esses negros”. Ou Winston Churchill, que esteve a favor de lançar gás sobre as “raças inferiores”, como os curdos e os árabes.

Por isso, quando algum recém-chegado – um país como a Rússia – se intromete, lançando sua verdadeira guerra contra os grupos terroristas, todo o Ocidente entra em pânico. A Rússia está pondo seu jogo a perder! Está arruinando seu requintadamente elaborado equilíbrio neo-colonialista.

É  só vocês olharem como tudo está estupendo: depois de matar centenas de milhões de pessoas por todo o planeta, o Ocidente de auto proclama o campeão dos direitos humanos e da liberdade. Continua aterrorizando o mundo, além de saqueá-lo e controlá-lo totalmente, mas por sua vez é aceito como o líder supremo, como um assessor benevolente, como a única parte confiável do planeta.      

E quase ninguém ri.

Por que todo mundo tem medo.

Suas brutais legiões no Oriente Médio e África estão desestabilizando países inteiros, e suas origens são facilmente rastreáveis, mas quase ninguém se atreve a fazer esse tipo de rastreamento; alguns dos que tem tentado morreram.

Quanto mais ameaçadores são esses monstros terroristas inventados, fabricados e implantados, mais formoso parece o Ocidente. É tudo questão de truques. Tem suas raízes no mundo da publicidade e em um aparelho de propaganda com séculos.

O Ocidente age como se lutasse contra essas forças obscuras profundas. Utiliza uma potente linguagem, “virtuosa”, baseado claramente no dogma fundamentalista cristão. Se desencadeia toda uma mitologia, soa parecido ao Anel de Nibelung, de Wagner.  Os terroristas representam o mal, e não um enorme desembolso das arcas do Departamento de Estado, da União Européia e da OTAN. São piores que o próprio diabo!

E o Ocidente, cavalgando seu cavalo branco, um pouco ébrio de vinho mas sempre de bom humor, se apresenta como a vítima e o principal adversário desses grupos terroristas satânicos.

É um espetáculo incrível. Uma horrível farsa. Olhemos por baixo da máscara do cavaleiro: olhemos esses dentes expostos, esse sorriso mortal. Olhemos seus olhos vermelhos, cheios de avareza, luxúria e crueldade.

E não nos esqueçamos nunca: o colonialismo e o imperialismo são as duas formas mais mortais do terrorismo, e essas são ainda as duas principais armas desse cavaleiro que estão asfixiando o mundo.

Notas

[1] Karel Capek, A guerra das salamandras, 1935

Andre Vltchek é filósofo, novelista, cineasta e jornalista investigativo. Cobriu guerras e conflitos en dezenas de países. Suas últimas publicações são: “Exposing Lies Of The Empire” e “Fighting Against Western Imperialism”. Debate com Noam Chomsky: On Western Terrorism. Outras publicações: Point of No Return, Oceaniae e seu provocador livro  “Indonesia – The Archipelago of Fear”. Andre realiza reportagens para Telesur e Press TV. Residiu muito anos na América Latina e Oceania, e atualmente vive e trabalha na Asia Oriental e Oriente Próximo. Pode ser  consultado em seu site na  Internet ou contatado via   Twitter.
via: 

domingo, 20 de dezembro de 2015

DA IMBECILIDADE DO ANTITERRORISMO


Por Mauro Santayana, em seu blog

Na abertura de um recente – e bizarro - "Seminário Internacional de Enfrentamento ao Terrorismo no Brasil", o Ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, afirmou que "não existem limites para a preocupação com o terrorismo nas Olimpíadas" e defendeu que o país "aceite a cooperação de órgãos de inteligência internacionais" para diminuir o risco nesse sentido.

No momento em que a Câmara recebe, de volta do Senado, uma "lei antiterrorista", cabe discutir com cautela essa questão, sob a ótica da política exterior brasileira e da nossa relação com outras culturas e países no atual contexto geopolítico mundial.

Tem o Brasil, alguma razão para "combater" o terrorismo, para além da condenação moral - não apenas nas ruas de Paris, mas também de Bagdá, Damasco, Trípoli - de ataques contra a vida e da prestação de homenagem e solidariedade às suas vítimas?

A Rússia, nosso sócio no BRICS, foi levada a atacar o Estado Islâmico por questões geopolíticas, e agora transformou-se em vítima, com a explosão, no ar,  de um avião carregado de seus cidadãos, no Egito. A Síria é um país onde ela possui portos e bases militares, e notáveis ligações históricas, no qual tenta manter seu aliado, Bashar Al Assad no poder, defendendo-o dos terroristas do Estado Islâmico, que foram armados pelos próprios EUA e o "ocidente" para derrubar o regime sírio, e que, como um Frankenstein louco e sangrento, fugiu ao controle de seus criadores.

Os EUA e a França estão pagando pelo erro de tentar agir como potências coloniais no Oriente Médio e no Norte da África, derrubando governos estáveis, como o de Saddam Hussein e o de Muammar Khadaffi, e de se meter em assuntos alheios.

Tem o Brasil interesses geopolíticos no Oriente Médio, região onde atua no Comando das Forças Navais da ONU no Líbano?

Não, a não ser - assim como faz no Haiti - como cumpridor de um mandato das Nações Unidas.

O Brasil já se meteu, alguma vez, em assuntos alheios, invadindo ou bombardeando países no Oriente Médio ou no Norte da África?

Não, porque, pelo menos até agora, protegidos pela sábia doutrina de não intervenção consubstanciada no texto da Constituição Federal, como macacos velhos que somos - ou éramos, ao que está parecendo - não metemos a mão em cumbuca, a não ser que sejamos atacados primeiro, como o fomos na Segunda Guerra Mundial.      

Quanto à segurança interna, a diferença entre terrorismo, assassinato ou tentativa de homicídio é puramente semântica. (Santayana é um Mestre!)

Para quem morre, não tem a menor diferença a motivação de quem o está atingindo.

Já existe legislação penal, no Brasil, de proteção à vida.

O resto é “lero-lero”, para emular potências estrangeiras e se submeter aos gringos.

Um perigosíssimo “lero-lero”, do qual toma parte a realização, em território brasileiro, de "seminários" como esse, que nos obrigam a situarmo-nos de um determinado lado da linha. E, também, naturalmente, a crescente "cooperação" com forças policiais estrangeiras, que pode ser feita, normalmente, para segurança de eventos internacionais desse tipo, sem a conotação política, "antiterrorista", que estão tentando impingir-nos.    

Uma coisa é dizer que vamos reforçar a segurança nas Olimpíadas.

Nada mais natural, considerando-se que teremos multidões reunidas em estádios - coisa que acontece rotineiramente em grandes jogos de futebol, por exemplo - e que estaremos recebendo visitantes estrangeiros.

Outra, muito diferente, é afirmar que estaremos tomando "medidas antiterroristas" e adotar um discurso, e uma atitude, que nunca adotamos antes, nesse contexto.

Mudando uma postura tradicional - compartilhada por governos de diferentes matizes ideológicos - que não nos trouxe - muito pelo contrário - nenhuma conseqüência negativa, até agora.

Quem fala muito acaba dando bom dia a cavalo.

De tanto se referir ao "antiterrorismo", e ficar cutucando com essa bobagem quem está quieto, algum grupo de terroristas, pode, sim - mesmo sem ter visto o Brasil como inimigo até este momento - vir a se sentir tentado a testar a eficácia das medidas de "segurança" às quais estamos nos referindo a todo instante, com relação às Olimpíadas.

E isso, principalmente, se nessas "medidas" dermos muito espaço para equipes de segurança estrangeiras - de países considerados alvos - para agirem em nosso território como se estivessem no deles.

Ou se adotarmos - cão que muito ladra não morde - uma atitude "antiterrorista" que seja arrogante e ostensiva contra cidadãos de alguns países, árabes, por exemplo, na chegada aos nossos aeroportos, ou em nossas ruas, como já o estamos fazendo.

No mundo, há poucos países tão subservientes em sua vontade de copiar os estrangeiros.

No Rio de Janeiro, o site da Sociedade Beneficente Muçulmana tem sido atacado por fascistas - alimentados pelo mesmo discurso "antiterrorista" do governo - que acusam "esquerdopatas" de estarem "trazendo o EI" para o Brasil, ao abrir as portas para os refugiados árabes. 

E, no sul do Brasil, refugiadas sírias declararam ter sido discriminadas e agredidas, após os atentados de Paris - como se a população síria não sofresse todos os dias dezenas de atentados semelhantes por parte de terroristas que, como mostra o caso do Estado Islâmico, foram originalmente armados  pelos EUA e por países europeus, para tentar derrubar o governo  de Damasco - dando início à guerra civil naquele país, e à onda de refugiados que atingiu a Europa como um tsunami humano.

Guardadas as devidas proporções, o que o Ministro Ricardo Berzoini está cometendo, com as suas declarações,  e o próprio governo - ao promover esse tipo de encontro -é um tiro no pé ideológico e um tremendo atentado ao bom-senso.

Se o país está preocupado com o "terrorismo", a melhor medida a tomar é não ficar anunciando isso para todo o mundo e a toda hora, e usar com inteligência estratégica a legislação vigente.

O primeiro passo para se transformar em alvo do "terrorismo" e ser vítima de um ataque terrorista é começar - sem nenhum inimigo aparente - a se declarar contra ele - a adotar uma doutrina "antiterrorista" e  leis "antiterroristas",  que, no final das contas, como demonstram os casos dos EUA e da França, por exemplo, não servem de absolutamente nada para evitar ataques rápidos, covardes e mortíferos, de uma meia dúzia de  suicidas determinados, quando eles decidem fazê-los.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Você sabe quem decidirá o que é 'terrorismo' no Brasil? Pelo projeto aprovado, quem decidirá será a mesma PM que bate em professor e o promotor que classifica Simone de Beauvoir como uma 'baranga francesa'.

Mídia Ninja

A Lei Antiterrorismo aprovada pelo Senado foi o tema da terceira rodada de debates dos “Seminários para o Avanço Social”, promovido pelo Fórum 21, na Assembleia Legislativa de São Paulo, nesta quarta (11/11). Polêmico por permitir a criminalização dos movimentos sociais e suprimir direitos individuais, o projeto de lei foi aprovado por conta de uma aliança inusitada, firmada entre o governo federal, proponente da matéria, e às forças conservadoras, representada pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), relator da matéria.

Professor de Política Internacional da PUC-SP, Reginaldo Nasser ressaltou que tão inusitada quanto a aliança, foi o fato do projeto ter sido gestado não pelo Ministério da Justiça, mas sim pelo da Fazenda, o órgão que controla a política econômica do país. Segundo ele, isso se deve ao fato de que as leis antiterroristas se tornaram uma exigência do GAFI, um órgão criado pelo G-7 em 1990 para combater a lavagem de dinheiro internacional. 

O professor relatou que, na época, a preocupação principal do GAFI era combater a lavagem de dinheiro do tráfico internacional, mas, depois do 11 de Setembro, o órgão passou a exercer pressão para que os países aprovassem as ditas leis antiterroristas nos moldes da norte-americana para que este suposto terrorismo fosse combatido em conjunto por todas as nações. A partir de 2006, prescreveu recomendações específicas para que as nações se adequassem ao modelo, sob pena até mesmo de serem expulsas do grupo. Entretanto, até hoje, apenas 36 países aderiram.

Nassar enfrenta a principal justificativa do órgão para a implementação dessa política: a de que “as democracias ocidentais estejam sob forte ataque de forças terroristas”. De acordo com ele, dados oficiais dos Estados Unidos e da Europa mostram 85% das 18,5 mil vítimas de atos terroristas ocorridos em 2014 estão concentradas em apenas cinco países, nenhum dele ocidental: Síria, Iraque, Paquistão, Nigéria e Afeganistão. Do total de mortos no ano passado, apenas 50 foram em solo norte-americano e oito na Europa.

Ele demonstra também que o número de países que classificaram crimes cometidos em seus territórios como atos terroristas aumentou exponencialmente. “No inicio da década passada, eram dez, doze, treze países por ano. Hoje, são mais de 60”, explica ele, para demonstrar como o enquadramento da prática pela ótica norte-americana se alastrou pelo mundo e, agora, chega ao Brasil, até então celebrado pela sociedade civil internacional como uma das potências a resistir ao modelo.

Conceito inviabilizado

Apesar do aumento na classificação de crimes de terrorismo pelos países, o professor alerta que não há consenso nem mesmo sobre a definição do que é a prática, problema jamais solucionado sequer pela ONU. Segundo Nasser, os conceitos mais usuais hoje colocam os estados como vítimas, o que impede que eles também possam ser criminalizados por cometê-la. “Se a gente olhar pra o nazismo e, depois, para o período da guerra fria, a palavra ‘terror’ não era alocada apenas na ação de grupos não estatais. Hoje, é o contrário”, esclarece.

Para ele, a dificuldade de conceituação do termo fica explicita no projeto aprovado pelo Senado brasileiro que, se passar a vigorar, delegará às autoridades policiais e judiciais o poder de definir, caso a caso, o que é e o que não é terrorismo. E, o que é ainda mais grave: ele acusa o projeto de extrapolar o intento de tipificar o terrorismo, interferindo em questões soberanas do Brasil. 

“Se a gente olhar este projeto antiterrorismo, ele adquiriu uma autonomia tal que pouco se importa em responder ao terrorismo”, acusa ele, lembrando que o projeto transita da tipificação às finanças, passando pela política propriamente dita, porque regula até mesmo como deve ser a atuação da sociedade civil, além de restringir direitos individuais. “Mais do que um projeto de reação ao terrorismo, faz parte da grande estratégia norte-americana”, alertou.

Lei Antiterrorismo X Lei da Anistia

Ex-procurador-geral de São Paulo, Marcio Sotelo Felippe ironizou a preocupação do governo brasileiro em aprovar a lei antiterrorismo, com a desculpa de fazê-lo para atender a compromissos internacionais. Ele lembrou que, em 2010, o Brasil foi condenado a rever sua Lei da Anistia que permite que torturadores e assassinos da ditadura permaneçam impunes, e jamais tomou qualquer medida para solucionar o problema. “O Brasil não cumpre compromissos internacionais pelo dever moral de respeitar o que acordou, mas sim quando outros interesses falam mais alto”, criticou.

Para o ex-procurador, o inusitado interesse do governo e da direita brasileiros de aprovar o projeto se justifica não apenas pelas imposições dos organismos internacionais, mas se situa no quadro da ofensiva conservadora que se espalha no mundo. “A causa disso tem a ver com esses fatores que o Nasser colocou, da luta contra o terrorismo internacional, o 11 de setembro, etc. Mas há também um outro aspecto que é, no plano internacional, um movimento de direita antipopular e de repressão à movimentos políticos de reivindicações populares e democráticas”, sustenta. 

Fellipe lembra que uma conduta, para ser tipificada como crime, tem que estar rigorosamente descrita na lei penal. E quando isso não ocorre, depara-se com os chamados ‘tipos penais abertos’, muito utilizados pelos estados autoritários, porque permitem interpretações diversas. Como exemplo, ele extraiu do texto aprovado pelo Senado brasileiro expressões de difícil conceituação prática, como “terror generalizado”, “extremismo político” e “perturbação da ordem pública”. 

“Digamos que alguém jogue um rojão na porta do metrô e 40 pessoas saiam correndo de medo. Isso é terror generalizado? É possível sustentar isso? É. E quando alguém joga a bomba atômica em Hiroshima, é terror generalizado? Também é. São coisas completamente diferentes, mas que no quadro lógico da linguagem que se usa na redação das leis, permite que se trate como terrorismo a bomba atômica de Hiroshima e um rojão na porta do metrô”, exemplifica.

Para o procurador, a insegurança que este tipo de lei gera para a sociedade, em especial para os movimentos sociais, é que quem vai decidir o que é e o que não é terrorismo é a autoridade policial, o delegado, o promotor. “Quem vai decidir o que são essas coisas? Agentes policiais. A PM, o delegado, o promotor, Quem vai decidir isso é o promotor que acha que a Simone de Beauvoir é uma ‘baranga francesa’, porque ela não raspa as axilas”, ironiza ele, lembrando que, neste quadro de  crescimento de posturas direitistas de viés autoritário, que muitas vezes ultrapassam o limite dos fascismo, é cada vez mais comum se encontrar autoridades policiais e judiciais com visão social míope.

Estado democrático X estado de exceção?

Professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano, sustenta que, em todo o século XX, os governos autoritários ocorreram fora do marco da democracia, caso do nazismo e das ditaduras latino-americanas. Entretanto, ele alega que hoje isso mudou e os estados autoritários coexistem dentro dos próprios estados democráticos, sendo que as leis antiterrorismos são a ferramenta mais utilizadas para implementá-los. 

“A forma como as ditaduras do mundo ocidental se realizaram no século 20 foi sempre a partir dessa narrativa de se combater o inimigo, sempre por períodos provisórios. A ditadura brasileira foi instaurada para durar 4, 5 anos. Ou seja, era sempre a narrativa da exceção, o tempo da emergência, para se estabelecer a segurança como valor social essencial para a sobrevivência das pessoas. No século 21, isso transmuta. O estado soberano absolutista passa a existir dentro da democracia. E não mais fora dela, como foi até o século 20. Os exemplos são as leis antiterroristas, a lei da mordaça espanhola”, explicou.

O professor alerta que, se as leis antiterrorismo já são uma ameaça à democracia nos países centrais, na América Latina elas adquirem um componente ainda mais violento, de forte caráter classista. Isso porque, no primeiro mundo, o inimigo apontado como terrorista é o estrangeiro, o muçulmano, o islâmico. Já na América Latina, esse inimigo é o “bandido”, entendido não como o cidadão que cometeu um erro, mas como uma categoria em si. E como o bandido é normalmente o pobre, aceita-se a coexistência de dois estados diferentes para que toda a pobreza possa ser domada pelo Estado. 

“Na América Latina, temos efetivamente uma duplicidade. Temos dois estados. Um estado democrático que gere os territórios ocupados pelos seguimentos incluídos da população, marcadamente de euro-descendência, e um estado de exceção permanente, de natureza militar, que gere os territórios ocupados pela pobreza”, denuncia. 

O professor lembra que nestes territórios ocupados pela pobreza os direitos individuais já estão permanentemente suspensos, a despeito da aprovação ou não de leis antiterroristas. De acordo com ele, isso ocorre porque, ao contrário do que ocorre nos países centrais, onde o agente de exceção é o ato legislativo, na América Latina o principal agente de exceção é o próprio judiciário. “Aqui foi criada uma cultura jurídica com forte influência do positivismo analítico, que outorga ao juiz quase um poder absoluto, que o permite até mesmo contrariar a lei. E é esse judiciário que vai aplicar essa lei que o Senado aprovou”, alerta.
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