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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A REALIDADE DESNUDA E A FALSA DICOTOMIA ENTRE DIREITA E ESQUERDA


"A terceira revolução industrial é considerada, e não sem razão,
a causa de longe mais profunda da nova crise mundial. Pela
primeira vez na história do capitalismo, os potenciais de
racionalização ultrapassam as possibilidades de
expansão dos mercados.(Robert Kurz)
.
O PÊNDULO DA INEFICÁCIA
Se é verdade que o pensamento socialista sempre teve uma dose elogiável de humanismo, expressa na conquista de avanços sociais e defesa de direitos civis, é igualmente verdade que se constituiu apenas numa forma política de capitalismo. Daí a sua insustentabilidade. 

É por assim ser que terminou sempre por se quedar à imperiosa lógica autotélica e segregacionista do capital, que se opõe ao melhor sentimento humanista. Daí decorre que o socialismo não passa de um conjunto de ideias bem intencionadas, constituindo-se, no final das contas, em algoz do interesse popular e no contrário do que anuncia ser (mesmo quando suas intenções são honestas e não um mero oportunismo eleitoral para a conquista do poder).   

O capital é uma forma de relação social subtrativa do esforço coletivo de modo a criar riqueza abstrata concentrada num processo de acumulação que tende ao infinito, segregando a maior parte dos seus súditos como forma de satisfação de seu sentido tautológico, vazio de sentido virtuoso. E isto só até o momento de alcançar o limite interno absoluto de expansão, quando definha e morre, não sem antes arrastar toda a humanidade para o abismo, caso não seja contida a sua derrocada final.

As vitórias eleitorais do socialismo de esquerda (1) sempre se deram por conta da ingovernabilidade do aparelho de Estado pela direita e seus métodos segregacionistas de promoção dos privilégios do capital e dos capitalistas.  

Ora, é de se perguntar: por que todos os governos de direita, com todos os mecanismos de controle institucionais, monetários e midiáticos a seu favor, fracassam e ensejam a simpatia popular eleitoral ao pensamento socialista? 

Esta indagação pode ser complementada por outra: por que todos os governos socialistas de esquerda fracassam e ensejam a antipatia popular como se fossem traidores dos seus próprios postulados e bandeiras, acabando por ensejarem a volta da direita, numa eterna e infrutífera alternância de poder  e sem questioná-la como tal?

A resposta é óbvia: isto se dá porque todos os governos apenas obedecem e aplicam os ditames de uma lógica de relação social (o sistema produtor de mercadorias) que, por sua natureza específica, impõe sacrifícios ao povo e transforma o Estado em sua força de coerção militar, além de instrumento de regulamentação legal e de controle monetário. 

Os governantes não governam, mas são governados.   

Os governantes, quando sentam na cadeira dos poderes do Estado, não têm vontade soberana, a não ser em questões periféricas e de escolha de prioridades dentro da escassez de recursos do Estado para atendimento das demandas sociais globais.

QUANDO A REALIDADE BATE À PORTA

Assim, quando é atingido o estágio do limite interno absoluto de expansão e a realidade de sua essência ontológica bate à porta sem subterfúgios sob a forma de miséria e desespero social inesperado, como agora ocorre, isto provoca a explicitação de alguns pontos, a saber: 
a) a identidade na aplicação do receituário da administração financeira da crise por qualquer partido que esteja no poder, independentemente de sua inclinação ideológica, capitalista ortodoxa ou socialista (2). 
b) a verdadeira função e caráter do Estado. Este, antes de ser um provedor das demandas sociais, é um coletor de impostos que mascara o pesado ônus que impõe aos exauridos ombros dos trabalhadores (duplamente extorquidos, pelo capital e pelos tributos estatais) com serviços públicos cada vez mais ineficientes; e que exige do contribuinte a pagamento da conta da infraestrutura da produção mercantil e do funcionamento dos poderes institucionais que sustentam a opressora lógica mercantil. O trabalho e o trabalhador são categorias capitalistas que sustentam o Estado, a máquina de coerção sistêmica. 
c) o desejo de grande parte da população da volta à situação anterior, quando da ascensão capitalista. Então os trabalhadores conseguiam sobreviver, embora miseravelmente, e tinham esperança de subirem na vida, enquanto a minoritária classe média, formadora de opinião, vivia razoavelmente bem – isto com diferenciações de país para país, dependendo do grau de capacidade de produção de mercadorias de cada nação (a classe média dos Estados Unidos sempre teve benefícios estatais e confortos maiores que a classe média do Haiti, obviamente); 
d) a consciência, para uma pequena minoria formada pelos mais argutos, de que a crise não é uma questão de mau gerenciamento do Estado, decorrendo, isto sim, da falência dos próprios fundamentos de uma relação social que se tornou anacrônica e não consegue promover a mediação social de modo minimamente aceitável. 
A tal da classe média, consciente de que seus privilégios ora definham, prefere, por comodidade e medo do novo, embarcar na cantilena midiática de que toda a crise decorre da corrupção com o dinheiro público, como se o combate a tal cancro institucional (que não passa de um subproduto endêmico de uma corrupção sistêmica) fosse uma varinha de condão, capaz de promover a restauração do status quo antigo. E, assim, influencia toda a população.

A escolha dos Sérgio Moro e Joaquim Barbosa da vida como salvadores da pátria desfoca o cerne do problema e, ainda que aprovemos as suas atuações, não podemos ser ingênuos a ponto de crer que a corrupção se constitua na causa maior das nossas agruras. Ademais, o desvirtuamento do foco da crise estrutural para o combate a corrupção é do interesse do sistema, pois serve como desculpa para o seu fracasso e para o aumento da miséria enquanto perdurar a agonia do capitalismo.   
Quando se compreende o significado do processo eleitoral e da função dos partidos e dos políticos como um mecanismo de legitimação jurídico-institucional de uma forma de relação social segregacionista, não há que querermos melhorar o seu desempenho com a eleição de cidadãos honestos e partidos bem intencionados, na esperança de que mudem os padrões éticos de comportamento, quaisquer que sejam os seus matizes ideológicos. 

Isso não passa de sonho de uma noite de verão, pois tal desejo é irrealizável sob uma base de relações sociais de natureza capitalista, mercantil, que tem na subtração do valor produzido pelos trabalhadores (leia-secorrupção original) a sua razão de ser. Sob o capital, toda a institucionalidade funciona em falso, e dessa falsidade não pode nascer nada de bom do ponto de vista coletivo. 

Temos de denunciá-la e combate-la, ao invés de a fortalecer. Temos de buscar a produção fora do mercado, paulatinamente, exaustivamente, como modo de afirmação da vida.

Agora, quando a realidade bate à nossa porta e torna explícita a falsa dicotomia entre direita e esquerda sob o capitalismo, só nos resta negar o próprio capitalismo e suas categorias fundantes (valor, trabalho abstrato, mais-valia, dinheiro, mercadoria, mercado, Estado, política, políticos, democracia, socialismo, nacionalismo, capital, etc.). 

Temos de enfrentar tal gigante de pés de barro com todas as nossas forças; o preço a se pagar por isso não é pequeno, mas a vitória é possível. (por Dalton Rosado)
  1. existe também socialismo de direita, como foram os casos do Partido Nazista de Hitler, que se definia como nacional socialista; e do fascismo italiano de Mussolini, que defendia lemas ditos socialistas e nacionalistas, tendo sua legislação trabalhista sido copiada pelo ditador brasileiro Getúlio Vargas.
até ontem governando a França, Nicolas Sarkozy, de direita, foi defenestrado do poder pelo socialista François Hollande, o qual, por sua vez, hoje não consegue sequer ser candidato à reeleição, com os novos Sarkozys se apresentado como competentes governantes capazes de superar a crise do capital instalada na União Europeia.
 https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/a-realidade-desnuda-e-falsa-dicotomia.html

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AS CONTRADIÇÕES SE EXPLICITAM; A CRISE POLITICO-ECONÔMICA SE APROFUNDA.


"O nome disso é loucura. Haja arte e criatividade para curá-la."
(jornalista Arnaldo Bloch,  traçando um paralelo entre a cura da 
loucura política e as terapias alternativas da dra. Nise da Silveira)
.
Não é só aqui. Atualmente, no mundo todo, ocorrem mudanças políticas de gestores e choques de opiniões sobre conceitos político-econômico-institucionais, sem que se ataque o cerne do problema. 

Fatos inusitados começam a ocorrer. No Brasil podemos citar os da última 4ª feira (30/11):
  • um quebra-quebra praticado por cerca de 10 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios em Brasília, sem que a polícia em número bem inferior pudesse conter a avalanche de insatisfação;
  • políticos aprovam leis na calada da noite em causa própria e se cria uma explícita contradição entre o exercício dos poderes do Estado. 
Enquanto isto, o povo sofre com o desemprego, o empresariado sofre com a estagnação dos seus negócios e o Estado definha com a queda da arrecadação de impostos.

Serão tais acontecimentos apenas localizados, fruto da iniciativa pessoal de um magistrado federal de 1ª instância que tomou para si, juntamente com outros órgãos (Ministério Público e Polícia Federal), a iniciativa de puxar o fio do novelo da corrupção crônica? Ou se trata do resultado de uma decomposição sistêmica?
Até onde irá Sérgio Moro?

O fato é que as contradições inerentes à ilogia de um sistema fundado em bases incoerentes por sua própria essência constitutiva, mais cedo ou mais tarde tende a tornar explícitas tais contradições, como agora ocorre. As pessoas tendem a acreditar, ingenuamente, que é possível se combater a corrupção num sistema corrupto na sua essência constitutiva. Não é. A corrupção é da natureza funcional do sistema. 

A prova disto é que a explicitação feita pelas investigações da Operação Lava-Jato (no dizer de um membro do Ministério Público, "para cada pena que se extrai, aparece uma galinha inteira") já começa a entrar em choque com o Legislativo, um dos poderes do mesmo Estado a que pertencem a Polícia Federal, o Ministério Público e o próprio Poder Judiciário. Não é uma questão de algumas pessoas, mas da quase totalidade de uma instituição e do seu espírito e modus operandi funcional.    

No mundo todo o jogo político eleitoral encobre verdades inconfessáveis de manipulação econômica e da informação que molda a opinião pública. Nada é o que parece ser. Nem os democratas estadunidenses são tão humanistas quanto querem aparentar, nem os dirigentes e políticos republicanos acreditam nas benesses públicas que o propalado desenvolvimento econômico deveria proporcionar. A retórica que todos eles utilizam em discursos, pronunciamentos e entrevistas não passa de blablablá da boca pra fora. 

Só os muito ingênuos acreditam nas mensagens de campanhas eleitorais, que os marqueteiros preparam e os candidatos repetem como papagaios. Quando no governo, esquerda e direita tendem a ter comportamentos praticamente idênticos, vez que, tais quais surfistas, apenas se equilibram na onda da lógica econômica que lhes serve de conceito e de bússola. 
Legislativo se avacalha, Judiciário  ocupa espaços vazios

O que se observa agora, com a tentativa de eliminação pelo Legislativo das franquias constitucionais do Judiciário (inamovibilidade, vitaliciedade, irredutibilidade de vencimentos, imunidade de formação de juízo de valor) é a explicitação da inconciliável oposição entre o melhor senso de aplicação da justiça e um sistema que faz da injustiça a sua razão de ser, via funcionamento da lógica das relações sociais mercantis, subtrativa da riqueza coletiva produzida. Vejamos três pontos:
1) o processo eleitoral, determinado pelo poder econômico e midiático (empresas jornalísticas que pertencem ao mundo econômico), é viciado por tal condição e, portanto, os seus membros, majoritariamente, pertencem a este universo de relações e são por ele sustentados. É contrário ao interesse popular. Assim, como querer que defendam a elaboração de leis justas e de realização da justiça?
2) o poder Judiciário trabalha com leis formatadas por esse poder Legislativo e dentro da lógica do capital: trata-se de um direito legiferado, que é a negação do direito natural. Depois de muitas filigranas de interpretação jurídica e aculturação secular positivando tais cânones jurídicos é que a legislação de cada país capitalista se constitui em diplomas jurídicos que proclamam e buscam a realização do ideal de justiça. Como tudo nas relações mercantis, a verdade é o momento do falso(Guy Debord); 
3) a guerra da concorrência mercantil, na qual as grandes empresas nacionais e internacionais disputam fatias de mercado cada vez mais exíguas, exige comportamentos inconfessados, que a legislação vigente não pode ratificar explicitamente. Mas, os ditos cujos são praticados à farta nas tenebrosas transações que têm lugar no submundo dos gabinetes dos importantes dirigentes empresariais e governamentais. 
O poder Judiciário, quando resolve coibir tais transações, entra em choque com a natureza funcional do sistema, provocando um efeito contrário ao pretendido; ou seja, ao invés de estimular os negócios, provoca maior estagnação econômica localizada, num cenário de estagnação global, daí as tentativas de de coibir sua atuação, como ocorre agora.       
É NA BASE DA CRISE POLITICO-INSTITUCIONAL QUE
 ESTÁ A CRISE ECONÔMICA, E NÃO O CONTRÁRIO. 

Nos tempos de ascensão capitalista, ainda que o quadro geral seja sempre de pobreza, acredita-se, equivocadamente, que as coisas estejam melhorando e seguindo um curso de prosperidade futura geral. Aceitam-se os sofrimentos como dores do parto das benesses vindouras (como agora se crê na cantilena da austeridade para a retomada do desenvolvimento). 

Nestes momentos, o poder Executivo, fortalecido e convivendo com a sensação de satisfação geral, inibe qualquer iniciativa de contestação às instituições, sendo tudo abafado como pecadilho pontual em nome do interesse sistêmico maior.

Quando chega a debacle econômica, procuram-se culpados pontuais sobre os quais se possa jogar a culpa da crise. 
O capitalismo, hoje: um cobertor curto.
A alternância de cenários econômicos está por trás da eterna alternância de governantes no poder, cada um com seu discurso de salvação e competência, sem que nenhum chegue à raiz de problema, que é a necessidade imperiosa de superação do próprio sistema, pois se tornou impossível o seu aperfeiçoamento. 

A vez agora é do discurso do nacionalismo xenófobo que contraria as últimas bolhas de oxigênio do capitalismo. As contradições se tornam cada vez mais explícitas. 

A crise, ademais, fortalece na opinião pública a crença de que é suficiente a meritória (mas ingênua) cruzada de alguns integrantes do poder Judiciário que tentam consertar o inconsertável. A corrupção com o dinheiro público, contudo, está longe de ser a causa de todos os males; é apenas um deles.
  
Passamos pela mais grave e demorada crise econômica desde a depressão iniciada em 1929 e que se prolongou pela década de 1930 adentro, pois agora, diferentemente dos mecanismos de controle estatal econômico ainda existentes naquele momento, as contradições atuais são insuperáveis, porque generalizadamente decorrentes da crise profunda dos fundamentos econômicos no estágio do limite de expansão interna do capital; e têm proporções gigantescas, com as labaredas do incêndio se propagando sem que haja bombeiros em número suficiente para as debelarem. 

Por que não se pensa em formas alternativas de superação de crise, insistindo-se na busca de soluções que são imanentes à causa dos problemas? 

Porque os mecanismos de controle sistêmico, guiados por uma lógica funcional preexistente (não é uma questão de pessoas pensando, mas de pessoas que agem sem pensar, obedientes a tal lógica da qual se tornaram dependentes), não consegue se desapear de sua programação, tal qual os bonecos de teatros de marionetes, cujos movimentos são manipulados de fora.

Nunca nos foi tão urgente adquirirmos consciência do que deve e pode ser feito.
 (por Dalton Rosado)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/as-contradicoes-se-explicitam-crise.html

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A "'OPERAÇÃO SALVA CORRUPTOS" TROCADA EM MIÚDOS


Jornalões manchetearam que nesta 5ª feira (24) os deputados federais darão um pulo do gato para tirar a maioria dos políticos do alcance da Operação Lava-Jato, num momento em que a apocalíptica delação premiada da Odebrecht pende como uma guilhotina sobre a cabeça de uma infinidade deles.

Aparentemente, os líderes dos principais partidos se teriam mancomunado para lhes lançarem uma boia, a Operação Salva Corruptos. Com exceção do PT, ainda uma incógnita: sua bancada estaria dividida meio a meio entre adversários e apoiadores da tramoia, não se sabendo para qual lado penderia. 

Quanto às pequenas agremiações, a Rede e o PSOL resistiriam à tentativa de inclusão decavalos de Troia no pacote de medidas contra a corrupção que que a comissão  especial da Câmara Federal aprovou na 4ª feira (23). O que, claro, teria efeito apenas moral, pois ambos reúnem apenas 2% dos deputados.

Se o objetivo da manobra é claro, a sua formatação está sendo noticiada de maneira confusa. Vamos colocar os pingos nos is.

O texto aprovado tipifica o Caixa 2 eleitoral e estabelece pena de dois a cinco anos de prisão para os candidatos que receberem ou usarem doações não declaradas ao TSE.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, os encalacrados anônimos tentarão aprovar em plenário um projeto substitutivo incluindo "a anistia à prática do caixa 2 nas campanhas eleitorais e a previsão de punir magistrados e integrantes do Ministério Público Federal por crime de responsabilidade".
Folha de S. Paulo foi na mesma direção: 
"...o texto da emenda estabelece na legislação que não sofrerão punição aqueles que receberam doações, contabilizadas ou não, de valores, serviços e bens para atividades eleitorais e partidárias realizadas até a data da entrada em vigor da regra.
Esse texto abre margem para livrar grande parte dos alvos da Operação Lava Jato, já que os políticos que receberam recursos desviados da Petrobras, via empreiteiras, têm argumentado que usaram esse dinheiro em campanhas ou atividades partidárias, declaradas à Justiça ou não –essa segunda hipótese é o chamado caixa dois".
A grande imprensa parece ter deixado de consultar juristas antes de colocar no ar o besteirol que os repórteres escutam de políticos, pois até um primeiranista de Direito sabe que não há necessidade nenhuma de anistiarem-se crimes cometidos antes da promulgação de novas leis, já que nenhuma delas retroage para prejudicar acusados. Esta é uma cláusula pétrea de nossa Constituição.

A verdadeira patifaria seria outra: revogar, na prática, o artigo 350 do Código Eleitoral, que não faz alusão explícita a Caixa 2 mas é aquele no qual atualmente pode ser enquadrado tal delito:
Art. 350. Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais: 
Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa, se o documento é público, e reclusão até três anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa se o documento é particular.
Ou seja, a intenção dos conspiradores não seria a de evitar que a nova lei atingisse quem a infringiu antes que existisse (uma tolice, em termos legais!), mas sim a de anistiar sub-repticiamente aqueles que infringiram o artigo 350 do Código Eleitoral, vigente desde julho de 1965.

Ainda assim, continuaria sendo farsesco sustentar que os crimes desvendados pela Operação Lava-Jato visassem apenas o financiamento de campanhas eleitorais. Mas, no Brasil, quem tem influência política e grana para bancar os melhores advogados consegue fazer prevalecer qualquer entendimento, até de que o sol gira em torno da Terra...

De quebra, a proposta de punição dos abusos de autoridade seria uma óbvia forma de intimidação do Sergio Moro e dos procuradores que investigam o mar de lama, alertando-os de que perderam sua utilidade e agora mais lhes convém recuarem discretamente para o fundo do palco.

Esperemos o final da ópera bufa, cuidando de juntar muitos ovos e tomates podres, pois tudo indica que eles se farão necessários. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O BRASIL E A REPÚBLICA DE SALÉM - Uma reflexão do Mestre Santayana


Por Mauro Santayana, em seu blog

O Ministro Teori Zavascki retirou da Operação Lava-Jato a investigação de questões relativas à Eletronuclear. 


O fez porque o caso envolve o senador Edson Lobão, que tem foro privilegiado.


Mas poderia tê-lo feito também devido a outros motivos. A Eletronuclear não possui instalações no Paraná, nem vínculos com a  Petrobras, e não se sustenta a tese, que quer dar a entender o Juiz Sérgio Moro, de que tudo, das investigações sobre o Ministério do Planejamento, relacionadas com a Ministra Gleise Hoffman, à Eletronuclear, Petrobras, hidrelétricas em construção na Amazônia, projetos da área de defesa, da indústria naval, e qualquer coisa que envolva a participação das maiores empresas do país em projetos e programas estratégicos para o desenvolvimento nacional, "é a mesma coisa" e culpa de uma "mesma organização criminosa", estabelecida, há alguns anos, com o deliberado intuito de tomar de assalto o país.


Pode-se tentar impingir esse tipo de fantasia conspiratória, reduzindo a oitava maior economia do mundo - que em 2002 não passava da décima-quarta posição - a um mero bordel de esquina invadido por uma maquiavélica e nefasta quadrilha de assaltantes, quando esse discurso se dirige para a minoria conservadora, golpista, manipulada e desinformada que pulula nos portais mais conservadores da internet brasileira e dá um trocado para a faxineira bater panela na varanda do apartamento, quando começa a doer-lhe a mão.


Mas essa tese não "cola" para qualquer pessoa que tenha um mínimo de informação de como funciona, infelizmente, o país, e sobre o que ocorreu com esta Nação nos últimos 20 anos.


Operação caracteristicamente midiática, alimentada a golpe de factoides, da pressão sobre empresas e empresários - até mesmo por meio de prisões desnecessárias, e, eventualmente, arbitrárias - e de duvidosas delações premiadas, a Lava-Jato, se não for rigorosamente enquadrada pelos limites da lei, se estabelecerá como uma nova República do Galeão, de Curitiba, ou de Salém.


Uma espécie de Quinto Poder, acima e além dos poderes basilares da República, com jurisdição sobre todos os segmentos da política, da economia e da sociedade brasileira, com um braço doutrinário voltado para obter a alteração da legislação, mormente no que diz respeito ao enfraquecimento das prerrogativas  constitucionais, entre elas a da prisão legal, da presunção de inocência,  da apresentação de provas, que precisa produzir, para uma parcela da mídia claramente seletiva e partidária, sempre uma nova "fase" - já lá se vão 19 - uma nova acusação, uma nova delação, para que continue a se manter em evidência e em funcionamento.


Tudo isso, para que não se perceba com clareza sua fragilidade jurídico-institucional, exposta na contradição entre a suposta existência de um escândalo gigantesco de centenas de bilhões de reais, como alardeado, na imprensa e na internet, aos quatro ventos, que se estenderia por todos os meandros do estado brasileiro, em contraposição da franca indigência de provas robustas e incontestáveis, reunidas até agora, e do dinheiro efetivamente recuperado, que não chega a três bilhões de reais - pouco mais do que o exigido, em devolução pela justiça, apenas no caso do metrô e dos trens da CPTM, de São Paulo.


Uma coisa é provar que dinheiro foi roubado,  nas estratosféricas proporções cochichadas  a jornalistas - ou aventadas em declarações do tipo "pode chegar" a tantos bilhões - dizendo em que contrato houve desvio, localizando os recursos  em determinada conta ou residência, mostrando com imagens de câmeras, ou registros de hotel, e listas de passageiros, que houve tal encontro entre corruptor e corrompido.


Outra, muito diferente, é, para justificar a ausência de corrupção nas proporções anunciadas todo o tempo, estabelecer aleatoriamente prejuízos "morais" de bilhões e bilhões de reais e nessa mesma proporção, multas punitivas, para dar satisfação à sociedade, enquanto, nesse processo, que se arrasta há meses, caminhando para o segundo  aniversário, se arrebenta com vastos setores da economia, interrompendo, destruindo, inviabilizando e transformando, aí, sim, em indiscutível prejuízo, centenas de bilhões de reais em programas e projetos estratégicos para o desenvolvimento e a própria  defesa nacional.


Insustentável, juridicamente, a longo prazo, e superestimada em sua importância e resultados, a Operação Lava-Jato é perversa, para a Nação, porque se baseia em certas premissas que não possuem nenhuma sustentação na realidade.


A primeira, e a mais grave delas, é a que estabelece e defende, indiretamente, como sagrado pressuposto, que todo delator estaria falando a verdade.


Alega-se que os réus "premiados", depois de assinados os acordos, não se arriscariam a quebrar sua palavra com a  Justiça.


Ora, está aí o caso do Sr. Alberto Youssef, já praticamente indultado pelo mesmo juiz Moro no Caso do Banestado, da ordem de 60 bilhões de reais, para provar que o delator premiado não apenas pode falar o que convêm, acusando uns e livrando a cara de outros, como continuar delinquindo descaradamente - por não ter sido impedido de seguir nos mesmos crimes e atividades pela Justiça - até o ponto de, estranhamente, fazer jus a nova "delação premiada" mesmo tendo feito de palhaços a maioria dos brasileiros.


A segunda é a de se tentar induzir a sociedade - como faz o TCU no caso das "pedaladas fiscais", que vêm desde os tempos da conta única do Banco do Brasil - a acreditar que toda doação de campanha, quando se trata do PT, seria automaticamente oriunda de pagamento de propina de corrupção ao partido, e que, quando se trata de legendas de oposição - mesmo que ocupem governos que possuem contratos e obras com as mesmíssimas empresas da Lava-Jato - tratar-se-ia de doações  honestas, impolutas e desinteressadas.


Corrupção é corrupção. E doação de campanha é doação de campanha. Até porque as maiores empresas e bancos do país, que financiam gregos e troianos, o fazem por um motivo simples: como ainda não possuem tecnologia para construir uma máquina do tempo, nem para ler bolas de cristal,  elas não têm como adivinhar, antes da contagem dos votos, quem serão os partidos vitoriosos ou os candidatos eleitos em cada pleito.


Se existe suspeição de relação de causa e efeito entre financiamento de campanha e conquista de contratos, simples.


Em um extremo, regulamente-se o "lobby", com fiscalização, como existe nos Estados Unidos, ou, no outro, proíba-se definitivamente o financiamento empresarial de campanha por empresas privadas, como está defendendo o governo, e não querem aceitar os seus adversários.


O que não podem esperar, aqueles que escolheram, como tática, a criminalização da política, é que a abertura da Caixa de Pandora, ao menos institucionalmente, viesse a atingir apenas algumas legendas, ou determinados personagens, em suas consequências, como é o caso do financiamento privado de campanha.


Vendida, por outro lado,  como sendo, supostamente, uma ação emblemática, um divisor de águas no sentido da impunidade e de se mandar um recado à sociedade de que o crime não compensa, a justiça produzida no âmbito da Operação Lava-Jato está, em seus resultados, fazendo exatamente o contrário.


Quem for analisar a última batelada de condenações, verá que, enquanto os delatores "premiados", descobertos com contas de dezenas de milhões de dólares no exterior, com as quais se locupletavam nababescamente, gastando à tripa forra,  são liberados até mesmo de  prisão domiciliar e vão ficar soltos, nos próximos anos, sem dormir nem um dia na cadeia, funcionários de partido que "receberam", em função de ocupar o cargo de tesoureiro,  doações absolutamente legais do ponto de vista jurídico, terão de passar bem mais que umas décadas presos  em regime fechado, mesmo que nunca tenham apresentado nenhum sinal de enriquecimento ilícito.


Com isso, bandidos contumazes, já beneficiados, no passado, pelo mesmo juiz, com acordos de delação premiada, que quebraram, ao voltar a delinquir, seus acordos feitos anteriormente com a Justiça,   ou que extorquiram empresas e roubaram a Petrobras, vão para o regime aberto ou semi-aberto durante dois ou três anos, para salvar as aparências, enquanto milhares de trabalhadores estão indo para o olho da rua, também porque essas mesmas empresas - no lugar de ter apenas seus eventuais culpados condenados - estão, como negócio, sendo perseguidas e ameaçadas com multas bilionárias, que extrapolam em muitas vezes os supostos prejuízos efetivamente comprovados até agora.


A mera ameaça dessas multas, com base nos mais variáveis pretextos, pairando, no contexto midiático, como uma Espada de Dámocles,  antes da conclusão das investigações, tem bastado para que a situação creditícia e institucional dessas companhias seja arrebentada nos mercados, e projetos sejam interrompidos, em um efeito cascata que se espalha por centenas de médios e pequenos fornecedores, promovendo um quase que definitivo, e cada vez mais irrecuperável desmonte da engenharia nacional, nas áreas de petróleo e gás, infraestrutura, indústria naval, indústria bélica, e de energia.


O Juiz Moro anda reclamando publicamente, assim como o Procurador Dallagnol - até mesmo no exterior - do "fatiamento" da Operação Lava-Jato.


Ora, não se pode criar uma fatia a partir de algo que não pertence ao bolo.


Inquéritos não podem ser abertos por determinada autoridade, se não pertencem à jurisdição dessa autoridade.


Continuar produzindo-os, sabendo-se que eventualmente serão requeridos ou redistribuídos pelo Supremo, faz com que pareçam estar sendo criados apenas com o intuito de servirem, ao serem eventualmente retirados do escopo da Lava-Jato, de "prova" da existência de uma suposta campanha, por parte do STF, destinada a dar fim ou a sabotar, aos olhos da opinião pública, o "trabalho" do Juiz Sérgio Moro e o de uma "operação" que se quer  cada vez mais onipresente e permanente nas manchetes e na vida nacional.


Ao reclamar do suposto "fatiamento" da  Operação Lava-Jato, com a desculpa de eventual prejuízo das investigações, o Juiz Sérgio Moro parece estar tentando, da condição de "pop star" a que foi alçado por parte da mídia,  constranger e pressionar, temerariamente, o Supremo Tribunal Federal - já existe provocador falando, na internet, em resolver o "problema" do STF "a bala" - valendo-se da torcida e do apoio da parcela menos informada e mais manipulada da opinião pública brasileira.


Com a agravante de colocar em dúvida, aos olhos da população em geral, o caráter, imparcialidade e competência de seus pares de outras  esferas e regiões, como se ele, Sérgio Fernando Moro, tivesse surgido ontem nesta dimensão, de um puro raio de luz vindo do espaço,  sem nenhuma ligação anterior com a realidade brasileira, para ser o líder inconteste de uma  Cruzada Moral e Reformadora Nacional - o único magistrado supostamente honesto, incorruptível  e comprometido com o combate ao crime desta República.