Num instigante estudo comparativo sobre o surgimento e o desenvolvimento dos impostos progressivos, Kenneth Scheve e David Stasavage (Taxing the rich: a history of fiscal fairness in the United States and Europe. Princeton: Princeton University Press, 2016) demonstraram, apoiados na história de vinte países, que a introdução de impostos progressivos e a consequente diminuição da desigualdade na Europa e nos Estados Unidos não se deveu ao chamado "efeito democrático" (pelo qual maiorias pobres com direito a voto imporiam um sacrifício aos mais ricos), nem a uma reação política à desigualdade crescente, mas a circunstâncias muito específicas do esforço de guerra, sobretudo durante as duas guerras mundiais.
Num contexto que era de turbulência e ameaças, as esquerdas conseguiram fazer prevalecer o argumento de que assim como os trabalhadores estavam se sacrificando, colocando a vida em risco nos campos de batalha, os empresários também deveriam se sacrificar, contribuindo para o esforço de guerra com impostos muito mais elevados sobre a sua renda e o seu patrimônio.
Ou seja, diminuição da desigualdade no capitalismo, só co
Ou como disse Rosa Luxemburgo, ou é socialismo ou é barbárie!m muita matança de trabalhadores.
Por óbvias razões, não vou citar a fonte, mas um amigo colocou a seguinte observação em um grupo do WhatsApp: “Deixa eu entender, estás pregando a democracia mas és de esquerda, você acha que os regimes socialistas são democráticos?”.
Apesar de no título ter utilizado a expressão “breve confusão”, esse amigo faz, na verdade, uma grande confusão, das maiores que andam por aí.
A primeira e a pior delas é pensar que ser de esquerda é ser antidemocrático. Nada mais absurdo do que isso. E muito me admira que pessoa com a inteligência e o conhecimento que ele tem ainda hoje pense dessa forma. Há mais de cem anos que abandonamos Descartes como ferramenta de compreensão da vida social (aliás, a racionalidade cartesiana não tem serventia para quase nada neste mundo do século XXI…).
E por que cito Descartes? Porque esse raciocínio raso, do tipo “ser de esquerda é ser socialista/comunista/antidemocrático” não passa de uma conveniente indução: de uma parte deduzo o todo. De exemplos fracassados de comunismo, passo para o socialismo e, a partir daí, chego a conclusão de que ser de esquerda é ser antidemocrático.
A segunda pressupõe um total desconhecimento do que seja o socialismo, convenientemente associado ao comunismo. E não me admira que o amigo assim pense, pois teve formação que o ensinou que socialismo, comunismo, ou ser de esquerda são “tudo farinha do mesmo saco”.
A bem da verdade, diga-se passagem que qualquer coisa que não seja o “mercado” é “farinha do mesmo saco”. Qualquer coisa que não seja meritocracia (quase sempre herdada) é farinha…
Comecemos, pois.
Esquerda é anterior ao socialismo, assim como este é anterior ao comunismo. Dito de outra forma, e por analogia, a religiosidade é anterior às religiões. Ou seja, a percepção da existência antecede ao uso que se dê para a essa existência.
As religiões criaram os deuses, não a religiosidade. Homens criaram o comunismo como forma de apropriação do socialismo. E o próprio socialismo foi uma apropriação indevida de uma forma de ver a existência do ser humano.
Socialismo é tão somente uma forma – ainda que precária – de aplicação de um conceito anterior, o de que somos, ou deveríamos ser, uma comunidade de compaixão, de solidariedade ou, no dizer de um grande ser de esquerda, “não faças aos outros aquilo que não queres que façam a ti”.
Há outra forma de ver as relações sociais, a forma que parte do pressuposto da propriedade como direito fundamental. É a forma da exclusão. É a forma que se contrapõe a ver o mundo como solidariedade. Se opõe a ver o mundo com um mundo onde todos possam ser proprietários.
A natureza do “mercado” não permite que isso aconteça. Para o mercado – e para os seus defensores – existem os donos e os que servem aos donos. Os donos têm a seu favor a meritocracia e creem, piamente, que todos os humanos da Terra merecem, basta que se esforcem.
A forma “esquerda” de ver o mundo aceita a realidade, uma realidade que é substancialmente diferente para os que tiveram, por exemplo, alimentos na infância e com isso desenvolveram seus cérebros e os que já nasceram na miséria e que jamais conseguirão algo na vida a não ser que a solidariedade os acompanhe.
E agora entra o papel do Estado, que os defensores da meritocracia jamais compreenderão: o ponto de partida. Meu amigo faz parte do um por cento que estudou nas melhores escolas, teve a melhor alimentação e acesso ao que de bem e melhor poderia ter.
Mérito? Não, herança histórica. Tivesse nascido negro em uma favela, com certeza não estaria fazendo as perguntas que faz.
Essa é a explicação, meu caro. Ser de esquerda é ter uma compreensão da humanidade que vai além do mercado e da meritocracia. E muito além de pensar que ser de esquerda é ser somente socialista ou comunista.
Cartaz do PT em 1980. Onde foi parar esta ousadia? O gato comeu?
Eis o que dizia o Partido dos Trabalhadores no seu manifesto de fundação, datado de 10 de fevereiro de 1980:
"Os trabalhadores querem a independência nacional. Entendem que a Nação é o povo e, por isso, sabem que o país só será efetivamente independente quando o Estado for dirigido pelas massas trabalhadoras. É preciso que o Estado se torne a expressão da sociedade, o que só será possível quando se criarem condições de livre intervenção dos trabalhadores nas decisões dos seus rumos. Por isso, o PT pretende chegar ao governo e à direção do Estado para realizar uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano econômico quanto no plano social. O PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores. O PT manifesta sua solidariedade à luta de todas as massas oprimidas do mundo".
O texto atual é bem mais cauteloso
Eis o 13º e último dos pontos para mudar o PT alinhavados pelo vice-presidente do partido, deputado estadual Paulo Teixeira (SP), como propostas para serem discutidas no próximo congresso nacional petista, marcado para o início de junho:
"Retomar o caminho republicano inspirado nos valores do socialismo democrático, fundados na igualdade, no controle público democrático do Estado e no pluralismo! A renovação programática do PT não pode temer a palavra socialismo, que deve andar junto com a palavra democracia. A atualização do programa do PT que ocorrerá no 6º Congresso precisa compreender que é tempo de enfrentar o fascismo com força, mas sem repetir os erros de conciliação que nos trouxeram até aqui. (...) O capitalismo deu errado: oito homens possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da população. Os índices de desigualdade social no mundo são parecidos com os do início do século XX, que gerou duas Guerras Mundiais e milhões de mortos. O PT precisa combater esse sistema desigual e através do socialismo e da democracia encontrar novos marcos programáticos para o futuro do país e do mundo".
Resumo da opereta:
o PT praticou vergonhosamente a política de conciliação de classes durante os 13 anos e 4 meses durante os quais a burguesia lhe concedeu permissão para gerenciar o capitalismo brasileiro;
agora que os poderosos dispensaram sua colaboração com um pontapé nos fundilhos, deverá discutir uma retomada das bandeiras anticapitalistas, o que seria seu primeiro passo na direção certa em muitos e muitos anos.
Alguém ainda ousa dizer isto numa reunião do PT?
Espero, contudo, que o faça com verdadeira disposição de luta, expressa num discurso muito mais afirmativo do que esse que vocês leem acima. O redator estava visivelmente pisando em ovos, como que pedindo desculpas pela mudança de rumo proposta e fazendo questão de escrever democracia cada vez que escrevia socialismo, qual umaatenuanteobrigatória. [Antigamente tínhamos total clareza quanto ao fato de que a democracia de uma sociedade de classes jamais será uma verdadeira democracia e não hesitávamos em proclamar esta verdade em alto e bom som, utilizando sempre a expressãodemocracia burguesa...]
Isto para não falar na patética menção ao caminho republicano, que faria o PT continuar patinando sem sair do lugar até o final dos tempos. Salta aos olhos e clama aos céus que o caminho a ser retomado é o revolucionário! Ou seja, o parágrafo de 2017 é muito pior que o de 37 anos atrás, embora melhor do que a prática recente do PT. Mas, se quiser recuperar a credibilidade, o partido terá de curar-se dessa paúra crônica de dizer algo que possa assustar os pequenos e grandes burgueses.
Ficou meio hilária, p. ex., a recomendação aos companheiros, de que deixem de temer a palavrasocialismo, como se fosse a única palavra deletada do dicionário petista. E revolução? Emarxismo? E anarquismo? E comunismo? E a expressão marxista exploração do homem pelo homem? E a frase lapidar de Prodhon, a propriedade é o roubo?
Torço para que os companheiros petistas se deem conta de que o tempo das tergiversações, das papas na língua e dos panos quentes acabou. Ou reencontram a ousadia perdida ou serão varridos do mapa pelos novos ousados. É simples assim.
Um partido de origem popular e operária se consolida no Brasil nos anos 80. Esse partido, o Partido dos Trabalhadores, aposta na mobilização de massa (greves, passeatas, protestos, ocupações de órgãos públicos, etc.) como forma de tornar seu projeto o hegemônico no seio das classes exploradas e lograr ocupar o maior número possível de cargos no aparato do Estado acreditando ser possível democratizá-lo ao máximo até que ele seja um instrumento da transição socialista.
Durante a trajetória política do PT, quando a institucionalidade passou a ser prioridade absoluta, o partido ostentava um diferencial que a maioria dos partidos burgueses não têm: uma adesão dos movimentos sociais, da classe trabalhadora organizada e das massas populares que representava seu diferencial na política. Enquanto o PSDB, PMDB ou DEM precisavam pagar pessoas como cabos-eleitorais na época da eleição o PT tinha milhares de seres humanos que se entregavam de corpo e alma àquele projeto sem precisar receber nada em troca.
Quando o PT desistiu de revolucionar a sociedade, abandonou na prática a estratégia socialista (embora ainda mantenha formalmente em palavras) e passou a ter como principal objetivo tornar-se o partido da ordem dominante com um programa econômico socialdemocrata faz-se necessário conter, controlar e instrumentalizar ao máximo a mobilização de massas. Agora não é mais interessante, por exemplo, ter pressão na rua pela estatização dos transportes, pois modelos restritos de passe-livre, baixos aumentos (ou congelamentos parciais dos aumentos) e melhoras na frota já bastam. O PT passa a chamar o movimento de massas apenas em movimentos chaves, notadamente na eleição, e nos demais momentos procura paralisar ao máximo esse movimento; para lograr êxito nisso é indispensável um rebaixamento ideológico e programático sempre constante e avançando - primeiro o PT defendia o socialismo com democracia, depois fala mais de democracia que socialismo, depois fala de "revolução democrática" para depois vim o socialismo, depois não fala mais em socialismo e o mote é um crescimento econômico com desenvolvimento social e assim vai...
O ciclo do PT na presidência se notabilizou por não ter chamado UMA ÚNICA VEZ as massas populares para uma luta de rua para realizar o programa econômico que o partido defendeu nos anos 80 e parte dos anos 90. Diferentemente do bolivarianismo na Bolívia ou Venezuela, onde o governo é um pólo de aglutinação e fortalecimento dos movimentos sociais e da classe trabalhadora (com todos os limites e contradições), no Brasil os governos do PT não só procuram não promover a luta como freia-la cooptando lideranças para o aparelho do Estado e minando a radicalidade da própria base social do partido ("país de todos", "nova classe média", "ascensão pelo consumo", etc. foram estratégias ideológicas de rebaixamento da consciência de classe). O partido que tinha como diferencial sua base de massas vai progressivamente destruindo essa base de massas para ser gestor da burguesia oferecendo como principal qualidade sua capacidade de controlar os movimentos socais e a classe trabalhadora. Esse processo vai enfraquecendo a base de massas e reduzindo a margem de manobra do partido como operador da burguesia tornando-o um executor que modifica pouco o projeto da classe dominante; esse ciclo reduz progressivamente a já frágil base de massas que sofre com uma crise ideológica, ausência de novas lideranças, perda de adeptos, redução de apoio na sociedade, consolidação de práticas pelegas e cupulistas.
O resultado final do processo é que quando a burguesia não precisa mais do ex-partido operário e popular e através de outras expressões políticas - os partidos de oposição - resolve tentar derrubar o PT, o partido não tendo mais com recorrer a uma base de massas que entrega corações e mentes ao projeto precisa desesperadamente fazer um acordo com o principal operador do Impedimento: Eduardo Cunha. Notem, quando Lula foi eleito tivemos uma das maiores expressões de massa da história recente do Brasil em sua posse. Na possível queda de Dilma não temos a classe trabalhadora nas ruas para defender seu mandato e mesmo os movimentos sociais ainda ligados ao governo, como o MST, não se sentem à vontade para essa missão. A dialética da conciliação de classe é implacável. Rosa Luxemburgo em seu clássico texto O Oportunismo e a Arte do Possível tinha alertado que: “as se nós começamos a perseguir o que é ‘possível’ de acordo com os princípios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios, e por meios de troca como fazem os estadistas, então nós iremos logo nos encontrar na mesma situação que o caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu sua arma no processo.” Sim, o PT perdeu sua principal arma!
Com a escolha de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América, os gritos de “fascismo” estão ecoando. No entanto, como veremos, embora Donald Trump seja um empresário grosseiro, fanático e bilionário, ele não é um fascista. O segredo de sua vitória não está na montagem de um movimento de massas para chegar ao poder, mas na falta de fôlego da política do mal menor dos líderes sindicais e da “esquerda”. Sem nenhuma alternativa de classe independente proporcionada pelos sindicatos ou Bernie Sanders, os estadunidenses, sem inspiração, permaneceram em casa em massa, e a balança da vitória foi entregue a Trump pelos trabalhadores do cinturão da ferrugem, cansados das décadas de traições dos Democratas.
A verdadeira lição da eleição de 2016 é que a classe trabalhadora necessita de seu próprio partido. Milhões de pessoas nos estados golpeados pela crise capitalista queriam um “populista” e somente os Republicanos tinham um para oferecer (contra a sua própria vontade). O real significado por trás do termo um tanto desdenhoso e insultante de “populismo”, está o fato de que milhões de pessoas comuns – isto é, trabalhadores, que constituem a vasta maioria desta sociedade – queriam uma mudança real e fundamental. Eles querem empregos para todos, saúde, educação, assistência à infância, infraestrutura, segurança, uma semana de trabalho mais curta e uma melhor qualidade de vida para eles mesmos e seus entes queridos. Eles querem o fim do controle de suas vidas pelas grandes empresas e pelos políticos profissionais.
A raiva contra o status quo está se expressando de diferentes formas. Aproximadamente a metade de todos os eleitores abstiveram-se completamente de votar. Outros escreveram nas cédulas o nome de Bernie Sanders ou votaram por um candidato de algum terceiro partido. Outros votaram por Trump, apesar de sua retórica racista, incluindo 29% de latinos e 53% de mulheres brancas. Para esses eleitores, a promessa de Trump de empregos e estabilidade econômica superou todas as outras considerações. Não surpreende que, dada a história peculiar e as contradições desse país, e sem uma clara direção dos líderes sindicais, muitos estadunidenses tenham caído sob o domínio dos racistas.
A luta contra o racismo
Ao flagelo do racismo, sempre presente logo abaixo da superfície da sociedade estadunidense, foi dada uma canalização e uma legitimação não vista há décadas. Suásticas apareceram por todo o país; alunos cantando “construa um muro!” provocaram seus colegas latinos; mulheres muçulmanas usando hijabs foram agredidas verbal e fisicamente; a KKK anunciou uma parada da vitória na Carolina do Norte; o ex-Grande Mago da KKK, David Duke, considerou a vitória de Trump como “o melhor dia de sua vida”; e os campos de internamento de Japoneses-Americanos durante II Guerra Mundial receberam referências positivas como um “precedente” para o futuro.
A raiva já se transformou em ação e desafio. Mas, para muitos, também há uma sensação de presságio. Nem todos que derramaram lágrima sobre o resultado da eleição são apologistas de Clinton e da ala liberal da classe capitalista. Milhões de imigrantes, de muçulmanos, de pessoas LGBT, de inválidos e outras pessoas atingidas durante a campanha de Trump, temem por seu futuro, por sua segurança, e mesmo por suas vidas. Para coisas tão traumatizantes, há mais do que um consolo. A experiência de vida é o professor mais eficaz e agora está cristalinamente claro para milhões de pessoas que, se quisermos um mundo melhor, teremos de nos envolver e lutar por nós mesmos.
Racismo, xenofobia e sexismo são coisas terríveis de constatar e testemunhar. A intolerância é um veneno desumano e corrosivo que rompe a unidade da classe trabalhadora como nada mais. Os Marxistas defendem genuína igualdade para todos e estão na linha de frente da luta contra todas as formas de discriminação. Entendemos que a raiz do fanatismo está na desigualdade material que resulta das divisões de classe inerentes ao capitalismo.
A humanidade possui os recursos e o know-how para construir um mundo de superabundância. Mas, sob o capitalismo, com sua economia de mercado, com sua implacável busca de lucros e a propriedade das alavancas e chaves da produção nas mãos de um minúsculo punhado da população, somos impedidos de alcançar nosso pleno potencial. Não se trata da impossibilidade de produzir suficientes meios de consumo, mas de que não há demanda suficiente no mercado para esses produtos serem vendidos com lucro. Essa escassez artificial, por sua vez, é utilizada pela classe dominante, para nos lançar uns contra os outros, lutar pelas sobras, culpar uns aos outros, em vez de culpar o sistema por nossa miséria.
Infelizmente muitos na “esquerda”, que se limitam às soluções dentro das fronteiras do capitalismo, também caem nessa armadilha. Para eles a solução é propor, por exemplo, que os trabalhadores “brancos”, “masculinos”, deveriam se contentar com menos para “dar espaço aos outros” – isto é, que a sociedade deveria simplesmente dividir a pobreza imposta pelo capitalismo de forma diferente. Não nos deve surpreender que as pessoas normais, sem importar os seus antecedentes, resistam a isso para proteger ao que é “seu”: suas famílias, seus entes queridos, sua “raça”, seu “gênero”, religião e assim por diante.
O capitalismo não tem mais um papel historicamente útil a desempenhar na organização da sociedade humana. Nos países mais ricos do planeta, somente se pode utilizar 75% da capacidade industrial existente, força-se milhões de pessoas a tolerar a ociosidade forçada do desemprego e permite-se que milhões de pessoas em todo o mundo morram de fome, enquanto os fazendeiros são pagos para não cultivar e encher os armazéns com produtos “invendáveis”. Ao aproveitar todo o potencial produtivo da sociedade, podemos proporcionar empregos para todos, saúde e educação, reduzir a jornada de trabalho e elevar o nível de vida de todos. Em vez de lutar pelas sobras, haveria mais do que o suficiente para ir em frente e a base material da intolerância seria profundamente minada. Sem terreno fértil para apodrecer, a intolerância desapareceria à medida em que as novas gerações criadas em um mundo sem escassez ou necessidades tomassem o lugar daquelas marcadas por sua experiência sob o capitalismo. Por esta razão, dizemos: para combater o racismo, combata o capitalismo!
Contudo, não podemos simplesmente esperar até que comecemos a construir o socialismo para enfrentar este problema. Derrotar o estado centralizado e os vastos recursos dos capitalistas somente será possível na base da máxima unidade da classe trabalhadora. Essa unidade somente pode ser forjada no calor da luta comum contra nossos opressores comuns. Será no curso dessas lutas que o poder da unidade dos trabalhadores será experimentado na ação, e não apenas teorizado. A verdadeira solidariedade exige uma liderança audaz e uma vontade de lutar até o fim, não de meras palavras. O movimento dos trabalhadores deve ir além das denúncias do racismo em discursos. Deve romper com ambos os partidos dos patrões e lutar pelos interesses de todos os trabalhadores em cada local de trabalho, bairro e campus, bem como nas votações através de nosso próprio partido independente de classe. Devemos usar as armas da classe trabalhadora, comprovadas e respeitadas pelo tempo: manifestações de massas, ocupações de locais de trabalho, greves, bem como greves-gerais econômicas e políticas.
Como disse Fred Hampton dos Panteras Negras: “Dizemos que não se luta contra o racismo, com racismo. Lutaremos contra o racismo com solidariedade. Dizemos que não se luta contra o capitalismo com capitalismo negro; luta-se contra o capitalismo com socialismo!”.
É fascista os EUA de Trump?
Superficialmente, pode-se apresentar uma grande quantidade de “evidências” para provar que os EUA agora são fascistas contudo, meramente assegurando algo não o torna assim. O mesmo foi dito de Nixon, Reagan e os dois Bush. Hipóteses superficiais podem ser feitas para tudo. Nossa tarefa é a de ir além das aparências superficiais para entendermos as contradições e processos reais da sociedade. Os Marxistas insistem na precisão científica de nossas análises a fim de lutarmos de forma mais efetiva contra nossos opressores.
O fascismo surgiu historicamente na Itália, na Alemanha e na Espanha devido ao impasse total do capitalismo e ao fracasso de várias tentativas de revolução socialista. Devido a sua liderança colaboracionista de classe, a classe trabalhadora italiana, alemã e espanhola perdeu várias oportunidades de tomar o poder e transformar a sociedade. Em cada um desses casos, um “homem forte” emergiu para preencher o vácuo de poder com uma forma peculiar de ditadura militar “Bonapartista”.
O que tornou o fascismo diferente de uma ditadura militar “normal” foi a base de apoio de massa proporcionada pela “pequena burguesia enraivecida” – pequenos lojistas, profissionais liberais, camponeses de porte médio e seus filhos nas universidades. Nas décadas de 1920 e 1930, essa gente constituía uma camada muito maior da sociedade do que constitui hoje. Desesperadas por escapar do moinho da crise e sem uma liderança da classe trabalhadora, essas camadas “médias” estavam dispostas a tentar qualquer coisa. Quadrilhas de bandidos foram mobilizadas para esmagar os sindicatos dos trabalhadores, os partidos comunistas e socialistas, e o bode expiatório racista foi utilizado para desviar a atenção da fonte capitalista da crise.
Algumas pessoas pensam que algo similar está acontecendo hoje. Mas similar não é necessariamente o mesmo – existem muitas e decisivas diferenças. O capitalismo hoje está de fato em crise grave, mas ainda não está ameaçado de derrubada imediata pela classe trabalhadora. A classe dominante preferia Clinton, mas mesmo assim ainda tem um controle firme sobre o poder político e econômico. Isso é possível, sobretudo devido à atual liderança sindical, que não oferece nada além do fracassado beco sem saída do mal menor.
No entanto, apesar do declínio numérico dos sindicatos durante as últimas décadas, o trabalho organizado continua a ser uma poderosa e decisiva força potencial. Do transporte e das comunicações à educação e à saúde, os trabalhadores sindicalizados detêm tremendo poder em suas mãos. Os sindicatos não foram ilegalizados, desmantelados ou intimidados pela violência. A classe trabalhadora, em geral, ainda pode não estar organizada, mas acima de 100 milhões de estadunidenses são assalariados e, junto com suas famílias e dependentes, constituem a vasta maioria da população.
São precisamente as mudanças demográficas que ocorreram nos últimos 80 anos, que tornaram improdutivos os recorrentes gritos de “fascismo!”. A maioria dos estadunidenses, incluindo aqueles que vivem nas áreas rurais mais conservadoras, são da classe trabalhadora. O número de granjas nos EUA caiu de 6 milhões, em 1935, a apenas 2 milhões hoje. Embora ainda existam muitas granjas pequenas, as granjas corporativas massivas expulsaram os agricultores médios dos pilares sociais da reação fascista. Longe da nação Jeffersoniana de “pequenos camponeses independentes”, os 10% das maiores granjas agora representam 70% das terras de cultivo. Apesar das ilusões de uma passada “Era de Ouro” permanecerem, elas estão sendo rapidamente dizimadas na prática e, finalmente, as questões centrais de classe estão cada vez mais à frente.
As profissões, como as de caixa de bancos, professores e até mesmo muitos médicos, foram proletarizadas a tal ponto que a maioria delas se identifica mais com a classe trabalhadora do que com os super-ricos. Muitos estão agora organizados em sindicatos e associações profissionais e são ativos no movimento organizado dos trabalhadores. Quanto aos proprietários de pequenas empresas, esmagados pelos grandes bancos, fabricantes e importadores, muitos apoiaram Trump e seu populista “Make America Great” por causa de seu retórico “Lutarei pelo cara pequeno!”. O êxito de Sanders nas primárias e cáucuses, mostra que seu apelo por uma “revolução política contra a classe bilionária” poderia ter ganho muitos deles na eleição geral se ele tivesse concorrido como independente. E os campi, que antes eram focos de reação e fascismo – uma vez que a maioria dos estudantes vinham das fileiras dos ricos – agora estão inundados com os filhos profundamente endividados dos trabalhadores.
Então, há indivíduos e grupos fascistas nos EUA hoje, inclusive no governo? Existem pequenos grupos de pequenos burgueses irados e milícias de direita armadas? Se a classe trabalhadora estadunidense fracassar em derrubar o capitalismo e se exaurir, através de seus esforços revolucionários no próximo período, é possível que alguma forma de ditadura militar se imponha? Absolutamente. Mas a base social do fascismo como tal, já não existe, e um período de reação pura e simples, não está na agenda em futuro previsível.
Os que desejarem explorar esta questão com mais profundidade devem se remeter à obra do grande revolucionário Leon Trotsky, que ofereceu uma série de brilhantes ideias sobre a origem e gênese do fascismo, resumidas nesse breve artigo de Fred Weston. Também trabalhamos sobre a questão de Trump, fascismo e outras coisas no artigo What Trump is and How to Fight Him, escrito antes da eleição.
Nenhum mandato!
Donald Trump é uma miserável mediocridade selecionada por meio de um sistema eleitoral obsoleto que se apoia num modo de produção senil e decrépito. Foi eleito por menos de 25% da população em idade de votar e por uma minoria de eleitores reais. Ele será incapaz de cumprir plenamente a maioria de suas promessas e sua base de apoio logo ficará inquieta – especialmente quando a próxima e inevitável crise econômica começar. Em consequência, ele será forçado a se apoiar nas camadas da sociedade mais confusas, atrasadas, racistas e misóginas, para desviar a atenção das questões reais e manter alguma aparência de apoio.
Mas a juventude não vai tolerar isso, particularmente depois da experiência de Black Lives Matter. Desde o assassinato de Mike Brown, o papel da brutalidade policial na defesa dos interesses da classe dominante passou a ser entendido por amplas camadas da juventude. Os protestos espontâneos contra Trump mostram o espírito de luta dessa camada, e isto é só o começo.
Se o fascismo realmente tomou o galinheiro, The Donald não estaria tuitando sobre protestos “injustos” que convergem para a Trump Tower perseguindo-o por todos os lugares onde ele vai. Em vez disso, quadrilhas armadas apoiadas pela polícia teriam limpado as ruas, as turbas de linchamento estariam destroçando as lojas dos imigrantes e os escritórios sindicais, os cadáveres de líderes trabalhistas e esquerdistas estariam empilhados nos necrotérios e a lei marcial manteria cada cidade importante do país em estado de sítio. Isso, obviamente, não aconteceu e não acontecerá em nenhum momento em futuro próximo.
O fato simples é que há mais trabalhadores que capitalistas. Toda a polícia do país não poderia submeter Nova Iorque e Los Angeles por muito tempo no momento em que os trabalhadores começassem a se mover – e muito menos nas mais de 100 cidades dos EUA com populações de meio milhão ou mais de habitantes. O equilíbrio de forças de classe não é nada favorável aos capitalistas e é, precisamente por isso, que eles querem evitar um confronto aberto com a classe trabalhadora. Devem, em vez disso, confiar na austeridade gotejante, no jogo político, nas táticas de “divide e vencerás” e na liderança sindical para fazer o trabalho sujo. Mas as leis da luta de classes acabarão se afirmando, mesmo nos Estados Unidos.
O caminho a seguir
A verdade é que os EUA não são mais racistas, sexistas e homofóbicos do que era antes da eleição. Como explicou Malcolm X, “Não se pode ter capitalismo sem racismo”. O lixo meramente flutuou na superfície. Agora que ele está emergindo, lutaremos com todas as ferramentas que estãoà nossa disposição e, acima de tudo, com a arma mais poderosa de todas: a luta para unir a classe trabalhadora contra o capitalismo.
A maioria das pessoas não sabe que a Grã-Bretanha também viu a ascensão de um movimento fascista nos anos prévios à II Guerra Mundial. Oswald Mosley e suas tropas de choque de “camisas negras” esperavam seguir na esteira de Hitler e Mussolini. Mas os trabalhadores britânicos levaram a sério o conselho de Trotsky – de que eles podiam “esfregar as caras dos fascistas no chão”. Na Batalha de Cable Street, os trabalhadores unidos construíram barricadas e cortaram a ameaça da reação através da ação de massa. Isso cortou a ameaça de fascismo na Grã-Bretanha , na raiz. Em 1948, Ted Grant escreveu uma brilhante peça sobre o fascismo em que explica essa experiência em grandes detalhes.
Sejamos claros: os Marxistas não estão a favor da violência. Entendemos que, uma vez que a classe trabalhadora perceba sua própria força, nada em cima da Terra pode detê-la. Em consequência, uma revolução pacífica e incruenta é inteiramente possível. No entanto, não ficaremos de braços cruzados enquanto nossas irmãs e irmãos são insultados, humilhados, assaltados, assassinados ou levados ao suicídio. O movimento dos trabalhadores deve enfrentar qualquer violência ou ameaça de violência com o poder esmagador da unidade da classe trabalhadora, até com greves de solidariedade e com a formação de uma guarda armada de autodefesa dos trabalhadores para nos proteger e aos nossos irmãos e irmãs de classe.
A classe trabalhadora estadunidense terá muitas oportunidades para dar um fim a esse sistema antes que o perigo da reação em massa levante sua cabeça. Condições semelhantes levam a resultados semelhantes, e os EUA não são imunes à revolução. A crise do capitalismo acabará por conduzir a uma luta combinada dos trabalhadores. Basta uma greve vitoriosa para mudar toda a aparência e o estado de ânimo do movimento dos trabalhadores e desencadear uma luta tormentosa. Mas, por mais importante que seja lutar contra este ou aquele patrão ou político, isso não é suficiente. O que necessitamos é de uma revolução.
Uma revolução representa a luta unida de toda a classe trabalhadora contra o poder concentrado de toda a classe capitalista. Mas o êxito da revolução não está garantido antecipadamente, não importa quantos sacrifícios façam os trabalhadores. A lição do século XX é que tudo depende do tipo de liderança que esteja à cabeça das organizações dos trabalhadores, uma vez começado o confronto decisivo. É por esta razão que não exageramos quando dizemos que o êxito da revolução socialista depende do que fizermos hoje para construir as forças do Marxismo revolucionário.
Não há mais espaço para a complacência ou para ficar à margem em um mundo como este. Acreditamos que os interesses de bilhões de pessoas superam os interesses dos bilionários! Se você concorda, junte-se à CMI!
Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria - bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo, mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo que a História tem de sobra.
Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.
- Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.
- A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.
- Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas...
- As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?
- Eu queria falar com a senhora sobre o Brasil de 2016.
- Brasil, Brasil...
- PT. Lula. Impeachment.
- Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo...
- O que significou tudo aquilo?
- Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.
- Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?
- Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima Era isso que estava acontecendo.
Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivos e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.
via http://www.socialistamorena.com.br/por-que-socialismo-por-albert-einstein/
(Einstein de bike em 1933)
Em maio de 1949, o físico alemão radicado nos EUA Albert Einstein (1879-1955) resolveu escrever um artigo defendendo o socialismo na revista de esquerda norte-americana Monthly Review, que acabava de ser lançada. Nele, Einstein diz por que advoga uma visão socialista do mundo. Quanta atualidade no que ele diz!
Este é o texto que inspirou o pré-candidato à presidência dos EUA, Bernie Sanders, a se definir como socialista ainda na juventude. “Uma vez perguntei para ele o que queria dizer com ‘socialista’ e ele se referiu a um texto que também tinha sido fundamental para mim, ‘Por que socialismo?’, de Albert Enistein”, conta um amigo de Bernie, Jim Rader, neste artigo. “Acho que a ideia básica de Bernie sobre socialismo é tão simples quanto a formulada por Einstein.”
É aconselhável que alguém que não é um expert em assuntos econômicos e sociais expresse suas visões sobre o socialismo? Acho que sim, por várias razões.
Vamos primeiro considerar a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Pode parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre astronomia e economia: cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis gerais para aplicar a certo grupo de fenômenos e possibilitar que a inter-relação desses fenômenos seja tão compreensível quanto possível. Mas na realidade essas diferenças metodológicas existem. A descoberta de leis gerais no campo da economia se torna difícil pelo fato que os fenômenos econômicos analisados são frequentemente afetados por diversos fatores muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o começo do chamado período civilizado da história humana tem, como bem sabemos, sido largamente influenciada e limitada por causas que não são exclusivamente econômicas por natureza. Por exemplo, a maioria dos países mais importantes deve sua existência à conquista. A conquista de outros povos os estabeleceu, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Eles conquistaram para si mesmos o monopólio da propriedade de terra e escolheram líderes eclesiásticos entre suas próprias fileiras. Os padres, no controle da educação, transformaram a divisão de classes da sociedade em uma instituição permanente e criaram um sistema de valores no qual as pessoas passaram a guiar seu comportamento social, muitas vezes inconscientemente.
Mas a tradição histórica é, por assim dizer, de ontem; em lugar algum realmente superamos o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem àquela fase e até mesmo as leis que derivam deles não são aplicáveis a outras fases. Como o real propósito do socialismo é precisamente superar e avançar a fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência econômica em seu estado atual pode jogar pouca luz na sociedade socialista do futuro.
Em segundo lugar, o socialismo objetiva um fim ético-social. A ciência, no entanto, não pode criar fins e muito menos inculcá-los em seres humanos; a ciência pode fornecer, no máximo, os meios para atingir certos fins. Mas os fins são concebidos por personalidades com elevados ideais éticos –quando estes fins não são natimortos, mas vitais, vigorosos–, e são adotados e levados adiante por aqueles muitos seres humanos que, parte deles de forma inconsciente, determinam a lenta evolução da sociedade.
Por estas razões, temos de estar atentos para não superestimar a ciência e os métodos científicos quando se trata de uma questão de problemas humanos; nós não deveríamos presumir que os especialistas são os únicos que têm o direito de se expressar em questões que afetam a organização da sociedade.
Incontáveis vozes vêm assegurando há algum tempo que a sociedade humana está passando por uma crise, que sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que indivíduos se sintam indiferentes e até hostis ao grupo, pequeno ou grande, ao qual pertencem. Para ilustrar o que digo, deixe-me recordar uma experiência pessoal. Recentemente discuti com um homem inteligente e bem disposto sobre a ameaça de outra guerra, o que, em minha opinião, poderia seriamente pôr em risco a existência da humanidade, e salientei que somente uma organização supra-nacional poderia oferecer proteção contra este perigo. Em seguida, meu visitante, muito calma e friamente, disse: “Por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”
(Einstein de pantufas)
Tenho certeza que até um século atrás ninguém faria uma declaração destas com tamanha tranquilidade. É a declaração de um homem que que se esforçou em vão para alcançar o equilíbrio consigo mesmo e que de certa maneira perdeu a esperança de conseguir. É a expressão de uma dolorosa solidão e isolamento que muitas pessoas estão sofrendo atualmente. Qual é a causa? Há alguma saída?
É fácil levantar tais questões, mas é difícil respondê-las com algum grau de certeza. Eu devo tentar, entretanto, da melhor maneira que posso, apesar de estar muito consciente do fato de que nossos sentimentos e impulsos são frequentemente contraditórios e obscuros e não podem ser expressados em fórmulas simples e fáceis.
O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social. Como um ser solitário, ele tenta proteger sua própria existência e a daqueles que lhe são mais próximos, para satisfazer seus desejos pessoais e desenvolver suas habilidades natas. Como um ser social, ele procura ganhar o reconhecimento e a afeição dos seus semelhantes, compartilhar prazeres com eles, confortá-los em suas dores, e melhorar suas condições de vida. Somente a existência dessas variadas aspirações, frequentemente conflitantes, contribui para o caráter de um homem, e a específica combinação delas determina quanto um indivíduo pode conquistar em equilíbrio interno e ao mesmo tempo contribuir para o bem estar da sociedade. É possível que a relativa força destes dois impulsos seja, na maioria, herdada. Mas a personalidade que finalmente emerge é formada pelo ambiente em que o homem se acha durante seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade onde ele cresce, pela tradição daquela sociedade e pelo apreço dela por tipos particulares de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa o indivíduo humano sendo a soma total das suas relações diretas ou indiretas com seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo pode falar, sentir, ambicionar e trabalhar por si mesmo; mas ele depende tanto da sociedade –em sua existência física, intelectual e emocional– que é impossível pensar nele, ou entendê-lo, fora da moldura da sociedade. É a sociedade que lhe dá comida, roupas, um lar, as ferramentas de trabalho, o idioma, as formas de pensamento e a maioria dos conteúdos de pensamento; sua vida se torna possível através do trabalho e das habilidades de muitos milhões no passado e no presente que estão ocultos detrás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente, portanto, que a dependência de um indivíduo em relação à sociedade é algo natural, que não pode ser abolido –assim como ocorre com as formigas e as abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e das abelhas é fixado até os mínimos detalhes por rígidos instintos hereditários, o padrão social e os inter-relacionamentos dos seres humanos são muito variáveis e sujeitos a mudanças. Memória, a capacidade de fazer novas combinações e o talento da comunicação oral tornaram possíveis acontecimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Tais acontecimentos se manifestam em tradições, instituições e organizações; em literatura; em conquistas científicas e de engenharia; em trabalhos artísticos. Isto explica como, de certa forma, o homem pode influenciar sua vida através da conduta, e que neste processo o pensamento e a vontade consciente podem desempenhar um papel.
O homem adquire no nascimento, por hereditariedade, uma constituição biológica que podemos considerar fixa e inalterável, incluindo as necessidades características da espécie humana. Mas, durante sua vida, ele adquire da sociedade também uma natureza cultural, através da comunicação e muitos outros tipos de influências. É esta natureza cultural que, com a passagem do tempo, é objeto de mudança e determina a maior parte das relações entre indivíduo e sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, ao fazer comparações com as chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode ser enormemente variado, a depender dos padrões culturais e do tipo de organização que predomina na sociedade. É nisto que aqueles que se empenham em melhorar a condição humana devem fundamentar suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, por sua natureza biológica, a aniquilar uns aos outros ou estar à mercê de um destino cruel auto-infligido.
(Einstein na praia em Long Island em 1939)
Se nos perguntarmos como a estrutura da sociedade e a natureza cultural do homem pode ser mudada para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar constantemente conscientes de que há certas condições que não somos capazes de modificar. Como mencionei, a natureza biológica do homem não é, para qualquer propósito prático, sujeita à mudança. Além do mais, os avanços tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações relativamente densas, com os bens que são indispensáveis à continuidade de sua existência, uma divisão extrema do trabalho e um aparato produtivo altamente centralizado são absolutamente necessários. Foi-se o tempo –que, olhando para trás, parece tão idílico– em que indivíduos ou pequenos grupos podiam ser completamente auto-suficientes. Há pouco exagero em dizer que a humanidade se constitui em uma comunidade planetária de produção e consumo.
Cheguei no ponto onde posso indicar brevemente o que para mim constitui a essência da crise de nosso tempo. Tem a ver com a relação entre o indivíduo e a sociedade. O indivíduo se tornou mais consciente do que nunca de sua dependência em relação á sociedade, mas ele não vê esta dependência como algo positivo, como um laço orgânico, uma força protetora, e sim como uma ameaça a seus direitos naturais ou até mesmo à sua existência econômica. Mais ainda, sua posição na sociedade reforça que os impulsos egoístas de sua natureza sejam constantemente acentuados, enquanto seus impulsos sociais, naturalmente mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, não importa que posição tenha na sociedade, estão sofrendo este processo de deterioração. Prisioneiros, sem se dar conta, de seu próprio egoísmo, se sentem inseguros, sozinhos e privados do simples, primitivo e sem sofisticação desfrute da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, somente se devotando à sociedade.
A desordem econômica da sociedade capitalista que existe hoje é, em minha opinião, a real fonte do mal. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros estão se esforçando em privar uns aos outros dos frutos do trabalho coletivo –não pela força, mas em total cumplicidade com regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante perceber que os meios de produção –quer dizer, a total capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo assim como os bens de capital– podem ser legalmente, e a maioria é, propriedade privada de indivíduos.
Para simplificar, a seguir chamo de “trabalhadores” todos aqueles que não compartilham a propriedade dos meios de produção –apesar de não corresponder exatamente ao costumeiro uso do termo. O dono dos meios de produção está em posição de usar a força de trabalho do empregado. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e como ele é pago, ambos medidos em termos de valor real. Como o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas por suas mínimas necessidades e pela demanda capitalista por força de trabalho em relação ao número de trabalhadores competindo pelas vagas. É importante entender que até mesmo em teoria o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.
O capital privado tende a ficar concentrado em poucas mãos, parte por causa da competição entre os capitalistas, e parte porque o avanço tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores em detrimento das menores. O resultado disso é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser efetivamente questionado nem mesmo por uma sociedade democraticamente organizada politicamente. Isto se comprova quando sabemos que os membros das casas legislativas são selecionados pelos partidos políticos, largamente financiados ou pelo menos influenciados por capitalistas privados que apartam o eleitorado da legislatura para todas as finalidades práticas. A consequência é que, na realidade, os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos setores menos privilegiados da população. Pior: normalmente, os capitalistas inevitavelmente controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É então extremamente difícil, e em alguns casos impossível, para o cidadão, chegar a conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.
A situação dominante em uma economia baseada na propriedade privada do capital é, assim, caracterizada por dois fatores principais: primeiro, os meios de produção (capital) pertencem a proprietários que os utilizam como querem; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro, não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. De fato, é preciso notar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, tiveram sucesso em assegurar uma forma melhorada do “contrato de trabalho livre” para certas categorias. Mas, tomando-se como um todo, a economia de hoje não se difere muito do capitalismo “puro”.
A produção é guiada pelo lucro, não pelo uso. Não existe garantia de que todas as pessoas hábeis para o trabalho estarão sempre em condições de achar emprego; um “exército de desempregados” quase sempre existe. O trabalhador vive em constante medo de perder seu emprego. Já que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não constituem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita, e a consequência é um grande sofriment . O progresso tecnológico frequentemente resulta em mais desemprego, em vez de reduzir o fardo de trabalho para todos. O desejo de lucro, em conjunção com a competição entre os capitalistas, é responsável pela instabilidade na acumulação e utilização do capital, que leva a depressões cada vez mais severas. Competição sem limite leva a um enorme desperdício do trabalho e à deterioração da consciência social dos indivíduos que mencionei antes.
Eu considero esta deterioração dos indivíduos o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educacional sofre deste mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que é treinado para idolatrar o sucesso adquirido como uma preparação para sua futura carreira.
(Cabelos ao vento)
Estou convencido de que só há um modo de eliminar estes males, o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada de um sistema educacional orientado por objetivos sociais. Numa economia assim, os meios de produção são de propriedade da sociedade e são utilizados de uma forma planejada. Uma economia planejada que ajusta a produção às necessidades da comunidade distribuiria o trabalho a ser feito entre os que são hábeis para trabalhar e garantiria o sustento a todo homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades natas, faria com que se desenvolvesse nele um senso de responsabilidade por seus semelhantes em vez da glorificação do poder e do sucesso da sociedade atual.
É necessário lembrar que uma economia planejada ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode vir acompanhada pela completa escravização do indivíduo. A conquista do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: como é possível, tendo em vista a abrangente centralização do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e onipotente? Como os direitos do indivíduo podem ser protegidos para garantir um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
Ter clareza sobre estas questões e problemas do socialismo são de grande significado nesta época de transição. Como, sob as circunstâncias atuais, a discussão destes problemas de forma livre e sem obstáculos se tornou um tabu poderoso, considero que a fundação desta revista representa um importante serviço público.