Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Nostalgia de natal


Há determinadas épocas do ano nas quais afloram sentimentos especiais, como se a nos enquadrarem em comportamentos uniformes, nos quais se incorporam um espírito do tempo específico:
— há quem fique especialmente alegre no Natal e há quem fique nostálgico; 
 há quem fique triste por não poder corresponder à indução midiática para o consumo; 
 há uns poucos, em relação ao total da população, que podem dar azo ao consumismo desenfreado;
 há quem que se comova com o olhar triste do menino pobre diante do majestoso circo por não poder comprar o ingresso;
 há quem leva os seus filhos ou netos num carro de luxo e compra a entrada desse mesmo circo, sentando num camarote como se fosse um vitorioso nessa coisa insuportável e excludente que é o conceito de vencer na vida;
 há quem tenha a sensibilidade de saber que é efêmera a glória do acrobata do circo, ainda jovem a realizar proezas nos sofisticados e novos mecanismos de riscos circenses, e lamente que aquele corpo logo, logo, perderá as suas forças e deverá ser deslocado para uma função administrativa (venda de ingressos, montagem das lonas, consertos gerais, etc.), ficando então privado do glamour dos aplausos admirados do público;
 há quem sinta uma tristeza profunda ao lembrar-se de tantos amigos e familiares que outrora brindaram com um bom vinho ou champanhe a gostosa ceia de natais passados, pessoas que agora já não tem mais junto de si, com a ceia já resumindo, quando muito, a um hot dog na carrocinha da esquina;
 há quem, sofrendo de solidão nos caminhos que a vida lhe impôs, desejaria ter pelo menos um ombro amigo para tomar nem que fosse apenas um gole de cachaça barata, jogando conversa fora;
 há quem esteja eufórico por atravessar um momento especial da vida e cante a música de Tom Jobim e Chico Buarque que diz “parece dezembro, de um ano dourado...”; 
 há quem esteja decepcionado com as falácias dos políticos (como aqueles nos quais acreditou), que se diziam expoente de uma nova política, pois constata agora que a política é, de modo atemporal, sempre um vale-tudo do jogo de poder que iguala todos numa massa homogênea de submissão a uma ordem econômica de segregação e imposição de seus mecanismos funcionais;
 há quem esteja regozijado pelo motivo oposto, ou seja, por ver que se processa um adeus às ilusões no campo político, podendo isto descortinar não apenas um ano de novas perspectivas transformadoras, mais de uma era de afirmação das melhores virtudes humanas; 
 há quem conserve a esperança de que dias melhores virão;
 há quem tenha perdido as esperanças e se enquadre no jargão da música popular que diz “deixa a vida me levar, vida leva eu”, sem nada questionar;
 há quem tome todas, simplesmente porque a incitação natalina é para ser feliz e bonachão como o bom velhinho gordo e vestido com roupa do frio siberiano nestes trópicos de tempos de aquecimento global;
 há quem durma mais cedo que de costume para evitar que os “guizos falsos da alegria” agridam a sua tristeza interior;
 há quem, no exato dia de Natal, conheça um novo amor e acredite na eternidade do mesmo, pelo menos enquanto dure;
 há quem, enfastiado com as aparências de uma amor falido, resolva romper definitivamente com as ditas cujas, induzido pela busca de felicidade que o espírito do tempo natalino quer sugerir;
 há quem reflita sobre tudo de errado que fez e prometa que não vai repetir tai erros, mesmo sabendo da impossibilidade da perfeição nos acertos;
 há quem avalie que os acertos foram maiores do que os erros e tenha a esperança de diminuir ainda mais tal proporção;
 há quem se disponha a não aceitar a opressão sistêmica e prometa a si mesmo ir para as ruas reforçar o coro dos excluídos e/ou conscientes, mesmo sabendo que os democratas que estão no poder ungidos pelo voto sonham com um novo AI-5;
 há quem se endivide acima de suas possibilidades somente para ostentar poder de compra, o qual, no capitalismo, é critério de aceitação social, entrando assim na roda viva dos juros extorsivos que lhe são impostos;
 há quem não dê bola para esse consumismo natalino e espera as festas passarem para, aí sim, comprar num verdadeiro black friday decorrente da lei da oferta e procura, ou seja, da queda nas vendas;
— há um frenesi nos shoppings centers que apenas uns 30% ou menos da população podem frequentar, universo que, ainda assim, representa muita gente, dando-nos a falsa impressão de que tudo vai bem;
 há uma tristeza que invade as mentes dos milhões de trabalhadores desempregados ao verem seus filhos esperançosos de que o Papai Noel vá lhes dar o presente desejado, pois jamais poderão corresponder a tais expectativas naquele momento (afinal, o Papai Noel somente existe para quem pode pagar);
 há uma alegria das crianças que puderam se beneficiaram da iniciativa de alguém da favela que foi angariar presentes para alegrar-lhes o Natal;
 há algo de bom na condição humana, que independe de datas para ser transformado em alegria...

Que doravante todos os dias, e não apenas o Natal, sejam permeados pelo espírito da solidariedade e generosidade para com o nosso semelhante! (por Dalton Rosado)



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O EXCELENTÍSSIMO SENHOR PREFEITO É UM PERFEITO... HISTRIÃO!!!

O EXCELENTÍSSIMO SENHOR PREFEITO É UM PERFEITO... HISTRIÃO!!!

Histrião: diz-se de um homem miserável e envilecido, que se faz notar pela abjeção dos atos que pratica. 

Histrionar é oferecer um espetáculo cômico, contrair a face grotescamente, vestir-se com espalhafato. Histrionar também significa pôr para fora a miserabilidade das dores humanas. Dá no mesmo.  

Se Caldas Aulete estiver certo nessas definições, está explicado por que alguns governantes, ao assumirem posturas histriônicas, podem estar praticando catarse, quer dizer, aliviando suas almas das próprias miserabilidades humanas. O perigo é que está em jogo a sobrevivência dos governados. 

Atemorizam o eleitorado tais governantes histriônicos empenhados a expulsar conteúdos internos tenebrosos. Nestes casos, agita-se a lei natural de sobrevivência dos súditos. 

Eu não conseguiria produzir mais do que uma notinha de umas 8 linhas sobre o tema. O assunto é bom mas não  estou bom para o assunto. Invade-me uma implacável indignação com o sarcasmo de histriônicos governantes, durante a propaganda eleitoral e a partir do instante em que assumem o poder.
Jânio Quadros, professor que se fingia de pobretão.

Governantes sérios pelo menos nas expressões faciais, com posturas comedidas, se não para merecerem credibilidade, indispensáveis para se cumprir educadamente o cerimonial do cargo e evitarem o ridículo. Esta é a exigência mínima para quem se satisfaz com a democracia que aí está.

Sem ânimo para listar pelo menos meia dúzia de personagens marcadamente histriônicos da vida do Brasil, falarei então de dois deles, um antigo, um atual.

O Brasil submergia na guerra civil da inflação de 100% ao ano, na estagflação, no assédio militar por golpes de estado, e eis que é premiado com um leve e solto Jânio da Silva Quadros, homem de discursos inflamados, a proibir, quando presidente, o uso de  biquínis nas praias e o acesso de funcionárias públicas ao trabalho de minissaia.
João Dória travestido de gari...
Candidato a presidente teatralmente descabelado, histrionicamente descabelado, Jânio vestia roupas amassadas, espalhava talco no paletó escuro para parecer caspento e ostentava sanduíches de mortadela nos bolsos. 

Eu sou um homem pobre! era um de seus bordões. varre, varre, vassourinha, varre varre a bandalheira, a música com que Jânio prometia acabar com a corrupção, equilibrar as finanças públicas e diminuir a inflação. O povo acreditou, o povo sempre acredita, tamanho o poder de convicção das histrionices. 

Possa falar? Jânio foi meu professor de Português e de minhas três irmãs no ginásio Vera Cruz, no Brás. Minha mente infantil já parodiava então as sagradas escrituras; as muitas letras que tinha o faziam delirar, supunha eu.

Passemos ao segundo histriônico a que me referi, permitam-me: João Agripino da Costa Dória Júnior, eleito prefeito de São Paulo 
...e comendo pastel de feira.

De antepassados abastados, ele mesmo um abastado às próprias custas. Nada contra. Como trabalha esse moço, desde criança! 

Os ricos, melhor dizendo osempreendedores oferecem o maior bem que um humano pode aspirar, que é o emprego. Muito bom. Pelo menos enquanto nosso cambaleante sistema capitalista e sua vampiresca globalização conseguirem se manter de pé. 

Pelo visto até agora, tais as histrionices trombeteadas desde o período da propaganda eleitoral até a posse, pode-se dizer ao mundo, não a São Paulo apenas, que esta quarta metrópole do planeta começa a ser governada por um garoto que se fantasiou de gari (feito um palhaço de vassoura na mão a varrer as ruas...), de poses estudadas para as câmeras como grande gestor. 

Não, não, esta não, não é verdade. Dória sempre esteve mergulhado até o pescoço, isto sim, nas lides políticas. 

Um ator que coloca tapumes e telas nos viadutos para ocultar moradores de rua. 

Que chega sôfrego, com o pêndulo da direita, para tirar o leite das crianças e o transporte escolar.  

Há nos histriônicos algo dos risos dos palhaços tristes.
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-excelentissimo-senhor-prefeito-e-um.html

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ASSIM FALOU O HOROSCOPISTA ACIDENTAL


"O ano de 2017 vai enriquecer a sua personalidade. Você terá mais força, mais persistência e mais equilíbrio. Um bom ano para encontrar a paz interior. Até setembro haverá grande necessidade de autoaperfeiçoamento no plano global e um aumento de consciência coletiva. Muitos de nós vamos nos conseguir fazer entender, reivindicar e abrir uma nova era."
(horóscopo pinçado na web: espertalhões
falam sempre o que os otários querem ouvir)
Ano novo, esperançosa temporada de se buscar novos e floridos caminhos.

Sucede que, desde que pela primeira vez senti cheiro das donzelas, em inacreditáveis verdes anos, venho empregando um procedimento científico para ver como são agora as amazonas de tal ou qual signo, em relação ao meu. 

Sempre fiz questão de combinar com elas. Pois não é uma vereda cheia de flores? Hoje, empoeirado pelo chão desértico de tantos atalhos explorados, acabei por concluir: quem ama e pensa, não ama, pensa. 

O procedimento científico que usei é a perseverante observação, complementada pela comparação, indução e dedução. 

Ridículo. Homem de sucesso com as mulheres é aquele alto, topetão, voz de trovão, de formas agradáveis, proporções harmônicas, graça exemplar da evolução das espécies, de Charles Darwin.

Então. Antes de começar namoro, os da minha espécie inferior se defendiam esquadrinhando os signos. 

Meu bondoso e paciente pai me disse que ele poderia ficar pirado um dia, neste mundo qualquer um está sujeito; mas não seria fazendo essa pesquisa, desde os verdes anos até os maduros. 

Pior era um amigo meu, da Mooca, darwiniano legítimo, verdade, cara do ator italiano Marcello Mastroianni melhorado. Ele contava piadas para as namoradas e quando a eleita do seu coração abria a boca para rir, se exibisse um resquício de cárie anti-darwiniana no mais longínquo molar, o namoro não engatilhava.    

Então. É a evolução das espécies, ora.

Curiosamente, nas minhas observações, via uma mulher de tal ou qual signo, virtuosa, e uma outra, do mesmo signo, nem tanto. Via um colega sacerdote de um signo e outro, do mesmo signo, com problemas com a polícia. Um violento de um signo e outro um carneirinho do mesmo signo. Alguns com muita sorte de um signo e outros do mesmo signo, nem tanto. 

Conclusão científica: o signo não tem nada a ver com o caráter nem com a lei das probabilidades de bem suceder. Deve ter algo a ver com o humor.

Minhas observações mostram, sim, que o signo não pode determinar o caráter de alguém. Se não, vejamos. 
Acredite quem quiser...
Deduções: o destruidor de vidas Hitler era de Áries. Alma doce, mundialmente querido, Charles Chaplin, um dos maiores críticos do próprio Hitler, também era de Áries. Este que vos aborrece escrevendo estas mal traçadas linhas, igualmente é de Áries. Desato a soluçar até em inauguração de posto de gasolina.

Dizer que, por carregar nas costas tal ou qual signo, alguém é bondoso ou mau, líder ou liderado, honesto ou desonesto, que pode viajar de avião ou não pode, que deve ser prudente ao volante, que está sujeito a gripe, que vai receber uma carta, que precisa ficar calmo, resistir às tentações e que terá negócios fáceis com Júpiter na triangulação, mas precisa cuidar da alimentação, é dose. Tomada de cena: sorrisinho crítico de quem ouve falar nessas coisas.

No entanto, minhas honradas investigações me levaram a uma conclusão muito séria. Trata-se mais de uma percepção e isto não se explica cientificamente.Tenho a minha percepção e vocês têm as suas. 
Vejam bem: somos influenciados por tudo o que nos cerca, palavras, atitudes, o berro no ouvido, as belezas naturais, a cruel força bruta, os humanos bondosos por natureza, o céu bordado de estrelas, a água transparente do mar, o furacão, o regato, essa lindeza de águas límpidas a descer cambaleando pelas matas como louco, qual bêbado deixando o bar de madrugada.

Quando faz sol, temos um humor. Quando não faz, outro. Quando é lua cheia, um. Quando não, outro. Vivemos ou não hipnotizados por tudo o que nos cerca? Nosso humor não estaria condicionado a tais forças, esses enormes globos flutuando no cosmo, girando, afastando-se, aproximando-se? Não estaria o nosso humor influenciado pela criação ao nosso redor? 

Então. As almas que nascem sob determinadas influências, em tal ou qual momento, com tal e qual lua, com tal e qual planeta, não seriam, talvez, possuidoras de tal ou qual fluído, uma energia, uma atmosfera (achei!) que pode ou não combinar com as das outras pessoas? Não é complicado.

Então. As atmosferas se entrechocariam ou se afinariam, dando bom casamento ou não, boas amizades ou não, relações comerciais ricas ou não. Mas daí a dizer, como ouvi de um amigo, que por ser de tal signo tinha direito a sete mulheres, é o fim do mundo, embora um aprazível fim do mundo. O que o astrólogo dizia é que no planeta Terra existe uma proporção de sete mulheres para cada homem, e desta bênção não se pode reclamar.

Então. Minha brincalhona pesquisa revela que, se uma pessoa pôs tanta amargura em teu pobre coração, estimado leitor, ou leitora, sejam quais forem os seus signos, as suas atmosferas não se casaram. O certo, então, seria cada um procurar a suaatmosfera gêmea, ou trigêmea, pouco importa, sem se amargurar.

Quanto ao meu signo, nas minhas observações de décadas, constatei que num ponto os horoscopistas parecem ter alguma razão: eles dizem que Áries combina com Aquário, Sagitário e Leão.  Destes três, para mim, tem sido melhor Leão. No entanto, já ouvi mulher de Leão dizer que detesta Áries. Durma com um barulho desses.

Com mulher de Leão, eu sou mais eu, embora já tenha combinado, e bem, e as pesquisas não explicam, com Aquário, Áries, Gêmeos, Capricórnio, Câncer, Libra, Touro. Com todos os signos. 

E com que excelência coexisto com a doce mulher de Touro! Quer saber mais? Sabe aquele olhar estonteante, aqueles lábios de seda? Essa hipnótica expressão do rosto feminino acaba com a minha pesquisa, essa é que é a verdade. Mas que signo!

Estas questões não devem preocupá-los, amáveis leitores e leitoras, sejam vocês de tal ou qual signo. Com a Lua minguante em sextil a Júpiter e Saturno, nada a temer em 2017.  

Mas, ouçam os astros! Eles, os astros, estão certos em recomendar cautela ao manobrar o carro em ruas movimentadas e ficar esperto ao atravessar a Radial Leste. 
(por Apollo Natali)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/divagacoes-de-um-horoscopista-acidental.html

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O APLICATIVO DA SUBTRAÇÃO DE BENS ALHEIOS FOI INSERIDO NAS COSTELAS QUE FORMATARAM O HOMEM. COMO REMOVER?

ENSAIO SOBRE A SUBTRAÇÃO
. 
Não se iludam: o ser humano não presta! 

Um professor de Direito da USP começava cada aula recitando solenemente tal imprecação.  

Exposta a récita com autoridade de catedrático, a sentença soava desconcertante. O calouro é demasiado impressionável. Balancei no meu idealismo, pois acreditava que o curso de Direito poderia me qualificar a fazer alguma coisa de bom para o Brasil. 

No entanto, a sobressaltar minha santa ingenuidade, outro professor ressaltava que a Faculdade de Direito era o escoadouro das profissões indefinidas. 

Mais um outro me arremessava então diretamente para o abismo da descrença. Sentenciava, off the record, que o jovem começa a trilhar o caminho da corrupção política quando ingressa na Faculdade de Direito. Por coincidência, a maioria dos ditos representantes do povo no governo procede das escolas de Direito. 

Após sofrer violentíssimo trote em 1964, discursei no palanque de pedra do Largo São Francisco. Um pouco ensanguentado, para a multidão que se reuniu eu clamei: daqui saem os políticos que vocês elegem e deixam vocês peladinhos. Aqui estão os que estudam com o dinheiro de vocês.

Verdadeiramente, parlamentares corruptos transformam a democracia e o espaço republicano numa caverna de Ali Babá. 

Utopia: se fossem todos honestos o Brasil seria o país respeitado que todos sonhamos. Que pena.  

Há vida no entorno do quadrilátero das leis? – eu me desesperava.

Fazer o que para meu país, eu me perguntava no meio de 400 alunos do período da manhã, debaixo das decantadas arcadas. 

Como ajudar meu Brasil a se depurar das conseqüências de suas raízes de 358 anos de regime escravagista, três períodos monárquicos absolutistas e 50 presidentes da República, cada um deles sempre despertando esperanças natimortas de melhora das condições de vida dos brasileiros?

Já disse isto em algum lugar: do descobrimento até o chamado Governo Geral, a então Terra de Santa Cruz vivera sob o signo do arbítrio, campo fértil para livres roubalheiras. Para tomar posse da terra definitivamente e defendê-la contra invasores e ladrões de ouro, madeira, território, Portugal instalou em 1549 tal governo. 

Os três governadores gerais, o militar Tomé de Souza e os fidalgos Duarte da Costa e Mem de Sá, são identificados pela História como sobejamente corruptos. 

Todo homem é fraco e ladrão, rezava Tomé de Souza. Ele sofria de uma doença chamadamedo da pobreza.  Será este o embrião da compulsão para subtrair?   
Tomé de Souza de mão estendida... para receber o que

Pois é o que venho rastreando, tal porquê multimilenar de os integrantes da espécie humana, em sua brevíssima peregrinação pela terra, subtraírem bens, direitos, corações, afetos. Meter a mão em tudo o que não é deles.

A cada três horas nasce um ladrão no mundo, garantia antiga pesquisa trabalhada pelo país das pesquisas, os Estados Unidos. Hoje seriam três minutos?

Nem mesmo uma pitadinha de religião desvenda o enigma: por que o ser humano vive a subtrair? Segundo a Revelação, o coração de todo ser humano é corrupto. A corrupção está dentro do homem e profundamente instalada. Há uma tendência para a corrupção, desde a tenra idade. O ser humano é corrupto por natureza. Caramba!!!      

Minha santa ignorância encoraja-me-me tão somente a me valer deste ensaio para cavocar um mínimo de entendimento sobre esta doença incurável de se subtrair intermitentemente bens materiais e morais. E o ensaio, como já opinei em algum lugar por aí, é um texto em que se rodeia um determinado tema, envolvendo-o, cercando-o e o emboscando, para, no fim, muito se falar e nada se dizer. E que culpa tenho eu?

Meu catedrático, se estiver certo, e está (quero ver quem vai conseguir provar o contrário!), não circunscreve em sua sentença apenas aquela cultura de corrupção despachada para o Brasil nos costados das caravelas. A endemia de subtrair não contagiaria só àqueles portugueses rijos. 

Ensaiando ainda, prosseguindo na tentativa de destrinchar o porquê do eterno movimento repetitivo de subtrair, imagino que o poder maior que criou os homens deve ter esquecido de tirar o aplicativo da subtração inserido nas costelas que os formataram. Brincadeirinha.

O ser humano não presta, o homem é fraco e ladrão, o Direito é o ralo das profissões indefinidas, a corrupção política começa na Faculdade de Direito. Que ensino tencionavam compartilhar meus queridos professores da Academia? 

O Brasil é o país mais corrupto do mundo. Também já disse isto em algum lugar.

Este o bordão que faltou nas faixas e nos gritos durante os protestos populares de junho de 2014, a reivindicarem saneamento político. Os manifestantes se arrepiavam de emoção diante do Hino Nacional mais belo do universo, mas talvez não tenham se dado conta de que neste quesito de subtrair, o Brasil dá de goleada no resto do mundo. 

Ao tempo dos protestos nas ruas, disseram as cartas dispostas na mesa em pesquisa da Transparência Internacional. que os brasileiros consideram corruptos ou muito corruptos os políticos e instituições como o Congresso, a polícia, o sistema de saúde, o Judiciário, o funcionalismo público, imprensa, Ong's, Igreja. Estão tecnicamente empatados com os outros países em nível de corrupção nossas Ong's, a imprensa, a Igreja, o setor privado e o militar.

Dia vai dia vem, nos 5l6 anos de existência do país, os brasileiros têm convivido conformada e pacificamente com a impune subtração dos bens públicos, sem ao menos entrever-se um quê de trovejar para despertar deste sono profundo. 

Investigações, julgamentos e prisões, circunscritas ao âmbito da Petrobrás, acabaram por diagnosticar tamanho alastramento de ilicitudes em outras áreas, que autoridades dignas de serem ouvidas admitem uma corrupção metastática, um câncer espalhado por todo este imensoBrasil, il, il, il, de 8 milhões e 542 mil quilômetros quadrados de extensão.

O despertar recente da justiça e a boa porção de prisões pontuais tornaram mais difícil para os corruptos a aceitação, por parte dos bancos do exterior, de depósitos sem origem clara. 

Mas vai continuar a doer na alma do brasileiro a inviabilidade de se punir cerca de 300 políticos de mais de 20 partidos, listados por uma empreiteira com apelidos e valores registrados para cada um deles.

Monstruosidade de alma talvez seja a resposta que procuro para entender porque o homem, como um sepulcro, é branco por fora e podre por dentro, segundo ainda a pitadinha de religião.

Meditemos de passagem sobre quatro engenharias recentes de subtrações, a constatar a ilimitada monstruosidade de alma dos roubadores e a provocar ânsia de vômito até em quem não é tão ladrão assim:
— fraude na compra de aparelhos para implante em pacientes com mal de parkinson deu prejuízo de R$ 13,5 milhões no Hospital das Clinicas de São Paulo. Esquema durou seis anos. Sem licitação, itens que custavam R$ 27 mil saiam por R$ 114 mil. Uma centena de pacientes ficou sem tratamento.  
— fraudes no Teatro Municipal de São Paulo desviaram de realizações de espetáculos mais de R$ 20 milhões. 
— R$ 100 milhões subtraídos de empréstimos destinados a servidores públicos.  
— Sabe aquela comidinha distribuída para as crianças-estudantes, denominada de merenda escolar? Furtada em R$ 36 milhões. Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa de São Paulo teatralizou demoradamente sem nada parir o assalto ao estômago da meninada. 
Acabar com o foro privilegiado, em que políticos, ministros e altos executivos públicos habitam os palácios da impunidade, poderá ser um golpe no fígado dos maiores subtraidores. Pode mudar os rumos do país.  Tomara se torne uma bola de neve. Mas, resta ainda por explicar a natureza corrupta da espécie humana. 

A amenizar um pouco o revirar do estômago provocado por miríades de ladroíces, entre elas as que abalam as estruturas das maiores estatais do país, contamos com  a genialidade do poeta português Almeida Garrett. 

Com graça e mordacidade, ele encerra este ensaio reprovando, indignado, a atividade repulsiva do cavaleiro andante da subtração: 
"Esse monstro!... e das garras sanguinárias. (...) Roubais a miseranda pátria?"
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/o-aplicativo-da-subtracao-de-bens.html 



sexta-feira, 29 de julho de 2016

Antropoceno: a era da manipulação da informação


"85,5% das importações audiovisuais da América Latina são originárias dos EUA, e elas estão tentando construir a ideia de que não existe aquecimento global.

 

Najar Tubino, Carta Maior

Enojar é o verbo inspirador deste texto. Depois de muito pesquisar sobre a concentração de poder no mundo hoje, onde 147 transnacionais controlam outras 43 mil, o que corresponde a 40% do mercado mundial, onde os três principais veículos de economia do mundo ocidental fazem parte da carteira de clãs conhecidos há séculos, como os Rothschild, Agnelli, ou já na era moderna, os Murdoch, donos do The Wall Street Journal, do Dow Jones e da Fox News, que divulga diariamente as mentiras sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global. The Economist, a revista inglesa de 1873 é a outra fonte, muito celebrada pelos neoliberais e conservadores por sua respeitabilidade, transparência e ética.
Ao iniciar 2016, a revista publicou uma capa sobre o Brasil quebrado e desorganizado, com uma foto da presidenta Dilma Rousseff cabisbaixa. Em agosto de 2015 a Pearson, dona da revista vendeu 50% das ações – 27,3% foram compradas pela família Agnelli, os outros 23,7% pelo próprio Grupo Economist. Ocorre o seguinte: os outros 50% pertencem aos Rothscild, aos agentes financeiros Schroder, aos Agnelli e a Cadbury, maior fabricante de doces do Reino Unidos, que foi engolido pela Kraft Foods, dos Estados Unidos. O detalhe: estas famílias detêm a maioria das ações classe A, que dão direito a indicar a maioria dos 13 membros da diretoria. Ou seja: eles mandam e estabelecem as diretrizes editoriais.


Negócio perfeito no capitalismo

Pior: o grande negócio da The Economist é o Economist Intelligence Unit, que em 2014 faturou US$93 milhões, mais do que os US$37 milhões do Financial Time Group, que publica o jornal FT, que também era da Pearson e foi vendido no ano passado para o grupo japonês Nikkei por US$1,3bi. Este é o funcionamento perfeito do capitalismo: os cães farejadores levantam a situação das empresas, dos setores econômicos em todo o mundo – inclusive faturando com a publicidade- depois entregam para os seus patrões, que no mesmo momento, sairão pelo mundo comprando ações, empresas, terras, de barbada. Um golpe que o clã dos Rothschild britânico instituiu no então poderoso império por Nathan, que se instalou na City londrina em 1809. 

A estratégia límpida e transparente, naquela época não tinha o sustentável, conhecida historicamente como o Golpe na Bolsa de Londres consistiu no seguinte: seus informantes presentes na Batalha de Waterloo forneceram o resultado final da carnificina ao patrão, logo em seguida começou a vender os papéis na Bolsa espalhando o boato que Napoleão vencera. Ao mesmo tempo, seus agentes passaram a comprar os papéis por ninharia. Logo depois, o poderoso império ficou sabendo da vitória do seu exército e os papéis explodiram. Então caía o Império Napoleônico e nascia oficialmente o império especulativo dos Rothschild.

No Planeta Mentira não há mudanças climáticas

Mas vamos voltar ao Antropoceno, o novo período geológico que será definido este ano, com as mudanças da espécie humana. Na realidade os mais de sete bilhões de habitantes do mundo não sabem exatamente em que planeta vivem. O controle exercido pelos 30 maiores conglomerados de mídia expõe apenas a sua visão da Terra. Nela, as mudanças climáticas, a destruição de florestas, a extinção de espécies, da miséria da própria espécie são apenas ingredientes do mercado, do sistema econômico que necessita crescer infinitamente, porque sem crescimento não haveria planeta. E afinal, como os 85 bilionários – com mais de 20 bilhões de dólares - poderiam viver e usufruir das maravilhas da natureza, com seus iates, seus clubes de golfe, seus carros esportivos, suas ilhas exclusivas?

Sem contar os outros 300, que estão na lista da Bloomberg, que possuem juntos US$3,7 trilhões e que ao longo de 2014 ganharam mais US$524 bilhões, segundo a pesquisa do professor Luiz Marques, no livro “Capitalismo e Colapso Ambiental”. Para reforçar um pouco mais o poder: as sete principais holdings financeiras dos Estados Unidos – JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, Goldman Sachs, Metlife e Morgan Stanley detêm mais de US$10 trilhões em ativos consolidados, o que corresponde a 70,1% de todos os ativos dos Estados Unidos. São eles que controlam a riqueza mundial, dos 147 grupos que controlam os 43 mil – uma pesquisa do ETH Instituto Federal Suíço de Pesquisas Tecnológicas, de Zurique, selecionaram as 43 mil corporações entre 30 milhões.

Ricos não podem pagar impostos

Eles constataram que os banqueiros são os intermediários que possibilitam a articulação da rede. É claro que as famílias bilionárias do mundo participam de tudo isso. Sem esquecer, que parte desta fortuna, segundo a Tax Justice Network, pelo menos US$21 trilhões estão em paraísos fiscais. Porque o Planeta ficcional criado pelos conglomerados da mídia instituiu que os ricos não podem pagar impostos. Prejudica os negócios, o crescimento. Uma citação do final do livro de Thomas Piketty – O Capital no século XXI – que definiu 300 anos de dados sobre a desigualdade econômica em 669 páginas:

“- A desigualdade entre a taxa de crescimento do capital e da renda e da produção faz com que os patrimônios originados no passado se recapitalizem mais rápido do que a progressão da produção e dos salários. Essa desigualdade exprime uma contradição lógica fundamental. O empresário tende a se transformar, inevitavelmente, em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força do trabalho. Uma vez constituído o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora o futuro”.

A desigualdade será a norma no século XXI

E pode investir em educação, conhecimento e tecnologias não poluentes, nada disso elevará as taxas a 4 ou 5% ao ano, como rende o capital. A experiência histórica indica que apenas países em recuperação econômica, como a Europa nos 30 anos gloriosos pós- segunda guerra, ou a China e os emergentes podem crescer neste ritmo por um tempo.

“- Para os que se situam na fronteira tecnológica mundial e em última instância para o planeta como um todo, tudo leva a crer que a taxa de crescimento não pode ultrapassar 1 a 1,5% ao ano, no longo prazo, quaisquer que sejam as políticas a serem seguidas. Com o retorno médio do capital na ordem de 4 a 5% é provável que a desigualdade das taxas de crescimento já citadas voltem a ser a norma no século XXI, como sempre foi na história.”

O divertimento ao invés da realidade

Conclusão: o Planeta criado pelos conglomerados continua executando a mesma plataforma, desde o século XIX, sendo que somente nos períodos posteriores às guerras mundiais que as fortunas foram taxadas. E o que faremos nós no século XXI? Já sabemos que o aquecimento aumenta, os eventos climáticos se aceleram e o agronegócio continua dominando mais áreas de floresta do planeta. Neste momento, entra a outra parte dos conglomerados de mídia – o entretenimento. A força da Disney Company – faturou US$45 bi em 201- e pagou US$21bilhões pela franquia da séria Star Wars e ainda produzirão outros cinco filmes.

E pretendem vender US$5 bilhões em produtos licenciados – videogames, publicações, música, brinquedos. O mercado é grande: parques temáticos em Paris, Hong Kong, Tóquio, agora em 2016, Shangai, na China. Compraram todos os talentos, a Pixar, de Steve Jobs- era o maior acionista individual da Disney -, os heróis em quadrinhos da Marvel, na figura canhestra do Homem de Ferro, rico, cibernético e arrogante. Depois ainda compraram os estúdios de George Lucas. Total: mais de US$15 bilhões. Ou seja, não acreditem em caos climático, divirtam-se.

No Planeta de mentira informação é entretenimento

A revista das famílias poderosas, a The Economist – fez uma daquelas matérias pegajosas sobre “a força” da Disney, em dezembro de 2015. Um trecho:

“- A estratégia deles é a seguinte: os filmes aparecem no centro, a sua volta estão os parques temáticos, os licenciamentos, a música, as publicações e a televisão, Cada unidade da companhia produz conteúdo e impulsiona as vendas das demais”.

É perfeito, se aliar isso a canais de esportes – ESPN – que fatura a metade da grana na Disney, que é uma das quatro líderes mundiais. As outras são: Google, que mais fatura em publicidade, depois a Comcast, que tem a maior rede de televisão a cabo do mundo, e é proprietária da rede NBC e da Universal. Depois vêm a 21st Century Fox, da News Corporation, de Rupert Murdoch; Viacom, dona da MTV e da Paramount, mas dividiu a corporação, criando a CBS Corporation, outra rede dos Estados Unidos. Na lista agora constam Facebook e Baidu, o Google chinês, em faturamento de publicidade.

85,5% das importações audiovisuais dos Estados Unidos

Mas eles não têm o poder dos conglomerados tradicionais. Faltou a Time Warner Company, dona da CNN, que é outra das bases de informação no mundo, além do Carlos Slim, dono da telefonia na América Latina, que agora tem 16,8% das ações do The New York Times, maior acionista individual. Último dado enjoativo desta que é a praga maior desta era geológica: 85,5% das importações audiovisuais da América Latina – 150 mil horas de filmes, seriados e programas jornalísticos- são originários dos Estados Unidos. E em todos estes conglomerados tem a participação acionária dos maiores fundos de investimento ou de pensões do mundo, como é o caso da Vanguard Group – 160 fundos nos Estados Unidos e 120 fora deles -, que estão processando a Petrobras nos Estados Unidos, e que os Rothschild são acionistas.

A família Rothschild – significa a casa do escudo vermelho, baseado no escudo da cidade de Frankfurt, onde Mayer Amschel Bauer, considerado o primeiro banqueiro internacional começou o império. Segundo a versão popular, com uma fortuna do nobre alemão Guilherme IX, que fugia de Napoleão, e deixou três milhões de libras esterlinas em dinheiro e obras de arte, para ele administrar.

Outros negócios dos Rothschild

Ele investiu bem, conta a lenda, que não dividiu um centavo dos lucros. Também diz a lenda que não são judeus étnicos, mas se converteram ao judaísmo no século oito da era cristã. Os Rothschild, em seus vários ramos, são detentores de tudo o que é importante no mundo. A De Beeres, maior empresa de exploração, lapidação e comércio de diamantes, os extratores de minérios Rio Tinto e Anglo American, como acionistas. O Barão francês Edouard, já falecido, em 2005 comprou 37% do jornal Liberation, considerado um veículo que defende ideias de esquerda.

Recentemente se associaram com os Rockfellers na Rússia unindo ativos de US$40 bilhões. Até hoje, as cotações do ouro são definidas no prédio da N M Rothschild & Co, que no Brasil se chama Rothschild, e trabalha no ramo de assessoria financeira, focada em fusões e aquisições, reorganizações societárias. Conta com 50 escritórios espalhados pelo mundo. No Brasil já prestaram serviços para o Itaú Unibanco, no fechamento de capital da Redecard, fizeram o laudo de avaliação do Santander Brasil, que vendeu parte do controle, além da BM&F, Camargo Corrêa, OI e Ambev.

No Laudo de avaliação do Santander, a Rothschild Brasil esclarece: que não possui informações comerciais e creditícias de qualquer natureza que possam impactar o laudo; não possui conflito de interesse, que lhe diminua a independência necessária ao desempenho da função. E que receberia US$800 mil pelo laudo. Algumas linhas adiante: e mais US$4,5 milhões pelo trabalho de assessoria do Santander S.A., que não é o Santander Brasil. Entenderam: tudo ético, transparente e sustentável. E nós estamos ferrados com este planeta mentiroso, que os conglomerados inventaram.

Najar Tubino, Carta Maior, via http://nogueirajr.blogspot.com.br/2016/01/antropoceno-era-da-manipulacao-da.html#more