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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Lula e FHC: algo a ver?






Encontro, conversa e até pactos entre adversários são frequentes na política. Um dos exemplos clássicos é a negociação entre Lênin e o governo alemão para garantir a entrada do bolchevique, então exilado, em território russo.

O kaiser alemão, Guilherme II, tinha interesse em enfraquecer as posições da Rússia, aliada da Inglaterra e França na Primeira Guerra. Lênin queria o fim do conflito imperialista, para ele um sinônimo do massacre de trabalhadores e de atraso na revolução. Por motivos opostos, Lênin e os alemães, que em seus domínios perseguiam os comunistas até a morte, fecharam um acordo. O líder russo voltou ao seu país num trem blindado sob a proteção do imperialismo alemão. Era abril de 1917. O resto a história se encarregou de contar.

Descontados o tamanho dos personagens e a gravidade da situação, o episódio deixou lições. Acordos e concessões valem a pena quando não implicam a renúncia das posições fundamentais de cada lado. Pesa também o momento de negociações desse tipo. Mais que a forma, acima de tudo interessa o conteúdo do acerto.

Lula encontrar FHC, em princípio, não representa nenhum cataclisma. Os dois nunca deixaram de se falar. Em 1978, o então sindicalista fez parte de comitês pela eleição de FHC para senador. De lá para cá, o mundo e os protagonistas deram voltas, cada um escreveu sua biografia de forma peculiar. Mas o diálogo nunca foi verdadeiramente interrompido. Senão diretamente, por intermédio de interlocutores em comum.

Alguma dúvida? As mesmas empreiteiras hoje alvos da Lava Jato são figuras habituadas a visitar dependências oficiais desde outros tempos. Cresceram na ditadura e engordaram nestes tempos democráticos. Não é à toa que nenhum partido, nenhum mesmo, fica a salvo da metralhadora de denúncias envolvendo estatais e similares. Pensar na ausência de intercâmbio entre estes atores, e seus vícios, seria uma demonstração de insensatez ou hipocrisia.

A questão é a agenda. O PSDB tem um plano muito claro: como demonstram as votações no Congresso, o objetivo é sangrar o governo mesmo com contorcionismos inexplicáveis à luz de sua plataforma eleitoral. Pretende também limpar sua turma, perigosamente ameaçada por vazamentos imprevistos da chuva de delações premiadas.

Já o PT vive um grande embaraço. Em nome da "governabilidade", o Planalto vem adotando a receita pregada pelo adversário. O custo desta guinada aparece no crescimento do desemprego, no corte de gastos sociais, nos juros absurdos, no sufocamento da indústria, na queda de arrecadação e, por consequência, na erosão galopante de popularidade. O absurdo é tão evidente que até Joaquim Levy decidiu recuar em metas incompatíveis com o cenário de recessão imposto por tal política.

É difícil imaginar que diálogo pode acontecer nestas condições. Lula vai pedir a FHC uma trégua para poder aplicar o programa do PSDB? FHC vai pedir a Lula concessões para aliviar medidas que seu partido sempre defendeu?

Um encontro entre Lula e FHC, nestas condições, cheira mal. Sem uma pauta pública, de interesse social, que inclua a punição implacável, mas justa, de corruptos e corruptores e leve em conta a necessidade de uma verdadeira reforma política aprovada por representantes escolhidos para este fim — sem tudo isso, aos olhos de muitos uma conversa entre ambos parecerá apenas o ensaio de uma nova operação, a Abafa o Caso.

Ricardo Melo
No fAlha, vi ahttp://www.contextolivre.com.br/2015/07/lula-e-fhc-algo-ver.html

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Podemos, mas queremos?


A revolta europeia é um alerta para quem diz falar em nome do povo, mas caminha no sentido oposto

Os números, como sempre, são conflitantes. Segundo a polícia, foram 100 mil pessoas. Os organizadores da manifestação contaram 300 mil. O jornal "El País", valendo-se de critérios próprios de medição, calculou em mais de 153 mil o número de presentes ao ato do Podemos em Madri no sábado (31). A capital espanhola tem cerca de 3,3 milhões de habitantes.

A gigantesca manifestação contra as políticas de austeridade na Europa foi vitaminada pela vitória estrondosa do partido Syriza na Grécia. Assim como este, o Podemos reúne um pouco de tudo: ex-militantes de partidos tradicionais, manifestantes indignados, jovens desiludidos, desempregados e muita gente que podia nem estar aí, mas insiste em pensar no futuro.

Segundo a repórter Luisa Belchior Moskovics, desta Folha, os "manifestantes eram sobretudo adultos e idosos". Uma aposentada de 66 anos, Ascensión Fernández, contou à jornalista: "Ainda temos nossa aposentadoria, mas isso não está mais garantido a nossos filhos, e por isso viemos. Não queremos mais ser empregados da Merkel". [Angela Merkel, chanceler alemã e símbolo da política de arrocho, para os outros, claro, que devasta a Europa.]

Parece longe, do outro lado do oceano. Falso. O fenômeno tem tudo a ver com o Brasil. Tanto o Syriza como o Podemos surgiram da insatisfação de povos cansados do jogo político tradicional, da coreografia repetitiva de eleições para presidente de Câmara, da subserviência de legendas autoproclamadas populares, mas que na prática curvam-se aos status quo da plutocracia e da ciranda financeira.

Guardadas certas proporções, o momento histórico e diferenças sociais, foi mais ou menos um movimento parecido que criou o PT brasileiro. O PT, hoje no poder, nasceu do encontro de militantes de origens variadas, de católicos a ultraesquerdistas, passando por uma maioria revoltada com "o que está aí".

Detalhe essencial: a origem não confere um selo de qualidade vitalícia ao rebento. Exemplos não faltam. Desde a traição dos velhos partidos social-democratas ao papel destruidor exercido pelo stalinismo quanto à esperança de um mundo solidário, mais justo e menos desigual.

Nada disso trava a história. De tempos em tempos, o cenário é sacudido pela ação da esmagadora maioria insatisfeita com o poder do 1% sobre o restante. De uma ou de outra forma, é isso que está por trás de eventos como a queda do Muro de Berlim, a Primavera Árabe e a resistência dos povos europeus ao plano de terra arrasada proposto pela troika.

A questão é o futuro. Uma vez no poder, a expressão política destes movimentos esbarra em carências doutrinárias, indefinição programática e rendição ao dinheiro fácil e a benesses do poder. O PT, no Brasil, sofre este risco. A proliferação de movimentos sociais descolados do partido é impressionante. Grupos de sem-teto, articulações culturais fora do eixo e até sem eixo, mídias alternativas --há uma efervescência correndo por fora e que de repente explode como em junho de 2013.

Syriza, Podemos e outros tantos são exemplos de vida pulsante pelo mundo. A incógnita, mais uma vez, é como essa ebulição será orientada. Curvar-se ao manual da austeridade, ajuste fiscal e metas de superavit é o caminho mais fácil para a desmoralização. Veja-se o fiasco dos partidos de "esquerda" tradicional em todas as eleições europeias. Lev Davidovitch Bronstein escreveu que a crise da humanidade é a crise da direção revolucionária. Diante dos fatos, impossível não lhe dar razão.

via http://caviaresquerda.blogspot.com.br/2015/02/podemos-mas-queremos.html

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Agora vai?


Sempre é bom lembrar. Em 1997, o jornalista Paulo Francis denunciou esquema de roubalheira na Petrobras num programa de TV. O presidente da empresa, Joel Rennó, em vez de tomar alguma providência, abriu um processo de US$ 100 milhões contra Francis.

Tampouco ocorreu ao governo de então — primeiro mandato de FHC — realizar qualquer esforço investigativo para coibir práticas conhecidas por gente da alta roda e mesmo empresários medianos. Era mais fácil intimidar o jornalista com uma multa impagável do que apurar. Como efeito colateral, o esquema contava silenciar a imprensa em geral. Sabe-se como tudo acabou.

Foi preciso que a antiga situação e hoje oposição saísse do Planalto, pelas urnas, para que a roubalheira espalhada na estatal viesse a público. Ironia, não? Mas é isso que vem acontecendo. De forma inédita, empresários desse tamanho são investigados e detidos por ligações suspeitas com financiamento eleitoral, pagamento de propinas e superfaturamento ancorados em negociatas com empresa pública.

Apesar do espalhafato costumeiro de parte da PF, é óbvio que a Lava Jato lancetou um tumor instalado há tempos. O estrago ainda está para ser medido, tanto o financeiro quanto o político. No pinga-pinga dos vazamentos, sobra para quase todo mundo, de PT, PMDB e PP a PSDB e PSB. Não à toa houve rapidinho um acerto multipartidário para impedir a convocação de políticos acusados.

Agora vai? Ao menos duas razões recomendam o ceticismo. A primeira está nos antecedentes. Em operações similares, a Satiagraha e a Castelo de Areia, réus de bolso cheio de repente viraram vítimas, delegados foram afastados e juízes, removidos. Pagas a peso de ouro, bancas de advogados estrelados pinçaram erros formais sem tocar no mérito das denúncias. A ponto de não se saber qual escândalo foi maior, se o que motivou as operações ou a missão de abafar os casos. Toda vigilância é pouca para evitar a repetição do enredo, respeitando-se, claro, o direito pleno de defesa (algo que nem sempre ocorre quando os réus são uns, e não outros).

A outra razão é o envenenamento presente nas investigações. A reportagem da jornalista Julia Duailibi dando conta do grau de partidarização da Polícia Federal provoca frio na espinha. Trata-se de uma corporação armada, não de profissionais liberais debatendo posições políticas. Que delegados tenham preferências eleitorais ninguém discute. Mas o teor de suas mensagens eletrônicas, associado ao vazamento seletivo de depoimentos supostos ou verdadeiros, fere o limite que separa convicções ideológicas da utilização tendenciosa de um processo oficial.

Fora de dúvida, por enquanto, é a urgência de mudança no financiamento da política brasileira. Sem prejuízo da ação da Justiça contra réus de culpa provada, evidente que se vai ficar enxugando gelo a se manterem as regras atuais.

Impressionante é notar justamente um juiz da Corte mais alta travar uma providência que, se não resolve, ao menos pode dar alguma transparência à dinheirama das campanhas: a proibição do financiamento por parte de empresas. Embora a maioria do STF já tenha se manifestado pela proibição, o ministro Gilmar Mendes resolveu, em abril!, pedir vistas durante um prazo, ao que tudo indica, a perder de vista.

Ricardo Melo
No fAlha, via http://www.contextolivre.com.br/2014/11/agora-vai.html

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Marina é candidata do grande capital


Chumbo grosso 

Se alguma coisa a campanha eleitoral propiciou, foi clarificar os verdadeiros interesses em conflito no país. A ficção de uma terceira via voltou para o ralo. Tanto nas declarações como nas proposições e na base social que as apoiam, as candidaturas de Marina Silva e Aécio Neves têm se aproximado de maneira indiscutível.

O confronto em jogo está evidente. Os dois candidatos oposicionistas afirmam em alto e bom som que o objetivo é tirar o PT do poder. As articulações de bastidores com vistas a um eventual segundo turno acontecem a céu aberto. O ex-presidente FHC resumiu o sentimento num jantar com milionários pró-Aécio: "Apelo mesmo". Um bordão de amplo espectro.

A esta altura, Aécio Neves, de candidato competitivo, viu-se reduzido a moeda de troca. Cardeais tucanos negociam sem constrangimento o voto em Marina para "impedir o mal maior". A ironia é que isso acontece justo no momento em que algumas pesquisas injetaram sobrevida ao ex-governador de Minas.

Já a "entourage" de Marina escancara as opções da ex-ambientalista. Quer porque quer credenciar-se como candidata do grande capital. Corre atrás da alta sociedade seja onde for, como um trator à procura de uma árvore para derrubar. Fala em "atualizar" as leis do trabalho. Para bom entendedor, tais palavras bastam. Seus comícios populares se esvaziam na mesma proporção em que proliferam encontros com madames, empresários graúdos e financistas internacionais.

Claro, faz parte manter uma embalagem social. Para tentar preservar alguma popularidade entre os pobres, Marina recorre à sua origem humilde e sofrida -algo inquestionável. Problema: do outro lado estão um ex-metalúrgico que também passou fome e chegou à Presidência e uma militante torturada por defender a liberdade nos anos da ditadura. Ou seja, na comparação, até aí morreu Neves, com o perdão da coincidência.

O maior risco para o PT é calçar o salto alto e passar a viver de louros passados. Verdade seja dita: com ou sem barbeiragens do IBGE, os indicadores sociais, inclusive os anunciados pela ONU, mostram que o país mudou para melhor. Isto é fato. Mas o modelo de agradar gregos e troianos exibe sinais de esgotamento.

A campanha pela Constituinte exclusiva para uma reforma política até agora foi relegada a nota de rodapé em alguns discursos petistas. Medidas como a taxação das grandes fortunas dormitam nos escaninhos da legenda. A submissão às tergiversações do comandante do Exército em relação às torturas é indigna da tradição de um partido que se pretende popular.

Nestas duas semanas que precedem o primeiro turno, é possível prever chumbo grosso pela frente. Dossiês anônimos, vazamentos seletivos, fotos de maços de dinheiro, notas de agências de risco, especulação financeira, ataques pessoais -tudo será amplificado numa eleição tão disputada. Para separar o joio do trigo, não há outro caminho: mostrar o que se fez mas também dizer o que se fará.
http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/09/marina-e-candidata-do-grande-capital.html

segunda-feira, 7 de julho de 2014

São Paulo tucana: chame o ladrão

Chame o ladrão

Num Estado em que maca é contabilizada como vaga em prisão, é preciso encarar indicadores com um pé atrás

Declarações sinceras de políticos ou governantes, muitas vezes, costumam dar pistas: o sujeito está deixando o cargo e resolveu falar a verdade; ou então trata-se de confissão de incompetência.

Ainda é cedo para saber onde encaixar afirmações como a do secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, diante da escalada de roubos no Estado. As palavras chegam a ser desconcertantes. "Estou estudando. Dentro de uma ou duas semanas a gente vai ter alguma conclusão a respeito [...]. Não adianta dizer que é isso ou aquilo, porque isso é achismo'. Precisamos nos debruçar, estudar, fazer o diagnóstico."

Enquanto o secretário se debruça, São Paulo vive uma epidemia de criminalidade. Segundo manchete desta Folha, o número de roubos cresceu em 11 das 12 macrorregiões do Estado entre janeiro e maio, na comparação com o ano passado. A capital liderou a alta: 42%. O mais alarmante é uma das explicações oficiais. Diz que o índice disparou porque agora é possível registrar ocorrências pela internet. A acreditar na tese, é provável que nos últimos anos o volume de roubos tenha sido artificialmente rebaixado por falta de notificações das vítimas. O que, vamos e venhamos, só piora o cenário.

Num Estado em que macas em enfermaria são contabilizadas como vagas em presídio e apenas um em cada dez casos de roubo motivam um inquérito, o bom senso recomenda encarar indicadores com um pé atrás. Tanto para o bem, quanto para o mal.

Aqui vai um exemplo. O governo tucano não desperdiça chances de comemorar a pretensa queda de homicídios. Ótimo se fosse assim mesmo. Digo mais: todos torcemos para isso. Então surge a dúvida: até que ponto tais números não são obra da "contabilidade criativa" que o governador critica na esfera federal, mas que ele mesmo pratica nos dados que distribui à imprensa? Tomando emprestado o repertório da meteorologia, por mais que o governo paulista festeje dados sobre a queda do número de mortes, a "sensação térmica" de insegurança no Estado é muito pior do que imagina o pessoal do Bandeirantes. Basta ouvir as ruas e prestar atenção ao próprio noticiário.

Até hoje, as autoridades paulistas não deram uma explicação convincente ao papel exercido por facções como o PCC no comando da criminalidade, mesmo seus líderes estando formalmente na cadeia. Tampouco sabe-se de medidas eficazes para coibir delitos; assiste-se apenas a operações espalhafatosas para ganhar espaço em telejornais. Quando não é assim, parte-se para práticas do Velho Oeste: oferecer recompensas para quem denunciar malfeitores. A valorização da função policial, sobretudo a preventiva, esgota-se em discursos e promessas nunca cumpridas. Tudo isso sem falar no péssimo exemplo da complacência com a corrupção e com os larápios incrustados no aparelho do Estado.

Sem atacar esses males, continuaremos apenas a ouvir lamúrias e perder a carteira, quando não conhecidos e familiares.
No: http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/07/sao-paulo-tucana-chame-o-ladrao.html

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A globalização na política


É espantoso ver uma liderança da
'sociedade civil' ensinando um 
ditador a abolir eleições diretas


O texto abaixo refere-se a um telegrama de 14 de agosto de 1965, um ano e alguns meses após o golpe de 1964. Foi enviado pelo então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon. Reproduz conversas com o dono das Organizações Globo, Roberto Marinho. Ambos já morreram.

A transcrição do essencial do documento (o original na íntegra pode ser encontrado facilmente pelo Google) serve para muita coisa. Oferece aos que não usam a internet — sim, existem estas pessoas — o acesso a um instante da história que até hoje atormenta o país. Demonstra, também, que nem sempre as chamadas teorias conspiratórias representam fantasias. São muitas vezes práticas conspiratórias com nome, endereço e autores conhecidos.

Neste caso, de consequências trágicas, não deixa de ser espantoso ver uma liderança da "sociedade civil" ensinando um ditador a abolir eleições diretas para permanecer no poder. De graça não deve ter sido. As conclusões ficam a cargo do leitor.
"Para: Departamento de Estado



14 de agosto de 1965



Confidencial.



Este é um relato de um encontro extremamente confidencial com Roberto Marinho, publisher do Globo', sobre os problemas da sucessão presidencial. A proteção da fonte é essencial.



Marinho estava convencido de que a manutenção de Castello Branco como presidente é indispensável para a continuidade das políticas governamentais presentes e para evitar uma crise política desastrosa. Ele tem trabalhado silenciosamente com um grupo incluindo o general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, general Golbery, chefe do Serviço de Informações, Luiz Vianna, chefe da Casa Civil, Paulo Sarazate, uns dos amigos mais íntimos do presidente.



No início de julho, Marinho teve um almoço privado com o presidente. Marinho achou Castello bastante resistente a qualquer forma de continuidade de mandato ou sua reeleição. Marinho também pediu a volta do embaixador Juracy Magalhães para ser o ministro da Justiça. Objetivo: ter Juracy como um possível candidato a sucessor de Castello e melhorar o funcionamento daquele ministério, cujo ocupante, Milton Campos, é extremamente respeitável, mas dócil demais.



No dia 31 de julho, Marinho teve um segundo almoço reservado com o presidente no qual ele insistiu que eleições presidenciais diretas em 1966 sem ter Castello como candidato poderia trazer sérios riscos de retrocessos. Tudo bem pensar em Juracy Magalhães ou Bilac Pinto como sucessores, mas a eleição deles não estava garantida. E a indicação, pelo PTB, do marechal Lott com uma plataforma abertamente antirrevolucionária e com o apoio dos comunistas ilustrava os perigos.



Marinho falou ao presidente que entendia o desejo de Castello de manter a promessa de deixar o poder no começo de 1967, mas se isso fosse feito ao custo de uma volta do Brasil ao passado, Castello estaria violando a confiança que a nação tinha depositado nele. Para Marinho, Castello deveria pesar as alternativas e riscos cuidadosamente. Embora Castello não tivesse indicado explicitamente, Marinho saiu satisfeito no final da conversa. Achou que o presidente não se oporia e mesmo daria sua colaboração a medidas que permitissem sua reeleição, provavelmente na forma de eleição indireta.



Nestas bases, o grupo planejou uma estratégia para transformar a eleição presidencial de 1966 em eleição indireta e viabilizar a candidatura de Castello Branco. Os próximos passos eram ganhar alguns membros chaves do Congresso tais como Pedro Aleixo, Bilac Pinto, Filinto Muller e líderes do PSD. Marinho enfatizou que muitos obstáculos inesperados poderiam surgir nesta estratégia, que com certeza terá a oposição de Lacerda por um lado e de forças antirrevolucionárias por outro lado.



Comentário. As colunas de fofoca política estão cheias de especulações sobre mudanças no regime. Eu considero as informações de Marinho muito mais confiáveis.



Lincoln Gordon."
PS: E eram mesmo...

Ricardo Melo
No fAlha
via http://www.contextolivre.com.br/2014/05/a-globalizacao-na-politica.html