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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Em resposta ao incansável racismo do general Mourão


O General Mourão, em mais uma declaração infeliz, afirmou que os negros são malandros e os indígenas indolentes.

Em 12/08/2018, o colunista Reinaldo José Lopes publicou na Folha uma boa resposta a essas maluquices. Lembrou um relato de Antonio Pires de Campos, de 1723, segundo o qual, os indígenas Parecis eram “incansáveis” em suas lavouras, sempre plantadas em “admirável ordem”. Além disso, construíam estradas “muito direitas e largas”, conservando-as “tão limpas e consertadas que se lhe não achará nem uma folha.”

Lopes também pergunta que malandragem africana teria “levado guerreiros negros do atual Sudão a conquistar todo o orgulhoso Egito dos faraós por volta de 700 a.C.?” Ou a fazer com que o povo shona, na Idade Média, tenha construído “a poderosa cidade de pedra do Grande Zimbábue, com tamanho e complexidade que nada deviam às maiores cidades europeias medievais?”

Mas voltando à suposta indolência indígena, também seria bom lembrar uma importante obra de Jorge Caldeira, lançada em 2017. Em “História da Riqueza no Brasil” o historiador afirma, por exemplo, que:

… os Tupi-Guarani mantinham um tal equilíbrio entre produção econômica, alianças diplomáticas, chefia política na guerra e destinação ritual dos excedentes que não os obrigava a criar uma função especializada de governo, com a permanente divisão dos membros da sociedade entre governantes e governados. Mesmo assim havia governo: as instituições indicadas pelo costume funcionavam com regularidade e desfrutavam do respeito de todos.

Respeito de todos é algo de que o general, certamente, jamais vai desfrutar devido a sua incurável mentalidade racista. Produto de séculos de preguiça mental e estupidez incansável.

domingo, 22 de julho de 2018

HoA duvidosa sapiência do mo sapiens


O que mais tem sido lembrado na vitória da seleção francesa na última Copa do Mundo é a diversidade étnica de seus jogadores. Dos 22 atletas, 18 são filhos ou netos de pessoas vindas de lugares tão diferentes como Filipinas, Haiti, Congo, Senegal, Mali, Angola, Guiné, Togo, Mauritânia, Argélia, Camarões, Ilha de Guadalupe, Martinica, Alemanha, Espanha e Portugal.

Mas antes deles, o selecionado francês também contou, por exemplo, com o polonês Kopa, o italiano Platini, o espanhol Fernández e o argelino Zidane.

De qualquer modo, o que se deveria perguntar é o que significa, afinal, ser francês “legítimo”? Provavelmente, somente deveria ser aceito como tal alguém que provasse sua descendência direta de Asterix, o gaulês. Mesmo assim, um dos criadores do famoso personagem é filho de espanhóis e o outro, de ucranianos.

O fato é que a diversidade e a mistura sempre foram regra na formação das populações humanas. E uma recente pesquisa arqueológica prova que isso é verdade inclusive para a pré-história. Estudo liderado pelos pesquisadores Eleanor Scerri e Lounes Chikhi, em Oxford, mostra que o “Homo sapiens” coexistiu durante muito tempo com outros hominídeos. Principalmente, com o “Homo floresiensis”, o “Homo neanderthalensis“ e o “Homo naledi”.

Nossa espécie seria resultado dessa mistura toda aí. Portanto, nunca houve uma população humana pura. Nosso único atributo preservado ao longo de muitos milênios seria a “sapiência”. Acredita-se que esta capacidade para o acúmulo de conhecimento e sabedoria nos distinguiria dos outros animais. Mas, diante da persistência de teorias e comportamentos racistas e discriminatórios, talvez mesmo esta característica ainda esteja muito longe de prevalecer entre nós.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Seja consciente, não consuma açúcar escravo


Publicado em 1944 por Eric Williams, “Capitalismo e escravidão” foi o primeiro livro a demonstrar a profunda vinculação entre o nascimento do capitalismo industrial na Europa e a escravização negra nas Américas.

Em um trecho da obra, o autor descreve uma campanha envolvendo o que hoje chamaríamos de “consumo consciente”.

Por um cálculo matemático feito na época, se uma família média inglesa deixasse de consumir açúcar por 21 meses, um negro seria poupado de escravização ou morte.

Para muitos abolicionistas britânicos, o consumidor de açúcar era "o principal motor, a grande causa de toda a horrível injustiça" envolvida na escravidão.

A solução? Substituir o açúcar das Índias Ocidentais pelo que vinha das Índias Orientais. Ou seja, substituir o consumo do produto americano pelo indiano.

Havia até um folheto intitulado "Queixa do escravo negro aos amigos da humanidade". Nele, um negro implorava:

Massa, você que é amigo da liberdade, tenha pena do pobre negro. Eu imploro, compre o açúcar do Oriente, não compre açúcar escravo.

Segundo os promotores da campanha, agindo desse modo, os consumidores estariam minando o sistema escravista da maneira mais segura, fácil e eficaz.

Mas só faltava uma coisa: abolir a escravidão na Índia. E o máximo que a dominação britânica conseguiu, naquele momento, foi propor uma legislação para "melhorar" a escravidão naqueles territórios.

O que realmente estava por trás do apoio abolicionista à produção das Índias Orientais não era apenas a desumanidade da escravidão, mas a crescente falta de rentabilidade do monopólio açucareiro nas Américas.

Se o consumo consciente não abalou o capitalismo quando envolvia o comércio legalizado de escravos, muito menos agora.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Até agora, Trump vem perdendo para Churchill


Dias atrás, Trump chamou de “países de merda” o Haiti e nações africanas.

No mesmo período, estreou o filme “O Destino de uma Nação”, que retrata Winston Churchill como herói da liberdade.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Vejamos.

Em 11/01, Richard Seymour escreveu na revista “Jacobin” sobre o famoso primeiro-ministro britânico. Segundo o artigo, no final da Segunda Guerra, Churchill afirmou: “Devemos varrê-los, cada um deles, homens, mulheres e crianças. Não deve restar um japonês na face da terra”.

Mas tem mais.

...não admito que um grande mal tenha sido feito aos índios vermelhos da América ou aos negros da Austrália (...) pelo fato de que uma raça mais forte, uma raça superior, (...) invadiu e tomou seu lugar.

Visitando a Itália em 1927, declarou a Mussolini: "Se eu fosse italiano, com certeza estaria a seu lado desde o início para concluir sua luta triunfante contra os apetites e paixões bestiais do leninismo".

Escrevendo sobre suas "relações íntimas e agradáveis” com Mussolini, acrescentou que "no conflito entre fascismo e bolchevismo, não há dúvidas sobre de que lado ficam minha simpatia e convicções".

Mas Churchill não se limitava a proferir barbaridades. Ele autorizou o uso de gás venenoso contra rebeldes que combatiam o domínio britânico no Iraque. Na verdade, já havia ordenado que se fizesse o mesmo contra a Rússia dos bolcheviques.

Um caso de pioneirismo foi a utilização do terrível “agente laranja” contra rebeldes na Malásia. Muito antes que as tropas estadunidenses fizessem o mesmo no Vietnã.

Por enquanto, Trump vem perdendo para Churchill na condição de criminoso racista. Por enquanto...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

NÃO ADIANTA UMA DATA, SE NÃO HOUVER CONSCIÊNCIA...




   Em pleno século XXI ainda presenciamos a marginalização dos negros nesse país. E, via noticiários e redes sociais, acompanhamos o que de mais nefasto acontece ao redor do mundo. Se "comemoramos" o dia da Consciência Negra, tudo não passará de mera 'perfumaria' se houver atitude, mudança de comportamento, cobrança por condições justas e respeito aos direitos de todas as pessoas.

   É com pesar que essa postagem mostra um pouco das coisas mais monstruosas que acometeram os afrodescendentes nas últimas décadas, na esperança de que não venha a se repetir atos tão vis. Afinal, só há uma raça: A RAÇA HUMANA.


























































Banho escaldante na banheira de ferro. Punição a escravos "intrometidos" e "contestadores".


























































































http://krycek10.blogspot.com.br/2016/11/nao-adianta-uma-data-se-nao-houver.html

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A esquerda e o “favelismo”



Vem aí o Partido Frente Favela Brasil. Entre seus idealizadores, está Celso Athayde, criador da Central Única de Favelas. Perguntado sobre sua posição ideológica, ele respondeu: “Não sou esquerdista nem direitista. Sou favelista!”.

Foi o bastante para que setores da esquerda acusassem a proposta de ser divisionista, reformista, conciliadora, despolitizada etc.

Mas, talvez, também fosse o caso de perguntar se a grande maioria da esquerda poderia se considerar “favelista”, tal como o documento de apresentação da proposta define o conceito, qual seja:

...trabalhar na inserção dos negros, dos moradores de favelas, e dos pobres dos subúrbios/periferias, no espaço de discussão e decisões políticas do país, bem como manter a constante vigília contra o preconceito racial e discriminação de qualquer origem.

Será que a maioria da esquerda pode dizer que realmente abre “espaço de discussão e decisões políticas” aos negros e pobres em suas organizações? Além disso, a “vigília” contra o preconceito racial e outras opressões é pra valer ou fica restrita à retórica de seus documentos e discursos?

Claro que ser antirracista sem ser de esquerda não leva a lugar algum. Mas não há como ser verdadeiramente anticapitalista sem combater o racismo.

Por outro lado, a proposta defende a “construção de um projeto de oportunidades, a partir do qual todos possam ocupar um espaço digno de sua humanidade.” Este objetivo não reduziria a luta “favelista” à conquista de ajustes nos mecanismos da meritocracia, que justificam não só o racismo, mas toda a exploração capitalista?

São questões como essas que devem orientar a esquerda no debate sobre a proposta “favelista” para evitar as tentações de nosso sectarismo.
https://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/09/a-esquerda-e-o-favelismo.html

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Quando a meritocracia racista não funciona, ela mata


Sílvio Luiz de Almeida é advogado, filósofo, professor e doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP.

É dele a ótima palestra “Estado, Direito e Análise materialista do racismo”, apresentada em evento promovido pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos, em 30/06/2016.

Alguns trechos abaixo:

Todo o racismo é uma relação social.

O racismo é uma ideologia que naturaliza a posição dos negros na sociedade.

Racismo se combate de duas maneiras. Com educação, algumas vezes, e com porrada, na maioria delas. A pessoa pode esquecer uma aula ou um livro. Mas quando toma um chacoalhão, ela vai lembrar.

A única maneira de incorporar as diferenças de classe ou de raça é forjar um discurso universalista. Por exemplo, eu tenho universidade pública e tenho uma população negra que é a segunda em tamanho no mundo. Mas a maioria dos alunos daquela universidade é branca. A única maneira de explicar isso é colocar na conta do indivíduo. É a meritocracia.

O racismo não é o irracional. Não é o anormal. O racismo é o normal. O racismo é uma forma de racionalidade. Uma forma de normalização das relações sociais do nosso tempo. Por outro lado, e esta é a parte mais importante, o sistema penal complementa a institucionalização do sistema meritocrático. Porque ele estabelece o controle carcerário da pobreza, estigmatizando jovens negros, de modo que sua inserção no trabalho altamente precarizado e até mesmo sua eliminação física serão vistos com normalidade por parte significativa da sociedade.

Resumindo, se a meritocracia não funciona, você mata. Simples, assim...

Há muitos outros momentos importantes na exposição. Assista a íntegra aqui. Vale a pena!

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/09/quando-meritocracia-racista-nao.html

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Os PMs que matam e os PMs que morrem

Os PMs que matam e os PMs que morrem

Em meio à onda de mortes de PMs no Rio de Janeiro, escapa ao senso comum o fato de que pode haver dois tipos de policiais. Alguns estão condenados a morrer, outros, encarregados de executar.

É o que discute, por exemplo, A PM que mata e a PM que morre. Esta pílula de 2015 utiliza números daquele ano sobre a polícia paulista. Os dados sugerem que é falsa a ideia de que a alta taxa de mortes de policiais resulta de enfrentamentos com bandidos.

Ao contrário, na grande maioria das vezes em que a PM mata, suas vítimas estão dominadas. E muitas das mortes de PMs também resultam de execuções. Parece haver uma espécie de divisão macabra de tarefas.

De um lado, os policiais encarregados de executar criminosos, muitas vezes meros suspeitos. De outro, aqueles abandonados à própria sorte, quando surpreendidos ou emboscados por bandidos. O fato de que alguns dos executados possam ser também executores não ameniza a selvageria da situação.

“Em comum entre os que morrem e os que matam, salários baixos e origem pobre”, dizia a pílula. Enquanto isso, para a alta hierarquia policial e governamental, “só importa que os mortos, civis ou militares, continuem a ser os mais pobres e pretos”.

Não há razões para acreditar que esta situação se restrinja a São Paulo ou tenha mudado nos últimos anos. A lógica militarista assassina das PMs continua forte e generalizada.

A esquerda e os setores populares devem continuar denunciando a repressão policial, mas para realmente enfrentá-la, é preciso compreender seu caráter de classe também no interior dos aparelhos policiais.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/08/os-pms-que-matam-e-os-pms-que-morrem.html

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O Ministério Público tem sido o grande representante do Fascismo na sociedade brasileira


A única consequência possível de um povo que vibra com sangue e ódio é o adoecimento de suas instituições. Uma delas é o Ministério Público, o qual, em tese, fala pela sociedade brasileira supercampeã em desigualdade social, discriminação racial, de gênero e outras mais variadas formas.

Como porta-voz dessa sociedade nas relações processuais, o MP tem prestado um excelente serviço em todos escalões - de Cabrobó até Brasília, o posicionamento da instituição caminha no sentido de ser o mais reacionário possível, inclusive em respostas exigidas nos concursos para ingresso na carreira[1]. 

Não são raras as vezes que o Ministério Público opta pelo senso comum que repudia a diferença. Um exemplo paradigmático foi quando, no julgamento da descriminalização das drogas, o chefe da instituição Rodrigo Janot naturalizou o chorume de comentários na rede social e foi além de todos que se posicionaram contra: passou a inventar dados. Disse, entre outras desinformações, que 90% das pessoas que fumam maconha se viciam; não satisfeito, segundo ele, basta fumar uma vez para que a pessoa se torne dependente química. Parece brincadeira de péssimo gosto, mas foi o argumento encontrado pela autoridade máxima da instituição.

Quando a desinformação e autoritarismo rendem aplausos, as prioridades mudam. Em tempos de chacina de 19 pessoas pela polícia, o ouvidor da corporação paulista do Estado elencou alguns motivos para que a PM assassinasse tanta gente com tamanha naturalidade. Um deles: policiais acusados de matarem são sistematicamente alvos de pedidos de absolvição pelo Ministério PúblicoA mesma conclusão foi da Human Rights Watch, a qual analisou a atuação policial no Rio de Janeiro e percebeu que “há má vontade do Ministério Público em investigar esses casos e que normalmente as investigações só avançam quando há interesse social e pressão por parte da mídia”

O Delegado de Polícia Orlando Zaccone percebeu a mesma coisa e foi na sua tese de Doutorado pesquisar como promotores e promotoras fundamentavam o pedido de arquivamento de casos em que quem está no banco dos réus não é um dos p’s (pobre, preto e puta), mas sim um policial. Em entrevista ao Justificando, ele esclareceu, basicamente, os porquês dessa benevolência:

O fundamento basicamente tem a grande pergunta do auto de resistência: não como a polícia agiu, mas quem ela matou. Então, completada a figura do inimigo, isto é, o traficante de drogas, e esse fato ocorrendo dentro de favelas, de guetos, isso é colocado na escrita dos promotores de justiça como elementos a justificar a morte.

Então é o seguinte: o Ministério Público é benevolente apenas e tão-somente com policiais militares, pois entende que por trás de cada assassinato há algo que o justifique, ou, ainda que não haja, "matar bandido" é necessário. Uma das premissas fascistas é o arbítrio e a naturalidade com as quais as instituições lidam com a violação maciça de direitos humanos, em especial, se o alvo for um inimigo público. E em um país desigual e racista, não há inimigo maior do que o jovem negro da periferia.

Se esses jovens não são violados pela omissão do Ministério Público no controle da polícia que mais mata no mundo, são enviados para nossos presídios, a masmorra contemporânea, muito por conta de uma lei de drogas racista, cuja principal razão de existir é encarcerá-los, sob o protagonismo do Ministério Público de acusar e brigar pela prisão a todo custo, contra qualquer forma de liberdade.

Fascismo vive de inimigos a serem combatidos. O Ministério Público sabe disso melhor do que ninguém

Pela unidade da nação, que entrega sua liberdade em nome de um bem maior, a existência de um inimigo interno é a melhor coisa que uma instituição que descambou para o fascismo poderia desejar. Atualmente, além do jovem pobre, o inimigo atende pelo nome de político corrupto.

O termo é uma pegadinha, na verdade. Não são corruptos todos os políticos que percebem uma vantagem financeira indevida, mas especificamente políticos de um determinado partido - o PT. É curioso que o partidarismo do MP seja sempre rebatido por analistas simpáticos à instituição toda vez que um cacique do PSDB sofre um processo judicial. Tá vendo? - desafiam. Para eles, digo que falta o recorte de classe na análise: promotores e promotoras de justiça vêm de famílias elitizadas, além de perceberem um salário de classe média alta. São pessoas que reproduzem a opinião política majoritária na elite econômica, filiada no país ao PSDB. 

Por isso promotores são tão vorazes contra "corruptos" do PT e políticos de demais partidos que representem a imagem e o voto do pobre, do evangélico, do incauto; em parceria com a magistratura, que sofre do mesmo mal, conseguem a liminar para prejudicar os planos do partido em um dia (alguém lembra do pedido de prisão baseado em Marx e Hegel?)Contudo, quando um helicóptero cheio de cocaína é descoberto, bem, aí não acontece nada mesmo - há outras razões para o partidarismo, além do recorte de classe. Processo em face de tucanos rende menos mídia e menos tapinha nas costas nas confraternizações, por exemplo.

Então está feito o disclaimer. Político corrupto é uma categoria bem específica, mas é capaz de "unir" o país a ponto de milhões de pessoas ocuparem as ruas nas mais variadas cidades e aplaudirem quem está combatendo esse inimigo. No caso do Judiciário, Sérgio Moro e os Procuradores do Ministério Público Federal ganharam tamanho empoderamento e capital político a ponto de reunir duas milhões de assinaturas pelas 10 medidas contra a corrupção.

Um pouco diferente da batalha contra o jovem periférico, a guerra contra a corrupção esconde outra motivação preocupante: o sequestro da política pelo poder Judiciário - entendidos nesse contexto como magistratura e ministério público. A Judicialização da política é ainda mais preocupante quando os juristas não escondem uma preferência partidária, muito menos o gosto agridoce do poder.

Voltando, 10 medidas contra a corrupção é, de fato, um ótimo nome para um projeto de lei. Quem seria oposição a 10 medidas contra a corrupção? O Procurador que percorre o país na defesa delas é bem arrumado, tem gel no cabelo penteado para o lado e sorriso bobo. Verdadeiro menino bom. Ocorre que por trás de tanta bondade, reside um projeto de lei que rebaixa o Habeas Corpus, legaliza prova ilícita, reduz a prescrição, cria crimes cuja prova deve ser feita pelo réu e demais arbítrios que destroem a Constituição Federal. A crítica não é apenas a Deltan Dallagnol, mas sim, a toda carreira, ante o simbolismo e representatividade de sua atuação.

"Contra o político corrupto vale tudo, o que não aguentamos mais é impunidade" - dirá o mantra da nação, empunhando suas bandeiras por um Brasil melhor contra-tudo-que-está-aí. Todavia, o procurador de sorriso bobo e o Ministério Público são incapazes de fazer, por terem submergido ao fascismo, a constatação de que estamos no pódio de países que mais prendem no mundo. Impunidade aqui é piada e qualquer projeto, qualquer um mesmo, que venha a arrancar mais garantias das pessoas, endurecer mais uma instituição já autoritária e empoderada, vai piorar o que já está péssimo. Vai prender o político corrupto? Vai, mas vai prender MUITO o jovem pobre também - fora que, convenhamos, violar a Constituição para cumprir a lei é um contrassenso tão grande que não vale nem adentrar no assunto.

Tatue na testa para não esquecer: quem vai pagar essa conta de oba-oba contra a corrupção é o pobre, o negro, o jovem, a mulher, o político corrupto, o honesto, ou quem mais não os agrade. Por isso, muita gente séria tem se levantado contra a perda dos direitos e garantias individuais, pela Constituição e se opondo a olhar no cárcere solução para o que quer que seja. É a lógica do anti-punitivismo, que, infelizmente, não vende jornal, nem passa às 20h na tela da Globo. Para quem quiser conhecer a opinião de renomados estudiosos de todo país desconstruindo, medida a medida, esse absurdo de marketing institucional, sugiro a leitura do boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Pelos aplausos, poder de investigar e serem o salva-guarda da nação, o MP rebaixa o Estado de Direito no país - já tão baixo. Para quem ainda não entendeu, o problema não é ser contra ou a favor da corrupção - acredito que é até tosco imaginar alguém a favor. O cenário complica quando alguém, ou alguma instituição, acredita ser a personificação da moral e da ética, quando, a bem da verdade, é só a personificação do fascismo mesmo.

Brenno Tardelli é diretor de redação do Justificando

[1] Há exceções de promotores e promotoras compromissados com a Constituição Federal. Ocorre que, além de serem cada vez mais raros, são perseguidas dentro da própria carreira e servem como prova de que a regra é outra, muito mais sórdida.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Todo branco é racista?


Por Jones Makaveli, em seu blog

Um sujeito de esquerda fez uma postagem afirmando que todo branco é racista. O poste me chamou atenção. Basicamente, ele vê a sociedade dividida entre brancos e negros, afirma que todo branco é privilegiado (e induz a pensar que todo branco no Brasil é rico) e por isso será racista. A certa altura do texto ele diz que "racista é aquele que oprime e/ou se beneficia da opressão direta e/ou indireta de uma raça. É todo aquele que goza de algum beneficio da estrutura social racista!", contudo, diz que o "branco racista" pode ser aliado na luta, combater o racismo, mas mesmo assim continuará sendo racista, pois "seguirá sendo racista enquanto a sociedade assim o for. Enquanto ela o beneficiar pela cor de sua pele” [1]. Esse tipo de discurso é bem na moda na majoritária do movimento negro de base culturalista - estranho é um marxista divulgar isso.

Antes de entrar no conteúdo do texto, é necessário traçar um comentário teórico-político. A produção do conhecimento nunca é neutra. Ela é constituída por determinantes de classe, institucionais, ideológicos, econômicos e geopolíticos. Determinada teoria, tema ou abordagem ser dominante ou marginalizada nunca é produto de um confronto erudito entre os membros do campo científico, como se disputando quem tem a “melhor teoria”. Logo, o foco da crítica e da análise da questão do racismo explícita – mesmo que muitas vezes as pessoas não estejam conscientes disso – a perspectiva de classe, política e teórica. Para um marxista o foco da análise deve sempre ser como as relações materiais de produção e a dinâmica política e ideológica de uma determinada formação social condiciona a produção e reprodução de terminado complexo social em sua gênese, estrutura e desenvolvimento. Ou seja, mesmo que estudemos o racismo através dos seus efeitos em microrrelações, como na escola, nunca podemos perder de vista da totalidade da dinâmica societária comandada pela lógica do capital.

Alguém pode, formalmente, se afirmar marxista, mas na prática, isto é, em debates, produção do conhecimento e militância, está mais preocupado em que fulano “x” reconheça seus privilégios, fulano “y” não use turbante porque é “apropriação cultural”, ou fulano “z” não queria militar contra o racismo porque é branco; o marxismo desse sujeito é apenas uma palavra vazia. Esse sujeito age politicamente e pensa com um misto de liberalismo e pós-estruturalismo. É lógico que não estou cobrando uma análise marxista apurada do racismo nesse post do Facebook, mas a forma como o sujeito construiu o texto e a escolha do seu foco de “análise” é sintomático. Inutilmente podemos procurar a palavra classe, capital, capitalismo ou Estado burguês nesse texto. Dito isso podemos entrar na questão central.

Karl Marx em seu célebre 18 Brumário disse que “os homens fazem sua história, mas não a fazem como querem”. Ou seja, o sujeito histórico da transformação social – que é sempre a classe social – faz a história, mas sobre condições que muitas vezes escapam ao seu controle (as famosas condições objetivas).  Antônio Gramsci avançou nessa direção e criou a categoria de política em sentido amplo, isto é, quando o sujeito histórico toma consciência das suas possibilidades históricas de atuação ditadas pelas condições objetivas, deixa de ser sujeito passivo dessas condições e atua como vetor da transformação histórica. Com esses dois exemplos quero mostrar que na tradição marxista existe uma dialética entre sujeito e estrutura. As condições materiais concretas de uma época forjam o sujeito histórico, mas esse sujeito histórico não é um mero agente passivo, um eterno dominado pela ideologia e as condições dominantes, posto que se assim fosse, a mudança histórica estaria descartada. A classe trabalhadora é dominada pela ideologia burguesa (“as ideias de uma época são as ideias da classe dominante”), explorada e dominada politicamente, mas, através da sua organização política, elevação do nível de consciência e luta pode transformar as condições materiais capitalistas – ou seja, a classe obrera é produto das estruturas, mas ao mesmo tempo pode ser sua negação histórica.

Dito isso, à luz do marxismo, é no mínimo estranho alguém dizer que enquanto existir racismo todas as pessoas brancas serão racistas. É evidente, porém, que no capitalismo dependente brasileiro o racismo é um complexo social constitutivo das relações de produção e poder, e tendencialmente a imensa maioria dos brasileiros serão racistas – afinal, a ideologia dominante é a da classe dominante. Mas negar que uma pessoa – mesmo branca – possa não reproduzir práticas racistas pressupõe a impossibilidade estrutural de o sujeito histórico produzir transformações em sua forma de consciência. Isso ignora que mesmo no capitalismo as forças anticapitalistas, como as organizações comunistas, procuram criar espaços de socialização pautados em outros elementos ideopolíticos e novas práticas sociais. Não é preciso dizer, me parece, que enquanto existir o racismo, mesmo sendo parte um projeto de transformação revolucionária, o sujeito histórico viverá em constante luta contra a ideologia dominante e a superação total da hegemonia burguesia na consciência é pouco provável enquanto não se estiver no processo de transição socialista.

Mas se a superação total das formas ideológicas de consciência burguesas é possível apenas na transição socialista, isso significa que seremos racistas enquanto existir o capitalismo dependente racista brasileiro? A resposta é não! Responder sim significaria ignorar as práticas sociais concretas. Explicando. O autor do post que estamos criticando diz que todo branco será racista mesmo que não tenha práticas sociais racistas, pois “Enquanto ela o beneficiar pela cor de sua pele” será racista. Aqui temos uma antinomia. Nesse caso o sujeito não “é” racista, ele “está racista” por causa de uma estrutura racista que independente do que ele fizer o torno racista – algo como o “suporte das estruturas” bem ao gosto do estruturalismo francês.

O que quero dizer é que mesmo existindo uma tensão constante entre a ideologia dominante e as formas de consciência emancipatórias que combatem as opressões, e que essa tensão é superada nas condições materiais e não na consciência, o sujeito a ser socializado em novas práticas e conjuntos ideopolíticos pode desenvolver uma forma de consciência que condiciona seu agir de um modo a ele não ser um reprodutor de práticas racistas, embora viva no racismo. Dando um exemplo. Todo comunista passou por um processo de níveis variados de superação da ideologia burguesa para lutar pelo socialismo. Continuamos vivendo no capitalismo.Mas, mesmo assim, o comunista age como um não reprodutor da ideologia burguesa em suas microrrelações cotidianas – eu, por exemplo, enquanto professor de História não aplico métodos avaliativos supostamente meritocráticos e formas de “controle” coercitivos em sala de aula.

Mesmo que eu não tenha superado totalmente a ideologia burguesa e que exista uma constante tensão entre a perspectiva ideopolítica comunista e a ideologia burguesa na minha consciência e prática social (o que pode, muitas vezes, produzir atos incoerentes de minha parte), eu consigo, no dia a dia, manter práticas sociais de alguém que não é dominado pela ideologia dominante – considerando todas as limitações estruturais disso, é claro (se a diretora do colégio me mandar mudar o método de avaliação, mesmo eu sabendo os impactos disso, não tem o que fazer, por exemplo).

Para resumir podemos dizer que todo branco dominado pela ideologia dominante é tendencialmente racista, mas existem possibilidades histórico-concretas da superação do seu racismo nas práticas sociais cotidianas, embora que a criação de uma subjetividade totalmente livre do racismo passe por um processo radical de transformação social (a revolução socialista).