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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O complexo de vira-latas, ontem e hoje


Roberto Amaral
CartaCapital


“A ponte Rio-Niterói é, portanto, uma linda obra turística, cuja prioridade não se justifica em um país de escassos recursos que se defronta com necessidades berrantes que aí estão nesta mesma região do País, clamando pela ação do Governo”.

Eugênio Gudin, O Globo, 2/3/1974


Foi Nelson Rodrigues, em crônica às vésperas da Copa do Mundo de 1958 (Manchete esportiva, 31/5/1958), quando a seleção brasileira partia desacreditada para a disputa na Suécia, quem grafou o conceito de “complexo de vira-latas”, resumo de um colonizado e colonizador sentimento de inferioridade em face do estrangeiro e do que vem de fora, seres e coisas, ideias e fatos.

'Para os áulicos do conservadorismo, tudo o que significa
investimento  com vistas ao futuro deve ser adiado,
como supérfluo'.   Foto: Jupiterimages/AFP
Impecável a definição, cujas raízes nos levam à empresa colonial e ao escravismo, à dependência cultural às diversas Cortes que sobre nós reinaram e ainda reinam.

Peca, porém, o teatrólogo genial e reacionário militante ao atribuir tal “complexo” a um fenômeno nacional, como se fosse ele um sentimento de nosso povo, de nossa gente, pois nada é mais povo brasileiro do que o torcedor de futebol.

Esse sentimento existe, mas regado pela classe dominante brasileira, desde a Colônia, que sempre viveu de costas para o país e com os sonhos, as vistas e as aspirações voltadas para a Europa. Terra de “índios desafeitos ao trabalho”, de “negros manimolentes e banzos” e “europeus de segunda classe”, nosso destino, traçado pelos deuses, era a de eternos coadjuvantes. História própria, industrialização, destino de potência… ah, isso jamais!

Nem no futebol, pois havíamos perdido as copas de 1950 e 1954 justamente porque éramos (eram nossos jogadores) um povo mestiço.....

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ah, se fosse no Brasil...

Essa expressão está sendo usada maciçamente (massivamente é a mãe) nos últimos dias, numa expressão de profunda vira-latice. Não foi e nunca será no Brasil, vira-latas. Cada país tem seus problemas e soluções; terremotos e tsunamis não fazem parte dos nossos problemas, excetuando uma possível queda de meteoro de grande porte próxima ao nosso litoral.

O pensamento vira-lata é, basicamente, a redução das características dos outros países às suas qualidades e a ampliação de nossos defeitos até que ocupem todo o horizonte observável. Frio, terremotos, tsunamis e custo de vida altíssimo fazem parte do pacote japonês, se te parecerem suportáveis, boa sorte lá, amigão.


É impressionante como o vira-lata consegue não ver o clima, o custo de vida, o racismo, os costumes intoleráveis e inúmeras outras "qualidades" do que eles chamam de "primeiro mundo". Parece que ao mudar para, digamos, Nova Iorque só o que você terá é o acesso à riqueza americana. O inverno com 30º abaixo de zero, o preconceito contra o cucaracha, a comida horrorosa, a possibilidade de uma visita involuntária a Guantánamo não entram no "horizonte de eventos" da criatura.

O Canadá, para dar um exemplo positivo, é um país maravilhoso. Rico, belo e imenso. Nesse exato momento a temperatura na belíssima Montreal é de 2º. Dá para aguentar, não dá? Naquele lugar lindo, onde tudo é aquecido, 2º não parece tão ruim assim, mas analise isso antes de fazer as malas: em dezembro a temperatura oscila entre -12º e -3º, em janeiro piora um pouco para entre -16º e -6º, em fevereiro entre -14º e -4º e finalmente em março chegamos a um calorzinho de -7º a +2º. Quatro meses abaixo de zero! Que beleza para esquiar, não é? Já para trabalhar, estudar e outras coisas menos importantes não é assim tão bom, acredite-me. Diminua o tamanho e acrescente alguns nazistas planejando te matar no meio da rua à pauladas (imigrante e raça inferior) e você está na Alemanha!



                               Clima agradável em Montreal


 EskerdoNews