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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Como é o Brasil da sua Venezuela?

Nosso entendimento da crise venezuelana é prejudicado pela qualidade da mediação informacional disponível. De um lado, temos o reducionismo sensacionalista das agências e dos grandes veículos. De outro, um microcosmo subjetivo de testemunhos e opiniões selecionados segundo critérios de variadas conveniências.


Quem usa sentidos diversos de “golpe” e “democracia” ao tratar de Brasil e Venezuela fala sobre qualquer coisa, menos de golpe e democracia. Fala muitoNinguém sabe direito o que se passa na Venezuela. Nem a tal “mídia progressista” estrangeira, a julgar por suas fontes. De qualquer forma, não precisamos de intérpretes para notar que a narrativa da ditadura ilegítima e consensualmente odiada é tão frágil e questionável quanto a narrativa do levante imperialista contra os heróis bolivarianos. 

Falto de base empírica, o debate sobre o assunto virou um mosaico de respostas a polêmicas da atualidade brasileira, projetadas para o universo vizinho. Na esfera antipetista, a vilanização caricatural de Nicolás Maduro tem óbvias referências locais. Também o repúdio intempestivo à Assembleia Constituinte, um fantasma que ronda o reformismo hipócrita da direita verde-amarela.

Mas nem tudo prima pela coerência nesse jogo de projeções. Boa parte dos argumentos negativos usados contra Maduro poderia servir para a desqualificação de Michel Temer, da Lava Jato, do impeachment e até dos governos estaduais tucanos. Ideias que no Brasil seriam estigmatizadas como “petralhas” ganham status civilizado ao tratar da Venezuela.

Segundo os democratas conterrâneos, ditadores abocanham o poder manipulando normas constitucionais. Enviam polícias e mascarados para reprimir manifestantes. Compram apoio da mídia com publicidade estatal. Destroem adversários através de arbítrios judiciais. Aparelham as cortes e aliciam magistrados. Subornam congressistas.

Soa familiar?

Sintomaticamente, a maioria dos ataques apaixonados à ditadura venezuelana vem de pessoas que jamais qualificam o impeachment brasileiro como golpe parlamentar. São intolerantes com “bandidos de estimação”, fãs de juízes e procuradores ativistas, inimigos de acordos de governabilidade, incrédulos quanto ao sistema representativo no país.

Sim, os contextos (sempre) são diferentes, mas aqui o álibi perspectivista vale pouco. Não interessa o conflito de posicionamentos. A questão é baseá-los em conceitos volúveis, que se transmutam ao sabor das conclusões desejadas: a identidade do réu definindo a essência criminosa do ato. O exemplo jurídico, tão atual e assustador, mostra a força deletéria da esquizofrenia “pós-verdadeira”.
, certamente, de si mesmo. Essa revelação involuntária, se não ajuda a compreender a crise alheia, fornece pistas interessantes sobre as nossas próprias vicissitudes.
http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2017/08/como-e-o-brasil-da-sua-venezuela.html

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Enquanto o 1% de cima tem 51%, os 50% de baixo só têm 1%



  
Para deixar ainda mais escandaloso o quadro, se fazemos as contas com os 10% mais ricos do planeta, veremos que eles acumulam 89% de toda a riqueza do mundo! Esta é a nova cifra calculada pelo informe anual da riqueza global do banco Credit Suisse. A cada ano, o Credit Suisse apresenta este informe, escrito pelos professores Tony Shorrocks, James Davies e Rodrigo Lluberas – que antes o elaboravam para a ONU.

Costumo escrever sobre ele a cada ano, em artigos que geralmente terminam se posicionando entre os mais populares.

Da última vez que tratei dos resultados desses informes, o 1% mais rico tinha 48% da riqueza global. Logo, neste um ano e meio, a desigualdade global aumentou ainda mais, segundo a pesquisa.

Entretanto, a proporção de riqueza acumulada pelo 1% ou pelos 10% mais ricos se reduziu entre 2000 e 2007, de um 50% (percentual similar ao deste último estudo) a um 46%. Uma diferença não muito grande, mas que marcava uma tendência de queda, que se inverteu depois da crise financeira, com os setores mais ricos voltando a perceber os níveis de concentração observados no começo deste século.

Os investigadores do Credit Suisse estimam que estas mudanças refletem principalmente a importância relativa dos ativos financeiros dos lares, que voltaram a aumentar de valor a partir de 2008, fazendo crescer a riqueza de muitos dos países mais ricos, e de muitas das pessoas mais ricas, em todo o mundo. Apesar de a proporção dos ativos financeiros se reduzir este ano, as partes dos grupos de riqueza superiores continuaram aumentando. No outro extremo da pirâmide da riqueza mundial, a metade inferior dos adultos possui coletivamente menos de 1% da riqueza total.

A principal razão principal desta enorme desigualdade é que há muitos pobres (em termos de riqueza) no mundo. Não se necessita muito para se estar na parte de cima da pirâmide. Deduzidas as dívidas, a pessoa só necessita ter 3,7 dólares para formar parte do grupo dos possuidores de riqueza.

Entretanto, se necessita cerca de 77 mil dólares para pertencer aos 10% mais ricos, e 798 mil dólares para se chegar ao 1%, o patamar superior, onde estão os donos de mais da metade da riqueza mundial. Assim, se você é dono de uma casa (ou seja, não paga aluguel) em qualquer cidade importante num país desenvolvido do hemisfério norte, você provavelmente é parte desse 1% superior. Não se sente rico por isso? Pois o cenário que demonstra essa riqueza é o do contraponto, a situação dos pobres, que são a grande maioria das pessoas no mundo: sem propriedade, sem dinheiro e, evidentemente sem ações, títulos ou bonos.

A investigação mostra que 3,5 bilhões de pessoas – 73% de todos os adultos do mundo – possuem bens e renda inferiores a 10 mil dólares em 2016. Outros 900 milhões de adultos (19% da população mundial) estão no leque entre 10 mil e 100 mil dólares. Os pobres se concentram no continente africano, na Índia e nas nações mais pobres da Ásia. Porém, também há um número significativo de pessoas que são pobres segundo esses parâmetros, e que vivem na América do Norte e na Europa – entre eles 9% dos norte-americanos, a maioria com um patrimônio líquido negativo, e 34% dos europeus. Essas pessoas não só carecem de riquezas como também vivem endividadas.

E quem são os que estão cada vez melhor? Certamente não são os indianos. A Índia tem só 3,1% das pessoas de classe média do mundo (com uma riqueza de entre 10 mil e 100 mil dólares) e essa proporção praticamente não mudou nos últimos anos. Pelo contrário, a China conta com 33% da população em níveis médios de riqueza, dez vezes mais que Índia, e essa proporção se duplicou desde o ano 2000. Isto nos mostra que a expansão econômica sem precedentes da China tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, ainda que a desigualdade tenha aumentado.

Além disso, o número de milionários, que se reduziu em 2008, mostrou uma rápida recuperação depois da crise financeira, e agora é mais que o dobro da cifra de 2000. Na atualidade, há 32,9 milhões de milionários a nível mundial (ou sejam adultos com mais de 1 milhão de dólares em propriedades ou economias, descontadas as dívidas). Há somente 140 mil pessoas em todo o mundo com patrimônio superior a 50 milhões de dólares. E também há mais de 2 mil multimilionários, que são realmente os donos do mundo.

Supondo que não haverá mudanças na tendência de aumento da desigualdade com respeito à riqueza mundial, se espera que haja mais 945 multimilionários nos próximos cinco anos, elevando o total a quase 3 mil. Mais de 300 desses novos multimilionários devem ser da América do Norte. A China, segundo esses cálculos, somará mais novos multimilionários que toda Europa junta, situando o total de chineses nesse patamar acima dos. O Credit Suisse estima que a riqueza global total agora é de 334 bilhões de dólares, ao redor de quatro vezes o PIB mundial anual. No começo deste século, houve um rápido aumento da riqueza mundial, com um crescimento mais rápido na China, na Índia e em outras economias emergentes, que representaram 25% do aumento da riqueza, apesar de que possuíam somente 12% da riqueza mundial no ano 2000.

A riqueza mundial se reduziu em 2008, mas mostrou uma lenta tendência de recuperação a partir de então, com uma taxa significativamente mais baixa que a exibida antes da crise financeira. De 2010 em diante, a riqueza (em dólares) caiu em todas as regiões do planeta fora da América do Norte, Ásia-Pacífico e China. A riqueza per capita por adulto registrou crescimento pífio, e a riqueza média caiu desde 2010. Logo, o adulto médio é cada vez mais pobre.

Nos últimos 12 meses, a riqueza mundial aumentou em 1,4%, mal podendo manter o ritmo do crescimento da população. Como resultado, neste ano de 2016, a riqueza média por adulto se manteve sem mudanças pela primeira vez desde 2008, aproximadamente uns 52,8 dólares. Portanto, a população mundial em seu conjunto não se tornou mais rica no último ano e meio, mas a desigualdade aumentou.

* Michael Roberts é um reconhecido economista marxista britânico.

Tradução: Victor Farinelli


 Fonte: The Next Recession
http://www.vermelho.org.br/noticia/291248-1

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Medalhas são mesmo prioridade?


Como em toda competição internacional, a turma do provincianismo vira-latas tentará desmoralizar os resultados da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio. Agora, por motivos óbvios, com fúria redobrada.

O ramerrão é previsível: contas descabidas forjando custos exorbitantes por medalha, fracasso de expectativas supervalorizadas, comparações absurdas com outros países.

Não defendo o ufanismo cego, nem reduzo toda crítica a ressentimento antipatriótico. Apenas cobro consistência argumentativa, a partir de duas premissas complementares.

Primeiro, uma base conceitual e estatística sólida. A referência a qualquer exemplo internacional demanda conhecer seus programas de apoio, suas legislações específicas, os valores aplicados em cada modalidade, etc.

Segundo, a adoção de um modelo coerente de investimento, sem esquizofrenias sobre o papel do Estado no incentivo ao setor. Queremos que o esporte de ponta ganhe prioridade no uso do dinheiro público? Ou medalhas são responsabilidade da TV Globo, da Adidas, do Bradesco, da Vale?

Também é necessário superar o mito da formação de atletas olímpicos como trabalho de base apenas sócio-educativa. Se alto rendimento esportivo dependesse da qualidade da educação e da saúde oferecidas aos cidadãos comuns, os melhores IDHs do mundo seriam campeões de medalhas olímpicas.

Não resta dúvida sobre a importância do esporte para a infância e a juventude, mas pódios exigem mais do que diletantismo e popularidade. Exigem instalações modernas, equipamentos de última geração, laboratórios avançados, especialistas,suporte incondicional da mídia. Em suma, um tratamento digno de estratégia geopolítica.

Eis o núcleo indigesto do debate sobre nosso rendimento olímpico. Antes de aderir a politizações oportunistas e achismos simplórios, a cobrança por medalhas precisa levar em conta o nível de sacrifício e comprometimento necessários para se construir o idílio esportivo.
no: http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2016/08/medalhas-sao-mesmo-prioridade.html

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

5 MENTIRAS QUE LHE MANTÉM PRESO NA SUA ZONA DE CONFORTO


Um rei foi presenteado com dois jovens falcões. Este, imediatamente contratou um mestre em falcões para treiná-los. Depois de vários meses, o instrutor disse ao rei que um dos falcões foi bem educado, mas não sabia o que estava acontecendo com o outro.
Desde que ele tinha chegado ao palácio, ele não havia se mudado de galho, ainda tinha que levar a comida diariamente a ele.
O rei chamou diversos curadeiros, especialistas em aves, mas nenhum pode fazer o pássaro voar. Desesperado, ele emitiu um decreto proclamando uma recompensa para aqueles que fizessem o falcão voar.
Na manhã seguinte, o rei viu o pássaro voando em seus jardins.
– Traga o autor deste milagre! Ordenou o rei. 
Apareceu diante dele um simples camponês. O rei perguntou:
– Como você conseguiu fazer o falcão voar? Você é um mago?
– Não foi muito difícil meu rei – disse sorrindo o homem. – Eu só cortei o galho que ele estava. Naquela ocasião, o pássaro foi deixado sem nenhuma outra alternativa senão levantar vôo.
gaviao
Esta fábula ensina-nos que às vezes é necessário permanecer em uma zona campo para recarregar, mas permanecer aí por um longo tempo, nunca saberemos o quão longe poderíamos chegar.
Portanto, precisamos expandir cada vez mais nossa zona de conforto. Nós só crescemos fora da zona de conforto.
Quer gostemos ou não, a capacidade de deixar conscientemente nossa zona de conforto e se atrever a descobrir novos horizontes e realizar nossos sonhos é o que nos torna diferentes dos outros, é o que nos permite ter novas experiências que enriquecem e dão sentido a nossas vidas.
Infelizmente, a maioria das pessoas preferem ficar em sua zona de conforto, o espaço em que eles se sentem mais ou menos confortável e seguro.
Para entender a zona de conforto pode imaginar dois círculos concêntricos, um pequeno dentro de um maior.
O pequeno círculo representa todas as coisas a que estamos acostumados, nossos hábitos e rotinas que normalmente visitam os locais e pessoas que frequentam. É nossa zona de conforto.
Zona-de-Conforto
À primeira vista, tudo pode parecer grande, mas o fato é que a permanência dentro desse círculo não é uma garantia de felicidade e não garante que no final de sua vida não terá arrependimentos.
Na verdade, ficar na zona de conforto limita você, porque não lhe permite descobrir nada de novo. Assim, você pode morrer um pouco a cada dia. Lembre-se de que a vida começa onde termina sua zona de conforto.
No entanto, há um círculo muito maior, composto de coisas que você não conhece, o desconhecido, seus sonhos, novos lugares … É o círculo da aprendizagem, ai que ocorre a expansão.
Para muitas pessoas dar esse salto assusta-os demasiadamente, porque não sabem o que vão encontrar no outro círculo, de modo que colocam em prática um mecanismo de auto-sabotagem, para permanecer em sua zona de conforto e não ser forçado a sair.

As mentiras que contamos a nós mesmos para não sair da zona de conforto:


 1. “Eu não tenho porque fazer”

É verdade, ninguém pode empurrá-lo para fora de sua zona de conforto e você não é obrigado a sair, mas se você ficar dentro da caixinha, não irá crescer.
Lembre-se que não crescemos simplesmente pelo passar dos anos, mas pelos os desafios que enfrentamos.
Quando você pensa em um projeto que representa um grande desafio e de repente sua voz interior lhe diz que você não tem porque fazer, em realidade o que você está expressando é uma resistência à mudança, porque uma parte de você deseja que fique dentro dos limites do conhecido.
No entanto, se você pensar que não há nenhuma razão para realizar algo novo, lembre-se que simplesmente fato de crescer e descobrir, são razões mais que suficientes.
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2. “Não é o momento certo”

Condições perfeitas para empreender algo raramente ocorrem, mas para perseguir um sonho significa lutar contra o vento e a maré, criando condições ao longo do caminho.
Quando você diz a si mesmo que não é o momento certo, você está ativando o medo, provavelmente um intenso medo do fracasso inoculado em você desde a infância.
Claro, não se trata de se lançar-se a uma aventura sem avaliar os prós e contras, mas se nós realmente queremos alçar vôo, devemos ser conscientes que não podemos ficar parados, precisamos ir em pequenos passos.
E quando percebermos já estamos caminhando  melhor.
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3. “Vou começar quando …”

Esta é uma das desculpas mais comuns para ficar seguro em nossa zona de conforto. Na prática, é o engano perfeito, porque não estamos desistindo do sonho ou do projeto que temos em mente, mas apenas colocando-o de lado até que determinada situação ocorre.
O problema é que essa desculpa leva diretamente a procrastinação, por isso é provável que quando a condição da demanda for atendida, criaremos outra, e mais outras.
Desta forma, mantemos a esperança viva, mas ao mesmo tempo, temos que trabalhar duro para tornar esse sonho uma realidade.
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4. “Não é para mim”

Basicamente, por trás dessa frase a ideia de que nós não somos o suficiente bom ou capazes. Esta é a desculpa perfeita para inseguros e pessoas com  baixa auto-estima.
Também é uma desculpa usada por pessoas que têm medo do mundo e se fecham para novas experiências. Em qualquer caso, você não pode saber se algo que você  gosta ou não até prová-lo.
Na verdade, é provável que em mais de uma ocasião tenha pensado que algo não foi feito para você, mas depois de provar, você amou e se tornou empolgado com a nova situação.
Portanto, não feche  para novas experiências nem se limite como uma pessoa. É a pior coisa que poderia fazer.
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5. “Eu não sei como fazer”

As coisas novas podem assustar, então uma das desculpas que inventamos para ficar em nossa zona de conforto é dizer-nos que não sabemos como enfrentar o desafio.
Podemos pensar que não temos habilidades ou que nunca podemos desenvolver. No entanto, lembre-se que quando você tem um “quê”, os “comos” vem sozinhos.
É verdade, para realizar determinados projetos a preparação é necessária, mas isso não significa que você não pode fazê-lo, significa apenas que levará mais tempo ou precisa de alguém para ajudá-lo.
Nenhuma habilidade vem do nada, todos tem na sua base muita paixão e esforço para o que a realiza, é assim com todos que atingiram esses patamares.
No fechamento, tenha sempre em mente o que Nelson Mandela disse: “Impossível é tudo aquilo que não se tenta” ou como disse Michel Jordan: “Você erra 100% das bolas que não arremessa
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Fonte das fotosFoto1Foto2, Foto3, Foto4, Foto5Foto6Foto7

http://yogui.co/5-mentiras-que-lhe-mantem-preso-na-sua-zona-de-conforto/

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

EUA, China e Rússia: nova Guerra Fria?


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O objetivo deste primeiro de uma série de artigos, é analisar os atuais conflitos na Síria e na Ucrânia, a partir dos posicionamentos de EUA, China e Rússia em relação a eles, tendo como pano de fundo a transição na ordem mundial que está em curso. Tais conflitos somente podem ser compreendidos a partir de uma visão global dos conflitos geopolíticos e econômicos, pois não são fenômenos estritamente nacionais.
No atual sistema de poder internacional, desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos da América (EUA) são a única super-potência mundial. A principal potência imperialista está no vértice do sistema e exerce a sua hegemonia em aliança com as potências europeias (principalmente a Alemanha, mas também o Reino Unido e a França) e o Japão, articuladas no G-7 e na Otan. Para Samuel Pinheiro Guimarães, no “sistema internacional moderno, existe um condomínio de grandes potências, sob a hegemonia imperial americana consagrada no sistema das Nações Unidas”.
Segundo o especialista em Geopolítica Wanderley Messias da Costa, no contexto do capitalismo imperialista, a partir do final do século XIX até hoje, emergiram as potências mundiais e “as estratégias dessas potências tornaram-se antes de tudo globais, isto é‘projetos nacionais’ tenderam a assumir cada vez mais um conteúdo necessariamente internacional.”
Na coalizão liderada pelos EUA, obviamente há contradições, em especial com a Alemanha a França, que lideram a União Europeia, mas a força relativa dos EUA nas áreas econômico-financeira, tecnológica, político-diplomática e sobretudo militar, é tão grande que inibe possíveis dissensões e confrontos entre os membros da coalizão, fruto das contradições inter-imperialistas. As divisões entre as potências imperialistas durante o século XX, evoluindo para graves conflitos de interesse e depois guerras, estiveram na gênese das duas guerras mundiais.
No pós-Guerra Fria, todas as principais potências imperialistas fazem parte da mesma coalizão, amalgamada pela supremacia estadunidense. Talvez essa seja a principal razão, ao lado do “equilíbrio do terror” que a capacidade militar nuclear e de armas de destruição em massa de vários países cria, para não haver hipótese plausível de uma Terceira Guerra Mundial hoje.
Em termos geopolíticos, econômicos e militares, acelera-se a transição em curso nas relações de poder no mundo. Porém, a supremacia dos EUA ainda é muito grande, e a transição atual não está dada, é uma tendência, um movimento entre uma ordem global unipolar e uma possível nova ordem multipolar, que provavelmente terão os EUA e a China como futuras super-potências, e novos pólos como a União Eurasiática e a América do Sul integrada. Todavia, esse trânsito pode ser abortado por esforços de contenção, conflitos e guerras, a fim de se manter o status quo da ordem mundial.
O movimento de transição em direção à multipolaridade, apesar de reversível manu militari, deverá ser complexo e prolongado, contudo é uma tendência com direção, cujo ritmo e intensidade têm se acelerado e se intensificado nos últimos anos. Segundo James N. Rosenau, “uma ordem global nova ou reconstituída pode muito bem levar décadas para amadurecer”.
Em um contexto de crise capitalista internacional, os EUA e a União Europeia ampliam a ofensiva econômica e militar para tentar reverter a tendência ao declínio relativo de sua hegemonia. Assim, objetivamente, adensa-se a disputa entre os EUA e os países líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por um lado, e a China, a Rússia, os demais BRICS e países em desenvolvimento, inclusive da América Latina, por outro. Essa tendência da atualidade não é inexorável e eterna, como também não o é nenhuma ordem mundial.
O conflito na Síria, seguido pelas disputas político-militares na Ucrânia, marca uma nova etapa, no qual os Estados Unidos, a União Europeia e a Otan podem muito, mas não podem tudo. De 1989, ano da “queda do Muro de Berlim”, a 2012-2015 foram quase 25 anos de supremacia quase completa do chamado Ocidente, principalmente nos temas de segurança internacional. Agora essa situação começa a se alterar.
Os dois vetos seguidos de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU, em 2012 e 2013, somados ao conflito entre a Rússia e a Georgia, que terminou com uma resposta militar russa e o reconhecimento de Moscou à independência da Abkházia e da Ossétia do Sul, em 2008, podem ser caracterizados como ações políticas de Rússia e China que indicam um possível novo equilíbrio de poder em formação. A paralisação do Conselho de Segurança, em temas tão relevantes para os EUA, o Reino Unido e a França, quanto os conflitos na Síria e na Ucrânia, é algo inédito desde o fim da União Soviética.
Para Celso Lafer e Gelson Fonseca Jr., “as formas globais de equilíbrio de poder, multipolares, bipolares, ou a condição unipolar, afetam diretamente a maneira pela qual os organismos internacionais realizam os princípios e valores que adotam”. Os autores associam “a relação bipolar na Guerra Fria e a paralisação do Conselho de Segurança”, dizendo que uma das principais evidências da nova ordem mundial pós-Guerra Fria é que “estaria superado, aí sim, um defeito do sistema anterior, justamente o bloqueio dos mecanismos multilaterais pelo impasse permanente no Conselho de Segurança” da ONU.
Daí autores como Luiz Alberto Moniz Bandeira fazerem referência a uma “segunda Guerra Fria”. Para Moniz Bandeira – que escreve em seu livro “A Segunda Guerra Fria” antes do agravamento do conflito na Ucrânia –, há uma “nova guerra fria” em curso, e “a Síria converteu-se Major Theater War [maior teatro de guerra] (MTW) da segunda guerra fria, evidenciando mais nitidamente a confrontação de dois blocos, conformados, de um lado, por Estados Unidos, União Europeia, petromonarquias do Golfo Pérsico, Turquia e Israel, e, do outro, por Rússia, China e Irã, não obstante a diversidade e as contradições de interesses”.
Nos próximos artigos discutiremos as relações entre EUA, China e Rússia, e como estas se manifestam nos atuais conflitos envolvendo a Síria e a Ucrânia.

Por Ricardo Alemão Abreu**ECONOMISTA, MEMBRO DO COMITÊ CENTRAL E DA COMISSÃO POLÍTICA DO PCdoB, NA TAREFA DE SECRETÁRIO NACIONAL DE ORGANIZAÇÃO
link: http://renatorabelo.blog.br/2015/11/09/eua-china-e-russia-nova-guerra-fria/

domingo, 18 de outubro de 2015

Paraísos fiscais e o sistema financeiro global.





ECONOMIA - Paraísos fiscais e o sistema financeiro global.   

Os paraísos fiscais contaminam o sistema financeiro global Estamos acostumados a ler denúncias sobre os paraísos fiscais, mas a realidade é que apenas muito recentemente começamos a nos dar conta do papel central que jogam na economia mundial, na medida em que não se trata de “ilhas” no sentido econômico, mas de uma rede sistêmica de territórios que escapam das jurisdições nacionais, permitindo assim que o conjunto dos grandes fluxos financeiros mundiais fuja das suas obrigações fiscais, esconda as origens dos recursos, ou mascare o seu destino. A reportagem foi publicada por Carta Maior, 14-102015. 

Todos os grandes grupos financeiros mundiais, e os maiores grupos econômicos em geral, estão hoje dotados de filiais (ou matrizes) em paraísos fiscais. Os paraísos fiscais constituem uma dimensão de praticamente todas as atividades econômicas dos gigantes corporativos, formando um tipo de uma gigantesca câmara mundial de compensações, onde os diversos fluxos financeiros entram na zona de segredo, de imposto zero ou equivalente, e de liberdade relativamente a qualquer controle efetivo. 

Os recursos serão reconvertidos em usos diversos, nos espaços declarados formais, livres de qualquer pecado. Não é que haja um espaço secreto, é que com a fragmentação do fluxo financeiro, que ressurge em outros lugares e com outros nomes, é o conjunto do sistema que se torna opaco: “Se você não pode ver o todo, você não pode entendê-lo. A atividade não acontece em alguma jurisdição – acontece entre as jurisdições. O ‘outro lugar’ se tornou ‘lugar algum: um mundo sem regras’”.(28) 

Os volumes são conhecidos desde que a pressão das sucessivas reuniões do G20 e os trabalhos técnicos do TJN (Tax Justice Network), do GFI (Global Financial Integrity), do ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists) e do próprio Economist passaram as nos fornecer ordens de grandeza: são cifras da ordem de 21 a 32 trilhões de dólares, para um PIB mundial de 73 trilhões (2012). O Brasil participa com algo como US$520 bilhões, quase 30% do PIB. A OCDE acaba de lançar um primeiro programa de contenção dos drenos e do caos financeiro mundial gerado, o BEPS (Base Erosion and Profit Shifting), mais uma das múltiplas tentativas de se criar um marco legal para conter o caos planetário gerado. Mas na base está um problema central: o sistema financeiro é planetário, enquanto as leis são nacionais, e não há governo mundial. O sistema impacta diretamente os processos produtivos: “Keynes entendeu a tensão básica entre a democracia e os fluxos livres de capital. 

Se um país tentar reduzir as taxas de juros, digamos, para estimular as industrias locais em dificuldades, é provável o capital vazar para o exterior na busca de uma remuneração mais elevada, frustrando o seu intento”.(56) Quando além disto se pode ganhar mais, e deixar de pagar impostos, qualquer política econômica de uma nação se torna pouco realista. Assim “o sistema offshore cresceu com metástases em todo o globo, e surgiu um poderoso exército de advogados, contadoras e banqueiros para fazer o sistema funcionar...Na realidade o sistema raramente acrescentava algum valor, mas pelo contrário estava redistribuindo a riqueza para cima e os riscos para baixo, e criando uma nova estufa global para o crime”. (130) 

A questão dos impostos é central, e apresentada em detalhe. O mecanismo do offshore é apresentado a partir de um relatório de 2009 elaborado pelo FMI: trata-se “do velho truque dos preços de transferência: os lucros são offshore, onde escapam dos impostos, e os custos (o pagamento de juros) são onshore, onde são deduzidos dos impostos”.(216) A conexão com a crise financeira mundial é direta. “Não é coincidência que tantos dos envolvidos em tramoias financeiras, como Enron, ou o império fraudulento de Bernie Madoff, ou o Stanford Bank de Sir Allen Stanford, ou Lehman Brothers, ou AIG, estivessem tão profundamente entrincheirados em offshore.”(218) A maior parte das atividades é legal. 


A grande corrupção, como já apresentamos em outro trabalho (L. Dowbor, Os estranhos caminhos do nosso dinheiro, 2014), gera a sua própria legalidade, o que passa pela apropriação da política, processo que Shaxson qualifica de “captura do Estado”: Não é ilegal ter uma conta nas ilhas Cayman, onde a legalidade e o segredo são completos: é “um lugar que busca atrair dinheiro oferecendo facilidades politicamente estáveis para ajudar pessoas ou entidades a contornar regras, leis, e regulamentações de outras jurisdições”.(228) Trata-se, em grande parte, de corrupção sistêmica: “No essencial, a corrupção envolve entendidos (insiders) que abusam do bem comum, em segredo e com impunidade, minando as regras e os sistemas que promovem o interesse público, e minando a nossa confiança nestas regras e sistemas. 

Neste processo, agravam a pobreza e a desigualdade e entrincheiram os interesses envolvidos e um poder que não presta contas”.(229) A base da lei das corporações, das sociedades anônimas, é que o anonimato da propriedade e o direito de serem tratadas como pessoas jurídicas, podendo declarar a sua sede legal onde queiram e qual que seja o local efetivo das suas atividades, encontraria o contrapeso na transparência das contas. 

“Na origem, as corporações tinham de cumprir um conjunto de obrigações com as sociedades onde se situavam, e em particular de serem transparentes nos seus negócios e pagar os impostos... O imposto não é um custo para os acionistas, a ser minimizado, mas uma distribuição para os agentes econômicos (stakeholders) da empresa: um retorno sobre os investimentos que as sociedades e os seus governos fizeram em infraestruturas, educação, segurança e outros requisitos básicos de toda atividade corporativa”.(228) 

Shaxson fez um trabalho meticuloso, o livro é muito bem escrito, e compreensível para qualquer leigo. Jeffrey Sachs qualificou-o de “an utterly superb book”, Nicholas Stern, que já foi economista chefe do Banco Mundial, é igualmente um entusiasta. Estas referências são importantes, pois Shaxson não fez um panfleto contra os paraísos fiscais, e sim desmontou os mecanismos da finança internacional que neles se apoiam, oferecendo uma ferramenta para entender o caos mundial que nos deixa cada vez mais perplexos.


 O mecanismo nos atinge a todos, na injustiça dos impostos, mas também no prosaico cotidiano: “A construção de monopólios secretos por meio da opacidade offshore parece penetrar amplamente em certos setores e ajuda muito a explicar porque, por exemplo, as contas dos nossos celulares são tão elevadas em certos países em desenvolvimento”. (148) Os impactos são sistêmicos: “As propinas contaminam e corrompem governos, e os paraísos fiscais contaminam e corrompem o sistema financeiro global”.(229)

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http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com.br/2015/10/economia-paraisos-fiscais-e-o-sistema.html#!/tcmbck

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O poder mundial e nós


Defino o capitalismo como um sistema econômico e político no qual capitais privados vão sendo cada vez mais concentrados nas mãos de poucos oligarcas dominantes. Isso lhes permite conquistar não só as grandes empresas financeiras e produtivas, mas também o Estado.
2. Isso acontece sob regimes abertamente fascistas e também sob regimes aparentemente democráticos, em que o dinheiro e a mídia, a serviço dos oligarcas, controlam o sistema político e o resultado das eleições.
3. O capitalismo nos países centrais, mercê notadamente de guerras que envolveram os aspirantes à hegemonia, tornou-se, ao longo dos últimos 350 anos, um sistema de poder mundial, sob a hegemonia do capitalismo britânico, que depois consolidou sua associação com o norte-americano, formando o império angloamericano.
4. Atualmente, restam duas potências não subordinadas ao império, China e Rússia, capazes de propiciar equilíbrio na balança do poder mundial. Sem esse equilíbrio, não há como país algum, no mundo, desenvolver-se.
5. Veja-se a anomia prevalente no cenário mundial, do início dos anos 1990 até há pouco, período em que o império angloamericano cometeu colossais genocídios: na Iugoslávia, seguindo-se Iraque, Afeganistão, novamente Iraque, Líbia, para citar só alguns. Agora, em pauta, a Síria.
6. O auge da tirania imperial corresponde no Brasil aos governos Collor e FHC. Na Argentina, ao de Menem, e mais exemplos vergonhosos mundo afora.
7. O enfraquecimento e dissolução da União Soviética haviam deixado o planeta à mercê do império, secundado por seus satélites.
8. Mas a China vem ganhando poder em todos os campos, e a Rússia reafirma-se como potência nuclear e balística de grande porte.
9. Isso lhes dá autonomia nas decisões políticas e econômicas, e limita um pouco a tirania exercida pelo império angloamericano em âmbito global.
10. Se se tivessem mantido abertos à influência do império, não teriam alcançado o status de potências mundiais. Para tanto, precisaram de regime centralizado e fechado.
11. As histórias da Coreia do Sul e de Taiwan ilustram a mesma constatação: para se desenvolverem, tiveram governos militares nacionalistas, devido a circunstâncias especiais: a presença do comunismo na China e na Coreia do Norte, com apoio do Exército Vermelho da China de Mao Dze Dong. Este havia empurrado os partidários de Chiang Kai Chek para Taiwan (Formosa), onde se instalaram sob a proteção da esquadra norte-americana.
12. Em suma, os EUA precisavam deixar fortalecer-se aqueles dois países, empobrecidos pela exploração colonial e pela ocupação japonesa, além de devastados por guerras, antes e durante a 2ª Guerra Mundial. Do contrário, seus povos seriam reunidos a seus compatriotas sob governos comunistas.
13. Em nossa história, como na da Argentina, houve progressos para o desenvolvimento, exatamente sob regimes autoritários, no período entre-guerras da 1ª metade do Século XX e durante a 2ª Guerra Mundial.
14. O senador Severo Gomes, desaparecido no mar, em 1992, comentava que a arrancada para o desenvolvimento da Argentina e do Brasil fora possível graças ao relativo isolamento comercial propiciado pela 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e pela depressão dos anos 1930, seguida da 2ª Guerra Mundial (1939-1945).
15. A melhora das estruturas econômica e social só se pode realizar sob condições de poder central forte, como, no Brasil, as dos anos subsequentes à Revolução de 1930 e no Estado Novo (1937-1945), mercê da consciência nacionalista do Exército e da visão esclarecida e habilidade do presidente Vargas.
16. Como tenho exposto, Vargas foi injusta e incessantemente acoimado de ditador por agentes do império, horrorizado com a perspectiva de o País atingir o desenvolvimento econômico e social.
17. Por isso não cessavam de injuriar o presidente os adeptos do império angloamericano, fosse fascinados pela democracia de molde ocidental, fosse a soldo daquele império.
18. Tive, com frequência, ocasião de trocar ideias com Severo Gomes, empresário e antigo ministro da Indústria e Comércio (MIC) no governo do general Geisel. Também, com outros grandes brasileiros: o general Andrada Serpa, o físico Bautista Vidal (secretário de Tecnologia Industrial do MIC com Severo Gomes e criador do Programa do Álcool, Energia da Biomassa), e o Dr. Enéas Carneiro.
19. Todos tinham consciência plena de que o desenvolvimento só é possível com autonomia nacional e que um dos requisitos para esta existir é a autonomia industrial e tecnológica, inclusive com domínio da energia nuclear aplicada à defesa.
20. O que precede significa que, para o Brasil, é vital ter estratégia que:
1) contemple estarem as potências hegemônicas intervindo permanentemente em nosso País;
2) acompanhe a balança do poder em âmbito global, avaliando a medida em que o império se veja obrigado a concentrar recursos e atenção em outras regiões.
21. Dado o nosso recuo econômico, financeiro e tecnológico – crescente nos últimos decênios – a chance de êxito que possa ter o projeto de sobrevivência do País depende de unir o máximo possível das forças nacionais.
22. Estas têm sido agudamente divididas em direita e esquerda, ao longo dos últimos 85 anos. O marco foi a Revolução de 1930, a qual abriu a perspectiva de desenvolvimento do País.
23. Em seguida, o império angloamericano fomentou novos separatismos e passou a investir mais intensamente em cooptar e corromper locais, notadamente na mídia, como Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, dono dos Diários Associados, a maior cadeia jornalística da época.
24. Já no mandato de Vargas assumido em 1951, indagado Chatô, por que atacava o presidente e abria total espaço na TV a Carlos Lacerda, seu virulento e audacioso adversário, respondeu: “se ele desistisse de criar a Petrobrás, eu passaria apoiá-lo e lhe daria espaço em minha rede de comunicação”.
25. Outro, foi o notório Roberto Marinho, dono de O Globo desde 1931. Esse, desde 1964, recebeu favores oficiais e fartos recursos norte-americanos para tornar-se dominante na comunicação social.
26. Mais tarde, o império declarou, através de Henry Kissinger, que não podia tolerar o surgimento de uma potência no Hemisfério Sul. Assim, foram cavados profundos fossos ideológicos entre brasileiros e n outros modos de intervenção.
27. Em 1932, Londres fomentou a falsamente denominada Revolução Constitucionalista, em São Paulo, que se poderia ter transformado em guerra separatista do Estado onde a industrialização despontava promissora.
28. A constitucionalização real veio em 1934, preparada por Vargas desde antes daquela teleguiada “revolução”. A insurreição comunista, em 1935, tempo de grande polarização esquerda/direita, reflexo do cenário europeu antecedente à 2ª Guerra Mundial.
29. Era muito pequeno o número de operários organizados, e a geopolítica dava chances nulas de êxito aos comunistas brasileiros: poder naval do império britânico absoluto no Atlântico Sul, e proximidade dos EUA.
30. Sendo incipiente o desenvolvimento do poder militar da União Soviética (URSS), não havia como esta apoiar o levante comunista no Brasil. Ademais, Stalin dava prioridade à infra-estrutura industrial da URSS. Não apostava na revolução internacional, ao contrário de Trotsky, alijado do poder.
31. Entre os comandados de Prestes, infiltraram-se agentes do Intelligence Service, o M16 britânico, e os planos dos ataques eram previamente conhecidos das forças legalistas.
32. O resultado da insurreição de 1935 foi exacerbar a polarização ideológica, de interesse exclusivo do império anglo-americano.
33. Pior, sua memória tem servido à irracionalidade que faz reprimir, atribuindo-se-lhes ser comunistas, os que se opõem ao império angloamericano ou não fecham os olhos aos crimes deste.
34. Seguiu-se o golpe de 1937, que instituiu o Estado Novo, repressor de comunistas e outros. A geopolítica e a influência da finança angloamericana determinaram a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial: bases no Nordeste para as FFAA dos EUA e envio da Força Expedicionária à Itália, vinculada a comando norte-americano.
35. Entretanto, o império não hesitou em patrocinar o golpe de 1945 e as intervenções subsequentes, que prosseguem até hoje, e vêm logrando seus objetivos desde agosto de 1954:
a) desnacionalizar e a desindustrializar o Brasil, impedindo o desenvolvimento de tecnologias controladas por empresas nacionais, tanto privadas como estatais;
b) enfraquecer as Forças Armadas e a capacidade estratégica do País, indústrias básicas, infra-estrutura e o domínio da energia nuclear;
c) desinformar e abaixar o nível de educação dos brasileiros, investindo na anticultura e na demolição dos valores éticos indispensáveis à evolução de nação próspera e equilibrada;
36. Esse processo tem sido realizado não só durante governos claramente subordinados aos interesses financeiros angloamericanos (Café Filho, JK, Castello Branco, Collor e FHC).
37. Também, durante os demais, que, no essencial, cederam às pressões imperiais, não obstante terem tido, setorialmente, patriotas voltados para o desenvolvimento nacional.
38. Destaque-se, ademais, que eleições dependentes de dinheiro grosso e grande mídia levaram a desastres de origem parlamentar, inclusive a presente Constituição e emendas.
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Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.
http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/benayon/