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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

NUM ESTADO LAICO, HOMENS SANTOS SÃO INTOCÁVEIS APENAS PARA SEUS DEVOTOS

 

Não se nega aos crentes o direito de sentirem-se ofendidos com publicações, filmes, livros, etc., mas vale lembrar que nenhum deles é obrigado a ler o Charlie Hebdo ou ver A última tentação de Cristo

Os que o fizeram, provavelmente, foi em função do falatório e das polêmicas, para verificarem se era ou não verdade o que se dizia a respeito de ambos – já predispostos, portanto, à indignação.

No Ocidente, com a separação entre Igreja e estado, sua única iniciativa possível contra a fita era recorrerem aos tribunais. Felizmente, países contemporâneos à própria época (ou seja, que não estejam brigando com a modernidade) não censuram filmes por atentarem contra a imagem de personagens históricos que alguns consideram sagrados, outros não. 

Já vão longe os tempos em que católicos queimavam bruxas e lançavam cruzadas sanguinárias contra os infiéis, então, felizmente, nenhuma besta-fera foi encher de balas o diretor Martin Scorcese ou o ator Willem Dafoe (que interpretou Cristo).

Os responsáveis pelo semanário satírico, por sua vez, jamais fizeram o que seria, realmente, uma provocação: providenciar traduções e lançar edições direcionadas para países e contingentes humanos que vivem no século 21, mas continuam com a cabeça no século 6.  

A quais maometanos antes incomodavam, de verdade, os 60 mil exemplares do Charlie Hebdo comercializados apenas na Europa? Pouquíssimos, decerto. 

O que houve não foi nenhuma reação furibunda de indivíduos emocionalmente primitivos que estariam sentindo-se agredidos em sua fé, mas sim uma sanguinária e calculista demonstração de força de terroristas clássicos.

Ao chamá-los assim, diferencio-os dos combatentes que, em nome do seu povo e por ele apoiados, resistem pelas armas às tiranias que lhes são impostas pela força das armas, pois estes exercem seu legítimo direito de reagirem aos déspotas e ao terrorismo de Estado com que tais déspotas se mantêm no poder. 

A confusão semeada entre uns e outros foi um mero artifício dos serviços de Guerra Psicológica de ditaduras como a brasileira dos anos de chumbo

Os verdadeiros terroristas são aqueles que, como francos-atiradores dissociados das massas e sem estarem contribuindo para nenhum ascenso revolucionário, utilizam a violência apenas para punirem e intimidarem seus inimigos. Os dementes responsáveis pelo ataque covarde e vil ao Charlie Hebdo, p. ex., garimparam diligentemente, até encontrarem, um alvo condizente com a mensagem que queriam passar.

Terroristas clássicos obtêm muitos holofotes, mas sua pirotecnia quase sempre levanta a bola para o inimigo marcar pontos, além de eventualmente ter consequências catastróficas. No primeiro caso está, p. ex., a tentativa de matarem o czar Alexandre III em 1897, que redundou na execução do irmão do Lênin, Alexandre Ulianov, e de quatro de seus companheiros, além, é claro, de um previsível agravamento da repressão política.

E no segundo, tanto o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando por parte do
 mão negra Gravilo Princip em 1914, que conduziu aos horrores da 1ª Guerra Mundial; quanto o atentado ao WTC em 2011, responsável pela pior escalada global de estupro dos direitos humanos e perseguição a inocentes que os cidadãos de origem árabe já sofreram.
Atentado terrorista clássico que causou a 1ª Guerra Mundial

Marxistas e anarquistas há muito descartaram e se dissociaram do terrorismo clássico. Nos últimos tempos, contudo, contingentes desnorteados de esquerda que, trocando a coerência com o amadurecimento político que já haviam atingido pela mais tacanha 
realpolitik, vêm cometendo uma dupla heresia (este termo retrô cai como uma luva no presente contexto...):
  • a de defenderem fundamentalistas religiosos que não querem, de maneira nenhuma, fazer a humanidade avançar para além do capitalismo, mas sim fazê-la retroceder para antes do capitalismo, ou seja, para as trevas medievais; e
  • a de defenderem terroristas clássicos e seus monumentais tiros pela culatra, tornando-se parceiros dessas derrotas e associando estupidamente sua imagem a carnificinas que qualquer cidadão isento repudia.
Caem no vazio suas tentativas de relativização de um episódio que foi, isto sim, totalmente bestial e absolutamente condenável. Quando alguém é chacinado por dá-lá-aquela-palha, buscar justificativas para o crime soa hipócrita e aberrante. Uma das diferenças entre nós e os animais é que, ao contrário dos touros, não temos nenhuma compulsão irresistível de destruir um semelhante apenas porque veste vermelho.

Reconheço e até admiro a boa fé de ingênuos religiosos, mas não perdoo os esquerdistas que abdicam do seu compromisso fundamental com a civilização, passando a raciocinar como simplórios torcedores de futebol ("Se é contra os EUA, a Europa e Israel, vale tudo, até gol de mão nos acréscimos, em posição de impedimento"...).

Por último:
 religiosos de ocasião e por conveniência à parte, como fica a questão das pessoas devotas que, sinceramentesentirem-se insultadas em sua fé?

Ora, sendo nosso estado laico, homens tidos como santos são encarados, por quem não é devoto de tal religião, como personagens históricos (ou fictícios) iguais a quaisquer outros. 

Não cabe nenhuma forma de censura ou perseguição dos poderes públicos a quem trata Cristo ou Maomé da mesma forma que, digamos, Vlad Dracul e Hitler (os quais, aliás, têm lá seus defensores, mas 99,9% do que aparece sobre eles em filmes e publicações é extremamente negativo).

E, como a ninguém é dado o direito de fazer justiça com as próprias mãos no Brasil do século 21, só resta aos ofendidos o caminho dos tribunais e de iniciativas visando ao convencimento da opinião pública (desde anúncios pagos até campanhas virtuais incentivando o boicote aos
 blasfemos).

No fundo, o que os religiosos pretendem é que se conceda um tratamento diferenciado para quem eles consideram diferente. Mas, agnósticos, ateus e mesmo religiosos de outras confissões podem discordar (um neopentecostal admitiria, p. ex., Oxalá como similar a Jesus Cristo?). Então, não faz nenhum sentido, em termos legais ou morais, pretender que a imprensa não os ridicularize como ridiculariza outros personagens históricos do passado e do presente.

Podemos até achar que a irreverência é exagerada no seu todo, que a nossa imprensa pega pesado demais com Bolsonaro, ou que a francesa pega pesado demais com Marine Le Pen. O que não podemos é aceitar como válidos os piores achincalhes a Bolsonaro e à Le Pen e, ao mesmo tempo, não admitir a mais ligeira irreverência com Maomé.

Caso contrário, para que terão servido, afinal, 1945 e 1985 aqui, o iluminismo e a Grande Revolução lá? E de que valeu tantos resistentes morrerem lutando contra os nazistoides daqui e contra os nazistas de lá?

Pois eram todos expressões da intolerância, fanatismo e autoritarismo inseparáveis da tese da intocabilidade dos homens santos.

Além do mau humor e dos maus bofes, claro!
 (por Celso Lungaretti)

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2020/09/num-estado-laico-homens-santos-sao.html



quinta-feira, 12 de março de 2020

O DISCURSO DESVAIRADO DA NOVA DIREITA É CÓPIA FIEL DAS OBSESSÕES SANGUINÁRIAS DO TEÓLOGO THOMAS MUNZER (1489-1525)


joão pereira coutinho
REBELIÕES POPULISTAS DE HOJE TÊM ESPÍRITO DE REVOLTAS CAMPONESAS
 DO SÉCULO 16
A classe trabalhadora está a morrer nos Estados Unidos. 

Corrijo. Não está a morrer, está a matar-se. Mortes de desespero, eis a expressão que estudiosos como Anne Case e Angus Deaton pesquisam há vários anos.

Os instrumentos do fim são conhecidos. Armas. Álcool. Drogas. Vale tudo para acabar com vidas de naufrágio.

Aliás, não apenas a classe trabalhadora. Informa o New York Times, a partir das pesquisas do casal Case e Deaton, que o cenário é idêntico para a classe média branca sem formação universitária. O desespero mata com igual intensidade. E de onde vem esse desespero?

Sim, a desigualdade crescente. Sim, a falta de serviços públicos de saúde. Sim, o outsourcing industrial que a globalização trouxe no seu rastro.

Se a depressão, como dizia Freud, é a incapacidade de projetarmos um futuro para nós, há uma parte da América que está coberta por essa nuvem negra. A violência contra os próprios é uma saída.

Outra é acreditar em políticos redentores que sejam capazes de tornar a América grande outra vez. Quem não entende o fenômeno populista como um fenômeno intrinsecamente revolucionário, lamento, passou ao lado dessa história.

O escritor francês Éric Vuillard não passou. Já falei de Vuillard a propósito do seu A Ordem do Dia, uma novela breve sobre a ascensão de Hitler ao poder (prêmio Goncourt em 2017).

Vuillard é essa estranha combinação: ensaísta, historiador, romancista. Certo é que essa literatura mestiça transporta uma força meditativa que se ajusta aos problemas do nosso tempo.

O seu mais recente livro, La Guerre des Pauvres (a guerra dos pobres), confirma o que digo.

Superficialmente, o tema que ocupa Vuillard perde-se na memória do século 16. E a figura central —Thomas Müntzer (1489–1525)— tem interesse para teólogos ou especialistas sobre a Reforma Protestante.
Lênin sentado à esquerda do pai e Aleksandr (o irmão executado aos 21 anos) de pé no centro da foto  

Mas Müntzer, aquele rapaz que viu o pai ser enforcado pelas autoridades feudais germânicas (curioso: Lênin, que admirava Müntzer, também ficou indelevelmente marcado quando jovem ao testemunhar a execução do irmão Aleksandr pelas autoridades do czar), chamou a si uma tarefa radical: convocar os miseráveis para um ajuste de contas com os príncipes.

Nas palavras de Éric Vuillard, Müntzer sentia uma sede de pureza, uma intolerância face à imundície do poder, uma exasperação face ao gentil povo cristão que, pela sua passividade, se limitava a repetir os versículos em latim sem compreender o que dizia.

A Bíblia deveria ser vertida na língua vulgar; o conhecimento deveria ser extensível aos maltrapilhos; e a eles deveria ser confiada a espada para punir os enganadores de Cristo.

Maio de 1525: a derrota definitiva na batalha de Frankenhausen
A violência foi a etapa seguinte. Exércitos de gente pobre destroem e saqueiam as cidades e os seus palácios. Cabeças rolam, cabeças são expostas em piques.

Mas tudo termina em Frankenhausen, na batalha do mesmo nome, quando as forças militares de Philip de Hesse e de George da Saxônia massacram os camponeses.

Müntzeria seria capturado e teria o mesmo destino do pai.

Na pequena e preciosa obra de Vuillard, Müntzer não é apenas apresentado como um revolucionário protestante, interessado em salvar os espíritos pela força da fé e da espada.

Ele ocupa um lugar primeiro na longa lista de revolucionários políticos que tiveram na Revolução Francesa o seu apogeu.

Mas não só. Vuillard vê nas guerras dos camponeses do século 16 o espírito que preside a muitas das rebeliões populistas do nosso presente.
"encontramos as mesmas figuras alucinadas"
Encontramos as mesmas figuras alucinadas que, movidas por um desejo de pureza irreal, se lançam contra as elites dissolutas ou corrompidas.

Encontramos o mesmo ódio ao velho discurso das elites, com a diferença de que, agora, não é o conhecimento bíblico que deve ser democratizado; é todo o tipo de conhecimento, vertido no caos moral e epistemológico da internet.

Encontramos o mesmo apelo ao verdadeiro povo, por oposição a um povo falso ou vendido, que não merece sobreviver no novo reino dos justos.

E encontraremos a mesma destruição desencantada, os mesmos exércitos de seguidores atraiçoados e os mesmos salvadores reduzidos à condição paradoxal de homens frágeis e violentosinconstantes e severosenérgicos e repletos de angústia(por João Pereira Coutinho)
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Toque do editor
Este artigo do Coutinho me fez lembrar dos tempos em que lia avidamente os clássicos marxistas, para absorver tudo que considerava importante do velho barbudo e de Engels, Lênin, Trotsky e Issac Deutscher, principalmente.

Chamou-me a atenção, naquele longínquo final dos '60, a afirmação sarcástica de Marx de que os camponeses que cultivavam seus pequenos pedaços de terra para deles extraírem sustento constituiriam uma classe social (conforme sustentavam os revolucionários agrários) "tanto quanto as batatas colocadas num saco formam um saco de batatas".

Ou seja, por travarem cada um por si a luta pela existência, não conseguiam descortinar nenhum horizonte para a sociedade no seu todo. Marx não via neles potencial revolucionário, sem, contudo, desprezá-los tanto quanto ao lumpemproletariado (ladrões, escroques, prostitutas, gigolôs, mendigos, etc.), a poeira da história que os movimentos políticos mais vigorosos de cada momento, com sua dinâmica, arrastam atrás de si.

Tudo a ver com os matadores de nobres de Thomas Munzer e com essa escória fanatizada por Bolsonaro, fadados a apenas desabafarem e desaparecerem, pois nada têm a oferecer à sociedade afora vingança, bestialidade, caos e retrocesso. 

Merecem mesmo ser chamados de poeira da História, que agora está sendo arrastada pela dinâmica neofascista, amanhã sabe-se lá pelo quê. (por Celso Lungaretti)

domingo, 9 de janeiro de 2011

O modo imbecíl de estar no mundo

“A depreciação do mundo dos homens aumenta em razão direta da valorização do mundo das coisas”.
(Karl Marx, em fevereiro de 1844)

Quem está vivo (em todos os sentidos) experimenta, a todo o momento, o grande impacto do fenômeno da transição cultural – sob os auspícios do moderno sistema produtor de mercadorias. Os motivos estão perfeitamente identificados: quebra de paradigmas em vários campos da ciência, profundas mudanças tecnológicas, prevalência numérica do trabalho morto sobre o trabalho vivo, produção flexível, hegemonia definitiva do capital financeiro, divinização do dinheiro, intensas mudanças na noção do tempo social, reificação das consciências, etc.

Henry Ford
Esse fenômeno da transição cultural não é – evidentemente – inédito na história do sistema. Apenas sucede a muitos outros. A última ocorrência maciça e consistente do fenômeno foi quando do início da revolução da chamada “produção em massa”, nos primeiros trinta anos do século 20, grosso modo. Motivada pelas novas técnicas de produção introduzidas por Frederick Taylor e Henry Ford (foto ao lado). O primeiro, com seus estudos sobre o tempo-movimento e a lógica do tempo métrico; o segundo, a esteira de montagem e seus operários não-especializados bem remunerados. Saem de cena: o improviso e o artesanato, a produção voltada para valores de uso, o individualismo econômico. Entram em palco: cronometragem e racionalidade no uso do tempo, produção em escala, ênfase no valor de troca da mercadoria, consumo de massa, operário não-especializado, economia programada, consolidação da hegemonia industrial. É o início daquilo que o sociólogo alemão Elmar Altvater chamou de “sistematização fordista”. Uma forma de vida e de relações sociais moldadas pela racionalidade taylorista-fordista. Uma esquina cultural que a promessa iluminista-liberal teve que dobrar sob o comando da unidade entre técnica e ciência, que é igual à tecnologia. A ciência como força produtiva, o tempo como instrumento contábil do valor e o trabalho abstrato como valor de troca em consagração definitiva na história.
Sinclair Lewis

A singular reunião desses fermentos simbólicos na base social produziu, nas esferas da superestrutura, uma espuma de tipos humanos diferentes e originais. Sinclair Lewis (foto ao lado), o grande escritor norte-americano que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1930, apanhou muito bem isso tudo; criou uma alegoria que narra como que o nascimento desse indivíduo fordista e sua errante aventura de proto-imbecil sociológico. Seu romance maior é “Babbitt”. Retrata a vida na década de 20, de um americano médio, George F. Babbitt, 46 anos, que “não fazia nada em especial: nem manteiga, nem sapatos, nem versos; mas era perito em vender casas a preços excessivos para a bolsa dos compradores”. Um picareta de imóveis. Socialmente, Babbitt é considerado “um booster – homem de energia e iniciativa, um esteio do progresso”, combinado com aquilo que o alemão desqualifica como “Landsknechtsnatur” (uma expressão idiomática que identifica o sujeito que adula os superiores e dá coice nos subordinados). A mulher (chamada de Sra. Babbitt) é um ser invisível na casa, uma serviçal do lar, embora seja auxiliada pelos novos apetrechos elétricos fabricados em série, e tem “tanto sexo quanto uma freira anêmica”. A crueldade, não raro, abriga-se inocentemente nas dobras da indiferença. Além de cruel, Babbitt é um tolo patrioteiro, temente a Deus, machista, pusilânime e despersonalizado. Uma fraude de si mesmo, uma imitação barata do homem de vanguarda, o industrial fordista. Agora, resta-lhe tão-somente a autenticidade de ser imbecil, “um homem sem qualidades definidas” (Musil).

É o muco pulmonar da América fordista. Uma geração adiante, essa baba serviu de berçário social para tipos como George W. Bush. Lendo Sinclair Lewis se entende melhor o fenômeno Bush - um filho temporão do obsoleto fordismo e da vetusta indústria de combustão de energia fóssil. Pois, essas secreções “babbittianas” de belicistas imbecis é que estão no poder, hoje, nos Estados Unidos. [Seguem no poder, apesar de Obama.]

Vladimir U. Lênin
Tem uma passagem do romance em que Babbitt lê no jornal sobre um boato da morte de Lênin (foto ao lado), que ocorreu, de fato, em janeiro de 1924) e comenta num misto de valentia e bravata: “Ainda bem! Não compreendo como nós não vamos lá e não expulsamos a pontapés esses miseráveis bolchevistas”. Lewis publicou “Babbitt” em 1922.

Mas Antonio Gramsci também escreveu sobre o fenômeno fordista. Foi no conhecido ensaio intitulado “Americanismo e Fordismo”, por volta de 1929. Gramsci, como Marx já o fizera com grande originalidade e arte no “Manifesto”, constata o avanço da racionalidade capitalista na etapa fordista. Contudo, falta-lhe a argúcia literária, a sintaxe poética cortante e a acuidade sociológica do mestre. Fica devendo. Lewis, com humor, graça, alguma arte, e outras lentes, consegue projetar o futuro de um sistema que dava os primeiros passos, através de um personagem síntese. Babbitt é, como Conrad diz do seu personagem Kurtz, um tipo que “toda a América contribuíra para a sua confecção”. Por isso ele é sintético. Passível de ser projetado e traduzido para além da curva do tempo. Onde Lewis é feliz, Gramsci sucumbe. Sua análise é petrificada, óbvia (depois de Marx), por demais objetiva e desgraciosa. Com o seguinte agravante: tanto o projeto nazi-fascista, quanto o projeto stalinista na União Soviética, tiveram como referência de progresso e desenvolvimento econômico modernos, o modelo taylorista-fordista. E ambos executaram esse desiderato programático nos seus países – União Soviética, Alemanha e Itália, ainda que sem a “febre consumista”.

Hannah Arendt
Não é à toa que a Hannah Arendt (foto ao lado) diz que o nazi-fascismo não trouxe nenhuma novidade, seja na política populista, na gestão econômica modernizante, na brutalidade policial-militar, no delírio como norma, ou o genocídio da forma “luta de raças”. Aquilo tudo já havia sido experimentado, em fragmentos, pelos regimes liberais. O nazi-fascismo apenas condensou as coisas em pouco mais de uma década de poder tirânico.

Gramsci, então, não teve a necessária clarividência de verificar esses indicativos que apontavam para fatos que a história acabou por confirmar. No caso da União Soviética, nem precisava de semelhante descortino, bastava acompanhar a política econômica “desenvolvimentista” e modernizante de Stálin. Um taylorismo-fordista com trabalho escravo e “emulação revolucionária”. Assim, até Lula!

Esse abreviadíssimo cotejamento do produto da narrativa de dois admiráveis críticos sociais, ainda que com instrumentais diversos, e com resultados qualitativamente desiguais (em favor da literatura de ficção, a meu ver), reforça a afirmação de Zygmunt Bauman, qual seja: os literatos são capazes de “reproduzir a não-determinação, a não-finalidade, a ambivalência obstinada e insidiosa da experiência humana e a ambigüidade de seu significado”.

E, hoje, quem estará devassando os imbecis do futuro da pós-modernidade e outros fenômenos de maior monta? Serão os Bauman, os Zizek, os Robert Kurz, os Fredrick Jameson, as Agnes Heller? Ou serão os Michel Houelebecq, os Don DeLillo, as Patrícia Highsmith, os Thomas Pynchon?

É preciso reconhecer, a narrativa da atualidade é muito diferente. O banco de categorias de que dispõe as ciências sociais está praticamente insolvente para dar conta das interrogações fragmentárias do momento e do futuro. As disciplinas sociais nascidas e geradas pela modernidade cada vez mais devem contar com a arte e a literatura para sobreviverem.

Theodor Adorno
Ou sucumbiremos passivamente diante da provocação (fomentadora) de Theodor Adorno (foto) de que o pensamento crítico está morto, e que a sociedade e a consciência estão “totalmente reificadas”? Estaria, então, o mundo sob a iminência de uma hegemonia irrecorrível de tolos e basbaques de todo o gênero, em especial os belicistas e endinheirados?

Extraído do blog Diário Gauche