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quarta-feira, 15 de julho de 2015

A rádio que forja a notícia


Quer dizer então que a rádio Jovem Pan, segundo denúncia da revista Piauí, cobrava R$ 10 mil da prefeitura paulistana comandada por Gilberto Kassab, para cobri-la de elogios?

Passei parte de minha vida ouvindo a Jovem Pan, principalmente os seus programas esportivos.

Deixei de fazer isso depois de uma conversa, anos atrás, com um colega jornalista que trabalhou na emissora. 

Já tinha percebido que os seus "repórteres" puxavam a sardinha para o lado de alguns times e desciam o cacete em outros, principalmente no meu Palmeiras.

Estranho...

As coisas se esclareceram quando esse meu colega me disse que a rádio pagava salários baixíssimos, mas, em compensação, liberava totalmente o "jabá", isto é, o pessoal podia fazer os acertos que quisesse - exatamente como na denúncia da Piauí.

Certo dia, numa dessas feirinhas de livros das redações dos jornais, peguei um livro do jornalista José Nêumanne Filho sobre a vida de Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta, filho de Paulo Machado de Carvalho, e que dirigiu a Jovem Pan praticamente toda a sua vida.

O livro, mais um longo depoimento do biografado, valeria mais pelas suas fotos históricas, se não fosse por um detalhe: em certo trecho, o homem que construiu uma das emissoras de rádio mais importantes de São Paulo, começa a falar mal dos direitos trabalhistas, como se eles fossem a origem de todos os males da sociedade.

Aí, tudo ficou bem mais fácil de entender.

A Jovem Pan não é o que é, um reduto da extrema-direita, sem nenhum traço de ética profissional, por acaso.

Está no seu DNA ser assim. 

Infelizmente, a ideologia que propaga e seu método de trabalhar não são exceção na mídia brasileira.

Há muitas outras Jovem Pan por esse Brasilzão afora, diariamente, ininterruptamente, envenenando com mentiras, muito bem pagas, toda a sociedade.

E, como qualquer criança sabe, sem informação não há democracia.

O duro é ver que é essa gente que faz campanha contra a corrupção, que aponta o dedo para os outros, que julga e condena a seu bel prazer.

Haja hipocrisia!

Haja picaretagem! 

http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/07/a-radio-que-forja-noticia.html

sábado, 2 de maio de 2015

Uma radiografia da manipulação

Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa

"Educadores que participaram, na terça-feira (29/4), do debate na sede da Ação Educativa, em São Paulo, questionam por que este observador considera que a mídia tradicional do Brasil apoia e potencializa a agenda conservadora que segue tramitando em velocidade anormal na Câmara dos Deputados (ver aqui).

De fato, não basta registrar que os parlamentares afinados com o ideário mais retrógrado na diversidade do Congresso aproveitam a crise política insuflada e sustentada pela imprensa para fazer o Brasil avançar rumo ao passado. É preciso mostrar como, na prática, a mídia faz esse trabalho sujo.

Nas edições de sexta-feira (1/5), os jornais destacam o fato de a presidente da República, que foi sitiada em Brasília desde sua eleição, em dezembro, ter optado por não se pronunciar na televisão por ocasião do Dia do Trabalho. A presidente se omite para evitar se expor a essa situação estimulada pela imprensa diariamente. No limite da governabilidade, a jovem democracia brasileira enfrenta seu maior desafio desde o fim da ditadura militar, e corre o risco de ver crescer uma onda de retrocesso institucional, à sombra desse protagonismo da mídia.

Há muitos aspectos a serem considerados nesta encruzilhada da vida nacional. Por exemplo, o fato de a aliança que governa o país contar entre seus aliados com a bancada do Partido Progressista, cujo nome é um acinte ao sentido real da sua representação política. No programa gratuito da sigla, quinta-feira (30/5) à noite, o que se ouviu sobre a proposta de redução da maioridade penal foi um despautério de bobagens, no estilo típico dos programas policialescos da televisão. O credo reacionário desses aliados do governo petista pode ser resumido na seguinte frase, dita em tal programa: “As leis garantem direitos demais”.

Com tais amigos, o governo federal realmente não precisa de oposição. Mas a situação é ainda pior na porção maior da base controlada pelo PMDB, que se dividiu em três facções, duas das quais, sob o comando do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, desdenham da liderança do articulador político do governo, o vice-presidente Michel Temer.

Dano colateral

A imprensa explora esses desentendimentos, dando amplo destaque a qualquer coisa que digam Calheiros e Cunha, desde que represente algum desgaste do Executivo. O jornalismo declaratório é colocado a serviço desse processo que desgasta não apenas a imagem do Executivo, mas principalmente desacredita o Parlamento e a própria política. Esse cenário estimula as vozes do obscurantismo, que ainda pedem a volta da ditadura militar.

O eixo das manipulações vai de alto a baixo, em todas as instâncias onde esteja no poder o partido que lidera a aliança governamental em Brasília: na sexta-feira, por exemplo, a Folha de S. Paulo oferece como manchete uma bobagem retirada do noticiário sobre um dos corriqueiros conflitos na região da capital paulista conhecida como Cracolândia. O ataque da polícia do Paraná contra servidores públicos, que deixou mais de 200 feridos, sumiu da primeira página, substituído pelo seguinte título: “Gestão Haddad falou com tráfico antes de agir na cracolândia”.

Embora um editorial da Folha, com o título “Os excessos de Richa”, critique a violência policial no Paraná, o jornal paulista cria um factoide em cima da prática rotineira de funcionários da prefeitura de São Paulo ao negociar o ingresso em um ambiente de alto risco como é a Cracolândia.

Ora, este observador já havia publicado, em pelo menos duas ocasiões, que reina naquela região um pacto silencioso entre agentes públicos, voluntários e representantes do crime organizado para manter sob controle a venda de crack aos dependentes (veraqui e aqui).

Observa-se que, toda vez que, em algum lugar do Brasil, um político da oposição apoiada pela imprensa se coloca em situação constrangedora, os jornais tratam de contrapor o fato a algum evento envolvendo políticos do Partido dos Trabalhadores ou seus aliados. Assim, o contexto negativo que envolve o governador tucano do Paraná é coberto por um factoide criado pela Folha para atingir o prefeito petista de São Paulo.

O que há por trás da manchete da Folha é o mesmo jogo pelo qual a mídia tradicional trata de demonizar um lado do espectro político, enquanto protege ou enaltece o outro lado. O fato de que essa manipulação estimula o avanço de projetos que podem jogaro Brasil de volta ao século 19 é considerado apenas um dano colateral nessa luta pelo poder."

segunda-feira, 6 de abril de 2015

No México como no Brasil


Não sei se o filme passou nos cinemas brasileiros, mas pode ser visto pelos assinantes do Netflix. Trata-se de La Dictadura Perfecta, escrito e dirigido por Luis Estrada. 

É uma sátira devastadora sobre a política, os políticos e o poder dos meios de comunicação, principalmente da televisão. 

O espectador pode até duvidar que as barbaridades que ele mostra possam realmente acontecer, seja lá em que país for - no caso, é o México. 

Mas que elas são críveis, ah, isso são. 


Principalmente para nós, brasileiros, que sabemos muito bem da capacidade de manipulação da imprensa em geral - e da Rede Globo em particular. 

Quanto aos políticos... 

Bem, os nossos podem agir mais sutilmente que os mexicanos que o filme mostra, mas não há dúvida de que eles são muito semelhantes.

O filme é particularmente interessante para que acompanha o debate interminável sobre o papel dos meios de comunicação numa democracia.

Nele, o governador do Estado mais pobre do México contrata os serviços da mais poderosa emissora de TV mexicana para mudar a sua imagem - praticamente destruída depois que a própria emissora divulgou imagens dele recebendo propina de traficantes.

E a trama segue por aí, revelando como é possível, graças ao poder dos meios de comunicação, transformar o mais absoluto canalha num herói nacional, no salvador da pátria.

É incrível o paralelismo com o Brasil.

Aqui, graças ao trabalho sistemático de uma mídia partidária, com a colaboração de setores institucionais, como o Judiciário, um partido político que ousou mexer minimamente na estrutura social do país, resgatando milhões de pessoas da miséria e levando outros tantos para o meio da pirâmide social, é hoje visto, por muita gente, como uma organização criminosa. 

Em La Dictadura Perfecta, o governador somente atinge o topo de sua carreira porque encontra numa organização empresarial, no caso a rede de televisão, um igual.

Ele e a emissora de TV que o glorifica e extermina seus adversários são igualmente corruptos, podres, almas gêmeas destituídas de qualquer traço de virtude.

A semelhança com a situação brasileira não é mera coincidência.

É simplesmente a descrição do modus operandi da oligarquia - seja ela de onde for.

do: http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/04/no-mexico-como-no-brasil.html

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Racionando o nome racionamento


SABESP X MIDIANo futuro, quando alguém pesquisar nos principais grupos mafiomidiáticos a respeito do fornecimento de água em São Paulo no ano de 2014, não encontrará a palavra racionamento. O maior período de falta d’água não terá registro simplesmente porque os parceiros da oposição, de que falou D. Judith Brito e a própria ANJ, resolveram adotar a lei da Parabólica do Rubens Ricúpero.
Até o uso de máquina que faz água está na pauta, mas a palavra racionamento está terminantemente proibido pelos manuais de redação. Só as milhares de assinaturas da Veja, Estadão e Folha espalhadas pelas escolas de São Paulo explica esta tão bem sucedida parceria.
Há situações como esta em que o silêncio é mais eloquente do que as manchetes alarmantes.

Máquina que ‘faz’ água é oferecida ao Estado de SP

Inventor se reúne com governo para apresentar usinas produtoras
Não há estimativa de custos para o projeto; Secretaria de Recursos Hídricos diz que todo estudo é analisado
FELIPE SOUZADE SÃO PAULO
O inventor de uma máquina que "fabrica" água condensando a umidade do ar se reuniu nesta segunda-feira (3) com representantes do governo paulista para apresentar um projeto para amenizar a crise hídrica no Estado.
O engenheiro mecatrônico Pedro Ricardo Paulino foi recebido pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) para mostrar a instalação de sua invenção, em escala maior, às margens dos rios Tietê e Pinheiros.
Na reunião com representantes da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, responsável por ações de combate à crise hídrica, ele afirmou que as máquinas funcionariam como usinas produtoras de água.
A proposta, de acordo com a pasta, será agora analisada por técnicos, assim como ocorre com outros estudos.
O chefe de gabinete da secretaria, Alexsandro Peixe Campos, foi um dos representantes do governo na reunião.
O sistema Cantareira, principal responsável pelo abastecimento da capital, teve nova queda nesta segunda, quando operava com 11,9% de sua capacidade. No domingo, seu nível era de 12,1%.
A medição, no entanto, é anterior ao temporal que atingiu a região das represas durante a tarde de ontem.
‘CRIAR OPÇÕES’
"O objetivo não é suprir completamente o abastecimento, mas criar opções para que as represas não sejam a única fonte", diz Paulino, sobre a proposta discutida com o governo do Estado.
Segundo o engenheiro, o projeto, se aceito, seria o maior do mundo. Mas ainda não há estimativa de custo.
Uma das versões da máquina produz 30 litros de água por dia e custa R$ 7.000. Outra versão, que chega a produzir 5.000 litros por dia, é vendida por R$ 350 mil.
O local da hipotética instalação das usinas (nas marginais) foi escolhido devido à umidade elevada do ar–entre 50% e 90%–, que aumenta a produção de água.
De acordo com o engenheiro, cada usina é capaz de produzir 2 milhões de litros de água por dia. Ele afirma ser possível construir 20 delas em cada uma das marginais.
Considerando que um morador da Grande São Paulo gasta em média 161 litros de água por dia, segundo a Sabesp, uma usina seria capaz de abastecer 12.422 pessoas.
Agora, diz Paulino, o plano deve ser apresentado ao comitê que administra a crise hídrica no Estado.
http://fichacorrida.wordpress.com/2014/11/04/o-racionando-o-nome-racionamento/

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Retalhos de uma eleição desigual


A mídia e a lavagem cerebral 
O que a mídia vem fazendo no Brasil há mais de 10 anos é lavagem cerebral. O objetivo: demonizar o PT e seus dirigentes. Exatamente como na Alemanha nazista faziam com os judeus. 
É a aplicação da máxima do infame Joseph Goebbels: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade." 
Além da mídia nazista, contribuem para essa lavagem cerebral esses estelionatários, picaretas e bandidos que se dizem "pastores" ou "bispos" de seitas religiosas variadas, que só fazem roubar os pobres de espírito e inculcar neles ódio, preconceito e mais ignorância.


Altíssimo risco 
A mídia fez uma jogada de altíssimo risco ao promover esse golpe eleitoral, Se Dilma vencer, não tenho dúvidas que a retaliação será violentíssima. 
Haverá, certamente, corte de toda publicidade oficial a essas empresas, entre outras medidas. Abril, Folha, Estadão, Globo, Band, Record etc etc ficarão sem as polpudas verbas do governo federal. 


Só a Globo recebeu no ano passado quase R$ 1 bi de publicidade. E, como se sabe, Abril e Estadão passam por sérias dificuldades financeiras, assim como outras empresas. 
A articulação do golpe não é só uma questão ideológica: é questão de sobrevivência, já que, sob o governo Aécio as famílias que controlam com mão de ferro a comunicação no Brasil salvarão as suas empresas e ficarão ainda mais ricas. 
E a democracia brasileira, cada vez mais vilipendiada... 

A carreata vermelha e o sinal da cruz 
Duas horas de carreata em Serra Negra, por locais nunca dantes navegados. Manifestações de apoio em bairros longínquos do centro, manifestações de hostilidade de motoristas de carrões, bebuns, um motoboy, um lixeiro (outro, talvez mais consciente do que é a mais valia e a luta de classes ergueu o polegar), uma moça de branco em frente a uma clínica veterinária, que até fez o sinal da cruz à passagem dos carros. Na rua do comércio, cheia de turistas, uma senhora idosa quase tem um ataque apoplético ao ver os vermelhos passando... 
 Mas foi melhor do que imaginava. 
Serra Negra e as outras cidades do Circuito das Águas Paulista são ultraconservadoras, redutos de coronéis como os Chedid - um deles, o deputado Edmir é o "chefe" do octogenário prefeito Bimbo (DEM). O criminoso governador Alckmin teve 70% dos votos na região, que ajudou a eleger para a Assembleia e Câmara a fina flor do reacionarismo. Aécio também teve votação estrondosa. 
O prefeito é um caso à parte: os carros, na concentração, prontos para sair, e eis que ele passa, dirigindo um veículo oficial da prefeitura, para dar uma olhada nos "inimigos". Para mais à frente, sai do carro e quando a carreata passa, dá um alô para ela. 
Se Dilma tiver neste domingo mais de 4 mil votos na cidade, será uma vitória estrondosa para ela, essa é a realidade. 
E, se tudo der certo, lá pelas 8 horas da noite estaremos comemorando a vitória das forças populares contra as trevas lá na casa do Beraldo do Correio. Guardei duas bandeiras para a festa. 

Quero viver na Noruega tropical 
Aos amigos aecistas, que são, antes de tudo, antipetistas: não entendo a lógica, se é que ela existe, de vocês, de votar num desqualificado apenas para tirar o PT do poder.
Também não entendo o ódio que vocês têm do PT: a vida de vocês, todos bem de vida, melhorou nesses últimos anos, assim como a vida de dezenas de milhões de brasileiros. 
Resta então, como justificativa para esse ódio algum problema pessoal, alguma coisa mal resolvida no íntimo de vocês, algum preconceito de classe tão forte que vocês não podem superá-lo, alguma desilusão que tiveram com o PT no passado, sei lá... 
Seja como for, desejo a todos que sejam felizes vivendo no país de seus sonhos. 
O meu é um país democrático, no qual a desigualdade social não seja abjeta como hoje, um país onde todos tenham realmente oportunidades de comer, estudar, trabalhar com dignidade, passar bons momentos de lazer, melhorar de vida... 
Um país, sei lá, como aquelas nações nórdicas que todo mundo inveja - sem o frio delas, é claro. 

Retaliação 
O governo Dilma, se reeleito, deveria cortar TODA verba de publicidade oficial, incluindo a das estatais, para esses jornais, revistas, emissoras de rádio e TV e portais de internet que se dedicam, 24 horas por dia, 7 dias por semana, a espalhar notícias falsas e caluniosas e a fabricar escândalos sobre o governo federal, com o único objetivo de defenestrar os trabalhistas do Palácio do Planalto. 
Dilma deveria usar as redes nacionais para informar a população sobre medidas relevantes, como permite a Constituição, e fortalecer quem faz jornalismo de verdade, e não propaganda partidária. 
Deveria ainda cuidar melhor da EBC, dar mais recursos para a TV Brasil, e esquecer essa mídia oligopolizada. 
Esquecer, não: ficar bem de olho nela, nas suas falcatruas fiscais e trabalhistas, apertar a fiscalização, não deixar passar uma só irregularidade, seja de que tipo for, nessas empresas. 
E tratar da criação de um marco regulatório para as comunicações, a nossa tão falada lei de meios, para acabar com essa pouca vergonha que é meia dúzia de famílias decidir sobre o que o povo brasileiro deve ser informado.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/10/retalhos-de-uma-eleicao-desigual.html#more

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O pior analfabeto é o analfabeto midiático

“Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões do jornalista Celso Vicenzi em torno de poema de Brecht, no século 21

Celso Vicenzi, no Outras Palavras

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos.
jornal nacional analfabeto midiático
 Bancada do Jornal Nacional (Divulgação)

Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia.

Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.



O analfabeto político

O pior analfabeto, é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguel, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pilantra, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht
http://lotusegipcio.blogspot.com.br/2014/10/o-pior-analfabeto-e-o-analfabeto.html

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Manipulação da imprensa está no enfoque - A realidade vista de outro jeito


1 Outro Ponto 



Grande parte da sociedade sabe que imprensa manipula informações de acordo com seus interesses comerciais e políticos. Mas, como acontece essa manipulação? De que forma a imprensa consegue manipular sem que muitos percebam? Acontece que a imprensa do século XXI tem uma forma muito peculiar de mostrar sua versão dos fatos. Isso porque a manipulação não costuma acontecer dentro do texto, mas sim no enfoque dado aos fatos. Destacando certos fatos e omitindo outros, a imprensa amplia o foco em certas verdades que não passam de “meias verdades”. Reconstroem a realidade seguindo pautas pré-estabelecidas onde algumas informações serão privilegiadas e outras ignoradas. Além disso, em certas ocasiões pontuais a imprensa publica informações irreais ou fantasiosas, e, apesar de ser rapidamente descobertas na Internet, não costuma replicar dizendo que errarou (a falta de legislação motiva essa situação). Mas, no geral, a imprensa manipula enfocando certos fatos e omitindo outros.

Cada meio de comunicação tem um ponto de vista, um enfoque e uma forma de ver a realidade

O ser humano não é objetivo. Cada pessoa tem suas preferências políticas, econômicas e sociais. Alguns preferem ajudar grandes empresas. Outros preferem ajudar os mais pobres. Alguns preferem apoiar o partido que governa. Outros preferem apoiar a oposição. Tendo isso em mente, como imaginar uma imprensa totalmente neutra? Como supor que ela deixaria seus interesses de lado para publicar informações que teoricamente prejudicam ela mesma? A imprensa afirma neutralidade para conseguir uma credibilidade que não existiria caso ela afirmasse que apóia um ou outro lado. Ao dizer que é neutra, a imprensa diz: “não tenho interesses pré-definidos e publico a informação real, podem acreditar em mim”. Mas com um pouco de observação é possível concluir que isso não passa de uma técnica que, inclusive, tem nome: teoria dos espelhos.

A neutralidade absoluta é completamente impossível para um ser humano. Sempre existirão pontos de vista que contam os fatos de outra forma. E é então que a chamada “pluralidade informativa” mostra seu verdadeiro valor. Uma sociedade com pluralidade informativa é aquela que conta com meios de comunicação com diferentes ideologias, pontos de vista e formas de enfocar os fatos. Abra a página de diferentes jornais e veja se eles se parecem. Quanto mais parecido o enfoque e o tratamento de diferentes meios de comunicação, menos pluralidade informativa. No Brasil, os principais jornais diários têm enfoques bem parecidos. O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo têm formas similares de enfocar os assuntos de atualidade. A Internet quebrou esse modelo, mas poucos portais conseguem a audiência dos grandes conglomerados de informação do país, que, hoje, se encontram nas mãos de cinco ou seis famílias.

Estamos em um país em que só uma empresa (Globo) controla a maior rádio (CBN), a segunda maior revista semanal (Época), o maior portal de internet, o maior canal da TV fechada (Globo News), o maior canal da TV aberta e o maior jornal econômico (Valor). 

Por isso se fala em democratização dos meios de comunicação. Significa criar formas de limitar o oligopólio informativo que hoje em dia dita a agenda informativa do país. O artigo 220, parágrafo 5, da Constituição Federal de 88, diz que “§ 5º - Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.” Mas a atual legislação da imprensa não estabelece limites de tamanho para um meio de comunicação, por isso existe uma concentração tão profunda na informação criada no Brasil e por isso as pessoas costumam ter opiniões similares sobre assuntos de atualidade: são pautados por uma imprensa que diz sempre o mesmo.

Concentração de informação significa ter poucos meios de comunicação com grande audiência. É típico do sistema de comunicação criado ou consolidados no século XX. Quanto maior a audiência de poucos jornais, mais concentração. É só pensar quais são os principais jornais do país e qual é a porcentagem de audiência de cada um deles para chegar à conclusão de que o Brasil tem uma produção de informação concentrada. mas a Internet vem quebrando esse modelo.

A chegada da Internet

A rede mundial de computadores revolucionou a forma de se fazer jornalismo. Hoje, o cidadão normal também produz informação, pois tem o poder de publicar e compartir o que quiser em redes sociais, blogs, etc. Essa liberdade permite questionar o modelo vigente, além de fortalecer a chamada “imprensa alternativa”, que tem uma ideologia diferente daquela dos grandes meios de comunicação do país. É então que aparecem blogs de esquerda (chamados de “blogs sujos” por José Serra e afins, que são constantemente atacados em publicações desses blogs), que hoje contam com uma audiência considerável, apesar de não se aproximar dos grandes conglomerados informativos. Justamente por declarar sua ideologia, não contam com a credibilidade dos que se declaram neutros, e por isso acabam sendo ignorados por pessoas que pensam diferente.

São responsáveis por criar a contra-informação. Ou seja, publicam verdades que os principais meios de comunicação decidem omitir. Obviamente omitirão outras verdades, normalmente já publicadas pelos grandes veículos, mas, no geral, tem sua própria agenda informativa. Alguns blogs progressistas são “Tijolaço”, “O Cafezinho” (que denunciou a sonegação fiscal das Organizações Globo), “Viomundo”, entre outros.

Mas, supondo que todos meios de comunicação tem um enfoque diferente, como chegar a informações próximas da realidade? A resposta é simples: se informando por diferentes canais. Se cada um mostra sua versão de um fato, ler diferentes versões dará um ponto de vista mais amplo, pois cada meio de comunicação destacará ou omitirá certas informações de acordo com seus interesses. Se um meio omite uma informação porque é bom para ele e outro omite outra informação pelos mesmos fins, a única forma de conseguir aceder à maioria de informações reais omitidas é lendo publicações com diferentes pontos de vista.

Significa que o conservador deve ler Carta Capital e o progressista deve ler Veja para poder encontrar informações que não encontraria se só lesse uma dessas revistas. Claro que pontos de vista tão diferentes causam repulsa. Entretanto não existe outra forma de conhecer certos fatos que são de interesse público, mas que são ignorados para dar lugar a informações que são de interesse privado. Esses interesses são os que motivam os grandes jornais a não dar grande destaque temas como a crise de abastecimento de água em São Paulo (os grandes jornais não fizeram reportagens investigativas sobre o tema nem deram manchetes na primeira página) ou o Mensalão Tucano (cuja cobetura é muito questionável quando comparada à do Mensalão Petista). E outros interesses fazem que os blogs progressistas falem bem de Lula e Dilma, ao invés de promover constantes críticas à seu Governo (o que também é papel da imprensa).

O dia que exista no Brasil uma pluralidade informativa similar à da Europa, nossos grandes meios de comunicação mostrarão diferentes enfoques de diferentes notícias. Esses interesses estarão sendo defendido nos principais jornais do país. Mas, hoje, como a imprensa tem o monopólio do discurso massificado, lutará com unhas e dentes contra qualquer tipo de regularização que limite o tamanho dos conglomerados. Dirão, através de declarações de opositores da ideia, que queremfazer censura. Mas para isso estarão os blogs progressistas na Internet, que, apesar de ter audiência fiel, mas não massificada, vão combater a informação da Grande Imprensa oferecendo outros pontos de vista sobre o tema. Esses, por outro lado, alertarão o leitor de que as civilizações mais avançadas possuem marcos regulatórios para sua imprensa. Essas normas não afetam conteúdo, mas determinam aspectos éticos e buscam a democratização dos meios de comunicação sem afetar a liberdade que cada jornal tem.

Regularizar não significa tirar a liberdade (inclusive porque as atuais propostas buscam regularizar a mídia de acordo com os princípios democráticos estabelecidos na Constituição), assim como o Código Penal e o Civil não tiram liberdades fundamentais dos cidadãos. Mas a imprensa, cujos interesses privados podem se comprometer com um novo marco regulatório, alegará que sofre “bullyng” ou que querem instaurar uma Ditadura outra vez. Mas isso não passa do ponto de vista dela e pode ser entendido com a contra-informação publicada pelos meios alternativos.

Todas as pessoas tem preferências por um ou outro ponto de vista. Poucos conseguem considerar diferentes idéias sobre um mesmo tema, e, considerando que nossa imprensa oferece somente um ponto de vista (o das classes médias e altas), é necessário buscar informações em outros lugares para conseguir entender a realidade como ela é. Mídia Ninja (que representa formalmente o jornalismo cidadão), blogs progressistas, Grande Imprensa e imprensa alternativa formam basicamente o sistema da informação do nosso país. Claro que essa é somente a minha visão desse sistema informativo. Que, por ser só minha, está longe de ser a verdade absoluta. Por isso é preciso continuar se informando sobre o tema...


Para saber mais:

Página do Facebook que aponta manipulações da Rede Globo e da Folha de S. Paulo
https://www.facebook.com/desmascarandoglobofolha?fref=ts

Plataforma para a regularização da mídia
http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Feliciano, Malafaia e o papa Francisco



Por Lino Bocchini, na revista CartaCapital:

Os evangélicos estão sendo injustiçados. O tsunami de críticas que atingiu Marco Feliciano, Silas Malafaia e demais líderes evangélicos fundamentalistas se aplica ao papa Francisco e à Igreja Católica. Explico: as mesmas bandeiras conservadoras levantadas pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos do Congresso estão no centro da atuação da igreja católica há séculos. E o argentino Mario Bergoglio, agora chamado de Francisco, comunga destes ideais e não se mostra disposto a alterá-los. Pelo contrário.

Vamos por partes:

Primeiro, a homofobia

Muito se reclamou da atuação de Feliciano contra os direitos fundamentais dos homossexuais. A coleção de frases e a atuação do pastor não deixam dúvidas quanto à sua posição. Como é sabido, a igreja católica igualmente condena a homossexualidade, e considera pecado o amor da população LGBT.

O próprio Francisco, pessoalmente, demonstra preocupação com o que chama de “lobby gay” no Vaticano. Conforme revelou o site católico Reflexión y Liberación, o pontífice afirmou o seguinte em uma audiência recente com a diretoria da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos: “Na Cúria há gente santa de verdade. Mas também há uma corrente de corrupção, é verdade. Fala-se de lobby gay, e é verdade, ele está aí... temos que ver o que podemos fazer”.

Segundo, os direitos da mulher

Em entrevista para o livro “Religiões e política”, o deputado do PSC-SP afirmou o seguinte: “Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada, e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo; [assim] você destrói a família, cria-se uma sociedade só com homossexuais, e essa sociedade tende a desaparecer, porque ela não gera filhos”.

A igreja católica sempre tratou a mulher de forma diferenciada. A começar pelo fato de que elas não podem ser ordenadas. Aos homens (padres) cabe orientar os fiéis, ditar os rumos da igreja e do mundo. Às freiras cabem tarefas como cuidar dos enfermos e necessitados e, por exemplo, cozinhar, lavar e passar para o “homem simples de fala mansa” que está entre nós.

Mais: estão sendo distribuídas 2 milhões de cópias de um Manual de Bioética (em PDF) durante a visita do papa ao Brasil, sendo quase a metade da tiragem a versão em português, segundo informações da Confederação Nacional de Bispos Brasileiros. De suas 72 páginas, praticamente a metade traz pilhas de informações “científicas” e julgamentos morais contra o aborto. O restante divide-se entre a condenação de pesquisas com células-tronco, a condenação da inseminação artificial e a condenação da eutanásia.

O direito sobre o próprio corpo, uma questão que o movimento feminista do mundo todo considera vital desde a década de 1960, é classificado como “crime” em diversos pontos do texto. De acordo com o manual, mesmo em caso de estupro ou de inviabilidade do feto, a interrupção da gravidez não pode ser sequer aventada: “O direito de matar o próprio filho não pode ser fonte de liberdade nem de realização pessoal”. Todos os métodos contraceptivos, pílula e DIU inclusive, são considerados abortivos e criminosos.

Em terceiro lugar, o apego ao dinheiro

Causou espécie um vídeo que circulou recentemente, no qual o pastor Marco Feliciano pedia a senha de um cartão de crédito para um fiel, dizendo que, caso a senha não fosse revelada, “o milagre não viria”. Costuma ser igualmente criticada a cobrança do dízimo por parte de igrejas evangélicas –como se a igreja católica não o fizesse.

Tudo isso, contudo, é esmola perto do patrimônio misterioso e incalculável da igreja católica. A revista Exame fez uma reportagem bastante reveladora sobre o Banco do Vaticano. Entre diversos casos de lavagem de dinheiro, escândalos sexuais, corrupção e má administração relatados pela publicação, destaco uma informação: o banco gere cerca de 6 bilhões de euros em ativos. Vou repetir: 6 bilhões de euros.

Isso sem contar as milhares de propriedades da igreja católica ao redor do globo todo. Não sou um estudioso do cristianismo, mas acredito que valores como ajuda ao próximo, desapego e amparo aos pobres não combinam com a acumulação de fortunas dessa grandeza. Mesmo que o chefe da instituição prefira andar num fiat “sem luxo” e dormir num “quarto simples”.

Em quarto lugar, a promiscuidade com o poder público

Muito se critica Feliciano e a bancada evangélica por usarem o poder público que detêm para obter vantagens para suas instituições. O que afronta o conceito de estado laico. O catolicismo faz o mesmo.

O amplo uso de estruturas e verbas públicas durante a visita de Francisco; o mesmo lobby para isenções fiscais e outras benesses financeiras; a mesma submissão dos governantes (de Dilma ao vereador de Pindamonhangaba). Mais: há crucifixos em repartições públicas (desrespeitando os evangélicos, inclusive) e mensagens religiosas nas notas de dinheiro, que são um símbolo nacional. E por aí vai.

(Parênteses: pedofilia)

Aqui não há o paralelo com Feliciano, mas vale lembrar das inúmeras acusações de abuso sexual contra padres no mundo inteiro, muitas cometidas contra menores e encobertas pelo Vaticano. A situação é tão grave que a ONU pediu, agora no começo de julho, esclarecimentos sobre os crimes cometidos por padres em todo mundo. Como o vaticano é membro das Nações Unidas e tem a falta de transparência como uma de suas marcas, a ONU quer saber o que a Igreja Católica têm feito de efetivo contra os criminosos que foram descobertos em suas fileiras.

Por fim, o apoio da mídia

Aqui, uma das maiores injustiças com Marco Feliciano. O pastor é hostilizado por todos, TV Globo inclusa. Suas posições, conforme demonstrado, são irmãs siamesas das defendidas por Francisco e pela religião que comanda. E dos dogmas vindos de Roma ninguém reclama.

Pior: a maior TV do país (bem como quase todos os outros veículos de imprensa) ajoelha-se ao mandatário da tv católica. E não acredito ser esta uma decisão baseada somente pela audiência. A missa de domingo está na grade da Globo há décadas --atualmente é celebrada ao vivo pelo Padre Marcelo. E a emissora, apenas recentemente, de olho na perda de audiência e de dinheiro, começou um flerte institucional com os evangélicos, inaugurado com o festival de músicas gospel Promessas.

Pare finalizar, deixo vocês com algumas frases do primeiro bloco do Jornal Nacional desta segunda-feira. Tentem imaginar Marco Feliciano ou qualquer outro líder evangélico sendo tratado desta forma pelo noticioso visto por quase metade da população brasileira toda noite:

“De papamóvel, fez um passeio que vai ficar na memória dos fieis”

“Distribuiu simpatia”

“Mais perto do povo, do jeito que o papa Francisco gosta”

Fiel: “Foi um presente de Deus, eu consegui estar perto dele e pude constatar que ele realmente é esse pastor humilde, amigo do povo e que veio pra resgatar mais fieis pra igreja católica”

“Deixou uma legião de fieis encantados”

“Santo, abençoado, humilde... os elogios vão brotando”

Fiel: “Ele é gente como a gente”

“A cada esquina ele faz novos amigos”

“Os gritos pareciam saídos de um show de rock”

“Se fosse só isso, já valeria a pena, e o papa Francisco acabou de chegar”.