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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

De como o Ocidente cria o terrorismo




Via Rebelión



Andre Vltchek - CounterPunch
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti


 O terrorismo se apresenta sob muitas formas e muitos caras, mas a mais terrível de todas é sua fria crueldade.

Pedem-nos que acreditemos que os terroristas são uns lunáticos sujos que correm por aí com bombas, metralhadoras e cinturões explosivos. E é assim como nos dizem que os imaginamos. 

Muitos deles tem barba, quase todos tem “aspecto estrangeiro”, não são brancos, não são ocidentais. Resumindo, são sujeitos que batem em suas esposas, violam crianças e destroem estátuas gregas e romanas.

Na realidade, durante “Guerra Fria”, houve alguns “terroristas” de aspecto ocidental: os esquerdistas pertencentes às células revolucionárias na Itália e em outros locais da Europa. Contudo, somente agora nos inteiramos que os atos terroristas atribuídos a eles foram cometidos realmente pelo Império, por alguns governos direitistas europeus e seus serviços de inteligência. Lembram? Os países da OTAN faziam explodir pelos ares trens dentro de túneis ou colocavam bombas em estações inteiras de trens...

“Era preciso fazê-lo”, com o fim de desacreditar a esquerda e assegurar-se que as pessoas não fossem tão irresponsáveis a ponto de votar nos comunistas ou nos verdadeiros socialistas.

Também havia alguns grupos “terroristas” na América Latina, movimentos revolucionários que lutavam pela liberdade e contra a opressão, principalmente contra o colonialismo ocidental. Era preciso contê-los, liquidá-los e, se estivessem no poder, derrubá-los.

Mas os terroristas somente se tornaram realmente  populares no Ocidente depois que a União Sovíética e o bloco comunista foram destruídos através de milhares de ações econômicas, militares e de propaganda, e depois de que o Ocidente se sentisse demasiadamente exposto, sozinho sem ninguém contra quem lutar. De alguma forma, o Ocidente sentia que precisava justificar suas monstruosas ações opressoras na África, Oriente Médio, América Latina e Ásia. 

Era necessário um novo inimigo”poderoso”, realmente poderoso, que permitisse racionalizar os astronômicos orçamentos militares e dos serviços secretos. Não era suficientemente convincente fazer frente a algumas poucas centenas de ”bichos raros” em algum lugar da selva colombiana, ou na Irlanda do Norte ou na Córsega. Era preciso haver algo realmente enorme, algo que estivesse ao nível da “maligna” ameaça soviética.

Certamente, essa ameaça foi uma grande perda, de repente! Certamente, era somente uma ameaça, não um perigo de ideais igualitários e internacionalistas.

...
Foi assim que o Ocidente vinculou o terrorismo com o Islã, que uma das maiores culturas do planeta, com 1,6 bilhões de seguidores.  O Islã era suficientemente grande e poderoso para assustar para valer as donas de casa de classe média das áreas residenciais ocidentais! E, acima de tudo, tinha que ser contido de todos os modos, já que essencialmente também era demasiadamente socialista e demasiadamente pacífico.

Nesse momento da história, todos os grandes líderes seculares e socialistas dos países muçulmanos  (como no Irã, na Indonésia e no Egito) foram derrubados pelo Ocidente, maldizendo-se o seu legado e proibindo suas manifestações.

Contudo, isso não era suficiente pára o Ocidente!

Para a finalidade de fazer do Islã um inimigo de peso, o Império teria que primeiro radicalizá-l0 e perverter os inúmeros movimentos e organizações muçulmanas, e em seguida criar outras novas, treinando-as, armando-as e as financiando adequadamente, para que realmente tivessem um aspecto suficientemente aterrorizante.

Certamente há uma razão mais importante pela qual o “terrorismo”, particularmente o muçulmano, é tão essencial para a sobrevivência das doutrinas, do excepcionalismo e da ditadura global do Ocidente: é que o “terrorismo” justifica a idéia de superioridade cultural e moral absoluta do Ocidente.

A coisa funciona da seguinte maneira:
Durante séculos, o Ocidente se comportou como um monstro louco sedento de sangue. Apesar da propagada glorificadora que os meios de comunicação ocidentais transmitiram para todo o planeta, estava se tornando evidente para todos que o Império violava, assassinava e saqueava em todos os rincões do globo. Mais algumas décadas,  e o mundo veria o Ocidente exclusivamente como uma enfermidade sinistra e tóxica. Um cenário assim teria que ser evitado de todas as formas.

Assim, os ideólogos e propagandistas do Império deram com uma nova e brilhante fórmula: “Vamos criar algo que tenha um aspecto e se comporte de forma ainda pior do que nós, e então poderemos proclamar que continuamos sendo, na realidade, a cultura mais razoável e tolerante da Terra!”

“E vamos fazer uma autêntica pirueta: vamos combater contra nossa própria criação, vamos combatê-la em nome da liberdade e da democracia!”

Foi assim que nasceu uma nova geração, uma nova fornada de “terroristas”, que continua viva e gozando de boa saúde, viva e serpenteante, multiplicando-se como as salamandras Capek (1)

* * *

O terrorismo ocidental na realidade não é discutido, embora suas formas mais extremas e violentas continuem maltratando o mundo sem descanso, como tem feito há muito tempo, com centenas de milhões de vítimas por todas as partes.

Contudo, nem sequer os legionários e gladiadores do Império, como os muhajedins, AL-Qaida ou ISIS se aproximam da barbárie demonstrada vez que outra por seus mestres britânicos, franceses, belgas, alemães ou norte-americanos. Lógico que tentam, sem descanso, alcançar o nível de seus gurus e provedores, mas simplesmente não são capazes de alcançar sua violência e brutalidade.

É preciso contar com toda uma “cultura ocidental” para massacrar certa de dez milhões de pessoas numa só região geográfica, quase de uma só tacada.

* * *

Então, o que é o terrorismo real e como poderiam o ISIS e outros grupos parecidos seguir sua liderança? Dizem que o ISIS está decapitando suas vítimas. Isso é muito ruim, mas quem tem sido seu mestre?

Há séculos, os impérios da Europa vem assassinando, torturando, violando e mutilando pessoas em todos os continentes do planeta. Os que não estavam fazendo isso de forma direta “investiam” em expedições colonialistas ou enviavam sua gente para se unir a batalhões genocidas.

O rei Leopoldo II (da Bélgica, N. do T.) e seus consortes conseguiram exterminar perto de 10 milhões de pessoas na África Ocidental e Central, no que hoje se conhece por Congo. Leopoldo caçava as pessoas como animais, obrigando-as a trabalhar em seus seringais. Se ele pensasse que elas não estavam enchendo seus cofres com suficiente rapidez, ele não tinha receios em cortar-lhes suas mãos ou em queimar vivas populações inteiras dentro de suas choças.

Dez milhões de vítimas desapareceram. Dez milhões! E esse fato não aconteceu num passado longínquo, em uma idade “obscura”, mas sim em pleno século XX, sob o império de uma monarquia considerada constitucional e auto-proclamada democrática. Como comparar isso com o terrorismo dominante nos territórios ocupados pelo ISIS? Comparemos a cifras e o nível de brutalidade!

E novamente, a partir de 1995, a República Democrática do Congo voltou a perder cerca de 10 milhões de pessoas mais em uma orgia horrível de terror, desatada pelos delegados do Ocidente, Ruanda e Uganda (ver o trailer de meu filme  “Rwanda Gambit”).

Os alemães perpetraram genocídios na África do Sudoeste, onde hoje é a Namíbia. A tribo Herero  foi exterminada, perdendo 90% de seus integrantes.

Primeiro, a população foi expulsa de suas terras e casas e conduzida para o deserto. Se sobrevivesse, os alemães a assediavam com expedições pré-nazistas, usando balas e outros meios de assassinato em massa.  Conduziram-se experimentos médicos em seres humanos, para demonstrar a superioridade da nação germânica e da raça branca.

Eram somente civis inocentes, pessoas cujo único delito era não serem brancos e viver em terras ocupadas e violadas pelos europeus.

Os talibãs não chegaram a tanto, tampouco o ISIS!

Nos dias de hoje, o governo da Namíbia continua exigindo o regresso de um grande número de cabeças de sua população, cabeças que pertenceram a corpos decapitados e que em seguida foram enviadas à Universidade de Freiburg e para alguns hospitais de Berlim para realização de experiências médicas.


Imaginem se o ISIS decapitasse milhares de europeus para levar a cabo experimentos médicos com o objetivo de demonstrar a superioridade da raça árabe. Absolutamente impensável!

A população local foi aterrorizada em praticamente todas as colônias ocupadas pela Europa, o que descrevi em detalhes em meu último livro, “Exposing Lies of the Empire”, com 840 páginas.

E que dizer dos britânicos e das crises de fome que utilizavam como tática de controle e intimidação da população na Índia? Em Bengala, não menos de cinco milhões de pessoas morreram somente em 1943, cinco milhões e meio em 1876-1878, cinco milhões de 1896-1897, e isso para citar somente alguns  poucos atos terroristas cometidos pelo Império Britânico contra uma população indefesa obrigada a viver sob seu horrível e opressivo regime de terror.

O que acabo de citar ocupa somente três curtos capítulos da longa história do terrorismo ocidental. Poderíamos compilar toda uma enciclopédia sobre esse tema.

Contudo, tudo isso encontra-se longe da consciência ocidental. As massas de europeus e norte-americanos preferem não saber nada sobre o passado e o presente. No que concerne a elas, governam o mundo porque são livres, brilhantes e grandes trabalhadores, e não porque durante séculos seus países tenham saqueado e assassinado, e sobretudo aterrorizado o planeta, obrigando-o à submissão. 

As elites sabem de tudo isso, com certeza. E quanto mais sabem, mais colocam em prática esses conhecimentos.


O ofício do terrorismo e sua experiência são transmitidos pelos mestres ocidentais aos novos recrutas muçulmanos.

Se examinarmos de perto suas táticas de intimidação e terror, os mujeddins, a Al-Qaida ou o ISIS absolutamente não são originais. Baseiam-se nas práticas imperialistas e colonialistas do Ocidente. As notícias a respeito, ou sobre o terror infligidas pelo Ocidente, são meticulosamente censuradas. Você nunca poderá sobre elas nos jornais e revistas dos meios dominantes.

Por outro lado, a violência e a crueldade das organizações terroristas clientelares  constantemente se destacam. Elas nos são servidas nos mínimos detalhes, repetidas várias vezes  e “analisadas”.

Todo mundo está furioso, horrorizado. A ONU está “profundamente preocupada”, os governos ocidentais estão “indignados”, e o público ocidental “diz basta e não quer imigrantes desses países terríveis, berços do terrorismo e da violência".

O Ocidente “simplesmente tem que fazer alguma coisa”, e aqui entra em cena a Guerra contra o Terror.

Trata-se de uma guerra contra o próprio Frankenstein do Ocidente. É uma guerra  que não se espera que seja ganha, por que se ela for ganha, e que Deus não queira isso, haveria paz, e a paz significa reduzir os orçamentos de defesa e também fazer frente aos problemas reais de nosso planeta.


A paz significaria que o Ocidente acharia seu próprio passado. Significaria pensar na justiça e no reordenamento da totalidade das estruturas de poder do planeta, e isso não pode ser permitido.

Dessa maneira, o Ocidente está “jogando” jogos de guerra: está “combatendo” seus próprios  recrutas (ou simulando fazê-lo), enquanto que pessoas inocentes continuam morrendo.

Nenhuma parte do mundo, com exceção do Ocidente, seria capaz de inventar e dar rédeas soltas a algo tão vil e brutal como o ISIS ou a Al-Nusra.

Se olharmos mais de perto a estratégia desses grupos-implantes veremos que não tem raízes em nenhuma cultura muçulmana, mas em troca estão totalmente inspirados na filosofia ocidental  do terrorismo colonialista: “Se não acatarem plenamente nossos dogmas e nossa religião, então lhes cortaremos a cabeça, vamos degolá-los, violar suas famílias inteiras ou arrasar pelo fogo seus povoados. Vamos destruir seu grandioso patrimônio cultural, como fizemos na América do Sul há 500 anos, e em tantos outros lugares”.

E assim sucessivamente. Realmente é necessária uma grande disciplina para não se dar conta das conexões.

* * *

Em 2006 eu estava visitando meu amigo, o ex-presidente da Indonésia e grande líder progressista muçulmano , Abdurrahman Wahid (conhecido na Indonésia como “Gus Dur”).  Nossa reunião se realizou na sede da organização de massas Nahdlatul Ulama (NU). Naquele momento, a NU era a maior organização muçulmana do planeta. 

Estávamos discutindo sobre o capitalismo e como ele estava destruindo e corrompendo a Indonésia. Gus Dur era um socialista “no armário”, e essa foi uma das razões principais pelas quais as servis elites pró-Ocidente e os militares da Indonésia o depuseram da presidência em 2001.

Quando entramos no tema do “terrorismo”, disse, de repente, com sua típica voz suave, apenas audível: “Sei quem fez explodir o Hotel Marriott em Djacarta. Foram nossos próprios serviços de inteligência com a finalidade de justificar o aumento do seu orçamento, assim como a ajuda que tem recebido do exterior.”

Presumivelmente os militares, os serviços de inteligência e a polícia da Indonésia são formados por uma raça especial de seres humanos. Durante várias décadas, desde de 1965, eles têm aterrorizado brutalmente sua própria população,  a partir do momento em que um golpe de estado pró-ocidental derrubou o presidente progressista Sukarno e levou ao poder uma camarilha militar fascista, aprovada pela comunidade empresarial, predominantemente cristã. Esse terror custou a vida de entre 2 e 3 milhões de pessoas na própria Indonésia, assim como no Timor Leste e em Papua, território ocupado e saqueado a varrer.

Três genocídios em somente cinco décadas!

O golpe de estado na Indonésia foi um dos maiores atos terroristas na história da humanidade. Os rios estavam obstruídos pelos cadáveres, e suas águas tinham se tornado vermelhas.

Para que? Para que o capitalismo sobrevivesse e as empresas de mineração ocidentais pudessem ter seu botim ás custas de uma nação indonésia completamente em ruínas, e para que o Partido Comunista da Indonésia (PKI) não pudesse ganhar as eleições democraticamente.

Contudo, no Ocidente, essa matanças intensivas planejadas pelo Império nunca receberam a qualificação de “terrorismo”. Entretanto, a  explosão de um hotel ou de um bar sempre a  recebe, principalmente se são freqüentados por uma clientela ocidental.

A Indonésia tem os seus próprios grupos de “terroristas”. São os que retornaram do Afeganistão, onde lutaram em nome do Ocidente contra a União Soviética.  Agora, estão regressando do Oriente Médio. Os recentes ataques em Djakarta poderão ser somente um aperitivo, um começo bem planejado de algo muito maior, talvez a abertura de uma nova “frente“ de soldados de brinquedo do Império no Sudeste Asiático.

Para o Ocidente e os seus planejadores, quanto mais caos, melhor.

Se tivessem permitido a Abdurrahaman Wahid manter-se como presidente da Indonésia, provavelmente não haveria a ocorrência de terrorismo.  Seu país teria aplicado reformas socialistas, instituído justiça social, reabilitado seus comunistas e abraçado o laicismo.  

Nas sociedades socialmente equilibradas, o terrorismo não prospera.

Contudo, isso seria inaceitável para o Império. Isso significara voltar aos dias de Sukarno. Não se pode permitir que o país muçulmano mais populoso da Terra siga o seu próprio caminho em direção ao socialismo e aniquile as células terroristas.  

Ele tem que ser mantido na borda do abismo, tem que estar pronto para ser utilizado como um peão, tem que ter medo e provocar medo. Assim é.

* * *
Os jogos que o Ocidente está jogando são complexos e elaborados, são turvos e nihilistas, são tão destrutivos e brutais que inclusive os analistas mais acurados frequentemente questionam seus próprios conceitos e o que os seus olhos vêem, e dizem a si mesmos: “Será que tudo isso realmente está acontecendo”?

A resposta breve é: “Sim, isso acontece e aconteceu, durante longas décadas e séculos.”

Historicamente, o terrorismo é uma arma nativa do Ocidente. Foi utilizada com generosidade por personagens como Lloyd George, primeiro ministro britânico que se negou a assinar o acordo que proibia o bombardeio aéreo de civis, utilizando para isso uma firme lógica britânica: “Nos reservamos o direito de bombardear esses negros”. Ou Winston Churchill, que esteve a favor de lançar gás sobre as “raças inferiores”, como os curdos e os árabes.

Por isso, quando algum recém-chegado – um país como a Rússia – se intromete, lançando sua verdadeira guerra contra os grupos terroristas, todo o Ocidente entra em pânico. A Rússia está pondo seu jogo a perder! Está arruinando seu requintadamente elaborado equilíbrio neo-colonialista.

É  só vocês olharem como tudo está estupendo: depois de matar centenas de milhões de pessoas por todo o planeta, o Ocidente de auto proclama o campeão dos direitos humanos e da liberdade. Continua aterrorizando o mundo, além de saqueá-lo e controlá-lo totalmente, mas por sua vez é aceito como o líder supremo, como um assessor benevolente, como a única parte confiável do planeta.      

E quase ninguém ri.

Por que todo mundo tem medo.

Suas brutais legiões no Oriente Médio e África estão desestabilizando países inteiros, e suas origens são facilmente rastreáveis, mas quase ninguém se atreve a fazer esse tipo de rastreamento; alguns dos que tem tentado morreram.

Quanto mais ameaçadores são esses monstros terroristas inventados, fabricados e implantados, mais formoso parece o Ocidente. É tudo questão de truques. Tem suas raízes no mundo da publicidade e em um aparelho de propaganda com séculos.

O Ocidente age como se lutasse contra essas forças obscuras profundas. Utiliza uma potente linguagem, “virtuosa”, baseado claramente no dogma fundamentalista cristão. Se desencadeia toda uma mitologia, soa parecido ao Anel de Nibelung, de Wagner.  Os terroristas representam o mal, e não um enorme desembolso das arcas do Departamento de Estado, da União Européia e da OTAN. São piores que o próprio diabo!

E o Ocidente, cavalgando seu cavalo branco, um pouco ébrio de vinho mas sempre de bom humor, se apresenta como a vítima e o principal adversário desses grupos terroristas satânicos.

É um espetáculo incrível. Uma horrível farsa. Olhemos por baixo da máscara do cavaleiro: olhemos esses dentes expostos, esse sorriso mortal. Olhemos seus olhos vermelhos, cheios de avareza, luxúria e crueldade.

E não nos esqueçamos nunca: o colonialismo e o imperialismo são as duas formas mais mortais do terrorismo, e essas são ainda as duas principais armas desse cavaleiro que estão asfixiando o mundo.

Notas

[1] Karel Capek, A guerra das salamandras, 1935

Andre Vltchek é filósofo, novelista, cineasta e jornalista investigativo. Cobriu guerras e conflitos en dezenas de países. Suas últimas publicações são: “Exposing Lies Of The Empire” e “Fighting Against Western Imperialism”. Debate com Noam Chomsky: On Western Terrorism. Outras publicações: Point of No Return, Oceaniae e seu provocador livro  “Indonesia – The Archipelago of Fear”. Andre realiza reportagens para Telesur e Press TV. Residiu muito anos na América Latina e Oceania, e atualmente vive e trabalha na Asia Oriental e Oriente Próximo. Pode ser  consultado em seu site na  Internet ou contatado via   Twitter.
via: 

domingo, 31 de janeiro de 2016

OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE

 

                                                                 Albrecth Dürer



Os governantes sionistas já não têm mais do que reclamar. Depois da invasão e ocupação do Afeganistão, do Iraque e da Libia pelos Estados Unidos, Israel deixou de ser o único detentor do título de último Estado colonial do planeta.

Palestina, Iraque, Líbia e Síria, países semitas que, juntamente com o Afeganistão são de predominância religiosa islâmica, pagam o preço da ignorância e da campanha de difamação e racismo da mídia ocidental, que acusa o islamismo de intolerante, mas não informa que no Afeganistão existe há séculos, uma Mesquita de Maria, em homenagem à mãe de Jesus. Alguém conhece alguma Igreja ou Sinagoga com o nome de ( Muhammad) Maomé?i

NUNCA É DEMAIS REPETIR: QUEM É INTOLERANTE?

No Marrocos, país árabe-islâmico, o judaísmo é a segunda religião. Alguém já ouviu falar em perseguição aos judeus? No Egito, outro país árabe-islâmico, os cristãos ortodoxos coptas são a segunda religião, e o que dizer do Líbano, hoje país de maioria islâmica governado por um cristão?

Quem é intolerante?

Nos países árabes-islâmicos quando o pai fica idoso, ele envelhece e não apodrece. Idoso em árabe é sinônimo de Sheikh, ou seja, pessoa sábia e depositária do saber. Ali, não existe a excrescência denominada “asilo de velhos” ou “casa de repouso”. O idoso fica com a família até o último suspiro.

Na Enciclopédia Judaica está escrito que a época de maior esplendor do judaísmo aconteceu sob os governantes muçulmanos.

Quem é intolerante?

Os talibãs (estudantes), que chegaram ao poder no Afeganistão com o apoio dos Estados Unidos, foram mais tarde acusados de terroristas não por causa do atentado de 11 de setembro, já que os supostos autores do atentado em sua maioria eram da Arábia Saudita.

E aqui abro um parêntese para reafirmar pela enésima vez que considero uma afronta à inteligência sugerir que tenham sido muçulmanos os autores do atentado de 11 de setembro.

E alguém se importa?

Mas, voltando aos talibãs, a mídia ocidental passou a considerá-los inimigos a partir do momento em que eles se recusaram a liberar o plantio e a produção de ópio. Hoje, graças à democracia americana, o Afeganistão tornou-se o maior produtor de ópio do mundo.

Aliás, para aqueles que não consideram um insulto exercer o raciocínio, basta ver o que acontece na vizinha Colômbia que, ocupada pelas forças armadas dos Estados Unidos, não cessa de aumentar sua produção de cocaína.

Os soldados americanos não combatem pelas armas, mas pelo crime.

Droga, indústria bélica, especulação financeira e mídia pilantra são os Quatros Cavaleiros do Apocalipse que, irmanados, governam a humanidade hoje.



Até quando?

Sanguessugado do Bourdoukan

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Israel afunda na miséria

Sanguessugado do Bourdoukan

Em Israel pedem comida
Desemprego, fome, miséria e exclusão fazem parte do cardápio diário da sociedade israelense.
Já não se vê mais a luz no fim do túnel.
Os israelenses que podem estão abandonando o país em busca de novos horizontes.
Muitos gostariam de retornar a seus países de origem, no entanto com o fim do socialismo eles não conseguirão sobreviver.
Antes eles sempre recorriam aos Estados Unidos para complementar suas rendas.
Mas com a crise que assola aquele país as torneiras estão fechadas.
Nos Estados Unidos fila da sopa...
Até os “cristãos sionistas” estão deixando de enviar recursos.
E a mídia, qual tem sido o comportamento da mídia?
Total falta de credibilidade.
Mentiras e manipulação.
Ignorou durante mais de um mês as manifestações em Israel que pediam solução para uma realidade tão grave.
E nessas manifestações não havia apenas mil ou duas mil pessoas.
Mais de 500 mil, 700 mil e um milhão os protestos diários.
E só a mídia e seus agentes não conseguiram enxergar essas manifestações.
E agora ela está mais preocupada em assacar mentiras contra o Estado Palestino.
E justiça seja feita.
A BBC tem sido uma das lideres dessas mentiras e manipulações.
Em seus textos manipula os próprio dados para no final( e alguém consegue ler seus textos ate o final?) apresentar dados que contrariam suas letras.
Igualzinho ao que os dirigentes de Israel fazem quando mencionam a palavra”paz”.
São favoráveis a tudo, menos à paz.
Invadem sua casa, assassinam sua família e aí te intimam para “negociar a paz”.
E quando você reage te chamam de terrorista.
Essa tem sido a História da Palestina desde a criação do Estado de Israel.
Sempre com apoio dessa excrescência denominada mídia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

UMA QUESTÃO DE ESCOLHA

Sanguessugado do Bourdoukan
Georges Bourdoukan
Quando o soldado de Israel dispara contra a cabeça do garoto palestino, a bala que vai matar a criança faz parte de um estoque de mais de 500  bilhões de dólares que a indústria bélica faturou nas duas últimas décadas com a venda de armas para o Oriente Médio.
Portanto, se alguém realmente quer acabar com a violência, antes de tudo precisa acabar com a indústria bélica. Mas, acabando com a indústria bélica, acaba-se também com o narcotráfico, já que um vive umbilicalmente ligado ao outro. E aí é que surge o problema, pois, estimativas dos organismos internacionais informam que o narcotráfico movimenta por ano mais de um trilhão de dólares, como produto ou através de empresas legalmente constituídas.
A pergunta que fica é se existe força suficiente para acabar com uma indústria que movimenta um trilhão de dólares por ano. E quanto à indústria bélica, cujo faturamento anual já superou em muito o trilhão de dólares, o problema que se coloca é outro.
Ao acabar com a indústria bélica, acaba-se com as forças armadas, cuja finalidade, aprende-se nos bancos escolares, seria defender as fronteiras. Mas nessa época de globalização é possível falar-se em fronteiras?
Num sistema neoliberal, onde tudo é negociável, como fica a soberania?
Por isso, quando a indignação toma conta da humanidade diante dos massacres infindáveis que as forças invasoras estadunidenses e israelenses perpetram contra palestinos, iraquianos, líbios, sírios e afegãos, ou mesmo quando a Anistia Internacional menciona crimes contra a humanidade praticados pelo Estado sionista, ou ainda, quando uma Corte Suprema como a de Israel endossa e alega razões de Estado para a prática de torturas, não basta a indignação. É preciso agir.
A humanidade precisa decidir se apoia o narcotráfico e a indústria bélica ou prefere viver num mundo melhor.
Como se vê, é uma questão de escolha.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

26 coisas sobre ISIS e Al-Qaeda que não querem que saibas

Via O Diário.info
Michel Chossudovsky
 
O Estado Islâmico, ISIS ou Daesh, foi criado pela CIA, a MOSSAD e o MI6 para rebentar com a Síria.… ¿Como é possível que prossiga a estratégia dos EUA no sentido de criar um estado policial mundial? Passando pela destruição de povos, culturas ancestrais e restos de antigas civilizações. A barbárie na sua máxima dimensão.
 
Coisas que não querem que saibas da Al-qaeda
1-Os EUA apoiaram a Al Qaeda e as suas organizações filiadas durante quase meio século, desde o apogeu da guerra afegã-soviética.
2-A CIA criou campos de treino para a al-Qaeda no Paquistão. Num período de dez anos, desde 1982 até 1992, uns 35.000 jihadistas procedentes de 43 países islâmicos foram recrutados pela CIA para lutar na jihad afegã contra a União Soviética.
3- Desde a época da Administração Reagan que Washington tem apoiado a rede terrorista islâmica. Ronald Reagan qualificou esses terroristas como “lutadores pela liberdade”.
Os EUA forneceram armas às brigadas islâmicas. Era tudo para “uma boa causa”: a luta contra a União Soviética e a mudança de regime, o que levou à desaparição de um governo secular no Afeganistão.
Apenas necessitamos de recordar filmes de propaganda da época, como o célebre Rambo III…
4-Os livros de texto jihadistas foram publicados pela Universidade de Nebrasca. Os EUA gastaram milhões de dólares para fornecer livros de texto repletos de imagens violentas e ensinamentos islâmicos militantes aos estudantes afgânis.
5- Osama bin Laden, fundador da Al Qaeda e homem mais odiado pelos EUA, foi recrutado pela CIA em 1979, mesmo no início da guerra jihadista no Afeganistão contra a União Soviética. Bin Laden tinha na altura 22 anos e foi treinado num campo de treino de guerrilha patrocinado pela CIA.
Segundo o Professor Chossudovsky, a Al Qaeda estava por detrás dos ataques do 11 de Setembro. De facto, o ataque terrorista de 2001 proporcionou uma justificação para desencadear uma guerra contra o Afeganistão, sob o argumento de que Afeganistão era um estado patrocinador do terrorismo da Al Qaeda.
6- O Estado Islâmico ou ISIS era originalmente uma entidade filiada na Al-Qaeda, criada pelos serviços de informações dos EUA com o apoio do MI6 Britânico, a Mossad Israelita, os serviços de informações do Paquistão e da Presidência Geral de Informações da Arabia Saudita (GIP ou Ri’āsat Al-Istikhbarat Al-‘Amah (رئاسة الاستخبارات العامة).
7- As brigadas de ISIS estiveram envolvidas no apoio à insurgência que os EUA e a NATO dirigiram contra o governo sírio de Bashar al Assad no decurso da guerra civil na Síria.
8 – A NATO o Estado-Maior da Turquia foram os responsáveis pela contratação de mercenários para ISIS e Al Nusrah desde os inícios da insurgência síria, em Março de 2011.
Segundo fontes dos serviços de informações israelitas, publicadas na web DEBKA, esta iniciativa consistiu em: “Uma campanha para recrutar milhares de voluntários muçulmanos em países do Médio Oriente e do mundo muçulmano para lutar juntamente com os rebeldes sírios. O exército turco aloja estes voluntários, treina-os e assegura a sua entrada na Síria”.
9- Há membros das forças especiais ocidentais e agentes dos serviços secretos ocidentais dentro das fileiras do ISIS. Membros das Forças Especiais Britânicas e do MI6 participaram no treino dos rebeldes jihadistas na Síria.
10- Especialistas militares ocidentais contratados pelo Pentágono treinaram os terroristas no uso de armas químicas.
“Os EUA e alguns aliados europeus estão utilizando agentes contratados para treinar os rebeldes sírios sobre como assegurar arsenais de armas químicas na Síria, segundo informaram à CNN um alto funcionário dos EUA e vários diplomatas de alto nível”.
11- As brutais decapitações realizadas pelos terroristas de ISIS integram os programas de treino patrocinados pela CIA em campos da Arabia Saudita e Qatar, cujo objectivo é causar pavor e comoção.
12- Muitos dos criminosos recrutados por ISIS são presidiários condenados libertados dos cárceres da Arabia Saudita, país aliado do Ocidente. Entre eles encontram-se cidadãos Sauditas condenados à morte que foram recrutados para se juntar às brigadas terroristas.
13- Na sua luta contra o governo de Al-Assad e as forças shiítas do Hezbollah, Israel tem apoiado as brigadas de ISIS e Al Nusrah dos Montes Golã.
Combatentes jihadistas têm-se reunido regularmente com oficiais das Forças de Defesa Israelitas (FDI), bem como com o primeiro-ministro Netanyahu.
O alto comando das FDI reconhece tacitamente que: “elementos da jihad global dentro da Síria, membros de ISIS e Al Nusrah, são apoiados por Israel”.
14- Os soldados de ISIS dentro da Síria trabalham às ordens da aliança militar ocidental. O seu mandato tácito é causar estragos e destruição na Síria e Iraque.
15- Uma prova disso é a foto seguinte, em que o senador estado-unidense John McCain se reúne com líderes terroristas jihadistas na Síria.
16- As milícias de ISIS, que actualmente são o proclamado alvo de uma campanha de bombardeamentos por parte dos EUA e da NATO sob o mandato da “luta contra o terrorismo”, continuam a ser secretamente apoiadas pelo Ocidente.
Forças shiitas que lutam contra ISIS no Iraque, tal como membros do próprio exército iraquiano, têm denunciado repetidamente as ajudas militares fornecidas pelos EUA aos terroristas de ISIS, ao mesmo tempo que combatem contra eles.
17- Os bombardeamentos estado-unidenses e aliados não estão apontados contra ISIS, mas têm sim o objectivo de bombardear a infra-estrutura económica de Iraque e Síria, incluindo as suas fábricas e refinarias de petróleo.
18- O projecto de ISIS de criar um califado faz parte de uma agenda de política externa dos EUA que pretende dividir Iraque e Síria em territórios separados: um califado islamita sunita, uma República Árabe shiíta e a República do Curdistão.
19- “A Guerra Global contra o Terrorismo” apresenta-se perante a opinião pública como um “choque de civilizações”, uma guerra entre valores e religiões, quando na realidade se trata de uma guerra de conquista, guiada por objectivos estratégicos e económicos.
20- Brigadas terroristas de Al-Qaeda, patrocinadas secretamente pelos serviços de informação ocidentais, instalaram-se já no Mali, Níger, Nigéria, República Centro-africana, Somália e Iémen para levar o caos a esses países e justificar uma intervenção militar ocidental.
21- Boko Haram na Nigéria, Al Shabab na Somália, o Grupo de Combate Islâmico da Líbia, (apoiado pela NATO em 2011), Al Qaeda no Magreb Islâmico e Jemaah Islamiya na Indonésia, entre outros, são grupos filiados na al-Qaeda que são secretamente apoiados pelos serviços de informações ocidentais.
22- Os EUA estão também a apoiar organizações terroristas filiadas com Al-Qaeda na região autónoma Uigure da China. O seu objectivo é desencadear a instabilidade política no oeste da China.
23- “Os terroristas “somos nós”: ao mesmo tempo que os EUA são o oculto arquitecto do Estado Islâmico, o sagrado mandato de Obama é de proteger os EUA dos ataques do ISIL.
24- A ameaça terrorista local, como a que temos visto nos EUA ou na Europa, é uma fabricação promovida pelos governos ocidentais e apoiada pelos meios de comunicação com o objectivo de criar uma atmosfera de medo e intimidação que leve a uma anulação das liberdades civis e favoreça a instalação de um estado policial.
Por seu lado, as prisões, julgamentos e condenações de “terroristas islâmicos” servem para sustentar a legitimidade do Estado de Segurança Interna dos EUA e a crescente militarização das suas forças de segurança.
O objectivo final é inculcar na mente de milhões de estado-unidenses que o inimigo é real e que a Administração dos EUA protegerá a vida dos seus cidadãos.
O mesmo podemos dizer de países como França, Reino Unido ou Austrália.
25- A campanha “antiterrorista” contra o Estado islâmico contribuiu para a demonização dos muçulmanos, que aos olhos da opinião pública ocidental se associam cada vez mais com os jihadistas, assentando desse modo as bases para um choque de religiões e civilizações.
26- Qualquer um que se atreva a questionar a validade da “Guerra Global contra o Terrorismo” é qualificado de terrorista vê-se sujeito às leis antiterroristas.
Imprensa obediente e entusiasta
Com isso estabelece-se um primeiro instrumento para perseguir qualquer tipo de dissidente ideológico, associando-o com o terrorismo. Esta ferramenta poderá ser posteriormente alargada a qualquer outro tipo de dissidência ideológica.
Como vemos, a administração Obama impôs finalmente um consenso diabólico com o apoio dos seus aliados e o papel cúmplice do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A imprensa ocidental abraçou esse consenso de forma obediente e entusiasta; o Estado Islâmico é descrito como uma entidade independente, surgida do nada, um inimigo exterior que ameaça os valores “pacíficos e democráticos” do mundo ocidental.
Foi criado um inimigo que pode aparecer e actuar em qualquer momento, como um fantasma com o qual, quando for mais conveniente, se assusta a população impelindo-a a aceitar qualquer tipo de política repressiva das liberdades e qualquer tipo de acção militarista ao serviço dos grandes poderes ocidentais.
E, pelo visto, este drama ainda está no seu início…
via: http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2015/05/26-coisas-sobre-isis-e-al-qaeda-que-nao.html

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Geopolítica do petróleo: 8 razões pelas quais o preço do petróleo está voltando a subir

Via CartaMaior

Apesar da conspiração entre árabes e americanos para baratear o petróleo e pressionar economicamente a Rússia, Irã e Venezuela, os preços voltam a subir.


Nazanín Armanian
Horia Varlan / Flickr

Se ainda alguém não sabe, a Aramco – a empresa de petróleo da Arábia Saudita, e também a maior do mundo –, até bem pouco tempo, em 1977, se chamava Arabian American Oil Co., sendo de propriedade comum entre a família saudita e várias empresas da Califórnia e do Texas. Por isso, não se pode ficar surpreso se a dupla Washington-Riad tiver algo a ver com a queda brusca dos preços de 115 dólares o barril para 45 dólares entre junho e dezembro passados, levando em conta que o mercado de petróleo não é “livre”: ele é controlado por um cartel chamado OPEP e por grandes empresas petrolíferas ocidentais. E mais, o combustível gorduroso e malcheiroso, antes de tudo, é uma arma que nesse caso foi apontada contra a Rússia, o Irã e a Venezuela com a finalidade de conseguir mudanças em suas políticas via afundamento de suas economias, e ainda resgatar um falecido petrodólar – um dos pilares da hegemonia mundial dos EUA.

No entanto, a festa durou pouco e os promotores da “conspiração Aramco” se deram conta de que os prejuízos dessa queda de preços são maiores do que seus benefícios político-econômicos. Por isso, o preço de venda do petróleo para o mês de março teve uma notável melhora nos três mercados de Brent, dos EUA e da OPEN, oscilando por volta de 59 dólares o barril.

Aqui vão alguns motivos:
1. Os membros dos Brics, com exceção da Rússia, foram os principais agraciados pela compra de um petróleo barato.
a) China, o principal rival dos EUA e o segundo consumidor mundial de petróleo, bateu seu recorde de importações de petróleo, apesar de seu crescimento econômico ter sido o mais frouxo desde 1990 (mas registrou, no primeiro trimestre de 2014, um crescimento de 7,2%): começou a comprar 6,2 milhões de barris por dia, e acabou o mês de dezembro com 7,2 milhões de barris por dia, injetando-os em sua Reserva Estratégica de Petróleo (o armazenamento ocorre para afrontar as emergências, como a interrupção do abastecimento). Com isso, a China não só deixou os EUA nervosos, mas contribuiu para empurrar os preços para o alto, por dois outros fatores: tirar boa parte do excedente de petróleo que nadava no mercado e gerar incerteza sobre seu passo seguinte no mercado.
b) Beneficiou o Brasil, a principal potência rival dos EUA na América, e que agora está decidida a recuperar sua influência no seu “quintal”, e a África do Sul, o principal competidor de Washington na África. Os Brics decidiram abandonar o dólar em suas transações e criaram um banco com a finalidade de debilitar as instituições financeiras ocidentais.
2. Não conseguir mudar a postura de Moscou nos casos da Ucrânia, Crimeia e Síria. Pois se os setores belicistas ocidentais desferiram o primeiro ataque à Rússia, provocando um golpe de Estado na Ucrânia, levando à surpresa da integração da Crimeia à Federação Russa, eles pensaram que uma drástica queda nos preços do petróleo – triturando o rublo e a economia russa – fosse provocar a rendição do Kremlin. Estratégia ruim, já que o golpe à economia do país eslavo, assim como a dramática guerra da Ucrânia, deixou cerca de 6 mil mortos e milhões de desabrigados, e teve um efeito negativo sobre os países europeus aliados de Washington, que enfrentam uma ameaça de recessão: estão perdendo o mercado russo e também os investimentos, tanto dos magnatas russos como de seu Estado. Na Espanha, por exemplo, os milionários russos estavam comprando prédios inteiros herdados da era da especulação mobiliária. Além disso, é incompreensível que não previssem uma aproximação Moscou-Pequim (sem precedentes após a morte de Stalin) e Moscou-Teerã: os presidentes Vladimir Putin e Hassan Rouhani, que compartilham o sofrimento pelas sanções impostas pelos EUA e seus sócios, assim como pela “Conspiração Aramco”, tiveram quatro encontros em um ano, algo também sem precedentes na história dos dois vizinhos.
3. Quanto ao Irã, não conseguiram pressioná-lo para conseguir mais vantagem nas negociações nucleares em curso e subtrair suas forças na região porque:
a) Teerã não deixou de apoiar o governo de Bashar al-Assad (a Síria representa a profundidade estratégica do Irã enquanto ele está no poder), e inclusive já fala abertamente dos generais iranianos que trabalham em solo sírio;
b) nem aceitou o fechamento total de seu programa nuclear, e isso apesar de John Kerry ter lançado um ultimato a Teerã para assinar um acordo político global até o final de março – se não, não retomariam as negociações. O certo é que a administração Obama está muito consciente da luta pelo poder no seio da República Islâmica entre os setores militares – contrários a um acordo com os EUA – e o governo do presidente Rouhani, que tenta, por um lado, driblar as sanções que estão afogando a economia iraniana e, por outro, evitar um confronto bélico (tentou baixar a tensão depois que o míssil israelense matou um general iraniano na Síria, no último dia 20 de janeiro). Se Obama pretende impedir um Irã nuclear, um petróleo com preços no chão, aumentará a tensão social em um Irã monoprodutor e fortalecerá a posição dos céticos e dos setores que querem guerra (assim como EUA e Israel). As medidas de Rouhani diante da manobra da Aramco foram incentivar a exportação dos produtos não petrolíferos, investir no turismo, aumentar os impostos, manter os subsídios aos principais produtos de consumo e a ajuda às famílias desfavorecidas, além de uma política externa agressiva na região com um ramo de oliveira nas mãos – que inclui sobretudo os países árabes “inimigos” e membros da OPEP, como Kuwait ou Catar.

4. A perda de centenas de milhões de dólares por parte das grandes empresas petrolíferas ocidentais, como as que operam no Iraque, Líbia, Nigéria, entre outros.
5. O déficit orçamentário gerado pela queda do preço do petróleo criou dificuldades para os xeiques sauditas, em pelo menos estes três cenários:
a) No interior do país: seus orçamentos foram elaborados com base no barril de 72 dólares, e agora se enfrenta um aumento importante dos preços dos produtos básicos. Além disso, previu-se, desde a repressão da primavera de 2011, realizar uma série de projetos que melhorariam a vida dos cidadãos – como a construção de moradias, a criação de postos de trabalho, ou a chegada de água e luz a milhões de pessoas que vivem na pobreza absoluta – e que agora estão paralisados.
b) No Egito: a promessa feita em 2011 aos militares encabeçados pelo general Al-Sisi de receber 160 bilhões de dólares anuais acabam com a Irmandade Muçulmana do presidente Mohammed Mursi, preso após o golpe de Estado. O que acontecerá no Egito, seu grande aliado contra Irã, se não cumprir?

c) No Iraque e na Síria: dificuldade para pagar os honorários de milhares de jihadistas do Estado Islâmicos e grupos parecidos, cuja missão é acabar com os governos de Damasco e de Bagdá, ambos próximos a Teerã, e arrastar o Irã para uma guerra regional sectária. Desde 2011 até hoje, investiu bilhões de dólares nesses terroristas, com um êxito parcial: destruiu o Estado sírio, mas ainda não conseguiu levantar um novo e afim.
6. Nos EUA, dois fatos contribuíram para o aumento dos preços do barril:

a) Os cortes nos investimentos de capital por parte das multinacionais na extração do petróleo de xisto como resposta à queda dos preços. Pois cada barril lhes está custando entre 70 e 80 dólares (diante dos 15-20 dólares no Oriente Médio) e um petróleo por menos desse preço, obviamente, não é rentável. Com isso, nos EUA e no Canadá, cerca de 90 plataformas de exploração fecharam. BP perdeu bilhões de dólares em todo o mundo e planeja reduzir suas atividades de exploração à metade e os investimentos até 20%. A Chevron está em situação parecida.
b) A greve de cerca de 4 mil trabalhadores das empresas Royal Dutch Shell Oil e BP em nove refinarias em Ohio, Califórnia, Kentucky, Texas e Washington, iniciada em 1° de fevereiro. Exigem um convênio coletivo para o setor, a redução do número de trabalhadores não sindicalizados e melhorias nas condições de segurança e saúde, em uma greve que é a primeira dessa envergadura há várias décadas.

7. O aumento da tensão na Líbia e a perda de 800 mil barris em um incêndio.
8. O perigo de instabilidade social em países aliados aos EUA, como Iraque (incluindo seu Curdistão) ou Nigéria, pela queda dos petropreços.
O único e grande triunfo dos EUA e da Arábia Saudita nessa história até o momento foi transformar a OPEP em espectro do que foi entre 1960 e 1990, e não apenas porque sua cota de mercado caiu de 62% para os 30% de hoje, mas porque a Arábia, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos fizeram uma frente contra pesos pesados da organização, tais como Irã, Iraque, Argélia, Venezuela e Equador.
Os preços do petróleo tocaram fundo. É perfeitamente lógico que o “Naft” (seu nome em persa, e do qual vêm palavras como “naftalina”) não apenas recupere seu preço – que hoje é mais barato do que uma garrafa de bom vinho –, mas também seu valor: é o resultado de milhões de anos do esforço “não renovável” da natureza.
No: http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2015/02/geopolitica-do-petroleo-8-razoes-pelas.html