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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011


O inimigo da moral 
Vladimir Safatle

O maior inimigo da moralidade não é a imoralidade, mas a parcialidade.
O primeiro atributo dos julgamentos morais é a universalidade. Pois espera-se de tais julgamentos que sejam simétricos, que tratem casos semelhantes de forma equivalente. Quando tal simetria se quebra, então os gritos moralizadores começam a soar como astúcia estratégica submetida à lógica do "para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei".
Devemos ter isso em mente quando a questão é pensar as relações entre moral e política no Brasil. Muitas vezes, a imprensa desempenhou um papel importante na revelação de práticas de corrupção arraigadas em vários estratos dos governos. No entanto houve momentos em que seu silêncio foi inaceitável.
Por exemplo, no auge do dito caso do mensalão, descobriu-se que o esquema de corrupção que gerou o escândalo fora montado pelo presidente do maior partido de oposição. Esquema criado não só para financiar sua campanha como senador mas (como o próprio afirmou em entrevista à Folha) também para arrecadar fundos para a campanha presidencial de seu candidato.
Em qualquer lugar do mundo, uma informação dessa natureza seria uma notícia espetacular. No Brasil, alguns importantes veículos da imprensa simplesmente omitiram essa informação a seus leitores durante meses.
Outro exemplo ilustrativo acontece com o metrô de São Paulo. Não bastasse ser uma obra construída a passos inacreditavelmente lentos, marcada por adiamentos reiterados, com direito a acidentes mortais resultantes de parcerias público-privadas lesivas aos interesses públicos, temos um histórico de denúncias de corrupção (caso Alstom), licitações forjadas e afastamento de seu presidente pela Justiça, que justificariam que nossos melhores jornalistas investigativos se voltassem ao subsolo de São Paulo.
Agora volta a discussão sobre o processo de privatização do governo FHC. Na época, as denúncias de malversações se avolumaram, algumas apresentadas por esta Folha. Mas vimos um festival de "engavetamento" de pedidos de investigação pela Procuradoria-Geral da União, assim como CPIs abortadas por manobras regimentais ou sufocadas em seu nascedouro. Ou seja, nada foi, de fato, investigado.
O povo brasileiro tem o direito de saber o que realmente aconteceu na venda de algumas de suas empresas mais importantes. Não é mais possível vermos essa situação na qual uma exigência de investigação concreta de corrupção é imediatamente vista por alguns como expressão de interesses partidários. O Brasil será melhor quando o ímpeto investigativo atingir a todos de maneira simétrica.

Blog do Saraiva

domingo, 17 de abril de 2011

Dos preconceitos que todos temos (e não há nenhum problema nisso)


A polícia é temida mais por negros do que por brancos. Adivinhe o por quê.Quem já assistiu Tiros em Columbine, de Michael Moore, deve se lembrar do trecho em que ele mostra o quanto os negros são discriminados nos EUA. Não é à toa. As sucessivas cenas com trechos de diversos telejornais com negros sendo presos, assaltando e traficando, dão uma pista do porquê deles terem este tratamento. Se sempre que você vê um bandido na televisão ele é negro, você associará uma coisa com a outra.
Aqui não é lá muito diferente. Tanto que mais de 60% da população carcerária é composta de negros. Logo, minha reação instintiva ao ver um negro mal vestido é segurar minha mochila com mais força e torcer para que ele não faça parte daquela parcela de negros que vemos toda hora nos noticiários policiais. Não preciso dizer que faço isso inconscientemente. É uma reação quase que instintiva de um cérebro evoluído para reconhecer potenciais ameaças. E quanto não fico irritado ao chegar algum moralista (que parece livre de preconceitos e estereótipos) apontando o dedo na minha cara gritando: “Isso é ser preconceituoso!”......