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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A desigualdade social chega a níveis alarmantes


Os Miseráveis





Em 2013, com O Capital no Século XXI, Thomas Piketty alertou para o crescimento contínuo da desigualdade de riqueza desde a década de 1970, contrária à tendência dos 60 anos anteriores e muito mais acentuada e socialmente relevante que a desigualdade de renda, mais fácil de pesquisar e na qual se concentrava a maioria dos estudos anteriores.
 Na Europa, a parcela detida pelo décimo superior subiu de 60% em 1970 para 64% em 2010 e a do centésimo superior de 21% para 24%. Nos EUA, o décimo superior subiu de 64% para 72% e o centésimo superior de 28% para 34%. Na falta de políticas ativas contra a desigualdade (como, por exemplo, impostos progressivos sobre o capital), esses países retornarão em meados do século XXI a um patamar de desigualdade semelhante àquele do fim do século XIX e início do XX.
Nesse período, o 1% mais rico (“classes dominantes”, na terminologia de Piketty) detinha metade de toda a riqueza, o décimo superior (“classes superiores”, sendo os não incluídos no primeiro 1% referidos como “classes abastadas”) , quase 90%, enquanto o 50% mais pobre (“classes populares” na terminologia do economista) ficava com meros 5%. A nostalgia chama esses tempos e de belle époque, mas poucos, mesmo nos países mais ricos, puderam usufruir de sua beleza.
O ano de 2010 foi também aquele no qual o banco Credit Suisse publicou o seu primeiro Global Wealth Report (Relatório da Riqueza Global). Naquele ano, os 50% mais pobres dos 4,44 bilhões de adultos possuíam pouco menos de 2% dos ativos mundiais estimados em 194,5 trilhões de dólares, “embora a riqueza esteja crescendo rapidamente para alguns membros deste segmento”, acrescentava esperançosamente o relatório. Os 10% superiores possuíam 83% da riqueza mundial e o centésimo superior, 43%. A riqueza média equivalia a 43,8 mil dólares líquidos. Era preciso possuir 4 mil para deixar de pertencer aos 50% mais pobres, 72 mil para chegar aos 10% mais ricos e 588 mil para o centésimo superior.
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Piketty: sem medidas ativas, como imposto sobre o capital, vai piorar ainda mais.
Cinco anos depois, o relatório de 2015, publicado em 13 de outubro, mostra que a concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto o do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial. Apesar do relativo otimismo de 2010, a metade mais pobre dos 4,8 bilhões de adultos ficou ainda mais depauperada: agora possui menos de 1% da riqueza planetária estimada em 250,1 trilhões de dólares, enquanto o décimo mais alto controla quase 90% (87,7%, para ser exato) e o centésimo no topo, exatos 50%. A riqueza média líquida subiu para 52,4 mil, um aumento nominal de 19,6% que se reduz a 9,3% se descontados 9,5% de inflação do dólar nos Estados Unidos em cinco anos, mas os níveis de corte passaram para 3,21 mil (27% mais baixo em termos reais), 68,8 mil (13% mais baixo) e 759,9 mil (18% mais alto), respectivamente.
Percebeu-se há algum tempo, em vários países, como a limitada recuperação da economia após a crise de 2008 fluiu para os bolsos dos privilegiados, enquanto as classes média e popular ficaram ainda mais pobres pela estagnação (ou mesmo redução) dos salários reais, o aumento do desemprego e o maior endividamento. Na Espanha, por exemplo, o número de milionários em dólares (pelo critério do Capgemini e Royal Bank of Canada, que ao contrário do Credit Suisse, não inclui residência e bens de consumo) cresceu de 127,1 mil em 2008 para 178 mil em 2014, enquanto a renda per capita caiu de 35,6 mil para 30,3 mil, o desemprego subiu de 11% para 26% e a dívida pública saltou de 39,4% para 99,3% do PIB.
Nos EUA, o 1% mais rico absorveu 95% do crescimento após a crise financeira e o empobrecimento da camada inferior reflete-se até na mortalidade. Em 1960, os 20% de homens com 50 anos mais pobres podiam esperar viver até os 76,6 anos, enquanto, em 2010, esse número caiu para 76,1. No caso das mulheres, a queda foi de 82,3 para 78,3. Enquanto isso, a expectativa de vida para os 20% mais ricos atingiu 88,8 anos para homens e 91,9 para mulheres.
Na União Europeia, a renda combinada dos dez mais ricos, 217 bilhões de euros, superou o valor total das medidas de estímulo de 2008 a 2010, cerca de 200 bilhões. A novidade do relatório está em oferecer, em números, um panorama sintético dos resultados desse processo na escala do planeta.
O efeito do crescimento das dívidas na riqueza líquida foi tão importante que resultou no paradoxo de que agora há entre os 10% mais pobres (inclusive os de patrimônio negativo) mais europeus e norte-americanos do que chineses. Nem todos esses vivem na miséria. Alguns, principalmente nos EUA, são jovens cujo patrimônio foi zerado por crédito educativo, hipoteca ou cartão de crédito, mas têm diploma, um padrão de consumo decente e o sonho de um dia chegar ao topo, mas a precariedade da sua situação ficará evidente se tiverem de enfrentar uma crise ou uma doença inesperada.
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Parte do aumento recente da desigualdade está relacionada à valorização do dólar perante a outras moedas do mundo. Quem não vive nos Estados Unidos ou em países de câmbio fixo ficou, só por isso, mais pobre em dólares. Em muitos países, esse efeito é neutralizado ou amenizado pela queda do custo de vida local em moeda estadunidense. Mas quando se refere às relações internacionais de poder e riqueza, esse empobrecimento é real, como constata qualquer brasileiro ao viajar para o exterior, pagar por serviços de internet ou, se está no topo da escala, ao negociar com bancos como o Credit Suisse.
Para usar a terminologia do banco suíço, o número de adultos na “base da pirâmide” (com menos de 10 mil dólares líquidos) cresceu de 3,038 bilhões (68%) para 3,386 bilhões (71%), sua irrisória fatia no bolo da riqueza mundial caiu de 4,2% para 3% e sua riqueza média, ou melhor, pobreza média, caiu de 2,7 mil para 2,2 mil, um tombo de 26% em termos reais.
A camada do meio (10 mil a 100 mil dólares) diminuiu de 1,045 bilhão (24%) para 1,003 bilhão (21%), sua parcela caiu de 16,5% para 12,5% e sua riqueza média passou de 30,7 mil para 31,2 mil, ilusão monetária sobre uma queda real de 7,2%. Em 2000, 3,6% dessa camada vivia na China, em 2010, pouco menos de um terço e hoje, 36%.
Os não milionários da camada superior (100 mil a 1 milhão de dólares) perderam em termos relativos. Seu contingente passou de 334 milhões (7,5%) para 349 milhões (7,4%) e sua participação na riqueza mundial diminuiu de 43,7% para 39,4%. Em tese, não têm do que se queixar: em termos absolutos, sua riqueza média passou de 254 mil para 282 mil dólares, com leve aumento real de 1,3%.
Compare-se, porém, com o que aconteceu com os milionários: seu número aumentou de 24,2 milhões (0,5%) para 34 milhões (0,7%) e sua riqueza passou de 2,86 milhões para 3,32 milhões, o que significa um aumento real de 6,1%. Sua fatia, já grande, aumentou de 35,6% para 45,2% e passou a ser a maior de todas. A parte do Leão, por qualquer critério. O perfil geográfico desse grupo também se concentrou. Cinco anos atrás, 41% viviam nos EUA, hoje são 46%. Os únicos outros países com ganho perceptível de participação foram o Reino Unido, que ao passar de 5% para 7% tomou o segundo lugar por muito tempo ocupado pelo Japão, a China (de 3% para 4%), a Suíça (de 1% para 2%) e a Suécia (idem). Alguns caíram muito, inclusive Japão (de 10% para 6%), França (de 9% para 5%) e Itália (de 6% para 3%).
O relatório não faz uma estimativa independente do número de bilionários, mas, segundo a revista Forbes, ele aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais que o triplo. Basta juntar num ônibus os 85 mais ricos (com 13,4 bilhões ou mais, incluídos os brasileiros Jorge Paulo Lemann e Joseph Safra), para usar a imagem do Nobel de Economia Joseph Stiglitz, para igualar a metade de baixo da pirâmide, 3,7 bilhões de seres humanos (2,4 bilhões das quais adultos), cujos patrimônios somados igualam os mesmos 2,1 trilhões de dólares.
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O relatório de 2015 do Credit Suisse inclui também pela primeira vez um estudo da “classe média global” com critérios não diretamente comparáveis ao da pirâmide acima. Esta foi definida como possuidora de riqueza líquida de 50 mil a 500 mil dólares nos EUA em meados de 2015 e valores equivalentes em outros países segundo o poder aquisitivo local do dólar conforme a estimativa adotada pela instituição – por exemplo, de 13,7 mil a 137 mil dólares na Índia, 28 mil a 280 mil no Brasil ou na China e 72,9 mil a 729 mil na Suíça, de forma a obliterar o efeito da variação cambial. Em todo o mundo, 664 milhões se encaixam nessa definição, com um patrimônio total de 80,7 trilhões (32% do total mundial), média de 121,5 mil per capita. Acima deles estão 96 milhões, com 150 trilhões (60% do total), 1,56 milhão por proprietário. As duas camadas juntas detêm, portanto, 92% de todos os bens do mundo.
É só nos países ricos que esse conceito de “classe média” se aproxima daquilo que Piketty entende pelo termo, ou seja, aqueles cujas posses estão acima da mediana, mas abaixo dos 10% superiores. Nos menos desiguais (Austrália, Cingapura, Bélgica, Itália e Japão) chega a constituir 60% da população ou mais. Mas no contexto mundial soma só 13,9% da população (com outros 2% no topo) e é na realidade mais comparável às “classes abastadas” de Piketty. Isso é verdade também para quase todos os países pobres e emergentes. Qualificam-se como “classe média” 3% dos indianos, 4% dos argentinos, 8,1% dos brasileiros, 10,7% dos chineses e 17,1% dos mexicanos. No Brasil, em especial, essa “classe média” abrange quase toda a camada conhecida pelos pesquisadores de mercado como A2 (3,6%) e a metade superior da B1 (9,6%), ou seja, é a maior parte do que chamaríamos de “elites”. Acima dela, só a classe dominante no sentido estrito, 0,6% dos brasileiros (a camada A1 conta com 0,5%).
Apesar disso, hoje é a China o país com o maior número de indivíduos na “classe média”: nada menos de 109 milhões, ante 92 milhões nos EUA. Onze outros países têm mais de 10 milhões: Japão, com 62 milhões; França, Itália, Alemanha, Índia, Espanha e Reino Unido, com 20 milhões a 30 milhões; Austrália, Brasil, Canadá e Coreia do Sul, com 10 milhões a 17 milhões.
Que ninguém se engane: essa “classe média” é uma elite em termos planetários, vive com conforto, tem em geral uma educação superior e é muito relevante como consumidora, talvez também como contribuinte. Porém, do ponto de vista do poder econômico e político e do interesse de grupos financeiros internacionais, são os 29,8 milhões de milionários, no mínimo, que contam.  Aqueles com 5 milhões a 10 milhões de dólares são 2,5 milhões e com 10 milhões a 50 milhões, 1,3 milhão, mas o foco visível do interesse do Credit Suisse está nos ultrarricos com mais de 50 milhões, que cresceram de 81 mil em 2010 para 124 mil em 2015 ou 0,0026% dos cidadãos do mundo. Destes, 59 mil vivem nos EUA (48%), 30 mil na Europa (24%), 9,6 mil (9%) na China e Hong Kong e 1,5 mil (1%) no Brasil. A Suíça tem 3,8 mil nessa categoria, mais que a França (3,7 mil).
Esses multimilionários são o equivalente aproximado, quanto ao seu número relativo, à classe senatorial da Roma antiga (600 senadores, mais os filhos adultos, em uma população de 60 milhões) ou à alta nobreza titulada nas grandes monarquias europeias do século XVIII (algumas centenas em populações de dezenas de milhões). Os meros milionários podem ser equiparados à classe curial da antiga Roma (mercadores, conselheiros e funcionários municipais) ou à pequena nobreza não titulada da Europa pré-revolucionária, ambas perto de 1% da população da época.
Conforme Piketty, as grandes novidades do século XX, atribuídas por ele aos choques políticos e econômicos das duas guerras mundiais, foram a redução da participação da classe dominante na riqueza, para cerca de 20% do total em vez dos 50% tradicionais até 1913, e o surgimento de uma  verdadeira classe média, formada por algo como 40% da população e 35% ou 40% da riqueza. Sua parcela é constituída fundamentalmente de residência e bens de consumo e poupanças, representando pouco poder econômico, mas uma razoável segurança. Nas sociedades mais antigas, os 90% inferiores formavam uma massa pouco diferenciada e possuíam 10% ou menos da riqueza social.
O relatório do Credit Suisse mostra uma sociedade global cada vez mais próxima desses padrões antigos e medievais, e mais distantes daqueles atingidos pelos países mais desenvolvidos nos anos do pós-Guerra. Desde o início da era neoliberal, a riqueza acumula-se cada vez mais no topo, enquanto as maiorias empobrecem em termos relativos e até absolutos. As crises mostraram-se, sobretudo, oportunidades de radicalizar esse processo: para conter as falências em massa que agravariam a crise, valores imensos são mobilizados pelos Estados para financiar os poderosos, cuja incompetência é premiada também com cortes de impostos, salários e direitos trabalhistas, enquanto as massas pagam a conta com um salário congelado ou reduzido e impostos mais altos, quando não perdem o emprego e se endividam ainda mais.
O crescimento de alguns países emergentes, principalmente a China, foi o único fator importante a contrariar essa tendência geral, ao incorporar camadas maiores da população à “classe média” mundial (apesar de, no caso chinês, isso também aumentar sua desigualdade interna em relação às massas camponesas). Mas esse fator está em desaceleração, ao passo que as pressões para privilegiar ainda mais os ricos e lhes dar maior liberdade de ação estão em alta em quase toda parte e as crises em formação só tendem a reforçá-las. 
*Reportagem publicada originalmente na edição 873 de CartaCapital, com o título "No mundo de 'Os miseráveis"
https://www.cartacapital.com.br/revista/873/no-mundo-de-os-miseraveis-5584.html


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O que é o populismo


O que é o "populismo"? Por qual razão há cada vez mais movimentos políticos acusados de ser "populistas"?

O populismo (do Inglês populism, tradução do Russo narodničestvo) é uma atitude política e cultural que exalta princípios e programas geralmente baseados no Socialismo, mas não numa forma específica do mesmo.

Na América Latina designa um conjunto de práticas políticas que consiste no estabelecer uma relação directa entre as massas e uma liderança política sem a mediação de instituições políticas como os partidos. Em qualquer caso, o termo é utilizado em forma menosprezativo: os movimentos acusados de ser populistas recusam tal adjectivação.

O populismo antes

A origem do populismo pode ser encontrada no bonapartismo (altura de Napoleão I) e na Revolução Francesa, especialmente em facções que tinham sido fortemente influenciadas pelas ideias políticas do filósofo Jean-Jacques Rousseau, como os Jacobinos.
Populistas na Ucrânia em 1868
No entanto, o termo "populista" nasceu com o movimento desenvolvido na Rússia na segunda metade do século XIX e que propunha uma melhoria das condições de vida das classes rurais e dos servos, através da criação dum Socialismo baseado na comunidade rural russa, em contraste com a sociedade industrial ocidental.

Um Partido do Povo (People's Party) foi fundado em 1891 nos Estados Unidos por grupos de trabalhadores e agricultores que lutavam para a livre cunhagem da prata, a nacionalização dos meios de comunicação, limitações na Finança, impostos de herança mais favoráveis, eleição do Presidente, vice-Presidente e Senadores com voto popular direto.

O termo passou depois a ser utilizado em relação às práticas políticas de Juan Domingo Perón (o "Peronismo"), o bolivarianismo e o chavismo, já que muitas são enfatizadas as consultas e os plebiscitos populares para que as pessoas possam decidir directamente nos limites da Constituição.
O populismo hoje

O amplo uso que os políticos e os meios de comunicação fazem do termo "populismo" tem ajudado a divulgar um significado fundamentalmente desprovido de significado: o actual "insulto" de "populista" pouco ou nada tem a ver com o movimento originário, tendo perdido com o tempo também as referencias aos princípios socialistas.

Hoje é "populista" quem é um político com uma linguagem não-ortodoxa e agressiva, que demoniza as elites e exalta "o povo"; o termo é utilizados entre os adversários políticos para denegrir os outro; "populismo" é muitas vezes considerado pelos políticos quase como sinónimo de "demagogia", o que é um erro (demagogia: uma forma de actuação política na qual existe o interesse em manipular ou agradar a massa popular, incluindo promessas que provavelmente nunca serão realizadas, apenas para conquistar o poder político).

Na realidade, o sentido moderno de "populismo" é extremamente vago, tornando-o conveniente como uma categoria residual boa para catalogar uma variedade de esquemas difíceis de ser classificados de maneira mais precisa. No entanto, há alguns elementos em comuns: o nacionalismo, a retórica anti-imperialista, o apelo constante às massas e o poder dum líder carismático. Pelo que, no populismo moderno entram Benito Mussolini, Hitler, Salazar, os já citados Perón e Chaves, Nasser no Egipto, Nehru, na Índia.

Em qualquer caso, a utilização do termo "populista" se encontra em constante crescimento tal como a literatura dedicada ao fenómeno. Qual a razão? Provavelmente há mais do que uma explicação: eis algumas das possíveis.
As razões do populismo

Um dos problema é que o mundo político está atrasado: raciocina segundo esquemas do século
passado (ou ainda mais velhos). As democracias contemporâneas também ficaram paradas: um atraso mental que obriga a raciocinar como se estivéssemos ainda no século XX, ou até no XIX. Oferecem soluções ambiciosas mas totalmente desligadas da realidade.

Isso abre um imenso espaço de frustração entre os cidadãos, os quais voltam às origens: pedem uma política que fique mais perto deles, das suas necessidades.

Outro problema é o facto da Economia e da Finança ter tomado posse da discussão política nos Parlamentos: hoje tudo o é Dívida Pública, orçamento de Estado, interesses das multinacionais, de bancos e Finança. Criou-se uma política escrava duma forma mental que tem como única base o lucro, o que contrasta com a vida real, onde os problemas que devem ser encarados têm outros objectivos.

Mais: consequência parcial (mas não exclusiva) do ponto anterior é a clara sensação de que o mundo político-empresarial represente hoje uma casta, um bloco de interesse fechado que opera de forma impune e não no interesse da sociedade soluções.

Depois não podemos esquecer a falta de alternativas: o actual sistema democrático é visto como único percurso possível, mas ao mesmo tempo é evidente que o mesmo é a causa das inúmeras falhas presentes na sociedade, falhas que não podem ser solucionadas sem pôr em causa todo o sistema democrático tal como é conhecido hoje. E dado que nenhum sistema gosta de auto-destruir-se, as falhas são aceites como partes inevitáveis do sistema, o que alimenta ainda mais a frustração dos cidadãos.

Por fim: o atraso das massas. E as massas somos nós.
Muitos entre os cidadãos continuam a raciocinar como se o tempo não tivesse passado: há ainda fascistas, comunistas, socialistas, conservadores, pessoas que seguem o partido porque convencidas de que este tem as chaves para melhorar a situação. O debate no interior da sociedade (e não em âmbito estritamente político) é quase nulo, delegado a uma minoria que, paradoxalmente, é a parte mais conservadora neste aspecto (independentemente da sua posição política, que pode ser tanto fascista quanto comunista, só para fazer um exemplo).
Anti-política? Nem por isso...

É neste quadro que surgem os movimentos "populistas", muitas vezes definidos como "anti-políticos". Erro: não apenas não são partidos "anti-política" mas até são o que mais perto há da verdadeira política, entendida como esforço para individuar soluções mediante a troca de opiniões, tendo em consideração ideias novas e soluções concretas, sem a pesada capa duma ideologia.

Questões reais exigem respostas reais e, possivelmente, rápidas.

Pegamos num típico caso de "populismo" moderno: o sucesso do movimento Frente Nacional de Marine Le Pen na França. Enquanto as Mentes Pensantes de Bruxelas elaboram inúteis planos para solucionar a crise migratória na Europa, enquanto o Presidente Francês Hollande tenta mediar entre a necessidade de maior segurança no País dele dum lado e o mais progressista "sejam todos bem vindos" do outro, a Frente Nacional elegi a questão da segurança nas ruas como objectivo prioritário e propões soluções práticas.

Podemos concordar ou não com tais soluções, mas não é possível negar que a Frente Nacional apresenta soluções realísticas, simples de entender e de imediata aplicação. Exactamente o que falta às ruminações mentais dos burocratas de Bruxelas ou ao Presidente Hollande.

Há partidos "populistas" um pouco em todos os lados: o Danish People’s Party na Dinamarca, o Finns Party na Finlandia, o Sweden Democrats na Suécia, o já citado Front National na França, o Alternative für Deutschland na Alemanha, o UKIP no Reino Unido, o Movimento Cinque Stelle em Italia, o Podemos em Espanha... são um perigo do ponto de vista democrático?
O erro de base

Um artigo do The Guardian, assinado por Cas Mudde, Professor de Negócios Estrangeiros na Universidade da Geórgia (EUA), autor dum livro no qual são analisados os partidos populistas europeus:
Até um par de anos atrás, o consenso entre as elites europeias de Esquerda e Direita era que o populismo era maioritariamente mau. Foi descartada como uma "patologia da democracia" ou, como tinha escrito o historiador americano Richard Hofstadter em 1960, "o estilo paranoico da política". A ascensão de movimentos populistas tem visto uma mudança no debate público, especialmente empurrado pelos seguidores de Chantal Mouffe e do falecido Ernesto Laclau, que argumentam como o populismo constitui, na verdade, a essência da política democrática. [...]

O principal problema é que o populismo é uma ideologia monista e moralista, que nega a existência de divisões de interesses e opiniões dentro do "povo" e rejeita a legitimidade dos adversários políticos. Como os populistas são a vox populi, ou seja, a voz de todas as pessoas, qualquer indivíduo com uma visão diferente fala por "interesses especiais", ou seja, da elite. Dado que a distinção fundamental é entre as pessoas "puras" e a elite corrupta, qualquer compromisso levaria à corrupção do povo e, portanto, é rejeitado. Esta posição inflexível leva a um cultura política polarizada, em que o não-populista se transformar em anti-populista.

O populismo tende a ficar feio quando chega ao poder. Se tem que dividir o poder com os não-populistas, os efeitos, positivos ou negativos, tendem a ser pequenos (pensemos aos Governos Schüssel com a Direita populista radical FPO, na Áustria). [...]

No entanto, a actual situação da Hungria e da Venezuela mostra o que o populismo pode fazer quando toma o controlo total de um País. Apoiados por maiorias impressionantes em eleições populares, os líderes populistas como Viktor Orbán e Hugo Chávez têm introduzido novas constituições que minam um número significativo de freios e contrapesos da democracia liberal.[...]

Em suma, o populismo democrático é uma resposta não-liberal ao liberalismo antidemocrático. Critica a exclusão de questões importantes da agenda política por parte das elites e apela à sua re-politização. No entanto, isso tem um preço. A visão ou preto ou branco e as posições inflexíveis do populismo conduzem a uma sociedade polarizada Porque, é claro, ambos os lados compartilham a responsabilidade e o extremismo maioritário nega legitimidade aos opositores e enfraquece os direitos das minorias.

Muito engraçado, sem dúvida. Mas errado.

Em primeiro lugar: definir como negativas "maiorias impressionantes" frutos de "eleições populares" é, no mínimo, alucinante. Significa negar aos cidadãos o direito de escolher com (quase) uma só voz o seu próprio governo. É anti-democracia ao estado puro. O problema do populismo não é este, como é óbvio, mas uma tal afirmação tem sentido desde que nas democracias, especialmente as dos últimos anos, é "necessário" que haja uma forte oposição, por razões que não vamos tratar nesta sede.

A seguir: o autor toma como exemplo um par de casos-limites, Chávez na Venezuela e Orbán na Hungria (que, dito entre nós, tão ruim não é). Na Italia, o Movimento Cinque Stelle nunca pensou em limitar os poderes da oposição, pelo contrário, pede o cada vez maior respeito da Constituição.

Mas o erro do autor e da maioria dos críticos do populismo é outro e é fundamental: o populismo não ultrapassa uma democracia onde os partidos, populistas ou não, têm demasiado poder. Um partido populista, uma vez chegado ao poder, após algum tempo será um partido como qualquer outro, com interesses pessoais, corrupção, formação duma elite que domina todas as escolhas do movimento. Isso porque é o nosso sistema "democrático" que cria todas as condições para que isso aconteça.

E a razão principal, como veremos num próximo artigo, o erro conceptual que estraga todo o andaime democrático, é a mesma existência dos partidos políticos, sejam eles "normais", sejam eles "populistas".


Ipse dixit.

Fonte: The Guardian
http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2016/11/o-que-e-o-populismo.html#more

A riqueza do mundo


O banco Credit Suisse publicou o relatório anual acerca da distribuição da riqueza no planeta. E não,
não há boas notícias.

Na pirâmide da distribuição, o 1% da população detém 51% da riqueza do mundo; o 10% detém 89%, enquanto o resto do planeta possui apenas 1% do total da riqueza planetária.

Assumindo que não intervenha nenhuma mudança, espera-se que nos próximos cinco anos irão aparecer outros 945 bilionários, elevando o total destes super-ricos para quase 3.000 pessoas: mais de 300 novos milionários na América do Norte com a China que alcançará o total de 420 super-ricos.

Credit Suisse estima que a riqueza global total seja agora de 334 trilhões de Dólares, cerca de quatro vezes o PIB anual do mundo. Após o final do século, houve no início um rápido aumento da riqueza global, em particular no caso da China, da Índia e de outras economias emergentes, responsáveis por 25% do crescimento da riqueza; a riqueza global diminuiu em 2008 e apresentou uma recuperação bastante lenta, com uma taxa significativamente mais baixa quando comparada com o período pré-crise financeira.

 Mudanças anuais na riqueza global nos anos 2000 - 2016
Na verdade, a riqueza tem vindo a diminuir em todas as regiões desde 2010, expecto na América do Norte, na Ásia e na China. Tendo como base a população composta apenas por adultos, o adulto médio tem ficado mais pobre neste período.

Nos últimos 12 meses, a riqueza global cresceu apenas 1,4%, limitando-se a manter o ritmo com o crescimento da população. Como resultado, em 2016 a população mundial não se tornou mais próspera, enquanto a desigualdade cresceu.

Na pirâmide da distribuição da riqueza, como afirmado, 1% dos adultos possui 51% da riqueza do mundo inteiro, enquanto a metade inferior da pirâmide representa os indivíduos que possuem apenas 1%. E 10% da população adulta possui 89% de toda a riqueza do planeta.

A principal razão para essa enorme desigualdade é que há muitas pessoas pobres no mundo. E isso apesar de não ser tão difícil pertencer ao grupo da população mais rica: uma vez que as dívidas forem subtraídas, uma pessoa só precisa de 3.650 Dólares para ficar na faixa dos "mais ricos". No entanto, são precisos cerca de 77.000 Dólares para ser membros daquele 10% dos detentores da riqueza global e 798.000 Dólares para fazer parte daquele 1% que constitui o topo da pirâmide.

A pesquisa mostra que 3.5 bilhões de pessoas (73% de todos os adultos do mundo) têm uma riqueza abaixo de 10.000 Dólares em 2016. Isso enquanto 900 milhões de adultos (19% da população mundial) ficam na faixa de 10.000-100.000 Dólares.
Níveis de riqueza em 2016
Os pobres estão concentrados na Índia, na África e nos Países asiáticos. Mas há também um número significativo de pobres (até para os padrões globais) na América do Norte e na Europa, com 9% dos norte-americanos, a maioria parte com património líquido negativo, na parte inferior da pirâmide e com 34% dos europeus sempre na metade inferior. Essas pessoas não só não têm riqueza, mas têm dívidas.

Na Índia as coisas não estão melhor: tem apenas 3,1% das pessoas na "classe média" global (a faixa entre 10.000 e 100.000 Dólares), e esta percentagem manteve-se inalterada ao longo do último ano. Pelo contrário, a China tem 33% da população na tal "classe média" global, dez vezes a Índia, e esta proporção dobrou desde 2000. Isso mostra a expansão económica sem precedentes da China, que retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, embora a desigualdade seja de facto aumentada.


Número de milionários segundo o País
(% do total mundial)
Voltando aos dados globais, o número de milionários, que caiu em 2008, mostrou uma rápida recuperação após a crise financeira e agora é mais do que o dobro quando comparada com o ano de 2000. Hoje há 32,9 milhões de milionários globais, ou seja de adultos com mais de 1 milhão de Dólares em propriedades ou poupança líquida. Mas existem apenas 140.000 pessoas em todo o mundo que têm mais de 50 milhões de Dólares. E só 3.000 (escassos) bilionários. São estes últimos que possuem o mundo.


Ipse dixit

Fonte: Credit Suisse
http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2017/01/a-riqueza-do-mundo.html

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A pobreza da esquerda economicista


Em 05/07, o IHU On-Line publicou entrevista com Gabriel Feltran,professor de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos. Ele estuda as relações conflituosas entre família, mercado de trabalho, igrejas, políticas sociais, crime e Estado.

Em relação à expansão da criminalidade entre os mais pobres, Feltran destaca as desigualdades econômicas. Afinal, diz ele, vivemos uma realidade em que “uns criam os filhos com meio salário mínimo mensal”, enquanto “outros andam de helicóptero e gastam dois salários mínimos em um jantar”.

Mas o entrevistado recusa a abordagem economicista dos conflitos sociais. Afinal, afirma ele, se há “jovens inscritos no tráfico que pensam apenas no dia de hoje, gastam mil reais em uma noite”, também há os que “trabalham durante o dia e estudam à noite, pagando prestações de carro, casa e eletrodomésticos”.

Para ficar ainda mais claro, outra afirmação:

O rapaz negro que trabalha no shopping como segurança e faz faculdade à noite ou o filho de operário que ingressou por ação afirmativa na universidade pública não têm visões de mundo iguais às do ‘irmão’ do PCC ou do pastor da Igreja Universal, ou ainda de um soldado da Polícia Militar. E eles podem estar na mesma família, porque os projetos de vida são mais individualizados e o mercado de trabalho mais segmentado. Polícia, crime, igreja e trabalho são esferas de vida que se interpenetram.

Ou seja, a realidade dos mais pobres é tão tridimensional como qualquer outra. Que a direita não entenda isso, compreende-se. Que a maior parte da esquerda faça o mesmo, só mostra que chata e pobre, mesmo, é sua visão de mundo.
http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2016/07/a-pobreza-da-esquerda-economicista.html

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Quanto pode o quarto poder?



Pode ser muito cedo para dar a história como escrita, mas me atrevo a dizer que o desenho político do Brasil de hoje foi traçado por dois acontecimentos capitais: as Jornadas de Junho de 2013 e a investigação da Operação Lava Jato, deflagrada em 2014. Em ambos, a imprensa foi levada de roldão.
Nos protestos de rua, os meios (mas não só eles) foram atropelados por fenômenos de massa que não conseguiram antever e demoraram a compreender (se é que os compreendemos). É difícil acreditar que movimento de tal magnitude tenha sido gerado sem um período de incubação – e é inquietante que essa incubação tenha ficado fora do radar de quem escreve a crônica do dia a dia.
No segundo momento-chave, a revelação do esquema de corrupção da Petrobras, os meios ficaram longe do protagonismo registrado em outros escândalos, como o dos anões do Orçamento, o impeachment de Fernando Collor ou a revelação do mensalão. Na Lava Jato, quem deu a letra e pautou a cobertura foram o Ministério Público, a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro. Nunca antes tanta informação ficou concentrada em tão poucas mãos.
Mera coadjuvante
No papel de coadjuvante, a imprensa comeu na mão de fontes cevadas na conveniência do anonimato, relaxou controles, publicou manchetes baseadas em cacos de informação, reproduziu delações sem provas. Reinaram a estridência desmedida, a superficialidade, o desapreço pela exatidão, o despreparo profissional, a opção pelo sensacionalismo em vez da sobriedade.
Para o aprimoramento do jornalismo, porém, é necessário reconhecer que esses problemas estão longe de serem características destes tempos. São pragas antigas que, se ora arregimentam um exército de críticos e ganham a berlinda, o fazem mais em consequência da polarização nacional, inexistente no impeachment de 1992, do que por viés político da imprensa.
De novo no front – e certamente um agravante –, só a disrupção tecnológica que corrói a sustentação econômica do impresso e é matriz do enxugamento das redações e do descarte dos profissionais mais experientes (e, portanto, mais caros). Mesmo a crise econômica atual, que solapou a governabilidade de Dilma Rousseff, já era pano de fundo de outros escândalos.
É mistificação jogar os erros de cobertura na conta do antipetismo dos meios de comunicação, ainda que esse sentimento tenha crescido, adubado pelo próprio petismo, com suas propostas de controle ou sua estratégia de ataque permanente à imprensa. A perspectiva sectária pode ser útil a propósitos políticos, mas é um desserviço à atividade jornalística, cujos defeitos crônicos acabam escamoteados e identificados como viés ideológico de ocasião.
Essa visão não sobrevive a uma comparação meticulosa com coberturas passadas nem a uma avaliação desapaixonada do cenário, com seus ingredientes picantes que são matéria-prima de sonho para qualquer profissional: um esquema de corrupção de dimensões surpreendentes até para os padrões de um país sabidamente corrupto, uma investigação policial de enorme atração midiática, o envolvimento do partido há 12 anos no poder, confissões e delações fartas, prisões de figuras até então intocáveis.
Vigilância das redes sociais
Sugiro revisitar a cobertura feita pelos maiores jornais, mas substituir o elenco: em vez do triunvirato Dilma/Lula/PT nos papéis principais, entram FHC/Aécio/PSDB. Há quem acredite que o resultado seria substancialmente diferente. Eu não. Numa redação profissional, que vive do mandato concedido pelo seu leitorado, o apelo da história é superior a ideologias ou preferências partidárias.
É ingenuidade ou arrogância acreditar que a imprensa possa determinar a agenda, os rumos ou o humor de sociedades democráticas complexas como a brasileira, ainda mais agora, sob a vigilância estreita de redes sociais e canais de notícias alternativos. O chamado quarto poder, para usar o epíteto presunçoso que embasa muitos delírios de grandeza, só ganha ressonância e legitimidade quando está conectado com a sociedade à qual se dirige. É, pois, uma influência de mão dupla.
A imprensa não escreve sozinha a história de um país. Não é o caso de menosprezar seus erros nem sua influência sobre a opinião pública, mas tampouco é razoável atribuir-lhe mais peso do que ela realmente tem.
***
Vera Guimarães Martins é jornalista e foi ombudsman da Folha de São Paulo, até abril de 2016.
http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/quanto-pode-o-quarto-poder/

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Programa de índio

Não tem "programa de índio" maior do que os programas de homem branco. Quer dizer, tem, sim. Os programas de homem branco da cidade grande.
É urgente desfazer os dois maiores equívocos nacionais. Um deles em relação aos índios e, o outro, aos caipiras. Não, não falo do direito a terras nem demais desastres acontecidos nos últimos tempos. O que estou propondo é uma reforma linguística. Explico: nas férias em Boraceia, praia onde tem uma aldeia indígena, vi curumins se divertindo no mar num dia de sol. No dia seguinte, choveu. Os indiozinhos não apareceram. Mas um monte de gente, incluindo eu, estava lá se escondendo no guarda-sol, depois de passar mais de 5 horas parado na serra em sua única semana de folga do ano. Que programa de índio! Ou não. Os índios, certamente, acharam algo melhor e mais adequado ao clima para fazer na tribo.

Venho por meio desta implorar para corrigirmos a expressão "programa de índio", pelo amor de tupã. É o erro número 1 do Brasil. O equívoco inicial. Graças a ele, ninguém pode ficar de boa. Um dos primeiros diálogos registrados entre um índio e um europeu deixava isso claro, como Darcy Ribeiro costumava contar. "Vocês devem ter muito tecido na terra de vocês para levar todo esse pau brasil para lá", comentou o índio. "Nós não vamos usar o pau brasil, vamos vender para ganhar dinheiro. Para que tanto dinheiro? Ué, o que não usarmos, deixamos para os filhos". E o índio ficou pensando como era retardado esse filho incapaz de conseguir o próprio alimento.

O português, que tinha passado meses num navio sem tomar banho, considerou problemático o índio, que tava lá tranquilo curtindo sua vidinha "com o que a natureza dá". Sobrepôs sua cultura e, em vez de ficar tranquilão na rede depois de realizar as funções possíveis e necessárias para um dia, hoje temos que viajar para praticar nadismo, um tipo de turismo especializado para o hóspede conseguir ficar sem fazer nada (se não viu, clique, por favor).

Não tem "programa de índio" maior do que os programas de homem branco. Quer dizer, tem, sim. Os programas de homem branco da cidade grande: ficar em fila para pagar caro pela comida em lugares sem graça, usar terno para trabalhar no calor e outros do tipo. E não é que são exatamente essas pessoas que chamam de "caipirice" as coisas do interior?

Façamos uma convenção nacional que corrija também este termo, antes que seja tarde. "Caipira" mesmo, no mau sentido, é chamar perua de foodtruck. Sugiro adotarmos esta reforma, passando o termo pejorativo "caipira" a ter seu sentido contrário: quanto maior fica uma cidade, mais "caipira" ela fica, imitando os modismos das maiores capitais, que já imitam os modismos das metrópoles internacionais. Como diria meu pai, que é caipira de verdade: "tudo caipira do asfalto".

Em tempo, para não deixar a expressão "programa de índio" sub-utilizada, proponho que os linguistas a encaixem como sinônimo do "tá ruim aqui" para legendas de vida boa no instagram. Programa de índio é ficar na rede!

(Com colaboração e quase parceria do Rodrigo Terra, primeiro signatário do abaixo assinado pela causa)
no: http://aspasnatiaspas.blogspot.com.br/2016/01/programa-de-indio.html

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sociedade envenenada


O veneno da mentira já intoxicou, irremediavelmente, grande parte da sociedade brasileira.

Em pouco mais de uma década, o retrocesso cognitivo chegou a tal ponto a essa parcela da população que ela não consegue mais sequer fazer a ligação causa-efeito, e molda a sua opinião sobre tudo o que vê, ou seja, sobre o mundo no qual vive, de acordo com o que escuta nos meios de comunicação, nos templos religiosos, nas conversas de botequim, nos salões de cabeleireiro...

São raros os que pensam por si mesmos, que apresentam, em sua alocução, argumentos factíveis para sustentar suas teses a respeito de qualquer assunto, desde o jogo de futebol até a crise econômica.


Manter um diálogo coerente com qualquer um é praticamente impossível - ele parece ter se transformado numa conversa de malucos. 

Dias atrás me envolvi numa situação desse tipo.

Andava pela rua principal de Serra Negra, onde moro, quando recebi, de um senhor um folheto de propaganda de um restaurante. Agradeci, estava indo embora, quando ele quis brincar comigo:

- Se não gostar da comida, pode xingar o cozinheiro. Pode também xingar a Dilma.

Foi aí que teve início o pastelão.

Talvez influenciado pelo sol que derretia minha cachola, me virei e respondi ao gaiato que ele poupasse a presidenta de suas brincadeiras.

O que veio depois serviu para que eu tivesse a dimensão do quanto a mente dessas pessoas está contaminada pela propaganda ideológica a que a sociedade brasileira vem sendo submetida ao longo dos últimos anos.

Todos os clichês fantasiosos, absurdos e mentirosos disseminados para destruir a imagem do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma foram expostos, como se prestassem à mais sólida e inquestionável argumentação.

Alguns dos disparates proferidos:

- Dilma não rouba, mas é conivente com a corrupção.

- A carga tributária do Brasil é muito alta.

- Melhorei de vida no governo Lula, mas Dilma acabou com os ganhos que tive.

- A saúde pública está muito ruim por causa desse governo.

- Sou funcionário da prefeitura e só recebi 3% de aumento salarial.

- Escutei na rádio Jovem Pan...

E, por fim, a joia da coroa:

- Lula é dono de 90% da Friboi. Um funcionário de lá é que me contou.

Dito isso, virei as costas e fui embora, com a sensação de que estava acordando de um pesadelo.

Ou, pior, enfrentando a realidade do Brasil de hoje.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/09/sociedade-envenenada.html

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

5 soluções científicas para controlar sua ansiedade social

vá puxar papo! (Foto: Alexandre Dulaunoy / flickr / creative commons)
Você é daqueles que odeia encontrar um conhecido na rua, não por que não goste da pessoa, mas porque precisa encontrar algum tópico e conversar por alguns minutos? E os silêncios constrangedores no meio da conversa? Não sabe o que fazer quando um colega está passando pela rua e faz contato visual e você precisa caminhar por alguns longos segundos até ele (afinal para onde olhar? você olha fixo para a pessoa? fica sorrindo? acena?)? E, pior dos cenários, quando você encontra o chefe em um lugar fora do trabalho (tipo o mercado)?
Não conheço ninguém que não sofra com a ansiedade social em algum nível - mesmo os mais extrovertidos sofrem com ela de alguma forma. Mas, por sorte, a ciência pode explicar algumas de nossas angústias e preocupações - e, talvez, espantar algumas delas. Confira esses fatos:
1. Todo mundo está olhando para você?
Por sorte isso não é verdade (a não ser naquela vez em que você estava com uma cebolinha no dente #brinks). Pesquisas mostraram que nosso cérebro é programado para achar que todo mundo está olhando para nós - especialmente quando a pessoa está olhando vagamente em nossa direção. Cientistas da Universidade de Sidney pediram que voluntários olhassem fotos de pessoas e determinassem qual era a direção dos olhares nas imagens. Em alguns casos, a resposta não era óbvia - a imagem podia estar borrada, a pessoa podia estar de óculos escuros, etc. Em geral, os voluntários acreditavam que as pessoas nessas imagens ambíguas estavam olhando para eles. 
E essa nem é a pior parte. Quando pessoas estão, de fato, olhando para você, o seu cérebro faz com que você tenha uma facilidade maior em confundir suas expressões. Outro estudo pediu que voluntários vissem filmagens de pessoas que mostravam expressões faciais neutras ou de alguma emoção. Pessoas que se mostraram mais ansiosas afirmavam ver emoções negativas mesmo em faces neutras. 
2. Você precisa de observações alheias para mudar
Você é tímido e precisa conversar com mais gente? Esqueça aquela conversa de 'acreditar em você'. O que você precisa é que outros acreditem que você é mais extrovertido. Pesquisas mostram que sua personalidade muda de acordo com o que outras pessoas pensam de você. Quer exemplos? Cientistas pediram que voluntários gravassem duas entrevistas em vídeo. Na primeira, eles deveriam responder uma série de questões sobre como se sentiam sendo introvertidos. Na segunda, como se sentiam sendo extrovertidos. Depois, uma outra pessoa entrava na sala para assistir uma das entrevistas - que era escolhida de forma aleatória. Invariavelmente, todos os participantes, mesmo os mais tímidos, eram mais abertos com o estranho se eles acreditassem que a pessoa iria ver a 'entrevista extrovertida'. O oposto também se mantinha - elas eram mais tímidas quando acreditavam que o estranho veria a gravação introvertida. Ou seja, a mudança nem sempre vem de dentro, mas das expectativas externas. 
3. Fale com estranhos
Você treme só de pensar naquela velhinha que entrou no metrô sentando no seu lado, suspirando e comentando sobre o tempo? Pois a ciência prova que conversar com estranhos pode ser extremamente bacana. Em uma série de estudos, voluntários deveriam conversar com estranhos e com seu parceiro romântico - mas, antes de conversar, deveriam dar uma nota que representasse sua expectativa em relação ao papo. Depois da conversa, deveriam dar outra nota final. Invariavelmente, a nota final da entrevista com o estranho era maior do que a nota da expectativa. Em outro estudo, cientistas forçaram pessoas a sentarem sozinhas ou com um estranho em um ônibus. Os voluntários corajosos que resolveram sentar com pessoas desconhecidas acabaram descrevendo o trajeto de busão de forma mais favorável do que os #foreveralone. 
4. Fazer novos amigos não é difícil
Pesquisadores pediram que participantes de um estudo conversassem entre si durante 45 minutos, usando uma série de perguntas pré-estabelecidas - coisas como 'quando foi a úlitma vez que você cantou em voz alta?' e 'quando foi a última vez que você chorou na frente de alguém?'. Os participantes foram divididos em dois grupos - o primeiro conversava com pessoas 'compatíveis', como se tivessem sido selecionadas através de um serviço online de namoro. O segundo teve uma distribuição completamente aleatória. E, estranhamente, nos dois casos, 90% dos participantes disse que a interação foi positiva. 
Um editor da Wired decidiu replicar o estudo em 2011, usando empresários, executivos, etc. Os resultados foram os mesmos. 
5. Você é melhor de papo do que imagina
Pare de lembrar daquela vez bizarra em que chamou um/a pretendente pelo nome do/a ex. Ou de se apegar àqueles silêncios constrangedores entre um tópico e outro da conversa. A pessoa com quem você está falando também se sente ansiosa - e isso é completamente normal. Estudos mostraram que uma conversa normalcontém cerca de 10 silêncios constrangedores por minuto - incluindo aqueles bugs em sua mente que fazem você ficar um tempão travado em um som como 'aaaah' e 'eeeeh'. Todo mundo é estranho. Aceite isso e viva melhor. 
Via Cracked, na: http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2015/08/5-solucoes-cientificas-para-controlar-sua-ansiedade-social.html