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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A natureza humana é má?

Desde os primórdios da civilização humana, temos atravessado inúmeros momentos de crise de consciência política capazes de reestruturar a nossa vida em sociedade. Não precisamos ir muito longe na história à procura de um exemplo claro desses eventos. Na famosa transição da idade moderna para a idade contemporânea, a Revolução Francesa se refletiu como a mais estrondosa proposta de reforma sociopolítica em todo o mundo ocidental. Evidentemente, na mentalidade transformadora do iluminismo europeu, o que constantemente se buscou foi a ampliação das liberdades individuais, civis e econômicas. Em essência, ser uma pessoa livre era a maior das aspirações revolucionárias.
Mesmo assim, para cada fato histórico de impulso inovador, encontramos grupos de pessoas profundamente apegados ao status quo, temerosos diante da possibilidade de terem seus privilégios dissolvidos. Podemos dizer que esses grupos carregam uma breve diferença quanto ao seu caráter reacionário: o primeiro – e o mais conservador e egocêntrico – pretende unicamente manter os moldes da sociedade em sua forma padrão, com ligeiras modificações em setores irrelevantes, sem alterar o cenário principal; o segundo grupo é o dos resignados e conformistas. Eles impedem que grandes reformas sejam desenvolvidas e testadas por causa da crença de que as coisas não podem melhorar, pois não existe nenhum “sistema” superior. Assim se justifica a proposta da resignação.
O principal argumento, tanto dos conservadores quanto dos resignados, é baseado numa compreensão vulgar do pensamento hobbesiano, que destaca o ser humano como um animal selvagem e corrupto em seu estado de natureza. Existe um sentido no qual essa afirmação de fato contém alguma verdade, mas se equivoca ao ignorar outros aspectos pouco explorados na chamada “natureza humana”, como a generosidade, a cooperação, a solidariedade, o afeto e a coragem de ajudar os mais miseráveis. Sabemos pouco sobre a natureza humana para defini-la como naturalmente má. O ser humano, esteja ele em seu estado natural ou civilizado, pode ser agente de procedimentos benéficos e também destrutivos. Temos provas suficientes para nos assegurar de que somos, ou genocidas em potencial, ou pacifistas globais. Não existe uma regra geral capaz de simplificar a complexidade das relações que nossa espécie manifesta.
No entanto, legitimar o argumento da resignação nos leva a um raciocínio bastante traiçoeiro. Por exemplo, se uma criança estivesse a ser brutalmente estuprada, diríamos algo como: “vejam bem, isso aí é a natureza humana, certo?”. Ou seja, mesmo que haja uma parcela de verdade nisso, significa que deveríamos agir assim? Deveríamos parar de combater as torturas, os massacres e as mais variadas formas de dominação? Ao longo do tempo houve um progresso notável no âmbito moral dos indivíduos, conquistas simbólicas e realmente significativas para nossa sobrevivência. Muitas pessoas, em algum momento, imaginaram essas conquistas como um prenúncio do absurdo. Foi assim com o abolicionismo e até com a ideia da democracia.
A melhor maneira de qualificar o conteúdo da natureza humana, antes de pensar em mudá-la, é observar racionalmente as experiências deixadas por nossos erros e acertos cometidos no passado, para que decidamos quais deles merecem se repetir no presente. Apenas um olhar crítico sobre as consequências dos nossos atos é capaz de nos preparar para uma compreensão do verdadeiro significado dos valores humanos.
http://www.bulevoador.com.br/2015/08/a-natureza-humana-e-ma/

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A natureza dos padrões éticos


natureza dos padrões éticos
No Islã, a culminância do adultério praticado por mulheres ainda acarreta em pena de morte por lapidação. O esquartejamento decorrente de credos que atribuem valor mágico à carne de humanos albinos na Tanzânia, ainda é tolerado por alguns correligionários. Como se isso não bastasse, o heterodoxo comércio de tão macabra “propriedade mágica”, brutalmente adquirida, ainda entra em vias lucrativas num detestável influxo de mercado negro.
Há algum critério normativo capaz de definir se os nefandos comportamentos mencionados configuram algum padrão ético estabelecido nessas diferentes sociedades? É vital esclarecer que o argumento que aqui será exposto não ratifica o relativismo moral, tampouco o abrange. Antes de se reflexionar quaisquer atributos de bem ou mal, certo e errado, no campo disciplinar da Ética, é fundamental sublinhar quais contornos sociais peculiares a determinados povos, os põe em nível fático de conservar “padrões éticos”, sejam eles palatáveis ou não.
Corresponde dizer que, embora seja visível o papel da evolução cultural em engendrar diferentes concepções de consenso moral nas pessoas, este consenso nem sempre estará incrustado numa Ética utilitarista clássica ou preferencial, ou ainda no alvitre de Kant: “Aja somente segundo a máxima através da qual você possa, ao mesmo tempo, desejar que ela se transforme numa lei universal.” Sobretudo, para que esse precípuo consenso moral seja elevado ao nível de padrões éticos culturalmente instituídos, deve haver certas demandas normativas a serem atendidas. Do contrário, este sistema moral não poderá ser apurado sob o preceito do “universalizável”.
Suponha que você selecione dois povos com distintos costumes em seu ordenamento. Após alguns meses ou anos de pesquisa de constantes observações, concluiu-se que as características dos povos em questão são mais assimétricas do que eram esperados como resultado. O povo X demonstrou conduta idônea, preservando a honestidade, a bondade e solidariedade em sua engrenagem social; ao passo que o povo Y (Islã ou Tanzânia) revelou comportamentos altamente volúveis, além de admitir a prática de roubos, reprimendas rigorosas, sovinices, mentiras e desproporcionalidade na ponderação de conflitos, outros.
Qualquer pessoa diria que o povo Y estaria fadado ao estigma de não agir eticamente, ou seja, sob seus próprios padrões éticos. Nosso juízo de valor remeteria a esta conclusão de forma instantânea. (Acresce dizer que, aqui, não se trata de qual povo age de forma certa ou errada, mas se configuram ou não padrões éticos fundamentados.) Assim sendo, nosso senso comum apontaria a conduta do povo X como detentora de padrões éticos em sua estrutura interna.
Todavia, em nada influi o fato de reprovarmos o povo Y apenas pela discrepância de comportamento vigente quando comparado ao povo X. Ocorre um ligeiro equívoco que implica numa falta de imparcialidade ao avaliarmos ambos os povos. Estaremos desqualificando Y pela mera convenção do que julgamos ser justo e injusto, certo e errado, sob nossa concepção de valores éticos. Em suma, sonegamos por completo os padrões de Y.
O critério a ser aplicado a ambos os povos não possui vínculo direto com o que, por convenção, consideramos certo ou errado. Se por alguma razão insólita Y justifica o modelo de sociedade que erigiu, logo, eles estarão vivendo sob seus próprios padrões éticos. Se sustentarem veementemente que roubar, furtar, trapacear é a forma pela qual entendem ser correto agir (não interessa aqui se para nós são atos abomináveis), estarão eles, sim, vivendo de acordo com outro tipo de padrão ético, que não o convencional, isto é, o nosso ou o de X.
Pode parecer controverso, é bem verdade, porém a conexão a ser feita entre a) viver seguindo determinados padrões éticos e, b) defender esses padrões dando-lhe justificativas consensuais, por si, consagra o fato de haver a real existência de pessoas que agem de acordo com Y, consonantes com seus respectivos padrões culturais estabelecidos, e que, por conseguinte, advoguem o que praticam pela rija consideração de que suas ações estão plenamente corretas. O povo de Y, então, dirá que vivem de tal forma por estarem convictos de que esta é a conduta exata a ser aderida, ou seja, “universalizável”. Portanto, estará Y contornado por fronteiras de cunho ético.
É determinante que se expresse justificativas morais assertivas e consensuais para ratificar a existência de valores de elevado potencial éticos, ainda que vistos como errôneas sob nossa perspectiva. Sobre outra plataforma axiológica, se constatarmos que essa conjuntura de Y é prejudicial e os argumentos que a justifique são irregulares, isto não altera o fato de que as mesmas ações sejam levadas à esfera do ético, igualmente a X, ao invés de, pragmaticamente, serem empurradas ao domínio do não-ético. Neste domínio está apenas a convenção social que não consegue apresentar nenhuma justificativa para o que praticam. Esta pode ter sua arrogação de viver sob padrões éticos, arruinada e descartada.
Permeado o primeiro crivo, o resultado abarca outro critério normativo que impõe maior restrição ao que até aqui foi exposto. Como vimos, os padrões éticos seguem uma coalizão social, sejam eles semelhantes ou não ao que preservamos. Implica dizer, neste caso, que uma única pessoa agrupada pelos padrões de Y, não poderá justificar uma ação com base numa alegação pessoal. Qualquer individualismo preocupado em satisfazer seu interesse em particular, apresentando justificativas desvinculadas do público em geral, não validará a ação como “padrão ético”. Isto porque é vital que uma ação transcenda o particular e englobe todos aqueles que serão afetados direta ou indiretamente.
No território de Y, justificar que se cometeu parricídio apenas pelo interesse próprio de acelerar uma herança iminente, se não estiver vinculado aos padrões éticos coletivos de Y, a alegação não será aceita, e portanto, não configurará uma ação ética. Havendo hierarquia mais extensa nos padrões éticos em vigor, o interesse pessoal do parricida em beneficiar a si mesmo, não se torna defensável, tampouco se admite eticamente.

Isso não discute se o caráter aderido por essa convenção Y é certo ou errado. A ideia está em delimitar os aspectos básicos que convertam uma justificativa moral pautada numa coalizão inicial de normas que preceituem o que é permitido e proibido, em um sistema possuinte de “padrões éticos” de aplicabilidade circunstancial universalizável.
A partir do uso dessa fórmula se empregará outros métodos capazes de dissecar o valor de justo, bom, certo, prazeroso e benéfico, encontrados no escopo de Y ou X. A Ética, com imponência e olhar plenamente filosófico, humanístico e secular, se incumbirá de proceder com sua tão graciosa maneira de enobrecer a racionalidade da inteligência humana. Mas, para que isso ocorra antes se prescreve quais ações configuram ética filosoficamente inspecionável.
http://www.bulevoador.com.br/2014/09/natureza-dos-padroes-eticos/

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Bispo da IURD pergunta: como o ateu diferencia o certo do errado?



No ultimo dia 22 foi publicado um texto no site de Edir Macedo, lider da Igreja Universal do Reino de Deus, com o instigante titulo “Sentimento de Justiça“. Assinado pelo assim denominado Bispo Renato Cardoso, o texto detecta supostos problemas com aqueles que se dizem ateus: resumindo, se trata do famoso questionamento sobre a origem da moralidade e da etica daqueles que não creem em deus. São feitas perguntas – como “Se Deus não existe, de onde vem nosso sentimento natural, tão forte, de certo e errado?” – as quais, segundo Renato Cardoso, quem é ateu” não consegue responder”. Já conhecemos esse preconceito faz tempo, não é mesmo? O mais interessante ( ou triste, ou ironico, vocês decidem) é que o texto começa com a simples frase: “eu não desrespeito o ateu”. Fica a duvida sobre os criterios usados pelo bispo Renato para definir “desrespeito”.
Partindo para a argumentação, o bispo cita um ateu (não-identificado) que teria usado um artigo (não citado) de uma revista (também sem referência) para justificar sua falta de fé em Deus.