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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O radical classe média é uma figura pitoresca


O Radical Classe Média se imagina como o que resta de bom no Brasil. Não raro, flerta com o fascismo


Há uma figura pitoresca que costuma habitar a classe média tradicional brasileira. Ela pode ser encontrada na universidade, nos protestos políticos, nos shoppings centers, na high society, entre os mais escolarizados, tanto nos movimentos de esquerda, como nos de direita. Na verdade, é uma radicalização da visão específica de uma classe. Vou expor algumas de suas características.
classe médai brasil caricatura
Uma caricatura do radical classe média. (Foto: Carta Potiguar)
Vale lembrar que o modo de vida apontado abaixo é um tipo idealizado do caráter do “Radical Classe Média”, podendo, portanto, uma pessoa comum reunir uma maior ou menor quantidade de tais inclinações, se associar intensamente ou dissociar do modelo.
O Radical Classe Média:
Geralmente, o radical classe média se apresenta como politizado, para, na verdade, repetir os velhos cacoetes do senso comum da política – é contra partidos;
Mais. Todo político é ladrão. Alias, para o Radical Classe Média, o problema do Brasil não é o da desigualdade, mas o da corrupção. Por isso, não perde a oportunidade de comparar a nossa suposta natural propensão para a malandragem com a sonhada condição positiva dos EUA, ou numa perspectiva intelectualizada, dos países escandinavos;
Nesse sentido, a eleição não passa de uma chantagem. Tanto faz quem vai ganhar – “é tudo igual mesmo”. O Radical Classe Média, quando não é capturado pelo moralismo e/ou suposta superioridade gerencial de um bonachão, prega o voto nulo;
O Radical Classe Média não gosta muito de se “misturar”. Quer exclusividade. No fundo, ele não suporta que ônibus coletivo passe nas praias “nobres” de sua cidade. Ou, em sua versão intelectual, defende a criação de “espaços” para os mais “humildes”;
Para o Radical Classe Média, as instituições devem aprender a se relacionar com ele, já que o dito cujo apresenta muitas especificidades;
Instituição a favor dele é democracia. Contra ele? Fascismo;
Seguranças-policiais-trabalhadores devem fazer cursos de capacitação só para aprenderem a se relacionar com ele;
Ele é anarquista para os deveres, mas não para os direitos;
Ele é contra impostos, mas quer que tudo funcione a seu favor;
Um bom Radical Classe Média critica o inchaço do Estado, mas sempre tem alguém da família, gozando de acesso privilegiado ao próprio Estado – um cargo, um contrato, etc;
O Radical Classe Média não tem diploma de graduação. Ele tem diploma de nobreza. E o “resto”? É resto, alienado. Ele se vê como o (único) “intelectual orgânico”…;
Ele é terminantemente contra o bolsa-família, a quem ele chama de bolsa-esmola, pois produz preguiçosos e premia quem nunca “quis” estudar;
Para o Radical Classe Média, quem não sabe escrever o português corretamente deveria ser impedido de votar, de expor sua opinião num blog ou jornal. Enfim, de argumentar;
Pensar é sinônimo de dominar a gramática. Do contrário, o dito cujo se encontra no nível dos animais irracionais;
Para ele, às vezes, o problema do Brasil é porque o pobre-analfabeto – ele chama de “não esclarecido” – não sabe votar. Uma cientista política advinda da USP teria um bom conceito radical de classe média para isso – ausência de “sofisticação política”;
Na versão intelectualizada, o Radical Classe Média é um crítico do jeitinho brasileiro, gosta de ler Nietzsche, Foucault, Deleuze, Guatarri. É um crítico do “micropoder”, dos “fascismos da norma”, conceitos mobilizados para negar qualquer coisa que lhe cobre alguma contrapartida social;
Há também aquelas versões do Radical Classe Média que tornam Karl Marx, ou o socialismo, numa questão de superioridade ético-moral;
O Radical Classe Média é um supercidadão. Os demais… subcidadãos;
Afinal, o Radical Classe Média estudou. Merece mais do que os simples mortais.
O Radical Classe Média se imagina como o que resta de bom no Brasil. Não raro, flerta com o fascismo.
Por Daniel Menezes, em CartaPotiguar

sábado, 21 de janeiro de 2012

Barbárie e Big Brother



Os fatos recentes que envolveram o tal Big Brother merecem reflexão sob o aspecto ético, sob o prisma das relações sociais e não sobre o aspecto criminal, especialmente porque a suporta vitima negou perante a autoridade policial qualquer violência ou ato não consensual.

Por Pedro Benedito Maciel Neto*
Os fatos recentes que envolveram o tal Big Brother merecem reflexão sob o aspecto ético, sob o prisma das relações sociais e não sobre o aspecto criminal, especialmente porque a suporta vitima negou perante a autoridade policial qualquer violência ou ato não consensual.

Então vamos lá. O fenômeno de audiência verificado no programa “Big Brother” da Rede Globo segue me surpreendendo, especialmente pela ausência absoluta de conteúdo e imensa inutilidade.

Eu me pergunto: como é possível algo sem conteúdo, forma ou objetivo claro despertar tamanho interesse nos telespectadores? Bem, acho que Paul Ricouer na sua obra “Interpretação e Ideologias”, nos oferece uma boa pista, vivemos uma época de absoluta ausência de um projeto coletivo em nossas sociedades.

Aos povos, às sociedades como a brasileira é dado o frágil direito de sonhar a equiparar-se aos Estados desenvolvidos, e a estes resta o aniquilamento das normas e o esquecimento das heranças culturais. Ou seja, os Estados, as sociedades subdesenvolvidas almejam equiparar-se a Estados que vivem a desconstrução de suas tradições, um tempo de diluição dos valores, um fenômeno que o filósofo francês chama de “esgotamento” da vida industrial avançada. Ou seja, há uma inegável contradição em curso que decorre da ausência de projeto coletivo, de um lado, e da exaustão do projeto de outra banda...

O “Big Brother” apenas reflete a absoluta ausência de projeto social, ausência de projeto de atuação individual na sociedade, uma atuação capaz de conhecer e transformar evolutivamente as relações tornando-as generosas e grandiosas. Valoriza o egoísmo, o individualismo e a ausência de compromisso da Rede Globo com a construção de um país de valores éticos e progressistas.

O mérito do programa é – se é que isso é meritório – a meu ver, a capacidade de perceber e usar a ausência de projeto social, ausência de projeto de atuação individual na sociedade, preenchendo essa ausência com um entretenimento barato e bárbaro.

Bárbaro sim. Trata-se da barbárie interior, de perda do sentido do início da civilização, é reflexo do fim da história, negação da arte, falência da metafísica....

Programas como o Big Brother negam o sentido e a possibilidade de se construção ética de relações sociais válidas, porque nada é proposto, tudo é posto, não há criação, mas submissão à mediocridade.

Além da barbárie interior está presente também, de forma inexorável, a “morte de Deus” e a própria “morte do homem”. O programa submete os valores às regras, mesmo que cruéis, tudo vale a pena pelo prêmio... O prêmio? Dinheiro?

O Big Brother é verdadeira agressão às nossas inteligências, é usurpador das possibilidades, é um delito ético, para o qual não há hipótese legal ou conseqüência jurídica imediatas, mas conseqüências que decorrem dessa elevação do que é baixo, um niilismo negativo.

O que é dito, o que é passado ao telespectador como bom e válido é a submissão do indivíduo, da personalidade ao personagem, da vida à morte, temos a destruição da razão. Isso é barbárie. Disso nós não precisamos. Este programa é um desserviço à construção de uma consciência livre, libertadora, libertária e construtiva.

É valorizada a regressão do “eu” ao exterior do homem, e o humanismo, contraponto da barbárie, é desconsiderado.

Há ainda a barbárie dos sentidos (feritas), onde vivemos a destruição da possibilidade da percepção dos demais prismas que a existência proporciona a cada um e a todos; mais, temos a barbárie decorrente da ausência de reflexão, onde as “pessoas comuns” afirmam, pelas suas ações, a perda do sentido da existência, há uma inegável vacuidade... Assistir esse programa é como passear num shopping center ou comprar uma roupa de “grife”... Não há qualquer sentido nisso, é a deserção do indivíduo.


* é advogado e professor, sócio da MACIEL NETO advocacia e autor de “Reflexões sobre o estudo do direito”, editora komedi (2007) .Portal Vermelho
Vi no Óleo do diabo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ESTA É A LUÍZA QUE FICOU FAMOSA NO BRASIL DE MICHEL TELÓ



Por Alexandre Figueiredo

A velha mídia causou tantos estragos que nem a "exclusividade" das redes sociais consegue resolver. Afinal, no país de Michel Teló, quem é mesmo "fora do eixo"? Aqueles que falam em "cultura independente" sugando verbas públicas e namorando escondido o "deus mercado", ou quem realmente tem senso crítico e ainda é visto como "preconceituoso"?

Pois, no país que acredita que Michel Teló faz sucesso no mundo inteiro, mais do que Adele e, quiçá, mais do que os Beatles e Elvis Presley, mais uma "preciosidade" animou a moçada que ainda canta, em uníssono, "Ai Se Eu Te Pego".

É um comercial local transmitido pela televisão paraibana em que um colunista social, pai de família, fala várias coisas ao lado da família e, no final, diz que estão todos em casa, "menos a Luíza, que ficou no Canadá".

A propaganda, não se sabe por que cargas d'água, virou uma febre na Internet, e a jovem Luíza, uma linda estudante, ficou famosa assim, por nada. E, em tempos de Big Brother Brasil mais decadente, foi uma anônima que nem sequer precisou aparecer para virar celebridade.

Sim, qualquer bobagem agora vira "febre" nas chamadas redes sociais. A própria televisão, controlada pelos barões da velha mídia, ajuda nisso. Seus programas de variedades não cansam de exibir tolices colhidas pela Internet, acostumando mal o público quanto ao sensacionalismo virtual.

Claro, a velha mídia fez sua pedagogia que custou até para a intelectualidade reconhecer que há algo de errado em nossa cultura atual. A intelectualidade de esquerda mais lúcida até sabia disso, mas tinha medo de enfrentar totens como Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo etc.

Mas hoje eles já começam a ser questionados em larga escala por gente que não tem medo de ser vista como "preconceituosa", porque tal adjetivo não passa de xingação barata de uma elite privilegiada de "urubólogos" culturais.

Pois a tal Luíza voltou ao Brasil, não está mais no Canadá, e o "fenômeno" da Internet ficou datado. Ela ficou famosa por algumas horas, por nada. Neste sentido, o âncora do SBT, Carlos Nascimento, tem razão quando disse que "Luíza já voltou do Canadá, e nós já fomos mais inteligentes".

Mas este é o Brasil que acredita que Michel Teló virou "cidadão do mundo" e que uma cantora que imita a Beyoncé Knowles é "alternativa" (Beyoncé é o contrário da verdadeira culturaunderground, vale lembrar). E que até pouco tempo atrás admirava tranquilamente as futilidades do Big Brother Brasil.

Ainda teremos muita baixaria pela frente, mas felizmente o senso crítico anda retomando o velho vigor.

no mingau de aço

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O mundo invisível de cada um

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)ELIANE BRUMJornalista, escritora e
documentarista. Ganhou mais
de 40 prêmios nacionais e
internacionais de reportagem.
É autora de um romance -
Uma Duas (LeYa) - e de três
livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda
(Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê
 (Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007)
e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois
documentários: Uma História
Severina e Gretchen Filme
Estrada.
elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum 
 
O homem está esticado no canteiro da Avenida Sumaré, em São Paulo. Seu corpo está exposto. Mas ele cobre a cabeça com um daqueles cobertores que nunca vi em outra cama que não as calçadas. Fala com alguém que não podemos enxergar. É uma discussão sobre macarrão. Apurando o ouvido, é possível perceber que ele pede macarrão a alguém, mas a pessoa recusa. Ele insiste, porque tem fome de macarrão. Gostaríamos de seguir escutando a conversa, mas sentimos que ficar ali seria como profanar as paredes invisíveis que ele construiu com seu cobertor de mendigo. E seguimos em respeito à privacidade do homem exposto ao mundo.
Na volta, ele continua ali. E agora ele geme. Demoramos a entender, até enxergar a braguilha aberta e perceber que ele se masturba. A descoberta não nos choca, nem nos ofende. Não é um homem exibindo sua ereção para os passantes. Mas um homem que só tem como casa e como paredes aquele cobertor de mendigo. Ele não nos remete a nenhuma tara. Ao contrário. Ele nos lembra as crianças bem pequenas, na fase em que acreditam que, ao tapar os olhos com as mãos, se tornam invisíveis. Ninguém mais pode enxergá-las porque não enxergam ninguém. “Siscondi”, elas dizem, com as mãozinhas sobre os olhos. Aquele homem ali, masturbando-se no canteiro da Sumaré com a cabeça coberta, “siscondeu”.
Seguimos porque, naquele momento, a melhor forma de vê-lo era fingir que não o víamos. Enxergá-lo era acreditar que ele se escondeu. Que o cobertor era ao mesmo tempo parede e teto. A melhor forma de respeitá-lo era fingir junto com ele que, lá fora, havia um dentro.....

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O QUE TE MOTIVA?



11.

O que leva uma pessoa a acordar de madrugada, pegar dois ônibus, chegar às sete horas no trabalho, enfrentar um dia estressante, engolir 17 sapos do chefe, pegar mais dois ônibus e chegar tarde em casa? Uma rotina estafante, que ninguém deseja. Mas o trabalhador executa-a e ainda fica feliz porque rala, mas está empregado.
As obrigações diárias, a luta por uma vida melhor e o dinheiro para pagar os remédios da filha doente são fatores que levam uma pessoa a arrancar do corpo aquele “a mais” quando ele já clama por descanso.....

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quando não tem ninguém olhando


Tenho escutado de muitas pessoas que votar em um dos candidatos, é ser conivente com o vale-tudo das campanhas e com os casos de corrupção, antigos e recentes (estes, bem mais lembrados). Não tenho dúvidas em relação à trajetória absolutamente íntegra da ex-candidata Marina Silva. Mas tenho dúvidas, e muitas (acho até, que tenho a certeza absoluta do contrário) de que ela, na presidência, conseguiria livrar nossa nação destas práticas tão indesejáveis. Não acredito que isto vá acontecer num movimento de fora para dentro. Mas sim, em consequência de uma transformação profunda em nossa sociedade. Lenta, gradual e pela qual cada um de nós é responsável. O problema do desvio moral, na minha opinião, é de toda a sociedade. Está presente em muitas práticas aparentemente irrelevantes de todos nós. Os exemplos são infinitos: um comercinate erra no troco, te dá dinheiro a mais e você não fala nada; você sabe que não pode jogar lixo no chão, não tem ninguém olhando e você joga; você sai com seu cachorro para passear, ele faz cocô na calçada do outro e você finge que não viu; você precisa transferir seu carro, mas sua documentação não está em ordem e você paga para um despachante dar um jeitinho; você sabe que vai ter um evento concorrido na sua cidade e usa seus contatos para conseguir acesso privilegiado. Acredito que serão necessárias ainda muitas gerações para que a nossa sociedade seja predominantemente (nunca totalmente) constituída por sujeitos que tenham uma formação moral sólida e, portanto, refratária a situações que privilegiem a sua vida pessoal em detrimento da coletividade. Eu não espero ver nos próximos quatro anos o fim da corrupção na política. Não tenho mesmo essa ilusão. Mas quero, neste momento, tomar partido. E tomar partido é escolher o lado que mais se aproxima das minhas convicções. Mesmo sabendo que tomar partido é correr o risco de, daqui a quatro anos, ter que assumir o erro da minha escolha, se este for o caso. Dilma. 13. Este é o lado que escolhi.
Texto extraído do coxi-Xan-do
http://xan-mello.blogspot.com