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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Evo Morales, líder excepcional


Evo Morales chegou à presidência da Bolívia há dez anos. Poucos países no mundo conseguiram em tão pouco tempo as notáveis mudanças econômicas, sociais, culturais e políticas ocorridas a partir daquele 22 de janeiro de 2006.

Não foi um mero ato eleitoral o que produziu conquistas tão colossais. A vitória eleitoral foi resultado de seculares lutas dos povos originários do altiplano andino a partir das lendárias rebeliões de Tupac Katari e Tupac Amaru, e o decisivo envolvimento das massas indígenas nos exércitos bolivianos, que juntamente com as legiões de San Martin liberaram a América do Sul. Também foram importantes o arrojo e a convicção da “chola” Juana Azurduy, promovida por Bolívar a tenente-coronel, e dos índios expulsos de suas terras ancestrais pelos colonizadores para serem explorados sem piedade nos latifúndios e nas minas.

Também foi resultado das ações dos trabalhadores do estanho e seus combates contra o capital e a dominação imperialista, que levaram à revolução de 1952; da guerrilha do Che; mais recentemente, das guerras da água e do gás e da defesa, pelos cocaleiros, das suas terras e tradições, que levaram Evo Morales a ser eleito como deputado num Congresso que terminou por expulsá-lo, até sua imbatível eleição como presidente em 2005 diante da tenaz oposição das elites locais e de Washington, que o viam com surpresa ascender à cabeça de uma revolução gestada pelos movimentos sociais. 

Conduzida por Evo através de um profundo processo democrático constituinte, a Bolívia passou de Estado oligárquico  a serviço dos Estados Unidos, racista, excludente da maioria da sua população e cultura indígenas, com uma pobreza somente comparável à do Haiti, para se transformar em um pujante Estado plurinacional soberano e independente. A nova Constituição, redigida por representantes de todos os povos originários e inter-culturais que a compõem, e aprovada em referendum nacional, teve um caráter acentuadamente anti-neoliberal  ao proclamar o papel gestor do Estado em um modelo de economia social comunitária que controla os recursos naturais em benefício coletivo dos bolivianos.

A nacionalização dos hidrocarbonetos e a redistribuição da sua renda tornou possível que a Bolívia reduzisse a pobreza em 25% e a pobreza extrema em 50%, e também que o salário mínimo subisse 87,7%. Tudo isso em relação a 2006, quando Evo assumiu a presidência

O orçamento da saúde, que em 2005 era de 195 milhões de dólares, ascendeu a 600 milhões em 2012, tendo se conseguido também uma sensível diminuição da mortalidade infantil e materna. Até esse mesmo ano, médicos cubanos tinha atendido  gratuitamente 58 milhões de pessoas, realizado 33 mil partos e 134 mil cirurgias não oculares, e operando da visão a 650 mil pacientes através da Operação Milagre, indicadores que tem continuado a se elevar com a decidida participação de centenas de médicos bolivianos egressos da Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba.

Nos governos de Evo se  conseguiu alfabetizar a grande maioria da população iletrada, tanto em espanhol como em línguas originarias  na escolarização básica universal. O país marcha para a industrialização dos hidrocarbonetos, na qual os investimentos públicos, que tem sido os maiores da América Latina, foram muito importantes.  A economia cresce à uma média anual de 5,1%, na vanguarda da região. A demanda interna quase duplicou e é, acima das exportações, o principal motor de crescimento da economia.

Nestes dez anos surgiram 192.932 novas empresas, e a inflação está em segundo lugar entre as menores da América do Sul.  A arrecadação tributária quadriplicou e rende muito mais do que antes por que a malversação e a corrupção são combatidas sem tréguas. Da posição de penúltimo em matéria de desigualdade na região, o país passou para a quarta posição.

Nada disso teria sido conseguido sem a liderança, o carisma, a exemplar entrega ao trabalho, a sabedoria política e a coesão conquistadas em torno de si por Evo Morales. Não há revoluções nem processos de mudanças sociais sem líderes excepcionais e irrepetíveis, verdadeiros partos da historia cuja substituição exige muitos anos de acumulação cultural e política que se encarnem em equipes, onde pode haver líderes, embora não daquele porte. Com o vendaval econômico e político internacional que vem aí, é muito inteligente a proposta dos movimentos sociais para a população boliviana de reapresentar a candidatura de Evo à presidência.  

@aguerraguerra


Via Rebelión

Por Ángel Guerra Cabrera - La Jornada

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os muros da vergonha

Muro da Cisjordânia (760 km)



O que está a acontecer na América Latina? Após a primavera progressiva, somos testemunhas do regresso do inverno neoliberal reaccionário?

Michel Collon é um activista comunista, jornalista, ensaísta belga, fundador do colectivo independente Investig'Action. Neste podemos encontrar um artigo cujo título já diz muito: "Os muros da vergonha", publicado também no nº 9 de Le Journal Notre Amérique. Os novos muros podem também ser o símbolo duma "marcha atrás" no plano social? A palavra aos Leitores. Por enquanto, aqui vai a tradução.

Os muros da vergonha da América Latina

Mais de um quarto de século depois da queda do Muro de Berlim e enquanto os apologistas do neoliberalismo não se cansam de glorificar os méritos da globalização, o mundo nunca viu um tal número de muros. Cada dia mais presente na Europa, construídos para proteger-se dos imigrantes e dos refugiados que fogem da guerra e da miséria, as paredes tornaram-se novos marcadores geográficos para repelir os indesejáveis.

O que se sabe e é que estes enormes fortalezas também servem para separar os ricos dos pobres e criar segregação social, territorial e racial. Na América Latina, onde a desigualdade tem sido particularmente evidente, a construção de muros tem acelerado nos últimos anos, aprofundando o fosso que separa aqueles que possuem todos daqueles que nada têm.

...para não misturar aqueles de cima com aqueles de baixo

Há quatro anos que os habitantes do subúrbio deVista Hermosa, nas alturas de Lima, são incapazes de ver o panorama da capital.
Por qual razão? Por causa dum muro de mais de dez quilómetros de comprimento e três metros de altura que os separa de um dos bairros mais luxuosos da capital: Las Casuarinas.

"A vista daqui era muito bonita; era possível ver toda a cidade, até que chegaram os de Las Casuarinas e construíram o muro; fecharam-nos a vista para que não seja possível olhar para o lado dele, porque não estamos ao mesmo nível" afirma Amadeo Alarcon, um residente de Vista Hermosa.

Dum lado, então, casas feitas com tudo o que vem à mão. Sem gás, sem eletricidade, sem água corrente. Deste lado da parede, uma casa vale menos de três centenas de Dólares.

Do outro lado da parede, no entanto, é um outro mundo. Lá, as casas podem valer até cinco milhões de Dólares. Lá vive a parte burguesa do País. Enquanto os primeiros pagam uma fortuna a água para as necessidades básicas, os segundos desfrutam de água abundante e barata para preencher as suas vastas piscinas.

A construção deste "muro da vergonha", como é chamado pelos habitantes das favelas, iniciou em 1980, "na altura do terrorismo e das invasões do Peru", explica Elke McDonald que vive em Las Casuarinas.

Os anos '80 foram marcados pela terrível guerra civil em que os guerrilheiros marxistas do Sendero Luminoso enfrentaram o governo peruano. Forçados a fugir dos combates, muitos agricultores migraram para a capital e encontraram refúgio nestas colinas íngremes, onde as condições de vida eram terríveis.

Mais de vinte anos após o conflito que causou mais de setenta mil mortos, muitos agricultores ainda vêm para a capital em busca dum futuro melhor para as sua família. Mas porque ainda chegam? A resposta é dada pelas políticas económicas prosseguidas por décadas no Peru, cujas primeiras vítimas são as populações indígenas.

Muito dependente das exportações, a economia peruana é quase exclusivamente baseada na extracção de metais (ouro, cobre, zinco...). Para melhor gerir esta actividade, os sucessivos governos não pouparam meios para atrair os investidores e os estrangeiros se apressaram: o País é um Éden para as multinacionais que acumularam lucros fabulosos.

Na região de Cajamarca, por exemplo, as actividades criminosas da poderosa multinacional dos EUA, a Newmont, têm provocado o êxodo de milhares de famílias rurais, expulsos das suas terras pelas autoridades para abrir o caminho à pilhagem dos recursos minerais.

Muitas vezes vítimas da repressão policial, quando não atiradas para a prisão ou simplesmente assassinadas, as comunidades indígenas encontram refúgio nas grandes cidades e particularmente na capital, onde vêm para engrossar as fileiras dos sem-abrigo e dos excluídos da sociedade.

Para proteger-se destes náufragos do sistema, que as elites peruanas consideram perigosos e muitas vezes rotulados como criminosos, os moradores ricos de Las Casuarinas construíram este muro com a aprovação das autoridades.

Estes ricos simplesmente consideram o muro como uma medida de segurança: "Qualquer pessoa tem o direito de fechar a sua propriedade privada para protege-la" defende o senhor McDonald que acrescenta: "Este é o melhor lugar no Peru pois pode-se caminhar e dormir em paz. Todos nós pagamos uma contribuição mensal de 100 Dólares para a segurança".

No entanto, na opinião de Alicia Yupamqui que vive numa barraca, aquela é uma parede que discrimina. "Acho que o muro foi construído para não misturar aqueles de cima com aqueles de baixo" continua Sara Torres, outra moradora do bairro.

Outra cidade no continente com um fenómeno similar: São Paulo. Megalópole de mais de onze milhões de habitantes, é o coração económico do Brasil.

Há também enormes desigualdades e discriminações, simbolizadas pelo muro que separa a favela de Paraisópolis, onde moram setenta mil habitantes, do bairro rico de Morumbi. Dum lado: quatorze mil casas de madeira e plástico; do outro, apartamentos que podem valer até 700.000 Euros.

Enquanto alguns não têm serviços públicos, outros têm consultas no Hospital Albert Einstein, um dos mais famosos e caros do País. As pessoas de ambos os bairros não se falam, não se frequentam, não se conhecem. "Nós não misturar-nos com eles. Eles ficam lá e nós aqui" diz um morador da favela.

A cidade, e mais geralmente o Estado de São Paulo, atrai todos os anos milhares de pessoas que vêm principalmente das pobres regiões setentrionais em busca de trabalho e melhores condições de vida.

A violência simbólica

Na sua obra-prima, As Veias Abertas da América Latina, publicado em 1971, o escritor Eduardo Galeano dava o alarme e denunciava o espetáculo insuportável de miséria e desigualdade que assola o continente. Mais de quarenta anos se passaram e, embora houvesse não poucos progressos em termos de redução da pobreza, da analfabetismo, erradicação ou luta contra a fome, a América Latina ainda tem muitas dificuldades para curar todas as feridas.

Após ter sido um laboratório das políticas neoliberais, políticas que fizeram crescer o número de pobres desde 136 milhões em 1980 para 225 milhões no início de 2000, o subcontinente americano conheceu durante a década passada sucessos sociais sem precedentes. Novos Países (Bolívia, Venezuela) foram declarados pela UNESCO "livres de analfabetismo".

Essas políticas sociais foram aplicadas em particular graças ao aumento dos preços das matérias primas, das quais dependem essencialmente as economias latino-americanos. Mas a crise económica e financeira de 2008, com a queda dos preços das matérias primas nos últimos anos, têm influído duramente nas Nações sul-americanas.

O Brasil, onde a política da Presidente Dilma Rousseff dia após dia tem virado para Direita, tem abandonado os movimentos sociais e as desigualdades são particularmente escandalosas. Depois do Honduras, o Brasil é o País menos igualitário nas Américas.

No Peru, embora a pobreza tenha diminuído da metade nos últimos anos, em particular graças a um crescimento económico de cerca de 6,5%, ainda há grandes disparidades. Há desigualdades sociais, mas também regional e mesmo racial. De facto, em 2004 a possibilidade dum habitante da campanha de cair na pobreza era duas vezes mais elevada do que no caso dum morador da cidade. Em 2014, essa mesma probabilidade era três vezes maior. Os Peruanos de língua materna indígena (aimara, quíchua...) são duas vezes mais propensos a cair na pobreza do que aqueles cuja língua materna é o castelhano.

As paredes erigidas em Lima ou São Paulo são o símbolo desta terra de contrastes chamada América Latina. Um continente e uns povos que lutam há mais de quinhentos anos para alcançar libertação e independência.

Estas imensas fortalezas também trazem à tona o caráter racista das elites latino-americanas, que muitas vezes sentem desprezo e repugnante perante pessoas pobres e indígenas.. Este "muros da vergonha" ficam muito perto da violência simbólica, uma violência que não fere os corpos, mas as mentes. Uma violência subtil que não mata, mas contribui para criar frustrações e desespero naqueles que não têm a sorte de ficar do lado "bom" da parede.

O enfraquecimento dos governos de Esquerda e ofensiva da Direita latino-americana ameaçam muitos os avanços sociais destes últimos quinze anos, como na Argentina, por exemplo. A liderar o protesto contra as políticas neoliberais, os movimentos sociais poderia muito bem voltar a actuar para derrubar aquelas paredes indignas e pôr um ponto final com estas sociedades altamente desiguais.

Nota: há outros muros da vergonha. Para ficar no Peru, e precisamente na zona de Lima, lembramos os recentes La Molina-SJM, Sta. María/VMT -Manchay/Pachacamac, Villa María del Triunfo...

Em 2004 o governo do Estado de Rio de Janeiro anunciou a intenção de construir um muro de 3 metros de altura para cercar 4 favelas (Rocinha, Vidigal, Parque da Cidade y Chácara del Cielo), todavia o projecto não teve seguimento.


Ipse dixit.

Fontes: Investig'ActionLe Journal Notre Amérique (nº 9), Limamalalima

segunda-feira, 23 de março de 2015

Os golpes de Estado do Século XXI


Houve um tempo em que se defendia no Brasil a ideia de que já não havia espaço para golpes de Estado na América Latina. Supostamente, as ditaduras nos haviam ensinado o que não queríamos, e nos Anos 90, alguns comentaristas políticos diziam isso, com uma segurança contagiante, tanto que me contagiaram na época.

Lembrei desses comentaristas — mas não vou citar nomes, até porque acho que realmente acreditavam nisso — quando, já trabalhando como jornalista, vivi na Argentina e no Chile, e pude constatar que a punição aos crimes dessas ditaduras deixou marcas na sociedade e nas instituições. Porém, no Brasil, onde pouquíssimo criminosos da ditadura foram julgados, e nenhum deles condenado, eu só me lembro deles quando vejo essa nova tendência brasileira de ir às ruas pedir intervenção militar.

Decidi então conferir se de fato ela tem fundamento. E não tem! Resumi a pesquisa somente ao jovem Século XXI que vivemos, e me deparei com os seis mais recentes golpes de Estado latinoamericanos — um a cada dois anos e meio. Antes de analisar algumas características deles, recordemos, por ordem cronológica, quais foram e como ocorreram:

Venezuela, 2002

Carmona Estanga, em uma de suas poucas horas de governo,
após o golpe de Estado de 2002, na Venezuela
O interessante do cenário que se viveu na Venezuela há treze anos atrás é que talvez ele não seja muito diferente do Brasil atual. A começar pelo fato da disputa política envolver a PDVSA (estatal petroleira venezuelana, a Petrobrás deles).

Durante os primeiros três meses daquele ano, a oposição, junto com os meios de comunicação hegemônicos, começaram uma campanha de desprestígio contra a empresa, questionando seus resultados e sua gestão. Alguns dos principais gerentes da PDVSA apoiavam as críticas e convocaram uma greve geral a partir do dia 9 de abril. A resposta do presidente Hugo Chávez foi a demissão dos gerentes que convocaram a greve, a nomeação de um novo diretor para a empresa e o anúncio de manifestações em defesa da soberania venezuelana sobre o petróleo, em locais diferentes dos protestos pela greve.

No terceiro dia da greve, os manifestantes opositores mudaram o trajeto da marcha, o que causou temor por um possível confronto. Antes que isso pudesse acontecer, foram percebidos disparos contra as duas manifestações, que produziram 19 mortes, a maioria com tiros na cabeça. A oposição acusou o presidente Chávez pelas mortes e o exército invadiu o Palácio Miraflores na noite de 11 de abril, saindo de lá com o presidente preso. Horas depois, Pedro Carmona Estanga, líder dos empresários, jurava como presidente imposto pelos grupos que apoiaram o golpe, e dissolvia o Parlamento, a Corte Suprema, o Ministério Público e o Conselho Nacional Eleitoral.

Porém, seu mandato durou algumas horas. Uma multidão de centenas de milhares de chavistas se reuniu nos bairros carentes de Caracas e foi até o palácio presidencial, exigir a restituição do presidente. O clamor popular levou alguns grupos militares a desobedecerem o alto mando, o que permitiu o regresso de Chávez ao poder.

Análises de criminalística e dos vídeos relacionados ao dia do confronto das marchas provaram que os disparos haviam partido de franco-atiradores da polícia localizados estrategicamente nos edifícios contíguos, e que faziam parte do golpe. Alguns chefes policiais foram condenados, mas anistiados, em 2007, por decreto do próprio Hugo Chávez.

O documentário Chávez; Inside the Coup (Chávez: Bastidores do Golpe), das cineastas irlandesas Kim Bartley e Donnacha O´Brian, que na América Latina foi chamado La Revolución no Será Transmitida (A Revolução Não Será Televisionada), é o melhor trabalho jornalístico, contendo riqueza de detalhes sobre o contexto do golpe de Estado na Venezuela, em 2002.

Haiti, 2004

Aristide escoltado entre a multidão, enquanto ainda era o presidente do Haiti
Após a morte de um de seus líderes, em setembro de 2003, a guerrilha Frente para a Liberação e Reconstrução Nacional inicia uma série de ataques em regiões do interior do país.

No dia 5 de fevereiro de 2004, conseguiram tomar a cidade de Gonaïves, terceira cidade mais populosa do Haiti, no litoral norte do país, e duas semanas depois dominaram Cap-Haïtien, segunda cidade mais importante. No dia 29 de fevereiro, os rebeldes invadiram a capital Port-Au-Prince. Horas depois, o então presidente Jean-Bertrand Aristide era derrubado, mas não necessariamente pelas milícias. Uma vez no exílio, na África do Sul, Aristide assegurou que nunca havia renunciado, acusando os Estados Unidos de terem-no sequestrado e levado à força para fora do país. Os opositores ao presidente deposto contestaram a versão, e responsabilizaram Aristide pela crise econômica e a miséria que assolava o país, e o acusaram de não conter a corrupção nas instituições públicas.

Logo, o país sofreu intervenção de forças da ONU. cujo objetivo declarado era o restabelecimento da ordem democrática, em missão que contou com o apoio de diversos países latinoamericanos, incluindo o Brasil. Após a queda de Aristide, o presidente Boniface Alexandre governou o país interinamente, até 2006, quando foi eleito René Preval.

Bolívia, 2008

Indígenas sepultam as vítimas do massacre de Pando, em 2008
No segundo semestre daquele ano, uma série de confrontos entre grupos apoiadores e opositores ao presidente Evo Morales começam a acontecer em departamentos no leste do país, os que compõem a chamada Meia Lua, principalmente nos quatro (Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija), onde a população indígena não é maioria — o que revelou o preconceito étnico como uma das origens do enfrentamento.

Durante cerca de vinte dias, os grupos opositores, liderados por prefeitos da região da Meia Lua, organizaram bloqueios de estradas, greves, ocupação de prédios estatais e até mesmo a sabotagem de um dos principais gasodutos do país. Alguns dirigentes opositores pediam a derrubada de Morales. Outros, principalmente os de Santa Cruz, tentaram organizar um referendo para independência do departamento ou de toda a região da Meia Lua.

No dia 11 de setembro, um grupo de dezesseis camponeses indígenas que apoiavam o presidente foram assassinados, no departamento de Pando, o que foi seguido por outros ataques racistas contra populações indígenas nas regiões insurgentes. A oposição afirmou que presidente perdia o controle do país, e tentou derrubá-lo.

Michelle Bachelet, então presidenta do Chile e presidenta pró-tempore da Unasul, convocou um encontro extraordinário dos presidentes. A entidade classificou os ataques como uma tentativa de desestabilização da democracia boliviana, e anunciou uma série de medidas em conjunto para apoiar o governo boliviano. Diante da total falta de apoio dos demais países do continente, a oposição boliviana decidiu baixar a guarda, desarmar os bloqueios, e até mesmo a ideia de referendo separatista foi abandonada.

Honduras, 2009

Protesto contra deposição de Zelaya, que foi sequestrado em pijamas  pelo exército hondurenho, que o abandonou num aeroporto da Costa Rica
No dia 28 de junho, estava programado um referendo para decidir sobre a viabilidade ou não de uma assembleia legislativa para a reforma política do país. Durante a madrugada, um grupo de militares, comandado pelo general Ramón Vásquez Velásquez, invadiu a tiros a casa presidencial e sequestrou o presidente Manuel Zelaya, levando-o de pijamas a um aeroporto, onde foi despachado de avião até a Costa Rica.

Através de uma manobra legislativa, o presidente do Congresso, Roberto Micheletti, conseguiu colocar a si mesmo na presidência, e governou durante seis meses, até a realização de eleições, em novembro, onde foi eleito o opositor Porfirio Lobo.

Manuel Zelaya tentou regressar a Honduras em ao menos três ocasiões, e obteve sucesso na terceira vez, onde conseguiu asilo na Embaixada do Brasil durante cinco meses, até ser definitivamente condenado ao exílio.

Após o golpe, diferentes organizações denunciaram aos organismos internacionais uma escalada de atentados contra comunidades de bairros pobres, cidades da zona rura, movimentos sociais e pequenos meios de comunicação alternativos. Atualmente, o país é apontado pela ONU como o de maior índice de homicídios no mundo.

Equador, 2010

Rafael Correa enfrentando gases lacrimogêneos atirados pela polícia equatoriana. Logo viriam tiros, mas o presidente conseguiu sobreviver
Setembro é mesmo um mês preferido para golpes de Estado, principalmente na América do Sul. Neste caso, o confronto aconteceu no dia 30, durante uma greve de policiais. O próprio presidente Rafael Correa foi até um quartel principal da polícia negociar com os grevistas, mas não obteve resultados.

Os líderes do movimento, insatisfeitos com a negativa presidencial, realizaram rapidamente um ataque a comitiva presidencial, com granadas de gás lacrimogênio. Membros da guarda presidencial conseguiram salvar Correa, resguardando-o no Hospital Militar, que ficava próximo ao quartel. O edifício foi cercado pelos policiais grevistas, que chegaram a abrir fogo.

Manifestantes em favor de Correa foram ao local do conflito, protestar contra os ataques, e também receberam disparos. Após a intervenção do Exército, a situação foi controlada, embora tenha terminado com as mortes de dois membros da Guarda Presidencial, dois policiais grevistas e um estudante que estava entre os manifestantes em favor do governo, além de 274 feridos.

Paraguai, 2012


Em maio, a desocupação de uma chácara, na localidade de Curuguaty, no sudeste do país, levou a um confronto entre policiais e camponeses sem-terra, que terminou com um saldo de dezessete mortes (onze camponeses e seis policiais). As críticas ao manejo da situação por parte do governo levou a um pedido de julgamento político do presidente Fernando Lugo, que finalmente aconteceu no dia 22 de junho, e terminou com 39 votos a favor (apenas 4 contra) de declará-lo culpado por uma suposta crise institucional, cuja pena era a sua destituição do cargo.

Lugo tentou se defender com o argumento de que não havia nenhum tipo de manifestação popular contra o governo pelas mortes em Curuguaty e que toda a pressão emanava dos partidos opositores e da imprensa paraguaia, que defendia os interesses dos latifundiários e do agronegócio, mas não conseguiu comover os legisladores. Foi substituído no poder pelo seu vice, Federico Franco, cujo partido PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico) já sinalizava uma ruptura com o governo, desde a criação da esquerdista Frente Guasú, em 2010.

No ano seguinte, novas eleições presidenciais levariam ao poder o empresário Horacio Cartes, um dos articuladores da derrubada de Lugo — que foi eleito senador, no mesmo pleito.

Daqui por diante

Fazendo um balanço dos seis golpes que descrevemos acima, pode-se observar que quatro deles conseguiram a destituição do presidente, embora um deles tenha sido revertido no dia seguinte. Os outros obtiveram resultados políticos permanentes.

Outra característica importante dos quatro golpes concluídos, sobretudo em comparação com os do século anterior, é que geraram substitutos civis, ainda havendo evidente participação militar em pelo menos dois deles.

Cinco desses golpes ocorreram contra países da chamada Alba (Aliança Bolivariana Para os Povos da América), embora a Venezuela tenha sofrido seu golpe antes da entidade existir — o Haiti, que é somente membro observador, também sofreu seu golpe antes, e Honduras deixou de ser membro depois da queda do seu presidente.

Durante os 13 anos de governos do PT, Lula e Dilma venceram o câncer e defenderam um projeto baseado na distribuição de renda. Agora, enfrentam uma oposição que já não titubeia ao falar em impeachment.

Além dos golpes de Estado, os presidentes latinoamericanos também estão tendo que enfrentar neste século uma macabra coincidência (ou talvez não seja mera coincidência, segundo algumas teorias) com respeito a sua saúde — e, outra coincidência, todos os casos envolvendo governantes de com alianças de esquerda ou centro-esquerda. Hugo Chávez terminou falecendo em 2013, vítima de um câncer, o mesmo mal que afetou Lula da Silva (2011), Dilma Rousseff (2009), Cristina Kirchner (2011) e Fernando Lugo (2010). A exceção dos brasileiros, os outros três enfrentaram a doença em pleno exercício de seus mandatos. Também houve a morte de Néstor Kirchner, em 2010, após um inesperado ataque cardiorrespiratório, quando o ex-presidente argentino exercia o cargo de secretário-geral da Unasul. Em 2013, Cristina Kirchner passaria por um novo susto, sendo levada a uma cirurgia de emergência, para retirada de um coágulo no cérebro.

Atualmente, três países vivem situações simultâneas de instabilidade institucional. Na Argentina, a oposição e o grupo de mídia Clarín tentam levar adiante a tese de que a presidenta Cristina Kirchner está envolvida no suposto assassinato do promotor Alberto Nisman, enquanto o país vive um ano eleitoral em que a mandatária não poderá concorrer à reeleição, e com um governismo que ainda não decidiu o candidato à sucessão. O venezuelano Nicolás Maduro, herdeiro político de Chávez, enfrenta uma forte crise, com intensa confrontação política nas ruas, desde janeiro de 2014, e no ano que vem poderia ter que enfrentar um referendo sobre a continuidade de seu mandato. Enquanto isso, Dilma Rousseff inicia o seu mandato com forte pressão da oposição nas ruas, e a oposição declarada até de líderes de partidos da base aliada, num cenário onde já não há cautela para o uso da palavra impeachment.

Mas reitero, este tópico foi para contestar a lembrança que tenho da ideia de que não há mais espaço para golpes de Estado na América Latina, que deve ter nascido e morrido naqueles Anos 90, em que se acreditava que a História havia acabado com a queda do Muro de Berlim. Contudo, não estou apostando em que pode acontecer um sétimo golpe, ou em quão breve isso poderia ocorrer, ainda que haja os que não acreditam em bruxas mas sabem que elas existem — e alguns ainda arriscam dizer de que país elas vêm.

Victor Farinelli
No Blog do Miro

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

É fácil entender por que Dilma preferiu a Bolívia a Davos



Uma das tolices que estão sendo propagadas pelos suspeitos de sempre é que Dilma cometeu um desatino ao optar por ir à posse de Evo na Bolívia e não a mais uma edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

As críticas derivam de duas coisas. Uma é o preconceito em relação à Bolívia e Evo. Não há nada que se possa fazer a respeito. Augusto Nunes, o Brad Pitt de Taquaritinga, chama Evo de “Llama de Franja”, e presume que está sendo espirituoso.

O segundo fator é a ignorância dos críticos em relação ao Fórum Econômico Mundial, que cobri duas vezes, já quando perdera o brilho.

O WEF, das iniciais em inglês, é agora uma espécie de Ilha de Caras da plutocracia global.

Teve num passado distante, quando a globalização era novidade, alguma relevância.

Nos dias de ouro, até estrelas do cinema como Angelina Jolie iam a Davos, nos Alpes suíços.

Não mais.

Agora, os organizadores têm que se contentar com subcelebridades como Paulo Coelho — sempre presente com tudo na faixa — para tentar promover o encontro.

O WEF, ao contrário do que muitos pensam, é um negócio privado e seu maior objetivo, longe de resolver os problemas do mundo, é proporcionar holofotes a seu dono, o alemão Klaus Schwab.

Como a Ilha de Caras vivia do prestígio de quem ia a ela, o WEF depende também dos políticos e empresários que se deslocam para Davos.

Tente encontrar Obama lá, por exemplo. Obama jamais foi ao WEF, e nenhum dos seus críticos encrencou com isso. Nem Bush compareceu uma única vez a Davos.

Clinton foi, em 2000. Mas estava se despedindo da presidência, e o WEF era um excelente lugar para arrumar palestras de 150 000 dólares ao redor do mundo.

Os líderes empresariais que vão ao WEF estão lá não por seu notório saber e charme inexcedível, mas porque pertencem a empresas patrocinadoras.

Você tem uma empresa e quer pontificar em Davos? Basta procurar o tesoureiro do WEF e verificar o preço de uma cota de patrocínio.

Hoje, 2015, Davos é, sobretudo, uma boca livre. Joaquim Levy provavelmente aproveitará os dois ou três dias lá para relaxar na paisagem deslumbrante de Davos.

É bom que ele relaxe mesmo porque, ao voltar, terá um trabalho duro pela frente.

Quanto a Dilma, fez a opção certa. Em vez de servir de escada para Schwab, foi para um compromisso em que teria a companhia de pessoas de quem gosta — e se livrou dos enfadonhos engravatados do WEC.

O resto, bem, o resto é nhenhenhém de quem não tem a menor ideia do que seja Davos.

Paulo Nogueira
No DCM, via http://www.contextolivre.com.br/2015/01/e-facil-entender-por-que-dilma-preferiu.html

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Bolívia processará revista Veja por reportagem sobre drogas



O governo boliviano anunciou nesta segunda-feira que processará a revista Veja, que em uma de suas últimas publicações, reproduzida pela imprensa boliviana, apontou o envolvimento do ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, com um narcotraficante brasileiro.

Vermelho / Terra

"O governo anunciou a sua decisão de processar a revista Veja para que prove as afirmações contidas em um artigo que consideramos infamantes contra autoridades do governo", afirmou a ministra de Comunicação, Amanda Dávila, segundo o portal de notícias governamental.

O Ministério da Comunicação ressaltou que a Veja publicou um artigo que "envolve o ministro da Presidência boliviana, Juan Ramón Quintana, e a diretora da Agência para o Desenvolvimento das Macrorregiões e Zonas Fronteiriças (Ademaf) em Beni, Jessica Jordán, com o convicto narcotraficante brasileiro Maximiliano Dorado Munhoz Filho".

A revista brasileira indicou - baseada em supostos relatórios de inteligência da Polícia boliviana não identificados - que Dorado Munhoz Filho havia se reunido com Quintana em 2010 na cidade boliviana de Santa Cruz (leste) quando este era diretor da Ademaf, e com Jordán, diretora da Ademaf na região amazônica de Beni.

O ministério indicou que "o governo do presidente Evo Morales iniciou um processo judicial para que a Veja mostre as provas que a levaram a vincular Quintana e Jordán ao narcotráfico no Brasil".

Quintana, colaborador próximo do presidente Evo Morales, até agora não fez comentários a respeito. Segundo dados das Nações Unidas, a Bolívia é o terceiro produtor mundial de cocaína, depois de Peru e Colômbia, e boa parte de sua produção chega aos mercados brasileiros e europeus."