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segunda-feira, 11 de maio de 2020

BOLSONARO E O FIM DO BRASIL – 1



Entender a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder é tarefa demasiadamente complexa, daí a impossibilidade de esgotar o assunto neste enxuto texto. 

Mas, pode-se fornecer algumas linhas gerais a respeito do fenômeno Bolsonaro, mostrando que, de modo nenhum, sua ascensão terá sido um acaso histórico. 

É importante demonstrar a não casualidade do governo Bolsonaro justamente para dissipar ilusões a respeito da superação da estrutura a ele associada simplesmente com a saída do presidente do poder. Bolsonaro é expressão de algo muito mais profundo e decisivo no capitalismo brasileiro.

Um capitalismo cujo ponto de inflexão situa-se em 1964. Naquele ano, havia uma encruzilhada para o país entre aprimorar um desenvolvimento autônomo e nacionalista ou seguir um desenvolvimento subalterno e dependente das burguesias centrais. Noutras palavras, havia uma disputa entre revolução e contrarrevolução. 

A vitória das forças contrarrevolucionárias selou o destino do Brasil. A partir dali o país seguiu um modelo de desenvolvimento subalterno, excludente e predatório. A industrialização nacional foi pautada inteiramente na instalação de multinacionais via subsídio estatal. 

A burguesia nacional abdicou por completo de criar qualquer tipo de capitalismo próprio por aqui, resignando-se a ser mera sócia minoritária do capitalismo central e assumindo, em termos políticos, uma posição visceralmente reacionária.

A ditadura militar foi a imposição, a ferro e fogo, da contrarrevolução permanente. Quando ela acaba, a nova democracia surge de seu interior com limites claramente delimitados: não se pode tocar na estrutura socioeconômica herdada do antigo regime.  

Como consequência, por mais avançada que tenha sido, a carta constitucional de 1988 já nasceu como letra morta. Seu ideário social-democrata jamais poderia se concretizar face à rigidez do solo pedregoso do Brasil. 

A saída, para as novas forças democráticas, foi embarcar no que chamo de cidadanismo, sobre o que já falei em meu texto de estreia no Naufrago. O cidadanismo foi justamente a crença, triunfante entre a esquerda, de que seria possível modificar o país com medidas administrativas, sem, no entanto, tocar na estrutura socioeconômica reacionária. 

Este processo era tocado mediante um pacto:adotavam-se medidas de compensação social, enquanto o regime de super exploração social continuava e era aprofundado. 

O fracasso do modelo industrial dependente impeliu a burguesia brasileira a retomar seu extrativismo agromineral e a avançar na financeirização da economia. O Brasil passou de aspirante a fábrica do mundo a exportador primário, enviando para fora minérios, grãos e dólares. 

No lugar da indústria, portanto, surgiu um tripé exportador de recursos minerais, agrícolas e financeiros. 

A esquerda – primeiro com FHC, depois com o PT – não apenas aceitou tal situação, como também ajudou ativamente a implanta-la, avançando com privatizações, alargamento da fronteira agrícola, do extrativismo mineral e do sistema financeiro. 

Se a ditadura havia tido seu milagre, também o teve o regime da Nova República, durante o segundo governo Lula, quando o tripé acima mencionado entrou em perfeito equilíbrio. 

As exportações agromineirais bombavam, gerando divisas capazes de manter o cambio a um preço irrisório. Este barateava a importação de produtos industriais, a qual, associada à expansão do crédito por causa da financeirização, garantia uma vida melhor, com padrões de consumo aceitáveis, para milhões de pessoas. Foi o milagre lulista.

Mas, no capitalismo, todo equilíbrio é efêmero. Logo chegou a crise de 2009 e, com ela, a desvalorização das commodities, a pressão sobre o cambio e o encarecimento do crédito. O Brasil começou a entrar em parafuso e o resultado foi a derrocada do regime da Nova República com o impeachment de Dilma. 

No entanto, durante todo este período, a estrutura social e econômica herdada do golpe de 64 permaneceu não apenas inalterada, como também foi reforçada, ganhando profundidade e capilaridade. 

Tampouco as forças reacionárias ficaram sentadas assistindo a execução do pacto pela frente da Nova República. Enquanto a esquerda queimava seu capital político, tais forças trabalhavam para arruinar o texto constitucional e deixa-lo à imagem do mundo real. 

Não à toa, conforme observa Vladimir Safatle, o congresso nacional brasileiro é um parlamento permanentemente reformador: desde 1988 vem mantendo uma média ao redor de três emendas constitucionais por ano. PEC é o normal da legislatura em Brasília. 

Cada PEC reacionária aprovada era seguida por outra, sempre avançando no caminho de constitucionalizar a realidade contrarrevolucionária. Isto até chegarmos a PEC suprema, a teto de gastos, a qual simplesmente transformou o texto socialdemocrata em letra completamente morta. 

O regime da Nova República se assemelhava a uma árvore infectada por parasitas. Por fora, verde e esplendorosa; mas, por dentro, completamente oca e tomada por vermes. (por David Emanuel de Souza Coelho)
(continua)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

OS TEMPOS SÃO OUTROS: A DEMOCRACIA LIBERAL ACABOU!


Por Vladimir Safatle
O ÚNICO SETOR QUE
 REALMENTE FAZ POLÍTICA HOJE
 É A EXTREMA-DIREITA
A democracia liberal como a conhecemos é uma invenção que se consolidou a partir do final da 2ª Guerra Mundial. Ela respondia a um sistema de acordos e equilíbrios entre setores sociais antagônicos. Sua base de sobrevivência foi a capacidade em orientar a política em direção a uma espécie de luta pela conquista do centro.

Assim, p. ex., os partidos de esquerda paulatinamente moderaram seus horizontes de ruptura institucional para acabar por serem gestores da social-democracia e do dito Estado de bem-estar social europeu. Mesmo os partidos comunistas da Europa, fortes até o final dos anos 1970, operaram no interior dessa lógica. Da mesma forma, os partidos de direita foram levados a aceitar a conservação de uma espécie de mínimo social a ser respeitado, mesmo agindo em vistas à liberalização da economia.

O primeiro tremor neste pacto se deu com a leva neoliberal de Thatcher e Reagan. Nos EUA, o pacto criado pelo New Deal de Franklin Roosevelt foi desmontado por meio de uma política de retração do Estado e redução de impostos para os mais ricos. O mesmo foi feito no Reino Unido, sob o fogo de uma luta incessante contra os sindicatos e as categorias profissionais.

No entanto, os anos 1990 pareciam inicialmente implicar certa retração do horizonte neoliberal com a ascensão do que se chamou à época de onda rosa. Mas o novo trabalhismo de Tony Blair, o novo centro de Gerhard Schröder e a volta dos democratas com Bill Clinton demonstraram outra coisa.
Thatcher e Reagan alavancaram neoliberalismo 
Na verdade, tratava-se de um alarme falso. O que se viu foi apenas a consolidação da falência da social-democracia, seu enterro pelos próprios atores que, de certa forma, deveriam representá-la. 

A França de Lionel Jospin, com alguns tons de rosa mais vermelhos, foi apenas um ponto fora da curva, já que foi lá, em 1995, que ocorreu a última grande greve geral de defesa do Estado de bem-estar social.

Essa conversão da esquerda à gestão de um neoliberalismo com o rosto mais humano era irreversível.

Isso ficou evidente com a crise de 2008 e com a ausência de alternativas a um modelo econômico falimentar. Todos os atores políticos mundiais foram forçados a aplicar a mesma política de austeridade, com suas contenções de gastos públicos, seu desmonte de mecanismos de distribuição de renda e elevação dos interesses do sistema financeiro mundial a dogma inquestionável.

Nesse processo, os partidos de esquerda foram simplesmente dizimados, já que perderam de vez sua função de contraponto.

O resultado disso estamos vendo hoje. A ascensão de aberrações como Donald Trump, a protofascista Marine Le Pen, na França (em primeiro lugar nas pesquisas), e o Alternativa para a Alemanha, além da vitória do Brexit, são partes de um mesmo fenômeno. Essas escolhas expressam a ausência de escolha dentro da democracia liberal.

Elas demonstram, na verdade, que a democracia liberal acabou, que seu acordo não existe mais. A crise econômica destruiu a democracia liberal e levou populações a irem em direção ao extremo em vez de aceitarem as normas e a dogmática econômica que vigoravam no centro.
Vitória de Trump deixou Marine Le Pen rindo à toa

Há uma certa ironia macabra nessa situação. Durante anos, a imprensa mundial tentou nos fazer acreditar que EUA e Inglaterra eram dois países que haviam deixado a crise econômica para trás com suas políticas de austeridade. No entanto, não é assim que pensam os próprios cidadãos desses países. 

Na verdade, eles escolheram discursos que insistiam na pauperização, na insegurança econômica, na precarização e no fim da globalização.

Daqui em diante, esta será a dinâmica política. Como não há mais acordo possível de conservação de conquistas sociais elementares, a política irá para os extremos. Só que, neste momento, a esquerda não consegue mais organizar um discurso de alternativa econômica. Em países como França e Alemanha (já que o SDP governa com a CDU há anos), foi ela que levou a cabo os choques de austeridade.

Nessa lógica, o único setor que realmente faz política hoje é a extrema-direita com sua mistura de discursos de proteção social e proteção paranoica contra tudo o que é tachado como corpo estranho no interior de um delírio identitário de vida social. Por isso, ela cresce vertiginosamente.

Qualquer um que tentar, mais uma vez, a lógica fracassada de conquista do centro tem seu lugar garantido no balcão de devoluções dos equívocos históricos.

Os tempos são outros.

sábado, 19 de novembro de 2016

REDEMOCRATIZAÇÃO PELA METADE DÁ NISSO!

A meia centena de viúvas da ditadura grunhindo e zurrando no plenário do Congresso Nacional assustou o articulista Vladimir Safatle, professor de filosofia na USP, inspirando-lhe um alerta agourento: "Nada morreu, tudo pode retornar". 

Parece que as vitórias do Brexit e de Trump deixaram nossa intelligentsia à beira de um ataque de nervos, tendo pesadelos com Bolsonaro no papel de Hitler brasuca, prontinho para implantar o 3º reich (depois dos de Vargas e dos generais). 

Há um tanto de exagero nesses receios, não só por se tratarem de épocas e crises diferentes, como também porque seria a repetição da História já nem mais como farsa, mas sim como chanchada da Atlântida...

Evidentemente, concordo com Safatle quanto à imperdoável omissão dos governantes brasileiros que deixaram de revogar a anistia de 1979, abrindo caminho para a apuração e punição dos crimes cometidos pelas forças repressivas durante a ditadura militar. Era algo a ser feito tão logo o País se redemocratizasse, mas a uns faltou convicção e a outros, coragem. 

Collor, provavelmente, simpatizava com os pitbulls do arbítrio. Sarney, como governador e senador, servira repulsivamente ao regime de exceção que lhes retirou as focinheiras. Itamar Franco não era homem para comprar tal briga. Mas FHC, Lula e Dilma ficaram com suas biografias manchadas para sempre. 

Quem teve de exilar-se e quem chegou a ser preso durante aquela ditadura jamais poderia sair pela tangente para evitar problemas, como os pusilânimes fazem; estava moralmente obrigado a defender os valores civilizados, custasse o que custasse!

FHC amarelou e, comoprêmio de consolação para os humilhados e ofendidos, instituiu programas de concessão de reparações às famílias dos assassinados e aos sobreviventes do morticínio. 

Lula se apavorou com uma nota oficial do Alto Comando do Exército (vide aqui) que não passava de blefe e, ao invés de destituir imediatamente os insubmissos, determinou a seus ministros que ficassem em cima do muro, nem sim nem não, muito pelo contrário, apontando aos que tinham sede de Justiça o caminho dos tribunais. 

O Supremo Tribunal Federal tomou em 2010 uma das decisões mais infames de sua história (na contramão do entendimento sobre crimes contra a humanidade que vem se consolidando mundialmente desde o Julgamento de Nuremberg), ao outorgar a déspotas o direito de anistiarem a si próprios e aos seus esbirros com o arbítrio em  plena vigência. 

Dilma ignorou a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a necessidade de apuração integral da chacina do Araguaia e sobre a não-validade de autoanistias promulgadas por ditadores, montando, como alternativa meramente propagandística, uma comissão da verdade engana-trouxas. 

Em meados de 2008 (vide aqui), percebendo que a falta de vontade política para se punir os algozes dos anos de chumbo inviabilizaria seu merecido encarceramento, eu já tentava convencer a esquerda e os cidadãos com espírito de Justiça a adotarem uma postura mais flexível: exigirem a condenação dos culpados, mas relevarem o cumprimento das penas, eliminando o ingrediente emocional que lhes poderia granjear alguma solidariedade na caserna.

Ou seja, como o Estado brasileiro demorara uma eternidade para fazer o que lhe competia e os réus, ou já haviam morrido, ou tendiam a falecer em breve, além de não representarem mais perigo para a sociedade, então que se concertasse alguma iniciativa no sentido da condenação inequívoca da ditadura de 1964/85, considerando criminosos os torturadores e seus mandantes, mas permitindo (sob pretextos humanitários, em funçao da idade avançada, etc.) que terminassem a vida fora das grades. 

Propus, portanto, abdicarmos do que (saltava aos olhos!) jamais conseguiríamos mesmo obter, em troca do encerramento da questão em termos minimamente aceitáveis, legando um precedente jurídico correto para os pósteros.

Clamei no deserto, claro, porque no Brasil as bravatas que invariavelmente conduzem às derrotas tendem a prevalecer sobre a sensatez que permite salvar algo do incêndio.

E é graças aos erros por nós cometidos no passado que as atrocidades totalitárias voltaram a ser bandeira dos rancorosos anônimosComo ressaltou Safatle:
"Esse é o preço pago pelo Brasil ser um país incapaz de encarar seu passado ditatorial, prender torturadores, exigir das forças armadas um mea-culpa pelo golpe contra a democracia, retirar o nome de membros da ditadura de suas praças e estradas, ensinar a seus jovens o desprezo por intervenções militares...
Não nos enganemos. Essas pessoas que estão a vociferar por mais um golpe de Estado não estão expressando uma opinião. Clamar por golpe militar não é uma opinião. É um crime, o pior de todos os crimes em uma democracia. Quem quer a causa quer os efeitos. Quem pede por golpe militar está a gritar por assassinato, tortura, ocultação de cadáver, censura, estupro, terrorismo de Estado.
Em qualquer democracia mais ou menos consolidada no mundo, o lugar dessas pessoas seria na cadeia, por sedição e incitação a crime".
Veio, assim, ao encontro do que proponho desde a década passada: que apologias da ditadura passem a receber no Brasil o mesmo tratamento jurídico dado à negação do Holocausto nos países civilizados (talvez substituindo as penas de prisão por prestação de serviços à comunidade, pois as condições das penitenciárias daqui são tão terríveis que nelas correriam risco de vida, algo que nem mesmo os pregadores do ódio merecem).

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

HÁ UMA PROFUNDA DESCRENÇA POPULAR COM OS GESTORES DA DEMOCRACIA LIBERAL E A ESQUERDA NÃO A CAPITALIZA


Escreveu Vladimir Safatle
FENÔMENOS COMO
 DONALD TRUMP NÃO SÃO 
PASSAGEIROS, SÃO REGRA.
.
Há uma passagem na Dialética do Esclarecimento na qual os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer afirmam que, muitas vezes, não há nada mais estúpido do que ser inteligente.

Nessa passagem, eles descrevem como seus amigos intelectuais tinham análises detalhadas e bastante astutas para provar de forma cabal como a ascensão do nazismo nunca seria possível. Nenhuma delas serviu para impedir o que era, no final das contas, claro como o sol ao meio-dia.

Bem, a eleição de Donald Trump é, mais uma vez, a prova de como muitas vezes não há nada mais estúpido do que ser inteligente.

Até o último dia da eleição, as chances de vitória de Hillary Clinton eram creditadas em até 90%. A inconsistência de Trump, seu caráter errático, suas falas absurdas e caricatas eram salientados a todo momento para confirmar aquilo que as pesquisas pareciam indicar: que ele nunca seria o próximo presidente dos EUA.

No entanto, Trump viu algo que ninguém queria ver, a saber, que a democracia liberal acabou, que a política não passa mais pela conquista do centro e pela boa gestão da institucionalidade atual. Ela passa pelo deslocamento em direção aos extremos e pelo decisionismo soberano

Tudo estava claro para quem quisesse ver. O brexit e a ascensão da xenofobia na Europa foram expressões de uma profunda descrença popular com os gestores da democracia liberal. Lembremos como os últimos anos demonstraram como as recuperações econômicas aplicadas através de planos de austeridade significaram aumento brutal da precariedade, da insegurança social e da desigualdade.

Esses planos de recuperação foram geridos de forma praticamente semelhante, tanto por liberais como pela esquerda (ou por algo que gostaria de, em certos momentos, se fazer passar por ela). A ira popular contra tal classe de gestores sociais era evidente e levaria a um forte sentimento anti-institucional.

Foi para vampirizar tal sentimento que entrou em cena Donald Trump. Denunciando a elite política e a elite midiática por esquecimento das pessoas comuns, ele, o representante maior da elite financista e rentista que mais se beneficiou das políticas econômicas dos últimos anos, fez o inacreditável papel do homem simples indignado com a impotência dos burocratas e com a inércia dos partidos.
Sua imagem de bem-sucedido, junto à sua capacidade de mudar de opinião, de se contradizer a todo momento, podia muito bem aparecer como a prova de que estávamos diante de alguém que não respeitaria limites para fazer o que deve ser feito. Foi o que aconteceu.

Fenômenos como Trump não são passageiros. Eles serão a regra daqui para frente. Clinton, com seu militarismo extremo e sua aliança orgânica com os interesses de Wall Street, era apenas uma direita mais tradicional que terá cada vez menos lugar. 

Já fenômenos como Trump se aproveitam da inexistência de esquerda no cenário político-partidário mundial e capitalizam todo o sentimento anti-institucional, dando à insegurança social o lastro do medo paranoico contra inimigos externos ou da raiva protofascista contra minorias internas. A história já demonstrou quão explosiva pode ser tal combinação.

No entanto, essa eleição mostrou também a limitação política de certas escolhas feitas ultimamente. Por coincidência, no dia da eleição norte-americana, eu estava na Universidade da Carolina do Norte, onde os estudantes fizeram várias pichações contra Trump. Na maior delas podia-se ler: "Trump: sexista, machista, racista, islamofóbico, homofóbico".

Tudo isso é verdade, mas era sintomático não haver nada sobre seu desejo em acabar com o sistema de saúde gratuito para os mais pobres ou sobre sua política econômica que implicará em concentração de renda e em aumento da precarização. De fato, a tentativa de desconstruir Trump passou, de forma majoritária, por tais pautas ligadas a políticas de reconhecimento.

Nada mais previsível, já que a luta por reconhecimento funciona atualmente como uma certa compensação à inexistência de um discurso econômico de esquerda com clara força de transformação das relações econômicas e com capacidade de implicar as classes empobrecidas.

Conseguimos transformar tais pautas, profundamente justas em si, na única modificação concreta que a esquerda consegue atualmente oferecer, já que estamos todos comprometidos com a gestão do mesmo modelo econômico, divergindo apenas sobre a intensidade da aplicação das mesmas políticas

Mas se o modelo econômico é o mesmo, se o problema é só de intensidade, então melhor entregar as chaves do cofre para alguém que sabe como as entranhas do capital realmente operam. Ao que parece, foi assim que metade mais um da população norte-americana pensou.

O pitaco do editor
A DEMOCRACIA LIBERAL ENTROU EM PARAFUSO. QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS PARA A ESQUERDA?
. 
Em seu excelente artigo desta 6ª feira (11) na Folha de S. Paulo, cujos trechos principais grifei, o filósofo Vladimir Safatle veio ao encontro do que tanto o Dalton Rosado quanto eu vimos há tempos alertando: as contradições insolúveis do capitalismo atingiram tal estágio que ele cada vez desagrada mais pessoas para satisfazer menos pessoas. O preço da relativa prosperidade de poucos são agruras e sofrimentos para muitos. Com isto, a chamada democracia liberal entrou em parafuso, como cansamos de dizer e agora ele diz também.

A nós interessa, sobretudo, a principal consequência disto para a esquerda: a de que não adianta mais disputarmos eleições e tentarmos combater o stablishment com as armas do stablishment, situados dentro do stablishment. Temos de, como em 1968, abandonar os parlamentos e palácios do governo, voltando às ruas e às praças para nelas irmos forjando pouco a pouco, em sintonia com o povo e estimulando seu protagonismo, uma proposta alternativa de sociedade.

Caso contrário, acontecerá conosco o mesmo que aconteceu com o Partido Social-Democrata alemão, que tentou deter a escalada nazista dentro dos marcos da legalidade burguesa, enquanto o inimigo, sem os mesmos melindres, atuava em duas frentes: intimidava os conservadores e liberais com a truculência de suas turbas de lumpemproletários, visando inicialmente paralisá-los e depois cooptá-los nas esferas do poder formal. 

Lembrem-se: quem não aprende com as lições da História, está condenado a repeti-las. (Celso Lungaretti)

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/ha-uma-profunda-descrenca-popular-com.html

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011


O inimigo da moral 
Vladimir Safatle

O maior inimigo da moralidade não é a imoralidade, mas a parcialidade.
O primeiro atributo dos julgamentos morais é a universalidade. Pois espera-se de tais julgamentos que sejam simétricos, que tratem casos semelhantes de forma equivalente. Quando tal simetria se quebra, então os gritos moralizadores começam a soar como astúcia estratégica submetida à lógica do "para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei".
Devemos ter isso em mente quando a questão é pensar as relações entre moral e política no Brasil. Muitas vezes, a imprensa desempenhou um papel importante na revelação de práticas de corrupção arraigadas em vários estratos dos governos. No entanto houve momentos em que seu silêncio foi inaceitável.
Por exemplo, no auge do dito caso do mensalão, descobriu-se que o esquema de corrupção que gerou o escândalo fora montado pelo presidente do maior partido de oposição. Esquema criado não só para financiar sua campanha como senador mas (como o próprio afirmou em entrevista à Folha) também para arrecadar fundos para a campanha presidencial de seu candidato.
Em qualquer lugar do mundo, uma informação dessa natureza seria uma notícia espetacular. No Brasil, alguns importantes veículos da imprensa simplesmente omitiram essa informação a seus leitores durante meses.
Outro exemplo ilustrativo acontece com o metrô de São Paulo. Não bastasse ser uma obra construída a passos inacreditavelmente lentos, marcada por adiamentos reiterados, com direito a acidentes mortais resultantes de parcerias público-privadas lesivas aos interesses públicos, temos um histórico de denúncias de corrupção (caso Alstom), licitações forjadas e afastamento de seu presidente pela Justiça, que justificariam que nossos melhores jornalistas investigativos se voltassem ao subsolo de São Paulo.
Agora volta a discussão sobre o processo de privatização do governo FHC. Na época, as denúncias de malversações se avolumaram, algumas apresentadas por esta Folha. Mas vimos um festival de "engavetamento" de pedidos de investigação pela Procuradoria-Geral da União, assim como CPIs abortadas por manobras regimentais ou sufocadas em seu nascedouro. Ou seja, nada foi, de fato, investigado.
O povo brasileiro tem o direito de saber o que realmente aconteceu na venda de algumas de suas empresas mais importantes. Não é mais possível vermos essa situação na qual uma exigência de investigação concreta de corrupção é imediatamente vista por alguns como expressão de interesses partidários. O Brasil será melhor quando o ímpeto investigativo atingir a todos de maneira simétrica.

Blog do Saraiva

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os partidos não encantam mais


Para além dos partidos
Vladimir Safatle, Falha de S. Paulo

Costuma-se dizer que a democracia depende de partidos políticos fortes. No entanto talvez fosse mais correto dizer que ela depende da possibilidade de mobilizações populares para além dos partidos.

É importante lembrar isso em um momento histórico como o nosso, onde a força transformadora da forma-partido se esgotou.

Desde o início do ano, o mundo assistiu a uma sucessão impressionante de mobilizações populares. Tunísia, Egito, Israel, Chile, Espanha, Grécia, Síria, Bahrein, Reino Unido e, agora, os EUA -com as ocupações de Wall Street por "indignados". Raros foram os momentos históricos em que mobilizações ocorreram de forma tão global.

Olhando mais calmamente para elas, notam-se dois importantes pontos em comum: a presença maciça de jovens e uma organização feita a despeito dos partidos.

É bastante clara aqui a consciência de que a forma-partido, como a conhecemos, parece bloquear o campo do político e embotar a criatividade social exigida pelo confronto com novas situações. Os partidos não estão na vanguarda, mas a reboque dos processos.

São os jovens que, sabiamente, sentem mais claramente essa realidade. Por isso, eles não parecem dispostos a se engajar em partidos que submetem a inventividade do político ao raciocínio estratégico do dia. Na verdade, eles estão à procura de outra forma de organização política.

Muitas vezes, alternativas dessa natureza foram conjugadas no interior da lógica "mudar o mundo sem conquistar o poder". Bem, o que se pode dizer a respeito desse raciocínio é: os detentores do poder agradecem.

Ao contrário, espera-se de novas formas de organização política que elas apresentem modelos mais eficientes de governo, que elas nos ensinem, inclusive, a avaliar de outra forma ideias como "eficiência". Ou seja, não se deve temer o poder.

Há de se reconhecer a complexidade da equação: não aceitar o modelo de gestão do poder baseado na forma-partido sem cair em alguma forma de crença no espontaneísmo redentor da "vontade política".

Pensando nisso, talvez vejamos em alguns anos o aparecimento de algo como agremiações eleitorais compostas por vários pequenos grupos políticos que se unem para disputar eleições e modificar, por dentro, a lógica restrita da democracia parlamentar.

Modificação que permita a abertura da vida social para uma democracia com mais densidade de participação popular e com menos medo de uma soberania que se manifeste sem a necessidade de representações.

Certo é que, no mundo inteiro, os partidos não encantam mais.

via,  O Esquerdopata