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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

ESTAMOS NUMA DEMOCRADURA E AVANÇA CADA VEZ MAIS A CONTAGEM REGRESSIVA PARA UMA EXPLOSÃO SOCIAL

Estamos próximos, no Brasil de hoje, daquilo com que sonhavam os golpistas de 1964, ao planejarem uma intervenção cirúrgica para eliminar a influência da esquerda nos Poderes da nação, nos veículos de comunicação, nos sindicatos, nas instituições de ensino e no movimento estudantil, principalmente, para em seguida devolverem uma democracia expurgada e reformatada.

Mas, o arbítrio que era para durar poucos anos acabou estendendo-se por 21, durante os quais, na verdade, só se poderia enxergar uma ditabranda (conforme pretendeu a Folha de S. Paulo, num dos editoriais mais infelizes de sua história) no período final, sob João Baptista Figueiredo (1979-1985). O leão já estava desdentado, após os sucessivos fracassos no front econômico lhe retirarem a última justificativa para sua existência, deixando a ditadura em agonia lenta.

A situação atual, contudo, lembra mais o período de 1965 a 1967, quando o furor subsequente à usurpação do poder deu lugar a uma espécie de resignação e pasmaceira, com a contestação ao regime sendo banida das ruas, praças e locais de trabalho, mas consentida na música popular, no cinema e no teatro (a resistência a eles era tão ínfima que os militares se davam ao luxo de vestir a fantasia de déspotas esclarecidos...). 
Aí tivemos a escalada de radicalização ao longo de 1968, culminando em dezembro com a assinatura do Ato Institucional nº 5, que iniciou o período mais extremado e bestial do regime militar.

Durante as trevas absolutas que vão da entrada em vigor do AI-5 até o final do mandato de Emílio Médici em março de 1974, foram 279 os oposicionistas assassinados (baseio-me no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, mas não levo em conta a divisão meramente formal entre aqueles cuja morte foi provada e aqueles cuja existência evaporou sem deixar rastros...) e acrescentaram-se mais 12 atos institucionais à legislação de exceção.

Já no período 1965/67  os atos institucionais foram apenas três e os assassinados, 12, em contraste chocante com o morticínio de 1964 (27 mortos!!!), quando a vitória da quartelada foi comemorada à moda dos selvagens.

A comparação com a democradura de hoje se impõe. 

Então, o sistema mudava leis e extinguia direitos consolidados a bel-prazer, contando com a conivência de um Congresso que fora domesticado por meio das cassações de mandatos que modificaram a correlação de forças e intimidaram os oposicionistas salvos da degola.

Agora, os parlamentares estão exultantes com o semi-parlamentarismo decorrente da inapetência para o cargo do presidente-bufão, que lhes permitiu herdarem o papel de principais executantes das determinações do poder econômico, enquanto ele próprio se ocupa de ninharias e baixarias.
Pasmem: os patrões do PT rezam pela mesmíssima cartilha!

As pressões sobre a cultura, a imprensa e as instituições de ensino são ainda maiores atualmente do que naquele intervalo histórico. 

O movimento estudantil até agora não sofreu repressão comparável, p. ex., à desencadeada quando da setembrada de 1966, mas ainda é cedo para soltarmos suspiros de alívio: 2020 se prenuncia um ano sujeito a intempéries, à medida que ficar claro para os brasileiros que as reformas neoliberais do Paulo Guedes produzirão aqui o mesmíssimo resultado que estamos constatando ultimamente no Chile (após anos e anos de retórica triunfalista dos mercadores de ilusões!).

Mas, a principal diferença entre o despotismo esclarecido de 1965/1967 e a atual democradura é que a esquerda brasileira efetuou então o processo mais aprofundado de crítica e autocrítica de toda sua história, questionando erros cometidos e atuações desastrosas, para daquela derrota acachante extrair todas as lições aproveitáveis, no sentido de sua ampla reconfiguração. 

Havia a consciência de que jamais poderia ser repetido fracasso tão humilhante quanto o da derrubada do governo João Goulart sem nenhuma resistência significativa por parte daqueles que até a véspera diziam que já estavam no poder (dou nome ao boi: o fanfarrão Luiz Carlos Prestes).

Hoje, pelo contrário, o PT conseguiu evitar que suas terríveis lambanças fossem colocadas em xeque em 2016, quando do impeachment de Dilma Rousseff, e ameaça repetir o feito agora, se o posicionamento stalinista do Lula a respeito da autocrítica prevalecer.

A autocrítica abortada de 2016 nos conduziu à entrega do poder à extrema-direita em 2018. A nova Operação Abafa nos levará aonde? 

A uma ditadura sanguinária explícita, como sonham Olavo de Carvalho e seus miquinhos amestrados? 

Ou a um despotismo esclarecido permanente, como poderia ter ocorrido caso a esquerda não houvesse redescoberto a combatividade perdida em 1968?

No fundo, nosso povo não sairá da dramática e degradante situação atual se a subjugação ao poder econômico for imposta com a vaselina do Legislativo e do Judiciário, muito menos se com o ferro em brasa dos inquisidores redivivos.

Ou forjamos uma nova esquerda, reciclamos nossa atuação e reassumimos o protagonismo político, ou assistiremos impotentes, de braços cruzados, à explosão social que inevitavelmente decorrerá dos rigores neoliberais que nos estão sendo enfiados goela abaixo. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DE TEIMOSO QUE SOU, VOU SUGERIR UMA SOLUÇÃO PARA A ATUAL CRISE BRASILEIRA.

John Kennedy, o presidente dos Estados Unidos que chegou a dar sinal verde para a invasão de Cuba por contrarrevolucionários e mercenários por eles contratados, foi também capaz de perceber quão desastroso seria o envolvimento explícito e de recibo passado dos EUA em tal aventura, daí ter vetado o apoio aéreo e de artilharia, fundamentais para o êxito da empreitada. 

Não comia simploriamente na mão da CIA, o que tem muito a ver com o vasto complô que culminou no seu assassinato em 22 de novembro de 1963 (negado até hoje pela história oficial estadunidense, numa ofensa à inteligência de qualquer cidadão que não tenha QI de ameba!).

Com Kennedy fora do caminho, a CIA convenceu o caipirão texano Lyndon Johnson de que era necessário depor o presidente brasileiro João Goulart para evitar a tomada do poder pelos comunistas. 

Um espantalho que se esfarelou durante a própria execução do golpe: antecipando-se ao calendário do comando golpista, um fascista histórico e histérico saiu com seus recrutas de um quartelzinho mineiro e conduziu tranquilamente tal incrível exército Brancaleone num passeio pela Via Dutra, sem ser incomodado por efetivo nenhum do governo constituído (bastaria um caça da FAB ter disparado duas ou três rajadas de metralhadora por cima de suas cabeças para aqueles recos bisonhos estarem correndo esbaforidos até hoje...).
Eu vou eu vou/ derrubar governo agora eu vou/ parara-tim-bum

Mas, menos anedótico é o fato, inteiramente comprovado pela abertura de arquivos sigilosos dos EUA,  de que navios militares daquele país foram deslocados para a costa brasileira, colocando-se em posição para prestar ajuda aos golpistas, caso fosse necessária. 

Não foi: de resistência tão pífia como a que houve no momento do golpe, até cadetes dos colégios militares teriam dado conta.

Enfim, estou lembrando estes infaustos acontecimentos porque Donald Trump começará a mostrar a que veio no próximo dia 20 de janeiro. Como presidente em exercício não faz necessariamente o que sua retórica de campanha levava a crer (está aí a Dilma, que não me deixa mentir...), seria um erro darmos como favas contadas que, qual Lyndon Johnson e George Bush, Trump será mais um pateta comendo na mão da CIA.

Mas, também seria temerário descartar tal hipótese. Daquela vez, quatro meses e uma semana após a posse de um presidente sem noção nos EUA, a democracia brasileira foi para o ralo. É um precedente ruim demais para corrermos o risco de que se repita.

Os maus augúrios também advêm do derretimento dos nossos Poderes, a gerar um caldo de cultura muito perigoso, propício a viradas de mesa da extrema-direita (que hoje poderiam ter como pretexto o envolvimento e cumplicidade de parlamentares com a corrupção, explicitada nas sucessivas tentativas de enquadrarem e esvaziarem a Operação Lava Jato).

De antemão sabendo que a sensatez nunca deu muito ibope na tragicomédia brasileira, vou sugerir, de teimoso que sou, uma saída para, entre mortos e feridos, salvarem-se todos:
  • que se crie uma comissão mais ou menos como a deVerdade e Reconciliaçãoda África do Sul sob Nelson Mandela, dando aos corruptos a oportunidade de se livrarem das grades ou permanecerem fora delas, desde que confessem seus delitos, paguem indenizações por eles e nunca mais os cometam, sob pena de os processos serem retomados do ponto em que pararam ou as condenações cumpridas até o fim;
  • que os empresários não possam participar da diretoria de grande empresa nenhuma (muito menos de entes do Governo e do Estado) por período a ser fixado;
  • que os políticos não mantenham seus mandatos nem possam disputar eleição nenhuma ou atuarem em entes do Governo e do Estado  por período a ser fixado;
  • que uns e outros não possam exercer atividades explicita ou implicitamente lobistas por período a ser fixado.
Isto, claro, deixaria frustrados os que há tanto tempo sonham com um dia verem a Justiça sendo feita. Mas, seria bem melhor do que deixarmos a instabilidade atual prolongar ainda mais nossa agonia econômica ou, pior ainda, criar condições para o retrocesso histórico, com a volta às trevas ditatoriais.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

LINHAS MESTRAS PARA A ESQUERDA PÓS-PT


Lançamento do movimento Mais, no final de julho.
Se ainda havia dúvidas quanto ao fato de o Partido dos Trabalhadores ter-se descredenciado para o papel de força hegemônica da esquerda brasileira, as últimas eleições municipais as dissiparam. A derrota acachapante provou que a narrativa do golpe não convenceu a opinião pública nem levou o eleitorado a absolver o PT. Pelo contrário, a condenação foi inequívoca.

Emblematicamente, um dos agrupamentos que se propõem a ocupar o vazio deixado pelo PT marcou para este sábado (8) encontros municipais que pretende realizar em várias cidades: aNova Esquerda.

No final de julho, já fora fundado o Mais - Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (vide aqui). Iniciativas semelhantes pipocam pelo País.  

Sentindo-me um pouco como pai dessas crianças, encaro com simpatia todas as tentativas de recolocar a esquerda nos trilhos. 

Foi no terceiro trimestre de 2014 que me dei conta, simultaneamente, da iminência de uma grave crise econômica e do esgotamento do papel positivo do PT, que já não era capaz de formular propostas que empolgassem os explorados, apontando-lhes objetivos e direcionando suas lutas. Em desespero de causa, tentava sobreviver à custa da satanização dos adversários e do mais primário e falacioso alarmismo, já não mais pretendendo ser o melhor partido, mas sim martelando que "os outros são piores".
Nova Esquerda inicia sua trajetória

Percebi que a decadência do PT era irreversível e que a recessão vindoura criaria um caldo de cultura muito perigoso, pois poderia até propiciar um golpe como o de 1964, mergulhando o país numa nova ditadura.

Hoje admito ter superestimado a força que ainda restava ao partido. 

Conseguiu reeleger Dilma Rousseff na bacia das almas, à custa do pior estelionato eleitoral até hoje cometido num pleito presidencial em nosso país, mas foi praticamente destruído pela insistência em tentar corrigir os erros até então cometidos na condução da política econômica rendendo-se incondicionalmente ao inimigo em 2015. 

Como eu também alertara, caiu na mesma armadilha de João Goulart: governo de esquerda que encampa o receituário econômico da direita acaba não conquistando a confiança do grande capital nem convencendo suas próprias hostes, que passam a alvejá-lo com um desmoralizantefogo amigo. Resultado: bastou um piparote do Congresso para encerrar o segundo mandato de Dilma. Caiu de podre.
O QUE FAZER?

Agora, só nos resta juntarmos os cacos, começando de novo a empurrar a pedra para o topo da montanha.

Após o fiasco no pleito municipal, salta aos olhos que não adianta continuarmos questionando a legalidade do Governo Temer, pois ele já se consolidou.

Nem combatermos furiosamente suas propostas, antes mesmo de implantadas, pois é o outro lado que detém o poder de mídia e nos apresentará como inimigos do Brasil, sabotadores da recuperação do país (a ditadura militar utilizou amplamente tal lengalenga e a maioria da população engoliu a patranha, pelo menos até omilagre econômico começar a fazer água).

Em vez de darmos murros em ponta de faca numa conjuntura que nos é desfavorável, temos mais é de limparmos e reformarmos nossa casa, reagrupando-nos, fazendo rigorosa autocrítica dos erros cometidos, discutindo o que deve ser mudado, atualizando estratégias e táticas, depurando nossas fileiras (quem utilizou a causa para obter benefícios pessoais de forma ilícita não pode nelas permanecer, caso contrário o povo jamais voltará a acreditar em nós), criando novas forças, dando oportunidade à afirmação de outras lideranças, etc.

Não será num passe de mágica que vão surgir movimentos com propostas totalmente satisfatórias e incontroversas, há um caminho a percorrermos até tal estágio ser atingido. Até lá, convém sermos tolerantes com algumas inconsistências e impropriedades, na esperança de que sejam corrigidas adiante (vale, contudo, criticá-las francamente, como fez o Dalton Rosado, pois este é o momento em que tudo deve ser colocado em xeque, questionado e discutido).

Quanto às linhas mestras para nossa atuação neste novo momento das lutas sociais, a minha visão é de que:
  • ruíram as ilusões reformistas, não fazendo mais sentido acreditarmos que o capitalismo possa ser maquilado ouhumanizado (ou seja, contentarmo-nos em dele arrancar pequenas concessões, que acabam sendo esvaziadas num momento posterior, como hoje ocorre com a volta da nova classe de remediados à velha pindaíba);
  • ruíram as ilusões eleitorais, não compensando mais coonestarmos uma democracia flagrantemente a serviço da classe dominante mediante nossa participação no Executivo e Legislativo, pois o poder político hoje não passa de um patético fantoche do poder econômico;
  • o foco principal de nossa atuação tem de voltar a ser a sociedade, com empenho total em recuperarmos as ruas, pois a praça que é do povo como o céu e do condor (Castro Alves) não tem nada a ver com a Praça dos Três Poderes;
  • temos de travar de novo as lutas do povo ao lado do povo, pois é assim que acumularemos força para voos maiores, evitando a violência que só dará pretextos para nossa criminalização e deixando sempre claro que todas as vitórias obtidas sob o capitalismo são transitórias e a solução definitiva só virá quando o primado da competição canibalesca e da ganância desenfreada der lugar à livre cooperação dos homens em prol do bem comum.
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/10/linhas-mestras-para-esquerda-pos-pt.html

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Entrevista inédita de Jango expõe sua opinião sobre o golpe militar de 1964


João Goulart no exílio no Uruguai, em cena do documentário 'Dossiê Jango', de Paulo Fontenelle
O ex-presidente João Belchior Marques Goulart via sua queda no golpe de Estado de 1964 como resultado de uma campanha de "envenenamento" da opinião pública contra o seu governo. "Meu maior crime foi tentar combater a ignorância", dizia ele.

Para Jango, criou-se uma confusão entre justiça social (que ele disse ter buscado) e comunismo (que não compartilhava), e que após o assassinato do presidente americano John Kennedy, em 1963, os EUA começaram a derrubar governos constitucionais na América Latina, entre os quais o dele.

Três anos e sete meses depois de deixar o país, era assim que Jango via o painel da crise que o depôs.

Folha encontrou na Universidade do Texas uma entrevista inédita do ex-presidente feita pelo historiador americano John W. Foster Dulles (1913-2008). O depoimento, realizado em 15 de novembro de 1967 em Montevidéu, permaneceu desconhecido desde então.

Foster Dulles não a utilizou nos livros que escreveu sobre o Brasil ou personagens brasileiros, como Castello Branco e Carlos Lacerda. O historiador Jorge Ferreira, autor de uma biografia de Jango, disse desconhecer a entrevista. O mesmo foi dito por João Vicente Goulart, filho e responsável pelo instituto que leva o nome do ex-presidente.

Filho e sobrinho de dois dos americanos mais influentes do século 20, que ajudaram a moldar o poder dos EUA, o historiador Foster Dulles contou com a influência familiar para se encontrar no Brasil e no exterior com os principais personagens do golpe de 1964. A biblioteca Nettie Lee Benson, da Universidade do Texas, onde o americano lecionou, guarda as centenas de entrevistas realizadas por ele.

Entrevista de John W. Foster com Jango em 15/11/1967

João Goulart disse que estava em Cingapura quando recebeu a notícia da renúncia de Quadros. De Cingapura ele foi a Paris, onde os meios de comunicação com o Brasil eram bons. Goulart disse que tinha passado um ou dois meses fora do Brasil. De Paris, ele falou ao telefone com muitas pessoas no Brasil.

De acordo com Goulart, Auro de Moura Andrade não foi eleito pelo Congresso para o cargo de primeiro-ministro do Brasil durante o regime parlamentar. Goulart disse que o nome de Santiago Dantas foi submetido ao Congresso e analisado por ele. Goulart descreveu Crockatt de Sá como um assessor que ele tinha para assuntos trabalhistas.

Goulart disse que não há no Brasil nenhum sentimento contra o povo dos Estados Unidos. O Brasil quer que os latino-americanos tenham independência em suas discussões. O Brasil quer que os brasileiros, e isso inclui as classes populares, comandem seu próprio destino.

O Brasil sente que já houve por vezes um excesso de interferência por parte dos Estados Unidos. Embora o povo brasileiro não seja contra o povo dos Estados Unidos, pode se dizer que os governos dos Estados Unidos cometeram erros com relação à América Latina.

Sob John Kennedy, os Estados Unidos recuperaram sua perspectiva positiva da América Latina. Os Estados Unidos tiveram então uma política correta, uma que estava em comunhão com o povo. Kennedy era favorável à autonomia dos governos da América e era a favor dos benefícios sociais para a população.

Após a morte de Kennedy, três governos constitucionais na América Latina foram depostos. O governo constitucional do Brasil foi deposto. O governo constitucional da Bolívia foi deposto. O governo constitucional da Argentina foi deposto.

Goulart disse que é verdade que os governos militares possuem algumas vantagens. Mas o povo é democrático. Os Estados Unidos falam muito sobre democracia. Mas os Estados Unidos deveriam permitir a democracia.

Goulart disse que um excesso de liberdade é prejudicial. Mas disse que um excesso do oposto também é prejudicial. O Brasil poderia dar grande ímpeto ao processo democrático. Existe uma ligação entre os governos da América Latina e o governo dos Estados Unidos. Os Estados Unidos precisa do apoio do povo da América Latina.

Tanto Goulart quanto o povo da América Latina pensam que o povo dos Estados Unidos é bom e admiravelmente ativo. Não se deve confundir o povo dos Estados Unidos com os grandes grupos econômicos norte-americanos, que são repudiados pelo povo da América Latina.

Goulart disse que em seus esforços para promover reformas estruturais, ele fez concessões demais a grupos políticos no Brasil. A finalidade dessas reformas estruturais era promover a independência do Brasil, o desenvolvimento do Brasil e o bem-estar do povo brasileiro. Essas reformas são tratadas nas mensagens de 1963 e 1964 que Goulart enviou ao Congresso.

A mensagem de 1963 menciona todas as reformas. Estas foram reformas em prol da independência, do desenvolvimento, do bem-estar do povo e da justiça social. A justiça social não era algo no sentido marxista ou comunista.

O Brasil possui grande potencial. Mas uma reestruturação se faz necessária. Existe no Brasil um grupo pequeno e rico. As massas brasileiras são analfabetas, pobres e vivem em grande miséria.

Hoje a luta está sendo levada adiante de modo inteligente pela Igreja Católica. O povo latino-americano não tem tendências comunistas. O Brasil é católico em sua maioria avassaladora. O Brasil possui a maior porcentagem de população católica no mundo. O Brasil é o principal país católico do mundo.

Hoje, com o uso amplo de rádios e televisores, o povo pobre vê as condições melhores que existem em outros lugares. O grande problema é a justiça social. Não é um problema de comunismo. Mas a insatisfação pode se converter em revolta se as condições não melhorarem. 92% da América Latina se encontra na condição mais precária possível.

Goulart é a favor da concessão do direito de voto aos analfabetos. O analfabetismo não é culpa deles. As pessoas que podem ser chamadas a pagar impostos (e que são chamadas a fazer outra coisa — a palavra usada não está clara em minhas anotações) devem ter o direito de votar.

Goulart disse que, paralelamente à extensão do sufrágio aos analfabetos, os analfabetos devem ser ensinados a ler e escrever. Disse que durante seu governo foram criadas escolas populares para essa finalidade. O programa foi descrito como comunista pelos inimigos do regime. Chegaram a ser montadas escolas de alfabetização em praças públicas.

O ministro da Educação, Paulo de Tarso, foi tachado de comunista e sofreu muito devido ao que fez. Paulo Freire, que também sofreu pelo que fez, é um idealista. Ele é uma espécie de missionário, muito progressista. Seu crime foi tentar combater o analfabetismo. Quando mencionei o MEB, Goulart disse que a Igreja Católica ajudou muito com o programa de combate ao analfabetismo. Ajudou patrocinando aulas que eram ministradas pelo rádio. Goulart disse: "Meu governo deu a maior ajuda" a esse movimento. Goulart disse que, devido à ajuda dada por seu governo aos programas de rádio de aulas de alfabetização, Dom Hélder Câmara ficou muito amigo dele.

Houve uma campanha para envenenar a opinião pública contra "meu governo". Goulart disse que a imprensa estava contra seu governo. Ele acrescentou que a imprensa tem problemas financeiros e é influenciada por grandes grupos empresariais. Os produtos de empresas estrangeiras são anunciados na mídia de comunicação. A maior firma de relações-públicas, ou agência de publicidade, no Brasil é a McCann-Erickson, uma empresa americana. As empresas americanas no Brasil tanto manufaturam produtos no Brasil quanto recebem royalties por produtos produzidos no Brasil.

Goulart disse que seu governo foi acusado de ser um governo incapaz. Mas apontou para a participação de homens como Celso Furtado e Waldir Pires (que tem apenas 33 ou 34 anos e foi o procurador geral da República). Esses homens hoje são professores de universidades na França, tendo conquistado seus cargos em concursos competitivos. Waldir Pires, que está na França há um ano, conquistou seu posto de professor sem dificuldade, tendo ficado em primeiro lugar.

Com relação às remessas de lucros para o exterior, Goulart mencionou que a lei que afeta isso foi aprovada pelo Congresso e que o regulamento foi emitido pelo Executivo. Ele disse que um teto de 10% é um teto alto. É mais alto que os de outros países que têm tetos. O teto na Índia é de 8% a 9%. Existe no Brasil uma questão relativa à avaliação do capital original.

A regulamentação da lei de remessas de lucros no Brasil causou grande perturbação para o governo Goulart. As empresas estrangeiras reagiram mal. Goulart disse que o Brasil queria que parte do capital estrangeiro fosse como o capital nacional. Ele disse que o capital estrangeiro deve cooperar com o povo brasileiro. Disse que, quando o capital estrangeiro chega e depois retorna por completo de onde veio, não há vantagem para o Brasil – pelo contrário, o fato de todo o capital partir prejudica o Brasil.

Goulart disse que todo o capital estrangeiro deve ser bem recebido, mas deve colaborar. Não é interessante se ele vem simplesmente para especular e depois retorna integralmente ao exterior. Goulart disse que o capital estrangeiro é "absolutamente útil". Que ele deve ajudar o país para onde vai.

Mencionei o nome de Amauri Kruel. Goulart disse que Kruel tinha feito recentemente um discurso no Congresso em que disse que a revolução de 1964 foi feita com a finalidade de dar liberdades ao povo, mas que, como resultado da Revolução, houve a suspensão das liberdades. A Revolução, disse Kruel, foi para garantir liberdades, não para suprimi-las. Não foi feita para cancelar eleições. A Revolução foi traída, segundo as palavras de Kruel, conforme elas nos foram ditas por Goulart.

Goulart nos disse que as declarações que estava nos dando não eram declarações que deveríamos atribuir a ele. Disse que nos estava dando seus pontos de vista para ser prestativo; que suas opiniões representam seus sentimentos pessoais. O que eu deveria fazer era investigar e ver se suas opiniões estavam certas ou erradas.

Goulart disse que Djalma Maranhão antes era prefeito de Natal. Ali ele criou escolas em espaços públicos. Algumas dessas escolas foram construídas com materiais muito baratos. Essas escolas em Natal usavam o sistema de ensino de Paulo Freire.

Lucas Ferraz
No fAlha, via http://www.contextolivre.com.br/2014/12/entrevista-inedita-de-jango-expoe-sua.html

sábado, 23 de março de 2013

A estranha morte de Jango




Mauro Santayana, Blog: MauroSantayana

“A família de João Goulart autorizou a exumação de seus ossos, a fim de que se averigúe a causa de sua morte – atribuída a um ataque cardíaco. O presidente deposto era, desde jovem, cardiopata, e isso facilitou a versão oficial para o óbito prematuro. Jango morreu aos 57 anos. Sobre o assunto tenho depoimentos a dar. O primeiro deles é sobre a personalidade serena de Jango. Conheci-o em seus primeiros meses como Ministro do Trabalho, em visita a Belo Horizonte.

Como repórter, acompanhei-o em seus encontros com os líderes sindicais de Minas. Eu o veria várias vezes nos anos seguintes, antes de com ele conviver no exílio em Montevidéu. Jango foi fiel à memória de Vargas, a quem dedicava afeto de filho. Suas idéias eram as de Getúlio. A ele devo manifestações fortes de solidariedade naqueles anos sombrios.

Quando Lacerda morreu, Tancredo Neves comentou comigo suas suspeitas. Era curioso que as três personalidades mais fortes da oposição ao regime militar, e que haviam estabelecido uma aliança para a recuperação republicana do Brasil, morressem uma depois da outra: Juscelino em agosto e Jango em dezembro de 1976, e Lacerda em maio do ano seguinte. “Se todos morreram por acaso, isso só pode ser proteção de Deus ou do Diabo aos militares”.  Como já estivéssemos no processo conspiratório para a redemocratização do país, Tancredo abriu a camisa, mostrou a medalha que trazia no peito, e disse contar com seus santos protetores, entre eles São Francisco de Assis.

Os inúmeros depoimentos conhecidos mostram que os Estados Unidos não hesitam em livrar-se de seus inimigos, reais ou imaginários, por todos os meios. Quando lhes convêm, contratam sicários para a tarefa sórdida, como fizeram, ainda no festejado governo Roosevelt, ao recrutar o sargento Somoza para matar Sandino e, em seguida, entregar-lhe o governo da Nicarágua. Da mesma forma atuaram, ao apoiar, ostensivamente, o general Pinochet a fim de dar o golpe, bombardear o Palácio de La Moneda e dar fim a Salvador Allende, presidente do Chile. Quando isso não é recomendável, ou não dispõem de assassinos confiáveis, usam seus próprios agentes. Eles o fazem no “interesse da pátria”.

Conhecer a verdade sobre a morte de Jango, se  ainda é possível descobrir as provas de possível assassinato, 36 anos depois, é um direito de seus familiares, e, mais do que seu direito, direito da nação. Se isso ocorreu, provavelmente os responsáveis pelo assassinato ainda poderão  ser localizados – e pagar pelo seu crime. Se forem agentes estrangeiros, só um vazamento nos revelará a agressão.

Mas o conhecimento do crime será advertência severa contra aqueles que, em nome da “ordem”, ou de qualquer outra idéia, pregam a supressão da liberdade e submissão dos povos ao terror do Estado ditatorial.”

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O contra-Golpe de 11 de novembro

Uma aula de história

Qualquer semelhança com personagens e fatos narrados neste texto com o momento atual, especialmente com certos candidatos oposicionistas e comportamentos da imprensa, não é mera coincidência.
Movimento de 11 de Novembro (conhecido como Contra-Golpe ou Golpe Preventivo do Marechal Lott) foi um acontecimento político-militar registrado na história brasileira destinado a assegurar a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart, presidente e vice eleitos em 1955.