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domingo, 6 de novembro de 2016

Temer e a realpolitik petista


O impeachmeant, não obstante execrado pela militância pró-governo, foi o ato final da realpolitik petista, este eufemismo "elegante" que o marketing político adotou para tentar legitimar uma política de alianças que está - mesmo no âmbito latino-americano - entre as mais imorais e antirrepublicanas já praticadas por um partido nascido e ainda tido (por alguns desavisados) como de esquerda.

O surto de ulrapragmatismo acometeu o PT após as três derrotas presidenciais de Lula e inclui, por um lado, a transformação do outrora ameaçador e desgrenhado líder petista no "Lulinha paz e amor" de Duda Mendonça, com fala mansa e conciliadora, ternos bem-cortados e barba aparada. De outro, o expurgo das mais combativas correntes internas do partido, em um processo cujo maior símbolo foi a expulsão de Heloísa Helena, em 2003, em decorrência de sua posição ante a reforma da Previdência (a primeira de uma série de tungas contra os aposentados promovidas pelos governos petistas).


Sem limites

Daí em diante, foi um verdadeiro vale-tudo: em um elasticismo desprovido de afinidades programáticas ou limites éticos, a tal da realpolitik - saudada e defendida com unhas, dentes e sarcasmo pela mesma militância, que não fez auto-crítica e  que hoje urra contra o PMDB - aliou o petismo a Sarney, Collor, Maluf, Kassab, Delcídio, Kátia Abreu, "bispos" diversos, além de uma miríade de figuras do baixo clero. 

Dentre elas, um tal de Eduardo Cunha, desde sempre um escroque de baixo escalão, cuja ascensão no Rio foi patrocinada pelo mesmo consórcio PT/PMDB que elegeu Paes e Cabral e bancou - com aplausos entusiasmados mesmo em setores que se diziam de esquerda - o Estado policial simbolizado pelas UPPs, responsável, em 2013 e durante a Copa do Mundo, pela maior repressão a manifestações públicas das três décadas de democracia pós-ditadura.
Em tal cenário, só a ignorância plena, a má-fé ou o fanatismo induzem à conclusão de que, nos governos Lula e Dilma, o "Mensalão", "o Petrolão" e a corrupção disseminada são exceções, esquemas pontuais e secretos sobre os quais os governantes possam alegar desconhecimento - e não a consequência óbvia e direta de tal política de alianças.


Choque de realidade

Ainda assim, açulada por um governismo cego e fanático que durante anos foi predominante na blogosfera e nas redes sociais, uma "guinada à esquerda" foi desde o início anunciada em relação aos governos petistas, tendo cumprido um papel relevante (ou mesmo decisivo) nas últimas eleições - como parte fundamental do estelionato eleitoral no qual incorreu a candidata vencedora. 
Enquanto isso, no mundo real, o governo que findou "exibiu os piores índices de reforma agrária e de demarcação de terras indígenas da história, cortou verbas da Educação, extingue direitos trabalhistas e sucateia o SUS", como aponta a psicóloga e psicanalista Vera Rodrigues, em sua corajosa carta-resposta a um desses manifestos ditos pró-democracia que proliferaram nos últimos tempos, recheados de signatários que se omitiram covardemente nas diversas vezes em que o massacre aos índios, aos jovens (e não tão jovens) manifestantes e à população não branca ou periférica manchou e relativizou a democracia brasileira em anos recentes, sob chancela governamental.

Cortina de fumaça

Claro está que, com o arco de alianças forjado pela realpolitik petista, qualquer "guinada à esquerda" jamais passou de miragem. Ele serviu, no entanto - e muito bem - ao modelo predatório e arcaico de desenvolvimento instalado no país, o qual, por sua vez, foi decisivo na instrumentalização das grandes negociatas que, mesclando dinheiro público a interesses privados, serviram ao enriquecimento de uns e à(s) eleição(ões) de outros, como as evidências judiciais colhidas no bojo da Lava-Jato - mesmo com os recentes desvios de conduta que macularam pontualmente a operação - atestam (a tal respeito, defende Vera Rodrigues: "Os excessos da Operação Lava Jato, ou do juiz de primeira instância que a conduz, devem ser combatidos nas esferas jurídicas e políticas que dizem respeito ao Judiciário como um todo, e ao Estado Policial, fomentado por esse governo sempre que lhe interessou").

Liquidação geral

Mesmo antes do recrudescimento do impeachment, a pauta priorizada por Dilma II, após ter atacado direitos trabalhistas - ao alterar regras do seguro-desemprego, de pensões por invalidez e do seguro-defenso - era aumento de impostos via volta da CPMF e (mais uma) "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados, com violação de direitos adquiridos). Calcula agora, com o Planalto transformado em balcão público de negócios e alguns dos partidos mais retrógrados do país com amplo poder de chantagem sobre a presidente!

Estado de farsa

Em tal cenário e após tantos anos, continuar a propagar (e a acreditar em) qualquer laivo de esquerdismo ou progressismo ou o nome que se queira dar a políticas que priorizem o social, o desenvolvimento sustentado e os Direitos Humanos por parte desse governo é não apenas irreal - é deliberada e escandalosamente mentiroso.

Para onde vai a política brasileira?

Qual o futuro da política no Brasil? A resposta para esta questão, seja ela qual for, aponta para o esgotamento e a necessidade de superação do modus operandi político vigente no país ao menos desde o advento da “Nova República” (1984).

Seu traço distintivo é um tráfico de cargos e bens públicos, alegadamente em troca de apoio político, mas que na prática significa a perpetuação, nos níveis federal, estadual e municipal, da cultura estamentária de que nos fala Raymundo Faoro, protagonizada por politicos parasitários que sugam e tiram proveito privado do Estado.


Mercado de pulgas
Tal escambo do bem público tem sido a prática politica padrão de todos os partidos que se revezaram no poder desde a redemocratização. Só muda o rótulo: “balcão de negócios” na época do PMDB de Sarney, “toma-lá-dá-cá” com FHC e os tucanos, “realpolitik” na era petista de Lula e Dilma.

A recente fala pública de Aloizio Mercadante anunciando, sem o mínimo pudor, que o segundo escalão será preenchido por quem votar com o governo é a coroação dessa baixa politica, em que cargos técnicos e de comando – que deveriam ser ocupados pelos especialistas mais dotados e capazes – viram mera moeda de troca por um voto no Parlamento. E tal voto - que, por sua vez, deveria se dar em consonância com a consciência, a convicção e o alinhamento ideológico, político e partidário do parlamentar - é trocado por um cargo bem remunerado e de algum prestígio. Como se de uma mera relação comercial se tratasse.




Danos de monta
É imenso, incomensurável o atraso que tal prática politica acarreta ao país, cuja condução fica a cargo de pessoas não apenas despreparadas, mas ávidas por ganhos pessoais advindos de sua posição privilegiada; à democracia, que já carece de partidos programáticos e ideologicamente coesos; e à deteriorização da visão pública que se tem da política, como antro de sujeira e de corrupção.

Essas mais de três décadas de polticas de gabinete, entre a chantagem parlamentar e o suborno do Estado, tornaram a própria política brasileira anacrônica. E esse atraso não diz respeito apenas a instituições, e sim às relações entre arena pública, democracia e ação politica, em todas suas potencialidades. No bojo de tal processo – que o poder quer imutável – são mínimas e negligenciadas as formas efetivas de participação política e de democracia direta; a incorporação efetiva de uma pauta biopolítica que supere o meramente econômico e abarque, como prioritárias, as demandas comportamentais, corpóreas, sanitárias, educacionais, ambientais, recreativas – bem como a promoção efetiva dos direitos humanos de quarta geração.


Esgotamento
Mas, por outro lado, há um claro esgotamento público para com a corrupção, açulado por grandes processos em que Justiça e mídia desempenham um papel central, como o Mensalão e a Operação Lava-Jato. Para além das questões de justeza, de tratamento desigual entre escândalos tucanos e escândalos petistas, de teorias conspiratórias variadas sobre golpes e contragolpes, o fato é que a tolerância para com a corrupção acabou e que esta, neste momento, mostra-se profundamente associada, no imaginário político brasileiro, ao PT.

PT cuja guinada violenta à direita, hoje simbolizada pelo estelionato eleitoral em curso, não é fato recente, decretado pelas consequências da traição eleitoral de Dilma. Trata-se de um processo, que começou efetivamente lá atrás, na primeira eleição de Lula, com concessões sucessivas ditadas por umarealpolitik cada vez mais elástica e amoral - que seria temerariamente esticada, ao longo dos anos, por alianças do PT com personagens como Jader Barbalho, Collor e Maluf.


Corrupção moral
Tal processo agravou-se com o primeiro mandato de Dilma, que - como este blog documentou desde o início – teve na ampliação da hegemonia política via concessões ao conservadorismo o seu principal norte político. Uma dinâmica cujo fim seria – como alertamos diversas vezes entre 2011 e 2014 – o desequilíbrio do pêndulo da política brasileira para o espectro centro-direita, com o esvaziamento político, eleitoral e programático da esquerda.

O que se vê hoje em dia é apenas o bagaço dessa laranja: o petismo tanto cedeu à direita que terminou sua presa, praticando, neste momento, a mesma velha política neoliberal da era FHC, cortando na carne de trabalhadores e desempregados para fazer altos superávits primários e agradar ao mercado financeiro. Se a corrupção financeira é ainda por alguns ingênuos ou fanáticos questionada, a corrupção moral torna-se evidente.



Covardia e conformismo
E setores que poderiam se contrapor, à esquerda, a esse quadro, preferiram, nas últimas eleições, apostar no medo - já covarde e  artificialmente inflado pelo marqueteiro oficial -, confortavelmente insistindo na leniência para com o retrocesso petista, que já era mais do que evidente.

 Pois que Dilma tenha se reeleito graças ao decisivo “voto crítico” de psolistas e demais setores que se dizem de esquerda é uma prova precoce – mas contundente – não só da miopia e má formação política dessa pretensa vanguarda, mas que ela não é coerente com as demandas de renovação das práticas politicas no país. Continua presa aos padrões convencionais e mercantilistas da política. Um museu de grandes novidades, como disse o poeta.


Horizontes
Portanto, a resposta à pergunta que abriu este texto – qual o futuro da política no Brasil? - não virá desse campo minado, desses políticos de discurso ora nuançado, ora agressivo de esquerda mas de postura invariavelmente  retrógrada quando o tema é segurança pública, drogas ou sexualidade.

Os termos de tal resposta nos é permitido apenas intuir; só o futuro dirá se a atual crise do país acabará por impor mudanças de monta ou a agravar ainda mais o retrocesso. Por ora podemos apenas afirmar que a renovação da política no Brasil passa, necessariamente, por um lado, pela horizontalização do debate popular e pelo salto qualitativo no exercício da cidadania; e, por outro, pela reformulação dos partidos e pelo fim do aparelhamento e loteamento do Estado a cada troca de siglas no poder. Que forças serão capazes de se incumbirem de tamanha tarefa só a própria população brasileira poderá determinar.



(Imagem retirada daqui)

http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2015/05/para-onde-vai-politica-brasileira.html

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cunha preso: fim da impunidade ou bode expiatório?

Caio Dezorzi
Na esquerda, há quem comemore a prisão preventiva de Cunha decretada pelo juiz Sergio Moro. Claro que dá gosto ver se dar mal um crápula político como Cunha, porém diria o filósofo holandês Espinoza “Nem rir, nem chorar, mas compreender!”.
A Operação Lava-Jato, por seu alcance e envergadura, pode ter muitos propósitos, mas nenhum deles é “acabar com a impunidade e a corrupção”, pelo contrário. Seu propósito central é manter o sistema capitalista, seu Estado e suas instituições; logo manter também a corrupção, que é inerente e intrínseca ao capitalismo.
O Poder Judiciário brasileiro está muito afinado com a burguesia imperialista internacional. Buscam salvar o Estado burguês brasileiro e suas instituições contra a revolta popular. Este alarme soou para eles com as Jornadas de Junho de 2013. Logo após, no início de 2014, deflagram a Operação Lava Jato. Seus principais objetivos políticos são:
  1. Promover uma renovação de representantes políticos da burguesia (compreenderam a necessidade disso para buscar salvar as instituições). E há referências históricas disso em outros países; a mais notável foi a “Operação Mãos Limpas” que promoveu uma renovação desse tipo na Itália nos anos 1990, levando a uma remodelação de todos os grandes partidos italianos.
  2. Criminalizar e desmoralizar o PT (a renovação já incluiria o PT, ainda mais quando este mostrou não ser mais útil como mantenedor da “paz social”, após junho de 2013) e com isso criminalizar todos os movimentos sociais e organizações da classe trabalhadora e da juventude (aqui é preciso dizer que isso vinha sendo operado com o apoio do próprio governo Dilma – por exemplo, Lei Antiterrorismo).
  3. Facilitar a concentração de capital para as grandes multinacionais do petróleo e da construção (por isso o cerco às empreiteiras nacionais privadas como Odebrecht, OAS, etc. e à petroleira estatal Petrobras).
Cunha articulou o impeachment de Dilma para tentar safar ele e seus comparsas desta faxina imposta pelo imperialismo e seus sócios menores burgueses através do Judiciário brasileiro. Isso está nítido nos grampos divulgados com conversas entre Romero Jucá e Sergio Machado. E os que de fato mandam no jogo, muito mais espertos que Cunha, deixaram que ele trabalhasse enquanto lhes era conveniente. Ele acabou ajudando em um dos objetivos da operação: desmoralizar o PT. Mas agora, chegou a sua vez. Resta saber se ele ainda terá cartas na manga para tentar ser varrido somente para debaixo do tapete. O mais provável é que façam de Cunha um bode expiatório para que a limpeza não vá “longe demais”. Certamente, Serras, Aécios, Alckmins, Calheiros, Temers e outros estão trabalhando para isso. Nenhum deles gostaria de uma delação premiada de Cunha. Mas ainda assim, Cunha pode negociar e delatar quem lhe for conveniente, poupando outros aliados. A mesma Lava-Jato pode ainda buscar condenar Lula, mesmo sem provas. Será uma decisão política e não uma consequência jurídica, assim como foi o impeachment de Dilma.
Romero Jucá e Sérgio Machado falavam claramente em uma das conversas grampeadas: "ELES querem pegar todos os políticos (...) Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com...".
"ELES" são os seus amos imperialistas, que decidiram renovar seus representantes brasileiros, antes que o povo em revolta o faça. E os seus ex-representantes estão tentando se defender. O impeachment de Dilma foi um meio para chegar a um pacto que consideram necessário com o Supremo, para estancar a Lava-Jato. Mas não combinaram com os imperialistas. E os imperialistas estão medindo a temperatura para ver até onde devem levar a cabo sua faxina. Pretendem refundar a república sobre bases burguesas ainda mais submissas ao capital financeiro internacional – a PEC 241 que propõe congelar por 20 anos o orçamento nacional para engordar o pagamento de juros da dívida é uma amostra disso.
No meio desta guerra entre máfias brasileiras e setores do imperialismo e da burguesia nacional, nós devemos ganhar tempo para construir as forças do proletariado e varrer todos eles através de uma Assembleia Popular Nacional Constituinte, que decrete a falência do Estado Burguês. Construir isto é o único caminho. Não é pra já, sabemos. Pode levar tempo. Mas as massas estão fazendo suas experiências. Demonstraram um claro rechaço ao sistema político burguês com o aumento de votos nulos, brancos e abstenções nas duas últimas eleições. Aprenderão a superar suas direções que só falam em Greve Geral da boca pra fora, e na prática desorganizam e rifam o movimento. Uma nova geração de trabalhadores, que hoje são estudantes ocupando escolas, virá. É provável que ainda haverá eleições burguesas no meio do caminho que não deverão ser ignoradas. Participaremos delas também, mas sempre levantando alto as consignas revolucionárias. E só assim asseguraremos que todos os Cunhas não sejam varridos para debaixo do tapete, mas para a lata de lixo da história, que é o lugar deles!
 Do: http://www.marxismo.org.br/content/cunha-preso-fim-da-impunidade-ou-bode-expiatorio

domingo, 19 de junho de 2016

Greenwald: Enquanto a corrupção assombra Temer, caem as máscaras dos movimentos pró-impeachment


protesto

Por Glenn Greenwald, via Intercept

O impeachment da presidente do Brasil democraticamente eleita, Dilma Rousseff, foi inicialmente conduzido por grandes protestos de cidadãos que demandavam seu afastamento. Embora a mídia dominante do país glorificasse incessantemente (e incitasse) estes protestos de figurino verde-e-amarelo como um movimento orgânico de cidadania, surgiram, recentemente, evidências de que os líderes dos protestos foram secretamente pagos e financiados por partidos da oposição. Ainda assim, não há dúvidas de que milhões de brasileiros participaram nas marchas que reivindicavam a saída de Dilma, afirmando que eram motivados pela indignação com a presidente e com a corrupção de seu partido.

Mas desde o início, havia inúmeras razões para duvidar desta história e perceber que estes manifestantes, na verdade, não eram (em sua maioria) opositores da corrupção, mas simplesmente dedicados a retirar do poder o partido de centro-esquerda que ganhou quatro eleições consecutivas. Como reportado pelos meios de mídia internacionais, pesquisas mostraram que os manifestantes não eram representativos da sociedade brasileira mas, ao invés disso, eram desproporcionalmente brancos e ricos: em outras palavras, as mesmas pessoas que sempre odiaram e votaram contra o PT. Como dito pelo The Guardian, sobre o maior protesto no Rio: “a multidão era predominantemente branca, de classe média e predisposta a apoiar a oposição”. Certamente, muitos dos antigos apoiadores do PT se viraram contra Dilma – com boas razões – e o próprio PT tem estado, de fato, cheio de corrupção. Mas os protestos eram majoritariamente compostos pelos mesmos grupos que sempre se opuseram ao PT.

É esse o motivo pelo qual uma foto – de uma família rica e branca num protesto anti-Dilma seguida por sua babá de fim de semana negra, vestida com o uniforme branco que muitos ricos  no Brasil fazem seus empregados usarem – se tornou viral: porque ela captura o que foram estes protestos. E enquanto esses manifestantes corretamente denunciavam os escândalos de corrupção no interior do PT – e há muitos deles – ignoravam amplamente os políticos de direita que se afogavam em escândalos muitos piores que as acusações contra Dilma. 


Claramente, essas marchas não eram contra a corrupção, mas contra a democracia: conduzidas por pessoas cujas visões políticas são minoritárias e cujos políticos preferidos perdem quando as eleições determinam quem comanda o Brasil. E, como pretendido, o novo governo tenta agora impor uma agenda de austeridade e privatização que jamais seria ratificado se a população tivesse sua voz ouvida (a própria Dilma impôs medidas de austeridade depois de sua reeleição em 2014, após ter concorrido contra eles).

Depois das enormes notícias de ontem sobre o Brasil, as evidências de que estes protestos foram uma farsa são agora irrefutáveis. Um executivo do petróleo e ex-senador do partido conservador de oposição, o PSDB, Sérgio Machado, declarou em seu acordo de delação premiada que Michel Temer – presidente interino do Brasil que conspirou para remover Dilma – exigiu R$1,5 milhões em propinas para a campanha do candidato de seu partido à prefeitura de São Paulo (Temer nega a informação). Isso vem se somar a vários outros escândalos de corrupção nos quais Temer está envolvido, bem como sua inelegibilidade se candidatar a qualquer cargo (incluindo o que por ora ocupa) por 8 anos, imposta pelo TRE por conta de violações da lei sobre os gastos de campanha.

E tudo isso independentemente de como dois dos novos ministros de Temer foram forçados a renunciar depois que gravações revelaram que eles estavam conspirando para barrar a investigação na qual eram alvos, incluindo o que era seu ministro anticorrupção e outro – Romero Jucá, um de seus aliados mais próximos em Brasília – que agora foi acusado por Machado de receber milhões em subornos. Em suma, a pessoa cujas elites brasileiras – em nome da “anticorrupção” – instalaram para substituir a presidente democraticamente eleita está sufocando entre diversos e esmagadores escândalos de corrupção.

Mas os efeitos da notícia bombástica de ontem foram muito além de Temer, envolvendo inúmeros outros políticos que estiveram liderando a luta pelo impeachment contra Dilma. Talvez o mais significante seja Aécio Neves, o candidato de centro-direita do PSDB derrotado por Dilma em 2014 e quem, como Senador, é um dos líderes entre os defensores do impeachment. Machado alegou que Aécio – que também já havia estado envolvido em escândalos de corrupção – recebeu e controlou R$ 1 milhão em doações ilegais de campanha. Descrever Aécio como figura central para a visão política dos manifestantes é subestimar sua importância. Por cerca de um ano, eles popularizaram a frase “Não é minha culpa: eu votei no Aécio”; chegaram a fazer camisetas e adesivos que orgulhosamente proclamavam isso: 


Evidências de corrupção generalizada entre a classe política brasileira – não só no PT mas muito além dele – continuam a surgir, agora envolvendo aqueles que antidemocraticamente tomaram o poder em nome do combate a ela. Mas desde o impeachment de Dilma, o movimento de protestos desapareceu. Por alguma razão, o pessoal do “Vem Pra Rua” não está mais nas ruas exigindo o impeachment de Temer, ou a remoção de Aécio, ou a prisão de Jucá. Porque será? Para onde eles foram?
Podemos procurar, em vão, em seu website e sua página no Facebook por qualquer denúncia, ou ainda organização de protestos, voltados para a profunda e generalizada corrupção do governo “interino” ou qualquer dos inúmeros políticos que não sejam da esquerda. Eles ainda estão promovendo o que esperam que seja uma marcha massiva no dia 31 de julho, mas que é focada no impeachment de Dilma, e não no de Temer ou de qualquer líder da oposição cuja profunda corrupção já tenha sido provada. Sua suposta indignação com a corrupção parece começar – e terminar – com a Dilma e o PT.

Neste sentido, esse movimento é de fato representativo do próprio impeachment: usou a corrupção como pretexto para os fins antidemocráticos que logrou atingir. Para além de outras questões, qualquer processo que resulte no empoderamento de alguém como Michel Temer, Romero Jucá e Aécio Neves tem muitos objetivos: a luta contra a corrupção nunca foi um deles.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

JANOT, EU NÃO SOU BURRO, JANOT

O patrão



Por Francisco Costa

Sr. Janot, perdoe-me, não chamá-lo de excelência, mas a minha disposição anda escassa para isso, de excelente no momento... Nada nem ninguém.

Vejo, ouço e leio muita gente dividida a seu respeito, uns achando que é o homem certo no lugar certo, e outros achando que é mais um golpista entre golpistas.

Há muito venho tentando entender o mecanismo do golpe, buscando desde entre as pistas óbvias até as mais estapafúrdias possibilidades, e acho que o encontrei, e justamente na boca da mais velha das velhas raposas velhas, José Sarney, o remanescente do dilúvio bíblico, mais velho que Matusalém.

Na conversa com Sérgio Machado, no telefone grampeado, porque, por ordem da PGR, dos prostíbulos e botequins ao gabinete da Dilma, está tudo grampeado, exatamente como na ditadura militar, onde monitoravam até os traques, peidos e puns.

Em determinado momento o ancião remanescente do Gênesis, capítulo primeiro, assim se manifestou: “eles não aceitam nem parlamentarismo com ela”.

Já ouvi, isso, em 64, “eles não aceitam nem parlamentarismo com ele”, quando o segundo ele era Jango e o primeiro, os norte americanos.

Agora, o ela é Dilma, claro, e o eles nos remete não a uma equação, mas a um sistema de equações, porque com mais de uma incógnita, mas todas fáceis de serem dadas a conhecer.

Comecemos: havia os preparativos de um golpe há pelo menos alguns anos, e para tal contribuíram os cursos dados aos nossos juízes e procuradores do ministério público, nos States ou aqui, mas ministrados pelos juízes de lá, quando se estruturou a Lava Jato, quartel general do golpe e posto avançado dos órgãos de intervenção norte americanos.

A proposta e programa inicial era o de esfacelar a esquerda brasileira e neutralizar as suas lideranças, notadamente Dirceu, Lula e Dilma, pela ordem.

Municiado pela espionagem norte-americana sobre a Petrobras, denunciada pela Wikileaks e confirmada por autoridades do império, Moro começou o estrago, continuando a partir de novas informações, sempre de lá, da matriz, de maneira a que fossem pinçadas as pessoas certas, para depor.

A cada nova informação, uma nova fase (quantas vezes estranhei uma nova fase da Lava Jato não ter nada com as anteriores!).

Mas, fora do script, apareceu um maluco, megalômano e com a desonestidade acima de qualquer limite, Eduardo Cunha, e precipitou tudo, sendo bem vindo porque apressando os planos dos “irmãos do norte”.

No parlamento, uniram-se os que estavam comprometidos com o golpe, uma minoria, principalmente do PSDB, e o resto embarcou, fosse por oportunismo, para fugir da justiça, fosse porque foram remunerados para isso.

Veio o episódio Delcídio, uma aberração, já que a nossa Constituição só permite a prisão de senadores em flagrante de delito, o que não foi o caso, ou que só haja condução coercitiva quando há resistência, o que não aconteceu com Lula.

Para os senhores a Constituição é só um detalhe, um estorvo menor.

Afastada a presidente, o STF, uma extensão da Lava Jato, via Gilmar Mendes, nada fez para impedir que Michel Temer, o interino que não age como tal, nomeasse ministros, alterasse a política econômica, a diplomacia, como se tivesse sido eleito e empossado, democraticamente, com o aval do povo brasileiro.

Tudo isso só foi possível, sem resistência, porque a mídia colaborou, parte dela subordinada, a reboque, e parte participando da liderança, caso da tevê Globo.

E como isso aconteceu? Com factóides, sensacionalismo, escândalos pré fabricados, nascidos no judiciário, passando pelo seu gabinete, tendo a sua anuência, para que acontecessem, inclusive o grampo no telefone da senhora presidente.

Enquanto Moro providenciava o desmonte das nossas empreiteiras, colocando dezenas de milhares de trabalhadores na rua, parava as nossas pesquisas científicas, mormente as da área de energia nuclear, depreciava o valor das ações da Petrobras, para facilitar a privatização, a PGR municiava a mídia: triplex do Lula, iate do Lula, sítio do Lula, Delcídio, Vaccari... Aliviando os verdadeiros denunciados, alguns deles lideranças no golpe, outros, desinteressantes para os planos golpistas.

Com o afastamento da presidente, vieram os absurdos de Temer, sempre contra a parcela de menor poder aquisitivo do povo, e veio a resistência, num crescendo inesperado, a ponto da tevê Globo, a contragosto, ter que noticiar.

É preciso neutralizar isso e manter as atenções distantes das arbitrariedades golpistas, e aí o anúncio das prisões de Jucá, Renan e Sarney.

Não serão presos. Se forem será por pouco tempo, porque para o judiciário brasileiro não interessa o fato ou o agente motivador do fato, mas as conseqüências do fato, e aqui é manter os holofotes longe do parlamento e do gabinete Temer.

Particularmente acho um absurdo prender esses três ladrões, e por um motivo muito simples: são senadores da república, e por isso só podem ser presos em flagrante de delito, e não pela vontade de golpistas.

Sou democrata, e assim como não admito arbitrariedade contra os meus, não admito que sejam cometidas contra os meus adversários e meus inimigos, porque logo chegará a minha vez. Não há democracia parcial. Se houvesse a Lava Jato se justificaria.

Quer moralizar o país, prender os que estão solapando a república? Anote aí: Gilmar Mendes, Sérgio Moro, José Serra, Aloysio Nunes, Michel Temer e a si próprio, o resto é figuração, bandidinhos de menor periculosidade, politicamente falando, não resistem a um interrogatório.

Mas isso só se os norte-americanos deixarem.

Afinal, são eles que estão movendo os cordões dos mamulengos tupiniquins.

sábado, 14 de maio de 2016

Impeachment de Dilma, o fruto maduro da ação de esvaziamento da política



Classifica-se de “grau zero” o instante, o ponto, o momento a partir do qual o objeto pensado perde o seu significado, sendo aniquilado em seu sentido axiológico, esvaziando-se completamente de sentido e finalidade. Instaurado esse niilismo essencial, o objeto pode continuar formalmente a existir, porém encontrando fundamento de validade em outra dimensão da realidade estrutural e com alteração das regras até então estabelecidas. No fundo, deixa de existir e o que subsiste é coisa distinta, de outra essência e com outra finalidade.
Nesse sentido, grau zero da política seria o momento a partir do qual a política se despe de sua finalidade histórica de instrumento de mediação entre os diversos interesses conflitantes na sociedade em torno dos modos de direcionamento das demandas públicas. Através da política se evita a necessidade de utilização da força física, bruta, como meio de vencer as discussões públicas, o que sempre privilegiará os mais fortes em detrimento dos desfavorecidos, desequilibrando a balança social.
Dito de outro modo, o grau zero da política se materializa pela impossibilidade prática de a classe política exercer influência efetiva na política real do estado-nação. Nada mais representa do que um retorno virtual ao estado de natureza, que opera sob a lógica da lei do mais forte.
Instaurado o grau zero, a classe política , impotente, deixa de perseguir o desenvolvimento de ações públicas verdadeiramente necessárias ao bem-estar da população, passando a legislar exclusivamente em prol de interesses das elites dominantes e de suas corporações ou, ainda, em favor dos interesses pessoais deles próprios, deixando ao abandono sua missão representativa dos eleitores.
Claro que aqui não se entende por política a mera expressão da prevalência da força sobre os interesses ou vontade da maioria, que representa, na verdade, a negação da política. A guerra não é, como se costuma dizer, o prosseguimento da política por outros meios, mas a consequência material do fracasso da política. Toda vez que a força se impõe se está diante do esvaziamento da política.
O filósofo francês Baudrillard, que pontificava a existência de uma realidade "real" subjacente à realidade virtual que vivenciamos (com isso inspirando os diretores do filme Matrix), era bastante incisivo quanto às limitações do poder dos políticos eleitos: segundo ele, esse poder simplesmente não existia.
Bauman sustenta que, com a globalização, finalmente chegamos ao "grau zero da política". O sociólogo polonês, se referia, claro, ao mundo inteiro; o Brasil não é exceção.
A negação da política, ou sua reversão em outra coisa, decorre pura e simplesmente da extrema influência de uma força notável - o poder financeiro - sobre um sistema político que possui pouca ou nenhuma proteção em relação à malignidade dessa influência.
Por conta dessa interferência, há uma degeneração da atuação política, do que resulta que, na prática, os governos das nações deixaram de possui poder efetivo, subjugados que foram pelas forças econômicas. Assim, pode-se legitimamente questionar o benefício público de toda ação governamental, interna ou externa.
Apenas como exemplo, qual teria sido a real motivação para a invasão do Iraque? Uma suposta defesa do povo iraquiano assassinado por Saddam? E como isso se coaduna com o número muito maior de mortos entre civis que veio a partir da "proteção" dos iraquianos pelo exército dos EUA? Ou o motivo seria a proteção do mundo contra a fabricação de armas em destruição em massa? Como conciliar isso com a sistemática negação de sua existência por diversas fiscalizações da ONU, prévias à invasão americana, inexistência que foi confirmada no pós-guerra?
É racional e inteligente entender que um país altamente endividado, como os EUA, cuja população em geral não demonstra simpatia pelos islamitas, iria se meter numa guerra com um país soberano para cândida e graciosamente interferir em benefício de um povo muçulmano? Em nome da liberdade, democracia e justiça? Parece um pouco ingênuo, inclusive se observado que diversos povos africanos penam há décadas com regimes facínoras e genocidas, useiros e vezeiros em dizimar ou mutilar tribos inteiras, sem que os americanos demonstrem qualquer compaixão ou tão elevado espírito altruísta.
Não parece mais coerente compreender a invasão do Iraque sob a lógica de um exercício puramente econômico dos conglomerados, interessados em interromper a ociosidade da indústria bélica, em pôr as mãos no petróleo iraquiano e na reconstrução da infraestrutura destruída pela própria guerra? Afinal, a maior lição ensinada a quem quer solucionar um crime é "siga o dinheiro".
Seria o caso, até, num exercício de reflexão extremado, refletir sobre os verdadeiros interesses subjacentes à derrubada das torres gêmeas. Será que Osama realmente considerou que seria uma ótima jogada, muito lucrativa para a sua luta, sequestrar aviões e jogá-los contra prédios americanos? Ou haveria coisa bem mais sórdida, e quase inacreditável, por detrás dessas ações suicidas?
São ações assim que sinalizam para a instalação do grau zero na política. As ações governamentais passam a materializar apenas os interesses dos que controlam a economia. A palavra economia, aqui, é utilizada em sua acepção mais ampla, não incluindo somente a porção produtiva, e saudável, desse jardim, mas também sua erva daninha, o rentismo. A distinção é importante, pois o setor produtivo acaba sendo, de certa forma, prejudicado pela ação dos rentistas, os sanguessugas da humanidade. Esses últimos é que, em geral, exercem mais pressão e força sobre a política econômica e, consequentemente, sobre a política.
O grau zero de política degenera a atuação de todos os atores políticos e todos os poderes da república.
No Brasil, estamos assistindo ao massacre da democracia pela atuação conjunta das instituições por conta da atuação de um governo que foi visto, desde o início, como obstáculo aos interesses corporativos. Judiciário, legislativo, ministério público e polícia federal uniram-se para destituir um governo legitimamente eleito sob as mais estapafúrdias alegações e contra a ordem legal. Essa atuação conjunta foi importante para tentar conferir um ar de legitimidade ao que o mundo inteiro já reconheceu como golpe na democracia. Hoje somos comparados ao Paraguai e à Honduras, sem demérito para esses países, cujas forças políticas encenaram essa mesma farsa.
Qual o verdadeiro pecado do PT? Corrupção? Violação da lei de responsabilidade fiscal?
A primeira resposta é não, a Dilma não está sendo acusada de corrupção.
Em relação à primeira, não há nenhuma dúvida. Nem mesmo os veículos mais sujos da mídia, que figuram entre as maiores empresas de informação do país, acusam a Dilma de corrupta.
Num regime democrático e num estado de direito, não se pode compensar uma suposta impunidade por conta de acusação grave que não se consegue provar através de pesada punição por outra infração leve, esta comprovada. Alguém poderia lembrar Capone. Ocorre que, lá, a condenação de Capone foi proporcional ao crime cometido e provado: sonegação fiscal. Não se tratou, como pode parecer, de condenação além do limite legal para compensar os assassinatos por ele cometidos.
Aqui, o impeachment de Dilma em decorrência das "pedaladas", como chamou a atenção a senadora Gleisi Hoffmann, constituiria uma condenação absolutamente desproporcional ao suposto ilícito, algo como condenar alguém à morte em função de uma infração de trânsito. É importante relembrar: o impeachment de Dilma por esse motivo exigiria o impeachment de diversos governadores de estado que sempre fizeram o mesmo, inclusive Geraldo Alckmin. O próprio relator do impeachment no senado, quando governador, cometeu as malsinadas pedaladas. Claramente se percebe o exagero.
Além disso, a segunda resposta é, não, a Dilma não violou a lei de responsabilidade fiscal.
Como não conseguiram ligar Dilma à alegada corrupção do PT, apegaram-se a uma suposta violação à lei fiscal e orçamentária. Ocorre que foi comprovado, tanto na câmara dos deputados, como no senado, que as supostas violações, apelidadas de "pedaladas" ocorreram antes da mudança da lei e, mais, foram posteriormente autorizadas pelo congresso. Ou seja, ela não poderia mais sofrer sanção por conta delas.
Além disso, as alegadas "pedaladas" de 2015, que poderiam ensejar a punição, se referem a ano orçamentário que não havia ainda se encerrado quando a denúncia foi formulada, de modo que se trata de acusação contra contas que não foram analisadas, nem pelo TCU, nem pelo congresso. E, como cereja do bolo, o técnico do TCU, em depoimento no congresso, reconheceu que em 2015 elas não ocorreram.
Se Dilma não é corrupta e sua conduta orçamentária e fiscal em nada difere do que sempre foi praticado no governo federal e nos governos estaduais, por que, então, se deseja o seu impeachment?
A resposta implica retornamos à questão do grau zero de política.
O fato é que os governos do PT fugiram ao rigor extremo da cartilha do niilismo político que os poderes globalizantes desejam seja praticada pelos diversos governos nacionais, principalmente pelas nações da periferia, como o Brasil.
Como governo, o PT em nada alterou o panorama de extrema lucratividade das corporações. Bancos, seguradoras e montadoras de veículos nunca lucraram tanto. Rentistas auferiram lucros gigantescos, com os juros na estratosfera. Tampouco promoveu alterações no sistema político nacional. O que era dantes, permaneceu após. No caso dos lucros, até foram ampliados.
Essa inapetência por avançar nas grandes fortunas e por engendrar uma reforma política, gerou inclusive imensa frustração em parte considerável de seus eleitores e representantes políticos. Não por outro motivo, criou-se o PSol, imagem e semelhança do PT histórico.
Contudo, houve uma pequena diferença em relação aos governos pretéritos: um considerável avanço social e uma inegável inclinação para o republicanismo nas instituições (é importante relembrar que os membros da Lava-Jato assim reconheceram e confessaram temer, sem trocadilho, que isso se modifique no novo governo).
Aqui convém abrir um parênteses para destacar que democracia não se caracteriza pela independência de suas diversas instituições. Se cada divisão do poder obtiver independência financeira e auto-determinação, tal regime estará mais próximo da anarquia do que da democracia. Quem controlará tantas instituições se cada uma delas resolver trilhar uma política distinta daquela determinada pelo governante que foi eleito pelo povo? Delegados de polícia federal, procuradores do ministério público, conselheiros de tribunal de contas e presidentes de banco central não são eleitos pelo povo. Estritamente falando, nenhum deles fala diretamente em nome do povo, pois não gozam da legitimidade somente conferida pelas urnas, pelo voto popular.
Polícia, ministério público e banco central, para ficar nesses exemplos, são órgãos de apoio ao mandatário popular. Nesse sentido, devem obediência à política que foi escolhida pelos eleitores. Pouco importa o pensamento do dirigente do banco central quanto aos rumos da economia. O que interessa é qual o discurso econômico sagrado vitorioso na soberana escolha da população. Isso porque, em última análise, será ela que irá suportar as consequências da própria decisão.
Idêntico raciocínio vale para a polícia federal e para o ministério público. Aliás, falar em independência para qualquer polícia é praticamente um despautério. Nenhuma força pública armada deve ser independente, o risco é demasiado. Quanto ao ministério público, somente caberia falar em independência, ainda assim com severas reservas, se o procurador geral fosse eleito pelo povo, quiçá, como ocorre no Supremo, dentre qualquer cidadão de notório saber jurídico, e não por e apenas entre seus próprios pares, o que lhes retira, das decisões e encaminhamentos, tanto legitimidade, como independência.
Parece óbvio afirmar, mas ainda se afirmará, que os componentes dessas instituições que almejam a independência não estão vacinados contra as mesmas doenças institucionais que acometem as pessoas públicas eleitas, como corrupção, violência e arbitrariedade no uso do poder. A diferença, crucial, é que não se sujeitam ao controle popular de tempos em tempos.
Dar independência a diversas ramificações do poder é um modo bastante eficaz de suprimir poderes políticos aos eleitos pelo povo. Atende aos interessados em aniquilar a política.
O PT estendeu demais a corda da independência das instituições, contando que isso seria assim compreendido pelos representantes dessas instituições. Perdeu a aposta e está sendo engolido pelos "independentes", cujo déficit de inteligência não permite visualizar que está matando o seu libertador. Em futuro próximo, consolidado o afastamento do PT, todas estas instituições serão recolocadas em suas devidas "caixinhas", de onde na verdade jamais deveriam ter saído.
Voltando ao impeachment de Dilma, o empoderamento dos pobres desagradou aos poderosos desde o primeiro mandato de Lula, que era para ser único, um experimento social, por assim dizer. Com a sucessão de eleições perdidas, o stablishment não viu outra opção, senão convocar os ingênuos para realizar o seu trabalho sujo: anular os votos dados pela população a um projeto político, tudo disfarçado sob a capa da legalidade. Como fazer isso?
Simples: disseminando a falsa ideia de exclusiva imputação ao PT de todos os defeitos inerentes ao sistema (ou seja, que atingem a todos indistintamente), bem como de autoria de crimes políticos típicos daqueles que governaram até então. Pior: sem prova da prática desses crimes, apenas explorando, através de manchetes escandalosas, o lado mórbido da população, afeita a aderir a linchamentos sem maiores reflexões, resultado da frustração decorrente da sensação geral de impunidade.
A história não começou agora, com o processo do impeachment, nem mesmo com o escândalo da Petrobras. É coisa cujo nascimento é quase coincidente com a ascensão do PT. Tudo começa com o Procurador Antonio Fernando de Souza e com o ministro Joaquim Barbosa, no processo alcunhado de "mensalão". Boa-fé e vontade de fazer o certo? Pode ser que sim, caso em que seria necessário acrescentar toneladas de ingenuidade em ambos.
Como pontifica o jornalista Paulo Moreira Leite em seu livro "A outra história do mensalão", todo o processo e, como conclusão, a condenação, foi fundado, não em provas, mas em fatos que "ouvi dizer", do quais "não se pode supor outra coisa" e que "todo mundo sabe que é assim".
Além de diversos equívocos na análise do acervo probatório, como identifica PML no livro, vários deles capazes de inverter o convencimento para a absolvição, fica para a história o voto de uma ministra do Supremo Tribunal Federal, de cujos componentes deseja-se um profundo conhecimento de ciências humanas, além de Direito, proferido em processo penal, ciência cujo rigor exigido na análise dos aspectos fáticos de um processo se funda na possibilidade de cassação do maior direito do ser humano após a vida, que é a liberdade, segundo a qual é possível uma condenação sem provas, com base apenas na literatura jurídica (talvez seja importante lembrar que um de seus principais assessores, em tão sábio entendimento, era o juiz Sérgio Moro, que agora dispensa apresentações).
Fica para a história, no mesmo processo penal, a convocação de uma tese jurídica alienígena, a do domínio do fato, para a condenação de alguém sem provas, somente pelo fato de se presumir, por ser líder, que tinha conhecimento e liderança sobre o delito. Entendimento que, posteriormente, foi rechaçado, com horror, pelo maior teórico da tese, segundo o qual em nenhum momento se pretendeu ou advogou a condenação de alguém sem prova material do crime.
Isso ao mesmo tempo em que, para os políticos que representam os interesses dos poderosos, tudo continua como dantes no quartel de abrantes. Nenhuma dessas inovações jurídicas é utilizada em relação a outros políticos, não alinhados com o governo petista. Por exemplo, o processo do mensalão tucano, em tudo similar ao do PT, segue rumos processuais absolutamente distintos.
Abertas as comportas da tolerância com entendimentos jurídicos de exceção, abre-se a oportunidade para o surgimento de juízos de persecução que mitigam conceitos sagrados pertinentes à ampla defesa e ao princípio de presunção da inocência. Como no mensalão, somente em relação ao governo do PT. Nada é apurado em relação, por exemplo, ao PSDB.
Essa é a demonstração máxima de que o grau zero da política está instituído. Mandam os poderosos, os políticos obedecem. Quem desafina nesse coro é institucionalmente defenestrado. Sempre fundamentado nos mais elegantes discursos jurídicos de aprovação.
Como combater o grau zero da política? Institucionalmente, parece impossível. Em princípio, força somente se combate com força. Justamente por isso é que a humanidade inventou a política, como meio de evitar o derramamento de sangue.
Quando a política falha em sua finalidade precípua e histórica, à população acuada somente restam duas soluções: resignar-se e submeter-se a quem se impôs contra a livre vontade do povo ou estar disposto a sangrar em nome de seus ideais.
Curiosamente, os que hoje são injustamente criminalizados na política - José Dirceu, José Genoíno, Gushiken, Dilma e até mesmo Lula, além de outros - foram aqueles que, um dia, aceitaram sangrar por idealismo.
Como se vê, a roda gira e sempre volta ao mesmo ponto.
http://marciovalley.blogspot.com.br/2016/05/impeachment-de-dilma-o-fruto-maduro-da.html