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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A repressão da PM e a criação da nova geração política



No Brasil, a farsa da história sempre se repete como farsa.

Em 31 de março de 1964, aos 13 anos, eu deveria ser o único estudante do GGN simpático ao Golpe. Neto de avô lacerdista, nas Semanas do Estudante desde os 11 anos me colocava contra a esquerda estudantil.

Um mês depois do golpe, mudei. As notícias das pancadarias em estudantes, o impacto de ver amigos nossos transformados em delatores e amigos nossos sendo delatados, me fez entender na hora a cara do novo regime.

Em São Paulo, a gestão truculenta de Geraldo Alckmin está produzindo efeito semelhante.

Confira-se o diálogo abaixo, entre a Cacá e a Beatriz.

Caca: A PM É ABSURDA                       
Beatriz : Pq cla?                       
Caca: Bibi vc não tem nocao                       
Caca: A gente chegou no largo da batata                       
Caca: Ninguém tinha feito nada                       
Caca: A manifestação tava LINDA e foi finalizada com três discursos                       
Caca: Linda                       
Caca: Ai todo mundo começou a vazar pelo metrô da fradique                       
Caca: E os PMs tavam controlando a entrada pra não ficar tanta gente                       
Caca: E eu tava nessa fila pra entrar                       
Caca: Aí do nada todo mundo começou a correr                       
Caca: Pq veio uma tropa de uns 40 PMs do outro lado da rua                       
Caca: E começaram a expulsar td mundo da frente do metro                       
Caca: Detalhe: ninguém tava forçando a entrada ninguém tava sendo agressivo tava todo mundo feliz que não tinha acontecido repressão e indo pra casa satisfeito                       
Caca: Ai do nada eles lançaram uma bomba no meio                       
Caca: Todo mundo correu                       
Caca: E aí comecou                       
Caca: Jogaram garrafa nos pms                       
Caca: Quebraram as coisas                       
Beatriz : O mat falou q a manifestação tava pacífica pq eles tavam no largo da batata esperando p jogar bomba e prender manifestante         
Caca: E eu fui com um grupo de meninos (que tavam me protegendo) descendo a rua                    
Caca: Com o carro do choque atrás da gente jogando gas e bomba e atirando em tudo                    
Caca: Sim                       
Caca: Eles já tavam lá esperando                       
Caca: Foi tudo arquitetado                       
Caca: Esperaram acabar                       
Caca: E começaram a atirar                       
Beatriz : Nossa cla que loucura pqp                       
Caca: Loucura                        
Caca: Ainda bem que as pessoas se ajudam lá no meio
Caca: Fui totalmente acolhida pelo grupo de meninos e ficamos ajudando as pessoas que respiraram o gas                       
Caca: União faz a força ainda bem

Por Luis Nassif, GGN -

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O jeans apertado e outras cinco modas perigosas


No fim do século 19, várias doenças e mortes foram atribuídas ao uso do espartilho
"Dando um novo significado à expressão "vítima da moda", recentemente surgiu a notícia de que uma australiana de 35 anos teve de ser internada por danos nos músculos e nervos das pernas por usar um par de jeans bem apertados, conhecidos como "skinny".

 

Não foi a primeira vez que alguém sucumbiu fisicamente a uma tendência de estilo perigosa. "Elas sempre estiveram por aí, desde a Idade da Pedra", afirma a escritora britânica Summer Strevens, autora do livro Fashionably Fatal, que aborda o assunto. "É a moda levada ao extremo – o que eu chamo de insanidade da vaidade."

Aqui estão cinco dos modismos mais danosos da História.

Crinolina

Populares na era vitoriana, armações davam volume aos vestidos, mas causavam acidentes
A armação estruturada que atingiu o auge de sua popularidade no século 19 fez mais do que simplesmente melhorar a silhueta das mulheres nobres. Ela também foi a culpada por uma série de mortes.

Em julho de 1861, o poeta americano Henry Wadsworth Longfellow correu para acudir sua esposa depois que o vestido dela pegou fogo instantaneamente. Ela morreu no dia seguinte.

Duas meias-irmãs do poeta e escritor irlandês Oscar Wilde também morreram por queimaduras ao se aproximarem demais de uma fogueira com seus vestidos de baile.

Um caso em 1858 fez o The New York Times afirmar: "Uma média de três mortes por semana por causa de crinolinas em chamas precisa tornar (as mulheres) extremamente cuidadosas com seus movimentos... ou impedi-las de adotar uma moda tão cheia de perigos".

Colarinho engomado

O colarinho duro foi rapidamente adotado pelos homens do século 19, mas muitos morreram sufocados
Inventado no século 19, o colarinho fabricado e vendido como acessório à parte possibilitou aos homens usar a mesma camisa por vários dias sem precisar passá-la. Mas a peça era engomada a um ponto de rigidez que se mostrou letal.

"O acessório era chamado de 'assassino de pai' ou Vatermörder, em alemão", afirma Strevens. "Isso porque ele cortava a circulação do sangue pela carótida. Os homens da era eduardiana adotaram a moda do colarinho com fervor. Iam se encontrar com amigos no clube, tomavam algumas doses de vinho do Porto e cochilavam na poltrona, com a cabeça pendida para a frente. E assim morriam sufocados."

Espartilho

A roupa de baixo que espremia as cinturas bem antes do atual Spanx teve uma influência na linguagem assim como nos corpos femininos: por causa do espartilho, surgiu em inglês o termo "strait-laced" ("puritano"), que conferia respeitabilidade à sua usuária – ao contrário das "loose women", as mulheres sem o acessório e, portanto, sem uma boa reputação.

Em seu livro, Strevens afirma que os espartilhos "causavam indigestão, constipação, desmaios frequentes por causa da dificuldade de respirar e até hemorragias internas".

Além disso, o acessório fazia pressão sobre os pulmões e deslocava outros órgãos internos, provocando danos.

Em 1874, foi publicada uma lista atribuindo 97 doenças ao uso do espartilho, incluindo a "histeria" e a "melancolia".

Segundo Strevens, entre 1860 e 1890, a revista médica The Lancet divulgava quase que anualmente algum artigo alertando sobre os perigos de se apertar a silhueta com o espartilho (também chamado de corset). E em 1903, a autópsia em uma mulher que morreu repentinamente aos 42 anos revelou que ela tinha dois pedaços de aço de seu espartilho enfiados no coração.

Chapéu

A expressão "louco como um chapeleiro" já era usada 30 anos antes de Lewis Carroll popularizá-la com Alice no País das Maravilhas.

Nos séculos 18 e 19 não eram raros os chapeleiros que sofriam de envenenamento por mercúrio, já que este metal pesado era usado na produção do feltro - o material dos chapéus.

A exposição prolongada ao elemento químico levava a sintomas como tremores, timidez patológica e irritabilidade, o que levou muitos a acreditarem que o excêntrico personagem de Carroll devia sofrer do mesmo mal.

Sapatos

Segundo autora, mulheres se submetem a deformações nos pés em nome da moda

Provavelmente inspirado por uma dançarina do século 10 que enrolava seus pés em seda para se apresentar para o Imperador, o hábito chinês de restringir o crescimento dos pés, deformando-os, foi oficialmente proibido em 1912.

Mas muitas mulheres mantiveram a prática, vista como um símbolo de status.

A fotógrafa britânica Jo Farrell documentou as últimas chinesas que adotaram os pés-de-lótus. "Muitas pessoas falam de como essa tradição é barbárica. Mas ela também dava a essas mulheres uma vida melhor", conta.

Deformar os pés não é apenas um hábito da China. Segundo Strevens, "há muitos séculos, as mulheres de alta classe amputavam seus dedinhos para que seus pés adquirissem uma forma mais pontiaguda".

Para a autora, as mulheres de hoje também sofrem com as diferentes modas dos calçados. "Existe uma onda de cirurgias para redução dos pés e de amputação dos dedos para poderem se acomodar nos stilettos de salto altíssimo que vemos por aí", afirma.

Ainda há muitas vítimas da moda em pleno século 21. "Apesar de não termos mais espartilhos ou crinolinas, há pessoas que retiram suas costelas para afinar a cintura", lembra a escritora."

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Moço, cuidado para não deixar o passado virar futuro


Fernando Brito, Tijolaço  

"Tirei as duas fotos aí de cima hoje, em dois pequenos supermercados próximos de onde moro – o Real e o Supermarket, em Niterói.

Parece bobo, não é? Mas para quem passou dos 50 anos não é não, porque somos de uma geração onde a placa que se via em mercados e obras de construção era, ao contrário, a de  ”não há vagas”.

Às vezes, até, com um peremptório e duro “não insista” para rematar.
Ok, não são ótimos empregos e certamente não são o sonho profissional de quase ninguém.

Mas certamente é melhor que não ter emprego nenhum.

E não é só para os mais pobres e com menos formação escolar, não.

Há vagas, embora com salários baixos, para todos os níveis.

Aliás, há tanta vaga aberta justamente porque paga-se pouco e muitos param por ali apenas o tempo necessário para sair do sufoco absoluto e buscar algo melhor.

Estas fotos daí de cima são do Brasil que não sai nos jornais.

O Brasil que sai no jornal está desmoronando, com os mercadinhos às moscas e o desemprego, não importa o que diga o IBGE, em alta.

Tudo está um desastre, tal índice é “o pior desde 2 mil e tanto”, tal taxa “é a mais grave desde tantos anos”.

Mas quer dizer que está tudo muito bem, tudo muito bom?
De jeito nenhum.

Que bom que a gente esteja insatisfeito com o Brasil, porque é mesmo para estar.

Este país ainda dá muito pouco a seus filhos, em matéria de educação, de saúde, de habitação, de oportunidades.

Mas cuidado, seu moço, porque moço eu também já fui.

E porque já fui e não sou mais, que este pais, sei que não faz uma geração, era muito, muito, muito mais avaro com seus cidadãos.
Avaro?

Não, a palavra exata  é cruel.

Porque só pode ser cruel que quer abaixar a inflação a base de  arrocho,  de corte nos gastos sociais, com a precarização do trabalho, com políticas recessivas.

Vão dizer que querem isso é apelar para o medo?

Pois eu não tenho problemas em dizer que se deve, sim, ter medo disso, porque sei muito bem como isso é terrível.

Eu sei e tenho obrigação de contar que existia um Brasil sem vagas para seu povo.

Mesmo as mais modestas, os “empreguinhos de dois salários” dos quais  a “turma da bufunfa” debocha, mas nem assim quer pagar e diz que os salários “altos demais” são responsáveis pelo desequilíbrio do tal “tripé macro-econômico”.

Talvez você, moço, não acredite em mim.

Ficamos assim: eu também prefiro que você duvide do que eu digo e até faça pouco caso.

É muito melhor  você me olhar desconfiado do que acontecer aquilo que faça você me dar razão.

Cuidado, porém, que o pior inimigo do bom é o que aquela turma diz que vai ser ótimo.

Acho que você tem toda a razão em querer mais, muito mais.

Só não esqueça que tivemos, não faz muito tempo, muito menos.

Onze anos atrás, a imagem do Brasil era aquela que divide a ilustração com as de hoje.

Eu não a quero de volta, você quer?"

domingo, 28 de setembro de 2014

O Globo tem medo da verdade!

Altamiro Borges, Blog do Miro 

"O editorial do jornal O Globo de quinta-feira (25) é mais uma prova de que a famiglia Marinho tem medo da verdade. Ela teme que os carrascos da ditadura, que torturaram e mataram, sejam identificados e punidos. Teme que os empresários que financiaram os órgãos de terror sejam denunciados. Ela teme, principalmente, que venha à tona o papel da mídia na preparação do golpe e no apoio ao regime militar. Por estas e outras razões, o jornal tem tanto receio das apurações da Comissão Nacional da Verdade e não aceita sequer discutir a revisão da Lei da Anistia. A bilionária famiglia Marinho, que construiu seu império durante a ditadura, teme a verdade sobre o seu passado facínora e fascistóide. 

Segundo o jornal, “a questão das vítimas da ditadura militar encontra-se em um momento sensível”. Após historiar o longo processo de apuração dos crimes, O Globo critica os “grupos que buscam alterar a Lei da Anistia para punir militares. Um desatino, por importar conflitos entre o poder político e as Forças Armadas de quatro, cinco décadas atrás”. Para a famiglia Marinho, a Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada no governo Lula e implantada pela presidenta Dilma, incentiva este “desatino”. Na defesa dos generais golpistas , o jornal retoma a tese de que, “para ser isenta, a comissão deveria, na busca pela ‘verdade’, também registrar a história de vítimas de movimentos radicais de esquerda”.

Ou seja: quem lutou contra os golpistas e o regime fascista, quem foi perseguido e torturado, quem teve que se exilar, é que deve desculpas aos generais carrascos. Para a famiglia Marinho, “não cabe qualquer pedido de desculpas dos militares, pois já é evidente o reconhecimento de erros pelo Estado. O passado tem de ser conhecido para que não se repita no futuro. Mas sem revanchismos, como prevê a anistia”. E ainda teve gente que acreditou num recente editorial do jornal O Globo que reconheceu “os erros” do apoio ao golpe e à ditadura militar. A famiglia Marinho sempre foi golpista e nunca tolerou a democracia e a participação popular. Nos dias atuais, ela segue sendo fascistóide e golpista!"

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Senna não é Pelé


"Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Sabem que foi um gênio do volante, não um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo
Dos mortos só se fala para falar bem.
Ditado romano


, Revista Bula

No dia 20 de abril de 1994, Ayrton Senna deu o pontapé inicial em um amistoso entre a Seleção Brasileira de Futebol e um combinado entre os times franceses Paris Saint Germain e Bordeaux, no estádio Parc des Princes, em Paris. Diz a lenda, e o zagueiro Márcio Santos, que nesse dia o piloto teria profetizado que “um dos dois seria campeão”. Ou ele, correndo pela Willians, ou a Seleção, na Copa dos Estados Unidos. Como se sabe, Senna faleceu no dia 1º de maio em um lamentável acidente durante o GP de Ímola. A Seleção venceu nos pênaltis a Itália e, durante as comemorações em campo, ao lado da célebre faixa “Senna… aceleramos juntos, o tetra é nosso!” apareceu discretamente um cartaz onde se agradecia e homenageava Ayrton Sena. Sim, com apenas um N. Faz 20 anos.

Poderia ser trágico se não fosse cômico, mas, na mitologia em torno de Senna não há espaço para humor. No imaginário popular, seus vice-campeonatos ou foram resultados de roubos descarados ou da superioridade esmagadora do equipamento do adversário. Não se admite outras variáveis. O status heroico de Senna é tamanho que tudo que o envolve ganha dimensões sobre-humanas, mesmo a eventual impossibilidade de conquistar o primeiro lugar.

Esse culto a sua personalidade ganhou reforço na campanha de lançamento do documentário inglês “Senna”, dirigido por Asif Kapadia e lançado em 2010. Fui assistir ao filme com baixa expectativa. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.

Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção.

Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloquente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o “Tema da Vitória”. Foi uma boa ideia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional, não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.

O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns aquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de autoajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista.

Inteligentemente, o documentário evita tocar, ou aprofundar-se, em temas escorregadios. A vida particular do piloto é blindada. Seu primeiro casamento é ignorado, assim como suas “amizades” de infância. Nesse vácuo ganha destaque seus dois relacionamentos mais famosos, com a apresentadora Xuxa e com a modelo Adriane Galisteu. Apesar da presença de imagens captadas por câmeras caseiras, o Senna público prevalece sobre o privado.

Da mesma forma, o filme não polemiza sobre a veracidade de algumas lendas sennianas, como o “milagre da sexta marcha”, na qual o piloto teria vencido o GP Brasil de 1991 com a caixa de câmbio emperrada na sexta marcha. Mesmo mostrando que ao final da corrida o piloto desacelerou o carro, quase o parando, para pegar de um fiscal de pista uma bandeira brasileira, voltando a acelerar em seguida, atestando que ele tinha marchas fortes, o diretor não interfere na flagrante dicotomia entre imagem e locução. Deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões, acreditar ou não na lenda. Ou talvez, como estava mergulhado na cultura brasileira, Kapadia emulou Nelson Rodrigues na conclusão de que, simplesmente, “o videotape é burro”.

Os mais cínicos poderiam defender que o documentário blinda Senna de julgamentos de valor, colocando-o acima do bem e do mal. Isenta-se de discutir se seu controverso estilo de direção era perigoso, suicida ou apenas arrojado. Não coloca em questão os episódios onde reagiu de maneira antidesportiva. Não problematiza, digamos, se sua atitude de garantir o campeonato de 1990 batendo na Ferrari de Alain Prost foi ou não tão repreensível quanto à mesmíssima agressão que sofreu do francês no ano anterior. Tudo isso é verdade, mas acredito que, consciente das expectativas de seu público, o diretor inglês trabalhou essa cena em seu aspecto puramente cinematográfico: trata-se da justa vingança do protagonista da trama que se desenrola na tela. Nada mais. Pura questão de ação e reação imagética. Mais do que biografia, é cinema.

Nada disso desqualifica o filme. Não são erros, são opções estéticas conscientes. Não se trata de uma cinebiografia não autorizada, interessada em desencavar revelações bombásticas. Não se trata de um tratado fílmico erudito sobre automobilismo, como o ótimo “A Era dos Campeões”. É, ao contrário, uma celebração. Considerando sua proposta básica, “Senna” é um documentário honesto e empolgante. Acredito que muitas de suas qualidades advêm do que inicialmente parecia ser um problema: seu diretor britânico de origem indiana pouco afeito à F-1. É bem possível que um cineasta brasileiro não tivesse o distanciamento político e emocional necessário para trabalhar o tema. Teria feito a patriotada melodramática, acrítica e laudatória que eu tanto temia. De posse do vasto material de arquivo que teve à sua disposição, Kapadia tratou Senna como um personagem com imenso potencial dramático e emocional, não como um mito intocável ou herói invencível.

Infelizmente, como era de se esperar, o filme foi vendido dessa forma no Brasil. Além do apelativo e ufanista slogan publicitário “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”, lia-se acima do título uma frase do tricampeão de F-1 Niki Lauda, aparentemente pronunciada por ocasião do enterro de Senna, em maio de 1994: “Ele foi o melhor piloto que já existiu”. Contudo, Lauda mudou de ideia, considerando que anos depois afirmou que “por tudo que conquistou ao longo dos anos e por ter ficado mais tempo no topo é justo que Michael Schumacher seja considerado o melhor”. No melhor estilo “1984”, de Orwell, há aqui a reescrita da História: o esquecimento em prol da sacralização de uma versão mais conveniente ao mercado. Nesse cenário, lembrar que o “Tema da Vitória” foi composto para Nelson Piquet soa de péssimo tom. Além de herói e campeão, enquanto produto, Senna é mais rentável sendo vendido como o melhor de todos os tempos. Para boa parte dos sennistas brasileiros, principal público-alvo do filme, nada menos parece servir.

Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Costumam ser pessoas centradas e racionais. Sabem que Senna foi um gênio do volante, não era um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo.

Brasileiro faz piada com tudo: das asas de frango nos bolsos de D. João VI ao avião que não voava de Santos Dumont, passando pelos travestis de Ronaldo até a surra que Maguila levou de Holyfield. Nada é sagrado. A grande e, talvez, única exceção é Senna, que foi elevado a condição de santo secular por várias gerações de fãs. É comum encontrar crianças que nunca o viram correr afirmando que Senna é seu ídolo, seu espelho, etc. Essa deificação de um atleta de um esporte elitizado, baseada em sua perseverança e hombridade, em um país conformista e cínico como o Brasil, famoso por seus macunaímas, heróis sem nenhum caráter, é um fenômeno sociológico complexo, que merece ser estudado com profundidade pela academia.

Considero particularmente intrigante a tendência das viúvas em interpretar a trajetória de Senna como se fosse um Evangelho Moderno ou a saga do herói, conforme apresentada por Joseph Campbell no livro “O Herói de Mil Faces”.

Senna seria um ungido, iluminado desde a infância. Suas palavras são ensinamentos. O acidente em Imola, sua Paixão. Não admitem comparar a grandeza moral e profissional do ídolo com nada ou ninguém. Tratam-no com dois pesos e duas medidas, quando em paralelo com outros pilotos. Mesmo a extraordinária superação de Niki Lauda, campeão em 1975 que sofreu um gravíssimo acidente no Grande Prêmio da Alemanha de 1977, tendo grande parte do corpo queimado, e mesmo assim voltou às pistas para garantir o título daquele ano, e o de 1984, apequena-se diante das inúmeras provas de coragem de Senna.

Para as viúvas, uma vitória de outro piloto é apenas uma vitória, uma vitória de Senna é um triunfo. Uma volta rápida de outro piloto é apenas uma volta rápida, uma volta rápida de Senna é um grande feito. Uma ultrapassagem de outro piloto é apenas uma ultrapassagem, uma ultrapassagem de Senna é uma manifestação de gênio. Uma deslealdade de outro piloto é a deslealdade de outro piloto, a deslealdade de Senna é arrojo. Uma vitória difícil de outro piloto é apenas uma vitória difícil, uma vitória difícil de Senna é um ato de superação. A conquista de um título por outro piloto é apenas a conquista de um título, a conquista de um título por Senna é justiça divina.

Como ensinou Campbell e alguns evangelistas, um herói faz-se desde a juventude. Sinais, que podem variar de impressionar doutores no Templo até domar cavalos selvagens, anunciam o futuro épico. É sintomático que o filme de Kapadia começa com a apresentação do jovem Senna em uma prova de kart. Foi um vencedor por todas as categorias pelas quais passou. Porém, convêm lembrar que seus títulos conquistados na Fórmula Ford 1600, ou na F-2000, ou na F-3, não constituem feitos especialmente notáveis no universo da F-1. É comum entre pilotos de elite vitórias fáceis e sucessivas em categorias menores. Elas podem garantir testes, não necessariamente empregos. O festejado teste que Senna fez na Willians aos 23 anos não convenceu o dono da equipe, Frank, a contratá-lo. O mesmo Frank Willians que, em 1994, declarou que sempre desejou tê-lo em seu time, posteriormente disse que “meu sonho é ter Schumacher em minha equipe, pois ele é o pacote completo”. No circo da F-1 opiniões são fluidas, só nos restando analisar dados para definir opiniões. E é um dado estatístico que, mesmo para os padrões da época, Senna não foi precoce: o Rato Fittipaldi foi campeão pela Lotus aos 25 anos, na temporada de 1972.

Quando começou na F-1, na equipe Toleman, em 1984, o estilo de pilotagem de Senna era comparado aos do canadense Gilles Villeneuve e do Escocês Voador Jim Clark. Os três tiveram muito em comum, na vida e na morte.

Principalmente, Senna e Clark. Muito habilidosos, gostavam de correr na chuva e eram excepcionais leões de treino. Colecionavam pole positions. Senna conseguiu 65 em 162 GPs. A média de Clark é um pouco melhor, tendo disputado 73 GPs e feito 33 poles. Com 25 vitórias na F-1, Clark também foi mais hábil que Senna em converter poles em bandeiras quadriculadas. O brasileiro converteu em vitórias apenas 29 de suas 65 poles. Villeneuve e Clark também morreram nas pistas. O canadense num acidente com sua Ferrari no GP da Bélgica de 1982, aos 32 anos. Ainda não havia sido campeão. O Escocês Voador faleceu com a mesma idade em 1968, numa prova de F-2 na Alemanha. Foi bicampeão nas temporadas de 1963 e 1965, pela Lotus. A equipe para qual Senna iria se transferir em 1985.

Como se percebe, ao contrário do que as viúvas pregam, a Lotus não era uma carroça. Era, sim, uma escuderia com tradição na F-1. O que relativiza o cartel de Senna em seu início de carreira. Em 1984 terminou em 9º lugar no campeonato, em 1985 conseguiu um 4º, repetiu o desempenho em 1986 e em 1987 ficou em 3º. Venceu, com a McLaren, em 1988. Ou seja: em cinco anos venceu um campeonato e teve um terceiro lugar. Fazendo uma comparação livre, Nelson Piquet, após estrear no meio da temporada de 1978 na pequena equipe Ensign, passou para Brabham em 1979 e ficou em 15º lugar, conseguindo o 2º lugar no ano seguinte e o título em 1981. Em 1982, um ano conturbado, caiu para 11º. Recuperou o título em 1983. Em pouco mais de cinco anos conseguiu um vice-campeonato e dois títulos.

Segundo a reescrita da história realizada pelas viúvas, Senna era dono de uma concentração de monge budista, foi o mais veloz dos pilotos, o supremo acertador e construtor de carros.  O pioneiro do automobilismo brasileiro Chico Rosa, em entrevista para revista “Grande Prêmio”, apresenta uma opinião diferente: “O Ayrton era um cara que tinha coisas excepcionais, mas não era um piloto completo. Considero que, entre os pilotos brasileiros, o mais completo foi o Nelson. E acho que o Ayrton foi muito menos completo do que o Schumacher. O Ayrton era imbatível em chuva e em classificação, mas tinha muitos defeitos em estratégia de corrida e um problema de desconcentração muito complicado. Concentrado, ele era um piloto. Desconcentrado, ele era um piloto qualquer. E tinha muito esse problema. Ele era um cara que se concentrava que nem um louco para fazer classificação. Por que ele ia bem nas classificações? Porque ele conseguia manter a concentração que exigia para ser rápido daquele jeito por um período de dez minutos, que eram duas voltas lançadas. Nisso, ele era absolutamente imbatível. Agora, ele não conseguia ficar guiando por duas horas com a mesma concentração. Ele foi um mau acertador de carros, nunca soube acertar, e não foi um bom estrategista.

 Agora, ele era muito rápido. Dava gosto de vê-lo guiar em uma classificação”.
Muito veloz em treinos, nem tanto em situação de corrida. Em seus 162 GPs, Senna somou 19 voltas mais rápidas. Seu antecessor no estilo aguerrido, Jim Clark, teve 28 em seus citados 73 GPs. Prost, muitas vezes considerado excessivamente cuidadoso, fez 41 em 202 GPs disputados. Piquet fez 28 em 208, enquanto Mansell cravou 30 em 191. O argentino pentacampeão Fangio conseguiu 23 em 52 GPs. O austríaco Gerhard Berger possui duas voltas mais rápidas do que o amigo brasileiro, 21 em 210 largadas. Michael Schumacher, ainda em atividade, conta, atualmente, com 76 na carreira. Em todo caso, as viúvas não gostam muito de matemática.

Tornou-se prática comum entre as viúvas falsear deficiências reconhecidas pelo próprio piloto. Como citado por Chico Rosa, sempre foi notória a falta de habilidade de Senna no acerto dos carros. Em entrevistas para a revista “Playboy”, de abril de 1988, Nelson Piquet ironizou o fato. Disse que na McLaren ele poderia se sair bem “porque, finalmente, encontrou alguém para acertar os carros para ele”. Refere-se ao Professor Prost. Os mais afoitos desdenhariam o falastrão Piquet, dizendo que se tratou de mera provocação.

 Esquecem ou não sabem que Senna, à contragosto e medindo as palavras, admitiu a acusação. Em entrevista para a mesma revista, publicada na edição de agosto de 1990, a repórter Mônica Bergamo perguntou-lhe: “Seus adversários diziam que ele (Prost) acertava o carro, e você vinha na cola, aprendendo. Era assim?”. Hesitante, Senna respondeu: “Eu tinha que aprender com ele, que é experiente e conhecia a McLaren”. A essa altura, entre 1988 e 1989, Senna estava longe de ser estreante. Se fosse um acertador inato já teria demonstrado na Lotus ou mesmo na Toleman.

O mito de que Senna era um profundo entendedor da sofisticada mecânica dos bólidos da F-1 é também improcedente. Para constatar isto basta recordar a célebre polêmica que travou com os engenheiros da Lotus em 1986, quando afirmava que o chassi do carro era o melhor da F-1, mas o motor Renault era ruim. Em 1987, a equipe passou a usar motor Honda e o rendimento do carro diminuiu em vez de melhorar. A constatação final foi a de que, na verdade, o problema era no chassi. Outro dado: durante seu contrato com a McLaren, era prática comum Senna tirar férias exatamente no período de desenvolvimento dos carros. Na Willians, essa dificuldade ficou ainda mais evidente. Em setembro de 2000, Osamu Goto, antigo chefe da Honda, deu uma entrevista para a revista “Autosprint”, onde comparou Senna e Prost: “O Ayrton Senna era um piloto espetacular, dono de uma habilidade impressionante e sabia como tirar o máximo daquilo que podíamos oferecer a ele. O Alain Prost era, também, excelente e podia sempre nos dar algo a mais do que oferecíamos a ele”.

Apesar de dono de verdadeiras “voltas de placa”, Senna não foi perfeito. Cometeu erros tacanhos, dignos de Mansell em seus piores dias. Desatento, bateu sozinho no guard rail enquanto liderava o GP de Mônaco de 1988.

Enroscou-se em Gerhard Berger e Riccardo Patrese logo na primeira curva do GP Brasil de 1989, perdendo o bico do carro e ficando três voltas atrás.

Confessou: “Coloquei a segunda marcha rápido demais”. Deixou o carro morrer na largada do GP Brasil de 1988. Repetiu o erro no autódromo de Suzuka, no Japão, quase deixando o primeiro título escapar. Conseguiu sair em 15º lugar, pegando no tranco, porque a largada ficava em uma descida. Ganhou posições aproveitando-se da chuva que começou a cair. Curiosamente, sua recuperação fantástica revalorizou o erro, o ressignificou como elemento de dramatização do triunfo. No documentário, Kapadia soube explorar muito bem isso.

A fórmula de construção do herói exige que seus feitos sejam propalados como únicos. Porém, como é comum, também no caso de Senna, muitas de suas façanhas foram repetidas ou melhoradas por outros pilotos. O triunfo em Suzuka não foi inédito. Em 1983, o irlandês John Watson venceu em Long Beach, após sair em 22º lugar. Rubens Barrichello venceu em Hockenheim, em 2000, largando em 17º lugar. Mesma posição na qual saiu o finlandês Kimi Räikkönem no Japão, em 2005. Mesmo o “da sexta marcha”, para quem acredita, foi emulado por Schumacher que, com o câmbio travado na quinta, percorreu 42 voltas do GP de Barcelona de 1994, chegando em segundo.

Diante dessas informações, não raro as viúvas alegam que as condições com que Senna realizou seus grandes feitos foram mais adversas. Duvidoso.

Também costumam afirmar que o brasileiro sempre foi prejudicado pelo regulamento. Essa é uma meia verdade. É importante lembrar que a F-1 é um esporte legalista. Saber pilotar com o regulamento no bolso pode ser um fator decisivo. Senna foi beneficiado em 1988, quando fez 94 pontos contra os 105 de Prost, em números absolutos. Sagrou-se campeão devido a extinta regra do descarte dos piores resultados, somando ao final 90 pontos contra 87 do francês. No campeonato seguinte, uma decisão legalista ao extremo tirou-lhe uma vitória soberba; e o título. “Dura lex, sede lex”. Prost sabia o que estava fazendo quando correu para a cabine de direção da prova, após o choque das McLaren. Naquele momento, era mais um advogado do que um piloto. Não estranharia se estivesse de toga por baixo do macacão e peruca branca sob o capacete. Deve ter se lembrado da máxima “aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei”.

Realmente, Senna não se dedicou a fazer amigos no Circo da F-1. Berger, para quem deu uma vitória de presente no GP do Japão de 1991, foi uma exceção.

 Era considerado desleal pela maioria de seus contemporâneos. As viúvas costumam interpretar essa antipatia como inveja. Uma inveja ao estilo daquela que Salieri teria nutrido por Mozart, conforme vista no oscarizado filme “Amadeus”. Historiadores confirmam que, na verdade, Salieri, que foi professor de piano de Beethoven, ajudou como pôde o promissor novato Wolfgang, quanto ele chegou à corte de Viena. Da mesma forma, parece-me pouco provável que figuras consagradas como Prost e Piquet tivessem motivos para invejar um jovem piloto que ainda tinha muito o que provar. Em sua entrevista para “Playboy”, Piquet mencionou que “no dia em que o Prost e o Senna estiverem disputando um título, por exemplo, todo mundo vai dar preferência (nas ultrapassagens) para o Prost, porque o Senna sempre sacaneaou todo mundo”. Numa entrevista de 1988, publicado no livro “O Circo e o Sonho”, de Nice Ribeiro, Nigel Mansell mostrou-se indignado após ter sido fechado por Senna no GP Brasil: “Sou profissional, recebo para desenvolver um trabalho, não para bancar o louco, desrespeitando a ética das pistas e pondo vidas em risco. Com o Prost, o Rosberg e os outros, a competição sempre foi limpa e honesta. O Senna, pelo contrário, demonstrou que quem tentar superá-lo será colocado para fora da pista. Acho que quem compara o Senna com o Gilles Villeneuve insulta a memória do Gilles, um esportista brilhante e leal”.

Enredados em seu fanatismo quase religioso, é difícil para as viúvas conceberem que Senna não é unanimidade entre fãs de automobilismo ou especialistas na área esportiva. Em 2000, a revista “Isto É” promoveu a seleção do Esportista do Século. Inicialmente, a redação organizou uma enquete com 30 notáveis, que selecionaram aleatoriamente, sem qualquer restrição de período de atuação ou categoria esportiva, os maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Senna figurou em 28 listas. Foi esquecido por dois dos votantes. Em todo caso, a lista preliminar foi levada à votação popular e Senna sagrou-se vencedor da enquete, com 87,62% dos votos. O segundo colocado foi Pelé, com 80,75%.

Curioso notar que Pelé foi a única unanimidade no colégio eleitoral, sendo citado em todas as 30 listas. Perdeu para Senna na votação popular como perdeu para Maradona na eleição via internet para eleger o maior jogador do século, promovida pela Fifa. O primeiro caso é compreensível, considerando-se os fatores emocionais envolvidos, o fim trágico do piloto, a força do Instituto Ayrton Senna, etc. O segundo só demonstra a desinformação dos votantes.

Alguns pilotos chegam a certo nível de excelência que se torna quase impossível medir o real alcance de seu talento. Talvez Senna seja mesmo o melhor piloto de todos os tempos, se fatores do imponderável forem colocados na balança. O que as viúvas precisam admitir é essa possibilidade de estarem errados em seus dogmas. Muita gente séria defende que o melhor foi Jim Clark, a despeito de ter sido apenas bicampeão. O tetracampeão Prost é um forte candidato. Os cinco títulos da lenda Fangio o colocam no páreo. A perícia de Piquet em desenvolver carros vencedores não pode ser ignorada. O estilo elegante de Stewart tem seus admiradores. Em termos de superação, Lauda parece ser imbatível. Os números de Schumacher são desconcertantes. Enfim, se existe diferença entre esses monstros é mínima. Gênio é gênio, ponto. O eleito para o trono do automobilismo fica ao gosto do freguês.

Mas o fato é que Senna não é Pelé. No futebol, a distância entre Ele e seus pretensos concorrentes é oceânica. Os defensores de Maradona, ao contrário dos de Senna, não possuem nenhum argumento sequer razoável. Fazem polêmica oca. Os números, os títulos, a habilidade com as duas pernas, o senso tático, estão a favor do Rei. Outros candidatos, como Cruyff e Beckenbauer, admitiram o óbvio. Parte da irrefutabilidade do reinado de Pelé é o fato dele ser ótimo ou excepcional em todos os fundamentos do futebol, sem, necessariamente, ser o melhor em nenhum. Citando as palavras do jornalista André Fontenelle, para revista “Placar”, “Pelé não foi o maior jogador de todos os tempos: foi outra coisa, porque a lista de tudo o que fez o põe em uma categoria à parte, acima de tudo. Os mortais que discutam entre si”.

Imagino que algumas viúvas, ressentidas por minhas colocações nesse texto, possam bradar que eu mesmo sou uma viúva do Rei. Na verdade, torço para que alguém o supere e eu possa estar vivo para ver. Enquanto isso, considerando que Pelé morreu em 1978, só restando um cavalheiro chamado Edson, considero-me uma viúva alegre. Achei, por exemplo, o documentário “Senna” muito melhor do que “Pelé Eterno”.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Senado rejeita proposta de Collor para sigilo eterno de documentos




“Os senadores rejeitaram nesta terça-feira, por 43 votos a nove, o substitutivo de Fernando Collor (PTB-AL) ao projeto de lei conhecido como Lei de Acesso às Informações Públicas. A maioria dos políticos considerou que a iniciativa abriria a possibilidade de sigilo indefinido para documentos. As informações são da Agência Senado.

Na forma como foi apresentado pelo Executivo, o texto previa a possibilidade de sucessivas prorrogações do prazo de 25 anos de sigilo das informações ultrassecretas. Na Câmara, os deputados o alteraram para que o prazo só pudesse ser prorrogado uma vez. O substitutivo rejeitado previa como regra uma única prorrogação do prazo, mas fazia exceções em casos de documentos ultrassecretos e de outras classificações, quando o sigilo fosse considerado imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. Nesses casos, não haveria limite para o número de prorrogações.

Com a rejeição do substitutivo, que tinha preferência para votação, os senadores passam a discutir o PLC 41/10, com a limitação no tempo de sigilo, conforme o proposto na Câmara.”