Jillian Kestler-D’Amours, IPS / Envolverde
“Nos matarão se nos levarem para uma cidade. Dentro de alguns anos não haverá mais beduínos na região. Queremos ficar em nossas casas. Se destruírem as casas ou nossas barracas, as reconstruiremos. Não partiremos. Mesmo se nos matarem, queremos ficar. Não temos para onde ir”, disse Korshan à IPS. A Administração Civil de Israel, encarregada da área C do território ocupado da Cisjordânia, prevê expulsar 27 mil beduínos de suas comunidades nessa área nos próximos três a seis anos. Israel tem o controle total, militar e administrativo, da área C....
“Vivemos entre Jerusalém e Jericó. O governo israelense quer fechar a área porque estamos perto do assentamento de Kufr Adumim. Querem nossa terra para eles”, protestou Korshan, que encabeça o Comitê Cooperativo Beduíno de Jerusalém. “É muito difícil para nós. Não temos para onde ir. Nossa terra está em Beer Sheva, somos refugiados”, lamentou.”
Mais de 80% dos beduínos que vivem nas colinas ao leste de Jerusalém são refugiados, informou a repartição do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) dos territórios palestinos ocupados. A maioria vive em casas com ordem de demolição que não estão ligadas à rede elétrica e, além disso, metade não tem acesso a água potável. O local para onde se pensa levar os beduínos, perto da localidade de Al Eizariya, onde 200 famílias foram reassentadas na década de 1990 para ampliar o assentamento de Ma’ale Adumim, pode colocar em risco a saúde, o modo de vida e o bem-estar geral da comunidade, disse Ocha.
“O local escolhido não atende aos padrões mínimos em termos de distância do lixão municipal, o que significa problemas de saúde para as comunidades, e tem uma área limitada de pastoreio”, diz uma declaração da organização. “As famílias que já estavam no lugar apresentaram problemas de saúde, perderam seu sustento, sofreram a deterioração de suas condições de vida, perderam a coesão social e seu modo de vida tradicional”, acrescenta a Ocha
Suleiman Mazarah e sua família, integrantes da tribo beduína jahalin, foram levados pelas autoridades israelenses para essa região em 1997. A comunidade continua sofrendo as consequências da mudança, disse à IPS. “Os israelenses nos puseram em uma área perto do lixão da municipalidade de Jerusalém. Agora trarão o restante da tribo da área C. Isto destruirá a vida dos beduínos. Quando nos colocam em uma área pequena, destroem nosso sustento, não há lugar para criar animais. Não haverá trabalho. A maioria das pessoas daqui não tem trabalho, nem nada para dar aos filhos. Se trouxerem mais gente, será muito pior”, contou Mazarah.
Além disso, o reassentamento de comunidades beduínas sem seu consentimento viola o direito internacional, afirma a Ocha. “Como potência ocupante, Israel tem obrigação de proteger a população palestina e administrar o território em seu benefício. Todo traslado voluntário de civis deve se ater aos padrões internacionais, incluídos os relacionados com a tomada de decisão de forma livre e informada”, ressaltou a agência.
O interesse de trasladar a força os beduínos da área C da Cisjordânia tem a ver com o despejo histórico e atual a que se submete a população indígena desde a criação do Estado de Israel. Nesse mesmo contexto incluem-se os últimos planos para transferir cerca de 30 mil pessoas do deserto de Neguev, afirmou Mazarah.
“O mesmo que fazem com o povo do Neguev, fazem com a gente. Mas ali os beduínos têm nacionalidade israelense, aqui somos palestinos”, disse Mazarah. “Os israelenses não querem beduínos em seu território. Nossa situação, como a deles, é péssima. Essa gente esquecida sofre devido aos deslocamentos forçados. Estão destruindo suas vidas”, acrescentou. Envolverde/IPS
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