terça-feira, 12 de novembro de 2019

Lei de Segurança Nacional para quem, Bolsonaro?

Lei de Segurança Nacional para quem, Bolsonaro?


Numa entrevista amiga para aquele site que só chamo de O Bolsonarista, reproduzida pelo UOL, o senhor Jair Bolsonaro ameaça usar a Lei de Segurança Nacional contra Lula.

“Temos uma Lei de Segurança Nacional que está aí para ser usada. Alguns acham que os pronunciamentos, as falas desse elemento, que por ora está solto, infringem a lei. Agora, nós acionaremos a Justiça quando tivermos mais do que certeza de que ele está nesse discurso para atingir os seus objetivos”

Bazófia, diriam antigamente.

O que está infringindo a lei?

Ainda se Lula estivesse dizendo que “vamos metralhar os bolsomínions do Acre”, defendendo a tortura, ou se estivesse batendo continência para a bandeira da China, vá lá.

Ou se estivesse tratando com condescendência o Lulinha quando este dissesse que bastaria um cabo e um soldado para fechar o STF ou acenasse com a volta do AI-5 e ainda desse a ele, depois disto, um posto do PT, talvez fosse o caso.

O que Bolsonaro quer é fazer papel de valente, de “prendo e arrebento”, enquanto foge do debate político e das críticas sobre a inação de seu governo.

Vá arranjar uma Lei de Segurança para quem taca fogo na Amazônia ou joga óleo na praias do Nordeste, presidente.

A moleza acabou e agora há um voz que o povo escuta antes de julgar a você e a ele, para descobrir quem é, de fato, um perigo para a Nação.

por Fernando Brito, Tijolaço -

TIMING DE TCHUTCHUCA: GUEDES ESCOLHEU UM MOMENTO EM QUE O MUNDO PEGA FOGO PARA JOGAR GASOLINA NA NOSSA FOGUEIRA


TIMING DE TCHUTCHUCA: GUEDES ESCOLHEU UM MOMENTO EM QUE O MUNDO PEGA FOGO PARA JOGAR GASOLINA NA NOSSA FOGUEIRA

"No frigir dos ovos, Evo foi o grande inimigo de si mesmo"
O golpe de Estado contra Evo Morales é o desfecho de um processo de instabilidade política propiciada pelo atingimento doa limites da expansão capitalista na Bolívia. 

Limite não muito bem expresso em número de PIB, mas perceptível nos indicadores econômicos do dia a dia do povo boliviano. 

O resultado foi a erosão da base de apoio de Evo, levando à fragilização de sua liderança, fato já visível na derrota sofrida por ele no plebiscito sobre seu quarto mandato. 

Político hábil ao estilo lulista, Evo acabou tendo forçar uma situação impraticável e, com isto, deu munição à direita boliviana, de matriz racista, que tenta há anos apear o presidente do poder e reverter os avanços políticos e sociais lá registrados. No frigir dos ovos, Evo foi o grande inimigo de si mesmo. 

Mas, não é possível considerar a situação boliviana em separado do quadro maior internacional. No mundo inteiro, insurreições, revoltas ou impasses políticos assolam o sistema planetário de produção de valor. 

No centro do capitalismo, o impeachment de Trump avança, tornando-se, cada vez mais, uma luta aberta entre a Presidência da República e o Congresso.  
"Luta aberta entre a Presidência da República e o Congresso"

Numa situação jamais vista na história dos Estados Unidos, o presidente recusa-se terminantemente a colaborar com o Legislativo, faz ameaças aos congressistas e se queixa abertamente de que estariam tentando dar um golpe de estado contra ele.

Na Europa, o drama do Brexit leva o Reino Unido a mais uma eleição e ameaça seriamente o futuro da unidade do país. Escoceses querem novo plebiscito sobre independência e os norte-irlandeses não admitem o fechamento de suas fronteiras com a República da Irlanda. 

Na França, Macron se sustenta a duras penas, após a crise dos coletes amarelos, a qual foi postergada, mas nem de longe solucionada. 

Na Espanha, uma crise política paralisa o país há pelo menos três anos, impossibilitando a formação de um governo, pois nenhum partido consegue alcançar a maioria. O separatismo catalão aguça ainda mais os problemas, levando igualmente a dúvidas sobre o futuro da unidade nacional. 

Podemos considerar a crise planetária como estando ainda em limites civilizados no centro do capitalismo. A paralisia das instituições e a possível dissolução de estados nacionais ainda é uma forma relativamente branda de manifestação da enfermidade que assola o dito cujo neste início de século. 
"A crise dos coletes amarelos nem de longe foi solucionada"
Até quando a fervura ficará neste nível por lá é algo complicado de se prever, mas caso se realizem as previsões econômicas de aprofundamento da crise atual, o centro também pode entrar em erupção completa. 

Se formos para a periferia, a coisa fica pior, com o nível de violência muito mais intenso e com os poderes abertamente saindo de seus esquadros. 

Chile e Haiti vivem levantes populares há semanas, já com mortes na casa das dezenas. O Equador era palco até outro dia de massivos protestos que quase levaram à queda do presidente. 

Na Ásia, o Iraque passa por imensos levantes populares há pelo menos uma semana. Hong Kong sofre há meses com confrontos nas ruas entre manifestantes e policiais, enquanto a Indonésia é varrida por manifestações estudantis. 

Onde não há levantes populares, há paralisia política e bateção de cabeça entre as forças institucionais, resultado do colapso econômico processado no mundo desde a grande crise dos anos 2008-2009. 

O empobrecimento generalizado, o desaparecimento da classe média, o alto custo de vida e a estagnação econômica geram inconformidade global. 
Na 6ª feira passada, o povo chileno novamente foi às ruas exigir a renúncia de Piñera


O impacto é maior e mais doloroso na periferia, onde o baixo poder financeiro das populações torna a situação mais dramática. 

Neste quadro, as elites dirigentes mais realistas já se deram conta da impossibilidade de simplesmente seguirem adiante com suas antigas receitas de austeridade fiscal e arrocho sobre o povo. 

Até bilionários estadunidenses já admitem a necessidade da taxação de suas pornográficas fortunas, além da criação de mecanismos de proteção social mínimos. E o próprio FMI mudou seu clássico discurso neoliberal e hoje pensa de modo menos ortodoxo. 

Por isso, fica mais chocante a política seguida por Paulo Guedes e aplaudida pela plutocracia nacional. Com atraso de décadas, Guedes tenta implantar no Brasil o que já não é seguido em quase lugar nenhum do mundo. 
"O medíocre Guedes acenderá o estopim da revolução brasileira?"

Mais, tenta aplicar um modelo que comprovadamente conduziu a toda essa condição crítica hoje vivenciada e que faz explodir as ruas, os parlamentos e os palácios governamentais. 

Guedes e sua trupe, alheios à realidade, pretendem jogar gasolina no fogo ainda brando que se aproxima do barril de pólvora brasileiro. Só conseguirão com isto acelerar a explosão. 

No entanto, talvez esta seja a forma da história se acelerar e efetivar suas rupturas, com as classes dominantes apertando o parafuso e involuntariamente empurrando os subalternos para a ruptura. 

Foi assim na Inglaterra e na França quando, diante da penúria social, os aristocratas resolveram impor mais impostos ao povo, daí resultando a eclosão das revoluções que acabaram levando tais insensatos a perderem tudo, de cavalos aos pescoços. 

Será, então, o medíocre e lunático Guedes quem acenderá o estopim da revolução brasileira? Só o tempo dirá. (por David Emanuel de Souza Coelho) 

domingo, 27 de outubro de 2019

A verdade sobre a verdade


A primeira reação da cúpula da Lava Jato diante das reportagens do Intercept residiu em obstruir a confirmação de sua autenticidade. Embora insinuassem sofrer calúnias, as supostas vítimas evitaram meios simples e eficazes de combatê-las: disseram ter apagado os arquivos originais e pouparam o veículo de acusações que o ônus da prova submeteria à perícia.

O inquérito dos hackers dificulta ainda mais o acesso à verdade. Enfiou-a num labirinto de papéis que demandam meses de verificações fajutas e inúteis, sem base comparativa possível ou desejada. As evidências ficarão ocultas, supostamente para não consumar o crime, e a versão oficial tratará de solucioná-lo usando outros materiais.

Tudo isso para esconder a nulidade da condenação que impediu a vitória eleitoral de Lula. Nenhuma revelação do Intercept possui semelhantes alcance e gravidade, tampouco o mesmo potencial de suscitar efeitos práticos imediatos. Segredo de Polichinelo da cobertura noticiosa, o tema alcança perplexa unanimidade nos círculos especializados.

O maior desafio aos objetivos da Lava Jato é o sucesso da estratégia de parcerias do Intercept. A veracidade das informações vazadas, inicialmente sujeita a controvérsia, passou a ser admitida de maneira oficiosa por todas as instâncias midiáticas e judiciais. O benefício da dúvida terminou sucumbindo à constatação de sua própria inverossimilhança.

Esse embaraço aflige as altas cortes e setores da mídia corporativa que, aderindo inicialmente à suspeita de falsificação, comprometeram-se a repudiar as conversas caso a soubessem reais. O mote da prova ilícita espana vernizes punitivistas, mas não alivia o desgaste de fingir ignorância acerca de algo repercutido em escala planetária. Provas, afinal, provam.

O STF ganhou um problema e tanto. Sabe que não poderá abraçar o outrora confortável malufismo jurídico, pois os preceitos doutrinários e republicanos que tornam as conversas abjetas são fortes e evidentes demais. Por outro lado, tratá-las como duvidosas agora reduziria o arco de atitudes do tribunal caso ele precise reagir a futuras revelações constrangedoras.

Acontece que não há saída para impedir a liberdade de Lula senão normalizando-se a ética profissional de Sérgio Moro e colegas procuradores. À luz do que ficou impossível não saber, parolagens sobre autenticidade são mera apologia ao delito. Qualquer posicionamento demanda juízos acerca dos valores constitucionais e democráticos afetados pelo escândalo.

Mantendo Lula preso, o STF abrilhantará a narrativa histórica do período com a explicação definitiva para o triunfo impune do arbítrio. Restarão identificados os cúmplices de Moro, as mentes e o poder que sempre faltaram à sua mediocridade intelectual e hierárquica. E mesmo a origem da institucionalização do fascismo no país ganhará um nexo bastante elucidativo.

Sejam quais forem os desdobramentos do episódio, e embora eles não pareçam alvissareiros, trata-se de uma derrota inédita do Regime de Exceção. Desta vez, os fatos escaparam a seu controle. A verdade sobre o golpe eleitoral da Lava Jato vazou, continuará vazando e ficará mais repugnante a cada tentativa de contê-la.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2019/08/a-verdade-sobre-verdade.html

O regime da pós-mentira


Publicado no Observatório da Imprensa


Quando o ministro Ernesto Araújo afirmou que o Partido Nacional-Socialista alemão era de esquerda, proferiu uma bobagem flagrante, que chocou o planeta. Mas o chanceler poderá sempre alegar que não mentiu, apenas expôs um juízo pessoal que, “por acaso”, contraria a verdade. Sorte da opinião, azar dos fatos. E da História.

Embora particularmente ofensiva, a deturpação de Araújo não deveria surpreender os analistas da mídia corporativa. A maioria dos que se dizem perplexos com as impropriedades da cúpula do governo federal vem usando fórmulas silogísticas muito parecidas para o golpe parlamentar, a Lava Jato e a prisão política de Lula.

Se a Constituição autoriza o impeachment, o de 2016 obedeceu à normalidade democrática. Se os tribunais aceitaram a condenação de Lula, sua culpa está provada. Se a Lava Jato prendeu corruptos, foi benéfica para o país. Se a informação tem fonte ilegal, não é fidedigna.

A legitimidade de acreditar em bobagens não as torna verossímeis. Não resta dúvida possível de que o impeachment foi um golpe fisiológico e oportunista alavancado por uma artimanha ilegal da Lava Jato. Ninguém com mínimo discernimento jurídico seria capaz de negar que a prisão de Lula nasceu de conluios delituosos de Sérgio Moro e procuradores.

As conversas divulgadas pelo Intercept provam tudo isso. De novo, porém, a ignorância seletiva dá lógica aos descalabros. Pouco importam as evidências, o bom-senso, a legislação. Basta alguém dizer que “acha” a deposição justa, os indícios convincentes, os justiceiros bem intencionados. A credulidade se expressa como evento indiscutível.

O conceito de pós-verdade talvez sirva para definir as narrativas, mas já não é a maleável ideia de verdade que está em jogo, e sim a de mentira, bem menos controversa. A incapacidade de constatar o óbvio não tem nada a ver com a falsificação, que envolve a própria natureza espontânea e sincera do erro. Mentir é um ato consciente e doloso.

Pois aquelas manifestações de ignorância são performáticas. O ministro sabe que a associação entre nazismo e socialismo é absurda, tanto quanto os apologistas “qualificados” da Lava Jato sabem que ela serve a uma estratégia nefasta de poder. Longe de expressarem convicções sinceras, seus desvarios visam ludibriar incautos e normalizar a defesa do indefensável.

A estratégia tem sucesso, nas cúpulas do Judiciário, para manter a obscena condenação de Lula. O vale-tudo fantasioso dá aos nobres magistrados o álibi que lhes faltaria em sociedades menos corruptas e hipócritas. Eles podem forjar crenças estapafúrdias porque, para impedir a eleição do petista, até os valores que as tornam mentirosas viraram tópico interpretativo.

Enquanto a pós-verdade acena com a anulação das “grandes certezas” por inúmeras narrativas individuais, a pós-mentira traz a utopia da inexistência do ardil falsificador, o pressuposto da validade absoluta de qualquer asserção sobre o mundo. “Polêmica”, segundo o rótulo neutralizador da moda, ela se afirma “imparcial” na proporção de seu repúdio pela sociedade.

A pós-mentira esconde o método que organiza a loucura em pós-verdades convenientes. É o salvo-conduto moral do mentiroso, o cinismo que transforma o delírio em performance e o logro em ética opinativa. A suposta natureza irrefutável do enunciado inverídico, fantasiado de juízo pessoal, dissimula o objetivo que define moralmente o ato de manifestá-lo.

Existem bases narrativas (éticas) nas farsas judiciais da Lava Jato e no delírio messiânico do bolsonarismo. Mas precisamos ir além do conteúdo. O Regime de Exceção é soberano porque dita as fábulas que o legitimam. Aí reside a armadilha do debate ocioso em torno de falsas maluquices, que sempre estarão certas pelos critérios da falsa maluquice hegemônica. Não há terreno mais confortável para o fascismo do que o narrativo.

Combater a pós-mentira exige a distinção entre o apedeuta e o cínico, a ignorância e a fraude. O foco reside, por isso, mais na enunciação do que no enunciado, mais no indivíduo que no discurso. A questão é desmascarar a estultice teatral de pessoas que, sagazes e informadas, proferem juízos infundados para assuntos que elas não têm como ignorar.

O critério profissional ajuda muito nessa leitura de aptidões. A competência pressuposta por diplomas, currículos e cargos obriga seus detentores a certos níveis básicos de conhecimento e interpretação dos fatos. Quando o equívoco involuntário deixa de ser plausível, a própria lógica da meritocracia induz a percepção da desonestidade. O que vale para diplomatas, vale para jornalistas, acadêmicos, advogados e magistrados.

Denunciando na suposta “polêmica” a naturalização da mentira e, nesta, uma atitude imoral dos seus divulgadores, romperíamos a tendência fútil e paralisante de justificar toda aberração conceitual a partir de licenças ideológicas. Não foram valores pessoais que fraudaram a democracia brasileira, e sim a ocultação e a distorção sistemáticas da verdade.

Enquanto ainda podemos reconhecer os efeitos do arbítrio, somos capazes de identificar a índole corrupta daqueles que tentam reduzi-lo a uma simples questão de nomenclatura.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2019/10/o-regime-da-pos-mentira.html

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A IDEIA DE QUE OS DOMINGUEIROS POSSAM CARREGAR O GOVERNO NAS COSTAS NUNCA PARECEU TÃO DISTANTE

joel pinheiro da fonseca
NAS RUAS PARA QUÊ?
"o domingo de manifestação virou o dia do lazer bolsonarista"
A manifestação pró-governo está se tornando um programa rotineiro de domingo em São Paulo. Em outras cidades parece que os protestos murcharam, mas em São Paulo eles seguem fortes. 

Uma vez por mês, cidadãos vestidos de verde e amarelo, aguerridos defensores do governo Bolsonaro, caminham pela avenida Paulista, ouvem uns discursos, gritam algumas palavras de ordem e voltam para casa. 

A cada reedição, o número e a garra dos participantes parecem diminuir um pouco. É essa a grande estratégia do governo?

Moro sem dúvida agradece essa mostra de popularidade, mas não é como se ela trouxesse alguma novidade. Seus apoiadores agora estão estritamente circunscritos ao bolsonarismo. E é nessa condição de fiel escudeiro do Mito e nada mais que ele deve continuar ministro. Fora do governo, os protestos estão se tornando irrelevantes.

A ideia era que Bolsonaro não precisava negociar com o Congresso porque a força da pressão popular sobre os parlamentares os obrigaria a seguir as ordens do Executivo. Na prática, contudo, o Congresso vê os manifestantes entoando cantigas de amor ao presidente e seus ministros e não sente medo nenhum. Não vemos nas ruas as multidões a perder de vista. 
Não seria parcialidade, retrocesso e pibinho?

E como elas não apresentam grandes riscos de partir para a violência, invadir o Congresso, parar a cidade (até o dia dos atos é escolhido para não interferir no trânsito) ou algo do tipo, perdem o potencial intimidatório. O domingo de manifestação virou o dia do lazer bolsonarista.

Assim, deputados e senadores sentem-se à vontade para inviabilizar o decreto que liberava o porte de armas, propõem mudanças várias à reforma da Previdência sem se pautar pelo número mágico do R$ 1 trilhão em dez anos e já se preparam para tocar uma agenda econômica própria assim que a página da Previdência tenha sido virada. 

E ao fazê-lo criarão uma situação difícil para a militância bolsonarista: se o Congresso toma a dianteira nas reformas econômicas do Brasil, o governo não poderá acusá-lo de sabotar seu trabalho.

A pressão popular, para ter algum efeito, precisa ser rara e impactante. E ela o será tanto mais quanto mais parecer que o Congresso —para defender interesses próprios— se coloca contra mudanças importantes do país. Se ele for o motor dessa mudança, a grande crítica do bolsonarismo à velha política estará desarmada.
A kriptonita do Intercept o reduziu a piada

O governo terá três opções. A primeira é aceitar um papel menos importante, apostar na recuperação econômica que o Congresso trará e colher os frutos eleitorais disso. 

A segunda é continuar apostando no embate e tentar sabotar as iniciativas do Congresso (como a reforma tributária); mas transformar essa jogada pelo poder em alguma narrativa virtuosa que convença a opinião pública será difícil. 

E a terceira é correr atrás do prejuízo e fazer o trabalho que deveria estar fazendo, com menos conflitos, menos bravatas e mais discussão de projetos.

A cada nova intriga que vaza para a mídia, a cada nova humilhação pública e demissão sumária imposta a um ministro ou funcionário do alto escalão (como no caso de Joaquim Levy e do general Santos Cruz), o governo perde a confiança e a boa fé de todos aqueles que poderiam colaborar com ele, tornando mais difícil fazer um trabalho sério. 

Os domingueiros de verde-amarelo gostam, festejam cada novo ato intempestivo do Mito. Mas a ideia de que eles possam carregar o governo nas costas nunca pareceu tão distante. (por Joel Pinheiro da Fonseca)

SEIS MESES DE BOLSONARO: ATÉ QUANDO, JAIR, ABUSARÁS DE NOSSA PACIÊNCIA?


1. Na política, Bolsonaro patina, derrapa, escorrega quase todo dia. Em seis meses, não conseguiu formar uma base de apoio no Congresso. Cometeu erros primários na relação com o Legislativo e quis medir forças com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Perdeu terreno na negociação da reforma da Previdência, cedendo espaço e protagonismo na sua possível aprovação.
2. O partido do presidente, o PSL, mais atrapalhou do que ajudou. Foi pivô do principal escândalo até aqui, o caso das candidaturas de laranjas nas eleições passadas, que levou à queda de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral e transformou o único ministro da sigla, o do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, em um morto-vivo na Esplanada. No Congresso, o PSL arrumou confusões desnecessárias, expôs divisões na bancada e nada fez para liderar uma base aliada.
3. O modelo de Bolsonaro governar emitiu sinais trocados de janeiro para cá. Começou parecendo uma gestão descentralizada, com núcleos delineados (militares, Moro, Guedes, entre outros). Nos tempos recentes, no entanto, Bolsonaro tomou as rédeas e, muitas vezes de maneira atabalhoada, tem dado as cartas, trocando peças e anunciando medidas.
4. A política externa não surpreende. É tacanha, da veneração ao governo Trump (EUA) a retóricas ideológicas. No G20, porém, Bolsonaro entrou no jogo: teve de puxar o freio do blá-blá-blá bravateiro para se enquadrar na liturgia do diálogo.
5. Na economia, o governo comemora o acordo Mercosul-União Europeia. Mesmo tendo a digital de gestões passadas, o mérito de quem o celebrou fica. De resto, as fichas estão na Previdência, enquanto o PIB está em baixa e outras medidas adormecem no escaninho de Guedes. 
6. Fiador ético do governo, Sergio Moro está nas cordas com as mensagens graves da Lava Jato. Será defendido por Bolsonaro até quando não for mais útil para o presidente. 
                                                                                                                         
  .
TOQUE DO EDITOR — Bolsonaro começou seu governo acreditando que poderia encenar no Palácio de Planalto o show de besteiras ultradireitistas com que seus filhos e o Rasputin de Virgínia tolamente sonhavam.

Sua realização mais notável no semestre findo foi a sétima que faltou na enumeração do Colon: conseguiu reerguer espetacularmente o movimento estudantil, plantando sem querer a semente de uma indispensável nova esquerda, agora que a versão genérica das últimas décadas, após apostar tudo na conciliação de classes e perder até o último centavo, já nada mais tem a oferecer.

Finalmente, depois de ter sido colocado no seu lugar aqui (pelo Alcolumbre e pelo Maia) e lá fora (pelo Macron e pela Merkel), Bolsonaro acaba seus péssimos primeiros seis meses aparentemente decidido a deixar a pauta neofascista de lado e jogar o jogo tradicional da velha política (aquela que ele vinha vituperando após comer nesse prato por apenas três décadas...).

A boa notícia é que, se ele realmente tomar o rumo para o qual o sistema o empurra, ao invés de sustos e sobressaltos voltaremos a ter mais do mesmo de sempre.

A má notícia é que, nesse caso, provavelmente teremos de aturá-lo por mais três anos e meio (O horror, o horror!), ao passo que, insistindo no show de besteiras, ele não esquentaria cadeira.

COLOPROCTOLOGIA: TUDO QUE VC QUERIA SABER SOBRE A MASSA OLAVAL QUE OS BOLSONAROS TÊM NA CABEÇA.

VC QUERIA SABER SOBRE A MASSA OLAVAL QUE OS BOLSONAROS TÊM NA CABEÇA.

joel pinheiro
da fonseca
EM SEIS MESES, OLAVO FORNECE
A BOLSONARO MILITÂNCIA ATIVA
E FANÁTICA
É uma pena que, em 2019, Olavo de Carvalho ainda seja tema relevante no debate público brasileiro. Com efeito, ele talvez nunca tenha sido tão relevante.

No governo Bolsonaro, Olavo não é apenas um escritor de sucesso ou o professor de um curso online popular; é um dos principais ideólogos do governo e indicou ao presidente os ocupantes de dois ministérios, no que foi prontamente obedecido.

Embora esteja, aos seis meses de governo, um pouco mais afastado do entorno presidencial, seus seguidores e sua ideologia continuam a influenciar os rumos de Brasília.

Essa posição de influência não é fruto do puro acaso.

Olavo veio construindo sua base, doutrinando um número crescente de seguidores com pouca bagagem cultural, desde o início dos anos 2000. Nos anos 1990, fora um polemista e crítico de medalhões intelectuais da esquerda que dominavam o debate público.

Antes disso, vivera muitas e diversas aventuras: alega ter sido militante comunista na juventude. Mais tarde, se juntou a umatariqa (um grupo esotérico islâmico) e fez um mergulho no misticismo e no perenialismo; foi também astrólogo. Hoje, é católico e reside nos EUA.

Olavo já teve presença na mídia. Chegou a ter coluna no jornal O Globo. Mas, por seu pensamento crescentemente paranoico e sua incapacidade de travar uma discussão sem recorrer a ofensas e xingamentos, acabou perdendo todos os seus espaços na mídia, ao mesmo tempo em que investia em seu site, programa de YouTube e curso online.

Percebeu antes de muitos outros formadores de opinião que, com as novas tecnologias, não era mais necessário o crivo institucional da mídia ou da universidade para chegar ao público.

A aposta vingou. Morando nos EUA, Olavo dá um curso online de filosofia que já se estende por anos, tem milhares de alunos e mensalidade de R$ 60.

Ao mesmo tempo, ele conseguiu se transformar numa grande referência de cultura, filosofia e política para pessoas sem grande bagagem intelectual e com algum ressentimento do discurso dominante na mídia, na política, nas universidades e nas artes.

O QUE OLAVO ENSINA — Embora se considere filósofo e tenha escrito livros sobre filosofia, seu real interesse —e o de seus alunos e seguidores— é a política. Sua mensagem política é simples: tudo o que é de esquerda é maligno.

Em nome de extirpar a esquerda, vale tudo, inclusive derrubar à  força qualquer obstáculo institucional ao livre exercício de poder de um governante de direita.

Congresso, STF, mídia, universidades e mesmo as Forças Armadas: à medida em que não se curvarem ao mando de Bolsonaro, devem ser atacados sem trégua.

No passado, ele já torceu abertamente por um golpe que derrubasse o governo constituído, como no caso da greve dos caminhoneiros em 2018. Olavo foi um apoiador de primeira hora dos grevistas. Para ele, os caminhoneiros possuíam a virtude e a força que faltava aos militares para fazer uma revolução.

Num post em sua página no Facebook em 24 de maio de 2018, escreveu:
"Por que os caminhoneiros estão pedindo intervenção militar? Deveriam eles mesmos fazer a intervenção, pois já provaram, mais de uma vez, que têm capacidade e bravura para isso. Todo poder aos caminhoneiros!"
Digamos que a estabilidade institucional do país não lhe seja um valor muito caro.

Embora tenha abandonado há muito o mundo das seitas esotéricas, conserva ainda alguns de seus traços: cultiva perante seus seguidores a imagem de um grande sábio, cuja autoridade deve ser sempre respeitada e reconhecida.

Com essa autoridade, promove a fanatização de seus seguidores, fazendo-os crer que vivemos na iminência constante de um apocalipse esquerdista, do qual apenas Olavo (ou aqueles por ele apontados) podem nos salvar.

Toda sua filosofia, em última instância, aponta para a mesma conclusão: duvidar da argumentação racional e confiar acima de tudo na intuição superior do mestre (ele próprio).

A mídia, a universidade e a ciência de maneira geral são alvo de desprezo.

Recentemente, expressou dúvidas sobre se a Terra é plana. Não se sabe até que ponto manifestações como essas devem ser levadas a sério, mas creio que buscar saber se algo que Olavo diz é sério ou não já é perder o ponto central da filosofia olaviana: o conteúdo é o que menos interessa. O importante é fomentar a dependência do seguidor na autoridade do mestre.

As teses conspiratórias se seguem umas às outras e vão embora sem deixar rastro. Maçonaria, programação neurolinguística, Foro de São Paulo, globalismo, comunismo, marxismo cultural,Clube Bilderberg, segredos de Fátima. O importante é manter a fé cega e o ânimo exaltado.
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O QUE OLAVO E OS OLAVISTAS FAZEM — Não se deve superestimar o papel de Olavo no governo Bolsonaro.

Ele não está presente no dia a dia da administração nem toma decisões. Permanece, contudo, como a fonte da ideologia dominante no discurso do governo (que combate inimigos como o globalismo e o Foro de São Paulo) e é o guru inspirador de figuras influentes: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo, o assessor de política internacional da Presidência Filipe Martins e os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, desafetos seus na equipe do governo têm sido paulatinamente demitidos, como ocorreu com o general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, que em maio foi xingado de “seu merda” por Olavo no Twitter.

Inegavelmente, o que os olavistas têm a oferecer ao governo Bolsonaro não é domínio técnico das pastas em que são alocados. Até agora, vimos o fracasso vergonhoso da primeira indicação de Olavo ao Ministério da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Weintraub, seu sucessor, conseguiu transformar um contingenciamento normal numa crise de popularidade, faz o discurso de caça às bruxas contra professores e hoje se resume a xingar o PT no Twitter.

Nas Relações Exteriores os militares do governo tiveram que construir um verdadeiro cordão de isolamento para impedir que o ministro Ernesto Araújo comprometesse o interesse nacional com sua mistura curiosa de discurso nacionalista extremado e subserviência aos EUA.

A Apex, empresa pública que inicialmente fora deixada a cargo de olavistas, praticamente parou em meio à incompetência e às intrigas constantes por eles fabricadas. 
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O QUE RESULTA DO OLAVISMO — O que os olavistas oferecem ao governo é uma militância altamente mobilizada e fanatizada, disposta a atacar alvos selecionados nas redes sociais e fazer barulho nas ruas quando necessário.

Bolsonaro vem apostando nessa ideia, alimentado talvez pela crença de que o grito das redes significa popularidade real nos lares brasileiros.

Cercado de conselheiros como Filipe Martins e seu filho Eduardo, parece crer na paranoia conspiratória de que todos fora de seu círculo íntimo conspiram contra ele.

Os institutos de pesquisa vêm apontando queda na popularidade do presidente, mas já que, de acordo com Olavo e sua ideologia, os institutos mentem, não há por que acreditar neles.

Mais recentemente, Bolsonaro se afastou um pouco da figura de Olavo —que ficou desgastado depois das sucessivas brigas com a ala militar do governo— sem com isso livrar-se dos olavistas que ocupam posições importantes na administração e da ideologia olavista (teorias da conspiração e fanatização da base a serviço de um projeto de poder absoluto).

Se de fato continuar nessa rota, encaminhará o governo para o sonho de Olavo e de seus seguidores: a ruptura institucional visando o poder total.

Parece uma estratégia fadada ao fracasso, mas dado o tamanho do abismo que o presidente criou entre si e o Congresso, talvez seja vista como o único caminho.

Em todos os projetos em que toca, Olavo deixa um rastro de desavenças, intrigas, ressentimentos, sem nenhuma realização. Com o governo federal não parece que será diferente. (por Joel Pinheiro da Fonseca)

domingo, 9 de junho de 2019

Há séculos, um açougueiro no poder


Acaba de ser lançado o Atlas da Violência 2019, do Ipea. Novamente, os dados provam que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo.

Entre as muitas conclusões que apresenta, a publicação revela que o número de homicídios cometidos com armas de fogo, crescia 5,44% anuais nos 14 anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento. Já nos 14 anos posteriores, esse índice caiu para 0,85%.

Mesmo assim, o presidente do próprio Ipea, Carlos Von Doellinger, afirmou que “por uma questão de princípio, me incomoda a impossibilidade de o cidadão ter uma arma para a defesa da sua integridade física, de sua família e do seu patrimônio”.

É esta a lógica dos integrantes do governo Bolsonaro. Há mortes demais nas estradas? Flexibilizem-se as leis, punições e fiscalização de trânsito. O agronegócio abusa dos venenos agrícolas? Liberem-se ainda mais agrotóxicos. Mulheres são agredidas? Ofereça-se a elas uma arma para se defenderem.

Mas nada disso é um raio no céu azul. A alcateia louca que está no poder se vale de fake news, mentiras, calúnias e difamações. Mas seu modo de administrar o País é perfeitamente coerente com nossa realidade social e histórica.

Bolsonaro na presidência é a classe dominante sem filtros. Sem sociólogos, metalúrgicos ou guerrilheiras a tentar dourar a pílula venenosa da dominação extremamente truculenta dos poderosos locais.

A eleição de Bolsonaro é a mais pura demonstração da debilidade de uma Constituição cujas belas vestes da democracia moderna já não escondem o emporcalhado avental de um velho açougueiro sanguinolento.

Chegamos à pílula no 2.000. Doses suspensas por algumas semanas.