A saída de dólares do Brasil superou a entrada em US$ 1,625 bilhão em abril, segundo informações divulgadas pelo Banco Central nesta quarta-feira (8).
A entrada de dólares se dá quando investidores enviam dinheiro ao Brasil para pagar por compra de produtos brasileiros ou para realizar aplicações financeiras e investimentos em empresas, por exemplo.
O dólar sai quando esses investidores retiram recursos do Brasil para, normalmente, aplicar em outros países, ou para pagar pelas importações realizadas. Essas operações ocorrem por meio de remessas feitas por bancos contratados por esses investidores.
por Fernando Brito, Tijolaço - Ontem, foram dois ou três mil jovens do Colégio Pedro II, do Cefet e dos Institutos de Educação Tecnológica, diante do Colégio Militar.
Hoje, perto de 10 mil estudantes universitários param o centro da cidade de Niterói num protesto contra o corte de 30% nas verbas da Universidade Federal Fluminense.
O mesmo está acontecendo no campus da Univeridade em Macaré, no Norte do Estado.
E vai se repetir em centenas de campus de universidades federais por todo o país.
No dia 20 de março deste ano, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), teceu críticas duras ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. Entre as considerações, o mandatário da Casa afirmou que o pacote “anticrime” de Moro, principal bandeira de seu ministério, era uma imitação do projeto apresentado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
“O projeto é importante. Aliás, ele tá copiando o projeto do ministro Alexandre de Moraes. Copia e cola. Então, não tem nenhuma novidade. Poucas novidades no projeto dele. Nós vamos apensar um ao outro. O projeto prioritário é o do ministro Alexandre de Moraes”, afirmou Maia.
Na semana seguinte, Maia e Moro se encontraram na casa do presidente da Câmara e fecharam acordo para agilizar a tramitação do projeto na Casa. Para tanto, o deputado se comprometeu em enviar o texto para apreciação simultânea no Senado.
Nos bastidores do Congresso, a proposta do ministro do STF ganhou força nos últimos meses e tem sido tratada por alguns setores como “plano B”, por ser supostamente mais efetiva e “menos radical” que o pacote de Moro – que poderia ter mais dificuldade de tramitação.
A convite doBrasil de Fato, dois juristas analisaram pontos específicos dos dois projetos. Os temas selecionados – “Prisão em segunda instância”, “Milícias” e “Progressão de pena” – foram escolhidos devido à dimensão que ganharam no debate público recentemente. Para Fernando Hideo Lacerda, advogado criminalista e professor de Direito Penal na Escola Paulista de Direito, e Patrick Mariano, mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB), os projetos não são tão similares como apontou Rodrigo Maia.
Prisão em segunda instância
O primeiro item conseguiu a atenção da opinião pública por conta de uma decisão do ministro Marco Aurélio Mello, no dia 19 de dezembro, determinando a soltura de 169 mil presos que estão encarcerados sem o trânsito em julgado, com possibilidade de recursos em instâncias superiores. A medida foi revertida pelo ministro Dias Toffoli apenas cinco horas depois.
A decisão de Mello jogou luz no descaso do sistema judiciário, que mantém 23,9% da população carcerária brasileira trancafiada sem que sua culpa esteja determinada pela Justiça. Hideo e Mariano apontam que Moraes, em seu projeto, não propõe qualquer alteração na atual legislação. Para Moro, é preciso modificar.
“Ele [Moro] tenta legislar na esfera das leis federais tema sobre o qual não existem dúvidas quanto a clareza textual do mandamento constitucional de que todos são inocentes até o trânsito em julgado da sentença condenatória. A proposta do ponto de vista técnico é uma aberração. Do ponto de vista político, Moro tem uma única intenção que é a de pressionar os ministros do STF no julgamento das Ações Declaratórias de Inconstitucionalidade (ADCs) que aguardam julgamento pela Corte”, afirma Mariano.
O jurista cita as ADCs 43, 44 e 45, que o STF deveria ter analisado no dia 10 de abril, mas que o ministro Toffoli retirou da agenda da Corte, após pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O processo analisará o mérito da decisão do STF de fevereiro de 2016, que autorizou a prisão antes do trânsito em julgado, já a partir da segunda instância.
Milicianos
No dia 14 de março deste ano, completou um ano do brutal homicídio da vereadora Marielle Franco (PSOL). Dois dias antes, a Polícia Civil anunciou a prisão do policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira Queiroz, suspeitos do assassinato. A investigação liga os dois agentes às milícias que atuam no estado.
Ronnie Lessa, acusado de ser o atirador, foi preso em sua casa, que fica dentro do Condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, o mesmo em que o presidente Jair Bolsonaro mantém sua residência. De acordo com Giniton Lages, delegado responsável pela investigação, o filho do presidente teria namorado a filha do policial militar.
Outros nomes que foram analisados entre os suspeitos de assassinarem Marielle Franco mantiveram relação com a família Bolsonaro. Paulo Alves Pereira, major da PM-RJ, apontado como chefe da milícia de Muzema, localizada no bairro de Itanhangá – local escolhido por Ronnie Lessa e Élcio Queiroz para partir com o carro para executar a vereadora – foi homenageado pelo senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), vereador na época, com a medalha Tiradentes, mais alta honraria do Legislativo do Rio de Janeiro, em 2003.
O filho de Bolsonaro homenageou, ainda, outro miliciano. Em 2005, Adriano Magalhães Nóbrega, agente do batalhão de Operações Especiais (Bope), recebeu a medalha Tiradentes. Ele seria o chefe dos milicianos que atuam em Rio das Pedras.
É justamente em Rio das Pedras que foi se esconder Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, depois que o Controle de Atividades Financeiras revelou que, em 2018, sua conta movimentou R$ 7 milhões, valor incompatível com seus vencimentos. Os depósitos eram oriundos de outros funcionários do gabinete do então vereador.
Com as seguidas “coincidências”, a relação entre o clã Bolsonaro e os milicianos dominou o noticiário. Em seus projetos, escritos antes que o presidente e se filho fossem acusados de estarem ligados às milícias, Moro e Moraes abordam o tema.
Com uma lupa apontando para o tópico que trata dos milicianos, Hideo fez uma análise técnica das propostas.
“Moro limita-se a incluir as milícias como exemplo de organização criminosa. Moraes detalha mais o tema, criminalizando a realização de ‘atos preparatórios’ para constituição de milícias, fixa competência da Polícia Federal e Justiça Federal para persecução e cria varas colegiadas para julgamento desses crimes.”
“Do ponto de vista legal, eu tenho sérias críticas a tipificar o que seria uma milícia por que ela é muito mais um termo jornalístico e da política para designar a atuação de grupos que praticam crimes”, explica Mariano.
Sobre o projeto de Moro, o jurista afirma que o texto propõe novidade. “Uma Lei de 2012, impulsionada pela ação de grupos de extermínios no Nordeste criou o art.288-A que define o que seria uma milícia e aplica pena. Embora bem intencionados os seus autores, a tipificação era desnecessária porque já havia a época legislação suficiente para tratar da questão. Faltava vontade política até porque muitos dos integrantes desses grupos são servidores públicos. Feito isso, a proposta de Moro não trata de nenhuma alteração no art.288-A.”
Sobre a proposta de Moraes, Mariano afirma: “Ele quer punir os chamados atos preparatórios do crime de milícia e estabelecer que esses crimes devam ser apurados pela Polícia Federal. Veja, punir atos preparatórios é uma excrescência para a ciência penal. Isso vem com outra aberração legal que foi a introdução no sistema de justiça da Lei do Terrorismo. Essa é a diferença entre um e outro. Um trata do tema, de forma errada na minha opinião, outro não trata.”
Progressão de Pena
A 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou, no dia 23 de abril deste ano, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha sua pena reduzida de 12 anos e um mês para 8 anos, 10 meses e 20 dias. Dessa forma, o petista passou a ter direito a progressão de pena para o regime semiaberto, que lhe permitiria trabalhar durante o dia, retornando ao cárcere à noite.
No último 3 de maio, Lula anunciou, através de sua Defesa, que irá solicitar à Justiça a progressão de pena. A decisão foi tomada após reunião com seus advogados na superintendência da Polícia Federal em Curitiba, Paraná, onde está preso desde abril de 2018.
“No projeto do ministro Alexandre de Moraes, há aumento dos prazos mínimos para progressão de regime, fixado em lei e apenas nos casos de crime hediondo e equipados. No projeto do Ministro Sérgio Moro, há previsão genérica e arbitrária de que o juiz poderia fixar prazo mínimo de cumprimento da pena em regime fechado”, analisa Hideo. E acrescenta: “O projeto do ministro Sérgio Moro é mais abrangente, pois pretende uma revolução no sistema penal brasileiro, enquanto a proposta do ministro Alexandre de Moraes limita-se a alterações mais pontuais no ordenamento jurídico-penal”.
Para o criminalista, no entanto, os dois projetos são autoritários, porque colocam a punição, o aumento de penas e o encarceramento em massa como solução para a criminalidade no país. Além disso, acredita que “enquanto as questões de política criminal forem tratadas exclusivamente com base na repressão policial e judicial, seguiremos com o fracasso na segurança pública. É preciso entender que a violência estatal não é um remédio eficaz para a criminalidade. A prevalecer essa mentalidade autoritária, em breve teremos a maior população carcerária e os piores índices de violência urbana no mundo”.
Mariano também teme um agravamento na já precária situação penitenciária brasileira. “As duas propostas são bem nefastas neste quesito, porque endurecem as condições iniciais de cumprimento da pena, bem como a progressão de regime para certos crimes. Não há sentido científico, técnico, estrutural nenhum para essas mudanças a não ser a opção clara pelo populismo penal”, alerta.
“A Lei de Execuções Penais trabalha com a lógica da reinserção social da pessoa presa, os projetos ignoram por completo esse norte elementar da execução penal. Assim, se reforçam crises no sistema penitenciário e se estocam seres humanos em depósitos sem qualquer dignidade por tempo indeterminado. As propostas desconsideram a realidade do cárcere brasileiro e, ao invés desenvolver ações como o mutirão carcerário e cuidar para que a pessoa presa não passe tempo além do que a lei determina na prisão (grande parte da população carcerária), agravam, irresponsavelmente, essa realidade”, encerra o jurista.
A Cruzada Anticorrupção finalmente se apoderou do Santo Graal político-administrativo que perseguia com fanática voracidade. Jair Bolsonaro, ungido pela seita, venceu alegando esse pertencimento. É o “poste” da Lava Jato, figura medíocre e vulnerável, submetida a interesses mais poderosos que receberão prerrogativas monárquicas para garantir sua sobrevivência.
Dizer que a Lava Jato contribuiu desacreditando a classe política é insuficiente. A virulência antipetista ganhou viés muito pragmático na condução dos assuntos pré-eleitorais, com precisão cirúrgica inexistente nos outros partidos, inclusive o pitoresco PSL de Bolsonaro. A lista de governadores e legisladores eleitos mostra que a moralidade atingiu apenas quem poderia, local e nacionalmente, atrapalhar os candidatos alinhados à causa santa.
Durante os últimos anos, procuradores e magistrados foram agentes diretos da normalização do fascismo brasileiro. No flanco repressivo, exorbitando um punitivismo inconstitucional e tendencioso contra jornalistas, militantes e líderes partidários. Na seara da impunidade, reproduzindo o hábito seletivo que garantiu a sobrevivência da Lava Jato, desde a proteção a seus membros até a blindagem daqueles que a apoiaram.
O vazamento ilegal de gravações já ilegais de Dilma Rousseff, de Lula e de familiares e advogados do ex-presidente passou incólume pelas rigorosas autoridades. O único adversário que poderia vencer Bolsonaro foi preso na véspera da disputa, por “crime indeterminado”, sem provas materiais de culpa. O STF manobrou para negar o direito de Lula ao habeas corpus e permitiu os atropelamentos de funções que barraram as ordens isoladas de soltura.
Esse padrão dominou a disputa presidencial. O TSE engoliu covardemente a pressão dos militares, as ameaças diretas de Bolsonaro, a violência escancarada de seus adeptos e sua fábrica de mentiras digitais. As cortes impediram Lula de falar à imprensa, divulgaram o depoimento inválido de Antônio Palocci, empastelaram uma revista, reprimiram debates universitários e censuraram propagandas que associavam o capitão à tortura que ele defende.
A naturalização dos hábitos nefastos das autoridades pavimenta o caminho do obscurantismo. A tolerância ante a brutalidade física de policiais, milicianos e energúmenos civis legitimará o arbítrio criminoso na solução cotidiana de conflitos. A adesão irregular de servidores públicos a absurdos como o Escola Sem Partido normalizará e disseminará o patrulhamento saneador em todos os níveis profissionais. Sérgio Moro virou ministro da Justiça, afinal de contas.
Ao mesmo tempo, a ideologia truculenta dos vitoriosos incentivará a destruição judicial dos oponentes. Podemos esperar um tenebroso varejo de garrotes, principalmente em litigâncias contra a liberdade de expressão, sob a desculpa de punir apologias ao crime, calúnias e difamações, atentados à moral, fake news, etc. A criminalização do uso do adjetivo “fascista”, por exemplo, só espera uma primeira iniciativa bem sucedida.
A vitória de Bolsonaro seguirá marcada pelo gesto agressivo que a impulsionou. Um ato sem nexo, misterioso, que a mídia transformou em espetáculo antes que o ceticismo pudesse enfraquecê-lo. Eis o núcleo imaginário do novo projeto de poder: o choque performático, a mistificação, o jogo redundante de ameaças intangíveis, o desvio pela irracionalidade.
“Não existe direito absoluto” e “ninguém está acima da lei”, os lemas do absolutismo togado, possuem utilidade metodológica. O triunfo político do Regime Judicial de Exceção baseia-se nesse discurso negativista, que nivela os cidadãos pela recusa generalizada à cidadania. Quanto mais autoritário for o governo, menos ele parecerá incompetente e corrupto. Direitos cerceados provarão a força do sistema e embalarão seu delírio revolucionário.
Mas, para as pessoas de bem, as instituições continuarão funcionando normalmente. Glória a Deus pela democracia brasileira.
Dia do Índio é data ‘folclórica e preconceituosa’, diz Daniel Munduruku. Professor, com doutorado pela USP e pós-doutorado pela Federal de São Carlos, ele prefere ser chamado de “indígena”, que significa “originário, aquele que está ali antes dos outros”.
Mas, atenção, diz ele, “os indígenas não são seres do passado, são do presente”. Já a palavra índio:
...está quase sempre ligada a preguiça, selvageria, atraso tecnológico, a uma visão de que o índio tem muita terra e não sabe o que fazer com ela. A ideia de que o índio acabou virando um empecilho para o desenvolvimento brasileiro.
Mas Daniel não é apenas indígena. É Munduruku. É seu “lugar de pertencimento”. Para ele, identificar “os diferentes povos indígenas significa garantir a eles direitos e políticas específicas, não políticas genéricas.”
Quanto ao 19 de Abril, sugere que as escolas deixem “de usá-la como uma data comemorativa. É uma data para a gente refletir”:
Um Dia da Diversidade Indígena teria um impacto semelhante ao Dia da Consciência Negra, que gerou uma mudança absolutamente significativa.
Aos que afirmam que os indígenas brasileiros vivem na miséria, Munduruku responde:
Quando a gente pensa que uma pessoa é miserável porque ela não é como a gente, porque ela não frequenta shopping center, a gente está sendo não apenas preconceituoso, mas racista.
Quanto ao momento atual:
Eu não quero ser profeta do caos. Mas minha perspectiva é que as coisas vão piorar para os povos indígenas nesse governo.
Nada a comemorar. Muito o que aprender e pelo que lutar.
A revista eletrônica espanhola Sin Permiso publicou um artigo de Michael Roberts, em 19/04/2019. O economista marxista britânico inicia o texto alertando que em recente reunião conjunta, FMI e Banco Mundial novamente avaliaram que se tornou muito provável uma “nova recessão” na economia mundial.
Mas o que interessa destacar são as conclusões do próprio Roberts:
Toda crise possui um gatilho diferente ou causa próxima. A recessão internacional de 1974-5 foi provocada por um forte aumento dos preços do petróleo e o abandono dos Estados Unidos do padrão dólar-euro. A crise de 1980-1982 foi provocada por uma bolha imobiliária na Europa e uma crise industrial nas principais economias. A recessão de 1990-2 foi provocada pelos preços do petróleo e a guerra do Iraque. A leve recessão de 2001 foi o resultado da explosão da bolha dot.com. E a Grande Recessão se iniciou com o colapso da bolha imobiliária nos Estados Unidos (...). Mas, por trás de cada uma destas crises está o movimento de queda na rentabilidade do capital produtivo e, finalmente, uma desaceleração ou diminuição da massa de lucros.
Desta vez, acredito que o deflagrador será a dívida empresarial, já que as empresas conseguem acumular um excesso de créditos baratos e quando os lucros caem e o custo dos juros sobe, tornam-se insolventes.
Importante acrescentar que, de todas as crises acima, a mais profunda foi a de 2008. Aquela que nunca terminou e trouxe com ela uma onda ultraconservadora que vem varrendo muitos países importantes.
Quando um novo surto da crise vier, ou a classe trabalhadora responde com suas alternativas socialistas ou haverá ainda mais barbárie.
Monteiro Lobato apontou que “um país se faz com homens e livros”.
O gigante Lobato imolaria o bigode se acordasse de seu sono eterno no Brasil de hoje.
A ex-jogadora de vôlei Fernanda Venturini, mulher de Bernardinho, contou ao Uol, orgulhosa, seu encontro com Jair Bolsonaro.
“Eu levei um livro para ele, que é um livro famoso da Suécia porque lá os governantes lavam a louça, fazem tudo. Aí ele falou: ‘Fernanda, você acha que eu vou ler? Não tenho tempo’”, relatou.
“Eu falei: ‘Então me dá o livro de volta’. É muito sincero. É pá, pum, isso que é bom. Porque ele ia levar o livro, aí ia ficar o livro lá jogado e muita gente quer ler esse livro”.
No programa de Pedro Bial, Sergio Moro comentou sobre um de seus passatempos.
“Eu gosto bastante de ler biografia”, falou.
Bial quis saber: “Qual foi a última que o senhor leu?”.
A resposta: “A última que eu li de biografia… Puxa vida, eu tenho uma péssima memória…”
Dado que é mentira, seria fácil inventar uma desculpa qualquer.
De acordo com a revista Época, o ex-juiz revelou ao guru que era uma honra conhecer alguém que inspirou tanta gente, incluindo “o chefe”, referindo-se a Bolsonaro.
Moro ainda mencionou ter gostado muito do livro “O jardim das aflições”, mas confessou que o achara “muito denso”.
por Leonardo Attuch, Brasil 247 - A notícia mais importante deste domingo de Páscoa foi publicada pelo colunista Lauro Jardim, no Globo, que recebeu áudios em que o presidente Jair Bolsonaro incentiva seus aliados a atacar o vice-presidente Hamilton Mourão (saiba mais aqui). Já parecia óbvio e ululante, como diria Nelson Rodrigues, que os ataques do "guru" Olavo de Carvalho ao vice e também a outros militares não ocorriam sem o aval de Bolsonaro. No entanto, os áudios agora fornecem uma prova material de que o presidente conspira contra seu vice – o que, de certa forma, contraria a lógica. "Normal", na tradição brasileira, é que vices conspirem contra seus chefes e o exemplo maior de traição na nossa história foi recentemente protagonizado por Michel Temer. Bolsonaro, no entanto, subverte a lógica.
Se não bastassem os ataques do "guru" da Virgínia, Bolsonaro também incentivou o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) a pedir o impeachment de Mourão. Ao decidir não puni-lo pela iniciativa, Bolsonaro também deixou claro que aprova suas ações. Não por acaso, o "pastor" Feliciano aproveitou o sábado de Aleluia para malhar seu Judas particular e foi ao twitter para rotular Mourão como "traidor" (saiba mais aqui).
Há, no entanto, alguma evidência de que Mourão esteja mesmo traindo Bolsonaro? Até agora, não. O que existe, objetivamente, é uma tentativa da ala militar do governo de conter movimentos de Bolsonaro que representam uma traição à pátria. Sim, porque embora diga "Brasil acima de tudo", Bolsonaro bate continência para a bandeira dos Estados Unidos e tenta promover uma política de ataque aos interesses nacionais. Mais do que isso, ele próprio já declarou que chegou para destruir – e não para construir absolutamente nada.
Se dependesse unicamente de Bolsonaro, o Brasil já teria se metido em diversas enrascadas, que atenderiam apenas aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel. Nosso chanceler trumpista Ernesto Araújo chegou a oferecer um corredor de passagem para tropas estadunidentes, numa eventual guerra contra a Venezuela. Graças a uma viagem de Mourão à Colômbia, no entanto, o risco de guerra no continente foi afastado. Foram também os militares que impediram a insanidade da transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. A solução salomônica encontrada – de um escritório de negócios – foi ruim, mas menos grave do que a transferência da embaixada em si. E foi também Mourão quem fez movimentos de aproximação com países árabes e com a China, que vêm sendo alvo de ataques pela política externa de Araújo – um chanceler que segue a cartilha de Washington.
O que Feliciano classifica como traição, portanto, é a defesa dos interesses econômicos da burguesia nacional, assunto que certamente passa longe das preocupações da bancada evangélica, que mobiliza fiéis pelo Brasil com a promessa de que Jesus Cristo retornará quando o povo de Israel se converter ao cristianismo – uma das maiores fake news já propagadas. Aliás, no que depender dos israelenses, onde o cristianismo é uma religião inexpressiva, Jesus Cristo jamais retornará.
Na sua guerra contra os militares de alta patente, Bolsonaro utiliza diversos instrumentos. De um lado, reforça sua associação com o baixo oficialato. Notícia publicada neste domingo pela Folha de S. Paulo indica que o Brasil ampliou gastos com pessoal militar, mas reduziu investimentos em defesa – ou seja, mais salários e menos proteção (leia mais aqui). Por outro lado, o "guru" Olavo, que já atacou tanto Mourão como o general Santos Cruz, diz que os militares devem se contentar com os cargos que receberam na máquina pública. A mensagem é clara: não ousem querem impedir o processo de entrega do Brasil aos Estados Unidos. Em paralelo, os filhos de Bolsonaro também mobilizam suas redes sociais contra os "traidores" de farda.
Há, portanto, uma guerra não declarada em Brasília entre o bolsonarismo e as Forças Armadas. Os generais imaginavam que conseguiriam cavalgar Bolsonaro, mas o presidente reage. Ocorre que nenhuma de suas ações terá êxito se ele não conseguir entregar o essencial: empregos, crescimento econômico e paz social. E até agora nada indica que a política econômica de Paulo Guedes e a política externa de Ernesto Araújo tenham qualquer capacidade de fazer o Brasil voltar a crescer. Ou seja: por mais que conspire contra seu vice, Bolsonaro será fatalmente inviabilizado se não conseguir apresentar respostas concretas aos problemas da população que o elegeu.
Marxismo cultural. Este é um dos inimigos criados pela extrema-direita para justificar seus ataques não apenas à esquerda, mas às liberdades democráticas em geral.
Trata-se de uma das principais farsas a sustentar o atual governo brasileiro, mas que também aparece no discurso de outros governos ultraconservadores pelo mundo.
Não é verdade que a produção acadêmica, a grande imprensa e a indústria cultural estejam dominadas por esquerdistas. Mas quem permitiu a criação desse mito foi a própria esquerda.
Fizemos isso ao permanecer na luta econômica e abandonar a resistência às perseguições racistas, machistas, sexistas, homofóbicas. Ao concentrar esforços nas lutas contra as opressões e subestimar o combate à imensa desigualdade capitalista. Ao limitar nossa compreensão teórica sobre como funciona a dominação burguesa a alguns departamentos universitários e nichos editoriais.
Fizemos isso, em resumo, ao deixarmos de ser anticapitalistas em todas as dimensões da vida. Quando nos tornamos apenas sindicalistas, somente pesquisadores, meros militantes profissionalizados, não mais que defensores identitários da diversidade cultural, étnica, erótica, sexual, artística...
Tudo isso nos levou a testemunhar passivamente a transformação de muitas de nossas causas em mercadorias culturais da indústria de informação e diversão ou moedas de troca política.
Foi assim que tanto a esquerda institucional como a anticapitalista se tornaram prisioneiras da hegemonia da grande burguesia que vem sendo combatida pelo fanatismo da burguesia pequena. Ambas a serviço da produção e reprodução social do capital, que segue destruindo milhões de vidas ou sua dignidade.
O marxismo cultural é apenas uma caricatura. Mas estamos presos nela. Pelo menos, até que a luta de classes nos permita enxergar as saídas que, certamente, surgirão.
um cientista político ou colunista já disse que o modo operacional do governo Bolsonaro é o caos.
É o conflito constante, movido a paixões mesquinhas, paranoia, conspirações reais ou inventadas, ofensas, calúnias, puxadas de tapete, maus modos, moralidade de baixo calão...
É a própria “milícia” no poder. Por enquanto, só não houve troca de tiros. Por enquanto...
Um resultado é a dificuldade de encaminhar o que a Bolsonaro foi encomendado. Principalmente, reformas econômicas que pretendem exterminar direitos e acabar com a pobreza junto com os pobres.
O outro resultado é que as disputas que polarizam todas as atenções ficam centradas no palácio presidencial ou entre representantes das cúpulas dos três poderes.
Enquanto isso, a oposição parlamentar assiste impotente. No máximo, escolhe alguns lados para torcer. Há quem torça para um Mourão, um Gilmar Mendes, um Rodrigo Maia.
Mas o imobilismo também reina entre as principais forças da oposição de esquerda fora do parlamento.
O fato é que muitos de nós não estávamos preparados para um poder caótico porque não atentamos para o caos que já governava o cotidiano de grande parte da população.
Diante disso, o que fazer? Difícil saber. Mas como disse o colunista Celso Rocha de Barros, da Folha, ser de centro é muito difícil sob um governo Bolsonaro.
Só nos resta radicalizar pela esquerda. Mas radicalizar não significa responder ao fanatismo com fanatismo. Culpar “pobres de direita”, os evangélicos em geral, a “burrice popular”, as “arminhas com dedo”, gritar “bem feito” etc.
Se fizermos assim, o caos continuará a governar, lá em cima, e ainda contará com nossa ajuda, cá embaixo.