quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O mito da dicotomia esquerda-direita .







 



A clivagem entre direita e esquerda tem por origem o lugar que ocuparem os deputados na Assembleia francesa após a revolução de 1789.

Os deputados que defendiam a ordem estabelecida, a monarquia, colocaram-se do lado direito da assembleia e os deputados que defendiam uma novem ordem, uma monarquia constitucional, colocaram-se no lado esquerdo.
A partir dessa altura estava definido "a esquerda" e a "direita".

Ficou o habito nos vários outros países de designar os progressistas como sendo de esquerda e os conservadores de direita.



Do ponto de vista filosófico, a direita considera que o Homem é portador do bem e do mal, enquanto a esquerda acha que o mal é histórico e que pode cessar se se fizer tudo para que ele acabe. A esquerda considera que o ser humano pode acabar com o mal, uma espécie de pecado, quando alterar as estructuras sociais que tiveram na sua origem.


Esta visão da "esquerda" teve o seu apogeu com Rousseau e a sua teoria do "bom selvagem" que supõe que antes da "civilização" o Homem era por natureza bom. A Esquerda pretende que alterando a sociedade, sobretudo do ponte de vista económica, ele poderá voltar a sê-lo.



Ultimamente, tem-se assistido a uma transformação tanto da direita como da esquerda. A direita já considera que o Homem não é imutável e a esquerda pouco a pouco já renunciou a um "homem novo" através da transformação económica da sociedade.



Hoje em dia já não faz qualquer sentido falar de direita e esquerda, a direita não é menos progessista que a esquerda e a esquerda não é menos individualista que a direita.



A direita e a esquerda são ambas a favor da democracia e do desenvolvimento. O que as pode ainda diferenciar são os meios para atingir esses objectivos. Demasiado Estado cria dependência, segundo a direita, e o Estado corrige as desigualdades, segundo a esquerda.


Nos regimes democráticos actuais, a disputa entre a esquerda e a direita situa-se ao centro para atrair votos. Esta dicotomia esquerda-direita é tornou-se obsuleta. 

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Safatle: “A função do Estado brasileiro é pagar a dívida da burguesia nacional”

Safatle: “A função do Estado brasileiro é pagar a dívida da burguesia nacional”

Uma entrevista com Vladimir Safatle, professor de Filosofia na USP, sobre os acontecimentos políticos recentes do Brasil, a cultura popular e as perspectivas de mudanças no cenário político.

Vladimir Safatle é professor de Filosofia na Universidade de São Paulo. Além disso, mantém colunas semanais na Carta Capital e na Folha de São Paulo, onde escreve desde temas relacionados à área da filosofia até assuntos cotidianos de política, música, cultura e movimentos sociais. Recentemente esteve em Pelotas (RS), onde lecionou a aula inaugural do Doutorado em Filosofia da Universidade Federal de Pelotas e lançou seu livro “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”. Durante sua visita, a revista o Viés conversou com Safatle sobre  os acontecimentos políticos recentes do Brasil, a esquerda, a cultura popular e as perspectivas de mudanças no cenário político, entre outros assuntos.
 
 Foto: Liana de Vargas Nunes Coll.

Nós estamos num momento no Brasil em que os atores políticos da esquerda que se constituíram durante décadas de fato se esgotaram. Aqueles que deveriam ocupar seu lugar ainda não estiveram à altura do processo. Há muito que ser feito.


Revista o Viés : Tu afirmas que as condições para a modificação do futuro já estão no presente. O que falta para uma desnaturalização desse presente? O que falta para dar esse estalo?

Vladimir Safatle (VS): Eu diria que muitas vezes nós acreditamos que as condições para uma política transformadora se dariam através da construção de horizontes utópicos, de que faltaria uma utopia. Acho que talvez seria o caso de dizer que não, não falta. As utopias não são necessárias para o processo de transformação. O que é necessário é uma compreensão mais profunda da complexidade das tensões internas ao presente. Ou seja, saber tencionar melhor o presente. Acho que o campo da experiência do presente é maior do que o campo da situação organizada. É um campo no interior do qual nós conseguimos de uma maneira ou outra avaliar. O que acontece hoje é que nós estamos muito ligados a esse modelo de reflexão sobre situações e talvez fosse importante, na verdade, a gente ampliar um pouco, tendo em vista que todas as condições já estão dadas de uma certa forma para que as transformações se realizem. A gente nunca teve uma latência tão forte. O que falta é estar à altura dessas latências.

: Sobre a relação da utopia com a esperança e o medo, tu falas que a utopia é um pouco problemática porque as catástrofes que ocorrem dentro dela geram o medo. Gostaria de perguntar se as catástrofes dentro das utopias não são inevitáveis, se a história não nos mostra que acontecem coisas que não estão previstas dentro delas?

VS: Quando você constitui uma utopia, você projeta a imagem de um possível no futuro. Isso faz com que todo o processo de onde você está até o futuro que deve se realizar seja visto sob o signo da realização necessária de um horizonte já constituído e já em curso. O que acontece, então? Mesmo quando a imagem da utopia se aproxima, a primeira coisa que você faz é ter medo de que ela se perca. Qualquer tipo de acontecimento que não está enquadrado no seu horizonte pode fazer com que você perca o que conseguiu. Por isso que as utopias são fontes não só de esperança, mas de muito medo. Elas impõem um certo regime de medo para a vida social. Não é à toa que as grandes revoluções seguiram para grandes momentos de medo. O grande medo depois da Revolução Francesa, os expurgos depois da Revolução Russa. Tudo isso na verdade tem muito a ver com uma certa noção de tempo que é interna à noção de utopia. A utopia é um tempo de expectativa e essa expectativa nunca se realiza completamente. Ela, mesmo quando se efetiva, se efetiva com as marcas da sua fragilidade. Então a efetivação pode a qualquer momento se perder. E eu me pergunto se talvez não seria importante pensar em um tempo sem expectativa como condição para a ação política.

: Sobre a questão do presente, a falta de compreensão sobre fatos que ocorreram no passado, ou a falta de ação sobre esses fatos, tem algo a ver com a imobilidade política para a transformação?

VS: Eu acho que, muitas vezes, nós ficamos diante de acontecimentos que não conseguimos entender. E o que fazemos normalmente diante desses fatos é ignorá-los, é tentar esquecê-los o mais rápido possível. Só que esses acontecimentos nunca desaparecem por completo, então eles ficam forçando um pouco dos nossos esquemas de compreensão e mostrando a limitação desses esquemas. Acho que vivemos um momento muito parecido. O Brasil passou por alguns momentos decisivos na sua história, como [nas mobilizações de] 2013. 2013 foi um acontecimento importante não por aquilo que construiu, mas por aquilo que destruiu. Ele destruiu uma certa ideia de quem eram os atores políticos do Brasil e desde então a gente vive um hiato, onde o que nós temos simplesmente são as figuras destruídas que ainda, de uma maneira ou de outra, se conservam. Esse parece um belo exemplo de como um acontecimento nos força a pensar e o que acontece quando nós não nos dispomos a pensar esse acontecimento.

: Tratando do papel da esquerda hoje, tu acreditas que tem sido fundamental, mesmo que tímido, ou existe uma grande dificuldade na esquerda de aproximação, de legitimidade e também de unificação, pois está fragmentada, com várias frentes que não dialogam entre si?

VS: Acho que a esquerda não teve a altura dos acontecimentos, mais que a questão da fragmentação. Ela não foi capaz de mostrar que entendeu que havia uma demanda de reinvenção do campo político e de reinvenção das práticas políticas como condição para um maior engajamento de novos sujeitos políticos. Nesse sentido, ela ficou muito presa a seus esquemas de organização herdados da estrutura partidária dos anos 1940 e 1950 e esses são esquemas muito hegemonistas, dirigistas, centralistas. E não é à toa que nossas organizações de esquerda acabam tendo uma densidade eleitoral muito baixa. Acho que há uma tarefa para nós e a tarefa é estar à altura dos acontecimentos. É realmente conseguir reconstituir o que significa uma noção nova de organização. As pessoas olham para a esquerda e se perguntam: ‘o que vai fazer quando chegar ao poder? ’ O que você vai fazer é o que você já faz dentro da sua estrutura. Se você olha para a estrutura e vê que a estrutura está cheia de vícios é difícil de imaginar que alguém vai confiar em você. Isso é um problema muito grave. Nós estamos num momento no Brasil em que os atores políticos da esquerda que se constituíram durante décadas de fato se esgotaram. Aqueles que deveriam ocupar seu lugar ainda não estiveram à altura do processo. Há muito que ser feito.

: Muitas pessoas falam que a esquerda não tem projeto de governo e de sociedade. O que terias a falar sobre isso? E também sobre essa questão de que ter um projeto fechado ás vezes é…

VS: É falso. O que mais tem hoje é diagnóstico sobre a situação presente. É impressionante como todo mundo tem, mais ou menos, um consenso a respeito de pontos fundamentais. Se você pegar a crítica das políticas econômicas dos últimos anos, a gente tem uma biblioteca de críticas. A esquerda deixou muito claro o que era o esgotamento do modelo, onde a coisa ia quebrar, o que era necessário fazer, a discussão sobre a reforma tributária que era necessário fazer no Brasil, as injustiças tributárias que ocorrem no Brasil… Diagnóstico não falta. O que é impressionante é como não existe o mínimo de coragem política quando se fala em passar do diagnóstico para a ação. Por exemplo, todos nós temos muita clareza do sistema de capitalismo patrimonial que foi implantado no mundo inteiro e principalmente no Brasil nessas últimas décadas. Nós sabemos que não há nada a fazer no interior desse processo. Nós precisamos de uma modificação estrutural e radical. Há, inclusive, o caminho para fazer. Mas o fato, e isso precisa ficar muito claro para a esquerda, é que a situação hoje é de uma instabilidade tal que qualquer brecha que você abre, é como um castelo de cartas: tudo vai cair, basta uma brecha. Nessas situações é que os sistemas ficam mais violentos, porque eles não querem nem deixar que uma brecha passe.

Veja o que aconteceu na Grécia. O programa que os gregos tinhas era um programa que foi aplicado na América Latina em larga medida nos anos 1980 sem muito problema, sem muita confusão. Foi aceito em larga medida, como os programas de moratória, e os países sobreviveram a isso. Agora, quando isso foi tentado ser efetivado na Grécia nesse momento, em 2015, foi inaceitável. A gente viu todo o sistema de destruição que foi colocado como ameaça caso a Grécia tomasse esse caminho. Mesmo medidas que seria, digamos keynesianas, são rechaçadas com toda a força, porque elas podem ter um efeito indutor… você aceita uma medida, depois passa outra medida e outra e outros países começam a olhar e aí você pensa: ‘mas porque a gente está aplicando esse plano de austeridade totalmente idiota?’. Então nesse sentido você sabe que uma hegemonia pode se quebrar e nesse momento quando as hegemonias percebem sua fragilidade, é que elas são mais violentas.

: Ontem li uma pesquisa que foi aplicada com centenas de pessoas perguntando o que elas acham que um governo deveria ter. Então foram colocadas questões de esquerda, como os serviços públicos essenciais. O resultado foi que a maioria das pessoas tem algo de esquerda.  Tu acreditas que há um problema de comunicação na esquerda, já que parece que ela não consegue explicar a concepção de Estado em que acredita e no geral assusta as pessoas?

VS: É muito interessante essa pesquisa que você descreve e eu vi uma parecida há uns anos que foi feita pela Folha de São Paulo. Quando se colocava questões de moral, costumes, a população brasileira se mostrava claramente conservadora. Essas questões como aborto e casamento homoafetivo. Quando se colocava questões econômicas ela era claramente de esquerda. O que acontece não é um problema de comunicação. Nós vivemos um momento em que as pessoas têm um diagnóstico, mas não conseguem encontrar atores que estejam dispostos a efetivá-lo. Eu vejo, por exemplo, que há um governo hoje que a princípio seria de esquerda, o que ele faz diante de uma crise é chamar economistas liberais. O que as pessoas pensam? Que não existe mais economistas de esquerda porque quando o negócio fica feio a gente corre atrás dos liberais. Nesse ponto, acho que muito mais que um problema de comunicação é mesmo um problema de ação. Enquanto você não conseguir criar uma coalisão e uma força política que vá se comprometer com o que diz, que é uma coisa completamente elementar – você afirmar uma coisa e fazer aquilo que afirma -, vai ser sempre essa disfunção cognitiva, esse choque. Tinha o Alastair Campbell, spin doctor [porta-voz] do Tony Blair, que uma vez disse: ‘eu não entendo porque a esquerda sempre faz algo diferente do que ela promete’. Só que ele falou no sentido de parar de prometer e fazer só o que se conseguia fazer daí veio a questão da terceira via. Eu utilizaria essa mesma frase no sentido inverso: vamos parar de fazer aquilo que a gente não promete e vamos começar a lutar para realizar aquilo que a gente promete.

: Atualmente, a gente está tentando entender como a terceira pessoa na sucessão da na linha política, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, está envolvida em tantas questões ilegais e não existe uma indignação coletiva maior. Na sua opinião porque isso acontece?

VS: Acho que isso acontece por duas razões. A primeira delas é que as pessoas que se identificam com ideias de esquerda hoje têm vergonha. Elas têm vergonha da situação na qual a esquerda institucional chegou. Então ficam paralisados e não se encorajam de sair na rua. Que existem 300 mil pessoas nas ruas defendendo pautas conservadoras, isso para mim não parece nada estranho, pois o Brasil sempre teve uma direita popular: Adhemar de Barros, Paulo Maluf, a Marcha por Deus Pátria e Família. Isso teve sempre. A grande diferença é que no outro dia ia ter 300 mil pessoas de outro lado sendo o contraponto e isso hoje não tem. Esso é o problema, você desmobilizou todo o campo da esquerda. Porque essa gente que sai pedindo combate à corrupção como foi em abril e agora no início do ano todo mundo sabe que pratica uma farsa da mais absurda possível. Eram as mesmas pessoas que votavam no Maluf há não muito tempo, são as pessoas que votaram no Alckmin sem o menor problema, sendo que São Paulo é um estado que tem uma quantidade de casos de corrupção inacreditáveis. A CPI do Metrô de São Paulo que está acontecendo agora, julgada por tribunais da França e da Suíça até, administrações absolutamente temerárias do ponto de vista público, também a questão dos recursos hídricos e as pessoas não têm o menor problema com esse cinismo político que utiliza um critério contra os seus inimigos enquanto se alimentam os seus amigos que agem da mesma forma. Tem essa vergonha das pessoas ligadas à esquerda em fazer o contraponto e se bater contra figuras como esse senhor [Eduardo Cunha] e também tem o cinismo orgânico do conservadorismo nacional, que sempre utilizou da corrupção como uma arma estratégica para você colocar contra a parede alguns grupos enquanto o seu grupo faz exatamente a mesma coisa. Você tem a incapacidade crônica de fazer uma crítica a você mesmo.

: A classe política se coloca acima do resto da sociedade, num nível superior…

VS: … é, tem muito de um sistema de castas que é próprio da casta política brasileira. Quer dizer, quando 2013 ocorreu havia duas saídas possíveis: você ouve o que o acontecimento está dizendo, você procura criar novas políticas para dar conta disso, ou você faz tudo para que um acontecimento como esse nunca mais ocorra, você fecha cada vez mais o sistema. E foi essa segunda alternativa a saída implementada. Ou seja, a casta política se fechou cada vez mais, diminuindo o tempo de campanha, criando sistemas cada vez mais fechados, impedindo a criação de qualquer outro tipo de grupo ou partido que pudesse quebrar o equilíbrio. Nesse sentido, com esse funcionamento de casta, ficou muito claro como a gente tinha chegado ao limite de um processo histórico. O Brasil acabou em 2013 e de 2013 até hoje é só um jogo de espectros. A tristeza é que esse jogo de espectros pode continuar durante muito tempo. Mas acabou no sentido de capacidade de mobilização da população rumo a um processo de transformação. Não há nada mais nesse sentido. Acho que seria importante deixar isso claro.

: O Rodrigo Constantino escreveu um texto na Veja rebatendo um texto seu e disse que a esquerda de hoje é o PT de amanhã. O que pensas disso? Esse medo que se lança para as pessoas é uma estratégia da direita?

VS: Olha, eu poderia fazer um milhão de gracinhas contra um sujeito como esse. Mas eu diria que infelizmente há uma questão concreta nesse tipo de colocação. É muito importante que a esquerda pense o que foi a experiência do PT, porque foi a primeira larga experiência da esquerda no poder no Brasil. A princípio serão 16 anos e já se foram 13, nunca na história brasileira houve um tempo tão grande de um mesmo grupo no poder em períodos democráticos. Então é necessário, de fato, fazer uma autocrítica profunda, não dá pra continuar nessa toada de dizer ‘não, veja bem, a gente não fez a luta política, então a gente não soube se contrapor, fazer a reforma de mídia e bla bla bla’, como se fossem problemas externos, sendo que há problemas internos da ordem do inacreditável. Quer dizer, minorar o problema da corrupção do Estado como se fosse uma pauta de direita, isso é desonesto até com a história da esquerda. Se você pegar Estado e a Revolução, do Lenin, vai ver o que ele fala sobre corrupção do Estado. É um tópico absolutamente central. Isso por um lado.

Por outro lado, você não tem uma crítica ao modelo de desenvolvimento econômico implementado durante esses anos e seus limites internos, limites que estavam muito claros nas escolhas do lulismo, tanto que produziram uma oligopolização ainda mais acirrada da economia. O processo de ascensão social se deu num quadro no qual você não tinha mais condições de dar para a população aquilo que ela realmente precisava, que eram os serviços públicos de qualidade para que pudessem diminuir seus gastos do salário. Elas aumentaram seu poder aquisitivo, mas aumentaram também seus gastos e suas necessidades e o Estado não tinha condição de oferecer nada. O Estado foi incapaz de fazer uma transformação tributária que capitalizasse o país para oferecer educação pública de qualidade, saúde pública de qualidade e serviços dessa natureza. Então todas essas promessas de reconstrução das cidades que foram feitas na época que o Brasil descobriu que ia sediar a Copa do Mundo, promessas de que ia haver uma revolução no transporte público, todas elas se demonstraram absolutamente farsescas pelo fato do Estado Brasileiro ter se transformado num sócio privilegiado de conglomerados empresariais e de construtoras que não têm nenhum tipo de engajamento efetivo para uma reflexão do planejamento urbano. Muito pelo contrário. Então você é levado por um processo de especulação imobiliária. Ou seja, há problemas gravíssimos no modelo econômico e uma dificuldade crônica de uma parcela da esquerda de fazer uma autocrítica. Então nesse ponto é verdade: se não fizer autocrítica severa, você não vai poder mostrar para a população que você tem condições de oferecer algo diferente daquilo que foi oferecido.

: Sobre o limite do modelo econômico que temos, a professora Sara Granemann fala que estamos chegando num limite para o mercado de compra e venda de mercadorias e que, quando isso acontece, começam a ser privatizados serviços essenciais, como previdência, saúde e educação…

VS: Não sei se chega a ser um esgotamento agora, mas claro que o capitalismo desde os anos 1970 percebe a possibilidade de auferir lucros privatizando sistemas que estavam sob a posse do Estado. Enquanto esses sistemas eram deficitários, não davam lucro, não havia nenhuma pressão de privatização. Nos anos 1950, 1960, o sistema de saúde, educação e transporte na Europa era totalmente público. Devido ao processo de reconstrução das sociedades europeias, o nível de investimento era tamanho que não haveria nenhum ator privado que conseguiria operar dentro dessas áreas. Quando o sistema ficou montado, ficou evidente: o nível de investimento poderia diminuir e você poderia auferir lucro daí. E foi isso que aconteceu. Eles privatizaram, fecharam aquilo que seria deficitário, e começaram a ter lucros estrondosos. Os fundos de pensão da previdência, o sistema educacional, as empresas de educação privadas que têm lucros exorbitantes, os planos de saúde. Acho que, de fato, essa é a pressão atual. O sistema está mais ou menos montado, então quer dizer que você pode investir menos, pode desmontá-lo, privatizá-lo, para que a empresa privada tenha seus lucros.

: Nós temos pessoas ótimas trabalhando na questão da auditoria da dívida pública no Equador e na Grécia, como a Maria Lúcia Fattorelli. O que faltaria para que chamássemos pessoas assim para investigarem a nossa dívida?

VS: Nada, não falta nada. O que falta é que vários estudos da Fattorelli demonstraram que boa parte da dívida pública privada é uma dívida feita pelas empresas privadas que o Estado colocou nas suas costas. As pesquisas mostram isso, mas se for aplicado aqui você vê que esse pacto entre Estado e burguesia nacional se quebra. Porque a função do Estado brasileiro é pagar a dívida da burguesia nacional. Sempre foi assim. A burguesia faz essa imagem de anti-estatista e isso é uma das coisas mais hipócritas que existem, porque quando eles quebram a primeira coisa que fazem é pedir dinheiro do Estado. É o caso dos bancos quebrados nos anos 1990, em que a função do Estado foi de ir lá e pagar as dívidas da burguesia nacional. Por isso que a dívida pública brasileira tem esse volume estratosférico. Agora, é inegável que é inconcebível que uma política de esquerda não coloque isso como uma de suas questões centrais. É o preço que estamos pagando hoje.

: Gostaria de perguntar se conheces mais ou menos a situação do estado do Rio Grande do Sul, com desmonte do funcionalismo público, parcelamento de salários, entre outros pontos.

VS: Eu sei através do que sai pela imprensa nacional, dessa situação falimentar do estado. A impressão que dá – e quem conhece melhor a economia do RS pode falar com mais precisão – é que você tem estados brasileiros, como o RS, que sofrem com o processo de desindustrialização e com as flutuações das commodities agrícolas e você tem um modelo de gestão que é extremamente temerário. O fato é que aqui no estado alguns setores necessários da estrutura do funcionalismo público estão sentindo mais e em São Paulo pode não se sentir tanto porque já privatizou quase tudo que poderia privatizar, deixou para trás já. As conseqüências são sentidas. São Paulo é o estado mais rico da federação e estamos longe de estar entre os estados que oferecem os melhores serviços públicos. A educação de São Paulo é falimentar, como a situação da minha universidade [USP], onde ficamos 200 dias em greve porque estávamos numa situação onde os custos da universidade eram maior que sua receita. Só que esse custo não é porque a universidade paga altos salários para trabalhadores, mas é porque ela saiu de uma universidade de 30 mil alunos nos anos 1990 para uma de 90 mil alunos hoje e com a mesma dotação orçamentária. Mas São Paulo tem uma vantagem porque tem um acordo entre imprensa, empresariado e Estado, que faz com que todos esses absurdos acabem tendo pouco impacto, o que talvez não exista aqui ou talvez não nesse nível que faz com que as coisas apareçam de maneira mais evidente.

: A última é mais sobre cultural popular. Tu escreveste um artigo na Folha de São Paulo em que fala um pouco fatalisticamente sobre a não existência de cultural popular atualmente e cita o exemplo do funk, que esse gênero teria uma “simplicidade formal”. Outros gêneros, como o blues e o punk, também não tinham uma simplicidade formal que acabaram  por dar origem a outros ritmos tão consagrados?

VS: Essa é uma bela questão e é uma pena que seja a última. Para mim é realmente inacreditável um certo setor da esquerda de analisar de maneira crítica a produção cultural desse país. Eles estão dispostos a fazer uma crítica do lulismo, do campo econômico, do campo social, mas não chegam na cultura. Muda-se totalmente a figura, como se não houvesse nenhuma relação entre a nossa miséria cultural e a nossa miséria política atual. Então eles não conseguem nem aplicar os esquemas de análise para o campo da cultura. Eles não se perguntam se a oligopolização que se dá em vários setores do campo da economia não chegou no campo da cultura de maneira brutal. Tudo que falei é que a boa produção cultural da música popular hoje, e ela existe nos últimos 20 e 30 anos, foi deslocada para as margens para que o centro fosse monopolizado por uma estrutura não só oligopolista de produção, mas que faz lá uma música que é de uma pobreza formal, de uma pobreza de capacidade de transformação interna absoluta. Eu acho inacreditável que a gente tenha chegado num ponto em que não se pode sequer fazer uma crítica cultural, como se fosse crime contra a majestade, como se fosse o exemplo maior de um certo autismo intelectual da universidade contra a produção popular. Isso é de um primarismo absoluto, deveriam ter vergonha disso, isso é esquema que se usava nos anos 1930 nos debates entre stalinistas e os artistas que queriam que tencionassem, porque uma sociedade revolucionária é uma sociedade que tenciona a cultura popular, ela não se adequa à produção popular, ela faz com que outras coisas circulem, com que outras coisas passem a circular. Se você percebe, o que mais circula entre as classes populares hoje, o que elas acabam ouvindo cada vez mais é o mesmo tipo de mercadoria da indústria cultural, porque você tem dificuldade de circulação. Você lembrou de outro aspecto, dizendo que falar da simplicidade formal dessas formas seria um pouco injusto com a dinâmica interna da própria produção da música popular que parte de elementos simples para se complexificar, como por exemplo o blues e o punk, e de fato o punk é um exemplo belíssimo. De 1977 a 1985 você teve os anos mais produtivos do ponto de vista de inovação e invenção dentro de um espectro do que foi o rock. No movimento pós-punk tiveram elaborações formais interessantes, isso é inegável, um reconhecimento poético, uma capacidade de hibridação. Tudo isso foi produzido por esse tipo de simplicidade. Mas veja a diferença: não é uma questão de criticar a simplicidade, a simplicidade é necessária. Eu poderia falar da simplicidade da música erudita, da simplicidade como elemento fundamental onde a linguagem precisa se contrair ao máximo para que possa reconstituir suas potencialidades em outras bases. E o que acontece com o punk: dois anos depois você já tinha uma produção altamente impressionante. Hibridação com música negra, aqueles casos do The Clash. Você tinha um aprofundamento poético inacreditável. Agora, eu pago ‘3 contra 1’ para ver na partitura que isso aconteceu com o funk brasileiro. As pessoas sabem que isso é falso e ficam insistindo nesse ponto. Faz 15 anos que nós temos uma hegemonia desse modelo de produção musical no Brasil. E o que foi produzido a partir daí?

:  E com o rap brasileiro?

VS: Eu não falei do rap. Eu falei do funk e da música sertaneja universitária. O Tom Zé falando ‘ah, tem um funk, Atoladinha, que eles usam microtom’. Não é verdade, o sujeito errou. Não tem uso consciente de microtom. Isso é falso. Tem uma tendência tropicalista que é muito ruim de imaginar que a cultura brasileira é a cultura da autointegração e então ela pode integrar tudo. E nesse processo você acaba fazendo uma deposição da capacidade crítica de certas formas que são mutiladas. Essa forma se mutilou, ela não anda, não se desenvolve. Seria ilusório imaginar que o desenvolvimento que você viu no jazz, com John Coltrane, que aconteceria uma coisa dessas com o funk. Não aconteceu. É simples, é porque esse tipo de produção se adequa perfeitamente aos critérios de produção da indústria cultural. Ele foi feito, é a imagem que a indústria cultural produziu do que é a população brasileira. É muito diferente de uma situação como o blues onde você tem uma autonomia, durante muito tempo, em relação à indústria cultural, que era incipiente. Mas nós não estamos mais com uma indústria cultural incipiente. Nós estamos com ela em altíssima articulação. Dentro desse processo de integração das classes populares, houve uma integração cultural. Qual o modelo de produção onde eles se adequam mais às exigências de mercado da indústria cultural? É o funk.

: O que você pensa do papel de contestação do rap e sua origem, que tem ligação com alguns batuques, a do hip hop, e um pouco da cultura de rua do pixo, dessa forma que a margem se escreve centros¿

VS: Seria equivocado falar de uma forma generalizada de todas as produções. Eu conheço muita qualidade em certas produções do rap nacional. Poderia ficar falando de Sabotage, Racionais, e nem era esse o eixo da minha discussão. No entanto, um elemento que eu gostaria de insistir, porque acho que vale a pena a reflexão, é o de se o modelo de política cultural que foi implementado nesses últimos anos foi realmente capaz de permitir fazer circular aquilo que não circula. Eu tenho acesso ao Sabotage e aos Racionais. O pessoal lá da vila xxx tem acesso do John Cage¿ Acho que é importante mostrar essas coisas. Os meus alunos todos ouvem funk e conhecem todos, tem até funk de filosofia: ‘qual a diferença entre o Lutero e Kant¿ um é iluminista e outro protestante’. Poisé, todos conhecemos. Mas pergunto: os alunos das escolas públicas da periferia de São Paulo têm a possibilidade de, pelo menos, saber a existência de alguém chamado Morton Feldman, de conhecer a produção musical que não seja só a produção popular, hoje¿ Eles têm acesso, eles podem ouvir¿ Se eles quiserem tocar um violino, até podem. Mas nada disso foi questionado. Não há uma desqualificação da produção popular, há uma consciência de que há uma oligopolização do processo que impede a circulação de uma parcela expressiva do que é a experiência musical dessas últimas décadas. E acho, por outro lado, que é necessário, sim, fazer uma crítica da produção cultural. Eu estou disposto. Vamos discutir com a partitura na mão. As análises são apenas sociológicas, e eu diria que são até totalmente limitadas, é como se não houvesse julgamento estético. Como se qualquer tipo de crítica estética fosse uma desqualificação de classe. Isso eu acho inaceitável. Esse tipo de julgamento estético não precisam desqualificar a produção popular, mas há de fato produções populares que precisam ser criticadas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O patético fim da carreira de Eduardo Cunha, o usufrutuário


Quis tudo, vai terminar sem nada
Tinha mesmo que terminar em comédia a trágica tentativa de Eduardo Cunha de virar presidente da República.

A posteridade haverá de rir, tanto mais porque terá sido poupada da angústia de ver Cunha controlar a Câmara dos Deputados com seus métodos sujos.

É de Cunha a palavra do ano: usufrutuário. Bem a seu estilo tosco, ele errou ao pronunciá-la. Disse “usufrutário”.

Ele afirmou não ser dono do dinheiro das contas suíças, mas usufrutuário em vida.

Nas redes sociais, a palavra prontamente viralizou. Tornou-se sinônimo de ladrão.

A carne moída com a qual Cunha diz ter ganhado na mocidade o dinheiro das contas também se tornou um clássico imediato das piadas.

Zé Simão afirmou, com razão, que era mais fácil Cunha ter alegado que o dinheiro foi presente do Papai Noel.

Um colunista da Folha disse que a carne moída de Cunha serviu, exportada, para combater a fome na África.

Também entra na lista das piadas a declaração pateticamente tardia de Aécio contra Cunha.

Quer dizer: só agora Aécio descobriu que as provas são escandalosas, e que Cunha contamina e desmoraliza o Congresso.

É apenas uma coincidência que Aécio abandone Cunha quando morreram as esperanças de impeachment depositadas em Cunha.

Com a carne moída e com a condição de usufrutuário de Cunha falece a ilusão do impeachment para golpistas como Aécio.

Mais de um ano depois de perder mesmo com o apoio desvairado da imprensa, da Lava Jato e da Polícia Federal com seus vazamentos sórdidos, Aécio deve agora sossegar e fazer o que não fez este tempo todo: trabalhar. Honrar o dinheiro que o contribuinte lhe dá como senador.

Quanto a Cunha, em meio a gargalhadas gerais da nação, ele sai da história para entrar na comédia e desta, rapidamente, para a tornozeleira.

Ele é exatamente o modelo de político rechaçado, numa declaração famosa, por Mujica.

Mujica disse que política é para quem não está atrás de dinheiro. Quem quer dinheiro, completou, deve montar seu negócio e virar empresário.

Cunha entrou na política para ficar rico.

Se fosse menos ambicioso, e mais esperto, teria verdadeiramente se dedicado ao comércio de carne moída.

Paulo Nogueira
No DCM






A quem serve o Judiciário brasileiro?


Uma ação contra o deputado estadual Barros Munhoz (PSDB) prescreveu em abril, depois de três anos inativa no Tribunal de Justiça. Mesmo destino devem ter os processos do “mensalão tucano”, remetidos pelo Supremo Tribunal Federal à Justiça mineira. A peça contra Eduardo Azeredo, por exemplo, ainda aguarda distribuição.

Graças a decisões do STF, o inquérito dos cartéis metroviários paulistas isentou políticos do PSDB, mesmo os citados em depoimentos dos réus. O Ministério Público de Minas Gerais pediu o arquivamento da investigação sobre o aeroporto que o governo de Aécio Neves construiu nas terras de sua família.

Ignorando as evidências de que os esquemas da Petrobrás começaram antes, a Operação Lava Jato investigou a estatal apenas a partir de 2003. Deixou de lado, assim, um contrato fraudulento, assinado no governo FHC e denunciado pela Comissão de Valores Mobiliários, que movimentou cerca de R$ 56 milhões.

Os episódios acima têm três características chocantes: a ausência de punições a políticos do PSDB, a simultaneidade dessa lacuna com o rigor aplicado contra petistas e as semelhanças (quando não os elos operacionais) entre processos que tomaram rumos tão diferentes.

É cômodo minimizar tais fatos atacando a frágil hipótese conspiratória usada por setores da esquerda para defini-los. Também soa ingênuo ver neles uma simples disputa entre “linhas-duras” e “garantistas”, como se fosse probabilisticamente aceitável que a cada facção sempre coubesse julgar o mesmo flanco partidário.

Não podemos, obviamente, arriscar generalizações em torno de um universo amplo e heterogêneo como o Poder Judiciário. Mas as estatísticas são eloquentes demais. Existem modelos de absolvição (para uns) e punição (para outros) no tratamento judicial a políticos, ainda que suas motivações tenham origens variadas e desconexas.

Esses padrões se reproduzem, com tendências semelhantes, pelos demais campos de interesses oposicionistas. A blindagem a tucanos espelha o respaldo das cortes à mídia que os apóia, nos processos por calúnia, difamação e crimes eleitorais. Os veículos de comunicação retribuem legitimando o partidarismo dos magistrados que materializam a caçada moral contra seus inimigos comuns.
           
Um sintoma da coesão ideológica da teia de favores é o radicalismo antipetista que ela assume em público. O desempenho performático de certos magistrados e procuradores possui teatralidade conclamativa típica de palanques eleitorais, com discursos messiânicos semelhantes aos repetidos pelo colunismo sectário de direita.

A retórica salvacionista ajuda a naturalizar a imagem positiva da injustiça. Quem critica o viés tendencioso das investidas judiciais contra o PT costuma ser acusado de propor uma inversão dessa parcialidade. Em outras palavras, que os petistas recebam o beneplácito dado a seus opositores. Afinal, a punição de criminosos é necessária independentemente de “contrapartidas” de isonomia.

Há um vício grave nesse raciocínio, que resulta na equiparação entre repudiar a impunidade de alguns e defendê-la para todos. Mas seu grande problema é conferir a qualquer justiciamento uma essência positiva, como se conduzisse necessariamente a avanços institucionais e civilizatórios.

A necessidade da equivalência encontra-se tanto nas bases formais da Justiça quanto nos seus “princípios substanciais”. Como o estado de Direito, por definição, se apoia no pressuposto da chamada reciprocidade moral, o tratamento díspar a cidadãos diferenciados pelo perfil partidário afronta a legalidade vigente. Viola, portanto, os tais preceitos republicanos.

A prática também contraria a natureza saneadora das punições. Poupados pelas cortes e pela imprensa, os criminosos perpetuam-se nos cargos administrativos. E fortalecem suas artimanhas, já que a certeza da impunidade favorece o agravamento dos delitos. Resultam inócuos os efeitos positivos das sanções aplicadas aos petistas, já que eles serão substituídos, nas mesmas estruturas, por delinquentes protegidos.

Eis a face tenebrosa do combate à corrupção no Brasil: parte relevante do Judiciário fornece guarida para a hegemonia de uma casta delimitada por afinidades ideológicas, levando a retrocessos constitucionais e ao fortalecimento do crime. Com o apoio da mídia corporativa, esse predomínio adquire uma força institucional de alcance tirânico.

Admitindo que o partidarismo judicial não passa de outro vetor entre os demais que influenciam as agendas decisórias, a solução talvez seja quebrar a redoma protetora e confortável que separa as cortes das pressões populares. Se os magistrados assumiram prerrogativas de interferência nos rumos do país, que forneçam contrapartidas equivalentes à sociedade. Que enfrentem, portanto, o ônus de fazer política.
No: http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2015/11/a-quem-serve-o-judiciario-brasileiro.html

EUA, China e Rússia: nova Guerra Fria?


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O objetivo deste primeiro de uma série de artigos, é analisar os atuais conflitos na Síria e na Ucrânia, a partir dos posicionamentos de EUA, China e Rússia em relação a eles, tendo como pano de fundo a transição na ordem mundial que está em curso. Tais conflitos somente podem ser compreendidos a partir de uma visão global dos conflitos geopolíticos e econômicos, pois não são fenômenos estritamente nacionais.
No atual sistema de poder internacional, desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos da América (EUA) são a única super-potência mundial. A principal potência imperialista está no vértice do sistema e exerce a sua hegemonia em aliança com as potências europeias (principalmente a Alemanha, mas também o Reino Unido e a França) e o Japão, articuladas no G-7 e na Otan. Para Samuel Pinheiro Guimarães, no “sistema internacional moderno, existe um condomínio de grandes potências, sob a hegemonia imperial americana consagrada no sistema das Nações Unidas”.
Segundo o especialista em Geopolítica Wanderley Messias da Costa, no contexto do capitalismo imperialista, a partir do final do século XIX até hoje, emergiram as potências mundiais e “as estratégias dessas potências tornaram-se antes de tudo globais, isto é, ‘projetos nacionais’ tenderam a assumir cada vez mais um conteúdo necessariamente internacional.”
Na coalizão liderada pelos EUA, obviamente há contradições, em especial com a Alemanha a França, que lideram a União Europeia, mas a força relativa dos EUA nas áreas econômico-financeira, tecnológica, político-diplomática e sobretudo militar, é tão grande que inibe possíveis dissensões e confrontos entre os membros da coalizão, fruto das contradições inter-imperialistas. As divisões entre as potências imperialistas durante o século XX, evoluindo para graves conflitos de interesse e depois guerras, estiveram na gênese das duas guerras mundiais.
No pós-Guerra Fria, todas as principais potências imperialistas fazem parte da mesma coalizão, amalgamada pela supremacia estadunidense. Talvez essa seja a principal razão, ao lado do “equilíbrio do terror” que a capacidade militar nuclear e de armas de destruição em massa de vários países cria, para não haver hipótese plausível de uma Terceira Guerra Mundial hoje.
Em termos geopolíticos, econômicos e militares, acelera-se a transição em curso nas relações de poder no mundo. Porém, a supremacia dos EUA ainda é muito grande, e a transição atual não está dada, é uma tendência, um movimento entre uma ordem global unipolar e uma possível nova ordem multipolar, que provavelmente terão os EUA e a China como futuras super-potências, e novos pólos como a União Eurasiática e a América do Sul integrada. Todavia, esse trânsito pode ser abortado por esforços de contenção, conflitos e guerras, a fim de se manter o status quo da ordem mundial.
O movimento de transição em direção à multipolaridade, apesar de reversível manu militari, deverá ser complexo e prolongado, contudo é uma tendência com direção, cujo ritmo e intensidade têm se acelerado e se intensificado nos últimos anos. Segundo James N. Rosenau, “uma ordem global nova ou reconstituída pode muito bem levar décadas para amadurecer”.
Em um contexto de crise capitalista internacional, os EUA e a União Europeia ampliam a ofensiva econômica e militar para tentar reverter a tendência ao declínio relativo de sua hegemonia. Assim, objetivamente, adensa-se a disputa entre os EUA e os países líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por um lado, e a China, a Rússia, os demais BRICS e países em desenvolvimento, inclusive da América Latina, por outro. Essa tendência da atualidade não é inexorável e eterna, como também não o é nenhuma ordem mundial.
O conflito na Síria, seguido pelas disputas político-militares na Ucrânia, marca uma nova etapa, no qual os Estados Unidos, a União Europeia e a Otan podem muito, mas não podem tudo. De 1989, ano da “queda do Muro de Berlim”, a 2012-2015 foram quase 25 anos de supremacia quase completa do chamado Ocidente, principalmente nos temas de segurança internacional. Agora essa situação começa a se alterar.
Os dois vetos seguidos de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU, em 2012 e 2013, somados ao conflito entre a Rússia e a Georgia, que terminou com uma resposta militar russa e o reconhecimento de Moscou à independência da Abkházia e da Ossétia do Sul, em 2008, podem ser caracterizados como ações políticas de Rússia e China que indicam um possível novo equilíbrio de poder em formação. A paralisação do Conselho de Segurança, em temas tão relevantes para os EUA, o Reino Unido e a França, quanto os conflitos na Síria e na Ucrânia, é algo inédito desde o fim da União Soviética.
Para Celso Lafer e Gelson Fonseca Jr., “as formas globais de equilíbrio de poder, multipolares, bipolares, ou a condição unipolar, afetam diretamente a maneira pela qual os organismos internacionais realizam os princípios e valores que adotam”. Os autores associam “a relação bipolar na Guerra Fria e a paralisação do Conselho de Segurança”, dizendo que uma das principais evidências da nova ordem mundial pós-Guerra Fria é que “estaria superado, aí sim, um defeito do sistema anterior, justamente o bloqueio dos mecanismos multilaterais pelo impasse permanente no Conselho de Segurança” da ONU.
Daí autores como Luiz Alberto Moniz Bandeira fazerem referência a uma “segunda Guerra Fria”. Para Moniz Bandeira – que escreve em seu livro “A Segunda Guerra Fria” antes do agravamento do conflito na Ucrânia –, há uma “nova guerra fria” em curso, e “a Síria converteu-se Major Theater War [maior teatro de guerra] (MTW) da segunda guerra fria, evidenciando mais nitidamente a confrontação de dois blocos, conformados, de um lado, por Estados Unidos, União Europeia, petromonarquias do Golfo Pérsico, Turquia e Israel, e, do outro, por Rússia, China e Irã, não obstante a diversidade e as contradições de interesses”.
Nos próximos artigos discutiremos as relações entre EUA, China e Rússia, e como estas se manifestam nos atuais conflitos envolvendo a Síria e a Ucrânia.

Por Ricardo Alemão Abreu**ECONOMISTA, MEMBRO DO COMITÊ CENTRAL E DA COMISSÃO POLÍTICA DO PCdoB, NA TAREFA DE SECRETÁRIO NACIONAL DE ORGANIZAÇÃO
link: http://renatorabelo.blog.br/2015/11/09/eua-china-e-russia-nova-guerra-fria/

Quando a justiça serve de palco político

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Deltan Dallagnol

Por Carlos Fernandes, via DCM
No jogo político muitas vezes uma única frase pronunciada pode fazer toda a diferença entre o sucesso e a derrota. E em boa medida, importa menos o sentido simbólico que denota do que o impacto imediato que provoca no povo, e por conseguinte, nos eleitores.
Foi assim com Ciro Gomes quando candidato à presidência com chances reais de vitória. Ao ser questionado sobre a atuação de sua então esposa, Patrícia Pillar, nas decisões que eram tomadas na sua candidatura, declarou: “o papel de minha mulher na campanha é dormir comigo”. Foi o suficiente para ver o seu barco afundar. Se era verdade ou uma simples “brincadeira”, até hoje ficamos sem saber.
Na contra-mão de Ciro, Marina Silva se utilizou de uma frase de efeito para alavancar sua candidatura na disputa de 2014 após o trágico acidente que vitimou Eduardo Campos. O “Não vamos desistir do Brasil” soou como música para uma população ainda perplexa com a tragédia. Não deu outra, de um longínquo terceiro lugar, Marina se viu imediatamente nas alturas. Não fosse a sua desarticulação de idéias e o seu cansaço visível, não haveria tempo do cambaleante Aécio Neves reverter a situação e seguir para o segundo turno.
Pois bem, isso faz parte do universo misterioso da política. Sempre fez e muito provavelmente sempre fará. Mas e quando tudo isso foge da seara política e descamba para os membros da justiça federal?
O procurador da República e coordenador do MPF nos trabalhos que investigam a operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, disse recentemente numa palestra que proferiu num evento voltado para dentistas (sim, procuradores estão dando palestras para dentistas), que “Não vamos desistir do nosso país”. O quase “showmício” foi promovido pela ONG Turma do Bem em São Bento do Sapucaí, interior de São Paulo, no qual o procurador foi aplaudido de pé por uma platéia composta de 300 selecionados.
Não é preciso ser um jurista renomado para saber que juízes e promotores só deveriam se pronunciar sobre os casos em que estão envolvidos, exclusivamente nos autos. Mas vivemos dias estranhos e tanto o juiz federal Sérgio Moro quanto o procurador Deltan Dallagnol, além de suas atribuições nos processos, estão se utilizando dos cargos que ocupam para virarem uma espécie de “heróis nacionais”.
Se a utilização da função pública para se auto-promover já é algo que destoa da moralidade, tornar um processo criminal numa perseguição política a um partido em particular, requer altas doses de juízos de valores nos julgamentos que efetuam. E, todos sabemos, um juiz julgar baseado nos seus próprios valores, e não na lei, é o pior dos vícios jurídicos.
Se a opinião pública está sendo motivo de tanto interesse para os investigadores da Lava Jato, seria importante que eles soubessem que uma boa parte da população brasileira considera as pirotecnias que estão sendo realizadas como um acinte à razão e à imparcialidade de seus julgadores. Não é razoável que um juiz e um procurador federais que até bem pouco tempo eram completamente desconhecidos de todos, agora virem celebridades a darem entrevistas e palestras em todo o país.
Além do que, desde a época que Marina Silva se aproveitou da situação para decretar que “não vamos desistir do Brasil”, me pergunto quem realmente desistiu desse país. Se formos honestos histórica e intelectualmente, perceberemos que jamais o combate à corrupção foi tratado tão à sério. Já se vão treze anos em que o PGR não é mais apelidado como “Engavetador Geral da República” e nunca a PF teve tanta liberdade para investigar como agora.
Inúmeras vezes já desistiram do Brasil. A grande mídia e a plutocracia brasileira desistiram quando entregaram a nossa democracia aos generais; os banqueiros desistiram do Brasil quando reagiram fortemente à tentativa de reduzir os juros; a classe alta desistiu quando se revoltou com a nova classe emergente. Nisso ficamos sabendo quem são os verdadeiros desertores dessa nação.
Pois é, Moro e Dalllagnol, não precisamos de suas palestras para não desistirmos do Brasil. Pelo contrário, esse é o período em que mais as instituições desse país foram fortalecidas. Por favor, atenham-se exclusivamente aos autos. Já temos políticos demais.

domingo, 8 de novembro de 2015

Livro escrito por rabinos afirma que matar não judeus não é crime, mesmo sendo crianças





Um livro que está fazendo sucesso em Israel diz que assassinar um não judeu não é crime.

O nome do livro é A Torah dos Reis.

Seus autores são dois rabinos, Yitzhak Shapira e Yosef Elitzur.

E o mais grave é que o tal livro teve apoio de dois dos principais rabinos de Israel: Dov Lior e Yacob Yousef.

Além de afirmar que matar não judeu não é crime,  a obra( se assim podemos denominá-la) ensina  que matar crianças não judaicas também não é crime.

Mas atenção!

De acordo com o livro, as crianças só deverão ser assassinadas se houver suspeitas de que  elas poderão se tornar terroristas quando crescerem.

Ao ler tamanha estupidez no murdochiano site da BBC  AQUI, minha primeira reação foi dizer que os rabinos autores do livro são anencefálicos e os rabinos que os apoiaram são psicopatas.
Infelizmente não são uma coisa nem outra.

Nem anencefálicas e nem psicopatas.

São seres normais e o mais grave é que contam com o apoio de grande parcela da sociedade israelense.

Pobre humanidade... 
do: http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br/2015/11/livro-escrito-por-rabinos-afirma-que.html