quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Até onde se pode ir em nome da liberdade de expressão?


Je suis
Charge do cartunista Neelabh Banerjee 


Um ato terrorista bárbaro e covarde como esse é, obviamente, injustificável. O que deve ser levado em conta, a meu ver,  é o processo desencadeador desse ato, esse sim é passível de reflexão. Aliás, eu diria que é fundamental, nesse momento. Muito mais do que ‘abraçar a lagoa’ virtualmente. Acho que não vale nem a pena, a essa altura, falar na aberração do fundamentalismo religioso, pois esse pode atacar um centro de macumba, provocar uma guerra ou chacinar em nome do imponderável. A questão que se impõe é: Até que ponto alguém está disposto a ir ameaçando um poder em nome da liberdade de expressão? 
Podemos ainda esmiuçar essa dúvida, levando em conta a distância da vara até a boca da onça. Falar de uma religião é sempre complicado, até falar bem, é um terreno extremamente difícil, uma hora vai dar merda (e não há palavra melhor). Fazer críticas reiteradas e contundentes já é algo que deve-se ligar o sinal de alerta. A zombaria já é risco máximo. Em determinados contextos, como por exemplo, um país no centro da Europa com a maior população muçulmana do continente, o perigo deixa de ser uma possibilidade para se tornar apenas questão de tempo.
Para falar de liberdade de expressão – um direito inalienável do ser humano, ao mesmo tempo de uma complexidade ímpar – não bastam bravatas, é preciso trazer a discussão para a vida real de alguma forma. Para ficar num exemplo simples. Imagina se seu filho tem o dom de desenhar e faz charges semanais para o jornalzinho do bairro. Daí, ele descobre que um vizinho policial de dois metros de altura está sendo traído pela mulher com o magrinho da outra rua; e tem a ‘genial’ ideia de fazer desenhos sobre o tema. Numa semana a mulher que nem uma égua sendo currada e o marido com orelha de burro, na outra ela fazendo sexo oral e o marido chorando que nem criança na mamadeira, e por aí vai…E, aí, você aconselharia seu filho a, em nome da liberdade de expressão, seguir na sua missão de fazer o bairro rir e não desistir? Ou, preferindo vê-lo vivo, o desencorajaria na hora? Será que desencorajando-o você se consideraria um fracassado por cercear a liberdade de expressão do menino ou um pai prudente e amoroso que salvou a vida do filho?
Posso estar redondamente enganado, mas penso que não existe fórmula pronta nesse mundo; pensamento binário, “oito ou oitenta” é só nas redes sociais.  Na vida real, tudo muda e, as vezes, a liberdade de agir com sabedoria pode ser mais importante do que o aprisionamento em dogmas universais, por mais valiosos que esses possam ser.
Adilson Filho, especial para o Viomundo( http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/adilson-filho-ate-onde-se-pode-ir-em-nome-da-liberdade-de-expressao.html

O terrorismo, a extrema-direita e o suicídio europeu, um continente em explosão


Ato em Moscou em solidariedade às vítimas do atentado em Paris: escalada previsível da intolerância e da violência
"De um lado, fanáticos que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã. Do outro, neofascistas intolerantes. O futuro da Europa promete ser sombrio

Flávio Aguiar, Rede Brasil Atual  

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo francês, em Paris, que também provocou a morte de um funcionário da revista, de dois policiais no ato e possivelmente de mais um em tiroteio posterior – num total de 12 mortos –, são apenas pontas de uma mesma ameaça.

A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio. Não é uma bomba comum, porque casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela já está explodindo. Nas pontas da bomba estão duas forças antagônicas, com práticas diferentes, porém com um traço em comum: a intolerância herdeira dos métodos fascistas de antigamente – e de sempre.

De um lado, estão pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos. Os contornos e o perfil destes grupos estão passando por uma transformação – o que aconteceu também nos Estados Unidos, no atentado em Boston, durante a maratona, e no Canadá, no ataque ao Parlamento, em Ottawa. Cada vez mais aparecem “iniciativas individuais” nas ações perpetradas.

Este tipo de terrorismo se fragmentou em pequenos grupos – muitas vezes de familiares – que agem "à la cria", como se dizia, em ações que parecem "espontâneas" e até "amalucadas", mas que obedecem a princípios e uma lógica cuja versão mais elaborada, para além da “franquia” em que a Al-Qaïda se transformou, é o Estado Islâmico que se estruturou graças à desestruturação do Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política consuetudinária como meio de expressão de reivindicações e direitos: negam, no fundo, a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito à vida, como fica claro no gesto assassino que vitimou o Charlie Hebdo.

Do outro, estão os neofascistas – ou antigos redivivos – que se agarram à bandeira doanti-islamismo também fanático como meio de arregimentar "as massas" em torno de si e de suas propostas. Agem de acordo com as características próprias dos países em que atuam, mobilizando, de acordo com as circunstâncias, as palavras adequadas.

No Reino Unido, criaram o United Kingdom Independence Party – UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, nome malandro que oculta e ao mesmo tempo carrega a ojeriza pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale, da família Le Pen, que mobiliza o velho chauvinismo francês – que lateja o tempo todo desde o caso Dreyfus, ainda no século XIX.

Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – PEGIDA – que se declara de "Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente", procurando uma fachada pseudamente universalista para seus preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes.

Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou econômico o bode expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti(ditos ciganos).

Na Itália, este fascismo latente se organiza com o nome de "Liga Norte", mobilizando opreconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente mais empobrecido. São movimentos que, embora busquem por vezes o espaço da política partidária, como é o caso do UKIP e da Front Nationale, ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão a negação da política como espaço universal de manifestação de direitos e reivindicações.

Negam a política como campo de manifestação das diferenças, barrando ao que consideram como alteridade o direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns da cidadania. O exemplo histórico mais acabado disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder pelas urnas, fechou-as em seguida.

O caldo de cultura em que vicejam tais pinças contrárias à vigência dos princípios democráticos é o de uma crise econômico-financeira que se institucionalizou como paisagem social. Na Europa a tradição é a de que crises deste tipo levam a saídas pela direita. O crescimento do UKIP e da Front Nationale, partidos mais votados nas respectivas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2013, é eloquente neste sentido.

Na Alemanha as manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo sistematicamente, atingindo o número de 18 mil pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a ter sido o alvo (também criminoso) de um bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos.

Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o PEGIDA reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades.

Mas pelo lado da extrema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à opinião pública. Na Alemanha recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam "anti-islâmicos".

Como ficou feio alegar motivos racistas, o que se alega agora no lado intolerante é a"defesa da religião" ou a "incompatibilidade cultural". Os assassinos do Charlie Hebdogritavam – segundo testemunhas – estarem "vingando o profeta", referência a caricaturas de Maomé consideradas ofensivas.

Na outra ponta, jovens da Front Nationale, também no ano passado,  recusavam a pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo muçulmano – em "seus territórios", não na Europa agora dita "judaico-cristã", puxando para seu aprisco a etnia ou religião que a extrema-direita europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo de concentração e ao extermínio.

Os partidos e políticos tradicionais, em sua maioria, estão brincando com fogo, sem se dar conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por exemplo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia são declaradamente fascistas, homofóbicos e até antissemitas. Preferem exacerbar o sentimento antirrusso e anti-Putin.

Durante mais de uma década as duas agências do serviço secreto alemão concentraram-se em esmiuçar a vida dos partidos e grupos de esquerda (além dos possíveis terroristas islâmicos) e negligenciaram criminosamente o controle sobre os grupos e terroristas alemães.

No momento o "grande terror" que se alastra no establishment europeu não é o de que a extrema-direita esteja em ascensão, embora isto também preocupe, mas é o provocado pela possibilidade de que um partido de esquerda, o Syriza, vença as eleições na Grécia (marcadas para 25 de janeiro), forme um governo, e assim ponha em risco os sacrossantos pilares dos planos de austeridade.

Nega-se o pilar da democracia: contra o Syriza agitam-se as ameaças de expulsão da Grécia da zona do euro e até da União Europeia; ou seja, procura-se castrar a livre manifestação do povo grego através da chantagem política e econômica.

Se as coisas continuarem como estão, poderemos estar assistindo o suicídio da Europa que conhecemos. O que nascerá destes escombros ainda se está por ver, mas boa coisa não será, nem para a Europa, nem para o mundo."

Limite do humorismo como transformação da realidade



, GGN

'A grande comoção provocada pela chacina deste início de ano na Europa deve, no mínimo, gerar reflexões profundas, que evitem a consagração e a disseminação de visões simplistas a respeito de fenômenos sociais de grande complexidade e alcance.

São inadmissíveis quaisquer argumentações que apontem a culpabilização das vítimas do atentado de Paris por seus próprios homicídios, bem como aquelas de outras tantas situações de violência frequentes no mundo contemporâneo, tais como o estupro.

Não há justificativas para tais atos que devolvem a humanidade aos tempos da barbárie, às condições de pré-consciência da alteridade como elemento constituinte do conceito de civilização.

Um dos possíveis questionamentos que se erguem neste momento é qual o limite de atuação do humorismo no mundo do século XXI. A pretensão de que qualquer forma particular do pensamento humano, incluindo as poderosas ciência e religião, possa dar conta individualmente dos dilemas humanos atuais é intelectualmente ingênua e muito perigosa.

Quando essa expectativa se amplia para uma forma peculiar do pensamento criativo de arte, tal como a literatura ou o humorismo, a indicada pretensão se torna ainda mais débil e arriscada.

Artistas em geral - cartunistas e escritores, por exemplo - são seres humanos como todos os outros, embora a força do papel social de cada uma dessas categorias profissionais induza a uma supervalorização de suas habilidades específicas. Dessa forma, é preciso admitir-se que é a política a construção do intelecto humano que reúne as diversificadas vertentes de pensamento detentoras da potência transformadora da realidade.
O humor como expressão estética e discursiva pode ser parte da política, mas será, sempre, apenas parte.

Pretender que ele possa enfrentar de forma auto-suficiente a postura tresloucada de extremistas, num ambiente virtualmente incontrolável de manifestações e virulência irracional minoritária é assumir riscos incomensuráveis que, no caso da tragédia em evidência, foi antecipada numa charge política, há três anos, como suicídio, por um colega de mister dos quatro assassinados mais reconhecidos profissionalmente entre os doze mortos.

O humor é necessário, mas insuficiente para deter a demência que projeta no outro as razões do drama existencial que deveria unificar na compaixão todos os seres humanos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

FELIZ ANO NOVO ! O BRASIL NÃO É FEITO SÓ DE LADRÕES.


(Jornal do Brasil) - Inaugurou-se, nesta quinta-feira, novo ano do Calendário Gregoriano, o de número 2015 após o nascimento de Jesus Cristo, 515, depois do Descobrimento, 193, da Independência, e 125, da Proclamação da República.

Tais referências cronológicas ajudam a lembrar que nem o mundo, nem o Brasil, foram feitos em um dia, e que estamos aqui como parte de longo processo histórico que flui em velocidade e forma muitíssimo diferentes daquelas que podem ser apreendidas e entendidas, no plano individual, pela maioria dos cidadãos brasileiros.

Ao longo de todo esse tempo, e mesmo antes do nascimento de Cristo, já existíamos, lutávamos, travávamos batalhas, construíamos barcos e pirâmides, cidades e templos, nações e impérios, observávamos as estrelas, o cair da chuva, o movimento do Sol e da Lua sobre nossas cabeças, e o crescimento das plantas e dos animais.

Em que ponto estamos de nossa História ?

Nesta passagem de ano, somos 200 milhões de brasileiros, que, em sua imensa maioria, trabalham, estudam, plantam,  criam, empreendem, realizam, todos os dias.

Nos últimos anos, voltamos a construir navios, hidrelétricas, refinarias, aeroportos, ferrovias, portos, rodovias, hidrovias, e a fazer coisas que nunca fizemos antes, como submarinos - até mesmo atômicos - ou trens de levitação magnética.

Desde 2002, a safra agrícola duplicou - vai bater novo recorde  este ano -  e a produção de automóveis, triplicou.

Há 12 anos, com 500 bilhões de dólares de PIB, devíamos 40 bilhões de dólares ao FMI, tínhamos uma dívida líquida de mais de 50%, e éramos a décima-quarta economia do mundo.

Hoje, com 2 trilhões e 300 bilhões de dólares de PIB, e 370 bilhões de dólares em reservas monetárias,  somos a sétima maior economia do mundo. Com menos de 6% de desemprego, temos uma dívida líquida de 33%, e um salário mínimo, em dólares, mais de três vezes superior ao que tínhamos naquele momento.

De onde vieram essas conquistas?

Do suor, da persistência, do talento e da criatividade de milhões de brasileiros. E, sobretudo, da confiança que temos em nós mesmos, no nosso trabalho e determinação, e no nosso país.

Não podemos nos iludir.

Não estamos sozinhos neste mundo. Competimos com outras grandes nações, que conosco dividem as 10 primeiras posições da economia mundial, por recursos, mercados, influência política e econômica, em escala global.

Não são poucos os países e lideranças externas, que torcem para que nossa nação sucumba, esmoreça, perca o rumo e a confiança, e se entregue, totalmente, a países e regiões do mundo que sempre nos exploraram no passado - e ainda continuam a fazê-lo -  e que adorariam ver diminuída a projeção do Brasil sobre áreas em que temos forte influência geopolítica, como a África e a América Latina.  

Nosso espaço neste planeta, nosso lugar na História, foi conquistado com suor e sangue, por antepassados conhecidos e anônimos, entre outras muitas batalhas, nas lutas coloniais contra portugueses, holandeses, espanhóis e franceses; na Inconfidência Mineira, e nas revoltas que a precederam como a dos Beckman e a de Filipe dos Santos; nas Conjurações Baiana e Carioca, na Revolução Pernambucana; na Revolta dos Malês e no Quilombo de Palmares; na Guerra de Independência até a expulsão das tropas lusitanas; nas Entradas e Bandeiras, com a Conquista do Oeste, da qual tomaram parte também Rondon, Getúlio e Juscelino Kubitscheck; na luta pela Liberdade e a Democracia nos campos de batalha da Europa, na Segunda Guerra Mundial.

As passagens de um ano para outro, deveriam servir para isso: refletir sobre o que somos, e reverenciar patriotas do passado e do presente.

Brasileiros como os que estão trabalhando, neste momento, na selva amazônica, construindo algumas das maiores hidrelétricas do mundo, como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio; como os que vão passar o réveillon em clareiras no meio da floresta, longe de suas famílias, instalando torres de linhas de alta tensão de transmissão de eletricidade de centenas de quilômetros de extensão; ou os que estão trabalhando, a dezenas de metros de altura, em nossas praias e montanhas, montando ou dando manutenção em geradores eólicos; ou os que estão construindo gigantescas plataformas de  petróleo com capacidade de exploração de 120.000 barris por dia, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, como as 9 que foram instaladas este ano; ou os que estão construindo novas refinarias e complexos petroquímicos, como a RENEST e o COMPERJ, em Pernambuco e no Rio de Janeiro; ou os que estão trabalhando na ampliação e reforma de portos, como os de Fortaleza, Natal, Salvador, Santos, Recife, ou no término da construção do Superporto do Açu, no Rio de Janeiro; ou os técnicos, oficiais e engenheiros da iniciativa privada e da Marinha que trabalham em estaleiros, siderúrgicas e fundições, para construir nossos novos submarinos convencionais e atômicos, em Itaguaí; os técnicos da AEB - Agência Espacial Brasileira, e do INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que acabam de lançar, com colegas chineses, o satélite CBERS-4, com 50% de conteúdo totalmente nacional; os que trabalham nas bases de lançamento espacial de Alcântara e Barreira do Inferno; os oficiais e técnicos da Aeronáutica e da Embraer, que se empenham para que o primeiro teste de voo do cargueiro militar KC-390, o maior avião já construído no Brasil, se dê com sucesso e dentro dos prazos, até o início de 2015; os operários da linha de montagem dos novos blindados do Exército, da família  Guarani, em Sete Lagoas, Minas Gerais, e os engenheiros do exército que os desenvolveram; os que trabalham na linha de montagem dos novos helicópteros das Forças Armadas, na Helibras, e os oficiais, técnicos e operários da IMBEL, que estão montando nossos novos fuzis de assalto, da família IA-2, em Itajubá; os que produzem novos cultivares de cana, feijão, soja e outros alimentos, nos diferentes laboratórios da EMBRAPA; os que estão produzindo navios com o comprimento de mais de dois campos de futebol, e a altura da Torre de Pisa, como o João Candido, o Dragão do Mar, o Celso Furtado, o Henrique Dias, o Quilombo de Palmares, o José Alencar, em Pernambuco e no Rio de Janeiro; os que estão construindo navios-patrulha para a Marinha do Brasil e para marinhas estrangeiras como a da Namíbia, no Ceará; os engenheiros que desenvolvem mísseis de cruzeiro e o Sistema Astros 2020 na AVIBRAS; os que estão na Suécia, trabalhando, junto à Força Aérea daquele país e da SAAB, no desenvolvimento do futuro caça supersônico da FAB, o Gripen NG BR, e na África do Sul, nas instalações da DENEL, e também no Brasil, na Avibras, na Mectron, e na Opto Eletrônica, no projeto do míssil ar-ar A-Darter, que irá equipá-los; os nossos soldados, marinheiros e aviadores, que estão na selva, na caatinga, no mar territorial, ou voando sobre nossas fronteiras, cumprindo o seu papel de defender o país, que precisam dessas novas armas;  os pesquisadores brasileiros das nossas universidades, institutos tecnológicos e empresas privadas, como os que trabalham ITA e no IME, no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, ou no projeto de construção e instalação do nosso novo Acelerador Nacional de Partículas, no Projeto Sirius, em São Paulo;   os técnicos e engenheiros da COPPE, que trabalham com a construção do ônibus brasileiro a hidrogênio, com tubinas projetadas para aproveitar as ondas do mar na geração de energia, com a construção da primeira linha nacional de trem a levitação magnética, com o MAGLEV COBRA; nossos estudantes e professores da área de robótica, do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, várias vezes campeões da Robogames, nos Estados Unidos.   

Neste momento, é preciso homenagear esses milhões de compatriotas, afirmando,  mostrando e lembrando - e eles sabem e sentem profundamente isso - que o Brasil é muito, mas muito, muitíssimo maior que a corrupção.

É esse sentimento, que eles têm e dividem entre si e suas famílias, que  faz com que saíam para trabalhar, com garra e determinação, todos os dias, cheios de  orgulho pelo que fazem, e pelo nosso país.

E é por causa dessa certeza, que esses brasileiros estão se unindo e vão se mobilizar, ainda mais, em 2015, para proteger e defender as obras, os projetos e programas em que estão trabalhando, lutando, no Congresso, na Justiça, e junto à opinião pública, para que eles não sejam descontinuados, destruídos, interrompidos, colocando em risco seus empregos, sua carreira, e a  sobrevivência de suas famílias.

Eles não têm tempo para ficar teclando na internet, mas sabem que não são bandidos, que não cometeram nenhum crime e que não merecem ser punidos, direta ou indiretamente, por atos  dos quais não participaram, assim como a Nação não pode ser punida pelos mesmos motivos.


Eles têm a mais absoluta certeza de que a verdadeira face do Brasil pode ser vista nesses projetos e empresas - e no trabalho de cada um deles - e não na corrupção, que se perpetua há anos, praticada por uma ínfima e sedenta minoria. E intuem que, às vezes, na História, a Pátria consegue estabelecer seus próprios objetivos, e estes conseguem se sobrepor aos interesses de grupos e segmentos daquele momento, estejam estes na oposição ou no governo

via: http://grupobeatrice.blogspot.com.br/2015/01/feliz-ano-novo-o-brasil-nao-e-feito-so.html

O atentado na França só favorece à xenofobia da extrema-direita fascista

O atentado na França só favorece à xenofobia da extrema-direita fascista

Sabe o que me impressiona nesses radicais religiosos, como os radicais muçulmanos que cometeram o atentado que acaba de acontecer no jornal satírico francês " Charles Hebdo"?

Será que essa gente acha mesmo que o Deus deles ( seja ele qual for ), concorda com uma estupidez dessa monta em seu nome?

Ah, e essas coisas começam com perseguições a minorias, em geral sexuais e religiosas, como acontece com a perseguição a gays e às religiões de origem africana por radicais evangélicos feita no Brasil.

A única coisa que esses assassinos vão conseguir é o aumento da xenofobia e o preconceito contra os milhões de muçulmanos que moram na Europa.
A extrema-direita fascista agradece....


Mais sobre o atentado no jornal El País- Atentado a sede de revista francesa em Paris deixa ao menos 12 mortos a tiros
sugado do: http://www.interrogaes.com/2015/01/o-atentado-na-franca-so-favorece.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+Interrogaes+%28Interroga%C3%A7%C3%B5es%21%29#.VK2PyivF_9U

Como se faz um jornalão


Alguns poucos exemplos de como funcionam as coisas num jornalão. Juro que não foram inventados, porque fui testemunha de cada um deles.

1) Em plena campanha eleitoral, em 1989, o diretor de redação do Estadão dá uma tremenda bronca no editor de política, na frente de todos os que participam da reunião das 17 horas, na qual eram "vendidas" as matérias que poderiam dar chamada de primeira página: "Estamos fazendo uma cobertura muito favorável ao Lula. Vamos acabar com isso." Nem é preciso dizer que o Estadão nunca havia feito matéria nenhuma favorável a Lula, mas sim que procurava realizar uma cobertura a mais imparcial possível. O recado do então diretor de redação, hoje difamador profissional de Lula, Dilma e petistas em geral, a soldo da editora Abril, foi claríssimo: meu candidato é Collor - e ponto final, pois aqui quem manda sou eu. 


2) A preferência por Collor se deu apenas no segundo turno. No primeiro, o Estadão torcia declaradamente pelo atual ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos. Uma das manchetes do jornal naquele período mostra bem como ele era querido pela casa: "Afif cresce e chega aos 9%." Não passou disso. 

3) Na campanha eleitoral para o governo de São Paulo, em 1986, o empresário Antonio Ermírio de Moraes resolveu se candidatar e recebeu apoio praticamente unânime de seus colegas e da tradicional família paulista. O Estadão odiava os outros candidatos com chances de vitória, Maluf e Quércia. Antonio Ermírio, que a princípio parecia o favorito, foi minguando nas pesquisas de intenção de voto e poucos dias antes da eleição Quércia já estava bem à sua frente. Foi nesse momento que o Estadão saiu com uma manchete primorosa: "Indecisos podem dar vitória a Ermírio". Não deram, nem poderiam dar, já que para que isso ocorresse, todos eles teriam de votar no empresário.

4) O velho Estadão tinha lá suas idiossincrasias. Uma delas era não publicar o nome de seus inimigos. Adhemar de Barros era "A. de Barros". Brizola era "o caudilho". E Quércia, apenas "governador". Certo dia, em plena labuta na redação da primeira página, fui sorteado para fazer uma chamada de uma matéria sobre Quércia. Até aí, tudo bem. O problema foi o título da dita cuja, que teria de ser em 3 linhas até 6 toques, em uma coluna, se me lembro. Como o nome de Quércia era vetado e as palavras governador ou governo não cabiam de jeito nenhum, joguei o pepino para o chefe, que resolveu facilmente a questão: mandou mudar a diagramação.

5) Certo dia, na ausência do editor do caderno de economia, atendi a um telefonema do dr. Julio Neto, cuja secretária me pediu que fosse à sua sala. Fui. Lá, muito educadamente, ele, que nunca havia me visto antes, meio sem jeito solicitou que dessemos uma nota sobre um amigo seu, o ex-deputado federal Roberto Cardoso Alves, se não me engano. "Peça para alguém ligar para ele. Não precisa dar destaque." Claro que ligamos. E demos destaque.

6) O dr. Julio Neto, como o seu jornal, também tinha as suas idiossincrasias. No primeiro sábado que trabalhei quando era redator da primeira página, meu chefe me avisou: " O dr. Julio telefona todo fim de tarde para perguntar sobre o que vai sair na capa da edição de domingo. Mas isso é só um pretexto para ver como está o tempo na capital - é que ele vai para a sua fazenda em Louveira e quer saber, quando volta para São Paulo, se está chovendo ou não." Dito e feito. Num sábado, por volta das 5 da tarde, ele ligou. Atendi. Informei que o meu chefe não estava. Ele perguntou quem eu era. Respondi. Ele quis saber do "cardápio" da primeira página. Fui explicando, uma por uma, as notícias. Quando acabei, ele fez a pergunta de praxe: "E o tempo aí, como está?" Ele ouviu a minha resposta com muito mais atenção do que até aquele momento. 

7) O programa editorial que usávamos tinha um corretor ortográfico. Mas ele mais atrapalhava do que ajudava. O pessoal do fechamento pouco o usava. Numa segunda-feira, logo que cheguei à redação vieram me perguntar se fora eu que tinha editado uma determinada matéria. "Foi", disse. "Por quê?", perguntei. "É que ela saiu inteiramente sem sentido. Até o nome do entrevistado mudou completamente e querem saber o que aconteceu." Esse "querem saber" significava que a alta chefia recebera altas reclamações. O mistério não demorou para ser resolvido: o repórter que fez a matéria resolveu dar uma última olhada no texto depois de ele ter sido editado, na madrugada de sábado - não o enviamos à gráfica imediatamente porque ele sairia na edição de domingo. Chamávamos esse duplo fechamento de "pescoção", pois engatávamos, num só estirão, o jornal de sábado e quase todo o de domingo. O repórter, que não conhecia o maldito corretor, ao apertar por engano uma tecla fez com que ele substituísse todas as palavras desconhecidas pelo software por outras semelhantes. Assim, "Malcon", o nome do entrevistado, virou "Mala" - ou algo parecido. Lição aprendida, o corretor foi devidamente aposentado, sem nenhuma honra.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/01/como-se-faz-um-jornalao.html

Por que a União Soviética tem imagem positiva na Rússia atual?


Por Makaveli, via Teorizando

Uma pesquisa sobre as expectativas do povo russo para 2015 mostrou que 60% das pessoas desejam a volta da União Soviética. Esse dado assustou alguns e gerou certa confusão em outros. Pretendo, em poucas linhas, traçar um quadro explicativo mostrando os porquês dessa popularidade da URSS na Rússia atual.

 Muitos dos que se surpreenderam com esse dado estão embebidos da propaganda anti-comunista reacionária da Guerra Fria. A propaganda que afirmava que todo mundo, menos a burocracia do Partido, odiava o sistema soviético e que os aparelhos repressivos e ideológicos do Estado controlavam cada cidadão, cada ato, cada manifestação, cada pensamento, para evitar o mínimo de oposição. Essa visão não passa de uma caricatura. Não cabe aqui analisar as causas do fim da União Soviética, cumpre dizer que parte significativa da população russa não queria o fim do sistema soviético, que o Partido Comunista da União Soviética foi posto na ilegalidade (em 1993), que muitos comunistas morreram e foram presos em protestos contra o desmanche da URSS, que o parlamento russo foi bombardeado e fechado pelo presidente russo pró-ocidental Boris Yeltsin e que o mesmo instalou uma ditadura semi-aberta para garantir a transição para um sistema pós-soviético.

Mesmo assim, a popularidade do Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), criado em 1993 e sucessor direto do PCUS, sempre foi alta. Nas eleições para o Parlamento Russo, a Duma, o PCFR teve em total de votos [1]:

1993: 11, 2% (3°)
1995: 22, 3% (1°)
1999: 24, 3% (1°)
2003:12, 6% (2°)
2007: 11, 6% (2°)
2011: 19,1% (2°).

Nas eleições para presidente da república, novamente é mostrado o poder que desfruta o Partido Comunista da Federação Rússia:

1996 (primeiro turno): Gennadi Zyuganov, 32, 03% (2°)
1996 (segundo turno): Gennadi Zyuganov, 40, 31% (2°)
2000: Gennadi Zyuganov, 29,21% (2°)
2008: Gennadi Zyuganov, 17, 72% (2°)
2012: Gennadi Zyuganov, 17, 18% (2°).

Como se pode ver, Gennadi Zyuganov, o candidato do PCFR, há mais de uma década é um dos nomes mais votados para presidente da república. A eleição de 1996 foi emblemática. Considerada quase um plebiscito para saber se o povo russo queria a continuidade das reformas neoliberais ou a volta do sistema soviético, foi à eleição mais cara da história mundial (até aquela época), quando os países capitalistas ocidentais, com destaque para os Estados Unidos, financiaram em massa a campanha de Boris Yeltsin. Como se pode ver a antiga URSS e a ideologia comunista associada a ela, nunca deixaram de ter popularidade na Rússia.

Com o resultado das reformas neoliberais que restauram por completo o capitalismo na Rússia, ao contrário das promessas do FMI e dos seus ideólogos na Academia burguesa, a vida do povo russo piorou muito. A expectativa de vida foi reduzida em dez anos, a miséria e o desemprego aumentaram; a fome, a falta de acesso à saúde, educação e a violência cresceram de forma assustadora. O acesso à cultura e o lazer foram destruídos, as desigualdades sociais cresceram a olhos vistos e a reintrodução da disciplina capitalista na produção trouxe muitos adoecimentos, autos índices de depressão e suicídio.

Como a vida piorou muito (para a classe trabalhadora) depois do fim da URSS, começou a desenvolver-se uma tendência para idealização do passado soviético. Frente à situação atual, os problemas da época passada pareciam se apequenar, uma nostalgia tomou amplos setores populares, a URSS passa a ser vista como um paraíso que não existe mais. O forte sentimento de humilhação nacional que veio junto com a queda da URSS também explica essa nostalgia. Se na época soviética a Rússia era a segunda maior potência do mundo, cheia de orgulhos e conquistas, a Rússia pós-soviética, pelo menos até o início da Era Putin, era uma ex-potência espezinhada, sem expressão e sem orgulho nacional. Como Putin recuperou esse orgulho nacional e o protagonismo regional da Rússia, usando muitos dos símbolos soviéticos, a idéia de uma volta da URSS é também bastante associada com a volta do auge da grandeza russa.

Além de todos esses fatores, temos um adicional: a propaganda institucional pró-soviética. Isso pode parecer paradoxal: como o Governo totalmente burguês de Putin pode promover a memória de um sistema pós-capitalista. O paradoxo é apenas aparente. Grande parte do povo russo que quer a volta da URSS não sabe bem como se dará isso e muitos tem até dificuldades em definir o que era o sistema soviético. Essa nostalgia é um sentimento de “antes a vida era muito melhor” (e realmente era para a classe trabalhadora) e éramos uma grande potência.

Como Putin usa a imagem da Rússia como grande potencia e o nacionalismo como seu principal instrumento de propaganda ideológica, a promoção da memória soviética é parte disso. Como se seu governo estivesse recuperando a grandeza perdida. Desde a chegada de Putin ao poder, dez estátuas de Stálin foram reerguidas (Putin gosta de passar a imagem de que é um líder enérgico, duro, mas necessário, assim como teria sido Stálin), em 2007 foi organizada uma conferência nacional com professores de História da Rússia que produziram um material com uma imagem positiva do período soviético (e do governo de Stálin); em 2007 o prefeito de Moscou, Iúri Lujkov, colocou pôsteres pela capital agradecendo à Stálin pela vitória contra os nazistas e em 2009, a prefeitura de Moscou também financiou a restauração da estação de metrô Kurskaya, decorado com frases de Stalin [2].

O principal partido de oposição, o Partido Comunista da Federação Russa, também faz da volta e exaltação da URSS seu principal símbolo ideológico. O líder dos comunistas já chegou proferir a frase “a União Soviética não é só o passado, mas também o futuro da Rússia”. Uma situação peculiar se forma: o principal partido da oposição e o partido no governo coincidem na exaltação da antiga URSS.

Esses fatos explicam a alta popularidade que a imagem da URSS tem entre os russos. Popularidade que tende cada vez mais a crescer. Contudo, discordo da interpretação de alguns camaradas que vêem nesse apoio à União Soviética potencialidades revolucionárias. Como já sublinhamos, a memória do povo russo é bem confusa sobre o que foi a União Soviética, Putin consegue sem muitos problemas passar por continuador desse legado e o Partido comunista não é nenhum exemplo para mundo. Apóia a perseguição aos homossexuais na Rússia, flerta com um nacionalismo de direita, tem aliança com a igreja ortodoxa e  um discurso cada vez mais distante do marxismo [3].

Notas
[1] – Dados sobre os resultados eleitorais e o clima político no desmanche da URSS foram tirados do artigo: “A questão da democracia na Rússia pós-soviética” de Angelo Segrillo. Disponível no livro coletivo do Ipea “O nascimento de uma potência? A Rússia no século XXI”.
[2] –http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/25715/comunistas+pedem+que+cidade+russa+volte+a+se+chamar+stalingrado.shtml

[3] – http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/27313/socialismo+sovietico+nao+e+apenas+o+passado+mas+o+futuro+da+russia+diz+lider+comunista.shtml
via: http://blogdoitarcio.blogspot.com.br/2015/01/por-que-uniao-sovietica-tem-imagem.html

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um motivo para a regulamentação


A linguagem jornalística é um campo instigante para a curiosidade dos pesquisadores. Pode-se abrir um leque de incalculáveis possibilidades de interpretação, a começar da própria convenção segundo a qual existe uma linguagem específica do jornalismo. Se a definição do que seja jornalismo ou de quais qualidades caracterizam o jornalista se dilui no ambiente social hipermediado, como delimitar padrões para uma linguagem específica dessa atividade?

Observe-se, por exemplo, que até a primeira metade do século 20, em todas as sociedades onde a imprensa tinha um papel relevante, a chamada linguagem jornalística obedecia à norma culta dos idiomas e as imagens tinham que cumprir certos requisitos de pudor para serem levadas aos meios massivos de publicação. O padrão mudou quando a cultura “pop” se impôs sobre a comunicação social, mas certas restrições permaneceram.

Jornais e revistas não estampariam, por exemplo, o quadro intitulado “A Origem do Mundo”, pintado por Gustave Courbet em 1866. Nesta segunda década do século 21, também não se expõe a pintura, a não ser em publicações especializadas e de pequena circulação. Em fevereiro de 2013, a imprensa aproveitou uma polêmica sobre a identidade da mulher que teria servido de modelo para a obra e publicou a imagem (veraqui o site Globo.com). Meses antes, em outubro de 2012, o jornal Folha da Manhã, de Campos dos Goytacazes (RJ), havia estampado uma foto ainda mais explícita na primeira página de seu caderno de Cultura e Lazer (ver aqui). É curioso observar que o pudor jornalístico se manifesta mais fortemente na imagem do que na palavra.

A internet rompeu paradigmas da mídia impressa e da televisão em todo o mundo. No Brasil, os abusos eram prática limitada a certos programas radiofônicos ou televisivos dedicados ao noticiário policial, até o advento dos cronistas “pitbulls”, que reproduzem em larga escala o estilo que marcou polemistas como Carlos Lacerda e Paulo Francis. Cabe a eles romper, para baixo, os padrões da linguagem jornalística, vocalizando a pornografia política que os editoriais não ousam proferir.

A síntese em uma charge

A questão da linguagem está no centro da polêmica sobre regulamentação da mídia – que costuma ser confundida com liberdade de expressão ou liberdade de imprensa, temas apenas correlatos. A regulamentação dos meios de comunicação não tem necessariamente uma relação direta com as liberdades fundamentais da produção e usufruto de informações ou opiniões. Essa confusão reducionista serve apenas para impedir a evolução do debate.

Os supostos abusos contra o que seria a linguagem jornalística têm sido usados como argumento por aqueles que defendem a regulamentação e, em casos extremos, o controle externo da mídia. No entanto, é preciso dar um passo atrás e convencionar se ainda existe uma linguagem jornalística e, se existe, quais seriam seus padrões.

Desde a origem, trata-se de uma questão complexa, uma vez que a própria escolha dos signos que irão representar os argumentos define o que cada um entende como linguagem mais apropriada para a prática do jornalismo. Supunha-se, portanto, que o tema da regulamentação dos meios aplicados ao jornalismo exigiria um tratado complexo como o que resume, por exemplo, os argumentos sobre a natureza antropogênica das mudanças climáticas.

Até terça-feira (6/1): na página 2 da Folha de S. Paulo, o cartunista Laerte Coutinho resume, numa charge, o núcleo da questão, ao propor em dez pequenos quadros, os “10 motivos para uma regulamentação da mídia” (ver aqui).

A questão aparece retratada em uma manchete de jornal, uma bancada de telejornal, uma página de revista, uma análise de um cientista político, um cartaz de campanha, um debate na televisão, uma pesquisa, um programa de rádio, uma entrevista e um site noticioso. Em todos eles, a mesma resposta: “O governo quer controlar a opinião pública”.

Em seu admirável poder de síntese e carregando uma ironia irresistível, o cartunista demonstra que a homogeneidade do discurso da mídia contra a regulamentação é o maior argumento em favor da regulamentação.

Ele não entra em detalhes, como os que costumam embaralhar os debates: apenas mostra que, sem diversidade, a mídia simplesmente não cumpre seu papel social.

Luciano Martins Costa. Via http://www.contextolivre.com.br/2015/01/um-motivo-para-regulamentacao.html