sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Na “lista da propina”, falta dinheiro, ou faltam políticos ou falta verdade


Fernando Brito, Tijolaço  

"Muito estranha a lista dos beneficiários de dinheiro de empreiteiras que trabalhavam para a Petrobras, divulgada hoje pelo Estadão.

Dois valores citados, chega-se á conclusão que os maiores foram para políticos de oposição, em valores que, de forma alguma, poderia ser confundidos com doações eleitorais: Eduardo Campos (R$ 20 milhões) e Sérgio Guerra (R$ 10 milhões).

Supõe-se que, embora hoje ambos estejam mortos, Costa tem os meios de demonstrar como e por que meios foram feitos os repasses.

Aliás, o mesmo deve se aplicar àqueles que, diz o jornal, “segundo o ex-diretor de Abastecimento, recebiam repasses com frequência ou valores que chegaram a superar R$ 1 milhão”.

Mas, estranhamente, a reportagem afirma que “sobre vários políticos, o ex-diretor da estatal apenas mencionou o nome. Não revelou valores que teriam sido distribuídos a eles ou a suas agremiações”.

Muito pouco para quem quem está “enojado”, “arrependido” e disposto a “entregar tudo”.

E para quem vai sair livre depois de ter roubado – com todo este “nojo” alegado – R$ 23 milhões de dólares, com a ajuda da família, também perdoada.

Não tenho a menor simpatia por nenhum dos citados – muito ao contrário, na maioria dos casos – mas é preciso discernir entre o que é pedir para conseguir doações e negociar contratos para receber propina.

Porque se pedir doações eleitorais de empresas for crime, dos 513 deputados e 81 senadores sobraria uma dúzia, se tanto.

Nenhuma empresa doará se não se lhe pedir, não é?

Goste-se ou não (viu, Ministro Gilmar Mendes?) é assim que funcional eleições com financiamento privado de campanhas.

É algo completamente diferente, senão do ponto de vista moral, do ponto de vista jurídico.

O tráfico de influência, juridicamente, liga o pedido à promessa de uma vantagem.

Dizem as metáforas jurídicas que teria vindo de  um certo Vetronio Turino, que vendia supostos favores do imperador romano Alessandro Severo e que foi executado com fumaça, pois fumaça vendia.

Não duvido que os demais políticos citados tenham pedido a Paulo Roberto Costa que conseguisse doações de empreiteiras para suas campanhas.

Centenas de  candidatos a deputado, a senador, a governador, a vereador pediram diretamente ou solicitaram a alguém que pedisse dinheiro a empreiteiras. No mínimo, aceitaram que alguém pedisse em seu nome.
Será que as empreiteiras, as  citadas na Lava Jato  e outras, foram bater na porta de Aécio Neves e dizer “queremos te doar R$ 50 milhões”?

Será que a Odebrecht (diretamente ou através de sua controlada Foz do Jaceaba) doou mais de R$ 7 milhões a Aécio, sem contar os R$ 4 milhões da Braskem, da qual é sócia?

Será que os candidatos mandam pedir ao contínuo das empresas?

Se esta lista for tratada sem hipocrisia, ela é muito pequena.

Se for olhada frente à realidade política que faz as campanhas mergulharem na tenebrosa promiscuidade  pode incluir quem não fez nada além de pedir que pedisse, sem prometer ou acenar com vantagem.

E se for olhada pelo ângulo do dinheiro, está faltando, se chegou à casa dos bilhões que se diz ter chegado.

Tem contra-sensos evidentes, como dar 20 milhões de reais à campanha de um governador e, supostamente, um décimo disso a uma campanha presidencial. Aliás, a Odebrecht deu o mesmo valor às campanhas de Dilma e de José Serra, naquele ano…

Ou será que foi Costa que prometeu conseguir doações para construir uma teia de simpatias para que ele próprio pudesse, “enojadamente”, roubar a Petrobras?

De qualquer forma, a registrar que o “vazamento seletivo”, antes circunscrito aos Ministério Público Federal do Paraná, chegou à Procuradoria Geral da República.

A ver como reagirá o Procurador-Geral Rodrigo Janot a isto.
Porque, se ele mantém estes depoimentos a sete chaves, deve saber quem deles poderia “catar” nomes.

Ou se quem os enviou a ele está fazendo isso, traindo seu dever funcional."

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Alckmin já tem plano para enganar eleitores


A equipe do governador paulista, Geraldo Alckmin, foi orientada a preparar uma espécie de vacina para a falta de água, que na avaliação da administração paulista ainda vai se agravar, apesar das primeiras chuvas de fim de ano.

Alckmin pediu aos auxiliares – principalmente os que chegam agora à equipe – que invistam pesado em medidas que permitam mostrar ao eleitorado que o governo está fazendo tudo o que é possível para sanar o problema. Ou seja, tudo o que acontecer a partir daí, é culpa de São Pedro.

Alckmin espera entrar no novo governo já com a estratégia bem definida para responder às críticas que vierem quando a secura nas torneiras piorar.

Todas as ações que tenham relação com a área deverão ser feitas em conjunto com o novo secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga. Alckmin, segundo um interlocutor, priorizou o perfil de gestão à imagem política na hora de indicar o novo secretário
No ig

Para Chomsky, aqui se articula o terror mundial


Intelectual dissidente analisa campanhas de sabotagem deflagradas pelos EUA contra Angola, Cuba e Nicarágua. E alerta: Washington continua a desestabilizar adversários
“É oficial: os EUA são o maior Estado terrorista do mundo e se orgulham disso”.

Essa deveria ter sido a manchete da notícia principal do New York Times no dia 15 de outubro, que foi polidamente intitulada “Os Estudos da CIA sobre ajuda secreta alimentam ceticismo sobre a ajuda aos rebeldes sírios”. O artigo relata uma revisão da CIA sobre as operações secretas dos EUA para determinar sua efetividade. A Casa Branca concluiu que infelizmente os sucessos foram tão raros que é necessário repensar essa política.

O texto cita o Presidente Barack Obama, dizendo que ele solicitou à CIA que conduzisse a revisão para encontrar casos de “financiamentos e fornecimento de armas para grupos insurgentes em um país que realmente tenham funcionado. E eles não encontraram muitos”. Por isso, Obama reluta em manter tais esforços.

O primeiro parágrafo do artigo do Times cita três grandes exemplos de “ajuda secreta”: Angola, Nicarágua e Cuba. Na verdade, cada um desses casos foi uma grande operação terrorista conduzida pelos EUA. Angola foi invadida pela África do Sul, que, segundo Washington, defendia-se de um dos “maiores grupos terroristas” do mundo – o Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela.

Na época, o governo Reagan estava praticamente sozinho no seu apoio ao regime do apartheid, inclusive violando sanções do congresso para aumentar o comércio com seu aliado sul africano. Washington juntou-se à África do Sul para prover apoio crucial ao exército terrorista da Unita, chefiada por Jonas Savimbi, em Angola. Continuou a fazê-lo mesmo depois de Savimbi ser completamente derrotado em eleições livres cuidadosamente monitoradas, e da África do Sul retirar seu apoio. Savimbi era um “monstro cuja sede de poder trouxe uma miséria apavorante ao seu povo”, nas palavras de Marrack Goulding, embaixador britânico em Angola.

As consequências foram horrendas. Um inquérito de 1989 da ONU estimou que os atos hostis praticados por sul-africanos provocaram 1,5 milhão de mortes nos países vizinhos, sem contar o que estava acontecendo internamente na África do Sul. Ao fim, forças cubanas contra-atacaram os agressores sul-africanos e os compeliram a se retirar da Namíbia, ilegalmente ocupada. Apenas os EUA continuaram a apoiar o monstro Savimbi.

Em Cuba, após a invasão frustrada da Baía dos Porcos em 1961, o Presidente John F. Kennedy lançou uma campanha assassina e destrutiva para levar “os terrores da terra” à ilha – nas palavras de um íntimo aliado de Kennedy, o historiador Arthur Schlesinger, em sua biografia semi-oficial de Robert Kennedy, a quem foi atribuída a responsabilidade pela guerra terrorista.

As atrocidades contra Cuba foram severas. Os planos eram de que o terrorismo culminasse em uma rebelião em outubro de 1962, que levaria a uma invasão estadunidense. Agora, estudos acadêmicos reconhecem que essa foi uma das razões pelas quais o primeiro-ministro russo Nikita Khruschev colocou mísseis em Cuba, iniciando uma crise que ficou perigosamente próxima de uma guerra nuclear. O secretário de Defesa dos EUA, Robert McNamara posteriormente admitiu que, se fosse uma liderança cubana na época, “teria esperado uma invasão dos EUA”.

Os ataques terroristas americanos a Cuba continuaram por mais de 30 anos. O custo disso aos cubanos foi, é claro, muito grave. A contagem de vítimas, dificilmente vista nos EUA, foi relatada em detalhes pela primeira vez em um estudo do canadense Keith Bolender, “Vozes do Outro Lado: Uma História Oral do Terrorismo Contra Cuba”, em 2010.

O preço em vidas de uma longa guerra terrorista foi ampliado por um embargo esmagador, que continua até hoje, a despeito do resto do mundo. Em 28 de outubro, a ONU, pela 23ª vez, endossou a “necessidade de dar um fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba”. A votação foi de 188 a 2 (EUA e Israel) com três abstenções, das dependências dos EUA nas Ilhas do Pacífico.

Existe hoje alguma oposição ao embargo em lugares importantes dos EUA, relata o ABC News, por que ele “não é mais útil” (citando o novo livro de Hillary Clinton, Hard Choices). O estudioso francês Salim Lamrani revisa os amargos custos aos cubanos em seu livro de 2013, A Guerra Econômica Contra Cuba.

Quase não é necessário mencionar Nicarágua. A guerra terrorista do presidente Ronald Reagan foi condenada pela Corte Internacional, que ordenou que os EUA encerrassem seu “uso de força ilícito” e pagassem reparações substantivas.

Washington respondeu aprofundando a guerra e vetando resolução do Conselho de Segurança da ONU de 1986, que chamava todos os Estados – significando os EUA – a observarem a lei internacional.

Outro exemplo de terrorismo foi lembrado em 16 de novembro, data do 25º aniversário do assassinato de seis padres jesuítas em São Salvador por uma unidade terrorista do exército salvadorenho, armada e treinada pelos EUA. Sob as ordens do alto comando militar, os soldados invadiram a Universidade Católica para assassinar os padres e qualquer testemunha – incluindo uma governanta e sua filha.

O evento marcou o fim das guerras terroristas dos EUA na América Central nos anos 80. Mas seus efeitos ainda estão nas primeiras páginas de hoje, nos relatos sobre a fuga de “imigrantes ilegais” — uma medida das consequências dessa carnificina. No entanto, eles são deportados dos EUA para sobreviverem, se puderem, nas ruínas dos seus países de origem.

Washington também emerge como o campeão mundial em gerar terror. O ex-analista da CIA Paul Pillar alerta que “o impacto gerador de ressentimentos dos EUA atinge” a Síria, onde talvez induza, no futuro, as organizações do Jihad Jabhat al-Nusra e o Estado Islâmico a “reparar suas falhas no ano passado e fazer campanha em conjunto contra a intervenção dos EUA, pintando-a como uma guerra contra o Islã”.

Essa é uma consequência já familiar das operações dos EUA, que ajudaram a espalhar o jihadismo — antes restrito a um reduto do Afeganistão, — para grande parte do mundo.

A manifestação do jihadismo mais alarmante hoje é o Estado Islâmico, ou ISIS, que estabeleceu seu califado assassino em grandes áreas do Iraque e da Síria.

“Penso que os Estados Unidos são um dos criadores chave dessa organização”, relata o ex-analista da CIA, Graham Fuller, comentarista destacado sobre assuntos na região. “Os Estados Unidos não planejaram a formação do ISIS”, acrescenta “mas suas intervenções destrutivas no Oriente Médio e a guerra do Iraque foram as causas básicas do nascimento do ISIS”.

A isso nós podemos incluir a maior campanha terrorista do mundo: o projeto global de assassinato de “terroristas” de Obama. O “impacto gerador de ressentimento” desses drones e ataques de forças especiais deveriam ser conhecidos demais para requerer mais comentários. Esse é um registro a ser contemplado com certo pavor.

Noam Chomsky | Tradução: Mariana Bercht
No Outras Plavras, via http://www.contextolivre.com.br/2014/12/para-chomsky-aqui-se-articula-o-terror.html

NA PRAIA

Em homenagem ao verão, este texto de Paulo Mendes Campos é meu presente de Natal para a internet. Sejamos tranquilos..


Funciona esplêndida em cima da praia a máquina do sol. Largamente abre-se o espaço. Custa admitir que a vida se cava em escritórios depressivos, nas jaulas dos guichês, repartições, filas, cemitérios do ser humano. Amo esta distância, hoje verde, este cheiro de sal lavado, esta inquieta serenidade. Seria um absurdo mitológico se um submarino atômico surgisse à tona e nos destruísse, a nós que apenas pedimos neste momento um pouco de intimidade com as raízes da vida.

Aqui dispomos dos instrumentos essenciais a um instante de equilíbrio: a persistência do coração, o trabalho do fígado e dos rins, a eliminar os venenos, água salgada, luz, muita luz, elementos suficientes ao mistério linear de viver e sentir. Não fosse uma gaivota faminta, nem perceberíamos este espinho interior a denunciar as vastas carências do homem, sofrimento, pressentimento, aniquilamento.

Há pequenos vermes ocultos na areia para que a nossa tranquilidade não chegue a ser alarmante. Obrigações a cumprir, amores a sonhar, coisas a providenciar formam figuras abstratas que se deformam, frágeis, e se quebram. Baste o sol, baste o céu, baste a escura arraia da vida a dormir maldormida em nossas profundezas submarinas.

Penso em Ícaro às vezes, despenhando-se do rochedo a fim de legar ao mundo, segundo o bom senso da poesia, um fracasso importante. Em geral, nem penso: as nuvens me atrapalham o entendimento, os ventos me dispersam em outras idades, já não sei quem sou, enquanto uma esquadrilha de aviões parece conferir meu corpo, esquecido agora de que é um triste corpo à espera dos monstros do meu juízo final.

Hoje o homem vive simultaneamente em todas as regiões da Terra. Dói-lhe o mundo inteiro como se fosse uma extensão sensível de seu corpo: os postes tlelegráficos e as ondas de rádio são as c´lulas nervosas deste imenso organismo a transmitir-lhe impressões e dores em forma de notícias. A primeira página do jornal é o gráfico dessa vida nervosa suplementar, estampando diariamente a curva de nossas tristezas universais, somando as parcelas do mundo em nosso comportamento mental e dividindo a nossa mal distraída atenção pelos quatro recantos da Terra. Nunca a unanimidade humana foi tão intensa. Estamos interessados em todos. Das experiências termonucleares às pesquisas sobre a dor reumática. Das multidões esfomeadas da Índia à pobre menina brasileira que furtou um pão. Das reviravoltas políticas da África às usinas de alumínio do Canadá.

Por isso mesmo, mereço este dia de praia e de sol, fechado por algum tempo nesta felicidade deslumbrante feita de egoísmo orgânico. Hoje eu não sofreria nem por mim mesmo. Nosso destino é morrer. Mas é também nascer. O resto é aflição de espírito.

Em: O Amor Acaba - Crônicas líricas e existenciais, de Paulo Mendes Campos (Civilização Brasileira, 2008)
http://aspasnatiaspas.blogspot.com.br/2014/12/na-praia.html

Os EUA não aceitam um mundo multipolar


A jogada do petróleo feita por americanos e sauditas foi certeira.
De imediato, golpeia fortemente os inimigos Rússia, Irã e Venezuela.
E, junto com o ataque intestino que sofre a Petrobras, lança uma série de dúvidas sobre o futuro do pré-sal brasileiro.
Os EUA não brincam em serviço.
A superpotência, pressionada pelo avanço econômico da China, pelo poderio militar russo, pelos governos de esquerda da América do Sul, pela teimosia de Assad em se manter no poder na Síria, pela resistência iraniana - pelo fato de que muitos países ainda não se curvaram às ordens imperiais -, faz um lance de alto risco, na tentativa de dar um golpe mortal no czar Putin, estrangulando a economia da Rússia.
A Otan se expande cada vez mais para o leste.
O governo central da Ucrânia se transformou num escritória da CIA.
Em meio a isso tudo, Obama e Raul Castro dizem ao mundo que estão dispostos a enterrar 50 anos de desentendimento.
Dá para acreditar nas boas intenções americanas?
O governo cubano não teria sido ingênuo demais ao se acertar com os americanos?
Ao fundo dessas questões tão sérias, persiste a mais grave crise econômica já vivida no mundo desde o crash de 29.
A distensão EUA-Cuba lança um pouco de oxigênio na atmosfera quase irrespirável que toma conta do planeta.
Mas não é suficiente para derrubar o muro quer vai se erguendo entre os EUA e seus satélites e seus "inimigos".
No governo americano há quem advogue a tese de que os russos têm de ser combatidos - literalmente.
Como há muitos precedentes sobre o belicismo dos EUA, essa ideia não é uma simples teoria da conspiração.
O fato é que o planeta nunca esteve tão perto, nos últimos anos, de uma grande conflagração como agora.
Isso porque  construção de um mundo multipolar é algo inconcebível para os americanos.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2014/12/os-eua-nao-aceitam-um-mundo-multipolar.html#more

Canção pro Natal durar o ano inteiro


Rebeca Bedone, Revista Bula

"Ao preparar o coração e a árvore de Natal para o fim de ano, penso como 2014 foi difícil. Foram fortes emoções desde a Copa do Mundo até as Eleições para Presidente, entremeadas por intermináveis notícias de violência urbana e escândalos políticos. Abro minha caixa com as peças da miniatura de pinheiro e coloco uma seleção de músicas para tocar. Então é Natal. E o que fizemos até agora?

Outro ano se foi e o novo vai começar; mas a guerra, na verdade, não terminou. Continuamos assistindo ao terror gratuito na televisão. A dignidade nos escorre pelo ralo toda vez que a corrupção ri da nossa cara. Enquanto que tudo que eu queria é desejar um Natal alegre e feliz Ano Novo dizendo que a guerra já acabou.

Distribuo as bolas pelos galhos e relembro quando observava minha mãe montar a nossa árvore natalina. Ouvindo “Yesterday”, sinto como ontem os problemas pareciam tão distantes e agora eles vieram para ficar. O amor era um jogo bem mais fácil de jogar. Hoje precisamos de um lugar para nos esconder. Então olho a imagem refletida na bola de Natal e sei onde está a jogadora.

Pego outro enfeite e deixo estar, deve haver uma resposta. As perguntas que me afligem de solidão e insegurança pelo futuro do país também trazem “Let it be” das partituras da minha saudade, do dia que subi no palco em dia de audição do conservatório e toquei essa música no piano. Rio ao relembrar a emoção dos meus pais ao serem surpreendidos por uma menina.

Aqueles garotos de Liverpool sempre reuniram a minha família, seja no dia a dia, em festas ou almoços de domingo. O primeiro show do Paul McCartney que fomos juntos foi quando ele veio pela segunda vez ao Brasil; meu irmão, também adolescente, e eu fomos levados com nossos pais por uma excursão cheia de adultos fanáticos e felizes. Naquela época, sentia que meu coração era um livro aberto, eu costumava sonhar em deixar viver. Mas esse mundo de constantes mudanças no qual vivemos faz você se entregar e chorar e gritar “Live and let die!”.

E o que você pensaria se eu cantasse desafinado? Me empresta os seus ouvidos que mostrarei uma canção para você. Olha aí o Ringo Starr “Whith a little help from my friends”! O mundo está girando mesmo com todo erro que precisamos aprender. George Harrison me acorda “Still my guitar gently weeps”.

Quando essa noite chegar e o mundo escurecer e a lua for nossa única luz lá fora, não terei medo. Você ficou aqui comigo. Nem que o céu caia ou as montanhas desabem para o mar, hoje não irei chorar, não derramarei uma lágrima. Você está aqui cantando “Stand by me”. Hoje seremos pássaros pretos na calada da noite: “You were only waiting for this moment to be free”.

Porque pegamos uma canção triste e a melhoramos para deixar algo difícil chegar ao coração. O pinheiro está pronto. É Natal e o que fizemos de melhor até agora foi o amor. Esse sentimento que se transforma em compaixão, solidariedade e alegria quando é plantado e distribuído por aí. E não é só por causa dessa época que deveríamos cultivar essa árvore. Ela precisa frutificar o ano inteiro, suas bolas natalinas têm que brilhar para sempre.

Para isso, vamos fazer esses jogos mentais juntos, em busca da paz e com fé no futuro, plantando sementes e espalhando o amor. A guerra lá fora nunca deixará de existir, mas podemos fazer nossa guerrilha mental se multiplicar. Amor é a resposta e você sabe disso, com certeza, mas não custa repetir: “Love…I want you to make love, not war!”

Podem dizer que sou uma sonhadora, mas não sou a única. John Lennon nos ensinou a ter esperança: o pisca-pisca acende enquanto toca “Imagine”.

A rainha e o senhor Lula



André Falcão, Pragmatismo Político 

"O reino era o da Dinamarca. Mas os plebeus não eram bem plebeus, senão turistas brasileiros de classe média, ou média-alta, que por lá se encontravam, mais precisamente em Copenhague.

Embora ensolarada, a manhã era fria, o que tornava indispensável o uso de agasalhos generosos. A guia, uma simpática senhora indiana de ar agradável, sorriso franco e farto, voz calma e doce — mas disciplinadora, quando necessário o silêncio e o cumprimento dos horários acordados —, vestia-se de modo simples, mas digno. Usava um vestido acinzentado, sandálias confortáveis de solado de borracha, e cachecol estampado de tons neutros.

Cabelos grisalhos longos, fartos e lisos penteados para trás e presos num coque próximo à nuca. Sem joias ou brincos, senão um relógio e uma aliança prateada no anelar da mão esquerda.

Numa oportunidade, reportando-se à monarquia naquele país, e em tom de gracejo, aludiu ao fato de que lá, como no Brasil, eles pagam impostos para sustentar os governantes: no Brasil, os políticos; na Dinamarca, a realeza.

A alguns risos igualmente despretensiosos, ouviu-se: “Melhor sustentar a realeza!”, ouviu-se de um deles. “Melhor os políticos, que foram escolhidos por nós!’, retrucou outro. A incipiente manifestação dissipou-se por ali mesmo, assim também qualquer outro tema com alguma conotação política.

Findo o passeio, alguns poucos estiveram com ela por bom tempo a conversar.
Aí se depararam com uma mulher de singular cultura, viajada (já havia até morado no Brasil), extraordinariamente politizada e que, aposentada juntamente com seu marido, resolvera(m) ser guia turístico para completar o orçamento doméstico, dado o altíssimo custo de vida naquele país.

Desculpou-se por evitar falar em política com grupos de brasileiros, porque na sua maioria raivosamente contrários ao ex-presidente Lula. “Não compreendo… Um presidente com as qualidades do senhor Lula!…”, dizia com pouco acentuado sotaque português. “Há poucos políticos com tamanha grandeza. Olha, digo-lhes que a rainha somente conferiu a intimidade de receber em sua residência dois únicos políticos: Bill Clinton e o senhor Lula. Este, ainda candidato, procurou-a para aprender acerca das políticas voltadas para o povo dinamarquês. Admira-o. É um homem incrivelmente inteligente e de uma sensibilidade incomuns. Não à toa recebe títulos importantíssimos mundo a fora! No entanto, vossa classe média não gosta dele… Então, prefiro calar-me, pois não?”

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Professor de Oxford traça perfil da “nova direita” no Brasil

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Perfil da “nova direita” no Brasil (Imagem: Pragmatismo Político)
Faixas “Fora, Dilma” e “Fora, comunistas” em meio a gritos de “Somos coxinhas”. Assim, cerca de 500 manifestantes pediram o impeachment da presidente Dilma Rousseff no fim de semana passado, em São Paulo.
As manifestações de grupos de direita e esquerda têm se intensificado no país desde as eleições presidenciais. Em novembro, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) fez uma marcha na Avenida Paulista contra o ato de eleitores anti-PT descontentes com o resultado das urnas.
Mesmo diante da divisão política expressada nas ruas, especialistas argumentam que o Brasil não vive uma polarização nos moldes de Estados Unidos e Venezuela. A divisão, afirmam, é apenas passageira.
“O país vive, na verdade, uma ressaca política depois de uma eleição muito apertada. As pessoas estão usando a palavra ‘polarização’ de uma maneira bastante equivocada”, avalia Timothy Power, diretor do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford.
Para o filósofo Paulo Eduardo Arantes, professor aposentado da USP, a disputa entre PT e PSDB foi apenas eleitoral e não representa uma divisão profunda da sociedade.
“A polarização da campanha, o ‘nós’ contra ‘eles’, era muito rasa. Com o tempo isso vai desaparecer com as composições que serão feitas no governo”, explica ele, citando a nomeação da senadora Kátia Abreu (PMDB), ligada ao agronegócio, para o Ministério da Agricultura.
Para Power, o descontentamento de uma pequena parte da população se concentra na escolha para presidente, por causa dos programas sociais criados pelos governos petistas desde 2002.
“Para outros pleitos, como governos estaduais e prefeituras, o Brasil não apresenta um quadro tão polarizado”, diz o brasilianista.
Nos Estados Unidos, a bipolarização partidária permeia todos os níveis da esfera política, dos estados ao Congresso, com eleições permanentemente apertadas. Apesar de no Brasil a eleição presidencial ser majoritária, o Congresso Nacional apresenta, segundo Power, uma fragmentação muito grande.
“As pessoas que estão protestando contra o PT nas ruas devem perceber que a representação do partido no Congresso é hoje menor do que em 2002″, avalia. “O avanço da legenda no Brasil é um fenômeno presidencial. Não tem muito a ver com outras esferas de governo.”
“Nova direita”
Arantes acredita que há uma polarização assimétrica entre uma “nova direita”, surgida após as manifestações de junho de 2013, e a “esquerda oficial”. “Nos protestos, apareceu uma direita social e insurgente, que foi para as ruas em grande número para se contrapor ao status quo de um ponto de vista conservador”, analisa.
O filósofo argumenta que já existia no Brasil uma “direita residual”, que tende a propor intervenções militares. Enquanto este é um segmento minoritário, a “nova direita” tem um maior apelo popular.
Para ele, a assimetria se deve a uma radicalização da direita, que, no entanto, não foi acompanhada pela esquerda. “Uma polarização supõe dois termos antagônicos e extremos, só que um dos polos está em falta. A esquerda institucional, de governo no Brasil, é muito moderada, muito propensa à negociação”, aponta.
Arantes alerta que esse segmento não busca fazer alianças para compor maiorias, mas visa unicamente dificultar o governo do PT. “No Brasil, Jair Bolsonaro [deputado federal], por exemplo, não têm a pretensão de criar um governo de coalizão”, diz. “O Brasil se aproxima do que acontece nos EUA, em que a direita existe para impedir o Obama de governar.”
As redes sociais são o principal instrumento de mobilização desses grupos, segundo Power. Para o professor da Universidade de Oxford, os manifestantes que pedem o impeachment de Dilma se aproveitam da atenção midiática no período de ressaca pós-eleições. O grupo é minoritário e tem uma posição política que não é compartilhada pelos grandes partidos de oposição.
“Pedir impeachment é pura fantasia. Esse não é o mesmo cenário de 1992, quando as alegações contra Fernando Collor eram muito fortes e ele tinha pouquíssimo apoio do Congresso”, considera.
Os protestos recentes representam um movimento anti-PT, “até antissistêmico, de certa forma”, diz Power. Ele avalia que a facilidade de mobilização pelas redes sociais ajuda os pequenos movimentos de direita, que nunca tiveram muita penetração na sociedade. “Isso é assimétrico em relação à esquerda, que sempre teve boa capacidade de mobilização popular nos sindicatos e movimentos sociais.”
Power acredita que a internet “equilibra o jogo”, mas de uma maneira superficial. “Hoje, a direita acha que uma conta no Twitter vale mais do que uma CUT, por exemplo, mas não é exatamente assim. Atrás do poder de mobilização das redes sociais, a direita não conta com movimentos organizados”, afirma.
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/12/professor-de-oxford-traca-perfil-da-nova-direita-no-brasil.html


Karina Gomes e Marina Estarque, DW

Professor de Oxford traça perfil da “nova direita” no Brasil

Pequeno manual de guerrilha semiótica antimídia


É inacreditável que depois de quase um século de legado em instrumentos, estratégias e pesquisas na Ciência da Comunicação, a única reposta possível do PT à agenda imposta pela grande mídia seja a articulação de um “gabinete de crise”. Administrar os estragos provocados pelas explosões das bombas semióticas apenas legitima e dá pertinência à pauta diuturnamente elaborada pelas redações dos grandes veículos. O PT repete o mesmo erro estratégico das esquerdas em todos os tempos: pensar a comunicação ainda de forma tradicional (iluminista) como uma questão de Fonte de transmissão dentro da cadeia de comunicação. As bombas semióticas demonstraram que a grande mídia já está à frente com o chamado “softpower” – não mais tentar convencer ou persuadir, mas agora criar pânico e moldar percepções.  Guerrilhas semióticas são a única estratégia possível frente ao cerco das grande mídias: criar uma contra-agenda atuando na recepção e nos códigos. Nessa postagem, um esboço inicial de uma guerrilha no interior dos processos de comunicação. 

A notícia de que o ex-presidente Lula articula a criação de um “gabinete de crise” para enfrentar o impacto das denúncias da Operação Lava Jato é tudo aquilo que a grande mídia esperava ouvir: um “gabinete de crise” apenas vai retroalimentar a agenda criada diariamente pelos colunistas e editoriais, legitimando a pauta pré-estabelecida, como se o PT fosse um bom adversário que aceita as regras do jogo.

Foi também noticiado que o gabinete será formado por um “grupo de notáveis” (sempre os “notáveis”... Marina Silva também pretendia montar um ministério com “notáveis”...).

É inacreditável que depois de quase um século de pesquisas nas ciências da comunicação, (desde a década de 1920 com o ponta pé inicial dado pela Escola de Frankfurt, Escola de Chicago e Teoria Hipodérmica) que resultaram em tantos instrumentos e estratégias disponíveis para ataques, defesas e contra-ataques, a única resposta que um governo que vai para 16 anos no poder seja a de legitimar uma manjada estratégia de criação de sucessivas agendas de crises – mensalão, a inflação dos tomates assassinos, o gigante que acordou, e agora o Lava Jato.

Rui Falcão, presidente do PT: o partido é o
oponente ideal para a grande mídia?
Talvez por que a grande mídia saiba que tem no PT um ótimo oponente que se limita a denunciar a onipresença dos monopólios midiáticos, vitimizar-se pelas “manipulações” das notícias  e aqui e ali dar respostas tímidas através de notas na esperança de que “blogueiros sujos” façam a diferença.

O PT é um ótimo oponente de qual jogo? O jogo do “pinball político” (discutido em postagem anterior – clique aqui) que certamente o gabinete de crise apenas retroalimentará, ao dar legitimidade e pertinência a hierarquia das pautas que a grande mídia impõe.

Bombas semióticas e agenda midiáticaDesde as grandes manifestações do ano passado, esse blog tem feito uma série de postagens sobre o fenômeno das bombas semióticas que a grande mídia vem detonando na opinião pública. A reação da estratégia política e de comunicação do governo em todos os episódios foi reativa: apenas controle de danos, prática que o tal “gabinete de crise” parece querer tornar mais sistemática e “estratégica”.

Nessas sucessivas análises feitas pelo blog Cinegnose, percebemos que as bombas semióticas não são “conteudistas”: não visam a persuasão, doutrinação ou convencimento por meio das palavras ou uso da retórica ideológica. Elas almejam o pânico e a moldagem da percepção com a finalidade de criar o imaginário da espiral do silêncio – a percepção sem nenhuma base lógica, estatística ou informativa de que existe uma voz da maioria, intimidando qualquer pensamento divergente. E o que pensa a “maioria”? Que o País é uma merda, e por isso está à beira do abismo!

Uma percepção imaginária imposta por uma agenda, não obstante o resultado das urnas terem demonstrado o contrário: de que não há “maioria” e, muito menos, país dividido, como já foi demonstrado em muitas análises do mapa dos resultados das últimas eleições.

Essas bombas semióticas somente conseguem atingir seus propósitos com a consolidação de uma agenda imposta pela grande mídia, os grandes temas e escândalos do momento. A agenda é o meio condutor das ondas de choque – sobre esse conceito clique aqui.

Sendo bombas semióticas, são de natureza estritamente simbólica, imaginária ou, se quiser, psicológicas. Moinhos de vento, análogos àqueles contra os quais Dom Quixote enfrentava arrastando consigo o infeliz Sancho Pança que nada entendia.

Como então pular fora desse jogo mental, dessa cilada cognitiva perversa? Contra bombas, somente guerrilhas. Guerrilhas semióticas: a criação de uma contra-agenda, não a partir do polo emissor da cadeia da comunicação (as mídias), mas atuando no ponto de chegada – a recepção dos códigos. Portanto, dentro dos limites naturais de espaço de uma postagem, vamos traçar um esboço inicial dessa estratégia de guerrilha semiótica.

Umberto Eco e a “guerrilha semiológica”

Em 1967 o pesquisador Umberto Eco publicou um pequeno texto que se tornou um clássico na área de Comunicação: “Guerrilha Semiológica”. Pouco compreendido na extensão das possíveis conclusões das suas teses, acabou incrivelmente no esquecimento. Acreditem! Embora seja um texto de 47 anos atrás, continua com insights bem impactantes.  Vejamos o que Eco tem a nos dizer:
“Um partido político que saiba atingir minuciosamente todos os grupos que assistem televisão levando-os a discutir a mensagem que recebem pode mudar o significado que a Fonte atribuíra a essa mensagem. Uma organização educativa que conseguisse fazer um determinado público discutir a mensagem que está recebendo pode inverter o significado dessa mensagem. Ou mostrar que a mensagem pode ser interpretada de diversos modos” (ECO, Umberto “Guerrilha Semiológica” In: Viagens na Irrealidade Cotidiana, RJ: Nova Fronteira, 1984, p. 174).
Umberto Eco nos diz que “os estudiosos e educadores do amanhã” deveriam abandonar os estúdios de televisão e redações de jornais para combater “uma guerrilha porta a porta”.

Umberto Eco: a questão da comunicação é
a recepção e o código
Eco parte do senso comum de que para controlar o poder não basta o exército e a polícia. É necessário o controle e a propriedade dos meios de comunicação. Naturalmente, políticos, comunicadores e cientistas de comunicação de Esquerda passaram a acreditar que a única forma de combate possível é contra a mídia ou a Fonte da comunicação, seja através de uma legislação progressista das mídias ou pela luta de contra-hegemonia no interior das redações e estúdios das grandes mídias.

O autor não ignora que essa estratégia possa dar resultados a quem aspira o sucesso político e econômico ou esteja numa posição dominante, porém será pouco útil para aquele que estiver à margem desse poder. Sua luta em conquistar a Fonte da Comunicação apenas reforçará o poder e legitimidade dessa mesma fonte: a grande mídia.

Da guerrilha semiológica à semiótica

Por isso, Eco propõe a “guerrilha semiológica”, ainda dentro de um quadro bem conteudista ou iluminista: o agentes dessa estratégia  sentariam na primeira fila junto à cadeira do líder de um grupo que veja um filme, leia um jornal ou veja TV e fazer uma “recepção crítica”. Mostrar que é possível “diferentes interpretações”, desconstruindo as mensagens.

Porém, hoje nos defrontamos com um cenário mais complexo, com bombas semióticas e engenharias de opinião pública baseadas em construções de agendas que impõem hierarquias de temas tidos como pertinentes para a sociedade.

Embora acompanhemos o insight de Umberto Eco (uma ação guerrilheira que mire o campo da Recepção e do Código), uma ação de guerrilha simbólica deve ser mais ampla do que uma ação semiológica – concentrada apenas na recepção crítica de conteúdos. Essa ação deve ser semiótica, no sentido mais amplo de criar uma contra-agenda, agindo na base da Recepção.

Por isso, uma guerrilha semiótica deveria ser organizada em ações de curto, médio e longo prazo.

1. Curto prazo: intervindo na Recepção


Uma contra-agenda não se faz respondendo ao inimigo em seu próprio campo e nos seus próprios termos. Nunca a resposta dada com o mesmo destaque na grande mídia (reposta em rede nacional ou na primeira página do veículo) terá o mesmo resultado da bomba semiótica anteriormente detonada. A recepção dispersiva há décadas constatada em receptores de mídias de massas (Lazarsfeld nos anos 1950 falava em nove em cada dez receptores) torna os espectadores predispostos muito mais aos efeitos de pânico dos petardos semióticos do que a reações posteriores por meio de respostas conteudísticas que apelem a argumentação na tentativa de provar a verdade dos fatos.

Por isso são necessárias intervenções em locais públicos (instalações,flash mobs etc.) seguindo a mesma lógica do pânico: displays, telões, caixas de som, painéis em praças, calçadões, galerias comerciais, etc. Tais ações poderiam provocar debates instantâneos, rápidos. O debate e a informação seriam efeitos residuais, já que o mais importante e o impacto público da contra-agenda.

Tudo pensado em uma logística leve, rápida: montar e desmontar, nômade.

 E por que não, táticas inspiradas no chamado “marketing invisível”: guerrilheiros semióticos anônimos se misturam a rodas de conversas em botecos, balcões, pontos de ônibus, metrôs, trens para “sentir” ambientes e conversas para intervir com tiradas, informações, dados ou até mesmos slogans, trocadilhos etc.

Se os pesquisadores da hipótese da Agenda Setting comprovaram o poder das mídias em pautar os temas das conversas interpessoais, é nesse campo que a guerrilha semiótica deve agir na construção da contra-agenda.

2. Médio prazo: apropriação da agenda da grande mídia


Ampliar uma das melhores estratégias que a campanha de Dilma Rousseff colocou em ação nas últimas eleições: se apropriou do moralismo da pauta da corrupção – todas as denúncias de corrupção somente teriam sido possíveis por que em seu governo não existiria um “engavetador geral da República”. A grande mídia frequentemente noticiaria escândalos porque o governo teria criado condições (Polícia Federal republicana, por exemplo) para que tudo fosse noticiado.

As intervenções em curto prazo (vide acima) devem transformar essa ação de médio prazo em uma contra-agenda. Tornada sistemática, essa ação levaria ao pânico os colunistas e editores da grande mídia que viriam suas teses serem confundidas com as do próprio Governo.

3. Longo Prazo: desconstrução do Código

Desde o domínio das mídias audiovisuais até as atuais tecnologias de convergência como a Internet, o problema do código passou a ser fundamental na comunicação A maioria de nós é analfabeto, seja visual ou digital – somos usuário e espectadores, vamos ao cinema, assistimos à TV, manipulamos software e navegamos na Internet, mas apenas manipulamos efeitos de conhecimento. Em outras palavras, usufruímos de produtos culturais e ferramentas digitais, mas não conhecemos suas sintaxes, gramáticas e morfologias.

Na linguagem audiovisual, edição, decupagem, planos, montagem, elipses etc.; e na digital a sintaxe HTML, CSS, DHTML etc., somos analfabetos. Aprendemos apenas a consumir e usar seus produtos, mas nada sabemos sobre como eles são construídos. Portanto, somos presas fáceis de manipulações, invasão de privacidade, etc.

Se observarmos um leigo manipular uma filmadora em uma festinha infantil, percebemos o seu analfabetismo visual: liga a câmera e passa a filmar tudo em plano sequência, sem noção de planos, sintaxe ou roteirização.

Esse analfabetismo visual esteve por trás, por exemplo, da famosa edição tendenciosa do Jornal Nacional da TV Globo em 1989 do último debate entre Collor e Lula – para o leigo, a existência da edição e seleção dos planos passa despercebida, passando a acreditar que a imagem é muito mais verdadeira do que um texto noticioso em um jornal.

Por isso, seria urgente inserir na estrutura curricular, desde o ensino fundamental, as noções de sintaxe, gramática e morfologia audiovisual. A partir da sintaxe das histórias em quadrinhos, avançaria-se para a linguagem do story boardaté chegar ao roteiro e toda morfologia audiovisual de cinema e TV.

As imagens perderiam a inocência com essa alfabetização visual generalizada. As pessoas perceberiam que as imagens não são constituídas de um único sentido. Como sugeria Umberto Eco no texto Guerrilha Semiológica, veríamos que as mensagens podem ser desconstruídas e reinterpretadas em uma nova sintaxe, como se a mídia fosse um gigantesco “efeito Kuleshov” – experiência feita pelo teórico e cineasta russo Lev Kuleshov mostrando que a interpretação que o espectador faz de uma cena pode ser alterada através 
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da montagem e justaposição arbitrária dos planos.