sábado, 28 de janeiro de 2017

Luta de classes na 'reforma' da Previdência


Por Osvaldo Bertolino, no site da Fundação Maurício Grabois:
Na década passada, a primeira leva de trabalhadores nascidos após a Segunda Guerra Mundial (conhecidos como a geração do baby boom) chegou à idade de se aposentar, um fato que trouxe considerável pressão sobre os orçamentos da seguridade social. Com o fraco crescimento das finanças públicas, decorrente de uma pequena expansão do Produto Interno Bruto (PIB) na maioria dos países, desde então a ofensiva neoliberal contra a previdência pública começou a fazer com que em muitos países estourassem grandes manifestações de trabalhadores. O dilema decorre de uma pergunta que a humanidade precisa responder: envelhecer é uma coisa boa ou ruim? Em sua essência, trata-se evidentemente de uma coisa boa. Afinal, a maioria das pessoas prefere viver mais a viver menos.
Vida mais longa é um dos resultados positivos mais evidentes do fantástico crescimento econômico e do avanço tecnológico ocorrido no século XX. Trata-se de uma conquista da humanidade. Mas é preciso definir uma forma de lidar com a nova situação. Proporcionalmente, há cada vez mais pessoas fora das cadeias de produção em comparação com as que estão na ativa. Um número menor de trabalhadores poderia ser um problema econômico muito grave se implicasse um obstáculo à produção, mas o risco não é esse. No longo prazo, o verdadeiro crescimento é causado essencialmente por novas tecnologias e por mais eficiência, e não necessariamente por mais braços.

Mundo das realidades
É o fenômeno da produtividade, tão comentado pelos economistas e brilhantemente dissecada por Karl Marx, principalmente em O Capital. Aumento da produtividade quer dizer, sucintamente, mais valor agregado à produção por cada hora trabalhada. A apropriação deste valor é a grande questão. Daí a constatação de que não é possível imaginar o capitalismo sem classes e luta entre elas. O ponto é: como o Estado deve atuar nessa equação? Para a ideologia neoliberal, esse ponto simplesmente não existe. Em todo o planeta há uma percepção, cada vez mais forte, de que o padrão de vida dos trabalhadores está sendo ameaçado pelo imenso poder concedido aos grandes grupos privados.
Ou seja: as privatizações e a busca agressiva da produtividade por meio da pressão sobre os países para a liberalização de suas economias — principalmente a chamada “flexibilização” das leis de proteção social e trabalhista — representam uma barreira que o capital tenta erguer contra o trabalho. Atualmente, além do desemprego gigantesco existem muitos fatores que indicam um acirramento dessa luta. Baixos salários, regimes de superexploração, trabalho escravo - principalmente de presos e infantil - e restrições à liberdade sindical são cada vez mais frequentes no mundo.
Para os neoliberais, no entanto, seu programa não deve ser julgado em termos de “contra” e “a favor”. Como eles se imaginam os donos do mundo, acham que podem impor seu pensamento único como um conjunto de realidades que passaram a fazer parte da vida econômica mundial desde que surgiram como força política hegemônica. Eles julgam a resistência dos povos confusamente, alguma coisa tramada por “esquerdistas”, não se sabe bem como, e promovida mundo afora por sindicatos e Ongs. E disso vem, de um jeito ou de outro, a responsabilidade pela maioria das coisas erradas que existem por aí, a começar pelo sistema de aposentadoria. No mundo das realidades, a história é bem diferente.
Princípios da verdade
No Brasil, por exemplo, a Previdência Social surgiu no contexto da modernização das relações sociais da Revolução de 1930, especialmente como instrumento de distribuição de renda. Algo moderníssimo para a condição brasileira, mas muito distante do que aconteceu na Europa com o Estado de bem-estar social, concebido para injetar compaixão no capitalismo. Por toda parte, surgiram benefícios para idosos, desempregados e pobres em geral. Foram estabelecidas regras para aumentar os salários, garantir empregos e melhorar as condições de trabalho.
Afirmar que não dá mais para bancar todos esses benefícios, mesmo com os elevados ganhos de produtividade da segunda metade do século XX, é faltar com os mais elementares princípios da verdade. Por isso, os esforços para cortar benefícios enfrentam cada vez mais resistência popular — como as sucessivas greves na Europa. A questão real é que a sobrevivência do Estado de bem-estar social e da Previdência Social brasileira seria a condição para evitar a volta do capitalismo sem freios do século XIX. Os trabalhadores brasileiros têm muito a aprender com a resistência de seus congêneres europeus.
Em 1988, Michel Rocard, então primeiro-ministro do governo socialista de François Mitterrand, já antecipava as dificuldades à frente das tentativas reformistas. “A reforma das aposentadorias tem poder para derrubar vários primeiros-ministros”, afirmou. Seu vaticínio se confirmou em 1995, quando o premiê de direita Alain Juppé decidiu encarar o problema. O chefe de governo não resistiu no cargo depois de um inesquecível dezembro de greves e intensas manifestações populares, as maiores realizadas no país desde maio de 1968. Com a queda de Juppé, a questão foi para a geladeira — e lá ficou até que o presidente Jacques Chirac foi reeleito. A “reforma” da previdência, já encaminhada pela maioria dos vizinhos europeus na década de 1990, virou a grande prioridade de seu governo. Chirac quis aproveitar a maioria parlamentar para mexer num vespeiro capaz de fazer o termômetro social atingir as mais elevadas temperaturas.
Rápido envelhecimento
Foi exatamente o que se viu: milhões de trabalhadores protestaram em mais de uma centena de cidades francesas, e numerosas paralisações foram decretadas, principalmente nos serviços de transporte público (trens, ônibus e metrô) e da educação, superando todas as expectativas iniciais. A insistência do governo, aliada a um amplo trabalho de propaganda enganosa, não arrefeceu a resistência. “As ruas não governam o país”, reagiu o primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin. Governavam: Raffarin, atingido pela derrota do governo no referendo sobre a Constituição da União Europeia em maio de 2005, foi substituído por Dominique de Villepin e a “reforma” da previdência voltou para a gaveta.
O sistema de bem-estar social teve seu apogeu na Guerra Fria. Com a derrocada do bloco soviético, o caráter ideológico da discussão entre as vantagens do capitalismo “menos desumano” sobre o capitalismo selvagem se acentuou. Os governos dos países europeus começaram a fazer contas e, do nada, “descobriram” que o chamado welfare state havia se tornado caro e pesado demais para ser mantido. A Inglaterra iniciou o processo em 1979 pelas mãos liberalizantes da dama de ferro, Margaret Thatcher.
Em meados da década passada o governo britânico publicou uma lei que prevê um aumento progressivo da idade da aposentadoria, até chegar a 68 anos. Além disso, a pensão não é mais indexada à inflação, mas no aumento dos rendimentos. Na Alemanha, o governo de “grande coalizão” de Angela Merkel anunciou que fixará o aumento da idade legal de aposentadoria para 67 anos até 2029. A Itália, em grave crise política, anuncia negociações para uma nova “reforma”, que pode aumentar a idade da aposentadoria. A Comissão Europeia pediu que os países da União Europeia (UE) “intensifiquem seus esforços de reforma diante do rápido envelhecimento das populações”.
Economia dinâmica
Os neoliberais perdem a razão quando se constata, entre outros dados, que por trás dos sistemas de aposentadoria existe uma indústria trabalhando a todo o vapor. Dos medicamentos e serviços de saúde aos automóveis, dos alimentos ao setor financeiro, não há área de negócios que escape da influência das mudanças demográficas em curso. Em 2025, o Brasil passará da 16ª posição à sexta na lista dos países com o maior número de idosos. Serão 33 milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade — o equivalente a duas vezes a população do Estado de Minas Gerais.
Um levantamento do grupo francês Sodexho avalia em US$ 25 bilhões o potencial de mercado dos idosos em 11 países. Devido ao envelhecimento da população, a Sodexho estima que até 2025 seus negócios - que vão desde serviços de alimentação, limpeza e lavanderia até o acompanhamento de idosos e os cuidados com eles - cresçam 27% na Espanha, 13% no Reino Unido e 3% na França e na Itália. Não é possível imaginar uma economia dinâmica e em desenvolvimento sem levar em conta a necessidade de um sistema de aposentadoria minimamente decente.
https://desabafopais.blogspot.com.br/2017/01/luta-de-classes-na-reforma-da.html#more

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O EXCELENTÍSSIMO SENHOR PREFEITO É UM PERFEITO... HISTRIÃO!!!

O EXCELENTÍSSIMO SENHOR PREFEITO É UM PERFEITO... HISTRIÃO!!!

Histrião: diz-se de um homem miserável e envilecido, que se faz notar pela abjeção dos atos que pratica. 

Histrionar é oferecer um espetáculo cômico, contrair a face grotescamente, vestir-se com espalhafato. Histrionar também significa pôr para fora a miserabilidade das dores humanas. Dá no mesmo.  

Se Caldas Aulete estiver certo nessas definições, está explicado por que alguns governantes, ao assumirem posturas histriônicas, podem estar praticando catarse, quer dizer, aliviando suas almas das próprias miserabilidades humanas. O perigo é que está em jogo a sobrevivência dos governados. 

Atemorizam o eleitorado tais governantes histriônicos empenhados a expulsar conteúdos internos tenebrosos. Nestes casos, agita-se a lei natural de sobrevivência dos súditos. 

Eu não conseguiria produzir mais do que uma notinha de umas 8 linhas sobre o tema. O assunto é bom mas não  estou bom para o assunto. Invade-me uma implacável indignação com o sarcasmo de histriônicos governantes, durante a propaganda eleitoral e a partir do instante em que assumem o poder.
Jânio Quadros, professor que se fingia de pobretão.

Governantes sérios pelo menos nas expressões faciais, com posturas comedidas, se não para merecerem credibilidade, indispensáveis para se cumprir educadamente o cerimonial do cargo e evitarem o ridículo. Esta é a exigência mínima para quem se satisfaz com a democracia que aí está.

Sem ânimo para listar pelo menos meia dúzia de personagens marcadamente histriônicos da vida do Brasil, falarei então de dois deles, um antigo, um atual.

O Brasil submergia na guerra civil da inflação de 100% ao ano, na estagflação, no assédio militar por golpes de estado, e eis que é premiado com um leve e solto Jânio da Silva Quadros, homem de discursos inflamados, a proibir, quando presidente, o uso de  biquínis nas praias e o acesso de funcionárias públicas ao trabalho de minissaia.
João Dória travestido de gari...
Candidato a presidente teatralmente descabelado, histrionicamente descabelado, Jânio vestia roupas amassadas, espalhava talco no paletó escuro para parecer caspento e ostentava sanduíches de mortadela nos bolsos. 

Eu sou um homem pobre! era um de seus bordões. E varre, varre, vassourinha, varre varre a bandalheira, a música com que Jânio prometia acabar com a corrupção, equilibrar as finanças públicas e diminuir a inflação. O povo acreditou, o povo sempre acredita, tamanho o poder de convicção das histrionices. 

Possa falar? Jânio foi meu professor de Português e de minhas três irmãs no ginásio Vera Cruz, no Brás. Minha mente infantil já parodiava então as sagradas escrituras; as muitas letras que tinha o faziam delirar, supunha eu.

Passemos ao segundo histriônico a que me referi, permitam-me: João Agripino da Costa Dória Júnior, eleito prefeito de São Paulo 
...e comendo pastel de feira.

De antepassados abastados, ele mesmo um abastado às próprias custas. Nada contra. Como trabalha esse moço, desde criança! 

Os ricos, melhor dizendo osempreendedores oferecem o maior bem que um humano pode aspirar, que é o emprego. Muito bom. Pelo menos enquanto nosso cambaleante sistema capitalista e sua vampiresca globalização conseguirem se manter de pé. 

Pelo visto até agora, tais as histrionices trombeteadas desde o período da propaganda eleitoral até a posse, pode-se dizer ao mundo, não a São Paulo apenas, que esta quarta metrópole do planeta começa a ser governada por um garoto que se fantasiou de gari (feito um palhaço de vassoura na mão a varrer as ruas...), de poses estudadas para as câmeras como grande gestor. 

Não, não, esta não, não é verdade. Dória sempre esteve mergulhado até o pescoço, isto sim, nas lides políticas. 

Um ator que coloca tapumes e telas nos viadutos para ocultar moradores de rua. 

Que chega sôfrego, com o pêndulo da direita, para tirar o leite das crianças e o transporte escolar.  

Há nos histriônicos algo dos risos dos palhaços tristes.
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-excelentissimo-senhor-prefeito-e-um.html

DALTON ROSADO ESCANCARA O APARTHEID SOCIAL DO CAPITALISMO

A INJUSTIÇA SISTÊMICA COMO
 CAUSA DA CISÃO SOCIAL.

"É muito difícil você vencer a injustiça secular que dilacera o
Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e
o país dos despossuídos." (Ariano Suassuna, dramaturgo)
.
Há dois mundos em curso na vida social brasileira, embora exista um só mundo oficial, com regras estabelecidas para todos. Tratam-se os desiguais com regras iguais, e esta é a fonte legitimadora da opressão de uma lógica reificada de relação social.  

Há um mundo com pessoas com poder de compra e vida confortável apesar dos conflitos de convivência próprios das relações interpessoais. Este mundo dos beneficiários sistêmicos é povoado por rentistas do capital, cuja função é tentar preservar e multiplicar o seu patrimônio, mas também por gente com nível de informação elevado e que ganha seu salário acima da média nacional, dignamente, mas nem sempre com sensibilidade social. 

Nesse mundo chamado de alta e média classe média (5% e 15% da população, respectivamente) se inserem os que raciocinam de forma sistêmica e que querem que o defunto caiba no caixão, independentemente do tamanho de um e de outro.
Muitos deles, conhecendo as leis, trafegam no limite entre a legalidade e a burla da legalidade em seu benefício, ou na legalidade opressora sistêmica sem que dela divirjam frontalmente, alguns com acesso à alta corrupção e manipulações contratuais em seu benefício ou sonegando e embolsando impostos extraídos do povo, etc., etc., etc. Estes ainda contam com advogados tributaristas que os defendem como o indefectível Ives Gandra.

Muitos dos privilegiados por suas capacidades profissionais, embora exercendo funções sociais importantes, ficam acomodados diante da cisão social, como se os problemas não lhes dissessem respeito. Dizia Fidel Castro que “as pessoas mais cruéis do mundo são as indiferentes à injustiça social, à descriminação, à desigualdade e à exploração”, querendo dimensionar a omissão como forma de manutenção da opressão.

Mas há um mundo extraoficial, de pessoas que vivem sob as regras próprias de sobrevivência e que se constitui em 80% da população. Um mundo no qual apenas se sobrevive.

Nesse mundo há uma alta percentagem de pessoas que são obrigadas a viver nas precárias moradias de bairros mal assistidos, ou, o que é pior, a construírem moradias toscas, de madeira e papelão e fora de todas as regras do plano urbanístico da cidade, bem como das regras de arruamento e normas de edificação. Para o Estado, tais pessoas não passam de párias cujas demandas sociais são impossíveis de serem atendidas.

Há um mundo dos que não podem pagar um plano privado de saúde e são obrigados ao atendimento precário do SUS, num faz-de-conta que termina causando mortes por absoluta falta de assistência médica.

Há um mundo de desempregados desesperados com crianças para alimentar, além de outros consumos indispensáveis à vida digna, sem condições de satisfação dessas necessidades.

Há um mundo dos que vivem atormentados pelos baixos salários e, pior, com a perspectiva de perder o emprego miserável à medida que envelhecem e são rejeitados pelo mercado de trabalho, agora com justificado receio de que suas aposentadorias saiam apenas pós-morte. 

Há um mundo dos que são empurrados para o crescente comércio das drogas e que se tornam escravos do crime organizado sem colarinho branco, este último gestado dentro da exclusão social própria a uma sociedade cindida entre os que estão incluídos no processo de produção de modo confortável e os que estão excluídos do processo de produção.

Há uma geração nem-nem, que nem estuda e nem trabalha, composta por analfabetos ou analfabetos funcionais absolutamente inadaptados a uma sociedade tecnológica que somente paga salários relativamente bons aos poucos que são altamente qualificados.  

Esse mundo cindido tem sua origem numa sociedade fundada numa corrupção original que é a mãe de todas as outras: a extração de mais-valia.

Como se admitir como correta, ética, moralmente superior e insusceptível de corrupção uma relação social que se estabelece a partir da apropriação pelo capital da riqueza produzida coletivamente e na qual a maior parte dos que a produzem não têm acesso ao que produziram?  
Como um magistrado, escravo do cumprimento e aplicação da lei, pode ser respeitado nos seus julgamentos, ainda que probo (aí excluídos aqueles que praticam atos de corrupção e se tornam os mais perigosos bandidos da sociedade) se a própria lei é injusta e proporciona a coerção estatal da injustiça?

Como se admitir como justa uma sentença que decreta o despejo de um desempregado diante do senhorio que detém centenas de imóveis alugados, simplesmente porque é a lei que lhe assegura constitucionalmente tal direito, corroborado por leis ordinárias legiferadas pelo parlamento que temos e que disciplinam tal procedimento como expressão da cláusula pétrea do direito à propriedade?

Estabelece-se agora uma corrida de concorrência da corrupção que tomou conta da sociedade em todos os níveis.

Os criminosos de colarinho branco rivalizam com os bandidos descamisados e levam vantagens nos números que compõem o fruto da corrupção. Os primeiros falam em milhões e até bilhões, os segundos são meros pés-de-chinelos ou submissos soldados do crime organizado.

Mas quem é mais criminoso: o delinquente que rouba um cordão de metal barato em plena luz do dia e é preso (sem que queiramos inocentá-lo ou estimular tal prática) ou o engravatado diretor de um sistema penitenciário que superfatura a compra de milhares de tornozeleiras eletrônicas e com sua delinquência inviabiliza ainda mais o já depauperado volume de recursos de um sistema prisional estatal que tem custo orçado em alguns bilhões de reais, cobertos pelos combalidos cofres públicos?

Mas agora o mundo dos excluídos, de tão volumoso e sem alternativas, volta-se contra a oficialidade do mundo dos incluídos, estabelecendo-se o impasse sob as formas mais variadas. O índice de violência urbana é fruto da desobediência civil desordenada crescente, expressão da barbárie promovida por um sistema falido que considera como tema tabu qualquer alternativa social que não esteja enquadrada na lógica de reprodução do capital.

Os incluídos têm a força da coerção sistêmica, mas não têm a força de conter a barbárie que termina por atingi-los, de uma forma ou de outra.

A saída do impasse não é o aeroporto, mas a adoção de postulados alternativos que nem de longe passam pela lógica do sistema produtor de mercadorias.
(por Dalton Rosado)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/dalton-rosado-escancara-o-apartheid.html

PASMEM: PODEREMOS TER UM MINISTRO DO STF QUE COMPARA UNIÃO HOMOSSEXUAL A CASAMENTO DE MULHER COM CACHORRO!


O que o tal tratado de Direito dirá sobre homofobia?
O atento jornalista Edson Sardinha, no Congresso em Foco, reproduziu afirmações muito reveladoras do presidente do Tribunal Superior do Trabalho e candidato à cadeira de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal, Ives Gandra Martins, que constam de um artigo cometido pelo dito cujo em 2012. 

Confirmam inteiramente a avaliação que dele fiz, como um indivíduo que cultua valores de um passado longínquo e tudo faz para alhear-se do clima espiritual do século 21:
"É um cidadão que mentalmente continua vivendo na idade das trevas, tanto que até escreveu um livro sobre O senhor dos anéis, uma saga de óbvia inspiração medieval. Trata-se de uma fantasia coerente com a impressão que Gandra transmite, de alguém que nos quer levar de volta para os velhos e bons tempos do Torquemada".
Leiam os trechos em questão da notícia do Congresso em Foco, com grifos meus, e constatem:
"...são as posições do ministro sobre questões de família e comportamento que têm gerado mais polêmicas nas redes sociais. Em artigo sobre direitos fundamentais publicado no livro Tratado de Direito Constitucional (...), o presidente do TST deixou clara sua visão sobre o assunto.
O lesbianismo, na visão de Gandra.
Para Ives Gandra Filho, só é possível chamar de casamento a relação entre um homem e uma mulher. O matrimônio, segundo ele, tem dupla finalidade: geração e educação dos filhos, e complementação e ajuda mútua de seus membros.
No artigo, de 2012, o presidente do TST defende que as mulheres sejam obedientes aos maridos, compara a união homossexual ao casamento de humanos com animais e critica a possibilidade de casais se divorciarem. 'O princípio da autoridade na família está ordenado de tal forma que os filhos obedeçam aos pais e a mulher ao marido'.
No entendimento do ministro, na união homossexual, como os parceiros possuem 'compleição física e psicológica semelhantes, fica de antemão vedada a possibilidade de que haja a mencionada complementaridade dos contrários'.
Segundo ele, ao reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo, em 2012, o Supremo 'acabou por esvaziar o sentido da união homem-mulher'. 
O homossexualismo masculino, na visão de Gandra.
'Por simples impossibilidade natural, ante a ausência de bipolaridade sexual (feminino e masculino),não há que se falar, pois, em matrimônio entre dois homens ou duas mulheres, como não se pode falar em casamento de uma mulher com seu cachorro ou de um homem com seu cavalo (pode ser qualquer tipo de sociedade ou união, menos matrimonial)', escreveu. 
No texto, o ministro ressalta que 'indivíduos de orientação heterossexual e homossexual possuem a mesma dignidade perante a lei, e as pessoas homossexuais devem, sem sombra de dúvida, ser respeitadas nas suas opções'. 
'Contudo, isso não é o mesmo que dizer que os casais homoafetivos devem gozar, irrestritamente, dos mesmos direitos de que gozam os casais de orientação heterossexual, sob pena mesmo de se deturpar o conceito de família, em termos antropológicos e sociológicos', acrescentou.
 https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/pasmem-poderemos-ter-um-ministro-do-stf.html

Falta o Iluminismo

Bastilha


Na moldura do século XVIII, este evento se explica

O BRASIL NUNCA CONHECEU A IDADE DA RAZÃO, E ISSO EXPLICA A SITUAÇÃO EM QUE PRECIPITAMOS, CADA VEZ MAIS FUNDO



Alguns anúncios da televisão que zapeio chamam minha atenção. Um deles, de um curso de inglês pela internet, promete aprendizado fulminante com direito a diploma internacional e extraordinárias garantias de emprego. Mas vai além na demonstração de suas virtudes divinatórias: logo logo seremos uma nação bilíngue. O pregador do anúncio lembra os bispos evangélicos.

Recordo a publicidade dos tempos da ditadura. Ao falar em liberdade, expunha-se a qualidade de um jeans. O armador Gerson, campeão do mundo em 1970 para alegria do ditador Médici e dos brasileiros em peso, incluídos os perseguidos pelos janízaros do DOI-Codi e Cenimar, afirmava o sabor e perfume de certos cigarros e a conveniência de “se levar vantagem”. Ou seja, talvez, ganhar a dianteira a caminho de uma doença fatal.

O primeiro anúncio continha alguma ironia, creio eu. Não sonhe com liberdade, parecia dizer, mas console-se ao vestir jeans. O segundo, hoje impossível, aludia a um traço forte do caráter nativo, dado ao golpe baixo e ao passa-moleque. Quanto a Gerson, foi bom jogador, houve, porém, melhores, entre seus contemporâneos, na minha opinião, Ademir da Guia.

A publicidade dos dias de hoje, do curso de inglês, é representativa da parvoíce geral, do besteirol reinante. A nossa ignorância conta até com o reconhecimento mundial. Uma pesquisa recente, francesa, nos coloca em sexto lugar entre os mais atrasados.

A educação do povo nunca preocupou o Estado Nacional, desinteressado, como bem sabemos, do Bem-Estar Social. Já houve tempos melhores muito curtos, no entanto. Quando cheguei a São Paulo, ainda menino, o colégio mais respeitado era público, instalado em prédio antigo e digno no Parque Dom Pedro, hoje área de mendicância e tráfico. A criminalidade mora ali.

Colégio muito concorrido, meu pai gostaria que o frequentasse. Não consegui vaga. A capital paulista tinha 1 milhão e meio de habitantes e 50 mil carros. No Carnaval, o corso passava pela Avenida São João, artéria principal.

Cidade limpa, pacata, civilizada. Destinada a um futuro exemplar de grande metrópole do Hemisfério Sul coerente com o seu passado, como o são, por exemplo, Melbourne e Sydney. De improviso, deu para se orgulhar de ser “a que mais cresce no mundo”. Deu no que deu.

Que se proclame a possibilidade de sermos todos bilíngues a curto prazo é uma hipérbole da sandice que não se dá por acaso. Sempre houve quem quisesse vender o elixir da longa vida e quem o comprasse.

O anúncio da tevê a que me refiro é, obviamente, insignificante comparado à disposição da maioria dos brasileiros de comprar elixires de porte e efeitos infinitamente superiores. Milhões bateram panelas e saíram às ruas de camiseta canarinho crentes de que a derrubada da presidenta Dilma escancararia as portas da felicidade.

Raros os que deram ouvido aos avisos: ruim com Dilma, pior sem ela. Precipitamos no caos, a cada instante a treva se adensa e vamos ao encontro de um desfecho trágico. E ainda muitos, legiões, não se dão conta disso.

Ocorre-me, pinçado ao acaso, a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, a Tia Carminha das crianças inocentes. Na expectativa da cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, ela se prepara a assumir a Presidência da República. Quem sabe não tenha reparado que o ministro Gilmar Mendes, seu colega e subordinado no STF, anda de mãos dadas com o presidente da República. De resto, quem não quer ocupar o trono? De chofre, poderia citar duas dúzias de nomes.

Espantosa é a pretensa normalidade da situação, a julgar pela reação de inúmeros cidadãos e do tom da mídia. A resignação do povo é tradição. Mas não haveria de tocá-lo o resultado do golpe de 2016: a punição do trabalho, a rendição ao neoliberalismo mais feroz, o corte nos investimentos em Saúde e Educação? Até quando haverá de resistir a chamada maldita “cordialidade”? E como se sentem os remediados? E a classe média-média?



Há quem diga que a casa-grande vive e viverá em perfeita tranquilidade, indiferente às atribulações da maioria. A normalidade para ela nunca acabaria. Na comparação malposta, a aristocracia francesa vivia a normalidade até as vésperas da tomada da Bastilha. Verdade é que aquele era o século do Iluminismo, e este aqui nunca aportou.

Via CartaCapital -Mino Carta
http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2017/01/falta-o-iluminismo.html

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"O CENÁRIO DE 'TEMPESTADE PERFEITA' PARA O CAPITALISMO ESTÁ MONTADO".

A CHINA CAPITALISTA E A NOVA
CONJUNTURA ECONÔMICA MUNDIAL
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"Uma por uma, as fábricas fecharam e deixaram nosso solo 
sem nem pensar nos milhões e milhões de trabalhadores 
americanos que foram deixados para trás. A riqueza da 
nossa classe média foi arrancada de suas casas e 
depois redistribuída ao redor do mundo." 
(Donald Trump, em seu discurso de posse)  
As sociedades mercantis têm a economia como astro-rei e a política gira na sua órbita. Assim, as mudanças de mãos na vitória da guerra de concorrência de mercado, decorrentes do desenvolvimento das forças produtivas numa determinada região, alteram o comando geopolítico que é o instrumento serviçal de regulação da economia.

Quando a vontade política, ditada por questões de interesses eleitorais, interfere no curso natural da lógica capitalista, contrariando as suas rígidas leis de funcionamento, ocorre um conflito inconciliável dentro de um mesmo modo de relação social e os resultados econômicos são desastrosos.  

Nestes tempos de globalização dos mercados, a transferência dos meios de produção de mercadorias de uma região para outra, com alteração profunda dos custos de produção e encurtamento do tempo de circulação que vai da produção das mercadorias até o retorno aumentado do capital (ciclo de reprodução do capital — D=M=D’) altera a hegemonia política anteriormente estabelecida, daí decorrendo um conflito de graves proporções. Leitmotiv das guerras mundiais do séc. 20, tal fenômeno volta a suceder.

Quando, ademais, tal mudança implica uma redução da massa global de mais-valia e de valor, ocorre um somatório de problemas. Verifica-se uma guerra mercadológica dentro de espaços cada vez mais reduzidos e se inviabilizam as administrações financeiras estatais e privadas, o que corresponde a um conflito inconciliável dentro da lógica econômica mercantil.      
Fábrica fechada em Michigan, EUA.

A China, e agora a Índia, com suas mercadorias de baixo custo de produção industrial, estão fazendo um enorme estrago nas relações mercantis mundiais e alterando profundamente as relações de poder econômico mundial (e, como consequência, de poder político). 

Após a terceira revolução industrial ditada pela difusão do saber tecnológico aplicado à produção de mercadorias, graças à livre e imediata possibilidade de comunicação e à conveniência da transferência de unidades fabris em face da concorrência de mercado para regiões antes meramente agrícolas (como são os casos da China e da Índia), promoveu-se um êxodo rural para as áreas urbanas em ritmo acelerado como jamais tinha sido visto na história da humanidade. 
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Os resultados de tais fenômenos estão sendo decisivos para a nova configuração mundial de poder e é isto que agora se coloca com a desintegração da União Europeia e o ressurgimento das posições nacionalistas e populistas que tanto encantam os eleitores, muitos deles saudosos do tempo dowellfare state dos países ricos. Pari passu, grassa a desintegração política e econômica nos países pobres que estão fora do processo.  

O mundo entra em ebulição política e econômica.
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CHINA PASSA AGORA A CONVIVER COM OS 
FANTASMAS DO MODELO QUE ESCOLHEU
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Mas, nem tudo são flores para os chamados países emergentes no mundo capitalista; os sintomas colaterais deletérios da entrada destas nações no contexto econômico mundial já denunciam que o buraco é mais embaixo.  

Como sabemos, o capitalismo necessita de crescimento incessante do consumo de mercadorias para manter a sustentação da relação social pela forma-valor, representada pelo dinheiro, como modo minimamente viável. 

Mas, para seu infortúnio, a capacidade de consumo das mercadorias tem limite e a redução de renda per capita global e do poder de compra diminui ainda mais tal limite. Esta é uma contradição básica e irresolúvel entre a necessidade imperiosa do aumento da produção ad infinitum e o limite de consumo humano, que determina a capacidade de absorção pelo mercado das mercadorias produzidas. 

A China, país de 1,5 bilhão de habitantes, outrora com 80% da população rural extremamente pobre, ofereceu ao mundo capitalista mão-de-obra barata, isenção de impostos, manipulação cambial e quebra de qualquer respeito à lei de patentes. 

Estavam, assim, formadas as condições para a tempestade perfeita no processo de crise capitalista atual com a globalização da produção de mercadorias e o deslocamento desta dos centros tradicionalmente produtores para a China (e também para a Índia e a Indonésia, esta última com mais de 260 milhões de habitantes). 

Nos últimos 30 anos a China cresceu vertiginosamente sob os fundamentos capitalistas, com o PIB aumentando de US$ 309 bilhões em 1985 para USS 10,4 trilhões em 2014 (crescimento de 3.300%).

Entretanto, como no capitalismo tudo tem efeito colateral negativo, a China esbarrou no limite interno da expansão dentro de tal sistema, passando agora a conviver com os fantasmas do modelo capitalista que escolheu. São eles: 
a) acúmulo de reservas cambiais em dólares estadunidenses, fruto da exportação one way, sem que possa desovar tais recursos, pois isto evidenciaria a insustentabilidade da moeda internacional; 
b) endividamento do setor privado com montante de dívida privada de 251% acima do PIB em desaceleração (Estados Unidos, 260% do PIB; Japão, 415% do PIB); 
c) mercado interno incapaz de compensar a queda nas exportações, principalmente em meio à crise no setor imobiliário, com encalhe de verdadeiras cidades fantasmas sem possibilidade de venda, provocando a queda no preço das habitações (5,0% em janeiro e 5,7% em fevereiro de 2016) e redução na venda de cimento, importante segmento industrial; 
d) deslocamento da produção para países vizinhos onde a mão-de-obra é ainda mais barata, como o Camboja, com salários de U$$ 80 mensais, aliado ao uso crescente da robotização, modo de produção que elimina valor e postos de trabalho; e) bolha de valorização artificial no mercado de ações, fruto da migração especulativa financeira; etc. 
A diminuição acentuada do crescimento do PIB chinês, que era prevista para 6,8% em 2015, “aumenta a pressão para baixo”, segundo disse no ano passado o vice-ministro-presidente Zhiang Gaol. Agora, a previsão é de crescimento do PIB é de 6,7% para 2016, numa demonstração de renitente pressão de queda. Tudo isso prenuncia um terremoto interno e mundial.

Assim, a China necessita desesperadamente do livre comércio internacional para poder se manter sustentável industrial e economicamente, sob pena da insatisfação social provocar uma guerra civil ou um movimento belicista mundial, uma vez que a volta para uma vida rural é impossível nesta altura dos acontecimentos. Um colapso da China implicará um efeito dominó, afetando todo o sistema financeiro planetário. 

Os países afetados pelo fenômeno da industrialização dos países emergentes da Ásia, por sua vez, sairão prejudicados caso adotem medidas protecionistas de mercado, porque verão minguar o comércio internacional e a produção de mercadorias; além disto,  a crise do sistema financeiro será danosa para as suas finanças públicas.

O cenário de tempestade perfeita para o capitalismo, repito, está montado. E só há uma saída para que a paz mundial seja mantida: a viabilização da vida social sob outros parâmetros, com a superação do capitalismo. 
(por Dalton Rosado) https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/dalton-rosado-o-cenario-de-tempestade.html