segunda-feira, 18 de março de 2013

E a cesta básica, ficou baratinha?



Já faz quase duas semanas que o governo desonerou os produtos da cesta básica dos tributos federais. Os comerciantes, na ocasião, prometeram repassar a redução de custos para o consumidor, que está até agora esperando ver os preços mais baixos.
Parece que o governo não aprende. Promessa de empresário vale tanto quanto a de político em véspera de eleição.
O empresário brasileiro não está preocupado com nada mais além de aumentar os seus lucros. Para ele não existe essa história de função social de sua atividade, como prega a Constituição - ele nem deve saber para que serve uma Constituição.
A desoneração da cesta básica, que era para ser uma medida muito positiva, vai servir apenas para engordar as contas bancárias dessa turma, que só sabe chorar, se lamentar, e pedir benesses para o governo.
O consumidor não vai achar um mísero produto da cesta básica custando um centavo a menos.
E é bem capaz de, isso sim, daqui a pouco tempo, os preços subirem.
Porque grande parte dessa inflação que todo mundo diz que vai acabar com o Brasil é formada simplesmente pela ganância dos empresários, que estão se aproveitando da entrada desses milhões de pessoas no mercado consumidor para ganhar mais.
Poucos anos atrás os empresários fizeram uma campanha poderosíssima contra a CPMF, a contribuição que foi criada no governo FHC para beneficiar a área da saúde, mas que, com o correr do tempo ajudou o Orçamento federal como um todo e serviu como importante instrumento para coibir a sonegação de impostos.
Um dos argumentos para acabar com a CPMF era justamente esse de que ela ajudava a onerar o preço das mercadorias.
Pois bem, a CPMF acabou e não houve um só entre os milhões de micros, pequenos, médios, grandes e enormes empresários brasileiros que tenha se dignado a baixar, uma titica quer fosse, o preço de qualquer produto.
A dinheirama da CPMF deixou de ir para o governo, onde, bem ou mal, servia para bancar inúmeros gastos sociais, e passou diretamente para a conta dos nossos patrióticos empresários.
Simples assim.
De troco, ainda ficaram mais livres para sonegar à vontade...
Quando leio que o governador pernambucano anda se reunindo com a tal "elite empresarial", aplainando o seu caminho para a disputa presidencial, fico só imaginando que tipo de conversa eles estão tendo.
Quer dizer, não imagino muito para não ter pesadelos.
cronicasdomotta

Papa deve respeitar 'opções diferenciadas das pessoas', diz Dilma



Foto: Roberto Stuckert Filho
Dilma desembarca em Roma
A presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, elogiou nesta segunda-feira a aproximação da Igreja Católica dos pobres defendida pelo papa Francisco, mas lembrou que "opções diferenciadas das pessoas" devem ser compreendidas.
"Eu acho que ele tem um papel a cumprir. (O discurso sobre a aproximação da Igreja aos pobres) É uma postura importante. É claro que o mundo pede, hoje, além disso, que as pessoas sejam compreendidas e que as opções diferenciadas das pessoas sejam compreendidas", disse ela, após ser cercada pela imprensa na Scuderia Del Quirinale, museu onde foi ver uma exposição dedicada ao pintor renascentista Ticiano.
A presidenta não deixou claro a que "opções diferenciadas" ela se referia.
Questionada pela BBC Brasil se a eleição de um papa latino-americano poderá ter impacto na discussão, no Brasil, de temas como a Lei do Aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ela respondeu que "não parece que (Francisco) seja um tipo de papa que vá defender esta posição".
Antes de ser papa, o cardeal Jorge Bergoglio tinha se manifestado contra o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo.
A presidenta se disse feliz pela eleição de um papa latino-americano, mas afirmou não saber qual será o impacto político de Francisco para a região.
"Em qualquer hipótese, um papa latino-americano é uma honra para a América Latina. Acho que é uma afirmação da região".
Dilma lembrou também que a Igreja brasileira foi "extremamente combativa contra a ditadura".
Ela recordou a atuação de padres dominicanos na defesa de direitos humanos no período em ela militou contra o regime militar no Brasil.
Amante das artes
Dilma saiu cedo nesta segunda-feira do hotel onde está hospedada em Roma por uma porta lateral, sem falar com a imprensa.
Depois de descobrir que ela tinha ido à exposição de Ticiano, os jornalistas entraram na mostra como visitantes e a abordaram no fim do passeio.
Dilma reclamou do assédio, mas ao fim falou com os jornalistas - e confirmou a ida para o Brasil da exposição do pintor renascentista Lorenzo Lotto.
A presidenta deve aproveitar a presença de chefes de Estado em Roma e manter contatos bilaterais com alguns governantes, embora não tenha citado nomes.
O encontro com o papa Francisco deverá ocorrer durante os cumprimentos após a missa de posse de novo pontífice, nesta terça-feira.
O papa Francisco deverá conversar com a presidenta sobre a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio de Janeiro.
Francisco já confirmou presença no evento; o Vaticano informou que o papa fala português.

Grande mídia e grande capital enlouqueceram Estado brasileiro




“Sob o ataque de Sistema Globo e Abril, o Estado capitula, apostando numa segunda onda de privatização. Assim como fez com as tarifas públicas a partir dos anos 70, reduzem-se receitas públicas preparando o segundo passo da redução dos gastos.

J. Carlos de Assis, Carta Maior

Diz o provérbio romano que Júpiter enlouquece aqueles a quem quer perder. O Estado brasileiro está se deixando perder desde a segunda metade dos anos 70 quando um incipiente programa de privatização tomou a forma de dilapidação das empresas estatais mediante o sistemático rebaixamento de suas tarifas e preços sob o pretexto de combater a inflação. Entre 1975 e 1987, as tarifas elétricas tiveram queda real de 33%, no setor siderúrgico de 40%, na telefonia de 54%, nos Correios de 37%, no ferroviário de 13%. Não haveria receita que poderia suportar isso.

Esses dados, originalmente colhidos por Paulo Galletta, estão transcritos no meu livro “Análise da Crise Brasileira”, 1988, Forense. Depois de 1987 a situação apenas piorou. As estatais seriam estigmatizadas como incompetentes e de baixa produtividade, não obstante o contra-exemplo da Vale do Rio Doce, da Petrobrás, da Eletrobrás, da Embrapa, e também da Telebrás, que chegou a desenvolver tecnologia própria, genuinamente brasileira, em seu centro de pesquisa em São Paulo. Controlar e esmagar seus preços foram a forma de forçar a privatização.

Bem, convenhamos que certos setores industriais (aço) e certos serviços públicos (telecomunicações) podem perfeitamente ser comandados pelo setor privado. Esses na verdade representam um filé extraordinário, pois significa um fluxo de caixa bilhões de reais provenientes de uma grande parte da população servida por monopólios e oligopólios, com fraca regulamentação. Mas há os setores estratégicos como os citados acima (Telebrás à parte) que ou foram privatizados por razões ideológicas (Vale) ou foram privatizadas na margem (Petrobras).

No setor elétrico, não fora o racionamento de 2001, as grandes geradoras teriam sido privatizadas sem qualquer justificava estratégica, econômica ou moral. Se isso tivesse acontecido a presidenta Dilma não teria como implementar a recente redução das tarifas na ponta. Na área da Petrobrás, se o governo não tivesse preservado o controle do capital da empresa não poderia implementar um programa de investimentos no pré-sal vital para o desenvolvimento do país. É que os acionistas privados, apoiados pela grande mídia, querem lucros imediatos, não investimentos.

Acontece que uma segunda frente de ataque ao setor público, agora não apenas o setor público indireto mas também o direto, vem escalando no Brasil na forma de uma tentativa de desmonte da arrecadação tributária. São as campanhas contra os impostos lideradas pela Fiesp e federações do comércio sob o argumento de que o Brasil teria uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo. Isso é falso, como é falsa a ideia de que temos um elevado custo trabalhista – alegação de que se deveria envergonhar à vista dos salários médios brasileiros.

É falso também dizer que não temos uma estrutura de serviços públicos compatível com a carga tributária. Esse mantra tornou-se comum entre os próprios usuários ou beneficiários dos serviços públicos, como os mais de 28 milhões de aposentados e pensionistas, os mais de 300 milhões de usuários do SUS, os milhões de alunos e professores das redes públicas de educação, assim como de dezenas de outros serviços de massa atendidos pelo Estado. É claro que a qualidade ainda deixa a desejar. Contudo, ela não é tão ruim como mostra a TV em casos isolados.

Entretanto, a mídia enlouqueceu o Estado. Sob o ataque simultâneo do Sistema Globo e da Abril, que não se conformam por ter alguns interesses marginais atingidos na relação com o governo, o Estado nada explica e nada informa à população, talvez confiando na boa fé da grande mídia. Mais do que isso: ele capitula aos ataques, preparando, ele próprio, uma segunda onda de privatização. De fato, assim como fez com as tarifas públicas a partir dos anos 70, o Estado está reduzindo receitas públicas preparando o segundo passo inevitável da redução dos gastos.

Já defendi aqui as PPPs como instrumento de construção de grandes obras públicas no setor logístico. Contudo, PPP não pode resolver todo o problema logístico brasileiro: em muitas áreas é essencial o investimento a fundo perdido diretamente pelo Estado. Não obstante, o governo zerou a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), que é o imposto vinculado a obras de logística. Isso tirou toda a segurança do setor de construção sobre um fluxo de caixa seguro para financiamento de obras rodoviárias e ferroviárias.

Mas há algo ainda pior: consciente ou inconscientemente, os órgãos de controle (TCU, Ministério Público, Ibama, arqueólogos, índios, quilombolas) estão destruindo a capacidade do Estado de realizar grandes obras públicas. Não que não deva haver controles; contudo, os controles devem seguir um protocolo mínimo de ação coordenada para não impedir as obras. É a existência desse emaranhado de controles que tem levado o governo optar pelas PPPs, que tem meios mais flexíveis de controlá-los do que os órgãos públicos.

Finalmente, convém examinar o papel da imprensa: Veja e Sistema Globo desfecharam uma violenta campanha contra a cúpula do Ministério dos Transportes há dois anos. O ministério, tendo Luís Antônio Pagot no Dnit, tinha passado de um orçamento ridículo em 2008 para R$ 18 bilhões realizados em 2009/10. Vieram então as denúncias: o realizado em 2011 passou a R$ 6 bilhões e, em 2012, a R$ 7 bilhões, tendo sido orçados, nos dois anos, R$ 16 bilhões. Em síntese, as denúncias derrubaram os orçamentos públicos numa área vital. Detalhe: até o momento as investigações não constaram qualquer irregularidade do Dnit na era Pagot.”

O futuro de Dilma, em 3 movimentos




Rodrigo Vianna, Escrevinhador

“Muita gente se mostra (ou se finge?) surpresa com os movimentos recentes na política brasileira, que indicam um quadro muito mais complexo e multipolar do que nas eleições de 2002, 2006 e 2010.

Podemos listar três movimentos simultâneos:

- Eduardo Campos acelera a articulação de uma terceira força, reunindo dissidentes do lulismo e do tucanato;

- José Serra ameaça sair do PSDB, para dar o troco em Aécio Neves (o mineiro, em 2010, não fez campanha pra valer para o paulista);

- Gilberto Kassab avisa que o PSD não entrará no governo Dilma, deixando a porta aberta para um acordo com Eduardo e o PSB.

A decisão de Kassab, diz a mídia velha, teria “surpreendido” Dilma e o PT. Mentira. Kassab, ao criar o novo (?!) partido, tinha já alinhavado com Eduardo a possibilidade de uma aliança e até de uma fusão com o PSB.

Os outros dois movimentos tampouco são surpreeendentes. E indicam o que? Dificuldades para Dilma e o PT? Sem dúvida. Mas muito mais que isso: indicam que a velha oposição PSDB/DEM perde a condição de alternativa única ao petismo.”

Sobre isso, eu já havia escrito aqui, em outubro de 2012:
 “Hoje, os tucanos precisam mais de Eduardo Campos do que o contrário. Com o PSB, Aécio ficaria realmente forte. Não é à toa que FHC lança hoje na “Folha de S. Paulo” (espécie de diário oficial do tucanato) um pedido, quase uma súplica ao líder socialista, ao falar de aliança com o PSB: “se houver, será forte e salutar, Mas depende do desempenho do governo federal e das alianças da presidente Dilma para ver se o Eduardo se arrisca a romper.”
Difícil imaginar que Eduardo Campos vire linha auxiliar do tucanato paulista. Ele não precisa disso. Pode esperar até 2018, costurando até lá uma ponte com o Sudeste via Aécio e PSD de Kassab. Nesse caso, parte da velha oposição (embutida no “novo” partido kassabista) é que viraria linha auxiliar do PSB.”
Paralelamente a esse triplo movimento, há uma ausência. Essa, sim, surpreendente. Dilma não se mexe. Perde o “timing” na política. Ricardo Kotscho escreveu sobre isso, aqui. Concentrada na busca de um novo modelo econômico (juros mais baixos, energia mais barata, isenção de impostos para cesta básica), Dilma se omite na política. A iniciativa está com a oposição. Dilma erra à esquerda e à direita.
Ao olhar para a direita, age de forma frouxa, terceirizando a política “miúda” para o PMDB. Quem articula para Dilma? Renan, Temer?
Os problemas não são apenas no Congresso. Parte da elite empresarial está insatisfeita com a falta de interlocutores no Planalto. Eduardo Campos come pelas beiradas. Já se tornou interlocutor de empresários paulistas que não confiam em Aécio, e preferem (como alternativa eventual a Dilma) alguém que venha de “dentro” do lulismo. Sobre a inação e a falta de diálogo do governo Dilma,recomendo o ótimo artigo de Renato Rovai, aqui.
À esquerda, Dilma age com arrogância. Talvez desconheça o papel que a militância de esquerda cumpriu naquelas duas primeiras semanas do segundo turno de 2010, quando Serra chegou a estar apenas 4 pontos atrás da petista nas pesquisas. Diante da onda de boatos insuflada pelo serrismo, não foram Temer ou Renan nem os omeletes na Ana Maria Braga que “salvaram” Dilma. Foi a militância – nas ruas e na internet.
Dilma parece agir como se essa turma já estivesse com ela mesmo – pra que agradar? Nada. Nenhum sinal de avanço na Reforma Agrária, nas Comunicações, na Cultura. O governo Dilma é um deserto de idéias e inovação em áreas simbólicas para a esquerda.
O que isso tudo significa? Que a eleição de 2014 será mais complicada para o petismo. Mesmo que a economia cresça um pouco mais em 2013.
Sobre isso, escrevi aqui, ano passado, muito antes dos movimentos explícitos de Eduardo, Serra e Kassab:
“Imaginem um quadro com Dilma (PT/PMDB), Aécio (PSDB/DEM/PPS), Eduardo Campos (PSB/PSD) e a incógnita de Marina Silva…
Eduardo tiraria parte do eleitorado petista do Nordeste. Com boas alianças com PSD e lideranças desgarradas, conquistaria (pequenos) nacos do Sul/Sudeste. Candidatura para 15% ou 20% dos votos.
Aécio tiraria (boa) parte do eleitorado mineiro do PT, sairia forte de São Paulo com apoio de Alckmin (que travará batalha de vida ou morte com PT) e conquistaria pedaços do Norte/Nordeste (com lideranças sobreviventes do DEM/PSDB). É candidatura para 20% ou 25% dos votos no primeiro turno.
Dilma teria uma votação espalhada pelo país. Poderia chegar a 40% ou 45%. Dificilmente venceria no primeiro turno.
O melhor para Aécio e Eduardo não seria uma aliança no primeiro turno. Mas candidaturas separadas, com possibilidade de apoio num segundo turno, a depender da conjuntura.
Eduardo teria peso (e coragem) para confrontar a “candidata do Lula” em 2014? Hoje, acho pouco provável. Mas não é um cenário de todo improvável.”
Há frestas e fissuras por onde a oposição vai avançar. Mais que isso. Atualizando o quadro político para 2013, parece possível que Eduardo Campos amplie sua aliança para além de PSB/PSD, incorporando o PPS de BobFreire (vitaminado por serristas e outros descontentes tucanos) e o PTB de Bob Jefferson. Feitas as contas, o pernambucano pode ter uma aliança com tanto tempo na TV quanto Aécio (PSDB/DEM).
O neto de Tancredo tem sua fortaleza em Minas. E provavelmente terá Alckmin numa batalha de vida ou morte contra o petismo. Eduardo terá pedaços do Nordeste e dissidentes do demo-tucanato no Sudeste (via PSD e PPS). Marina (mesmo sem tempo de TV) pode conquistar o eleitorado de classe média de grandes centros como Rio, Brasilia, Belo Horizonte, Porto Alegre (ainda que o mais provável é que ela – sem o “empurrão” da mão tucana e evangélica recebido em 2010 – tenha menos votos do que na última eleição).
Seja como for, é eleição disputada, fragmentada. Dilma pagará o preço pela arrogância e a inação política. É a favorita. Mas não terá caminho fácil. O líder do PSB parece a essa altura o mais forte entre os três postulantes da oposição. E não adianta dizer que Eduardo Campos é “traidor”.  Eduardo é apenas o sintoma das contradições internas de uma aliança ampla demais. É também o resultado de um governo que acerta na Economia, mas erra na Política.

domingo, 17 de março de 2013

T – D (Todos menos Dilma)




Por Emir Sader*

A direita – tanto seus partidos, como sua mídia – já tem candidato para 2014: T – D. Todos menos Dilma. Todos contra a Dilma.

O objetivo que a direita coloca para si é tratar de impedir a vitória da Dilma no primeiro turno e, se der, tentar derrotá-la no segundo turno.

Para isso, recomeçou a busca de votos de todos os matizes: direita, extrema-direita, centro, centro-esquerda, extrema-esquerda. Vale tudo, contanto que some votinhos que eventualmente possam impedir a anunciada – por seus próprios cronistas – vitória da Dilma no primeiro turno.

Mesmo com a economia estagnada, como aconteceu em 2012, o apoio ao governo não deixou de crescer, porque a prioridade do governo são as politicas sociais, que foram preservadas da crise e continuam a crescer. Até mesmo os aumentos de salários e a criação de empregos formais tiveram continuidade. Para este ano se anunciam níveis de crescimento maiores e, portanto, daí não viriam desgastes no apoio ao governo.

Em suma, a dupla Lula-Dilma é imbatível eleitoralmente. Daí o desespero da direita, que busca evitar o pior: uma nova derrota – a quarta seguida –, desta vez já no primeiro turno.

E daí o incentivo e as especulações sobre as candidaturas possíveis – Aécio, Marina, Eduardo Campos, quem quer que venha da ultra- esquerda, contanto que some no T – D. Os tucanos cumprem com tristeza sua sina obrigatória de ter candidato, em quem ninguém acredita – ainda mais sob o fogo do derradeiro objetivo político que o Serra se coloca: torpedear a candidatura do Aécio.

Marina retoma seu show, como se o mundo não existisse, menos ainda a realidade concreta do Brasil e da América Latina, como se “tivesse” embaixo do braço 20 milhões de votos. 

A mídia incentiva a Eduardo Campos, que tem difícil dilema: se for candidato, terá que enfrentar o governo, perder para Dilma nos seus próprios rincões e se desgastar com o governo, não lhe podendo pedir apoio em 2018. Por isso é provável que esteja se lançando agora para depois retirar a candidatura, pedindo em troca apoio em 2018.

Vale tudo no T – D. Quem vier da ultra-esquerda – embora tenha claro que não terá mais do que o 1% do Plínio – também ajuda nessa difícil empreitada.

Para esse objetivo estão escalados todos os cronistas políticos da velha mídia, que não fazem outra coisa senão incentivar e especular sobre as candidaturas T – D.

De qualquer maneira, a direita se avizinha a uma derrota pior do que as outras, e isso lhes gera desespero. Nem T – D lhes bastará.

*Sociólogo, professor e escritor - via sítio da Agência Carta Maior

**Foto:Uol (reprodução)

Qual é o seu lado?




Conversei na última sexta-feira com um dos maiores investigadores do país sobre o tema do momento: a nova classe média brasileira. Podia revelar o nome dele e isso certamente não lhe traria incômodo, mas como tratou-se de um bate-papo e não de uma entrevista formal, não sei o que foi considerado on e off pelo interlocutor. Por isso, peço desculpas por não apresentar sua identidade.

Como estamos muito condicionados a pensar sobre quase tudo dentro de parâmetros que, à nossa maneira, servem perfeitamente para compreender o mundo, digo, o nosso mundinho particular, encontros como este servem como uma experiência desestruturante. Tira-nos do estado de acomodação anterior, desestabiliza-nos primeiro, para permitir que alcancemos outro patamar de compreensão em seguida.

Mas vamos ao que interessa. Os clássicos formadores de opinião, a elite econômica e intelectual, não raro defendem o aumento da qualidade do ensino público. Ok, também defendo. Só que tudo o que pleiteamos em termos de melhorias, seja o serviço que for, requer necessariamente mais investimento, certo? Como os recursos são finitos...  Vale lembrar que todo ano é aquela briga até aprovar o tal Orçamento no Congresso.

Ainda agora, mais recentemente, houve quem chiou quando o Governo anunciou que destinaria parte dos recursos do pré-sal para a educação, não foi?

Portanto, se temos que fazer uma escolha entre universalizar o acesso ou melhorar a qualidade, de que lado ficamos? Eu fico com a universalização no primeiro momento. Aí virão os críticos dizer: o que adianta o sujeito ir para a escola se o ensino é um lixo? Bom argumento.

No entanto, este estudioso faz uma ponderação interessante: ainda que a escola seja ruim, mesmo assim alguma escolaridade tem um impacto significativo no aumento do poder aquisitivo, logo, na riqueza do país.

Amanhã não teremos crianças fora da escola. Hoje, por exemplo, já são poucas. Se formos fazer um corte, quem está em desvantagem são os atores de sempre, infelizmente: negros, pobres e, sobretudo, moradores da zona rural.

Só que a conta da escolaridade é assustadoramente positiva: cada ano a mais de educação agrega valor aos salários da ordem de 15% . É uma injeção de 109 bilhões de dólares ao ano na economia! Isso mesmo! Mais educação numa ponta é mais riqueza na outra, simples assim.

Claro que devemos atribuir esse salto no numero de crianças e jovens matriculados aos programas sociais do Governo. Afinal, as políticas de transferência de renda focadas nas mulheres, mães, com contrapartida de filhos frequentando a escola demonstraram que dão resultado.

Não por acaso, programas como os adotados pelo Brasil são hoje discutidos em todo mundo, seja em países em desenvolvimento, seja por organismos internacionais, como a ONU.

Onde quero chegar? Escola leva a trabalho de maior qualificação, com melhores salários, novos padrões de consumo e, futuramente, novas demandas por qualidade do serviços públicos e de tecnologia, como um computador conectado à internet por banda larga universalizada, por exemplo.

Aparentemente nenhuma novidade. Só que a grande novidade já está em curso e é silenciosa. A continuarmos assim, diz meu interlocutor, vislumbramos uma classe C melhor informada e mais consciente de seus direitos e pronta a cobrar mais e melhores resultados.

Por isso, o debate que se trava hoje na política, não por acaso, é se queremos um Estado de bem estar social, representado pelo petismo e seus associados, ou um Estado mínimo, representado pelas forças conservadoras capitaneadas pelos tucanos. Em jogo está a conquista de corações e mentes desta nova classe social em ascensão, que vai pedir: ou o fortalecimento, ou a ruína do Estado.

Portanto, em jogo também temos um novo personagem em ação: o imposto. Com a economia formal em expansão, o trabalhador tem desconto na fonte e o prestador, na nota. Se o peso do imposto voltar como desejada contrapartida em serviços públicos, ok. Caso contrário, vai valer o salve-se quem puder do neoliberalismo, que tem espalhado seus mortos ao redor, como temos testemunhado.

Ainda que haja corrupção e desarranjos estruturais, prefiro a via do bem estar social patrocinado pelo Estado, de preferência taxando fortemente quem tem muito, para diminuir ao máximo esse abismo escandaloso chamado desigualdade.

E nesta disputa sei direitinho quem está em cada campo: de um lado os trabalhistas, humanistas e os movimentos sociais. E do outro os bancos, a elite empresarial, o agronegócio e mídia, claro que com as exceções de praxe.

E você, qual é o seu lado?
maureliomello

A mais antiga multinacional do mundo: Uma milenar aliança com as classes dominantes.


Francisco e os passarinhos
Charge do Aroeira























Como é que uma estrutura profundamente formatada - segundo a observação de Gramsci - pelo papel dos eclesiásticos enquanto intelectuais orgânicos do mundo feudal, e que mantém a hierarquia (com os seus “príncipes”) estruturada ainda sobre esse modelo, permanece a “multinacional de maior sucesso” na fase imperialista do capitalismo?

Toda a gente opina sobre a questão do novo Papa. Para quem está de fora, suscita uma certa perplexidade que a generalidade das opiniões seja acerca de questões que não pareceriam propriamente ser do foro de uma instituição religiosa: actividades bancárias obscuras, escândalos de diverso tipo, intrigalhada de todo o género.
É tal a predominância desses temas que os textos mais interessantes são aqueles que não estão com rodeios, mesmo que o façam com ironia. É o caso de um (“Pope, CEO”,“The Economist”, 9.03.2013) que começa com o seguinte e lapidar parágrafo: “A igreja católica romana é a mais antiga multinacional do mundo. É também, em muitos aspectos, a de maior sucesso, com 1,2 mil milhões de clientes, dezenas de milhões de voluntários, uma rede de distribuição global, um logotipo universalmente reconhecível, um polimento sem rival no lobbying e, suscitando os melhores auspícios para o futuro, uma actuação de sucesso junto dos mercados emergentes”.
Para o autor do artigo esta multinacional, se tem problemas, só precisa de seguir o exemplo das outras multinacionais para os ultrapassar. Se estão a braços com escândalos, montam uma campanha de relações públicas para convencer os seus clientes e empregados de que os estão a resolver. Se há a questão das operações bancárias obscuras, é subcontratar as actividades como fazem a IBM e a Ford, em vez de ter um banco próprio (“o único no mundo que tem máquinas multibanco com instruções em latim”). E se querem consolidar o sucesso nos mercados emergentes, têm que instalar quartéis-generais nos locais, como fez por exemplo a Cisco criando uma nova sede em Bangalore.
Este artigo, sob a sua inteligente ironia, coloca reflexões bem interessantes. Uma delas é como é que uma estrutura ainda profundamente formatada - segundo a observação de Gramsci - pelo papel dos eclesiásticos enquanto intelectuais orgânicos do mundo feudal, e que mantém a sua hierarquia (com os seus “príncipes”) estruturada ainda sobre esse modelo, permanece a “multinacional de maior sucesso” na fase imperialista do capitalismo? A resposta talvez esteja exactamente aí: esse sucesso não resulta das suas formas organizativas, mas de uma milenar aliança histórica com as classes dominantes.
*Este artigo foi publicado no «Avante!» n.º 2050, 14.03.2013
lotusegipcio

"Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino da Terra", Chico 2.0





A mídia está querendo transformar o novo Papa em aliado de sua luta contra os governos populares da América Latina (berço da Teologia da Libertação). Pode vir a ser, mas acho difícil. Essa luta não é o foco atual da igreja Católica e um escorregão nessa direção pode atrapalhar na sua questão principal, que é a luta contra o avanço dos evangélicos, basicamente os pentecostais e neopentecostais. Ao contrário do medievalismo católico, que oferece como única alternativa “concreta” a felicidade no Reino do Céu, os evangélicos acenam com riquezas bem terrenas a seus fiéis. A partir dessa diferença básica e com uma estratégia de marketing bem mais agressiva, os evangélicos arrebanham fatias cada vez mais expressivas das estatísticas católicas (principalmente nas áreas urbanas, com suas franjas lumpen). No Brasil, o maior país católico do mundo, de 1970 para 2010, a participação do catolicismo caiu de 91,8% para 64,6%, enquanto a participação dos evangélicos pulou de 5,2% para 22,2%. (Destacamos que, na Argentina, as estatísticas de 2008 mostram 75,5% de católicos contra 9% de evangélicos – mas com grande crescimento desses últimos, o que também ajuda a explicar um Papa argentino.)
Diante dessa realidade infernal, à igreja Católica – agora sob nova direção –, interessa muito mais aliar-se aos governos populares do que forçá-los a uma aproximação do universo evangélico. Se o Papa Francisco nos tempos das ditaduras foi conivente ou omisso, é uma questão que vai se tornar um “não foi nada disso”. E em vez de oferecer riquezas imateriais, a igreja Católica passará a acenar com riquezas mais palpáveis, capazes de abafar o canto da sereia evangélico. Para isso, terá que apoiar as políticas sociais e fugir como o diabo foge da cruz da política de terra arrasada dos neoliberais. "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”, como diz Lucas 6.20? Nem pensar. O mote é outro, surge a possibilidade de uma nova aliança popular. E quem saltou na frente estendendo a mão para esse novo acordo político-religioso foi o presidente Maduro, da Venezuela, que atribuiu aos conselhos do “apóstolo” Chávez a escolha do novo Papa. Apesar desse Papa estar sendo visto (com razão) com certa desconfiança por parte da esquerda,  pode estar sendo lançada a Nova Igreja Católica Popular da América Latina.
(“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis.” Lucas 6.24 e 25)
blogdogadelha

Enquanto Dilma faz desonerações, Alckmin aumenta conta de água em 7,5%





Parece que nem o jornal Folha de São Paulo, tido como uma especie de assessoria de imprensa do PSDB, aguenta mais os tucanos  em São Paulo. Hoje a coluna Painel,  dedicado a assuntos políticos abriu manchete: “Enquanto Dilma faz desonerações, Alckmin deve aumentar conta de água”. Veja a nota

Quem paga a conta 

Enquanto Dilma Rousseff promove desonerações em série para deter a inflação, Geraldo Alckmin tem encrenca à vista: a Sabesp quer incorporar aditivo de 7,5% ao reajuste anual das contas de água na cidade de São Paulo, que deve ficar próximo de 2%. A revisão tarifária compensaria a empresa, controlada pelo Estado (governo Alckmin PSDB), por uma injeção de recursos do mesmo percentual que fez no fundo de saneamento da capital em 2009, quando José Serra era governador e Gilberto Kassab, prefeito.

Freio 

A agência reguladora paulista contratou empresa para auditar os investimentos da Sabesp antes de decidir se acolhe a revisão da tarifa, que traria impacto ao consumidor a partir de agosto. O contrato entre a empresa e a prefeitura, de 30 anos, prevê injeção de R$ 16 bilhões.

Redução... 

Preocupado com o desgaste da medida, Alckmin estuda saída menos onerosa com sua equipe. Auxiliares do tucano defendem a pulverização desse índice adicional em até quatro anos.

... de danos Alegando desconhecer o processo, a prefeitura pediu prazo para submeter o tema ao comitê gestor dos serviços de água e esgoto da capital. Na próxima sexta-feira, contudo, o Estado deve dar seu veredicto.

Base governista?





“Fosse a política brasileira menos acomodatícia, a reforma ministerial em gestação implicaria a retirada dos cargos entregues ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), que a esta altura, aliás, nada mais tem de socialista afora o nome. Os últimos gestos do presidente da sigla, Eduardo Campos, indicam a intenção de criar, sempre que pode, embaraços ao governo federal, que supostamente apoia.

Há 15 dias, o governador de Pernambuco estabeleceu uma surpreendente aliança com Paulo Pereira da Silva, o principal dirigente da Força Sindical, para barrar a privatizante MP (595) dos portos. Em seguida, na quarta passada, liderou 16 governadores em uma proposta de onerar a União em R$ 4,5 bilhões para resolver o problema criado com a derrubada no Congresso do veto presidencial sobre a divisão dos royalties do petróleo.

Campos vem sendo procurado por descontentes, à direita e à esquerda, com a presidente Dilma Rousseff. De empresários do agronegócio a representantes da estiva, passando por candidatos à presidência da Câmara, é extensa a romaria dos que viajam a Recife. A todos o neto de Arraes acolhe com magnânima boa vontade, mesmo que nada tenham a ver com a sua plataforma modernizante de eficiência gerencial.

O caso dos portos é exemplar. O mais coerente para quem defende o uso de métodos empresariais na gestão pública seria apoiar a medida privatizante. Mas Eduardo decidiu secundar o movimento dos trabalhadores, que têm nova greve marcada em uma semana com o objetivo de barrar o que consideram a privatização do setor. Para o cúmulo da ironia, o ministro encarregado da Secretaria de Portos é do PSB.

O objetivo evidente do jovem político nordestino é ampliar as bases para uma postulação presidencial de centro, provavelmente já no ano que vem. Portador de altíssima aprovação em seu Estado, ainda é pouco conhecido no resto do Brasil. Mesmo depois do bom desempenho do partido nas eleições municipais de 2012, Campos tinha apenas 3% das intenções de voto no país. Por isso, precisa aparecer.

A disputa de 2014 será difícil para um candidato fora das grandes agremiações (PT e PSDB), considerando-se que Marina Silva também correrá pelo meio. Com pouco tempo de TV, Campos terá baixo poder de fogo. O seu trunfo é o suporte que recebe dos que querem desgastar Dilma, o que pode crescer caso a situação econômica patine. O mesmo explica, por sinal, a hesitação do PSD, de Kassab, em aderir à recandidatura da presidente.

O governo parece alimentar a ilusão de que pode recuperar a lealdade de Campos mais à frente. A lógica indica, entretanto, que só a terá se e quando não precisar mais dela.”