segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Sobre a corrupção: origem e solução

Moro, o herói da concepção ingênua das causas da "corrupção"
A corrupção de maneira geral pode ser entendida como um conjunto de práticas de classes, grupos e indivíduos que burlam regulamentações e o funcionamento normal das instituições jurídico-estatais em prol de benefícios corporativos: enriquecimento ilícito, promoções indevidas, isenção de fiscalizações e punições etc. Essas práticas podem acontecer por dois grandes motivos: fragilidades das instituições e dos seus agentes no cumprimento da normativas legais e/ou (o principal) a capacidade de classes, grupos e indivíduos de fraudar o funcionamento dessas instituições. A experiência histórica [no capitalismo] demonstra que não existe fórmula institucional que impeça o as práticas de corrupção. O máximo que pode acontecer é as formas institucionais dificultá-las; por quê?

O fundamento da corrupção é a desigualdade estrutural de poder político, econômico e ideológico que classes, grupos e indivíduos possuem na sociedade capitalista. Essa desigualdade estrutural posiciona, por exemplo, as grandes empresas numa situação onde conseguir burlar as instituições e normas é muito fácil. Grandes empresas compram agentes públicos, tem o poder de esconder seus maus feitos da “opinião pública” através de suas associações com os monopólios de mídia (alguém lembra da tragédia de Mariana? Alguém sabe o que aconteceu com o HSBC?), conseguir até modificar a lei para tornar lícito seus ilícitos etc. O fato, por exemplo, do Brasil está entre os três países do mundo recorde em sonegação de imposto não provoca nenhum debate público relevante ou qualquer tentativa de mobilização massiva dos aparelhos do Estado responsáveis pela fiscalização. Isso não se explica pela “fraqueza da lei” ou “ineficiente das instituições”, mas pelo poder de classe dos indivíduos que praticam a sonegação de impostos. Assim como nas cidades pequenas e média, onde o uso privado dos bens públicos é mais que escancarado, não é raro o prefeito ser um dos mais risco da cidade - normalmente dono de muitas fazendas ou comércios -, ter rádios e jornais e parentes em outras instituições (como no legislativo ou polícia) num processo de retroalimentação onde seu poder garante a sempre crescente apropriação privada da riqueza pública (corrupção) que aumenta seu poder sobre a máquina pública - versão modernizada do coronelismo. 

É fácil ilustrar isso. A formação da polícia militar a torna uma instituição por essência violenta e brutalizada. Mas a brutalidade da PM não se expressa contra todas as classes. A instituição (ou aparelho) age de acordo com a classe e ambiente sócio-geográfico que está lidando. O mesmo serve com as outras instituições do Estado - guardadas, é claro, as especificidades de cada uma. A Operação lava-Jato não muda nada nisso. Atinge setores empresariais até pouco tempo intocáveis, mas demonstra uma seletividade evidente e não tem qualquer intenção de tocar no esquema - que todo mundo sabe - de vazamento de informações privilegiadas sobre a política do Banco Central ao capital financeiro - por exemplo. Embora de um ponto de vista jurídico-formal sejamos todos iguais e idealmente as instituições tratam todos de maneira igual, na prática as desigualdades sociais, econômicas, políticas e simbólicas se impõem e sobrepõem a igualdade formal, e olhando com atenção percebemos que a própria igualdade formal é menos igual do que parece. Portanto a corrupção, tal como a mais-valia, é um fenômeno próprio da sociedade capitalista. Não é particularidade da formação social-cultural brasileira. Existe corrupção na França, na Alemanha, na Suíça, nos EUA, na Dinamarca etc. Muda a forma e as práticas, mas o fenômeno é ineliminável na sociedade do capital. 

Isso significa que só se combate a corrupção com a revolução socialista? Não. Assim como não esperamos o socialismo para lutar por moradia, saúde, educação, cultura etc., mesmo sabendo que esses direitos só serão plenos no socialismo. A ciência política liberal defende que a accountability horizontal é a solução para combater a corrupção. Esse conceito significa basicamente a capacidade das instituições do Estado de se fiscalizarem e garantirem a legalidade - exemplo: a função do tribunal de contas e do ministério público. Eu defendo que dentro dos limites do Estado burguês só se combate a corrupção com um amplo processo de democratização do poder, da cultura e da riqueza. Por exemplo, sem a democratização dos meios de mídia é impossível pautar no debate público a sonegação de impostos, o desvio de verbas públicas, o esquema da dívida pública etc. Assim como sem o crescimento de mecanismo de democracia participativa e direta é impossível tornar a representação parcialmente efetiva e meios de controle dos ocupantes de cargos políticos (prefeitos, governadores, senadores, deputados etc.). Então precisamos de medidas como a democratização dos meios de mídia, reforma política com ampliação da democracia direita e participava, proibição do financiamento privado de campanha, ampliação da participação operária nas empresas estatais e das comunidades na fiscalização de obras públicas etc. 

Medidas como essa, muito mais que ampliar o poder do direito penal, seriam úteis para combater a corrupção. Porém, nunca se pode ter qualquer ilusão sobre os limites da democratização dentro do Estado burguês. A propriedade privada dos meios de produção e a forma-política do Estado burguês impede sempre um aprofundamento ao limite desses processos. Quando os monopólios de mídia e as ciências sociais conservadora tornam o problema da corrupção como uma expressão da perversão e ineficiência apenas do Estado e dos agentes públicos ou um traço cultural insuperável herdado do Brasil colônia, o que fazem é esconder a fonte da corrupção porque ela joga luz sobre as estruturas do capitalismo - alguém já viu trabalhadores envolvidos em escândalos de desvio de bilhões de dinheiro público, na sonegação de bilhões ou em tragédias como a de Mariana? 

É claro que fazer esse debate não é fácil. O poder dos monopólios de mídia, da universidade, das igrejas e do sistema político criou uma senso comum que reduz a corrupção a falta de ética dos agentes públicos. Nada mais. Mas esse não é o nosso maior problema nesse momento. O problema mesmo é que esse discurso moralista e individualista da corrupção também comparece no seio da esquerda. É urgente compreender a corrupção como uma contraface necessária da dinâmica capitalista da dominação de classe e lutar para destruir os mitos da corrupção como essência cultural do povo brasileiro ou a ideia de que furar a fila no ônibus ou não devolver um troco errado no mercado é o mesmo que criar esquemas bilionários com ramificações em vários aparatos do Estado.

http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2016/12/sobre-corrupcao-origem-e-solucao.html


A dialética da conciliação de classe ou como destruir uma base de massas



Um partido de origem popular e operária se consolida no Brasil nos anos 80. Esse partido, o Partido dos Trabalhadores, aposta na mobilização de massa (greves, passeatas, protestos, ocupações de órgãos públicos, etc.) como forma de tornar seu projeto o hegemônico no seio das classes exploradas e lograr ocupar o maior número possível de cargos no aparato do Estado acreditando ser possível democratizá-lo ao máximo até que ele seja um instrumento da transição socialista. 


Durante a trajetória política do PT, quando a institucionalidade passou a ser prioridade absoluta, o partido ostentava um diferencial que a maioria dos partidos burgueses não têm: uma adesão dos movimentos sociais, da classe trabalhadora organizada e das massas populares que representava seu diferencial na política. Enquanto o PSDB, PMDB ou DEM precisavam pagar pessoas como cabos-eleitorais na época da eleição o PT tinha milhares de seres humanos que se entregavam de corpo e alma àquele projeto sem precisar receber nada em troca. 

Quando o PT desistiu de revolucionar a sociedade, abandonou na prática a estratégia socialista (embora ainda mantenha formalmente em palavras) e passou a ter como principal objetivo tornar-se o partido da ordem dominante com um programa econômico socialdemocrata faz-se necessário conter, controlar e instrumentalizar ao máximo a mobilização de massas. Agora não é mais interessante, por exemplo, ter pressão na rua pela estatização dos transportes, pois modelos restritos de passe-livre, baixos aumentos (ou congelamentos parciais dos aumentos) e melhoras na frota já bastam. O PT passa a chamar o movimento de massas apenas em movimentos chaves, notadamente na eleição, e nos demais momentos procura paralisar ao máximo esse movimento; para lograr êxito nisso é indispensável um rebaixamento ideológico e programático sempre constante e avançando - primeiro o PT defendia o socialismo com democracia, depois fala mais de democracia que socialismo, depois fala de "revolução democrática" para depois vim o socialismo, depois não fala mais em socialismo e o mote é um crescimento econômico com desenvolvimento social e assim vai...

O ciclo do PT na presidência se notabilizou por não ter chamado UMA ÚNICA VEZ as massas populares para uma luta de rua para realizar o programa econômico que o partido defendeu nos anos 80 e parte dos anos 90. Diferentemente do bolivarianismo na Bolívia ou Venezuela, onde o governo é um pólo de aglutinação e fortalecimento dos movimentos sociais e da classe trabalhadora (com todos os limites e contradições), no Brasil os governos do PT não só procuram não promover a luta como freia-la cooptando lideranças para o aparelho do Estado e minando a radicalidade da própria base social do partido ("país de todos", "nova classe média", "ascensão pelo consumo", etc. foram estratégias ideológicas de rebaixamento da consciência de classe). O partido que tinha como diferencial sua base de massas vai progressivamente destruindo essa base de massas para ser gestor da burguesia oferecendo como principal qualidade sua capacidade de controlar os movimentos socais e a classe trabalhadora. Esse processo vai enfraquecendo a base de massas e reduzindo a margem de manobra do partido como operador da burguesia tornando-o um executor que modifica pouco o projeto da classe dominante; esse ciclo reduz progressivamente a já frágil base de massas que sofre com uma crise ideológica, ausência de novas lideranças, perda de adeptos, redução de apoio na sociedade, consolidação de práticas pelegas e cupulistas. 

O resultado final do processo é que quando a burguesia não precisa mais do ex-partido operário e popular e através de outras expressões políticas - os partidos de oposição - resolve tentar derrubar o PT, o partido não tendo mais com recorrer a uma base de massas que entrega corações e mentes ao projeto precisa desesperadamente fazer um acordo com o principal operador do Impedimento: Eduardo Cunha. Notem, quando Lula foi eleito tivemos uma das maiores expressões de massa da história recente do Brasil em sua posse. Na possível queda de Dilma não temos a classe trabalhadora nas ruas para defender seu mandato e mesmo os movimentos sociais ainda ligados ao governo, como o MST, não se sentem à vontade para essa missão. A dialética da conciliação de classe é implacável. Rosa Luxemburgo em seu clássico texto O Oportunismo e a Arte do Possível tinha alertado que: “as se nós começamos a perseguir o que é ‘possível’ de acordo com os princípios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios, e por meios de troca como fazem os estadistas, então nós iremos logo nos encontrar na mesma situação que o caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu sua arma no processo.” Sim, o PT perdeu sua principal arma!

A FOME MUNDIAL E OS SUPÉRFLUOS DO CAPITALISMO


"Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa 
carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse 
necessário, não haveria pobreza no mundo 
e ninguém morreria de fome." (Gandhi) 

AS TESES DE MALTHUS 
E A CRÍTICA DE MARX 
Há quem pense que a população mundial de mais de 7 bilhões de pessoas é grande para o tamanho do Planeta. Não é. O mundo tem capacidade de prover o sustento material de uma população muito maior do que a atual, e ainda preservando de modo ecologicamente sustentável a vida planetária. Para isto é necessário que se supere o modo de produção social, e é aí onde mora o problema. 

O economista burguês Thomas Robert Malthus afirmou em seu livro Definições em Economia Politica, de 1827, que os alimentos crescem em progressão aritmética (adição sob uma mesma razão matemática) enquanto a população cresce em progressão geométrica (multiplicação sob uma mesma razão matemática); tal desproporção seria a causa da fome mundial já naquela época, e com tendência de aumento em face do crescimento constante dos contingentes humanos. 

A afirmação malthusiana valeria, assim, para qualquer tido de sociedade e modo de produção, concluindo que deveria haver um controle de natalidade. 

Marx rechaçou tal tese como "inteiramente falsa e pueril” (Grundrisse, Editora Boitempo, 2011), demonstrando uma obviedade: os alimentos podem crescer em proporção diferenciada e a maior do que a natural reprodução humana, dependendo do modo de produção social e do avanço do conhecimento sobre as técnicas e a tecnologia aplicada à produção agrícola.

Lembramos esta velha polêmica para dizer que a escassez mundial de alimentos, que tem acarretado o aumento da fome (segundo relatório da Fundação para a Agricultura e Alimentação da ONU) decorre de hoje somente se produzirem os alimentos que o mercado pode absorver; e o mercado somente pode absorver produtos que tenham baixo custo de produção. 

Assim, a produção de alimentos em determinadas regiões de terras pouco férteis e sem recursos tecnológicos (domínio das técnicas agrícolas e inexistência de equipamentos como tratores, etc.), como em grande parte da África, se inviabiliza, eliminando a pequena produção e a produção de subsistência. 

Somente as grandes empresas agrícolas ou grupos de empresários familiares com terras férteis e capacidade de investimento podem produzir alimentos na economia de mercado. Sob o capital, tudo tem de passar pelo buraco estreito da viabilidade econômica(Robert Kurz).

O mundo sempre teve abundância de terras agricultáveis em relação à população e hoje detém conhecimento e capacidade tecnológica para a produção de alimentos para uma população muito maior do que a atual. O que o mundo não tem é um sistema de produção voltado para a satisfação das necessidades humanas, ao invés da ganância do mercado.   

O DESEMPREGO ESTRUTURAL

O capitalismo se expande abrindo frentes de produção e consumo. Entretanto, como se formata a partir de uma contradição de seus próprios fundamentos (cavando a sua própria sepultura num tempo histórico que é cada vez mais célere) ao mesmo tempo em que se instala em novas fronteiras mercantis, ele cria nessas mesmas fronteiras um contingente de pessoas não absorvidas no processo de trabalho abstrato, impedindo-as de qualquer outra forma de produção. 

Ou seja, forma um exército de desempregados, que cresce sempre como o rabo do cavalo: para baixo. 

Como o trabalho vivo (assalariado, criador de riqueza abstrata) é uma mercadoria, sujeita à lei da oferta e da procura, há uma concorrência entre os próprios trabalhadores para a obtenção de empregos, com farta disponibilidade de mão-de-obra, o que força a queda dos salários. Assim, tanto se forma um contingente de desempregados como de subempregados.

No passado havia grandes centros produtores de mercadorias absorvendo contingentes expressivos de trabalhadores; agora, com a transferência da produção para zonas de oferta de mão-de-obra barata (globalização), estes enfrentam o desemprego massivo. O discurso populista, nacionalista, sem base científica, oportunista, falso, apresentando-se como suposta alternativa a tal regra capitalista perante um público que vê seus empregos fugirem, é que dá credibilidade ao capitalista-mor Donald Trump. 

O pleno emprego não pode ocorrer de modo equânime em todas as regiões; podemos constatar este desequilíbrio nos dados de oferta de empregos de modo global, ou seja, entre todas as sociedades mercantis presentes em todas as partes do planeta. O lençol capitalista é curto.

Mas, tal realidade trágica se complica ainda mais à medida que se substitui o trabalho vivo dos homens pelo trabalho morto das máquinas; no estágio atual do capitalismo, a dispensa do trabalho vivo já supera a abertura de novos postos de trabalho.  Esta, claro, é uma equação que não se sustenta em pé de jeito nenhum!

Trata-se do momento do desemprego estrutural e do limite interno absoluto da capacidade da expansão do capitalismo, sem a qual ele não sobrevive. É nele nos encontramos atualmente.

Como já dissemos noutros artigos, o capital se funda no trabalho necessário (que é pago ao trabalhador para a sua subsistência) e no trabalho excedente do qual se apropria indebitamente (executado pelo trabalhador numa faina diária, mas que não é remunerado pelo capital), como forma de viabilização de sua exigência autotélica: precisa de velocidade continua de aumento para sobreviver, o que impede qualquer tentativa de sua distribuição, incompreensão na qual caíram os marxistas tradicionais, que se trumbicaram). 

Segundo Marx, “a capacidade de trabalho só pode executar o seu trabalho necessário se o seu trabalho excedente tem valor para o capital, e for utilizável por ele” (Grundrisse). Ou seja, o trabalho só existe como forma de fornecer ganhos para o capital, sem nenhuma preocupação com qualquer função social. 

Ele se dissocia do interesse social para cumprir o seu desiderato tautológico de reprodução aumentada, vazia de sentido virtuoso; e quando isto não é possível, aumenta o contingente dos desesperados supérfluos do capitalismo, como agora ocorre de modo irreversível e socialmente patológico. O processo migratório mundial é resultante desta lógica capitalista insensível ao drama humano.
Mas, com o desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção, o capitalismo mata a sua galinha dos ovos de ouro – os trabalhadores e o próprio trabalho abstrato. 

É o que se constata nos dias de hoje, ratificando a tese da contradição capitalista em processo que aponta para a destruição social e para a sua autodestruição como modo de produção.   

O capital é uma eterna tensão de morte, na qual ele é o potencial assassino. 

UMA NOTÍCIA DE JORNAL E
A TRAGÉDIA DO DESEMPREGO

O pai da professora de biologia, Aline Alves, é parte dessa população desempregada. E, devido às dificuldades financeiras da família, Deysenaldo Nobre, de 54 anos, precisa urgentemente de um emprego.

Pensando nisto, Aline fez uma publicação pedindo às pessoas que comprassem sapatos numa loja de Fortaleza, na qual o seu pai está trabalhando como vendedor por tempo determinado, para que ele seja efetivado.

Explicou que Deysenaldo estava há quase dois anos sem trabalho e, no fim de novembro, conseguiu tal emprego temporário; contudo, só será efetivado no próximo ano, Deseynaldo se bater a meta da loja. 

Em entrevista ao jornal O Povo Online, a professora conta que a renda de sua família é constituída pela sua remuneração, que não chega ao valor do salário mínimo, e pelosbicos que o seu pai e a sua mãe conseguem ao longo do mês. Ademais, a família está precisando conseguir dinheiro para a cirurgia oftalmológica de um filho. (por Dalton Rosado)

NOSSOS JOVENS MERECEM TER UMA EDUCAÇÃO IGUAL À DE CUBA? ENTÃO, POR QUE OS PROFESSORES NÃO A MINISTRAM?


Participando das jornadas estudantis de 1968, constatei que estava certíssimo o Marcuse: o fervor revolucionário se transferia da classe operária, cada vez mais integrada na engrenagem de produção e consumo, para osoutsiders, aqueles que escapavam das garras do capitalismo por nele não conseguirem viver ou não suportarem viver.

Daí a importância que passei a conferir à verdadeira educação: não a formação de mão-de-obra mais categorizada para apertar os parafusos do sistema, mas a de cidadãos capazes de pensar a sociedade e conceberem e/ou apoiarem alternativas ao pesadelo dominante.

Daí a minha enorme irritação ao perceber que entidades do professorado, embora se digam de esquerda, têm uma visão pequena e mesquinha do papel dos educadores, maximizando a importância da remuneração e mandando às favas a excelente oportunidade para estimular nos jovens a formação de uma consciência crítica e solidária. 

Neste domingo (4), o artigo semanal do economista Samuel Pessôa na Folha de S. Paulo, com o expressivo título de Professor brasileiro é contrário ao que deu certo em Cuba na educação, veio bem ao encontro da minha percepção:
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"Um professor em Cuba ganha um pouco menos do que um médico. Os melhores alunos do secundário escolhem ser professores.

O currículo é pouco extenso e é o mesmo para todas as escolas da ilha. 

A formação do professor é centrada em técnicas de transmissão de conhecimento ligadas ao currículo padronizado.

O professor é muito supervisionado pelo Estado, não pode faltar e, se o desempenho dos alunos não for bom, poderá perder a posição.

Há poucas interrupções na aula e na maior parte do tempo os alunos trabalham em grupo sob supervisão do professor resolvendo problemas e questões. Não se perde muito tempo copiando coisas do quadro.

Infelizmente, em geral os sindicatos de professores das redes públicas brasileiras apoiam aumentos de salários, mas são contrários a todas as demais iniciativas que deram certo em Cuba".
O FRACASSO DAS ESCOLAS-PADRÃO

Decepção idêntica tive ao acompanhar bem de perto a experiência das escolas-padrão, já que então trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do governo paulista (era um tempo em que ainda se chegava a um cargo desses apenas por competência profissional, sem necessidade de pertencer, filiar-se ou prostrar-se ao partido no poder):
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Greves de professores são frequentes em São Paulo...
"Logo no início, foram convidados cem luminares para fazerem um diagnóstico em profundidade da educação, formulando um programa para sanar as grandes deficiências existentes.

O resultado foi o projeto daescola-padrão, que procurava fazer com que algumas escolas estaduais se tornassem ilhas de excelência, com equipamento adequado, autonomia para gerir seus gastos e incentivos aos professores.

As primeiras seriam os cartões de visita e o teste na prática. Todas as outras as seguiriam, com o passar do tempo.

Deu tudo errado.

Os professores não mostraram o mínimo interesse em participar da gestão dos recursos, no que seriam, digamos, associações de pais e mestres com poderes ampliados e recursos para investir. Isto foi visto por eles, apenas, como mais trabalho.

Também recusaram, indignados, a proposta de terem aumentos salariais desde que fizessem cursos de aprimoramento didático. Queriam receber aumentos salariais sem darem contrapartida nenhuma.

E fizeram uma interminável greve...
...e quase sempre por melhoras salariais.

Nossa redação tinha uns 20 jornalistas, distribuídos entre a manhã/tarde e a tarde/noite. Quase todos simpatizávamos com os professores e os assalariados em geral.

Mesmo assim, era impossível não notarmos que a greve, a partir de certo ponto, foi prolongada unicamente para criar constrangimentos políticos ao governo.

Chegou o momento em que foi colocada a proposta definitiva e última do governador. Mesmo assim, os líderes do magistério mantiveram a paralisação por mais duas ou três semanas, o que não fazia nenhum sentido em termos reivindicatórios. Os motivos eram outros.

Depois recuaram, aceitando integralmente a proposta que haviam rechaçado sem nem mesmo negociarem.

O governador amaldiçoou o dia em que pensou em fazer do ensino a vitrine do seu governo. Adotou outras prioridades e para elas canalizou os recursos que iria utilizar em educação.

Os professores perderam o poder de barganha e, portanto, a chance de obter melhor remuneração. Não se deram conta de que, jogando o jogo com mais sutileza, teriam alcançado patamares salariais bem mais condizentes com sua nobre função.

Os estudantes foram sensivelmente prejudicados, pela não concretização das melhoras e também pelas greves.

Eu mesmo, acreditando no sucesso das escolas-padrão, transferi minha filha para uma delas. No final de um ano praticamente perdido, tive de levá-la de volta, com o rabo entre as pernas, ao colégio de freiras". 

No:https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/nossos-jovens-merecem-uma-educacao.html

sábado, 3 de dezembro de 2016

O BRASIL É UM BARCO À DERIVA



O Brasil hoje é um barco à deriva com mais de 200 milhões de pessoas a bordo.

Temos um sistema econômico com prazo de validade vencido, mas do qual não conseguiremos escapar sozinhos: o capitalismo.  [Depois do malogro grego, a possibilidade maior é a de um colapso global, o qual, aliás, pode estar bem mais próximo do que a maioria imagina...] 

Grandes empresários que se associaram aos mãos-sujas da política na montagem da maior e mais acintosa rede de corrupção já vista no País.

Uma Câmara Federal totalmente desmoralizada, que manda seu decoro às favas, agindo na calada da noite para salvar o mandato dos seus membros e mantê-los fora das grades.

Um Senado que nem sequer é capaz de expelir um presidente campeão de processos na Justiça.

Um Judiciário que cada vez mais se politiza, ocupando espaços  deixados vagos pelo Legislativo e Executivo.

Um presidente meia-boca, que talvez desse conta do recado numa situação rotineira, mas nunca no olho do furacão, quando mais se faz necessário um estadista.

Um povo tradicionalmente conformado, quase abúlico, mas que a penúria acabará levando ao desespero e a reações extremadas.

E, como em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão (provérbio português), os pesos-pesados da economia e da política se mostram incapazes de unir-se num projeto de salvação nacional, colocando seus interesses egoístas acima de tudo e de todos.

O maior risco que corremos neste momento é o de que o confronto cada vez mais acirrado entre o Legislativo e o Judiciário, sem que o Executivo ouse ou saiba como restabelecer o equilíbrio entre os Poderes, dê pretexto a uma intervenção militar (hipótese que ganha força com os EUA prestes a ser presididos por Donald Trump).

Enfim, a situação é tão explosiva que me parece até ocioso detalhar tudo de ruim que pode acontecer. 

As forças majoritárias do que restou da esquerda se dedicam insensatamente a desgastar um presidente fraco por natureza, sem se darem conta de que estão apenas levantando a bola para algum inimigo marcar o ponto (seja a extrema-direita que sonha com o retrocesso histórico, sejam os tucanos que tudo fazem para que a Presidência da República lhes caia no ninho).

Visões minoritárias, também de esquerda, avaliam corretamente que se trata de uma crise sistêmica, mas não levam em conta o óbvio ululante de absolutamente não nos convir neste momento que o derretimento dos podres Poderes vá às últimas consequências: a maré crescente é de direita fascistoide e em tal direção acabaremos também marchando se, de alguma forma, não corrigirmos o rumo enquanto é tempo.

Last but not least, é importante atentarmos para que, embora sejam absolutamente desprezíveis os ratos que tentam escapar das garras da Operação Lava-Jato por meio dos artifícios próprios de sua espécie, existe mesmo a possibilidade de o fervor justiceiro ir longe demais, gerando uma espécie de jacobinismo tropical. Robespierre era um esteio da Revolução Francesa, mas acabou fazendo com que ela devorasse os próprios filhos. Temos de ficar atentos.

Se eu tivesse um bom caminho a indicar, o faria. Mas, a correlação de forças nos é de tal forma desfavorável que nenhum deles me parece exequível. Então, só me resta antecipar o desenrolar provável dos acontecimentos.

Afora as tendências autoritárias que não podemos de forma nenhuma deixar prevalecerem, há uma forte possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral, presidido pela figurinha carimbada Gilmar Mendes, aguardar a virada do ano para, então, impugnar o mandato de Michel Temer, provocando uma eleição indireta, na qual caberá aos parlamentares escolherem um(a) novo(a) presidente-tampão. Nesta circunstância, o favorito seria o candidato do PSDB, provavelmente FHC.

Quanta à Operação Lava-Jato, em algum momento terá de ser encerrada, pois é fonte de instabilidade permanente, com a qual o Brasil, percebe-se muito bem,  não está conseguindo mais conviver. 

Mas, a cidadania tem de mobilizar-se para garantir que os encalacrados não escapem impunes, caso contrário seria melhor trocar o nome do nosso país para Bananal.

O mínimo que se espera é termos todos os culpados impedidos por um bom tempo de reincidirem nas mesmas práticas: os políticos afastados compulsoriamente da política e de governos; e os empresários, da diretoria de grandes empresas.
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/o-brasil-e-um-barco-deriva.html

CRÔNICA DA INCOMPETÊNCIA DESASTROSA, DA GANÂNCIA ESPANTOSA E DA CORRUPÇÃO VERGONHOSA.


Quando trabalhava na redação d'O Estado de S. Paulo, uma embarcação de turismo naufragou na Baía de Guanabara, matando 55 passageiros. Como eu era da editoria de Geral e pouca coisa de interessante acontecia no comecinho do ano, passei os primeiros dias de 1989 ocupando-me durante o expediente inteiro de um único assunto: preparar para publicação uma tonelada de notícias sobre a tragédia do Bateau Mouche. Foi dose cavalar, não aguentava mais. Peguei ojeriza eterna a tais acidentes.

Mas, por ter-me compadecido dos jogadores da Chapecoense e de um jornalista morto na queda do avião da Cucaracha Airlines, desta vez, excepcionalmente, andei passando os olhos pelo noticiário. Pelo que captei:
1) quem pilotava era um dos donos da companhia, o que dá uma boa ideia do gabarito da empresa; 
2) tinha o combustível estritamente necessário, sem uma reserva para imprevistos; 
3) um dos dirigentes do órgão que fiscaliza e autoriza voos na Bolívia é filho do falecido piloto; 
4) uma funcionária boliviana estranhou o plano de voo não especificar um aeroporto para pouso de emergência, que é menção obrigatória, mas algum superior autorizou a viagem, jogando o regulamento no lixo; 
LaMia é de Merida?! Tem letra sobrando..
5) o avião partiu de uma cidade diferente da especificada no plano de voo, isto foi percebido por autoridade colombiana, mas mesmo assim se permitiu sua entrada no país (e se fossem terroristas islâmicos com a missão de bombardearem o palácio presidencial?); e  
6) o piloto, que já deixara de fazer uma parada para reabastecimento no aeroporto de Bogotá a fim de evitar uma despesa adicional de aproximadamente R$ 10 mil, refugou uma eternidade antes de comunicar à torre de controle que o combustível era insuficiente, por temer a multa pesada que lhe aplicariam e a suspensão de voos da empresa para a Colômbia até o caso ser analisado por uma comissão. Foi este o provável motivo de outro avião com problemas (existirá algum que não os tenha por lá?) haver ficado com a prioridade para pouso, retardando sua aterrissagem até que sofreu a pane seca.
Não sei por que, mas tenho a ligeira suspeita de que voos pague para entrar, reze para sair (como os da MamaMia!) ocorram amiúde nestes tristes trópicos; e de que controladores de voo iguais aos da Bolívia e Colômbia existam aos montes.

Enfim, aqueles tarados por adrenalina que praticam até roleta-russa, têm agora uma nova opção para satisfazer seu vício: embarcarem num avião-esquife desses.

Se eu tivesse de escolher entre um e outra, preferiria a roleta-russa. A chance de sobrevivência é maior.
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/12/cronica-da-incompetencia-desastrosa-e.html

A "classe média" e o golpe em movimento


protesto anti-Dilma dominada pela "classe média"
Os anos do petismo no Governo produziram mitificações grosseiras sobre o comportamento político e ideológico das camadas médias. O principal dele foi tomar a “classe média” como um todo reacionário, esquecendo, por exemplo, que durante os anos 80 a maioria do que podemos classificar como classe média votava no PT e PDT – dois partidos de esquerda e com níveis variados de elementos socialistas. De um ponto de vista estatístico, ainda que com uma explicação sociológica errada, André Singer, no seu livro “Os sentidos do lulismo”, demonstrou de forma satisfatória que houve um realinhamento eleitoral e a partir de 2006, e a maioria dos segmentos médios – não todos – passou a votar na direita ou centro-direita e ter o PSDB como seu principal partido político.

Essa direitização é uma resposta ideológica às situações objetivas. Tentando resumir a ideia, por uma série de transformações nos padrões globais e nacionais de acumulação do capital e do papel das camadas médias na divisão social e técnica do trabalho, existe uma insegurança social que não garante mais como tempos atrás – mais ou menos 30 anos – a reprodução da condição de classe. As camadas médias reduzem de tamanho em todo mundo, sofrem com uma competição cada vez mais intensa para se reproduzir e seu padrão de consumo está em constante processo de encarecimento. Pegando um exemplo simples: trinta anos atrás se um filho da “classe média” se formava em direito, contabilidade ou psicologia, seu emprego, salário razoável e reprodução das condições de classe era quase garantido; hoje, essa garantia não existe mais.

Outro elemento é o fator simbólico. A abissal desigualdade social no Brasil criou um padrão de consumo e sociabilidade que forjou um verdadeiro apartheid entre a classe média e as classes trabalhadoras. Poucos eram os espaços de consumo e convivência policlassista – como praias e estádios de futebol. O aumento relativo do poder de compra dos salários, a criação de nichos de "consumo popular" nos shopping da classe média, a expansão precarizada do ensino superior, a maior “democratização” do uso de certo bens de consumo (como TV a cabo e aeroportos), políticas sociais como cotas etc. feriram o exclusivismo de classe vigente por décadas e os signos de distinção social da classe média. Junte o mal-estar objetivo com o simbólico, o resultado foi segmentos importantes da classe média encontrar o culpado da degradação de sua condição material nas cotas, no bolsa família, no negro, na feminista, nas políticas sociais etc. O reacionarismo anti-PT, condicionado e potencializado pelos monopólios de mídia, foi uma resposta ideológica ao mal-estar material e simbólico e um grito patético, mas perigoso, de sobrevivência das camadas médias ameaçadas de “proletarização”.

A ideologia, embora tenha sua objetividade própria, não consegue negar a objetividade das relações materiais de produção e reprodução da vida. A “classe média” apoiou o impedimento e é ainda base de sustentação – base cada vez mais tímida e retraída – de um governo que tem como projeto político congelar os investimentos públicos por 20 anos, privatizar as estatais (já foi anunciado um plano de demissão para o Banco do Brasil de 18 mil funcionários), sucatear brutalmente as universidades, concluir a desindustrialização do país, acabar com a precária rede de proteção social etc. As medidas de Temer vão acelerar como nunca o rebaixamento econômico da “classe média”. O fim dos concursos públicos, o ataque às universidades e a própria recessão ou crescimento medíocre nos próximos anos terão efeitos que não existe manipulação midiática que consiga esconder. Nesse momento as cotas, o bolsa-família, o negro, a feminista etc. não poderão mais ser os culpados.

Enfim, quero dizer que teremos condições objetivas que vão abrir um processo de ruptura total entre a maioria dos segmentos médios e o Governo Temer – os sinais disso já são visíveis. Esse processo de ruptura pode não ser à esquerda. A possibilidade de ser capturado por um projeto tecnocrático – do tipo antipolítica – ou reacionário estilo Bolsonaro, me parece, na atual conjuntura, maior que ser absorvido pela esquerda. De toda forma, é, sem dúvida, um movimento em processo que estará em 2018 no centro da disputa eleitoral e nos próximos anos da disputa política.

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