quarta-feira, 23 de maio de 2012

Aquecimento global está terminando, aponta estudo


De acordo com as previsões do Instituto de Física da Academia de Ciências da Rússia, o fenômeno de aquecimento global está chegando ao fim, o que resultará na queda de temperatura em todo o planeta ao longo dos próximos anos.

“O processo de esfriamento global já começou”, disseram à agência ITAR-TASS os cientistas que trabalham na Estação de Pesquisa da cidade de Dolgoprúdni, nos arredores de Moscou, citando os resultados dos estudos realizados juntamente com seus colegas do Observatório Aerológico do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos.
Depois de um pico em 2005, a temperatura média da Terra diminuiu em 0,3 graus e voltou ao nível dos anos 1996 e 1997.
Os cientistas acreditam que, até o início de 2015, a temperatura cairá mais 1,5 décimos de grau, o que corresponde ao clima do início dos anos 80.
Em 2020, os habitantes do hemisfério Norte irão se lembrar dos invernos rigorosos de 1978 e 1979 e, no início de 2040, nosso planeta começará a “congelar”, apresentando valores de temperatura abaixo dos médios registrados no período entre 1880 e 2006.
As pesquisas realizadas mostram que a causa dessas mudanças climáticas tem origem espacial e não decorre das atividades da civilização humana.

Poeira espacial

Segundo cientistas, entre 400 e 1000 toneladas de poeira espacial atingem diariamente a atmosfera terrestre, provocando a condensação de vapor d’água.
Assim, quanto mais poeira espacial cai na Terra, maior é a camada de nuvens que cobre o planeta e reflete a luz do Sol no espaço. Como resultado, o clima torna-se mais frio.
Verificou-se ainda que os períodos de aquecimento e esfriamento global coincidem com os períodos nos quais o planeta fica envolto em nuvens especialmente densas de sujeira interplanetária.
“A principal fonte de pó espacial são cometas”, diz Iúri Stojkov, do Instituto de Física. “Ao se aproximar do Sol, os cometas liberam seu ‘manto’ de pó e gás congelados, que entra na atmosfera terrestre e cai sobre a Terra”, explica.
Segundo o cientista, a quantidade de pó espacial precipitada depende das posições dos planetas. “A mudança na concentração de poeira cósmica e do clima da Terra deve, portanto, obedecer a periodicidades semelhantes às registradas nas posições do demais planetas”, disse Stojkov.
Para verificar suas hipóteses, os cientistas confrontaram as periodicidades na posição de planetas pares e as periodicidades temporais da mudança do clima global da Terra e descobriram a relação entre os valores de temperatura e o tráfego de poeira cósmica. Com base nos resultados obtidos, os cientistas puderam elaborar uma previsão de mudanças climáticas nos próximos 50 anos.

Oscilações perenes

Esse não é o primeiro trabalho a descobrir a periodicidade de mudanças do clima global e a desmentir as previsões do aquecimento global, dizem os especialistas do Instituto de Física.
Os resultados obtidos pelos cientistas russos foram inclusive confirmados pela análise das amostras de gelo extraídas de um poço perfurado na camada de gelo sobre o Lago Vostok, na Antártida.
A análise da amostra permitiu conhecer as mudanças de temperatura ao longo de 420 mil anos. Nesse espaço de tempo, a Terra sofreu pelo menos quatro grandes oscilações de temperatura com uma amplitude de 8 graus.
Ainda, os meteorologistas defendem que mesmo um grau de diferença já pode ser considerado demais quando se fala em clima global.
Aleksandr Tsiganov, ITAR-TASS 
No Gazeta Russa

O CÓDIGO FLORESTAL E A ARMADILHA TÉCNICA



A Presidente da República, segundo as informações da imprensa, deverá vetar, em parte, o novo Código Florestal, aprovado pelo Congresso Nacional. Deixando de lado as questões técnicas, que reclamam a opinião dos especialistas, a decisão se relaciona a uma das mais cruciais questões de nossa tempo: até quando poderemos sobreviver com o atual modelo de sociedade industrial, baseado no consumo exacerbado de energia e de outros recursos naturais?
Dentro de duas semanas fará 40 anos que se reuniu (de 5 a 16 de junho de 1972) , em Estocolmo, a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Homem e o Meio Ambiente. Acompanhei, para este Jornal do Brasil, os trabalhos da reunião, recordo que a principal questão continua em aberto, até os nossos dias, e é de natureza política. Alguns especialistas concluíram que era necessário interromper o crescimento industrial, a fim de preservar o ambiente natural e, assim, manter a vida na Terra.
A tese dos países industriais, retomando as conclusões do Clube de Roma, era a do crescimento zero, a partir de então. Ora, se esse projeto fosse adotado pelo mundo, os paises ricos continuariam ricos, e os paises pobres se manteriam na miséria.
A melhor intervenção – confirmada em uma entrevista coletiva a que pude assistir – foi a da Senhora Indira Gandhi, primeira-ministra da Índia. Ela disse, com lucidez e coragem, que se o mundo queria sobreviver, não seria mantendo em situação infra-humana as populações dos paises subdesenvolvidos, mas, sim, reduzindo o consumo de energia (nele incluídas as calorias dos alimentos) dos povos ricos.
Como demonstrou, com informações estatísticas, os norte-americanos consumiam, per capita, quase duzentas vezes mais do que os africanos, dezenas de vezes mais do que os indianos e tantas vezes mais do que os habitantes de regiões mais atrasadas da América Latina.
O impasse levou a Conferência de Estocolmo ao malogro, mas provocou novos debates, sobre que providências políticas poderiam ser tomadas, a fim de desatar esse nó górdio. As nações menos desenvolvidas não concordavam, e continuam não concordando, com toda a razão, em sacrificar os seus povos, privando-os do desenvolvimento e de padrões de consumo e de saúde obtidos pela tecnologia, em favor da sobrevivência privilegiada dos ricos.
Os ricos, com seu poder econômico e militar, não admitem reduzir o padrão de bem-estar, baseado no consumo exagerado de energia. Uma saída desonrada foi a do neoliberalismo, com a chamada globalização da economia. O objetivo foi o de construir uma “governança mundial”, não fundada na discussão e decisão de todos os povos, mediante as Nações Unidas, mas, sim, no poderio militar e econômico dos maiores paises do mundo, cujos governos são controlados pelas grandes corporações industriais e financeiras internacionais. Como efeito colateral do neoliberalismo e do governo mundial, bilhões de pessoas permaneceram excluídas da sociedade econômica, e centenas de milhões de outras a elas se somaram, expulsas da vida que conhecemos.
Alguns cientistas argumentam que, para estender a todos os homens os padrões de conforto e consumo dos países ricos, dentro de poucos anos serão necessários os recursos de dois planetas e meio. Sendo assim, e a menos que a ciência nos ofereça saídas inimagináveis, como usinas de montagem atômica de metais, gases e outras matérias, no volume exigido pelo aumento da população, a vida se extinguirá. Provavelmente na luta brutal pela conquista e exploração dos últimos recursos naturais da Terra, entre eles a água limpa, se algum meteoro não nos conceder rápida eutanásia universal. A outra solução está na busca de outros padrões de vida, baseados na austeridade e na solidariedade, de maneira a substituir o volume das coisas consumidas pela melhor qualidade da existência.
Já no início dos anos 40, o pensador alemão Friedrich Georg Junger, então companheiro de Marcuse e outros pensadores da Escola de Frankfurt, publicou um dos mais instigantes ensaios do século, Die Perfektion der Technik, para desmontar o mito da tecnologia. Junger demonstra que, no fundo, a técnica se baseia no movimento circular que se limita em si mesmo, apesar da aparência do avanço. A partir do relógio, instrumento tecnológico por excelência, para medir e controlar o tempo, Junger mostra que toda a produção técnica está fechada em círculos, em ciclos repetitivos (as engrenagens, os discos, os motores, as turbinas). E conclui, depois de exaustivo excurso, que a técnica não significa mais produção e, sim, mais consumo; não alivia o trabalho humano, embora possa reduzir o esforço físico, mas, sim o exacerba; não traz mais liberdade e, sim, mais submissão aos opressores capitalistas.
Conter a destruição do meio-ambiente em nosso país é necessário, daí a administração pelo Estado do avanço da agricultura sobre a cobertura florestal. Mas é preciso, da mesma forma, reduzir a histeria – com o perdão das mulheres - dos ecologistas, grande parte deles, conscientes ou não, agentes dos interesses externos. Os ricos pretendem, por outros meios, conseguir o que desejavam, no Clube de Roma, em Estocolmo e nos demais encontros internacionais (como o que ocorrerá no Rio, também dentro de alguns dias): conservar o seu bem-estar à custa de nossa renúncia ao desenvolvimento, e, ao mesmo tempo, apossar-se do que preservamos de recursos naturais – entre eles nossos minérios raros, nosso petróleo e nossa biodiversidade.
Uma coisa é certa: a ciência e a tecnologia - quando privadas de ética e da filosofia prática, isto é, daquilo a que chamamos política - não serão capazes de resolver a questão. O problema é político, e só o poder político poderá resolvê-lo.
No exercício da política, que lhe cabe, a presidente deverá conter a ânsia destruidora do projeto, dentro de sua possibilidade de ação disciplinadora. Outras medidas são esperadas, na exploração racional de nossa natureza, mas pelas nossas próprias razões – não pelo interesse dos outros.

domingo, 20 de maio de 2012

"Existem ingênuos na política?"




“O ingênuo Policarpo telefonou duzentas vezes ao contraventor Cachoeira para ver se ele era mesmo contraventor. Como não encontrou provas, arriscou dizer ao chefão que descobriu umas coisinhas nas conversas que poderiam limpar o país da gigantesca corrupção dos bandidos do PT. "Publique-se", disse o ingênuo chefão.

Por Izaías Almada

Minha primeira resposta à pergunta acima é dizer sim. Até para me defender de uma possível vontade de dizer não e com isso cair na generalização sobre a atividade exercida profissionalmente por milhares e milhares de vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, ministros, juízes e até presidentes da república.

Contudo, os últimos acontecimentos políticos no Brasil provocados pela “Operação Monte Carlo” da Polícia Federal, onde se descobriu, ao que tudo indica, o ninho de um jornalismo marginal e criminoso entre nós, parecem indicar que sim: existem políticos ingênuos. Ou melhor: políticos e não só cuja ingenuidade poderá agora ser posta à prova, tendo esses a oportunidade de comprovarem a sua boa fé ou – e isso será curiosamente revelador – se usam ou usaram os seus cargos e seus mandatos ou eventuais postos de comando em determinadas situações para cometerem – sob o disfarce das leis que os protegem – crimes contra a democracia, o povo e a constituição federal brasileira.

Tomemos aqui alguns exemplos bem recentes para comprovarmos a nossa modesta tese. O caso do procurador geral da república Roberto Gurgel que, ao receber relatório da Polícia Federal da “Operação Vegas” sobre as contravenções do empresário bicheiro Carlinhos Cachoeira e que não levou à frente o processo. Ingenuidade ou o procurador compactuou com o crime organizado?

Vendo-se confrontado com a possibilidade de ser chamado a comparecer à CPMI daVeja/Demóstenes/Cachoeira para explicar a lambança, quis dar a entender que essa possibilidade seria uma “tentativa de vingança dos que estão para responder sobre o Mensalão de 2005”. Acontece que o Mensalão de 2005, como lembra o jornalista Mino Carta, está por se provar. Mais que isso: existem indícios de que esse mesmo mensalão, que provocou uma grande CPI no Congresso Nacional, com enormes gastos para os cofres públicos, teria sido concebido no ventre de uma operação de crime jornalístico entre o bicheiro e a revista VEJA.

Demóstenes Torres e Cachoeira: também ingênuos?

O senador Demóstenes Torres, o “Catão do cerrado” (como é chamado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim), homem "íntegro e probo" até prova em contrário, está a poucas horas de depor na CPMI e ali desfazer a cachoeira de denúncias que pesam contra ele. Na sua ingenuidade, talvez, o ínclito senador Demóstenes pensou em “ajudar o Brasil a se livrar de homens corruptos”, tornando-se amigo do “empresário” Carlos Cachoeira, num claro exemplo de maquiavelismo e perspicácia política às avessas. Ou seria o contrário?

Nessa cruzada cívica, juntou-se a jornalistas experientes e também ingênuos, pois a melhor maneira de denunciar os crimes – segundo a tese desses mesmos jornalistas – é unir-se aos criminosos, nem que seja por dever de ofício. Afinal, a melhor maneira de surpreender e denunciar um crime é aliar-se ao criminoso. A tese deveria entrar no currículo das escolas como técnica de jornalismo investigativo.
Policarpo, o editor da ingênua “Veja”, e Cachoeira

A revista VEJA, "exemplo da mais cristalina ética jornalística e grande defensora dos direitos de liberdade de expressão para ela e alguns coleguinhas", escreveu numa de suas últimas capas esta pequena chamada: ‘Como Demóstenes conseguiu enganar tantos em tanto tempo?’ Quanta isenção, não caro leitor? Quanto espírito crítico... Como é que essa tribuna da liberdade de imprensa, essa luz que ilumina a escuridão no país, se deixou enganar, como todos nós, por tanto tempo? Ingênuos, talvez?...

O relator da malfadada CPI do dito mensalão, senador Osmar Serraglio, outro que deve andar com a pulga atrás da orelha, também apareceu esses dias na imprensa para defender o relatório final dos trabalhos que comandou. Claro: como explicar aos seus eleitores e ao país que Caixa 2 não é pagamento de mensalidade a deputados para votarem matérias de interesse do governo?

Como explicar que os vídeos com o funcionário dos correios recebendo propina e do funcionário Waldomiro Diniz foram manipulados para uso criminoso contra membros do governo Lula? Como admitir que fossem enganados por uma quadrilha comandada por um bicheiro e manipulados por interesses corporativos apoiados por jornalistas venais e inescrupulosos?

Ninguém gosta de admitir que foi ou é enganado, ainda mais por bandidos. São histórias que me fazem lembrar o velho e surrado golpe do bilhete premiado. A vítima, gananciosa ou ingênua, jamais se perdoará pelo papel ridículo que faz.

Nos exemplos acima citados, e em outros que poderão ser comprovados no avançar da CPMI-Demóstenes/VEJA/Cachoeira, ficamos todos com a impressão de que boa parte de nossos políticos, alguns empresários, juízes e donos dos principais meios de comunicação do país são pessoas ingênuas, crédulas nas suas próprias boas intenções e de seus pares e sócios no crime, quero dizer, no desvelo para com a Nação.

Conclusão? O ingênuo Policarpo, abençoado pelo chefão, telefonou duzentas vezes ao contraventor Cachoeira para ver se ele era mesmo contraventor. Como não encontrou provas disso, defendendo-o publicamente numa outra CPI, arriscou dizer ao chefão que descobriu umas coisinhas nas conversas que poderiam limpar o país da gigantesca corrupção dos bandidos do PT. Publique-se, disse o ingênuo chefão.
Roberto Civita, dono da Editora Abril e da Veja, ingenuamente enganado por Policarpo

Televisões ingênuas e jornais ingênuos repercutiram as conversinhas do ingênuo Policarpo com o exemplar cidadão Cachoeira e o país mergulhou num mar de lama nunca dantes visto entre nós.

Olhos atentos e nada ingênuos de homens praticantes de privatarias e outras licitações ilícitas riam-se a bandeiras despregadas, antegozando a volta ao poder. Nessa altura, centenas de milhares de ingênuos se deram as mãos no Legislativo, no Judiciário, na Imprensa, na sociedade em geral e, numa demonstração inequívoca de que somos uma nação que preza a democracia em todos os seus pormenores, julgamos e condenamos cidadãos antes que pudessem se defender.

Nada como o passar do tempo. Sempre haverá uma luz no final do túnel e com toda a certeza ela não provém da imprensa calhorda que debocha do ingênuo cidadão brasileiro, pois ingênuos somos nós, contribuintes e eleitores.

A verdadeira democracia não se compraz com a ação deletéria dos pusilânimes. Muito menos com a ação de uma imprensa que se nutre na seiva da mentira e da chantagem, de um Congresso acovardado e de um Judiciário manipulado por interesses criminosos.”


FONTE: escrito por Izaías Almada, escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, "Editora Boitempo". Arrtigo publicado no site “Carta Maior” (http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=5601) [Imagens do Google, suas legendas e aspas adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

O que é Pensamento Crítico







O termo Pensamento Crítico pode resultar sendo uma abstração e inclusive ter um caráter tautólogico, sem precisar que se entenda por tal denominação. Uma abstração que pode converter-se num mero enunciado, que se repete sem muito cuidado. Uma tautologia, porque a rigor todo pensamento justifica que tal nome deveria ser crítico com tudo o que existe e consigo mesmo. Mas como hoje entronizaram no mundo inteiro um conjunto de banalidades próprias de um pensamento único, um pensamento submisso e um pensamento abjeto, adquire sentido falar do pensamneto crítico, não somente para diferenciar-se destas formas, como também para resgatar a essência de uma reflexão que não fique na mera contemplação, aceitação ou apologia de tudo que existe. Nessa ordem de ideias e de maneira esquemática, tenta-se precisar quais seriam nossos sentimentos e entendimentos das características do pensamento crítico que se incorpora, por suposto, nos homens e mulheres de carne e osso, que são os pensadores e pensadoras críticos.
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1

É um pensamento histórico: O sistema capitalista se apresenta em si mesmo como o fim da história, o melhor dos mundos, uma realidade insubstituível sem passado nem futuro e a realização plena do presente eterno, que sempre gravita sobre o mesmo: sobre a produção mercantil e o consumo exacerbado. Nem antes, nem depois do capitalismo se concebe a existência de outras formas de organização social, porque tudo se sujeita ao ritmo demoníaco da pretendida“destruição criativa”, que promete um reino eterno, aqui na terra, de opulência e desperdício.

Para que todas essas falácias se imponham, se faz necessário cortar os vínculos dos seres humanos com a história, ou melhor dizendo, negar que nós somos seres históricos, que estamos ancorados ao mesmo tempo no passado, presente e futuro e que no passado reluzem os flashes de projetos e alternativas dos vencidos que iluminam o futuro, para que o presente não apareça como uma fatalidade que temos que aceitar e contra a qual nada podemos fazer.
Por isso, foi imposta a amnésia e o esquecimento, para que aceitemos que sempre houve e existirá o capitalismo, sem que possamos conceber outras formas de organização social e outras maneiras de nos relacionarmos entre nós e com a natureza.

Para enfrentar a pré-concepção sobre a eternidade do presente capitalista, a história deve ser um instrumento indispensável de análise e reflexão que nos ajude a recuperar outras perspectivas, que nos relembrem que o capitalismo é somente uma relação social históricamente constituída e que da história.

O conhecimento histórico nos ajuda a comprender que o presente atualmente existente é o resultado de processos complexos, onde entre muitas alternativas, se impôs, frequentemente com violência e irracionalidade, ou somente umas delas.

Em suma, o pensamento crítico se baseia na célebre proposta de Pierre Vilar de pensar históricamente, para disponibilizar, para localizar, relativizar, registrar, explicar, compreender e contextualizar todos os processos existentes, incluindo o capitalismo.


2

É um pensamento radical: Para revelar a injustiça e a desigualdade se faz necessário ir à raiz dos fenômenos, com a finalidade de explicar suas causas fundamentais. Isto é o que quer dizer o termo radical, cutucar fundo nos processos e não ficar prisioneiro no mundo das aparências. Um pensamento radical supõe esquadrinhar sem concessões os mecanismos que mantem a dominação, a exploração e a opressão, chamando as coisas por seu nome e desmontando as falácias ideológicas que se empregam para encobrir com eufemismo a dura realidade. De fato, a radicalidade do pensamento não é uma questão puramente linguistica ou retórica, posto que a mesma utilização de certos conceitos (como capitalismo, imperialismo, classes sociais, desigualdade) implica a adoção de um ponto de vista, que tem consequências práticas, na vida das pessoas que assumem esse tipo de crítica radical.


3

É um pensamento anticapitalista: Strictu sensu um pensamento radical tem que ser anticapitalista porque durante décadas nos anunciaram que o mercado perfeito tinha se tornado realidade após o desaparecimento da União Soviética e sua imposição garantia o crescimento ilimitado e a satisfação, via consumo, das necessidades de todos os habitantes do planeta. Estas mentiras se fizeram em pedacinhos pela crise capitalista que abalou e se estendeu pelo mundo em 2008, quando ficou evidente que o custo da crise é paga pelos trabalhadores, pelos pobres, como estamos vendo na União Europeia, modelo por excelência do triunfalismo capitalista, mas que hoje faz água por todos lados e que coloca o mundo diante de um perigoso dilema fascista da década de 30. Se as coisas são assim e se é palpável que o capitalismo no lugar de contribuir na solução dos problemas da humanidade, tende a agravar com sua lógica mercantil, baseada no lucro e no crescimento ilimitado, é necessário voltar a apresentar uma proposta que vá mais além do capital.


4
É um pensamento aberto: Para ser radicalmente anticapitalista é indispensável apoiar tanto nas mais diversas tradições revolucionárias como no conjunto das ciências e das artes. O pensamento crítico precisa do diálogo permanente com diversos legados emancipatórios que foram sendo construídos durante vários séculos em distintos lugares do planeta, entre os que se sobressaem o pensamento de Marx e seus seguidores mais lúcidos, o anarquismo, o ecologismo, o feminismo, o indigenismo e tudo o que ajude no propósito de reconstruir uma agenda de luta contra o capitalismo e o imperialismo. Da mesma forma como nos ensinaram os grandes pensadores de nossa América e de outros continentes, (como José Carlos Mariategui, Antonio Gramsci, George Lukacs), a reflexão crítica se enriquece num diálogo fecundo com as ciências e a técnica, um intercâmbio necessário para enfrentar a crise civilizatória para a qual nos conduziu o capitalismo e no qual estamos submersos. Porque essa crise não se compreende à margem dos impactos nefastos e contraditórios das tecnociências, o que nos obriga a ter o mínimo de conhecimento sobre elas, que nos permitam esboçar uma distância crítica com muita moderação e cuidado.


5

É um pensamento que questiona a ideia otimista do progresso: Após constatar os custos contraditórios da filosofia do progresso, com todo seu cortejo de morte e destruição, é pertinente questionar o progressismo, em todas as suas variantes, e em especial o culto à tecnociência, por todas as implicações práticas que tem.

Hoje, quando se impôs a razão instrumental e se generalizou o fetichismo da mercancia que afaga a lógica irracional de produzir para consumir num círculo vicioso cada mais destrutivo, se torna urgente problematizar os projetos progressistas que se sustentam em ganhar sobre o ser, na quantificação abstrata própria da mercancia depreciando o valor do uso, na ideia de consumir ad nauseam como subtituto do bem-viver em condições dignas.

A crítica à filosofia progressista é indispensável para abandonar as ilusões sobre as soluções técnicas como forma de resolver os problemas que gerou o capitalismo (como os transtornos climáticos ou a destruição dos ecossistemas) e voltar a priorizar as soluções sociais e políticas. Por todas as vicissitudes dos projetos fracassados anticapitalistas do século XX e da tragédia ambiental e humana que ocorre na China, já não é possível seguir rendendo cultos ao Progresso. Isto, de início, resulta uma ideia pouco popular pela imposição generalizada do consumo de artefatos tecnológicos na vida cotidiana, mas que é necessário apresentar para estudar a fundo as consequências nefastas da ampliação a alguns setores reduzidos da população do modo estadunidense de produção e consumo, frenquentemente aplaudida como a máxima expressão de progresso e que destroi a natureza e os pobres.


É preciso dizer, que isto não implica no abandono nem da ciência, nem da técnica como frenquentemente argumentam aqueles que creem que criticar o progresso é rechaçar por completo a modernidade e retroceder à época das cavernas. Ao contrário, o objetivo é resgatar o melhor da modernidade para pensar em construir outro tipo de civilização ecossocialista.


6

É um pensamento ecologista e antipatriarcal: A destruição ambiental está generalizada no planeta e a Colômbia não é a exceção, ainda mais agora com os trens de mineração e o livre comércio. O ecocídio avança de maneira incontida num ritmo expansionista capitalista pelos cinco continentes, como demonstram as cada vez mais frequentes catástrofes sociais, que resultam na destruição da natureza e da mercantilização dos bens comuns. E isto nos obriga, mediante a reflexão analítica, ao estudo dos limites ambientais do capitalismo e os perigos que isso acarreta para muitas populações, principalmente as mais pobres. Necessitamos de uma nova sensibilidade que incorpore a crítica anticapitalista que estudou a fundo a contradição capital-trabalho, uma crítica de similar importância que elucide a contradição capital-natureza, e que envolva todos os sujeitos sociais afetados por esta segunda contradição. Em consequência, o pensamento crítico requer ser profundamente ecologista numa perspectiva que seja um complemento indispensável do anticapitalismo.

Ao mesmo tempo, dadas as notáveis contribuições teóricas de diversas correntes do feminismo, em consonância com a sujeição da maior parte das mulheres, é prioritário que o pensamento crítico assuma o questionamento do patriarcado e de todos os seus componentes de opressão e de marginalização da metade do gênero humano.

7

É um pensamento nacionalista e internacionalista: O capitalismo realmente existente e seus ideólogos, entre os quais se sobressaem os neoliberais, se encarregaram de construir um falso dilema: eles se apresentam como os globalizadores por excelência, renunciam a tudo que se relaciona com o nacional, sendo próprio do atraso e da barbárie. Fizeram isto com a finalidade de justificar a entrega da soberania dos países e presentear os bens comuns que se encontram em seus territórios, tudo em nome de uma pretendida modernização global. Ao mesmo tempo, como resposta a esse universalismo abstrato, outros porta-vozes do capitalismo suscitam ferozes guerras xenófobas em vários continentes, que suscitam a xenofobia e a limpeza étnica.

Contra esse falso dilema – entre o universalismo abstrato e o chauvinismo nacionalista - o pensamento crítico deve e tem que reivindicar outro tipo de nacionalismo, junto com o internacionalimso. Não se pode renunciar o melhor da configuração nacional em nossa América, máxima nestes tempos de vergonhosa desnacionalização que impulsionou as classes dominantes nestes países, como é evidente na Colômbia. Isto não é uma reivindicação e muito menos um patriotismo tresloucado e barato, próprio da mentalidade retrógada dos latifundiários e criadores de gado de Antioquia e outras regiões deste país. Ppelo contrário, é postular um nacionalismo cosmopolita, baseado na máxima de Jose Martí:“Pátria é humanidade”. Como se diz: “que estamos assentados em nosso território” mas para compreender melhor o mundo e no relacionarmos de forma mais adequada com outros países, e não nos acreditamos melhor ou pior que os demais. Esse internacionalismo, além do mais, é urgente tanto para recuperar as melhores tradições de luta dos últimos séculos em nossa América, como para nos solidarizar e compatilhar as utopias dos oprimidos do mundo inteiro.

8

É um pensamento anticolonialista e anti-imperialista: por reivindicar o melhor do nacional e o melhor do mundo, o pensamento crítico, tem que ser anticolonialista e anti-imperialista porque hoje se reforçou o colonialismo, que foi seriamente debilitado na década de 60 com a extraordinária luta de libertação nacional iniciadas com os povos africanos e asiáticos, cuja façanha fez gravitar a história universal em torno do que se chamava Terceiro Mundo. Esta epopéia anticolonialista gerou intelectuais do pensamento universal, representados nas obras de Franz Fanón, Walter Rodney, Amílcar Cabral ou Aimé Césaire.

Como ficou evidente, o colonialismo na realidade nunca desapareceu, melhor se encobriu sob outros mantos e emergiu com toda sua força nas últimas décadas, assumindo o velho discurso eurocêntrico coma retórica da globalização. Esta nova conquista, a colonização externa, no caso a nossa América, vem acompanhada desse outro fenômeno que existe neste continente há cinco séculos, e pouco se fala do colonialismo interno, agenciado pelas classes dominantes para manter seus privilégios às custas da exclusão, discriminação e exploração de indígenas, afrodescendentes e mestiços pobres.

A nova colonização também é, como sempre foi, cultural, e agora acadêmica porque dos centros hegemônicos da cultura universárira se impõe novas modas intelectuais, que desdizem e negam o próprio da realidade de nosso continente, de seus processos de luta e de seus próprios projetos culturais, para implantar uma linguagem artificial e imposta, elaborada para congratular-se com os novos imperialistas e seus mandarins intelectuais. Em consequência, o pensamento crítico deve estar atento em beber de diversas fontes, mas sem cair nas tentações da novidade e das modas efêmeras, impostas por Nova York ou Paris.


9

É um pensamento que reinvidica aos oprimidos de todos os tempos e suas lutas: O pensamento crítico pretende revelar os mecanismos de exploração e opressão no presente, se apoiando numa visão histórica da qual emergem os sujeitos que se rebelaram contra as diversas formas de exploração em diversas épocas.
O conhecimento dos processos históricos assinala que mesmo nas piores condições, como na época da escravidão moderna, que durou quatro séculos (entre 1500 e 1890), houve protestos, sublevações e revoltas próprias do que se pode chamar a hidra da inconformidade dos plebeus.

Tal qual a hidra mitológica que renasce ainda que se destrua a cabeça, o mesmo sucedeu em diversos momentos da história do capitalismo quando apesar da tortura, perseguição e assassinato de líderes e dirigentes populares, o protesto dos subalternos reaparecem uma e outra vez.

Estudando as lutas dos vencidos, se alimenta o fogo da inconformidade no presente, porque aqueles que nos acompanham desde a posteridade, com a memória de suas ações, de acordo com postulado de Walter Benjamin:

“de não pedir aos que vem depois de nós a gratidão por nossas vitórias mas a lembrança de nossas derrotas. Esse é o consolo: o único que se dá a quem não tem esperança de receber”!

Em suma, a síndrome de Espártaco baseado no lema: “Me revolto, logo existo”, deveria sintetizar a lembrança dos que lutaram em todos os tempos, um componente indispensável do pensameno crítico.


10

É um pensamento comprometido e não meramente contemplativo: Os enormes problemas que o mundo atual enfrenta, agravadas ainda mais em nosso continente pela dependência e pela subserviência das classes dominantes, requer tanto uma reflexão séria e rigorosa como o envolvimento das pessoas comuns. Em suma, se trata de que o pensamento se incorpore em sujeitos concretos para tornar-se em praxis transformadora à luz dos problemas específicos, que enfrenta a maior parte da população.
Não estamos falando de uma instrumentalização artificial das ideias que renuncie a importância da reflexão e que deprecie o trabalho intelectual mas a necessidade de vincular, de alguma maneira, essas reflexões com os problemas reais das pessoas.

Eu gosto de reinvidicar nossa atividade como própria dos trabalhadores do pensamento, como fazia Julio Antonio Mella quando dizia:

“Intelectual é o trabalhador do pensamento. O trabalhador! Ou seja, o único homem que no entendimento de Rodó merece a vida, é aquele que empunha a pena para combater as iniquidades, como outros que empunham o arado para fecundar a terra ou a espada para libertar os povos”.

Se colocarmos a elaboração do pensamento crítico como um trabalho e não como uma refinada atividade especulativa à margem do mundo real, teremos mais oportunidade de nos vincularmos com o resto dos trabalhadores, incluindo os que com suas mãos trabalham a terra ou fabricam as coisas. Assim poderiamos declarar nossa atividade como um artesanato do pensamento, um artesanato que gera produtos intelectuais que, direta ou indiretamente, devem ter alguma utilidade para as pessoas.

Por outro lado, o pensamento crítico não abdica de seus compromissos e, por isso sabe que é perseguido e reprimido, porque pretende incorporar outro projeto de mundo e de sociedade e que resulta insuportável para os detentores do poder e da dominação em nosso tempo, aonde quer que se encontrem. O pensamento crítico fez sua, a declaração na 11ª tese do filósofo de Tréveris:

“Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, ao invés de transformá-lo”.

Desta mesma forma, o pensamento crítico por estar comprometido com os pobres e desamparados, é um pensamento alternativo, porque juntamente com eles busca elaborar propostas anticapitalistas, considerando que outro mundo é possível e necessário, se não quisermos que o capitalismo seja o fim da história no sentido literal da palavra, se desejamos que nos destrua e a nosso planeta.


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É um pensamento universitário e extra-universitário ao mesmo tempo: A universidade pública tem sido uma conquista das sociedades latino-americanas, uma conquista alcançada com muito esforço e com o sacrifício de estudantes e de professores. Durante muito tempo se desejou que a universidade fosse um espaço democrático e popular, o que efetivamente ocorreu em alguns países da região, México é o principal exemplo. Nos demais países da região , apesar dos obstáculos a universidade pública foi durante algum tempo o farol intelectual que iluminava com ideias e projetos transformadores, que incidiram para fora dos campus universitários.

Agora estamos assistindo a transformação da da Universidade Pública num mercado educativo que vende serviços e quer converter professores e estudantes em fornecedores e clientes de combos macdonalizados*. Para que se torne realidade esse propósito é indispensável erradicar dos campus todos aqueles que questionem, critiquem e duvidem, já que a universidade da ignorância requer professores, estudantes e funcionários obedientes e submissos.

Em conformidade, o mote dos mercadores da educação é erradicar o pensamento crítico do mundo universitário, sob o pretexto de que náo é útil, nem rentável. Essa é a situação que enfrentamos de maneira direta, todos nós, que fizemos da universidade pública nosso projeto de vida. É necessário, então, defender esse território democrático nos embates do capital nacional e estrangeiro, para preservar a livre exposição e discussão de ideias, projetos e propostas para construir nações e sociedades justas e igualitárias.

Sendo que o mundo universitário representa somente um âmbito reduzido da população e que grandes problemas da sociedade são assumidos pelos organizadores populares, que constroem seus próprios instrumentos analíticos, é necessário que o pensamento crítico se relacione com esses projetos e essas lutas, para que aprenda delas e se nutra dessas experiências, para que logo possa se realimentar em forma dialógica. Quer dizer, o pensamento crítico também se constroi fora dos espaços universitários, na rua, na praça pública.


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É um pensamento digno: Para terminar, devemos mencionar as implicações éticas do pensamento crítico, o qual está relacionado com os interesses que representa, com as forças sociais dos que aprendem, se nutrem e alimentam por sua vez (aos outros) e aos valores que defendem.

A respeito da dignidade e de suas características distintas.

Por dignidade entendemos muitas coisas entrelaçadas e complementares:

a independência de critério;

a liberdade de crítica;

a insubordinação; a defesa dos indefesos;

a valorização das coisas pelo que são e não por seu preço monetário;
assumir os custos e as consequências do que se diz sem fazer concessões nem traficar com os princípios morais;
não ajoelhar-se nem subordinar-se aos amos e poderosos, em troca de remunerações ou reconhecimentos formais, que buscam a rendição;

e se manter ao lado dos oprimidos sem se importar que isso implique na marginalização e na criminalização.

O pensamento digno não se vende por umas migalhas, não vacila diante das lisonjas e das bajulações interessadas dos mercantilistas do saber e da investigação, não se subordina aos ditames da figuração midiática própria da sociedade do espetáculo, não escreve nem faz dissertações sobre aquilo que proporciona dinheiro e fama, nem negocia com o saber como se fosse uma mercadoria, não se cotiza na bolsa de valores do oportunismo intelectual.

Aqueles que cultivam o pensamento crítico caminham com retidão, com a cabeça erguida, num espírito de dignidade imaculada e não como ocorre com os porta-vozes da mentalidade submissa, pela desgraça da grande maioria que como afirma o dramaturgo italiano Darío Fo

“andam eretos porque a merda lhes chega até o pescoço”.


Fonte: Blog de Atilio Bóron via twitter

*combo –abrev. do inglês combination. Sequência de comandos, combinação.


Tradução Livre
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Notas:

1 . Citado em Michael Lowy, Walter Benjamin, aviso de incêndio. Una lectura de las tesis “sobre el concepto de historia”, Fondo de Cultura Económica, Buenos Aires, 2005, pp. 135.

2 . Julio Antonio Mella, “Intelectuales y tartufos”, en Escritos revolucionarios, Siglo XXI Editores, México, 1978, p. 44.
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras fuentes.

sábado, 19 de maio de 2012

Entenda por que a mídia não quer que Policarpo se explique



Chega a ser espantoso alguém ter que dizer isto. Escrever o que vai adiante equivale a dizer que o Sol é amarelo: é imperioso que a CPMI do Cachoeira convoque o diretor da revista Veja Policarpo Júnior porque é imensa a suspeita de que ele tinha conhecimento de que o bicheiro dirigia um esquema criminoso envolvendo políticos, empresários e autoridades.
É óbvio ou não? Policarpo, Veja e seus protetores negam que o jornalista tivesse conhecimento de que sua fonte estava cometendo crimes do porte dos que vão se tornando de conhecimento público? Se for assim, nunca disseram.
Veja, seus blogueiros, sua direção e os meios de comunicação que os defendem afirmam que a relação entre Cachoeira e sua quadrilha com Policarpo nada mais era do que relação entre jornalista e sua fonte. Ok, mas alguém leu ou escutou afirmação de que esse jornalista não sabia dos crimes que suas fontes estavam cometendo?
A grande questão que se coloca, portanto, é a seguinte: um jornalista pode manter relações com criminosos, sabendo que são criminosos, a fim de obter informações sobre outros supostos criminosos? Pode esconder os crimes de uns para obter informações contra outros?
Veja deveria ter denunciado o esquema de Cachoeira. A única forma de a publicação se safar da acusação de cumplicidade será negando que sabia dos crimes. Até hoje, isso não ocorreu. Essa explicação tem que ser dada. É absurdo que queiram poupar Veja e o próprio Policarpo de darem essa resposta à sociedade.
A questão que se coloca, repito, é a seguinte: a relação entre Policarpo e Cachoeira durou pelo menos uma década. Em todo esse tempo, nem o jornalista nem a Veja jamais desconfiaram de nada? É isso? Um esquema desse tamanho, com tal ramificação, com envolvimento de uma grande empreiteira, com nomeações mil para o governo de Goiás e a revista e seu diretor “não sabiam”? E o que é pior: a despeito de Policarpo ser um jornalista investigativo?
Gravações mostram que Policarpo sabia da relação entre um senador da República e o bicheiro. O delegado da Polícia Federal Matheus Mela Rodrigues, responsável pela Operação Monte Carlo, disse à CPMI do Cachoeira, quinta-feira retrasada (10), que o jornalista sabia que Demóstenes Torres e o bicheiro tinham profunda relação.
Gravações publicadas pelo site Carta Maior mostram Cachoeira conversando com o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, e deixam claro que Policarpo sabia da ligação do contraventor com a empreiteira. Mas, segundo Cachoeira, Policarpo não iria divulgar nada. Está gravado.
Em um dos trechos, Cachoeira diz que Policarpo não “colocaria em roubada” os criminosos apesar de que ele “sabia de tudo”, ou seja, da relação de Cláudio Abreu, da Delta, com o bicheiro. Leia, abaixo, a transcrição do grampo da Polícia Federal.
— O Policarpo é o seguinte: ele não alivia nada, mas também não te põe em roubada, entendeu? Eu falei, eu sei, ó: “Inclusive vou te apresentar depois, Policarpo, o Cláudio, eu sou amigo”, eu falei que era amigo do cê de infância. E ele: “Então, ele trabalha na sua empresa”, falou assim, “vai me contar que você tem ligação com ele”. Ele [Policarpo] sabia de tudo. “Eu não vou esconder nada de você não, Policarpo, o Cláudio é meu irmão, rapaz”.
Policarpo “Sabia de tudo”, diz Cachoeira. Tudo o quê? Quem disse “tudo” foi o bandido. “Tudo” inclui atividades criminosas? Essa explicação não tem que ser dada? Como alguém pode exigir que não se peçam explicações sobre Policarpo e Veja saberem ou não de um esquema do tamanho que todos estão vendo?
É muito simples: se Policarpo sabia que seus informantes estavam corrompendo, roubando e fraudando desbragadamente, há que perguntar se Veja também sabia e por que não denunciou. Foi só para obter denúncias contra o PT? Ora, se assim for, Veja cometeu um crime associando-se ao bandido. Contribuiu para que continuasse delinqüindo.
Acobertar um esquema criminoso desse porte não se justifica pelo sigilo da fonte. Esse sigilo até pode ser usado quando o jornalista divulga informação que recebeu de um bandido, mas isso não o exime de denunciá-lo. O jornalista não tem que contar quem lhe deu aquela informação sobre outro esquema criminoso, mas isso não o impede de denunciar crimes de seu informante que nada têm que ver com a informação que ele lhe deu.
Se ficar provado que Policarpo sabia que sua “fonte” estava cometendo tantos crimes e nada disse a fim de manter a fonte informando-o, não resta dúvida alguma de que cometeu um crime, de que foi cúmplice do criminoso. E se Veja também sabia, idem. Não existe nenhum advogado, nenhum juiz, nenhum especialista em código penal que negará isso.
É uma enormidade o que a grande imprensa, em um surto de corporativismo, está propondo. A proposta é a de que jornalistas possam acobertar esquemas criminosos do porte do de Carlinhos Cachoeira a fim de obterem informações sobre outros supostos esquemas criminosos. E de que essa proteção possa se estender por anos.
Assim sendo, esquemas criminosos se perpetuarão e apenas alguns outros esquemas criminosos serão desbaratados. Ou seja: querem dar à imprensa uma licença para ela dar outra licença a bandidos para cometerem seus crimes. Estes bandidos-informantes seguiriam cometendo crimes gravíssimos sem ser incomodados.
A única saída para Policarpo e para seus empregadores é negarem conhecimento de que Cachoeira fosse um criminoso. Para isso, terão que depor e explicarem essa questão. Todavia, se fizerem isso e aparecerem gravações ou alguma outra prova do contrário, estarão perdidos. Por isso a mídia não quer que Policarpo se explique na CPMI.