sexta-feira, 19 de junho de 2020

NEM O BRASIL, NEM O SÉCULO ATUAL, COSCOS DE NAPOLEÃO BONAPARTE

TE

dalton rosado
A IDEOLOGIA EM
 XEQUE (MATE?) 
Começo por dizer que desejo, pelo bem do Brasil, a impeachment do presidente Boçalnaro, o ignaro. 

O governo do Brasil está acéfalo, preso a um comportamento ideológico ultraconservador, de natureza odiosa, com posicionamentos primários que demonstram até mesmo desconhecimento teórico doutrinário do conservadorismo tradicional... e isto num momento de crises econômica e sanitária sem precedentes! 

No momento em que inicio este texto, São Paulo bate mais um recorde de óbitos num mesmo dia. São estatísticas de mortes das piores guerras. Morre mundialmente hoje, algo próximo a uma Hiroshima e uma Nagasaki a cada mês.

Tudo está administrativamente paralisado (é o isolamento funcional de quem defende o direito à aglomeração disfuncional e genocida), daí personagens contrários à social-democracia, como Joice Hasselmann, Luiz Henrique Mandetta, Mansueto Almeida e Sergio Moro, dentre outros, já terem abandonado o barco governamental. 

Enquanto isto, o que o governo discute é como livrar-se (sem magoá-lo) do ministro ativista que extrapolou todas as medidas e se tornou indefensável: o Vem-entrave para a Deseducação. É mole?

Só fica nesse governo quem obedece à cegueira ideológica boçalnarista, e assim mesmo com o cuidado de não ser protagonista, pois a insegurança eleitoral pessoal do presidente só é menor do que o seu despreparo para o exercício do cargo num governo republicano burguês com divisão de poderes, pesos e contrapesos. 

Por mais que incense o capitalismo liberal-nacionalista (uma contradição desde o enunciado), ele não compreende que o verdadeiro poder no capitalismo é o capital, daí sua irritação por ter compreendido mal os limites de poder de um presidente.

É que ele (sem compreender claramente, mas agindo por impulso) está mais para um imperador como Napoleão do que para Robespierre, mas a realidade do tempo lhe é desfavorável. Nem o Brasil, nem o século atual, comportam genéricos toscos de Bonaparte.

A sua confusão ideológica é tão grande que ele, afora imperador, quer ser ao mesmo tempo um monarca absolutista, o que nos remete às lutas revolucionárias da metade do século 19, entre o feudalismo e a burguesia emergente;  Boçalnaro (que, aliás, é apoiado por monarquistas atuais), estaria na trincheira dos queriam conservar um passado fadado a desaparecer. 

Assim me posicionando, quero dizer que sou sabedor, como muitos outros que querem a queda do Boçalnaro, que os problemas estariam longe de serem resolvidos com esse desenlace. Mas tudo ficaria menos ruim.
Daí eu defender incondicionalmente a sua queda, mesmo que isto implique uma nova eleição (no caso de o TSE cassar a chapa vencedora em 2018 por fraude eleitoral). 

Ou seja, apesar de minha rejeição à democracia burguesa e de me alinhar sempre com os jovens que pregam o não voto!, sou, acima de tudo, solidário aos brasileiros que morrerão inutilmente se Boçalnaro continuar sabotando o combate à Covid-19. 

Quando os deputados, em sua grande maioria, foram eleitos pelo capital e coronelismo político interiorano, caracterizando-se pela avidez por negociatas com as verbas públicas, o impeachment é mais difícil de passar e também mais demorado, a menos que houvesse um levante nacional (que pode até ocorrer, por força da degradação visível da vida social). 
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O FRACASSO DAS IDEOLOGIAS COMO FORNALHAS DO ÓDIO  – desde a derrota do feudalismo, selada com a queda em 1848 do último monarca francês (Luís Filipe) e estabelecimento da República e seus princípios burgueses, o mundo conheceu governos das mais diferentes formatações e posicionamentos ideológicos (de Bonaparte a Hitler, a Barack Obama e a Donald Trump) mas idênticos no conteúdo – a condição de meros gerenciadores e perpetuadores de um modo de produção voltado para as relações mercantis (produção de mercadorias para o mercado, sendo o próprio trabalho um mercadoria).
Foi o Marx exotérico, representando o autoproclamado comunismo científico, quem escreveu  em 1848, a quatro mãos com Friedrich Engels, o Manifesto do Partido Comunista, que defendia a revolução proletária e pretendia criar um Estado proletário como etapa de transição para uma sociedade futura, comunista, sem partido, sem Estado e sem classes sociais. 

Depois, contudo, abandonou tal ideia, concluindo que cometera um equívoco teórico conceitual: graças ao seu estudo profundo da economia política, que o levou a produzir a crítica desta, deduziu que a lógica de reprodução do capital a partir do desenvolvimento tecnológico aplicado à produção faria a relação social capitalista voar pelos ares.

Não seriam portanto, os trabalhadores assalariados, produtores de valor e de capital na condição de explorados, os sujeitos da revolução vitoriosa que promoveria a extinção das classes sociais diferenciadas e antagônicas, mas a consciência social exigida e criada a partir do colapso dos próprios fundamentos capitalistas.
Os anarquistas, que na 1ª Internacional dos Trabalhadores opuseram-se aos conceitos marxistas-engelianos de propriedade estatal dos meios de produção por considerarem-na, tanto quanto o Estado, desnecessária, também não compreenderam em toda a sua extensão a negatividade destrutiva e autodestrutiva do capital, uma vez que abriam exceção para a concentração dos meios de produção em cooperativas de trabalhadores, por eles admitida. 

Bakunin e seus seguidores não intuíam que a guerra concorrencial de mercado produziria, por essa via, conglomerados de trabalhadores capitalistas poderosos, os quais derrotariam trabalhadores capitalistas menos produtivos, com o que tudo terminaria na mesma.  

As correntes comunistas e anarquistas se digladiavam na construção de organizações proletárias, e a socialdemocracia burguesa se digladiava com os capitalistas mais conservadores nas instituições do Estado republicano democrático-burguês (cujo parlamento também tinha participação dos comunistas, como até hoje ocorre). 

Todos brigavam contra todos, e ainda hoje essa luta se estabelece, cada segmento com feições mais aguerridas ou mais conciliadoras; todos tendo como base de produção social o capital estatal ou privado.

Mas até aqui, o fracasso do capitalismo, ao invés de fazer com que a roda da história direcione-se para sua superação definitiva, que somente pode ocorrer com a superação do modo de produção capitalista (União Soviética e China, de tanto continuarem usando o cachimbo capitalista, entortaram a boca), promove o retrocesso, configurado num conservadorismo odioso, capaz de negar os mais elementares ganhos civilizatórios. 

Se não, vejamos:
— por que assistimos uma advogada a dizer que é preciso estuprar e matar filhas de magistrados superiores para que as coisas mudem? 
 por que uma desequilibrada e sociopata Sara Winter ousa dizer que sabe onde os ministros do STF moram, quem são suas empregadas, etc., e que, portanto, devem tomar cuidado? 
 por que os manifestantes boçalnarianos agridem jornalistas que cumprem as suas funções de noticiar os acontecimentos (e até os fotógrafos e motoristas que os acompanham)?
 por que pessoas que até ontem conviviam fraternalmente, hoje estão de tal forma polarizadas que a divergências políticas impossibilitam qualquer convivência civilizada?
 por que profissionais da área da saúde, que reivindicam melhores condições de trabalho, são agredidos por maltas alimentadas com teorias da conspiração e ódio à ciência? 
 por que se tenta defender teses as mais absurdas, como negar a ocorrência de queimadas criminosas na Amazônia ou a existência de povos indígenas e da exclusão social dos afrodescendentes trazidos ao Brasil e às Américas como escravos (e que continuam a sê-lo, agora de forma menos chocante mas igualmente efetiva, no capitalismo)? 
Só há uma explicação para o caos estabelecido: vivemos sob a égide de formatos políticos e econômicos que estão absolutamente dissociados do conteúdo atual das relações sociais em desenvolvimento, graças ao avanço do saber tecnológico e do conhecimento humanista adquiridos pela humanidade. 

As ideologias estão em xeque; todas elas. O poder vertical está em xeque; todo eles. 

Precisamos nos reinventar, sob um novo modo de produção, como forma de exorcismo do ódio. 

Sem ódio e contra eles: Fora, Boçalnaro! (por Dalton Rosado) 

COM PRISÃO DO QUEIROZ, DERRETIMENTO DO GOVERNO SE ACELERA. BOLSONARO JÁ DEVE ESTAR SENTINDO O CHEIRO DO RALO


josias de souza
ACUADO, BOLSONARO LEVA
SEU GOVERNO PARA O BREJO
Fabrício Queiroz foi jogado no ventilador no final de 2018, quando virou notícia. 

Houve um dia em que Jair Bolsonaro poderia ter saído da crise, tomando a trilha da moralidade. Foi em 12 de dezembro daquele ano. Faltavam 19 dias para a posse. Bolsonaro disse: 
"Se algo estiver errado —seja comigo, com meu filho ou com o Queiroz— que paguemos a conta deste erro. Não podemos comungar com erro de ninguém".
Era só continuar nessa linha. Mas Bolsonaro mudou de ideia. Achou que seria possível regatear o custo da crise. A prisão de Queiroz elevou o prejuízo. 

Um presidente precisa abrir o expediente todas as manhãs oferecendo soluções. 

Há duas emergências sobre a mesa: a pandemia e a ruína econômica. Horas depois da prisão de Queiroz, o Banco Central divulgou o Índice de Atividade Econômica do país em abril: um tombo histórico de 9,7%. 
Bolsonaro não tem nada a dizer sobre os mortos da covid-19. Limita-se a lavar as mãos e questionar as estatísticas sem provas. Ainda não apresentou uma estratégia para enfrentar a tragédia econômica.

No momento, o presidente oferece ao país tuítes, lives e brigas. Acuado, entrega-se ao centrão. Bolsonaro consolida-se como parte do problema. 

O presidente conseguiu transformar um pesadelo criminal do amigo Queiroz e do primogênito Flávio num processo de corrosão da sua presidência. Habituado a operar no ataque, Bolsonaro experimenta o amargor das posições defensivas. 

Em privado, diz ser vítima de perseguição do Judiciário. 

Em público, após um dia de silêncio, dedicou os minutos iniciais de sua live semanal noturna a Queiroz. Falou pouco. Calou muito. O pouco que disse foi patético. O muito que deixou de afirmar foi revelador. 

Bolsonaro soou patético ao fazer as vezes de defensor do amigo enroscado com a lei: 
"Não sou advogado do Queiroz e não estou envolvido nesse processo. Queiroz não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele. E foi feita uma prisão espetaculosa. 
Já deve estar no Rio de Janeiro, deve estar sendo assistido por seu advogado, e que a Justiça siga o seu caminho. Mas parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra"
O presidente não fez uma mísera menção ao filho Flávio Bolsonaro. Seu silêncio é revelador. Diz muito sobre a situação em que se encontra o primogênito. 

Ele já protocolou em diferentes instâncias do Judiciário uma dezena de recursos pedindo a suspensão ou o arquivamento do inquérito sobre a rachadinha, eufemismo para desvio de verbas públicas. Não conseguiu senão potencializar a impressão de que percorre a conjuntura como um personagem indefeso. 

Para Bolsonaro, o prejuízo é mais político do que judicial. Por ora, quem está com os glúteos expostos no processo é o Zero Um. Acusam-no de chefiar organização criminosa. Responde pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. 
Mas ninguém ignora que foi o pai quem indicou Queiroz, amigo de 30 anos, para a função de operador dos recursos desviados da folha salarial do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Embora o presidente não seja investigado, há nos autos um cheque de R$ 24 mil de Queiroz para a primeira-dama Michelle Bolsonaro. 

De resto, flutua na atmosfera o risco de delação. Em junho, do ano passado, ganhou o noticiário uma troca de áudios pelo WhatsApp. Num deles, Queiroz soou ameaçador: 
"Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Vê, tal. É só porrada cara, o MP está com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente e não vem ninguém agindo". 
A mensagem surtiu efeito. Foi nessa época que Queiroz mudou-se para um imóvel do advogado Frederick Wassef, defensor de Flávio e também do presidente. Consumada a prisão, o capitão se esforça para tomar distância de Fred, como o doutor é tratado na primeira-família. 

Esforço inútil. Bolsonaro já foi gravado referindo-se a Frederick como seu advogado. O personagem tornou-se frequentador assíduo do Planalto e, sobretudo, do Alvorada. Não há borracha ou conveniência capaz de apagar um convívio assim, tão intenso. 

A prisão de Queiroz empurrou Bolsonaro para o córner num instante em que o presidente já enfrenta um cerco judicial:
— é investigado por tramar a conversão da Polícia Federal num aparato político;
 assiste ao avanço do Supremo sobre a indústria de ódio mantida pelo bolsonarismo nas redes sociais e nas ruas;
 sente o hálito quente da Justiça Eleitoral, às voltas com meia dúzia de pedidos de cassação da chapa com o vice Hamilton Mourão. 

Sabia-se que o governo estava enfraquecido e sem rumo. Descobre-se aos poucos que Bolsonaro fez uma opção preferencial pela crise. O que estimula a suspeita de que o rumo pode vir a ser o do brejo. 

Antes, discutia-se o potencial do projeto de Bolsonaro de disputar a reeleição em 2022. Agora, emerge uma indagação incômoda: será que o capitão conclui o mandato? (por Josias de Souza)
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segunda-feira, 15 de junho de 2020

CÃO QUE LADRA, NÃO MORDE: O BOZO FOI EMPAREDADO PELAS INSTITUIÇÕES, SUAS BRAVATAS E BLEFES VÊM CAINDO NO VAZIO



carlos pereira
BOLSONARO: FATO OU FAKE?
As ameaças do presidente Bolsonaro à democracia brasileira são falsas. Não críveis, como dizemos no jargão da ciência política. 

Não porque Bolsonaro seja um democrata convicto ou porque não tente, a todo momento, fragilizar as instituições democráticas do País. Bolsonaro já deu inúmeras demonstrações, mesmo antes de ser eleito, do seu pouco apreço pelos procedimentos, ritos e valores democráticos. 

Pode parecer paradoxal, mas o funcionamento pleno da democracia não requer de seus cidadãos, e nem tampouco de seus governantes, convicções ou profissões de fé, ou mesmo comportamentos consistentes com os valores democráticos. 

Não resta dúvida que melhor seria se uma parcela cada vez maior de eleitores e de atores políticos acreditasse e confiasse que seus conflitos pudessem ser resolvidos institucionalmente. 

Entretanto, a estabilidade e a qualidade da democracia não se medem por convicções, mas pelo respeito aos procedimentos e, especialmente, pela capacidade de reação das instituições democráticas e da sociedade de impor perdas diante de potenciais comportamentos desviantes de seus governantes. 

Neste quesito particular, o Brasil tem sido um exemplo entre as democracias, inclusive as mais consolidadas. 

Mas quando, afinal, populistas eleitos democraticamente são capazes de transformar suas ameaças em fato? A resposta a essa pergunta é clara: quando as instituições e a própria sociedade não apresentam capacidade de resistência e de reação à altura das ações que pretendem subvertê-las. 

O potencial de populistas, como Bolsonaro, de causar estragos duradouros à democracia está sempre presente. Mas esse potencial é diretamente relacionado a sua capacidade de, por um lado, expandir os seus poderes e, por outro, de enfraquecer os demais. 

Mas, esse potencial tem sido mitigado, pelo menos até o momento, pela atuação firme das organizações de controle e da vigilância implacável da mídia e da sociedade a qualquer irregularidade ou descaminho seguido pelo governo. 

O governo Bolsonaro, na realidade, tem amargado perdas sucessivas tanto no Legislativo como no Judiciário. A avaliação negativa de seu governo não para de subir. Seus vínculos com a sociedade têm se restringido a um núcleo duro cada vez menor de conservadores identitários. O inquérito das fake news no STF tem um potencial devastador sobre o seu governo. 

Além do mais, estamos testemunhando a ação conjunta de várias lideranças políticas de matizes ideológicas distintas em favor da democracia que não se deixam enganar pala astúcia que espreita sob as bravatas do presidente.

É a atuação das organizações de controle e da sociedade que de fato tem revelado o quanto são falsas as potenciais ameaças de Bolsonaro à democracia. 

Bolsonaro é, de fato, fake(por Carlos Pereira, colunista d'O Estado de S. Paulo cujo foco principal são as interações e conflitos entre os três Poderes e a sociedade)

sábado, 13 de junho de 2020

A ESCOLHA QUE TEMOS SOB O CAPITALISMO É DA FORMA COMO PREFERIMOS MORRER


dalton rosado
O CAPITAL É GENOCIDA
Brado libertário do povo estadunidense
O Brasil acaba de superar a marca de 40 mil mortes causadas pela Covid-19, segundo o consórcio de imprensa que se tornou a única fonte confiável de totalizações dos dados da pandemia, depois de o governo federal haver tentado toscas manipulações para menos.

A média de óbitos tem sido superior a mil por dia e as contaminações já excedem 800 mil, enquanto o total mundial está acima de 400 mil mortos e 700 milhões de infectados. 

Agora a pandemia começa a alastrar-se com mais velocidade nos países pobres e populosos, principalmente nas cidades do interior e áreas rurais. 

Enquanto isto, o mundo capitalista se vê aturdido com o déficit somado do PIB dos 20 países economicamente mais expressivos, no 1º trimestre deste ano tenebroso de 2020: queda de 3,4%, mais do que o dobro do pior momento da crise do subprime em 2009. E a tendência é de piora no 2º trimestre, quando o isolamento social se intensificou nessas nações que compõem o G-20.

Embora o quadro seja dos mais alarmantes, ao invés de a sociedade unir-se no isolamento profilático, lança-se desesperadamente à flexibilização da quarentena, pois os poderosos da economia pressionam os governantes a fazer-nos enfrentar os riscos de contaminação e falecimento, como alternativa à nossa morte por inanição. Ou seja, só nos restaria a escolha de como preferimos morrer.

Trata-se de uma lógica perversa e genocida. Não precisaria ser assim.

Essa coisa se parece muito com a questão do trânsito urbano caótico e poluente, mas que atende a muitos interesses econômicos em detrimento da comunidade. 

É claro que um transporte público eficiente e movido a energia limpa (tecnologia para tanto não falta) resolveria tanto o problema da rapidez de locomoção quanto da necessidade de reduzirmos a emissão dos poluentes causadores do efeito-estufa e, portanto, do aquecimento global. 

Mas o interesse da indústria de pneus e peças sobressalentes; de postos de gasolina e da Petrobrás; da indústria automotiva, principalmente; e dos segmentos que oscilam na órbita desses aí não permite uma abordagem racional dessa questão. 

O capital não é apenas genocida, mas irracional. E isto vale tanto para o capital financeiro quanto para o agrícola, o industrial e o de serviços.

A pandemia nos está fazendo descobrir que muitas das nossas atividades anteriores a ela podem hoje ser resolvidas com o uso de comunicação eletrônica. Esse é um ensinamento que não vai esquecido nem retrocederá substancialmente.

Tenho como hobby compor músicas. Por meio delas, posso transmitir  muitas mensagens (diretas ou subliminares) de uma forma que facilita a absorção por parte de meus públicos-alvo.  

Como estou recluso em minha casa há cerca de três meses por, como idoso, pertencer a um grupo de risco, idoso, acabei descobrindo que posso enviar de minha casa as músicas gravadas no celular e que os músicos podem gravá-las da mesma forma, com tudo sendo condensado no estúdio musical sem que ninguém precise sair à rua. Tudo mais econômico e até mais ágil.

Igualmente, os serviços advocatícios e até as audiências puderam ser realizadas eletronicamente, aí incluída a consulta de processos (os quais agora estão digitalizados, eliminando o uso de papel que deriva da celulose obtida pelo desmatamento antiecológico. Economia de tempo, madeira, gasolina e sola de sapato.

Estes são alguns dos exemplos pessoais que a crise do isolamento social nos está a ensinar. Em muitas outras atividades (incluindo-se a computação eletrônica que racionaliza procedimentos e a robotização industrial que pode produzir ininterruptamente) podemos, a partir dessas lições comportamentais, tornar mais cômoda a vida social. 

Para tanto, contudo, precisamos adaptar o modo de mediação social às exigências da realidade do saber adquirido pela humanidade. Sem isso, as coisas vão é piorar. 

É que as relações sociais sob a forma-valor (que não é algo ontológico, imprescindível, mas apenas um modo de ser social negativo e que se tornou obsoleto) nos impõem a aceitação passiva de irracionalidades comportamentais que, de tão repetidas, agora nos parecem normais. 

A crise sanitária desmascara a pretensa boa fé dos governantes e do capital industrial, do agronegócio e do comércio, que querem flexibilizar o isolamento sanitário a despeito dos números alarmantes, contrariando os mais elementares raciocínios lógicos, científicos e humanitários. 

É que eles estão presos à camisa de força da lógica de relação social em nome da qual ocupam seus cargos e que sempre foi escravista, embora inicialmente parecesse ser libertadora em face da escravidão direta, na qual os seres humanos eram propriedade ou servos de outrem.

A guerra da secessão nos Estados Unidos, que, como sabemos se deu pelo conflito separatista dos anti-abolicionistas do sul daquele país em confronto com o capital mercantil do norte industrializado no início da segunda metade do século 19, é um bom exemplo disso: na verdade, não aboliu a segregação social dos afrodescendentes, tendo apenas modificado o jeito de oprimi-los. 

Acresça-se a isto a segregação social que ali é praticada também contra indígenas e latinos fugidos da miséria nos seus países de origem, conjuminada com a crise sanitária que provocou desemprego em larga escala sem garantias sociais para os demitidos, e estarão dados os motivos pelos quais o país se levantou em uníssono exigindo justiça. 

Infelizmente, faltou um questionamento da essência da base constitutiva das relações sociais negativas estabelecidas.

A democracia burguesa, representada pela política que lhe dá sustentação, faz água por todos os lados e demonstra quão cínicos são os argumentos apresentados pelos representantes do povo como justificativas para seus atos.  

O capital exige do governo a emissão de moeda sem lastro como forma de manutenção minimamente sustentável das relações de produção e comércio de mercadorias; mas, ciente de que tal emissão é insustentável já no médio prazo, posiciona-se pela flexibilização do isolamento a qualquer custo.
Temos um parlamento cujos representantes eleitos são pelo capital e pelo coronelismo político dos currais eleitorais a que continua submetida a população dependente na periferia das cidades e nos grotões do Brasil profundo.

Vemos políticos tirarem a máscara de caráter usada nas campanhas eleitorais e justificarem o injustificável, ou seja, a prática à luz dos holofotes do mais absoluto totalitarismo governamental, em a aliança com a escória mais abjeta da representação política.  

Diante de tamanha (des)ordem institucional, fica a falsa dicotomia de que o contrário disso seria a ditadura militar, daí a conveniência de aceitarmos o ruim para evitarmos o pior. Devemos desmascarar tal camisa de força.

Ora bolas, como é que, num quadro dantesco como esse, poderemos introduzir soluções racionais de abastecimento, de modo a que seja mantido o isolamento social e evitado o morticínio de alguns milhões de seres humanos em todo o planeta? 

O capital é genocida, irracional e embota a capacidade social de pensar fora da caixa. É graças a isso que os governantes promovem a flexibilização do isolamento mesmo ao preço de vidas. 

Um dia a história haverá de reconhecê-los como criminosos, tanto quanto Hitler e Stalin, que foram por algum tempo tidos como salvadores de suas pátrias. (por Dalton Rosado)


segunda-feira, 25 de maio de 2020

O LAÇO EM TORNO DO PESCOÇO DO BOZO ESTÁ CADA DIA MAIS APERTADO: SUA AGONIA LOGO CHEGARÁ AO FIM



BOLSONARO MENTE
O registro da reunião ministerial de 22 de abril, cuja divulgação foi liberada por decisão de Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, na 6ª feira (22), traz novas evidências conclusivas sobre o que já se suspeitava: o presidente Jair Bolsonaro mente.

Depois do vídeo, a versão presidencial de que queria interferir na sua segurança pessoal, e não na superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, torna-se completamente inverossímil.

Como demonstrou reportagem da TV Globo, menos de um mês antes da reunião Bolsonaro havia promovido o responsável por sua segurança e o substituído pelo então número dois na função.

No vídeo, o presidente fala textualmente: 
"Já tentei trocar gente de segurança no Rio, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda (...) porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Se não puder trocar o chefe dele, troca o ministro. E ponto final. Não estamos para brincadeira".
Tudo o que ocorreu depois da reunião se encaixa na narrativa do ex-juiz Sergio Moro. Não há dúvidas de que o presidente trata da PF, um órgão de Estado, quando promete ir até o fim para fazer valer a sua vontade antes que a sua família seja atingida.

De resto, o encontro do ministério entra para a história dos 130 anos da República no Brasil como um dos episódios mais execráveis do exercício do poder presidencial.

Evidencia-se, nos termos chulos, nos rompantes autoritários e nas exibições de incapacidade gerencial diante de uma crise monstruosa, que Jair Bolsonaro aviltou e avilta a Presidência da República, colocada pelos constituintes de 1988 no pináculo do edifício democrático. A democracia que o elegeu é a mesma que tem sido vilipendiada por seus atos e suas falas.

Partem do próprio presidente as ofensas a governadores. O celerado à frente da pasta da Educação quer cadeia para ministros do STF, que qualifica de vagabundos.

Mandatários estaduais e municipais também serão alvo de pedidos de prisão, promete a exaltada ministra que cuida, paradoxalmente, dos Direitos Humanos.

Um elemento a mais aparece no vídeo. Bolsonaro afirma que tem acesso a um dispositivo de inteligência particular. Ora, nada no ordenamento constitucional, nem nos princípios que norteiam as sociedades democráticas, autoriza o chefe de Estado a dispor de um aparelho pessoal de bisbilhotagem.

Por tudo o que se mostrou, o procurador-geral da República, Augusto Aras, está obrigado a aprofundar a investigação acerca da conduta de um mandatário que, além de cercar-se de assessores insanos, autoritários e incapazes, pode ter cometido crimes. Que Aras se mostre à altura do cargo que ocupa.

A apuração não pode se deter, ademais, diante de ameaças abjetas como a do general Augusto Heleno, do GSI, segundo o qual uma eventual apreensão do celular presidencial teria consequências imprevisíveis

Dados a baixeza e o desvario mostrados numa reunião formal, assusta de fato imaginar o que Bolsonaro diz em privado. (editorial dominical da Folha de S. Paulo)
Toque do editor — mais um editorial da Folha tem o tom inconfundível que os jornalões adotam quando a remoção de um presidente da República já foi decidida pelos poderosos e o processo entra em suas etapas derradeiras.

Aliás, também na edição de hoje (24), o jornal publica um minucioso e didático passo-a-passo de como retirar-lhe a faixa presidencial em função dos crimes de responsabilidade por ele cometidos, de seus crimes comuns ou dos crimes eleitorais da chapa Bolsonaro-Mourão. Ou seja, já não se discute o SE, apenas o COMO e QUANDO

Dá-me um tédio imenso ver quantos internautas continuam torcendo para o lado perdedor de uma partida que, até onde eles conseguem entender o que presenciam, estaria 0x0, mas cujo verdadeiro placar é 7x1 contra o time para o qual torcem, faltando apenas uns 5 minutos para o apito final.

Por último: seria cômico, se não fosse trágico, ver o esforço desses torcedores em apresentar a divulgação do vídeo incriminador como uma vitória do Bolsonaro, quando, na verdade, foi catastrófica para ele em termos jurídicos (o diabo mora nos detalhes, e são exatamente os detalhes que mais facilmente passam despercebidos aos leigos) e causou uma impressão horrorosa nas pessoas dotadas de capacidade crítica, sofisticação e espírito solidário, tanto no Brasil quanto (mais ainda!) no exterior.

Ou seja, exultam em ver um presidente e seus ministros se comportando como fanfarrões delirantes, desmiolados e desbocados, o que fez daquela reunião "um dos episódios mais execráveis do exercício do poder presidencial" em toda a história de nossa República, como bem avalia o editorial da Folha.

O espetáculo de aberrações que se desenrola sob nossos olhos desde 2018 jamais poderá ser esquecido. Adiante, quando essa trupe grotesca tiver sido atirada na lixeira da história, certamente se atribuirá toda a culpa ao Bozo e seus celerados de estimação, assim como o nazismo foi apresentado como uma obra diabólica de Hitler e seus cúmplices imediatos.

Mas, nazista era quase todo o povo alemão antes de a guerra tomar outro rumo com a fracassada invasão da URSS. E 39% dos eleitores brasileiros foram capazes de tornar presidente da República um indivíduo que não preenchia os mais ínfimos requisitos intelectuais, equilíbrio mental, valores éticos e histórico pessoal para ser nem mesmo síndico de condomínio. (por Celso Lungaretti) 

BOZO VAI CAINDO COM LENTIDÃO EXASPERANTE, MAS NÃO SE ILUDAM: ELE JÁ É UM EX-PRESIDENTE USANDO A FAIXA

 

vinícius mota
DEVAGAR, A DEMOCRACIA
 EXTRAI O TUMOR AUTORITÁRIO
Diante da pornografia em que se converteu o exercício do poder presidencial sob Jair Bolsonaro, o que na pandemia custa vidas e empregos, dá para entender a ansiedade de quem preza a democracia e o bom governo pela solução rápida do impasse. Mas ela dificilmente virá.

Não deve vir porque uma das características das democracias é a prevalência da forma sobre a vontade.

Esse mecanismo é o mesmo que dificulta a intromissão do presidente da República nos órgãos policiais do Estado, impede a ministra rompedora dos Direitos Humanos de prender governadores e prefeitos e evita que o desmatador do Meio Ambiente vá passando a boiada por cima das regulamentações antimotosserra.

A pauta de fato da reunião de 22 de abril na sede da Presidência era imprecar contra esse sistema. Ali uma súcia de sádicos reprimidos sonhou acordada com adversários esmagados, sujos de excrementos e acometidos de dores lancinantes. O que as instituições vedam ao grupo foi por ele verbalizado no drama psicótico.
Autoritários são assim. Odeiam o que embota os seus desejos imediatos. Tomam atalhos para contornar a norma e jamais dispensam a força em benefício próprio. Que morra depressa quem tiver de morrer com o vírus para eu tocar o barco da economia. Que vão para a cadeia os juízes que me importunam. Que se evaporem o delegado que investiga minha família e o fiscal que me multou.

Democratas são feitos de outro tecido. Não admitem fulminar a cartilagem que os protege do despotismo nem quando ela também contribui, no presente, para postergar a depuração do regime das liberdades. Formam o partido da paciência cívica.

Daí vem a nota otimista destes dias. Quem cabeceia na fossa obscura dos apetites e das alucinações perdeu a perspectiva do tempo. Trava uma batalha de vida ou morte a cada minuto. Comemora não ter sido atingido pela bala de prata, mas não enxerga que afundou mais um pouco nem que a derrocada continua.

A democracia, com vagar sacramental, empurra o tumor para fora. (por Vinicius Mota)


segunda-feira, 11 de maio de 2020

BOLSONARO E O FIM DO BRASIL – 1



Entender a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder é tarefa demasiadamente complexa, daí a impossibilidade de esgotar o assunto neste enxuto texto. 

Mas, pode-se fornecer algumas linhas gerais a respeito do fenômeno Bolsonaro, mostrando que, de modo nenhum, sua ascensão terá sido um acaso histórico. 

É importante demonstrar a não casualidade do governo Bolsonaro justamente para dissipar ilusões a respeito da superação da estrutura a ele associada simplesmente com a saída do presidente do poder. Bolsonaro é expressão de algo muito mais profundo e decisivo no capitalismo brasileiro.

Um capitalismo cujo ponto de inflexão situa-se em 1964. Naquele ano, havia uma encruzilhada para o país entre aprimorar um desenvolvimento autônomo e nacionalista ou seguir um desenvolvimento subalterno e dependente das burguesias centrais. Noutras palavras, havia uma disputa entre revolução e contrarrevolução. 

A vitória das forças contrarrevolucionárias selou o destino do Brasil. A partir dali o país seguiu um modelo de desenvolvimento subalterno, excludente e predatório. A industrialização nacional foi pautada inteiramente na instalação de multinacionais via subsídio estatal. 

A burguesia nacional abdicou por completo de criar qualquer tipo de capitalismo próprio por aqui, resignando-se a ser mera sócia minoritária do capitalismo central e assumindo, em termos políticos, uma posição visceralmente reacionária.

A ditadura militar foi a imposição, a ferro e fogo, da contrarrevolução permanente. Quando ela acaba, a nova democracia surge de seu interior com limites claramente delimitados: não se pode tocar na estrutura socioeconômica herdada do antigo regime.  

Como consequência, por mais avançada que tenha sido, a carta constitucional de 1988 já nasceu como letra morta. Seu ideário social-democrata jamais poderia se concretizar face à rigidez do solo pedregoso do Brasil. 

A saída, para as novas forças democráticas, foi embarcar no que chamo de cidadanismo, sobre o que já falei em meu texto de estreia no Naufrago. O cidadanismo foi justamente a crença, triunfante entre a esquerda, de que seria possível modificar o país com medidas administrativas, sem, no entanto, tocar na estrutura socioeconômica reacionária. 

Este processo era tocado mediante um pacto:adotavam-se medidas de compensação social, enquanto o regime de super exploração social continuava e era aprofundado. 

O fracasso do modelo industrial dependente impeliu a burguesia brasileira a retomar seu extrativismo agromineral e a avançar na financeirização da economia. O Brasil passou de aspirante a fábrica do mundo a exportador primário, enviando para fora minérios, grãos e dólares. 

No lugar da indústria, portanto, surgiu um tripé exportador de recursos minerais, agrícolas e financeiros. 

A esquerda – primeiro com FHC, depois com o PT – não apenas aceitou tal situação, como também ajudou ativamente a implanta-la, avançando com privatizações, alargamento da fronteira agrícola, do extrativismo mineral e do sistema financeiro. 

Se a ditadura havia tido seu milagre, também o teve o regime da Nova República, durante o segundo governo Lula, quando o tripé acima mencionado entrou em perfeito equilíbrio. 

As exportações agromineirais bombavam, gerando divisas capazes de manter o cambio a um preço irrisório. Este barateava a importação de produtos industriais, a qual, associada à expansão do crédito por causa da financeirização, garantia uma vida melhor, com padrões de consumo aceitáveis, para milhões de pessoas. Foi o milagre lulista.

Mas, no capitalismo, todo equilíbrio é efêmero. Logo chegou a crise de 2009 e, com ela, a desvalorização das commodities, a pressão sobre o cambio e o encarecimento do crédito. O Brasil começou a entrar em parafuso e o resultado foi a derrocada do regime da Nova República com o impeachment de Dilma. 

No entanto, durante todo este período, a estrutura social e econômica herdada do golpe de 64 permaneceu não apenas inalterada, como também foi reforçada, ganhando profundidade e capilaridade. 

Tampouco as forças reacionárias ficaram sentadas assistindo a execução do pacto pela frente da Nova República. Enquanto a esquerda queimava seu capital político, tais forças trabalhavam para arruinar o texto constitucional e deixa-lo à imagem do mundo real. 

Não à toa, conforme observa Vladimir Safatle, o congresso nacional brasileiro é um parlamento permanentemente reformador: desde 1988 vem mantendo uma média ao redor de três emendas constitucionais por ano. PEC é o normal da legislatura em Brasília. 

Cada PEC reacionária aprovada era seguida por outra, sempre avançando no caminho de constitucionalizar a realidade contrarrevolucionária. Isto até chegarmos a PEC suprema, a teto de gastos, a qual simplesmente transformou o texto socialdemocrata em letra completamente morta. 

O regime da Nova República se assemelhava a uma árvore infectada por parasitas. Por fora, verde e esplendorosa; mas, por dentro, completamente oca e tomada por vermes. (por David Emanuel de Souza Coelho)
(continua)