segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A crise da socialdemocracia

Daniel Morley
Os governos de centro-esquerda e os partidos tradicionais da classe trabalhadora estão em crise em todo o mundo. O reformismo esbarrou na realidade e não é capaz de oferecer nada aos trabalhadores e à juventude nestes tempos de austeridade. Daniel Morley examina a crise da socialdemocracia e aponta o caminho para líderes como Corbyn, que lutam para defender as conquistas do passado.

Se observarmos da maneira mais ampla possível a história do capitalismo, é possível detectar épocas políticas e econômicas distintas, tais quais a ascensão no fim do século 19, a profunda crise e desintegração do imperialismo durante as duas guerras mundiais e a Grande Depressão e a nova ascensão após a II Guerra Mundial. Uma tendência que se destaca é a de que os períodos de ascensão costumam ser acompanhados por um fortalecimento do reformismo ou da socialdemocracia e os períodos de retração, pelo enfraquecimento dessas forças políticas e pela polarização. Este não é um processo linear ou mecânico e qualquer generalização deve ser extremamente condicionada e aberta a exceções. De qualquer maneira, este padrão parece ser verdadeiro.
A época atual tem diversas características particulares, mas é bastante claro que nós vivemos em tempos de profundo declínio capitalista – declínio que tem se acelerado fortemente desde 2008, mas que na verdade está presente desde meados dos anos 1970. É neste contexto que devemos entender a atual degeneração, declínio e até mesmo destruição da tradicional socialdemocracia como jamais havia sido vista em diversos países, especialmente os europeus.
A revista The Economist publicou em 2 de abril uma reportagem mostrando que na Europa os socialdemocratas estão com o nível mais baixo de apoio eleitoral dos últimos 70 anos, caindo em média para ⅓ dos percentuais de alguns anos atrás. “Nos cinco estados da União Europeia (UE) que realizaram eleições nacional ano passado, a socialdemocracia perdeu o poder na Dinamarca e teve seus piores resultados da história na Finlândia, na Polônia e na Espanha, passando por um triz de atingir a mesma marca na Grã-Bretanha”. Até mesmo a “naturalmente” socialdemocrata Suécia se metamorfoseou em um país capitalismo comum, com austeridade e privatizações.
Nos países capitalistas desenvolvidos, a trajetória de desenvolvimento do capitalismo parece estar fazendo o caminho contrário há algumas décadas. A única coisa a crescer nestas economias tem sido a desigualdade e todos sabem disso. Não é segredo que os salários da classe trabalhadora americana têm diminuído ou estagnado nos últimos anos ou até mesmo décadas. O patrimônio líquido da classe trabalhadora americana recuou 53% entre 1998 e 2013 (fonte: The Guardian, 19 de maio de 2016). Segundo o Financial Times, “milhões de americanos estão presos a bairros decadentes por causa de seus patrimônios líquidos negativos e outros problemas decorrentes. A expectativa de vida desta população diminui e sua participação no mercado de trabalho tem despencado. A quantidade de pedidos por auxílios em decorrência de invalidez está aumentando. A prescrição de medicamentos analgésicos e antidepressivos é amplamente difundida” (FT, 21 de março de 2016).
Não é de surpreender, portanto, que a revista The Economist em sua edição de 19 de março descobriu que os trabalhadores americanos sentem que “Obama é para as pessoas que não trabalham” (i.e., os super-ricos). “Surpreendentemente, os elogios ao presidente foram em sua maior parte ofuscados pela insatisfação com a situação do país... Questionado sobre sua opinião acerca de Obama, o homem repetiu várias vezes que ele era um bom homem, uma decepção, um ‘ótimo orador’... e alguém que falhou em fazer frente aos super-ricos e sua influência na política”. O artigo diz ainda que “Jeff McCurdy, um funcionário de armazém, falou de colegas lutando para sustentar suas famílias com salários de US$14 (R$46) por hora. ‘Eles não conseguem nem dar a seus filhos a alimentação saudável de que precisam... e eles ainda se admiram de as pessoas estarem com raiva’”.
A conclusão inescapável a qual estes fatos da vida contemporânea levam foi surpreendentemente apontada por este jornal arquicapitalista:
“Os homens no salão do sindicato querem uma nova abordagem ao capitalismo, uma em que os parceiros comerciais estrangeiros sejam obrigados a pagar salários dignos e respeitar normas ambientais globais... eles sentem – intensamente – que a economia está toda empilhada em suas costas e querem mais mudanças no capitalismo que os políticos tradicionais podem realizar. E agora?”
Os leitores fariam bem em ler o artigo de Kevin Williamson para a revista National Review a fim de terem um relato honesto sobre como estes “políticos tradicionais” enxergam tais homens e mulheres insatisfeitos nos salões dos sindicatos (ou “trabalhadores brancos”, como ele os chama). No artigo, Williamson afirma sem rodeios que
“A verdade é que esses grupos problemáticos de baixo nível merecem morrer. Economicamente, eles só representam dívidas. Moralmente, são indefensáveis. Esqueça toda a sua baboseira teatral à la Bruce Springsteen. Esqueça sua hipocrisia sobre cidades industriais do Cinturão da Ferrugem lutando para sobreviver e suas teorias da conspiração sobre orientais trapaceiros roubando nossos empregos. Esqueça seus malditos floreios e, se ele tiver problema com isso, esqueça Ed Burke também. A classe baixa americana é escrava de uma cultura doente e egoísta cujos principais produtos são miséria e seringas de heroína usadas. Os discursos de Donald Trump fazem eles se sentirem bem, assim como remédios tarja preta. O que eles precisam não são analgésicos, literal ou politicamente falando. Eles precisam de oportunidades de verdade, ou seja, mudança de verdade, ou seja, eles precisam de grandes empresas como a U-Haul. Se você quer viver, saia das pequenas cidades industriais como Garbutt”.
A verdade é que estes homens e mulheres sempre viram a classe trabalhadora dessa maneira; o que muda é que agora é que a massa da classe trabalhadora em todo o mundo tem consciência disso. Mais especificamente, eles têm consciência de que “seus” líderes socialdemocratas agora compartilham com entusiasmo este ódio da classe dominante pelos trabalhadores. No mínimo, os tipos como Angela Eagle, François Hollande e Sigmar Gabriel parecem mais desdenhosos dos eleitores da classe trabalhadora do que os conservadores.
A situação é a mesma na Grã-Bretanha e na Europa. Em todo o Reino Unido é possível encontrar avenidas em ruínas e as únicas lojas novas são de 99 centavos. Desde 2008, apenas 1 a cada 40 empregos criados foram de tempo integral. O emprego foi esvaziado e substituído por trabalhos de “zero-hora”. A Grã-Bretanha teve mais desindustrialização que qualquer outra nação rica, apesar de os cinturões da ferrugem e os escombros do capitalismo em decadência serem comuns em todas as sociedades capitalistas desenvolvidas. O inquérito corrente sobre a Sports Direct revelou que essa empresa de grande porte não paga sequer o salário mínimo exigido por lei, recusa aos funcionários pausas para ir ao banheiro e já viu acontecerem diversos partos em seus armazéns porque não permite folgas por doença ou maternidade. A Sports Direct representa o ataque generalizado à classe trabalhadora em todo o país e é necessário um julgamento de todos os capitalistas da Grã-Bretanha, que não são diferentes em nada do dono da Sports Direct, Mike Ashley. Da mesma forma, a falência da rede de lojas de departamento BHS ao mesmo tempo em que seus patrões enchiam os bolsos de dinheiro é um epitáfio perfeito para a classe capitalista britânica como um todo.
Crise da democracia burguesa
Na verdade, o que nós testemunhamos é o início de uma profunda crise da democracia burguesa como um todo. O tão falado sentimento antissistema está corroendo a direita tradicional da mesma maneira que corrói os socialdemocratas. Este fenômeno é tão difundido que se estende até mesmo a países de independência recente, como Índia e Filipinas, que acabou de eleger seu próprio Donald Trump. Onde é possível encontrar no mundo um partido burguês tradicional ou socialdemocrata que tenha confiança e popularidade? Até recentemente alguém poderia dizer na Alemanha, mas o CDU está perdendo credibilidade rapidamente diante do reacionário AfD à direita e o SPD está em crise há mais de uma década.
Pesquisas de opinião em todos os países capitalistas avançados têm mostrado consistentemente uma profunda (e sem precedentes) falta de confiança e até mesmo desprezo completo por políticos e pela mídia. Nos EUA, o Congresso tem uma taxa de aprovação que varia entre 15% e 18%, a menor da história. O nível de desdém é o mesmo entre eleitores democratas e republicanos. O gráfico abaixo mostra essa queda abrupta de apoio nos últimos anos:
O percentual de europeus que desaprovam todo o sistema democrático em seu país subiu significativamente, atingindo 45%.
Estes sentimentos viscerais “antissistema” estão amplamente difundidos na Grã-Bretanha e representam uma completa perda de fé na democracia burguesa. Citando um estudo detalhado realizado por Will Jennings, professor de Ciência Política na Universidade Southampton, o Financial Times afirma o seguinte:
O professor tem estudado a atitude dos britânicos em relação ao sistema político desde os anos 1940. Sua conclusão: a confiança tem se desgastado consistentemente ao longo das décadas, mas agora está num nível alarmantemente baixo.
O arquivo do Observatório de Massas do Reino Unido, que coleta diários e correspondências pessoais, mostra que as pessoas hoje em dia escrevem sobre médicos, clérigos e advogados de forma mais ou menos igual elas faziam em 1945. O mesmo não se pode dizer dos políticos, como aponta um trabalho recente co-escrito pelo Professor Jennings: “Os cidadãos hoje descrevem seu ‘ódio’ pelos políticos que fizeram eles ficarem ‘com raiva, ‘irados’, ‘injuriados’, ‘enojados’ e ‘nauseados’”.
O artigo continua dizendo que entre as palavras usadas para descrever políticos estão “arrogante”, “grosseiro”, “nojento”, “corrupto”, “desonesto”, “detestável”, “mentiroso”, “parasita”, “fanfarrão”, “vergonhoso”, “imoral”, “traiçoeiro”, “mal caráter”, “traidor”, “fraco” e “sujo”. De acordo com o Prof. Jennings, “qualquer que seja o padrão que você utilize, a falta de confiança política está crescendo – é possível perceber um mal-estar generalizado” (Fonte: Financial Times, 15.06.16).
Essa situação pode ser vista de maneira escancarada no gráfico abaixo:
Há uma sensação amplamente difundida de que “o sistema está emparelhado”, que o “sistema” por inteiro precisa de uma mudança em nível fundamental, pois sua estrutura está errada ou defeituosa a um ponto que não pode mais ser reparado.  A premissa básica de nossa tão falada democracia é a de que o povo é soberano, sendo esse o paradigma de nosso sistema educacional e da maioria dos debates públicos. No entanto, a verdade é que o sistema democrático está subordinado ao sistema econômico capitalista. Não há qualquer “soberania nacional” de verdade sob o capitalismo, na verdade são sempre os homens de negócios que exercem o domínio. Nos tempos de hoje, com a dominação maciça do mercado internacional, a ilusão de uma soberania nacional se enfraqueceu bastante. No entanto, é bastante claro que a atual crise do capitalismo é a principal responsável pelo duro golpe que essa ilusão tem sofrido.
A crise econômica e financeira sem precedentes alterou a política em todo o mundo à contragosto de todos os atores políticos, tanto conservadores quanto socialdemocratas. Todos os políticos agora devem se curvar diante do altar do equilíbrio orçamentário e da austeridade sem fim. Muito antes da crise financeira, os socialdemocratas haviam abandonado a pretensão de defender qualquer coisa diferente dos conservadores. No entanto, ela expôs sem piedade o completo vazio deles, sua incapacidade de lutar por qualquer coisa. Isso pôde ser visto de maneira mais explícita na Grécia, primeiro com o PASOK e depois de maneira ainda mais dramática com o Syriza. Mas a incapacidade da democracia de controlar o mercado também se mostrou com Hollande na França e o PSUV na Venezuela. Eleitores em toda parte sabem que se elegerem um governo reformista de esquerda, ele vai imediatamente enfrentar uma fuga de capitais e uma crise econômica e sua capitulação ao “mercado” será rápida e vergonhosa.
A crise mostrou precisamente que o sistema está aparelhado e que a democracia burguesa é uma farsa. Essa descoberta tem efeitos mais graves sobre a socialdemocracia, uma vez que são os partidos dessa linha que têm sobre si a obrigação de “provar” que através da “democracia” é possível domar o capitalismo. É a socialdemocracia que é mais fortemente revestida da ilusão da soberania popular. Estas palavras de Trotsky acerca do dilema da socialdemocracia durante a Grande Depressão são extremamente relevantes hoje em dia:
“A crise não fortaleceu o partido do “socialismo”, ao contrário, o enfraqueceu da mesma maneira que fez recuar a circulação comercial, os recursos bancários... Hoje é obrigatório olhar não nos jornais da mídia burguesa, mas na imprensa socialdemocrata as avaliações de conjuntura mais otimistas... Se a atrofia do capitalismo produz a atrofia da socialdemocracia, então a iminente morte do capitalismo denota a morte precoce da socialdemocracia. O partido que se baseia nos trabalhadores, mas serve à burguesia, no período de aguda intensificação da luta de classes, não pode senão inalar o odor que exala sua cova já aberta”.
Uma crise gestada por décadas
A verdade é que a socialdemocracia é profundamente dependente da saúde do capitalismo. Ela se aproveita das épocas de bonança, executando reformas quando as condições econômicas são favoráveis, mas se veem confusos e catatônicos a cada crise periódica do capitalismo. Incapazes de desaviar de maneira efetiva a classe dominante, tentando persuadi-la ao invés disso, a socialdemocracia nunca está pronta para seus ataques. O reformismo vai sempre fracassar em prever as inevitáveis consequências de suas tentativas de regulação do mercado, tais quais inflação e fuga de capitais, justamente porque está baseada na ilusão de que políticas inteligentes são capazes de eliminar a injustiça e a anarquia do sistema. Seus planos, portanto, sempre se chocam com as pedras da realidade.
Foram fracassos desse tipo nos anos 1970 que levaram ao ataque pioneiro do qual a socialdemocracia jamais se recuperou completamente. O governo Wilson-Callaghan de 1974-1979 foi eleito a partir de uma plataforma radical, comprometido com nacionalizações em grande escala. No entanto, o boom econômico do pós-guerra havia se esgotado completamente àquela época. Os choques do petróleo e a crise de Bretton Eoods alterou o rumo do pensamento capitalista para o monetarismo e o “neoliberalismo”, distanciando-se do Keynesianismo. Isso pegou a liderança do Partido Trabalhista no contrapé, uma vez que eles nem anteciparam nem conseguiram compreender o significado dessa mudança a longo prazo. Seu governo foi corroído por inflação galopante, fuga de capitais, quebra da libra esterlina e um resgate humilhante por parte do FMI.
Assim como o Syriza, o governo trabalhista fez um giro de 180º e engoliu a agenda de austeridade do FMI, abandonando todo o programa de esquerda para o qual foi eleito. Exemplo semelhante é a mudança em prol da austeridade que François Mitterand realizou dois anos após ter sido eleito sobre as bases de um programa de esquerda em 1981. O mesmo aconteceu na época da traição vergonhosa de Ramsay MacDonald durante a crise dos anos 1930, quando abandonou seu programa e seu partido para formar um governo de austeridade com os conservadores e os liberais.
É importante enfatizar o quão despreparados os líderes reformista estavam para estas situações, uma vez que esta falta de visão é característica do reformismo, que acredita em vão que o capitalismo pode ser domado ou racionalizado. É igualmente importante enfatizar o afastamento decisivo da classe dominante das ideias keynesianas, que eram complementares à socialdemocracia. É importante enfatizar esses dois pontos porque mostram a importância decisiva que os movimentos anárquicos e não planejados do mercado têm na mudança e na limitação do processo político dentro da sociedade capitalista. É exatamente essa característica que o reformismo não consegue compreender e aceitar.
Na verdade, a socialdemocracia, ao menos na Grã-Bretanha, está ausente do front político desde então. Ela jamais recuperou suas posições, uma vez que elas estavam baseadas na crença (hoje completamente destruída) de que os capitalistas e seu sistema eram capazes de conviver permanentemente com alta carga tributária, financiamento do déficit e um amplo estado de bem-estar social. Todos estamos acostumados com o caráter estranhamento vago, impreciso e banal dos discursos e promessas de líderes reformistas ultimamente. Em uma recente entrevista, Angela Eagle foi incapaz de dizer quais eram as bases políticas de sua oposição à liderança de Jeremy Corbyn. Ela simplesmente não tinha o que dizer, nenhum único conteúdo político. A razão disso é o fato de que ela e os da sua laia tiveram suas opiniões destruídas pela crise do sistema capitalista. Na verdade, nós sabemos qual é o seu conteúdo político, seu histórico de votações no parlamento mostra que ela é uma apoiadora da austeridade e da guerra. No entanto, ela não pode falar isso abertamente, então não diz nada.
Os socialdemocratas poderiam ter tirado uma lição dessa experiência: é impossível criar um caminho gradual rumo ao socialismo através de reformas. Eles poderiam, diante dos ataques do capital, ter mobilizado a classe trabalhadora para a luta, chamar os trabalhadores a apoiar a expropriação dos capitalistas que estão destruindo a economia etc. Mas fazer isso significaria desafiar o capitalismo de maneira revolucionária. Ao invés disso, eles ficaram em estado de choque e simplesmente cederam às exigências da austeridade. Essa imagem não construtiva tirou os trabalhistas do poder em 1979 e o resto a história está aí para contar.
Podres de tão maduras
Em 1938, o Programa de Transição escrito por Trotsky apontou que as condições para a superação do capitalismo se tornaram podres de tão maduras. Se o declínio capitalista não se traduz em revolução socialista, a sociedade burguesa apodrece.  No lugar do socialismo, nós temos o fascismo.
Os pós-modernistas gostam de falar sobre o fim das “grandes narrativas históricas”, especialmente da superação do capitalismo pelo socialismo. Eles declararam o fim do progresso e da racionalidade e se retraíram para o campo das experiências subjetivas e da interpretação. Essa é uma filosofia cínica e que não aponta a lugar nenhum, completamente inútil para qualquer coisa que não seja a justificação da manutenção do capitalismo e, claro, de sofismas intelectuais. Mas todas as filosofias influentes o são por uma razão; elas devem refletir alguma coisa que seja verdadeira.
O que o pós-modernismo reflete (mesmo que acriticamente) é exatamente esse estado podre de tão maduro da revolução socialista. O “fim das grandes narrativas” é na verdade a incapacidade da liderança proletária na época da revolução social.
Quando alguém olha para a vastidão desindustrializada da Europa e da América do Norte, para a alienação políticas das massas, para o cinismo e o esvaziamento da política tradicional, fica claro que o capitalismo atingiu uma espécie de caminho sem volta e começou a encolher. Na verdade, ele temporariamente foi além dos seus limites construindo grandes estados de bem-estar social e agora precisa devorar essas intromissões da classe trabalhadora.
Pega de surpresa pela crise dos anos 1970 e despreparados para os ataques da burguesia, os reformistas, comprometidos com a gestão do capitalismo, não tiveram outra escolha que não aceitar a supremacia do mercado. Os tatcheristas realizaram um meticuloso trabalho de ataque ao “socialismo” e a derrota da esquerda foi humilhante. Na Grã-Bretanha, uma vez que os mineiros foram derrotados, foi dado o golpe de misericórdia contra um movimento operário indefeso. A classe trabalhadora se retirou maciçamente da atividade política e os carreiristas no topo da socialdemocracia ficaram livres para executar sua capitulação incondicional ao “neoliberalismo”.
Hoje, a combinação entre o esvaziamento desses partidos e a atual crise severa do capitalismo produz a mudez vazia das políticas desses partidos. Esse vácuo surreal atingiu seu ponto máximo sob Ed Miliband, que por um lado sentiu a necessidade de posicionar o Partido Trabalhista à esquerda dos conservadores e tentou capitalizar politicamente criticando a austeridade, mas por outro aceitou inteiramente a necessidade da austeridade e no Partido Trabalhista ser visto como “economicamente responsável”. Ele foi visto (com razão) como fraco, confuso, sem princípios e a anos-luz de distância da raiva latente vivida pela classe trabalhadora.
Antes da última eleição para a liderança do Partido Trabalhista, o partido inteiro parecia estar vagando sonâmbulo em direção à morte. Havia uma constante e vã busca por uma fórmula mágica para o sucesso, mas sem qualquer ingrediente real para compor esta fórmula. Um ou outro parlamentar aparecia e falava de maneira incrivelmente vaga sobre a necessidade de encontrar uma misteriosa nova estratégia, pois eles aceitavam o fato de que era seu trabalho gerenciar o sistema capitalista em profunda crise. Esse debate era bastante barulhento, apesar de estranhamente vazio – confirmando novamente o ditado de que um vaso oco é o que faz mais barulho.
A esquerda precisa jogar a precaução na lata do lixo
A perspectiva burguesa para a socialdemocracia neste cenário político pulverizado é que ela se reduza a uma espécie de partido de nicho dentro da colcha de retalhos dos interesses políticos. Para eles, ser da classe trabalhadora é apenas uma identidade superficial, portanto os partidos socialdemocratas podem manter sua força política em regiões que possuam uma identidade explícita ligada à classe trabalhadora, como Newcastle na Inglaterra e Ruhrgebiet na Alemanha. Mesmo assim, tal lealdade poderá e será extirpada se o partido falhar em expressar os reais interesses dos trabalhadores, como mostram as posições do Partido Trabalhista na Escócia. Esse, talvez, seja o futuro da socialdemocracia se ela falhar em romper com a inércia e lutar pelos interesses (e não apenas a simples identidade cultural) da classe trabalhadora.
Há uma raiva latente na classe trabalhadora de toda a Europa e América do Norte, um sentimento de traição e extrema alienação política. Não se trata apenas de raiva pela injustiça econômica, é também uma frustração pelo sentimento de total ausência de controle sobre a política. Muitos têm notado como o apoio a Trump costuma aumentar sempre que ele faz algo que a mídia entende como uma “gafe”. Muitos provavelmente não concordam ou não consideram particularmente coerentes suas frases grosseiras, racistas e sexistas. No entanto, não está sendo percebido que as pessoas não apoiam ele pela sua coerência ou frases de feito, eles o apoiam por rasgar o chamado “livro de regras sociais”. Eles se regozijam em ver alguém que parece refletir o sentimento de que “essa política, essas regras e esses valores não significam nada para nós!”. Eles gostam do fato de Trump não se importar com os maneirismos artificiais da política tradicional, pois percebem (corretamente) que esses maneirismos só ajudam a enfeitar a ilusão.
Parte da popularidade de Trump se deve ao fato dele ter jogado a precaução na lata do lixo. Mas a esquerda parece ainda estar se desculpando com a classe dominante, com medo de sua própria sombra. Antes da atual crise e da eleição para líder do Partido Trabalhista, até mesmo Corbyn e McDonnel pareciam excessivamente cuidadosos, com medo de liberar a fúria até então contida de seus apoiadores. McDonnell fazia questão de enfatizar a sua “responsabilidade” econômica e “disciplina orçamentária ferrenha”. Em muitos países, a socialdemocracia ainda parece assustada com suas derrotas, acreditando na propaganda da direita. Ela ainda tem medo de se libertar de seus grilhões porque sabe que precisará administrar um sistema capitalista decrépito e não pode criar expectativas altas demais. No entanto, isso é fatal, pois ela só poderá ressuscitar se refletir a raiva e a determinação das massas em movimento. Dessa forma, a crise da socialdemocracia reflete a crise do sistema capitalista.
A verdade é que a sociedade se voltou para a esquerda desde 2008. Há uma radicalização e um desejo de expressar a raiva que se formou a partir das injustiças das últimas três décadas, de se acertar as contas com o “sistema”. Consequência disso foi o número de votos sem precedente a favor do Brexit, que acelerou de maneira dramática todos esses processos. A raiva está começando a encontrar uma forma de expressão: fora da socialdemocracia tradicional em alguns países (por exemplo, Espanha e Grécia) e na Grã-Bretanha através de uma mudança sem precedentes no Partido Trabalhista.
A imensa lacuna entre a raiva e os interesses negligenciados da classe trabalhadora e a situação política finalmente começou a se estreitar. Por anos nós ouvimos dos pós-modernistas que partidos políticos de massa eram coisa do passado, que todos agora são interessados somente em temas individuais e são essencialmente indivíduos de classe média. No entanto, os acontecimentos mudaram tudo. O Partido Trabalhista agora é o maior da Europa, com quase 60 mil membros. Todas as perspectivas e teorias sobre sociedade e política que eram dominantes até agora estão sendo postas à prova. Uma gigantesca luta de classes está se abrindo no Partido Trabalhista. Na verdade, o abismo entre a classe trabalhadora e os membros do partido de um lado e os parlamentares do outro está maior do que nunca. Mas agora essa raiva e essa consciência de classe não são mais passivas, elas têm um canal e estão crescendo em confiança e ousadia a cada embate nessa luta. O gênio saiu da lâmpada e nada pode colocá-lo de volta.
Nós estamos testemunhando no Partido Trabalhista o doloroso renascimento do movimento socialista e da política de classe. A socialdemocracia e a colaboração de classes estão em seus estertores de morte. Corbyn e seu movimento não são o fim do processo, mas apenas o início catártico. Ele próprio se mantém reformista, mas se pode duvidar: nós estamos vivendo a morte da socialdemocracia como nós a conhecemos.
A radicalização política que nós estamos testemunhando é um processo confuso. É quase como se o movimento estivesse começando tudo de novo. Nós veremos uma onda de radicalização após a outra se manifestando em um país após o outro. Em alguns deles a socialdemocracia existente será abalada e transformada, como estamos vendo acontecer no Partido Trabalhista britânico. Em outros, novas formulações surgirão, como no caso do Podemos da Espanha.
Em ambos os casos o fenômeno será bastante instável e provavelmente terá vida curta, pois até que rompam com o capitalismo eles sempre serão subjugados pela crise capitalista e forçados a abandonar seu programa de esquerda, como no caso do Syriza. Existe e continuará existindo uma miscelânea de partidos de esquerda (e de direita) ao redor do mundo. Em meio aos chiados e à confusão do processo, uma nota se destaca claramente: “o povo demanda a queda do regime!”.
O regime, que é o capitalismo, se exauriu e o reformismo não tem qualquer espaço para realizar suas reformas. Fundamentalmente, é esse o motivo da crise na socialdemocracia. Ela só poderá se livrar do odor pútrido da traição se “jogar a precaução na lata do lixo”. Ela precisa abandonar as tentativas de gerenciar o capitalismo (uma missão fadada ao fracasso) e abraçar de maneira corajosa a luta por uma alternativa socialista ao capitalismo. Discurso combativo e alternativas claras são o que a classe trabalhadora precisa e almeja.

Artigo publicado originalmente em 14 de setembro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título "The crisis of social democracy".
Tradução Felipe Libório.

História das elites brasileiras



                                 E tudo começou a partir desta carta de Pêro Vaz de Caminha

 “E, pois que, Senhor, é certo que assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de S. Tomé Jorge d’Osório meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Pêro Vaz de Caminha”

 E assim começa a história das elites brasileiras.

Troca de favores.

O que se lê no último parágrafo da carta de Caminha ao rei dom Manuel  é para que ele libertasse do cárcere o seu genro, Jorge d’Osório casado com sua filha Isabel, preso por assalto e agressão.




                              Pero Vaz de Caminha, patrono das elites

( Esperto ele. Deixou o pedido por ultimo para que o rei não alegasse esquecimento.)

São as famosas elites que sempre mamaram nas tetas do governo.

Talvez isso explique sua aversão ao povo e ao novo.

Passados 500 anos, continuam norteando essas mesmas elites que, ao invés de dividir o mel, preferem comer merda sozinhas...
http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br/2016/10/historia-das-elites-brasileiras.html

AOS COMPANHEIROS DA NOVA ESQUERDA

O momento que vivemos no Brasil e no mundo representa uma daquelas situações históricas em que um modelo social se exauriu e fermenta soluções transformadoras. 


A realidade social e ecológica mundial nos impõe a urgente superação do capitalismo. Mas não basta querermos tal superação e colocarmos a própria vida a serviço de um projeto de transformação que não elimine as causas originais do atual infortúnio social de bilhões de pessoas no planeta. É preciso questionarmos e superarmos todas as categorias capitalistas, para podermos então construir a revolução da emancipação humana. 

Qualquer movimento que se disponha a conviver com as categorias capitalistas sem questioná-las é postura infrutífera e destinada ao fracasso, pois nem o próprio capitalismo já o consegue fazer.

É necessário que diuturnamente rejeitemos categorias capitalistas como trabalho abstrato,valor, mercadorias, mercado, capital, propriedade, estado, política, partidos políticos, democracia e o próprio capital, ainda que sejamos diariamente obrigados a reproduzi-las como forma de sobrevivência, muitas vezes até contribuindo, a contragosto, para os seus fortalecimentos, mas de modo a que essas últimas ações nunca representem bandeiras nossas.

Contestar com nossas ações e movimentos as categorias capitalistas, ao mesmo tempo em que com elas somos obrigados a conviver, certamente é uma das tarefas mais difíceis e revolucionárias a serem executadas, e para isto é necessário conhecer profundamente a essência dos seus mecanismos de mediação e controle de modo a que, involuntariamente, não venhamos a reproduzir aquilo que julgamos combater. 

A esquerda marxista mais devotada e sincera à causa revolucionária sucumbiu exatamente por não ter compreendido o próprio Karl Marx, e disto se aproveitaram muitos dos seus dirigentes por comodidade ou apego ao poder. 

Neste sentido é que considero imperativa a crítica aos conceitos e modos que formatam os postulados iniciais de criação dessa frente de luta que tenta juntar, no mesmo espaço, concepções absolutamente diferentes e divergentes nas ações de superação do capitalismo que já no curto prazo evidenciar-se-ão como insuperáveis. 

Ademais, postulações voluntariosas incorretas já demonstraram historicamente que estão fadadas ao fracasso, e nós não podemos mais drenar energia em esforços infrutíferos. A emancipação da humanidade é ao mesmo tempo uma tarefa urgente e paciente e essa paciência não significa acomodamento, mas, ao contrário exige esforços bem direcionados por consciência superior sobre o que fazer.
SOBRE A QUESTÃO DA PRODUÇÃO E DA
ORGANIZAÇÃO SOCIAL QUE SE PRETENDE ADOTAR

Tanto as sociedades antigas como as atuais têm na forma de produção e apropriação dos bens e serviços indispensáveis à vida a sua definição de propriedade e de organização social. Cada vez que se modificam as formas e conteúdo dessa produção alteram-se as formas de propriedade e de organização social. 

A ebulição do momento que vivemos decorre do fato de que as forças de produção evoluíram de tal forma com o domínio de ciência tecnológica aplicada à produção que o móvel da mediação social – dinheiro e mercadorias – produzidos a partir do trabalho abstrato perdeu a sua funcionalidade (e, como consequência, o capital perde substância). 

Diante disto, é de se perguntar como a Nova Esquerda se posiciona diante da questão do desemprego estrutural? Propõe a abolição do trabalho abstrato ou reivindica mais trabalho abstrato? 

Abolindo o trabalho abstrato, como propõe que se processe a produção? 

Não abolindo o trabalho abstrato, mantém os fundamentos capitalistas? 

Qualquer resposta a esta indagação implica uma alteração profunda do encaminhamento da revolução, se quisermos chamar de revolução a tarefa de emancipação social.
   
SOBRE A QUESTÃO DA CIDADANIA, DO ESTADO E SUAS 
INSTITUIÇÕES, DA POLÍTICA E SEUS PARTIDOS, 
DA DEMOCRACIA E OUTROS CONCEITOS.

A política, os partidos políticos a ela inerentes e a democracia são categorias capitalistas no espectro do arcabouço institucional de acesso ao Estado moderno, sua invenção dependente. Assim, qualquer movimento que se proponha verdadeiramente revolucionário, no sentido da superação completa do capitalismo, terá de negar tais categorias. E é aí que mora o problema: como comportar na frente ampla de esquerda tais categorias, ao invés de negá-las? 

Uma sociedade emancipada não pode existir a partir de tais postulados e categorias, ainda que se admitam as suas existências transitoriamente, pois o uso do cachimbo entorta a boca. A história do fim justificando os meios, tão comum à trajetória da esquerda, não pode se coadunar como uma concepção de luta que se proponha como nova.  

Não é possível concebermos “democracia como valor universal”, posto que a organização popular no sentido do provimento das suas necessidades de existências materiais e sentimentais não se confunde com o conceito moderno de democracia; e menos ainda com o conceito semântico grego de democracia, nascido justamente no momento (2.700 a.C.) em que se entronizou o dinheiro como mediação social e se criaram as cidades-estado como forma política (a palavra política deriva da polis grega). 

A cidadania é um conceito que transforma o indivíduo social em uma peça da estrutura do Estado capitalista, seu opressor, que por ele, cidadão, é sustentado. Assim, o conceito de revolução cidadã, que a Nova Esquerda tomou emprestado do presidente equatoriano Rafael Correa, é semantica e revolucionariamente equivocado. 

Reivindicação como “patriótico”, contida nos seus documentos, inclui implicitamente a ideia do nacionalismo militar xenófobo capitalista, da mesma forma que o combate ao sionismo e ao anti-sionismo são conceitos que derivam de uma mesma absurda concepção para quem se propõe ao contraponto às bandeiras equivocadas da direita e da esquerda tradicional.   

A plataforma de luta da Nova Esquerda é reformista e, portanto, anti-revolucionária. Proposições como: 
– reforma política (que admite implicitamente a existência da política);  
– reforma institucional, orgânica e administrativa nos três poderes (que admite a existência dos poderes do estado); 
– reforma agrária no campo (bandeira capitalista por excelência, pois admite implicitamente a propriedade da terra);  
– reforma sindical (que, admitindo sindicatos e trabalhadores, como consequência avaliza o trabalho abstrato, fonte original do capitalismo);  
– criação do fundo popular dos movimentos sociais (que implica a conservação e existência de reservas em dinheiro, principal categoria capitalista);  
– redivisão territorial do país (que implica a existência de estados-membros e do próprio Estado);  
– redução de 50% do número de parlamentares (que implica a conservação do parlamento e da existência dos parlamentares e políticos);  
– intensificação das relações políticas e comerciais com a América latina e seus organismos (que admite, implicitamente, o comércio internacional e a produção de mercadorias).  
Francamente, com tais postulados reformistas e ingênuos, a nova esquerda, que se reivindica revolucionária, constituir-se-á como uma heterogeneidade de pensamentos e postulações atrasadas que muito cedo se evidenciarão como inconciliáveis e irremediavelmente destinadas ao fracasso.

A nova esquerda, antes mesmo de nascer, já é velha, ou natimorta. 

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/10/aos-companheiros-da-nova-esquerda.html

Por um mundo sem fronteiras



  




Definitivamente é preciso acabar com as fronteiras geográficas. Elas, e somente elas, resistem a separar a humanidade.

O fim das fronteiras é o início da evolução humana.

Nada, absolutamente nada, justifica a existência desses currais. Não fossem as fronteiras e não haveria a invasão de nações.

Fronteiras são a confirmação da segregação, do preconceito e da incompreensão.

Fronteiras remetem ao medo do outro.

Alguém conhece algo mais contagioso do que o medo?

Fronteiras interessam apenas à indústria bélica, que faz do sangue humano o seu combustível.

Fronteiras servem apenas para as guerras.

E quem é a principal vítima das guerras? Generais? Banqueiros? Empresários? Nenhum deles.

Guerras servem para acabar com o “excedente humano”, os excluídos, os trabalhadores e todos aqueles que vivem de sua força de trabalho.

Este maltratado planeta é muito pequeno para ser dividido em fronteiras.

Está tudo errado, a começar pela educação. É nos bancos escolares que começamos a “amar” nosso país.

E o que representa esse “amor” senão o “ódio” contra o vizinho? Subliminar, é verdade, mas implantado desde a mais tenra idade e lapidado com o passar dos anos.

Não podemos esquecer que o ser humano é o ponto de partida e de chegada.

O ser humano é criador, não pode ser produto e vítima da própria cultura.

Viver neste planeta é viver num eterno círculo. Alguém pode imaginar um círculo com fronteiras?

Somos escravos de nossos hábitos.

Até quando?

Ou aprendemos a conviver ou o Universo não derramará uma lágrima pelo nosso fim.

Georges Bourdoukan, está com seus livros digitais a venda.
Capitão Mouro, O Peregrino, Apocalipse e Vozes do Deserto, podem ser comprados em pdf ou epub no site

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Exclusivo: 77% não sabem o que a PEC 241 vai causar ao país


pesquisa

“Dormia

A nossa pátria mãe tão distraída

Sem perceber que era subtraída

Em tenebrosas transações”

                        Chico Buarque – Vai Passar

O Blog teve acesso a pesquisa de opinião feita para consumo interno de um grupo político suprapartidário que começou a se reunir após o golpe e que não quer ser identificado. As informações foram passadas a este Blog sob o compromisso de anonimato da fonte.
A sondagem foi feita por telefone com 896 pessoas de classes sociais, idades, regiões, gêneros e etnias baseados no retrato da população brasileira feito pelo IBGE – vale dizer que na era do celular pré-pago barato qualquer classe social tem telefone.
O tema pesquisado: a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241.
Os resultados dessa pesquisa certamente vão ser confirmados por outras que serão feitas proximamente. E são surpreendentes. A esmagadora maioria dos brasileiros está completamente alheia ao que está acontecendo no país após a derrubada de Dilma Rousseff.
Antes de divulgar a sondagem, porém, vamos rever alguns efeitos óbvios e inquestionáveis da provável aprovação da mudança na Constituição proposta pelo governo Temer e pelo PSDB.
A Constituição de 1988 implantou no Brasil a seguridade social, com ações relativas a saúde, previdência e assistência social”. Passaram-se 28 anos e a PEC 241 está para desfigurar completamente a Carta Magna ao congelar os gastos públicos por 20 anos, tanto em infraestrutura quanto na área social.
Saúde, educação, assistência social, ciência e tecnologia, esporte, habitação, saneamento, segurança, cultura, agricultura, indústria, meio ambiente, turismo, Polícia Federal, Judiciário, Ministério Público, aumento real do salário mínimo e programas como Bolsa Família, Minha casa Minha vida, Luz para Todos, Mais Médicos, etc. serão inviabilizados.
Esse regime fiscal destruirá o modelo de cidadania inscrito na Constituição de 1988. E apesar de a Procuradoria Geral da República e o STJ se manifestarem contra a proposta por ir de encontro a cláusulas pétreas da Constituição, um Congresso que cassou um presidente sem crime de responsabilidade não vai se importar de mudar a Constituição ilegalmente.
Estudo da consultoria do Senado, projetando o impacto dessa PEC em saúde e educação de 2015 até 2018, revela números estarrecedores: uma redução de R$ 255,5 bilhões na educação e de R$ 168,2 bilhões na saúde. E para piorar a situação, as despesas desses setores perderiam seus critérios de proteção com a inversão da lógica constitucional, ou seja, onde há obrigação de gastos mínimos haveria um teto.
Este Blog acreditava que Temer começaria a esvaziar seu saco de maldades no ano que vem, mas, pelo visto, o país começará a sofrer imediatamente os efeitos de entregar seu governo a um grupo de políticos vassalos de banqueiros e megaempresários.
É nesse ponto que abordaremos os resultados de uma sondagem da opinião pública que é ao mesmo tempo preocupante e alentadora – preocupante porque demonstra o nível bizarro de alheamento da população e alentadora porque a ignorância do povo quanto aos efeitos da PEC 241 significa que quando as pessoas descobrirem para que foi dado o golpe irão mudar radicalmente de opinião política.
77% afirmaram desconhecer o teor da PEC 241
83% não sabiam que a PEC vai congelar o valor real do salário mínimo por 20 anos e deve, inclusive, reduzir esse valor.
88% não sabem que Saúde e Educação vão ter valor real dos investimentos congelados por 20 anos
46% nunca tinham sequer ouvido falar da PEC 241
88% dos consultados é contra o congelamento do valor real do salário mínimo e das verbas de Saúde e Educação, entre outras.
Diante desses dados, existe, aí, uma imensa avenida para quem quer fazer oposição ao governo do PMDB e do PSDB. A grande batalha é fazer essas informações chegarem à população brasileira.
Contudo, independentemente do tempo que vai demorar para a maioria ficar sabendo do que vem por aí, será praticamente impossível o povo brasileiro não notar a piora que terão hospitais e escolas públicas, além de tudo mais listado acima.
A mídia ajudou muito os golpistas a aplicarem no povo brasileiro um castigo que irá perdurar por décadas e que flagelará uma geração inteira de brasileiros. Ao não explicar o que essa mudança na Constituição significa, esses órgãos ditos de imprensa cometeram um crime de lesa-humanidade.
Se você quer travar essa batalha para informar os brasileiros sobre o que os golpistas estão fazendo, comece enviando esta matéria para todos os que você conhece e também imprimindo-a e levando-a para discussão no trabalho, com familiares, amigos etc.
Só você pode combater a censura que a ditadura temerária-tucano-midiática impôs ao país. Está nas suas mãos fazer alguma coisa.
Não se omita. Você também será vítima desse desastre. Nem que seja em algum semáforo no qual alguma criança vítima da exclusão promovida pelos golpistas e carregando algum tipo de arma cometerá um ato tresloucado de justiça contra um colaborador da ditadura.
do: http://www.blogdacidadania.com.br/2016/10/exclusivo-77-nao-sabem-o-que-a-pec-241-vai-causar-ao-pais/

O CAVALO E O CASCALHO






Encerrada a ressaca das eleições municipais deste ano, o ambiente político brasileiro continua recomendando cautela aos observadores, que tendem a agir com o cuidado de equinos que, em dia de neblina, tateiam, com a ponta dos cascos, os limites da pirambeira da trilha de cascalho em que se encontram.

A vitória do PSDB, cujo maior símbolo foi a eleição, em primeiro turno, na cidade de São Paulo, do Sr. João Dória Júnior, com menos votos que os nulos, brancos, e as abstenções, foi também o triunfo da antipolítica e da terra arrasada, como consequência da criminalização da atividade pública, que espantou os eleitores e tolheu a sua presença nas urnas eleitorais e o seu apoio a este ou àquele nome.

Há que se frisar o importante papel exercido por certa mídia, a mais parcial e venal, nesse processo, que não escondeu, em frente às câmeras, e nas capas das revistas semanais, sua lúbrica, babosa, satisfação com o resultado, e com a coroação de um bem sucedido trabalho de anos de cínica manipulação da opinião pública.

Ou as ações daqueles que, plantados em algumas áreas da justiça, se julgam acima do voto e parecem pretender tutelar o país pressionando, com êxito cada vez maior, o STF, e interferindo direta e indiretamente nos rumos do Executivo e do Congresso Nacional, com óbvia influência na decisão do eleitorado menos esclarecido.

Provisório, se não descartável, para muitos daqueles que saíram vitoriosos das urnas, o PMDB - que deu origem aos tucanos - e que já foi, em parte, no passado, baluarte da redemocratização e do nacionalismo no Brasil - pode ser defenestrado do Palácio do Planalto a qualquer momento se não fizer direitinho o dever de casa determinado pelo discurso e a agenda entreguista e conservadora.

O desmonte e esquartejamento da Petrobras, a entrega do pré-sal e o fim do estado brasileiro, por meio da aprovação do teto de despesas do governo, excrescência que só existirá no Brasil, já que não há país desenvolvido que não tenha crescido por meio do endividamento, abrem caminho para uma nova fase da vida nacional, cujo maior símbolo é a volta das missões do FMI a um país que é credor da instituição e que, com 370 bilhões de dólares em reservas internacionais, ocupa o posto de quarto maior detentor de títulos do tesouro norte-americano.

A decepção da população brasileira com o PT, favorecida pelos erros do partido e por mega-factoides como o do Mensalão, que, apesar de manter o país em suspense por dois anos, envolveu menos de 70 milhões de reais, e o do suposto "Petrolão", que não conseguiria passar, sem os bloqueios e multas punitivas bilionárias por "danos morais" e sem a transmutação retroativa de doações normais de campanha em propina, de algumas dezenas de milhões de dólares (o mais é fruto de ilações nascidas de delações forçadas, arrancadas de indivíduos detidos indefinidamente como o ex-ministro Antônio Palocci está agora, sob permanente "custódia" da República de Curitiba) deu origem a um crescente número de votos nulos e de cidadãos que não compareceram às urnas, que retira boa parte da representatividade dos eleitos, e que não pode ser nada bom para a jovem - e periclitante - democracia brasileira.

Contra o retrocesso político e o econômico, a única saída no horizonte é a negociação e o bom senso.

A esquerda não pode colocar apenas no PMDB., ou no PSDB, a conta de um golpe anunciado, que todo mundo sabia que iria ocorrer, desde, que, pelo menos, inaugurando uma série de episódios mais que sintomáticos, sutis como Dinossauros, Dilma foi insultada em pleno estádio, de forma estúpida e chula, na abertura da Copa do Mundo de 2014.

Sejamos francos e diretos, porque a História é dura e crua e não admite complacência ou meio termos.

Independente de suas eventuais conquistas, o PT - e não estamos nos referindo à sua militância - foi fraco, dividido, arrogante, medroso, incompetente, equivocado e omisso na resposta e nas reações à articulação estabelecida para derrubá-lo.

Agora, seria recomendável que assumisse sua quota da responsabilidade - que não pertence apenas a seus adversários - pelo retrocesso estratégico e histórico que o país está vivendo, e que fizesse uma urgente e pragmática autocrítica, diante do que está acontecendo com a Nação, antes que o desastre - para mal da diversidade democrática do espectro político nacional - se repita, em maior proporção do que ocorreu, agora, com a legenda, nas próximas eleições.

Não adianta querer agir intempestiva e desarticuladamente, para colocar tramela na porta depois que a casa foi quase que definitivamente arrombada.

É hora de determinar e unificar estratégias - viáveis - e recolher os cavalos de batalha, ou melhor, de tirar o cavalinho da chuva e parar para pensar no futuro e no que se vai fazer com ele.

Da mesma forma que o eventual isolamento do PSDB em uma situação de força, quando lhe caberia liderar, neste momento, se não estivesse dividido e contaminado, no caso da maioria de suas lideranças, por uma deslocada visão de mundo, a reação da política em torno da defesa das instituições; o crescente isolamento - também em boa parte dos casos estéril - de alguns segmentos mais indignados e desesperançosos da esquerda, e principalmente da esquerda nacionalista, embora compreensível, não favorece em nada a liberdade e a democracia.

Ele apenas - principalmente se o PSDB caminhar ainda mais para a direita - pavimentará, como já se viu pela relação dos vereadores eleitos para a cidade do Rio de Janeiro nestas eleições, o caminho para a ascensão do fascismo em 2018.

E só pode beneficiar os inimigos do Brasil e de sua soberania, que se deleitam, lá fora, enquanto fincam o pé, aqui dentro, aproveitando o avanço do esquartejamento e da liquidação do país, com um célere e desastroso retorno a uma situação de colônia - que nos afastará da negociação - em que nos colocou a condição de uma das dez maiores economias do planeta - dos destinos do mundo neste vigésimo-primeiro século, ainda tão jovem quanto desafiante.
http://www.maurosantayana.com/2016/10/o-cavalo-e-o-cascalho.html